quinta-feira, julho 21, 2016

Alice Munro - O amor de uma boa mulher

Alice Munro - O amor de uma boa mulher - Editora Companhia das Letras - 376 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento no Brasil em 20/05/2013 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

O que eu mais gosto em Alice Munro, Nobel de Literatura 2013, é o respeito à inteligência do leitor. Ela valoriza a experiência de interpretações múltiplas de seus contos, desafiando a tarefa de elaborar uma resenha objetiva e completa, pois parece nunca repetir uma estrutura narrativa, seja através de inversões na passagem do tempo, uso de diferentes vozes ou simplesmente com inesperadas mudanças na condução da trama, os seus contos surpreendem e alcançam regiões de nossa sensibilidade com efeitos que mesmo os longos romances não conseguem obter. No entanto, precisamos pagar o preço que o entendimento de sua obra exige, ou seja, uma leitura atenta e dedicada, não só na arquitetura dos seus textos, mas também na sutileza da construção psicológica de cada personagem, sob o risco de perdermos o brilhantismo da ficção, ou o pecado de escrever uma resenha com jeito de divulgação promocional.

De forma contraditória, toda a complexidade de seus contos é normalmente derivada de protagonistas provenientes da população supostamente mais simples de pequenas cidades no interior do Canadá, distantes portanto das crises existenciais típicas de habitantes neuróticos dos grandes centros urbanos, além de reproduzirem épocas que já se tornaram remotas como a fase ingênua da recessão após a Segunda Grande Guerra nos anos cinquenta. Logo, uma realidade distante e possivelmente pouco atrativa para a nossa era contemporânea da internet, nada mais falso. A ficção de Munro alcança as camadas mais escondidas da alma, essa coisa cada vez mais difícil e que só a verdadeira literatura consegue fazer. Principalmente nos oito contos desta antologia, lançada originalmente em 1998 e vencedora do National Book Critics Circle Award do ano, cada narrativa expressa a experiência de uma protagonista feminina para ultrapassar as barreiras que a sociedade da época impunha às mulheres através do preconceito (e ainda impõe em muitos casos) impedindo-as de viver a sua plena individualidade, questões como a dificuldade de realização profissional, adultério e separação nas relações envolvendo filhos, homossexualismo e até mesmo, em casos ainda mais polêmicos, o direito ao aborto.

"O amor de uma boa mulher" empresta o título a esta antologia, sendo o primeiro e longo conto de abertura, dividido em quatro partes, um excelente exemplo do estilo de Munro. Na primeira parte, um grupo de meninos descobre em uma manhã de sábado de 1951 um carro no fundo de uma represa abandonada, através de "um brilho azul-claro na água que não era um reflexo do céu", onde costumavam ir para nadar. Eles reconhecem o carro e o corpo em seu interior como sendo do optometrista da pequena cidade em que moravam. Até o final desta parte cada um dos três meninos, suas famílias e impressões sobre o ocorrido são detalhadas pela autora. Somente na segunda parte a verdadeira protagonista é apresentada, Enid que atendeu ao último pedido do pai de não concluir o curso de enfermagem, pois ele tinha a ideia preconceituosa de que esta profissão a transformaria em uma mulher vulgar devido à "familiaridade que as enfermeiras passam a ter com o corpo dos homens"

