sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Miriam Mambrini - Vícios Ocultos

Miriam Mambrini - Vícios Ocultos - Bom Texto Editora/Mauad - 193 páginas - Lançamento 2009 (disponível em livro e audiolivro).

Fiquei surpreso com o domínio técnico e segurança de Miriam Mambrini ao ler os treze contos reunidos neste "Vícios Ocultos", livro que recebeu muito pouca divulgação na época do lançamento devido às dificuldades do nosso mercado editorial. Os textos são contemporâneos, mas com sabor de antigos clássicos da literatura brasileira que formaram a nossa tradição de qualidade nas narrativas curtas. A autora se enquadra muito bem neste estilo breve, escrevendo com originalidade, concisão e bom humor sobre personagens envolvidos em situações-limite e inusitadas, decorrentes de suas estranhas opções de vida, incompatíveis com os padrões de "normalidade" impostos pela sociedade em que vivem ou sobrevivem, padrões nem sempre razoáveis e muitas vezes hipócritas, é bom que se diga. 

Uma novidade interessante, cada um dos treze contos é precedido por uma epígrafe exclusiva solicitada por Miriam Mambrini a autores de sua relação, tais como: João Silvério Trevisan, Luis Ruffato e Adriana Lisboa, ideia original e que se mostrou eficiente como diálogo e contraponto aos textos, funcionando ao mesmo tempo como introdução e espelho poético, gerando múltiplas interpretações.

Em "Nanismo", conto de abertura, não é exatamente um "vício" que serve como matéria-prima, mas sim uma espécie de tara incomum do protagonista devido à sua preferência pelo ideal de beleza feminina na forma de mulheres anãs, um desvio da normalidade e um argumento que chega ao limite do "politicamente correto", mas que a autora desenvolve com segurança, esquivando-se com bom humor e ironia de uma eventual interpretação injustamente preconceituosa: 
"Gostaria de ficar tranquilo ao lado da minha esposa, aqui nesta cidadezinha pacata onde escolhi passar meus últimos anos de vida, mas descobri que há uma anã morando não muito longe da minha casa. Eu a vi algumas vezes no ônibus em que vou ao centro receber minha pensão de aposentado ou fazer compras. Ela é jovem, tem o tronco excepcionalmente desenvolvido e as pernas miúdas. Em seu rosto largo, os olhos saltados como os de uma rã, têm um brilho úmido e lacrimejante. Seus cabelos ralos também brilham, oleosos, precisados de um xampu. Costumo desviar os olhos de corcundas, pernetas obesos, esqueléticos ou de qualquer outro tipo esdrúxulo, mas não consigo deixar de olhar para as anãs, discretamente, é verdade." (pág. 13)
Um dos melhores contos desta edição, "Freio nos dentes" (leia aqui o texto completo disponibilizado pela autora em seu site oficial) poderia constar de qualquer antologia sem fazer feio, na verdade me passou uma sensação de estar lendo Lygia Fagundes Telles, o que definitivamente não é pouca coisa. Novamente não é um "vício" que norteia a criação, mas sim as reminiscências da protagonista que retorna ao Brasil depois de muitos anos para visitar a mãe já idosa e muito doente, um acerto de contas com o passado e a revelação sobre os motivos do afastamento entre mãe e filha.
"Quando nasci, depois da Gilda e do Marcos, ela olhou meu rosto de bebê e achou que eu parecia um anjo. Por isso me deu o nome de Ângela. Mais tarde, quando já se haviam passado dezoito anos daquele engano, ela disse que eu só era anjo no nome. Ou então, era o anjo caído, o anjo das trevas. O Leo começou a frequentar nossa casa uns dois anos depois do nosso pai ter se casado de novo. Tinha dez anos menos do que ela, mas ninguém dizia, ou ela dizia que ninguém dizia. A verdade é que ainda era muito bonita e se arrumava cada vez mais demoradamente e com mais cuidado. Leo cheirava a fumo de cachimbo da melhor qualidade, um fumo dourado que guardava numa bolsinha de couro. Ele mesmo era dourado, cabelos, sobrancelhas." (pág. 57)
Em "Numa folha de papel", a epígrafe de Sônia Peçanha resume o espírito do que estamos prestes a ler: "Viver? Um vício. Só a morte cura". Um executivo bem sucedido em sua carreira e que sempre priorizou o trabalho em detrimento da família é subitamente tomado por um forte sentimento de iminência da morte em uma de suas muitas viagens, este pressentimento ocorre em pleno voo, levando-o ao desespero e a rever todos os seus conceitos. Será que há tempo para o pobre homem se reabilitar? Talvez ainda houvesse tempo para uma carta... O leitor é brindado por um final surpreendente.
"Fechou os olhos e tentou rezar. Era católico, pelo menos fora batizado e fizera primeira comunhão. Talvez Deus o ouvisse. 'Me poupe, Senhor Deus, Pai Eterno. Se o senhor me deixar viver, a partir de agora irei à missa todos os domingos e darei dinheiro para as obras sociais da igreja. Dez por cento do que ganho. O dízimo.' Pensou um pouco. 'Dez por cento é muito. Cinco por cento já é bastante.' Sentiu logo que estava no caminho errado, não era hora de barganhar com ninguém menos do que Deus, Todo-Poderoso. Na verdade, não adiantava rezar, nem pedir, nem implorar. Se não lembrara de Jesus, nem da Virgem Maria, nem dos santos e anjos antes, recorrer a eles naquele momento era falta de vergonha na cara." (pág. 153)
Um livro recomendado, daquele tipo fácil de ler e difícil de largar. Clique aqui para conhecer o site oficial da autora e aqui para a página do livro "Vícios Ocultos" no Facebook. Leia aqui a resenha do Mundo de K para o romance "A Bela Helena" e outras informações sobre Miriam Mambrini.