Afinal, exercer uma profissão, seja ela qual fosse, era considerado na época como "um infortúnio resultante da viuvez ou, pior, da inépcia de um marido vivo". De qualquer forma, após a morte do pai, Enid passa a acompanhar pacientes moribundos e desenganados em seus últimos momentos, morando em suas próprias casas, juntamente com as famílias. Enid é descrita como um modelo de virtude e abnegação até que na terceira e quarta partes, a história passa a fazer sentido como um todo, devido a um segredo que ela escuta da sra. Quinn, uma de suas pacientes terminais, que irá mudar o seu comportamento e guiar o conto para uma conclusão magistral.
"Enid dormia num sofá no quarto da sra. Quinn. A coceira devastadora da enferma desaparecera quase por completo, assim como a necessidade de urinar. Ela dormia durante a maior parte da noite, embora em alguns períodos respirasse de forma áspera e raivosa. O que despertava Enid e a mantinha acordada era um problema que só tinha a ver com ela própria. Começara a ter sonhos ruins. Eram diferentes de qualquer sonho que havia tido no passado. Ela costumava pensar que um mau sonho era se ver numa casa estranha onde os quartos mudassem todo o tempo e o trabalho a fazer estivesse acima de sua capacidade, tarefas a cumprir que imaginara já cumpridas, distrações inumeráveis. E, naturalmente, também tinha tido sonhos que caracterizava como românticos, nos quais algum homem passava o braço em volta de seu ombro ou mesmo a abraçava. Podia ser alguém conhecido ou não — às vezes um homem que só como piada poderia estar numa situação daquelas. Esses sonhos a deixavam pensativa ou um pouco triste, porém de certa forma aliviada por saber que tais sentimentos eram possíveis para ela. Podiam ser embaraçosos, mas não eram nada, absolutamente nada, quando comparados com os sonhos que tinha agora. Nestes, ela copulava ou tentava copular (às vezes impedida por intrusos ou mudanças das circunstâncias) com parceiros totalmente proibidos ou impensáveis. Com bebês gordos e hiperativos, ou pacientes envoltos em bandagens, ou com sua própria mãe. A lascívia a deixava molhada, oca, gemendo de desejo, e ela buscava se aliviar com rispidez e com uma atitude de pragmatismo malévolo. 'É vai ter que ser assim', ela dizia a si mesma. 'Vai ter que ser assim se não aparecer nada melhor.' E essa frieza do coração, essa depravação prosaica, simplesmente estimulava sua libido. Acordava sem sentir nenhum arrependimento, mas, suada e exausta, lá ficava como uma carcaça até que seu próprio eu, sua vergonha e sua descrença refluíssem para dentro dela. O suor esfriava sobre a pele. Permanecia deitada, tremendo na noite quente, sentindo repugnância e humilhação. Não ousava voltar a dormir. Acostumou-se ao escuro e aos compridos retângulos das janelas com cortinas de voal através das quais penetrava uma luz tênue. Enquanto a enervante respiração da enferma soava como uma reprimenda, e depois quase desaparecia." (págs. 62 e 63)
Em "As crianças ficam" a autora acompanha o desenvolvimento de um caso de adultério sob a ótica da protagonista, uma mãe de duas filhas que decide abandonar tudo para ficar com o amante, o diretor de uma montagem teatral amadora de Orfeu e Eurídice na qual ela decide participar, incentivada pelo próprio marido. Em um dia de chuva, ela caminha sozinha pensando nos efeitos de sua escolha, principalmente o fato de que não poderá ficar com as duas filhas pequenas, uma dor aguda que ela entende que se tornará crônica com o tempo, significando que "será permanente, mas talvez não constante", que "não a sentirá a cada minuto, mas não passará muitos dias sem senti-la". Poderá haver, à partir deste dia, algum alívio  ou um improvável perdão das filhas para essa mulher?
"O que ela estava fazendo era alguma coisa sobre a qual já ouvira falar e já lera. O que Ana Karênina tinha feito e Madame Bovary tinha desejado fazer. O que uma professora, colega de Brian, tinha feito com o secretário de escola. Fugido com ele. Era assim que se dizia: fugir com alguém. Dar no pé. Algo mencionado em tom cômico ou depreciativo, se não com inveja. Era o adultério elevado ao grau máximo. Os casais que o faziam quase certamente já eram amantes, sendo adúlteros por bastante tempo antes de se tornarem suficientemente desesperados ou corajosos para dar aquele passo. Raras vezes um casal podia alegar que o amor não tinha sido consumado e era tecnicamente puro, porém essas pessoas, se alguém acreditasse nelas, seriam vistas não apenas como muito sérias e virtuosas, mas quase devastadoramente imprudentes. Comparáveis na prática àquelas que se arriscam e abrem mão de tudo para ir trabalhar num país pobre e perigoso. (...) Os outros, os adúlteros, eram considerados irresponsáveis, imaturos, egoístas ou mesmo cruéis. Felizardos, também. Felizardos porque eram com certeza esplêndidas as relações sexuais que vinham tendo em carros estacionados, campos verdejantes, leitos conjugais maculados ou, mais provavelmente, motéis como aquele. Caso contrário, não teriam tamanho desejo pela companhia do outro a todo custo, ou tamanha fé de que o futuro que compartilhariam seria muito melhor e diferente de tudo que haviam conhecido no passado." (págs. 230 e 231)
Já no difícil e perturbador "Antes da mudança", a protagonista escreve uma longa carta para o seu ex-namorado sobre o período de convivência com o pai em sua clínica, na qual ele atende mulheres que decidem fazer um aborto, tema espinhoso e difícil de tratar, principalmente quando Munro nos coloca ao lado da protagonista que acaba fazendo o papel de assistente durante uma dessas sessões clandestinas. O seu passado será introduzido aos poucos até ficar claro em uma conversa final com o pai que encerra o conto. Impossível não ficar sensibilizado com esta narrativa, sendo homem ou mulher.
"Eu estava pensando em dizer alguma coisa que pudesse lhe trazer alívio ou distraí-la. Podia ver agora o que meu pai estava fazendo. Dispostas sobre uma toalha branca, na mesa ao seu lado, havia diversas hastes, todas com o mesmo comprimento mas com diâmetros crescentes. Eram usadas, uma após a outra, para abrir e alargar o colo do útero. De onde me encontrava, atrás da barreira feita pelo lençol sobre os joelhos da moça, não era capaz de acompanhar o progresso invasivo daqueles instrumentos. No entanto, podia senti-lo através das ondas de dor que se sucediam em seu corpo que, sufocando os espasmos de apreensão, a faziam de fato ficar mais imóvel." (pág. 302)
Como acontece com toda grande obra de ficção, os contos de Alice Munro permanecem em nosso inconsciente, transformando-se e ganhando novos sentidos à medida que a nossa experiência de vida avança, em alguns casos nos incomodam sem sabermos exatamente o motivo, talvez porque reflitam algum sentimento que está cuidadosamente escondido dentro de nós mesmos.

sexta-feira, julho 15, 2016

Péter Esterházy (1950–2016)

Foto Balogh Zoltán - MTI
"As palavras são sempre insuficientes e nós podemos sempre tomá-las como esperança. Mas contra a morte elas não ajudam. Talvez possam servir contra a dor que se sente em relação à morte. Mas a literatura não é um meio de curar a dor, como uma aspirina contra a dor de cabeça. A literatura não é prática, mas perigosa." - Entrevista à Folha durante a FLIP 2011

quinta-feira, julho 14, 2016

As ilustrações digitais de Ilya Kuvshinov


O ilustrador russo Ilya Kuvshinov reside em Yokohama no Japão onde parece encontrar inspiração para as suas imagens de modelos jovens e sensuais no melhor estilo mangá de história em quadrinhos e videogames. Apesar de suas ilustrações estarem fartamente disponíveis na internet, não é fácil conseguir informações biográficas do artista. Para conhecer mais do seu trabalho sigam os links e visitem as suas páginas no facebookDeviantArt ou behance. Adicionalmente, o seu método de criação digital pode ser acompanhado no site patreon com tutoriais sobre a técnica com photoshop, imperdível.


quarta-feira, julho 13, 2016

20 livros para entender melhor o Rock


Hoje o blog da Companhia das Letras, motivado pelo dia do Rock, publicou uma postagem sobre livros relacionados ao universo dos grandes astros da música, seja na forma de antologia de letras, biografias ou até mesmo romances, obviamente todos lançados pela editora. Aproveito a oportunidade para ampliar um pouco a lista dentro do mesmo foco. A seleção inclui artistas de estilos tão diferentes quanto Dylan e Morrissey, mas todos apresentam em comum um apurado senso artístico e originalidade. Como toda lista, esta também é cheia de omissões, mas reflete unicamente o meu gosto pessoal. Procurei destacar apenas os livros já traduzidos para o português obedecendo a ordem cronológica de lançamento no país de origem (sigam os links para maiores detalhes de cada obra).

(01) Buried Alive: The Biography of Janis Joplin, Myra Friedman (1973)
No Brasil: "Enterrada Viva, a biografia de Janis Joplin" - Editora Civilização Brasileira (edição esgotada)

(02) No Direction Home: The Life and Music of Bob Dylan, Robert Shelton (1986)
No Brasil: "No Direction Home, A Vida e a Música de Bob Dylan" - Editora Larousse

(03) Pass thru fire - The collected lyrics, Lou Reed (2000)
No Brasil: "Atravessar o Fogo - 310 Letras" - Editora Companhia das Letras

(04) Down the Highway: The Life of Bob Dylan, Howard Sounes (2001)
No Brasil: "Dylan, A Biografia" - Editora Conrad

(05) Heavier Than Heaven: A Biography of Kurt Cobain, Charles R. Cross (2001)

No Brasil: "Mais Pesado que o Céu, uma Biografia de Kurt Cobain" - Editora Globo

(06) Chronicles, Bob Dylan (2004)
No Brasil: "Crônicas, Bob Dylan" - Editora Planeta

(07) The Doors, Ben Fong-Torres (2006)
No Brasil: "The Doors por The Doors" - Editora Agir

(08) The Beatles: The Biography, Bob Spitz (2006)
No Brasil: "The Beatles - A Biografia" - Editora Larousse

(09) Clapton: The Autobiography (2008)
No Brasil: "Eric Clapton - A Autobiografia" - Editora Planeta

(10) When Giants Walked the Earth: A Biography of Led Zeppelin, Mick Wall (2010) 
No Brasil: "Led Zeppelin - Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra" - Editora Larousse

(11) Just Kids, Patti Smith (2010)
No Brasil: "Só Garotos" - Editora Companhia das Letras

(12) Life, Keith Richards (2011)

No Brasil: "Vida - Keith Richards" - Editora Globo

(13) Autobiography, Morrissey (2013)
No Brasil: Não lançado até o momento desta postagem

(14) A Light That Never Goes Out: The Enduring Saga of the Smiths, Tony Fletcher (2013)
No Brasil: "The Smiths, A Biografia" - Editora Best Seller

(15) Waging Heavy Peace: A Hippie Dream, Neil Young (2013)
No Brasil: "Neil Young - A Autobiografia" - Editora Globo

(16) Who I Am: A Memoir, Pete Townshend (2013)
No Brasil: "Pete Townshend - A Autobiografia" - Editora Globo

(17) Mick Jagger, Philip Norton (2013)
No Brasil: "Mick Jagger" - Editora Companhia das Letras

(18) This Is a Call: The Life and Times of Dave Grohl (2013)
No Brasil: "Dave Grohl - Nada a Perder" - Edições Ideal

(19) Jimi Hendrix: Starting At Zero: His Own Story (2014)

No Brasil: "Jimi Hendrix por ele mesmo" - Editora Zahar

(20) M Train, Patti Smith (2015)
No Brasil: "Linha M"Editora Companhia das Letras

quinta-feira, julho 07, 2016

Jonathan Franzen - Pureza

Jonathan Franzen - Pureza - Editora Companhia das Letras - 616 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento 25/05/2016 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Em seu mais recente lançamento, o americano Jonathan Franzen corre novamente os riscos de escrever um romance de seiscentas páginas em contraste com a tendência atual, principalmente no Brasil, de narrativas curtas e em geral de autoficção, estilo que possibilita uma estratégia editorial de melhor retorno financeiro e de maior frequência de exposição do autor na mídia. Neste seu quinto romance, após os premiados "As Correções" (2001) e "Liberdade" (2010), Franzen mais uma vez trabalha na contramão dessa lógica, provando que ainda existe espaço para a boa e velha instituição do romance realista em pleno século XXI. 

Não por acaso ele foi escolhido em 2010 para a capa da revista Time com a alcunha "Great American Novelist" (o que o coloca na companhia de alguns poucos grandes escritores que receberam tal distinção: Salinger, Nabokov, Toni Morrison, James Joyce e John Updike), segundo a conceituada revista, a escolha não se deveu ao fato de Franzen ser famoso, rico ou criar personagens com poderes mágicos, mas sim por ele refletir sobre o comportamento e valores da sociedade americana na atualidade, papel similar ao exercido por grandes romancistas do passado como Tolstoi e Victor Hugo. É claro que não podemos comparar autores de épocas tão diferentes; mudou a sociedade e, portanto, mudaram os escritores. O fato é que, desde o século XIX, permanece o interesse dos leitores em bons romances.