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Karl Ove Knausgård - A Morte do Pai

Karl Ove Knausgård - A Morte do Pai - Editora Companhia das Letras - 512 páginas - Lançamento no Brasil em 07/05/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O autor norueguês Karl Ove Knausgård (pronuncia-se "quenausgorde") levou ao extremo o recurso da autoficção ao escrever um romance com base na sua própria biografia com um total de 3.500 páginas, publicado em seis volumes em sua terra natal. O fato é que a série completa ainda está em processo de tradução (no Brasil, a Editora Companhia das Letras já lançou os três primeiros volumes), mas encontrou forte identificação em leitores de todo o mundo e elogios da crítica que considerou o autor como uma espécie de Marcel Proust da era moderna. Este  "A Morte do Pai" é portanto o primeiro volume da série completa chamada de "Minha Luta" (uma provocação utilizando o mesmo título do livro de Adolf Hitler, "Mein Kampf") e, como explicitado, trata principalmente das relações e do acerto de contas com o passado, tendo como pano de fundo a morte do seu pai.

Ao misturar memorialismo com ensaio e ficção, o autor criou um estilo difícil de definir, descrições banais sobre atos do cotidiano como: comprar cigarros, preparar o café ou limpar os azulejos do banheiro, contrastam com complexas observações existenciais sobre a passagem do tempo. A abertura do romance (vamos chamá-lo de romance na falta de definição melhor) é direta e surpreendente, assim como as primeiras reflexões de Knausgård comentando justamente sobre a morte e o modo como é tratada em nossa sociedade, um exemplo claro do realismo brutal que o leitor está prestes a enfrentar nas próximas páginas e também sobre a dificuldade que terá para interromper a leitura:
"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de 'gentlemen's agreement' que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território. Por outro lado, é um processo inexorável. Bactérias, um exército delas, começam a se alastrar pelo interior do corpo sem que nada possa detê-las. Houvessem tentado apenas algumas horas antes, e teriam enfrentado uma resistência cerrada, mas agora tudo em volta está calmo, e elas avançam pelas profundezas escuras e úmidas (...) E chegam ao coração. Ele continua intacto, mas se recusa a pulsar, atividade para a qual toda a sua estrutura foi construída. É um cenário desolador e estranho, como uma fábrica que trabalhadores tivessem sido obrigados a evacuar às pressas, os veículos parados a projetar as luzes amarelas dos faróis na escuridão da floresta, os galpões abandonados, os vagões carregados sobre os trilhos, um atrás do outro, estacionados na encosta da montanha." (págs. 7 e 8)
A narrativa em primeira pessoa não é linear, o tempo presente é 2008, ano no qual Karl Ove com trinta e nove anos, casado pela segunda vez e com três filhos desta relação, relembra em uma sequência aleatória e não cronológica os eventos principais de sua vida desde os oito anos. No trecho abaixo ele discorre sobre o pacato cotidiano familiar e as dificuldades que se impõem para realizar o seu trabalho de escritor. O conflito normal sobre o que ocultar e o que revelar, principalmente em uma obra que utiliza a própria vida como matéria-prima, exige coragem e pode levar a conclusões sinceras, mas desconcertantes, como na passagem abaixo:
"A sensação de felicidade que experimento não me ocorre exatamente como um turbilhão, está mais próxima do prazer e da tranquilidade, não importa, tudo é felicidade. Em certos momentos, talvez, seja até êxtase. E isso não é o bastante? Não é o bastante? Sim, se o objetivo fosse a felicidade, seria o bastante. Mas a felicidade não é meu objetivo, jamais foi, para que vou querê-la? Tampouco a família é meu objetivo. Se fosse, poderia devotar a ela toda a minha energia, seria fantástico, não tenho dúvida (...) Faço tudo que posso pela família, é meu dever. Resistir é a única coisa que a vida me ensinou, sem jamais fazer perguntas, incendiando toda essa angústia através da escrita. Não faço a menor ideia de onde vem esse ideal e, quando o vejo diante de mim, preto no branco, acho tudo um pouco perverso: por que o dever antes da felicidade? A pergunta sobre a felicidade é banal, mas não a que se segue, a pergunta sobre o sentido. Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha." (págs. 35 e 36).
Nem todos os momentos são pesados, o período da adolescência do autor quando ele tem as primeiras experiências com garotas e forma uma banda de rock com os colegas é bastante divertido, principalmente para quem viveu aquela época ou passou por uma experiência semelhante de guitarrista frustrado (meu caso, por exemplo). Especialmente os preparativos para um show no shopping da pequena cidade, o ensaio do repertório com versões instrumentais de Smoke on the Water do Deep Purple, Paranoid do Black Sabbath, Black Magic Woman de Santana e o clássico do Police, So Lonely, que termina em um fracasso retumbante. Por sinal, a "playlist" do romance é excepcional com The Clash, Joy Division, New Order, Talking Heads, David Bowie e Velvet Underground, para citar apenas alguns exemplos.