No entanto, se por um lado este seu último livro apresenta uma forma de construção clássica, por outro, o conteúdo não poderia ser mais atual, refletindo a nossa inusitada existência virtual nas redes sociais, a exposição do indivíduo na internet e ainda a relação entre as agências de notícias e os movimentos especializados no vazamento de informações de grandes corporações e governos, como a WikiLeaks de Julian Assange ou o ativismo de Edward Snowden. Um dos protagonistas, o carismático Andreas Wolf, se tornou uma personalidade mundial ao desenvolver um projeto chamado "Luz do Sol", semelhante ao WikiLeaks, mas o mesmo Andreas, de forma contraditória, esconde um segredo terrível em seu passado na antiga Alemanha Oriental, um segredo que está convenientemente escondido dos motores de busca da internet e também dos arquivos da polícia secreta da época, a temida Stazi. O trecho abaixo mostra o cuidado e a dedicação com que Andreas Wolf descobre e divulga os segredos de todo o mundo, exceto os seus próprios.
"O lema de Wolf e de seu projeto era 'A luz do sol é o melhor desinfetante'. Nascido em 1960 na Alemanha Oriental, ele se destacara na década de 1980 como um crítico ousado e espetaculoso do regime comunista. Depois da queda do Muro de Berlim, liderara uma cruzada para que os arquivos imensos da polícia secreta da Alemanha Oriental fossem preservados e abertos ao público; nesse caso, só era odiado pelos ex-informantes da polícia, cuja reputação, depois da reunificação, tinha sido manchada pela exposição de seu passado à luz do sol. Wolf fundara o Projeto Luz do Sol em 2000, focando inicialmente em diversos malfeitos alemães, mas logo depois ampliando sua área de atuação para injustiças sociais e os segredos tóxicos para o mundo todo. Centenas de milhares de imagens mostravam se tratar de um homem muito bonito e que aparentemente nunca se casara ou tivera filhos. Fugira de uma condenação na Alemanha em 2006 e da Europa em 2010, recebendo asilo primeiro em Belize e mais recentemente na Bolívia, cujo presidente populista, Evo Morales, era seu fã. A única coisa que Wolf mantinha em segredo era a identidade de seus principais financiadores (gerando um terabyte ou dois de conversações eletrônicas sobre sua 'inconsistência') e a única coisa vagamente duvidosa sobre ele era sua intensa rivalidade com Assange. Wolf, de forma irônica, havia menosprezado os métodos e a vida particular de Assange, enquanto Assange se contentara em fingir que Wolf não existia. Wolf gostava de comparar os WikiLeaks — segundo ele 'uma plataforma neutra e não filtrada' - com a clareza de propósito de seu projeto Luz do Sol, estabelecendo uma distinção moral entre seu 'motivo benigno e abertamente admitido' de proteger a privacidade de seus financiadores e os 'motivos malignos e ocultos' daqueles cujos segredos ele expunha." (págs. 71 e 72)
Apesar do título, baseado no nome de uma das protagonistas, Purity Tyler, nenhum personagem parece ser puro o suficiente no romance de Franzen, sendo os dilemas morais comuns a todos em diferentes níveis a começar pela própria Purity que recebe o apelido de Pip (homenagem ao jovem Pip do clássico "Great Expectations" de Charles Dickens). Ela é o ponto de partida da narrativa, uma jovem californiana de 22 anos que divide uma casa ocupada ilegalmente com outros jovens anarquistas e não sabe quem é seu pai, um mistério que a mãe sempre se recusou a esclarecer. Ela estará disposta a cruzar os limites da moral e ética para descobrir a identidade do pai. Mas, afinal, é possível manter um segredo em plena era digital, em um mundo no qual a exposição nas redes sociais é uma prática quase obrigatória? Em busca de respostas, Pip aceita o convite para trabalhar no projeto "Luz do Sol" de Andreas Wolf na Bolívia.

A trama é conduzida de forma a deixar pistas em cada capítulo sobre a origem de Purity Tyler, alternando passado e presente. Um tema paralelo e associado à sua origem, ao longo de todo o romance, é a conturbada história de amor entre Tom Aberant  e Anabel (aqui é preciso cuidado para não cair no erro da resenha spoiler). Tom é um jornalista investigativo que conheceu Andreas Wolf na época da queda do Muro de Berlim e a única pessoa que conhece o seu segredo. A descrição das crises no relacionamento entre o inexperiente Tom e a lunática Anabel é magistralmente conduzida, principalmente em um único capítulo narrado em primeira pessoa, indício que nos leva a pensar o quanto de autobiográfico Franzen colocou neste texto.
"Anabel se recusava a ver que simplesmente havia alguma coisa quebrada em nosso relacionamento, quebrada sem possibilidade de conserto e de atribuição de culpa. Durante nossa orgia anterior, havíamos conversado por nove horas sem parar, com pausas apenas para ir ao banheiro. Pensei que, por fim, tinha conseguido lhe mostrar que a única forma de escaparmos de nosso sofrimento consistia em renunciarmos um ao outro e nunca mais nos comunicarmos: que as conversas de nove horas eram elas próprias a doença que supostamente estariam tentando curar. Essa era a versão de nós que ela me telefonara para rejeitar naquela manhã. Mas qual a sua versão? Impossível dizer. Ela era tão moralmente segura de si, a todo momento, que eu tinha sempre a sensação de que chegávamos a algum lugar; só depois eu via que tínhamos nos movido num círculo enorme e vazio. Apesar de toda a sua inteligência e sensibilidade, ela não somente não fazia sentido, mas também se mostrava incapaz de reconhecer tal coisa; e era terrível ver isso numa pessoa a quem eu fora profundamente devotado e a quem prometera cuidar por toda a vida. Por isso tinha de continuar a trabalhar com ela para fazê-la compreender que não podia continuar a trabalhar com ela." (págs. 359 e 360)
Uma das melhores passagens do livro é o capítulo que descreve a infância e juventude de Andreas Wolf na Alemanha Oriental, uma espécie de romance dentro do romance, até a histórica queda do Muro de Berlim em 1989. Mais interessante ainda é a criativa comparação entre o regime totalitário da antiga República Democrática Alemã (RDA), que de democrática não tinha absolutamente nada, e o domínio da internet e das redes sociais no mundo atual. Uma questão importante para pensarmos sobre a aparente liberdade virtual que pensamos viver e a perda completa da nossa identidade e privacidade na imensa nuvem digital que nos cerca.
"A velha República sem dúvida se destacara em matéria de vigilância e paradas militares, porém a essência de seu totalitarismo tinha sido alguma coisa mais corriqueira e sutil. A pessoa podia cooperar com o sistema ou se opor a ele, mas o que jamais podia fazer, quer estivesse levando uma vida segura e agradável, quer se encontrasse na prisão, era não manter alguma relação com ele. A resposta a todas as perguntas, grandes ou pequenas, era o socialismo. Substituindo 'socialismo' por 'redes' tem-se a internet. Suas plataformas, embora competindo entre si, estão unidas pela ambição de definir todos os componentes da existência de alguém. (...) Os privilégios possíveis na República tinham sido insignificantes — um telefone, um apartamento com algum ar e luz, a importantíssima permissão para viajar —, mas talvez não tão insignificantes quanto ter 'n' seguidores no Twitter, um perfil muito curtido no Facebook, uma aparição ocasional  de quatro minutos na CNBC." (págs. 490 e 491)

quinta-feira, junho 30, 2016

Fotografias de Lee Chapman que contam histórias de Tóquio

Foto Lee Chapman - Tokyo old bar friend
Na foto acima, o proprietário de um bar em Tóquio há mais de quarenta anos e seu freguês fiel que se tornou um amigo ao longo do tempo. As fotos do inglês Lee Chapman, disponíveis no seu blog Tokyo Times ou no site oficial registram flagrantes das ruas da capital japonesa onde o moderno tropeça no tradicional a todo o instante e as imagens nos contam histórias que bem poderiam inspirar excelentes romances. Quando não está trabalhando como professor de inglês, Chapman caminha pelas ruas de Tóquio, onde vive desde 1998, em busca de histórias e pontos turísticos que mesmo os residentes de longa duração desconhecem.

Foto Lee Chapman - Little Bar Looks
Muitas fotos têm como cenário os minúsculos bares, onde a tradição japonesa é desfrutar o happy hour com colegas de trabalho e muita cerveja. Nestes ambientes descontraídos a rígida disciplina japonesa pode ser aliviada por alguns momentos (até o horário de fechamento do metrô, pelo menos). O fotógrafo sempre parece buscar mais as pessoas do que os cenários, para conhecer mais do seu trabalho recomendo ler esta entrevista com ele para o Japan Times.

Foto Lee Chapman - Red Light District Streets
O trabalho  de Lee Chapman apresenta, na maioria das vezes, uma visão clandestina da cidade e suas áreas proibidas como o bairro de Kabukicho, famoso distrito da luz vermelha de Tóquio. Essas áreas, normalmente não incluídas nos roteiros turísticos tradicionais, são permanentemente combatidas pelo governo e tendem a desaparecer com o tempo. Interessante na foto acima é que os letreiros luminosos, sempre de um colorido exagerado, acabaram ganhando dramaticidade nesta visão pouco comum em preto e branco.

quarta-feira, junho 15, 2016

Mia Couto - Vozes Anoitecidas

Mia Couto - Vozes Anoitecidas - Editora Companhia das Letras - 152 páginas - Lançamento 17/10/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Publicado originalmente em 1987, "Vozes Anoitecidas" foi a primeira coletânea de contos de Mia Couto. Na época, já conhecido como jornalista e poeta, ele surpreendeu público e crítica com as doze narrativas deste livro, onde já estavam presentes todos os elementos que marcaram o estilo único do escritor moçambicano ao longo de sua carreira que culminou com o recebimento do prêmio Camões em 2013. Aqui encontramos o exercício de recriação da linguagem e a invenção de palavras que lembra muito o nosso Guimarães Rosa, utilizando uma mistura de poesia e sonoridade do português coloquial da África, sempre norteado pela preocupação com os problemas sociais que ficam evidentes quando se faz a ligação entre a rica tradição do folclore e a dura realidade atual das ex-colônias. Como bem definiu o poeta conterrâneo José Craveirinha no prefácio à edição portuguesa, "Mia Couto maneja a linguagem das suas figuras legitimando a transgressão lexical de uma fala estrangeira com o direito que lhe permite o seu papel de parente vivo de Vozes anoitecidas". No entanto, é o próprio autor que melhor resume a importância da sua arte como um marco na resistência à exploração de Moçambique, assim como de outros países do terceiro mundo, através da bela introdução abaixo:
"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.  (...) Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever. A umas e outras dedico este desejo de contar e de inventar." (Texto de Abertura - pág. 17)
Assim, constatamos que através das múltiplas vozes "que vazaram o sol" encontramos a mais pura literatura e ainda muito mais, a persistência do desejo e da necessidade ancestral do homem de sonhar, mesmo diante da adversidade e da incompreensão da sua vida em um meio hostil. No conto "A fogueira", os protagonistas se resumem a uma velha e um velho presos a uma solidão que só a morte poderá libertar. É o conto de abertura desta coletânea que decidi apresentar completo, presente para os leitores que se beneficiam da minha impossibilidade de resumir e explicar tamanha força de contar e inventar. Não há resenha que dê jeito. Só lendo para sentir e entender a prosa mágica de Mia Couto.

 A fogueira 
(Mia Couto)

    A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. 
    A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
    O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
    “Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”
    Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
    — Estou a pensar. 
    — É o quê, marido? 
    — Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
    — Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
    A mulher, comovida, sorriu: 
    — Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
    — Vou ver se encontro uma pá.
    — Onde podes levar uma pá?
    — Vou ver na cantina.
    — Vais daqui até na cantina? É uma distância.
    — Hei de vir da parte da noite.
    Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
    — Então, marido?
    — Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.
    — Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
    E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:
    — Mas, marido...
    — Diz lá.
    — Eu nem estou doente.
    — Deve ser que estás. Você és muito velha.
    — Pode ser — concordou ela. E adormeceram. 
    Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.
    — Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
    — Nada, sou pequena.
    Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.
    — A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
    — Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
    Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
    — Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
    — Queres o quê?
    — Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
    — Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
    Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
    — Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
    — Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
   — Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
    No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
    — Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.
    A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.
    — Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
    — Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
    — Qual fogueira?
    Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
    Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
    — Marido, não vai assim. Come primeiro.
    Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
    — Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
    Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:
    — Mulher, ajuda‑me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
    — Estás muito doente.
Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
    — Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.
    — Estás a pensar o quê?
    — Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.
    — É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
    — Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.
    Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.
    — Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
    O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
    Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

quinta-feira, junho 09, 2016

Por que Raduan Nassar abandonou a literatura?


Como todos sabem, Raduan Nassar após ter sido finalista do Man Booker International Prize este ano com a tradução de Um Copo de Cólera, foi honrado com a premiação literária mais importante da língua portuguesa, o Prêmio Camões de literatura 2016, uma escolha de certa forma surpreendente mesmo para o próprio premiado que declarou com alguma ironia não entender os motivos da escolha da organização já que a sua obra se limitava a "um livro e meio". Segundo os jurados, Raduan "privilegia a densidade acima da extensão" o que é a mais pura verdade, diga-se de passagem.

O autor, que já completou 80 anos, vive recluso e se recusa a dar entrevistas desde os anos 1980 quando decidiu abandonar a literatura após escrever dois romances clássicos: Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978). O afastamento por tantos anos do mercado editorial e de todo o entorno de festivais, noites de autógrafos e exposição na mídia, não reduziu em nada o interesse do público em sua obra, muito pelo contrário. Mas afinal, por que Raduan abandonou a literatura? 

Alguns trechos de uma rara e extensa entrevista do ex-escritor em 1996 para a série Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles (IMS) podem fornecer pistas dos motivos para o seu exílio voluntário. As frases são todas de Raduan, mas foram removidas um tanto quanto fora do contexto das perguntas. De qualquer forma, o resultado é um mosaico de opiniões sobre o fazer literário e a sua aversão à rotina burocrática e as formas de controle da individualidade. A entrevista pode ser lida na íntegra no blog do IMS.
(01) "Valorizo livros que transmitam a vibração da vida, só que a vida nesses livros, por melhores que esses livros sejam, será sempre a vida percebida pelo olhar do outro." 
(02) "Qualquer autor isolado é sempre muito pequeno perto da complexidade infinita da vida." 
(03) "A chamada modernidade no sistema de produção, com sua ênfase na eficiência, esmaga certas manifestações de humanismo, incluindo-se nesse humanismo o delírio de alguns." 
(04) "Certos escritores vinham há tempos chupando o sangue das palavras, queriam a qualquer custo acabar com os sentimentos na literatura."
(05) "Acho que a literatura perdeu certa ingenuidade (...) Em literatura, quando você lê um texto que não toca o coração, é que alguma coisa está indo pras cucuias." 
(06) "A dificuldade para entender certos procedimentos transplantados para a literatura, quando se recorre inclusive a cálculos de raiz quadrada." 
(07) "Como o mundo não começa e termina na literatura, arrisco dizer que estou em diálogo com meu tempo, só que no terreno da agricultura." 
(08) "Se digo o que penso, vou ser condenado como escritor ad aeternitatem; se não digo o que penso, eu mesmo vou me condenar ad aeternitatem."  
(09) "Nunca senti muito apego pelos livros. Os livros que me sobraram estão esquecidos lá nas prateleiras, me pergunto sempre que é que estão fazendo nas estantes."
(10) "Se tivesse de me pautar pela leitura de manifestos literários, eu jamais teria escrito uma linha."

terça-feira, junho 07, 2016

Clarice Lispector - Todos os Contos

Clarice Lispector - Todos os Contos - Editora Rocco - 656 páginas - Prefácio e Organização de Benjamin Moser (lançamento Maio de 2016).

Uma bela e merecida homenagem à obra de Clarice Lispector que recebe pela primeira vez no Brasil um tratamento editorial compatível com a importância da sua obra. A antologia, lançada nos Estados Unidos no ano passado, foi relacionada na lista dos melhores livros de 2015 além de ter sido escolhida como uma das 12 melhores capas do ano, ambas as premiações pelo prestigiado New York Times. Em 2016 já levou o Pen Translation Prize de melhor tradução, provando que a sua trajetória internacional está apenas começando. Esta versão conta com um apaixonado prefácio ("Glamour e gramática") do seu melhor e mais fiel biógrafo, o escritor, editor, crítico e tradutor Benjamin Moser, que foi o grande responsável pela divulgação da autora no mercado internacional, lançando em 2009 "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" (traduzido no Brasil como "Clarice" pela Cosac Naify), biografia incluída entre os 100 livros notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review. Os contos de Clarice retornam afinal ao seu país de origem, apesar de serem universais, como fica cada vez mais evidente. Sejam todos bem-vindos ao culto da encantadora feiticeira Clarice Lispector.

A leitura (ou releitura) dos oitenta e cinco contos, permite comparar as diferentes fases de Clarice como escritora, desde os primeiros textos da adolescência até a maturidade. Os contos reunidos no capítulo inicial,"Primeiras histórias", resgatam a obra da juventude e foram publicados durante os anos em que estudava Direito no Rio de Janeiro antes do casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e de sua saída do Brasil, assim como também anteriores à sua estreia com o romance "Perto do Coração Selvagem". Ela nunca se adaptou ao exílio e, durante os dezesseis anos que viveu no exterior, a sua tendência à depressão se acentuou. Na verdade, sempre foi uma estrangeira no Brasil e em todos os países em que viveu, isto acabou beneficiando o seu processo criativo, libertando-a da normalidade, uma espécie de "alienação cultural produtiva", como destacou Benjamin Moser.
"Como é que Clarice Lispector — logo ela — conseguiu triunfar? Ela vinha de uma tradição de fracasso, de uma tradição de falta de tradição, como escritora brasileira, como escritora, como mulher, mas talvez principalmente em consequência de suas origens. Seus primeiros anos de vida foram tão catastróficos que é um milagre que haja conseguido sobreviver. Nasceu em 10 de dezembro de 1920, numa família judia do oeste da Ucrânia. Era uma época de caos, fome e guerra racial. Seu avô foi assassinado; sua mãe foi violentada; seu pai foi exilado, sem um tostão, para o outro lado do mundo. Os restos dilacerados da família chegaram a Alagoas em 1922. Lá, seu brilhante pai, reduzido à condição de vendedor ambulante de roupas usadas, mal conseguia alimentar a família. Lá, quando Clarice ainda não tinha nove anos de idade, perdeu a mãe, levada pelos ferimentos sofridos durante a guerra. (...) Em 25 de maio de 1940, publicou o primeiro conto: "O triunfo". Três meses depois, seu pai faleceu aos cinquenta e cinco anos de idade. Antes de seu vigésimo aniversário, Clarice estava órfã. No início de 1943, ela se casou com um gentio, algo quase sem precedentes para uma moça judia no Brasil. No final daquele ano, pouco depois de ter publicado o primeiro romance, ela e o marido deixaram o Rio de Janeiro. Em um curto espaço de tempo, portanto, deixou sua família, sua comunidade étnica e seu país. Deixou também a profissão, o jornalismo, em que vinha se destacando." (Prefácio de Benjamin Moser - "Glamour e Gramática" - págs. 17 a 19)
Outro fato bem destacado por Benjamin Moser para explicar a mitologia de Clarice Lispector é que ela representa um caso raro de mulher burguesa que não começou a escrever tarde e não parou por causa do casamento ou dos filhos nem tampouco encerrou prematuramente a carreira devido ao consumo de drogas ou ao suicídio. Clarice declarou uma vez que não gostava de ser comparada a Virginia Woolf porque ela havia desistido: "O terrível dever é ir até o fim". Importante notar também que foi aberto espaço na literatura brasileira da época, saturada do realismo de Graciliano Ramos e Jorge Amado, para a vida urbana e a classe média, principalmente na visão das mulheres. Temas como o casamento, filhos, o tédio no cotidiano das donas de casa, a separação, os efeitos dolorosos do envelhecimento e a inevitável solidão no fim da vida são elementos que formam a matéria-prima de seu processo criativo.

Após o primeiro capítulo com os textos da juventude, são apresentados todos os contos publicados originalmente nos livros: “Laços de família” (1960), “A legião estrangeira” (1964), “Felicidade clandestina” (1975), “Onde estivestes de noite” (1974), “A via crucis do corpo” (1974) e “Visão do esplendor” (1975). Encerram esta edição dois contos incompletos publicados em “A bela e a fera” (1979), dois anos depois da morte da autora. É claro que seria impossível para qualquer escritor, mesmo para a feiticeira Clarice, manter o nível de "Laços de Família" — em que todos os textos são obras-primas da literatura universal — na totalidade de sua obra. De fato, existem variações de estilo à medida em que ela amadurece, algumas vezes bastante arriscadas, provando que a autora soube vencer o medo do fracasso e da experimentação, como ela própria declarou: "Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão."

"Laços de Família" foi publicado pela Editora Francisco Alves em 1960 e reuniu alguns contos escritos quando Clarice vivia nos Estados Unidos, tais como: "Mistério em São Cristóvão", "Os laços de família", "Começos de uma fortuna", "Amor", "Uma galinha" e "O jantar" e outros que foram publicados na revista Senhor, quando ela retornou ao Rio de Janeiro, em 1959. Segundo Fernando Sabino comentou na época, o livro seria: "exata, sincera, indiscutível e até humildemente o melhor livro de contos já publicado no Brasil". Érico Veríssimo disse a Clarice: "Não escrevi sobre seu livro de contos por puro embaraço de lhe dizer o que eu penso dele. Aqui vai: a mais importante coletânea de contos publicada neste país desde Machado de Assis". Realmente é muito difícil encontrar um conjunto de contos com tamanha perfeição técnica, não só no Brasil. Todas as vezes que releio "Feliz Aniversário" e "A imitação da rosa" me surpreendo com o alcance universal dos contos, verdadeiros clássicos.

"A Legião Estrangeira" foi publicado pela Editora do Autor em 1964. A edição original era dividida em duas partes: "Contos" e "Fundo de gaveta". Há textos mais antigos, como "Viagem a Petrópolis", publicado num jornal em 1949, e "A pecadora queimada e os anjos luminosos", a única peça de sua carreira, que ela escreveu na Suíça. O conto "Mineirinho" é uma crítica social sobre um homicida que tinha uma namorada e era devoto de São Jorge, e que a polícia matou com "treze balas quando só uma bastava", uma violência que era prática comum já naquela época. Como bem destacado na biografia de Clarice, a "Legião Estrangeira" apresenta "uma forte ênfase nos mundos interiores de seus personagens, as obras de Clarice sempre tiveram um elemento abstrato. "Quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo" ela escreveu em G. H. "A pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço de ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso, e o grito."  E concluindo: "Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu."
"Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir. E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido." ("A Legião Estrangeira" - "O ovo e a galinha" (pág. 306).
"A via crucis do corpo", publicado em 1974, é uma das obras mais polêmicas de Clarice, tendo sido considerado como "pornográfico" por parte da crítica literária, influenciada pelo ambiente repressivo da ditadura militar que moldava a sociedade da época. Nestes contos encontramos um travesti, uma stripper, uma freira tarada, uma mulher de sessenta anos que sustenta um amante adolescente, um casal de lésbicas assassinas, uma idosa de oitenta e um anos que se masturba e uma secretária inglesa que experimenta uma relação sexual com um alienígena do planeta Saturno em noite de lua cheia. Convenhamos que é um pouco demais até para o nosso tempo. Este livro reforçou a reputação de Clarice, já bastante difundida, de personalidade estranha e imprevisível, mas parece se encaixar na trajetória de experimentação e amadurecimento de uma escritora que não tinha medo de errar.

"Visão do Esplendor" foi publicado em 1975 pela Editora Francisco Alves e inclui "Brasilia" em versão inicial de 1962, escrita depois de sua primeira visita à nova capital, publicada em "A Legião Estrangeira" como "Brasília: Cinco Dias". A versão incluída nesta edição é a aumentada, que escreveu após o seu regresso a Brasília em 1974. Esta crônica, se podemos chamar assim, é tão bem escrita e criativa que marquei em amarelo praticamente todos os parágrafos do texto (além de boa parte da minha camisa). Em nossa época, na qual o cenário político é a estrela de todos os noticiários e os crimes de nossos representantes ficam cada vez mais evidentes, não deixa de ser interessante refletir sobre Brasília, o local onde dois arquitetos "não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado."
"— Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. — É uma praia sem mar. — Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. — Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho). — Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria para onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. — Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. — Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes gélidos têm espaço. Vou embora. Aqui meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. (...) — É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. — A alma aqui não faz sombra no chão." ("Visão do Esplendor" - "Brasília" - pág. 593)
Uma autora para se ler e reler sempre e que pode ser perigosa para a nossa sanidade, mas necessária. Cuidado, assim como a sua vida, nada é o que parece em Clarice, nunca. E, principalmente, não acreditem em nada que ouviram falar sobre ela, não esperem mais, leiam vocês mesmos, logo!

quarta-feira, junho 01, 2016

Exposição World Press Photo 2016 no Rio de Janeiro

Hope for a New Life - Warren Richardson 
A exposição que reúne as fotos premiadas em nove categorias da edição de 2016 do concurso internacional World Press Photo está em cartaz no Rio de Janeiro até 19 de junho nas instalações da CAIXA Cultural. A foto acima, Hope for a New Life, do australiano Warren Richardson foi a grande vencedora e capta um momento dramático na fronteira entre Sérvia e Hungria onde, através de um buraco na cerca de arame farpado, um bebê é passado a um refugiado sírio que já havia conseguido cruzar a fronteira. Segundo Francis Kohn, presidente do júri, "a imagem tem quase todos os elementos necessários para se entender o que está acontecendo com os refugiados. É uma foto clássica e, ao mesmo tempo, atemporal". Infelizmente as fotos vencedoras deste concurso nem sempre são agradáveis de se ver, mas isto não é culpa da organização nem dos fotógrafos.

China's Coal Addiction - Kevin Frayer
A foto acima, China's Coal Addiction, do canadense Kevin Frayer, primeira colocada na categoria "Vida Cotidiana", apresenta uma visão apocalíptica da China. Nuvens de fumaça saem das chaminés enquanto homens empurram seus triciclos em um bairro perto de uma central elétrica movida a carvão em Datong, norte da província de Shanxi. A região é a principal produtora de carvão da China, com uma produção anual de mais de 300 milhões de toneladas. Estima-se que a poluição do ar seja uma das causas para 17% das mortes na China. A grande dependência do carvão para produção de energia, fez com que o país se tornasse fonte de quase um terço das emissões de dióxido de carbono de todo o mundo.

Storm Front on Bondi Beach - Rohan Kelly
A foto vencedora da categoria "Natureza", Storm Front on Bondi Beach, do australiano Rohan Kelly, mostra uma enorme nuvem negra que se move em direção à praia, em Sidney, Australia. A nuvem fazia parte de uma frente fria que trouxe tempestades violentas. A imprensa local noticiou ventos destruidores, pedras de granizo do tamanho de bolas de golfe e chuvas torrenciais. O que chama a atenção na foto é a aparente tranquilidade dos banhistas, principalmente da mulher em primeiro plano, frente ao cenário assustador.

A World Press Photo é uma organização independente, sem fins lucrativos, com sede em Amsterdã na Holanda, onde foi fundada em 1955. Visite aqui o site oficial com a galeria histórica de todas as fotos da fundação. Este ano foram inscritas 82.951 fotografias por 5.775 fotógrafos de 128 países. O objetivo da exposição que circula por todo o mundo é promover um maior conhecimento sobre o que acontece globalmente, apoiando o fotojornalismo e a fotografia documental em âmbito internacional.

Exposição World Press Photo
De 17 de maio a 19 de junho de 2016
CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Galeria 4
Av.: Almirante Barroso, 25, Centro, telefone: (21) 3980-3815
Metrô: Estação Carioca
De terça-feira a domingo, 10h às 21h
Entrada Franca
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