No entanto, a morte é mesmo o assunto principal neste primeiro volume. Todos os preparativos para o funeral do pai que faleceu em decorrência do alcoolismo e o estado de destruição em que se encontra a casa em que ele morava juntamente com a avó paterna já senil. Na Noruega, os enterros ocorrem depois de uma semana do falecimento e este é o tempo que Knausgård e o irmão precisam para limpar toda a casa em uma tentativa de exorcizar o passado, lembrando de eventos da intimidade familiar, sem esconder os detalhes mais sórdidos e da influência negativa que o pai exerceu na formação dos dois. Não é um livro fácil, mas certamente está entre as melhores produções da literatura neste início do século XXI, onde o homem continua arrebatado por assuntos existenciais e ainda perplexo diante da morte.
"Agora eu via somente a ausência de vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele. Pois os seres humanos são apenas formas em meio a outras formas, as quais o mundo não cessa de reproduzir, não só naquilo que tem vida, mas também naquilo que não tem, desenhado na areia, na pedra e na água. E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão." (pág. 402)

domingo, janeiro 24, 2016

Lygia Fagundes Telles - Ciranda de Pedra

Lygia Fagundes Telles - Ciranda de Pedra - 224 páginas - Lançamento original 1954, reeditado pela Companhia das Letras em 20/10/2009 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O talento de Lygia no domínio da narrativa curta é comparável aos maiores mestres do gênero, tais como Tchekhov e Nabokov (leia aqui a resenha do Mundo de K para a antologia de contos "Antes do Baile Verde"). Neste seu primeiro romance já fica clara esta preferência da autora pela precisão no texto, assim como as mínimas interferências do narrador, definindo em poucos traços e indícios sutis o perfil psicológico dos personagens. De fato, em "Ciranda de Pedra", o leitor vai descobrindo pelos olhos da protagonista Virgínia, uma criança na primeira parte do romance, os detalhes do seu envolvimento com as duas irmãs, Otávia e Bruna, os motivos da separação dos pais e de ter sido ela, filha caçula, a única das três filhas a ter saído de casa e ido morar com a mãe e o homem causador da separação.

Virgínia cresceu dividida entre o amor pela mãe, que sofria de problemas mentais, e o desejo de morar no rico casarão com o pai e as duas irmãs. Quando a saúde da mãe parece piorar em uma situação incontornável, ela finalmente se muda para a casa do pai, mas não consegue se adaptar ao novo estilo de vida e, principalmente, à "ciranda" formada pelas irmãs e os vizinhos Conrado e Letícia, onde ela é sempre excluída ou, pelo menos, se sente excluída. O magistral trecho abaixo, mostra como a solitária menina toma conhecimento da morte da mãe ao escutar escondida a conversa entre o pai e a governanta da casa:
"Entrou meio ofegante no vestíbulo e só diante da porta do escritório é que viu como estava despenteada, o vestido amarrotado, as meias desabando sobre os sapatos. Puxou-as, alisou os cabelos com as mãos e já ia se precipitar pela porta adentro quando ouviu uma voz. Era o pai:
— Será melhor elas irem amanhã, um pouco antes do enterro. Que é que a senhora acha?
Virgínia estacou. Enterro. Enterro de quem?
— Precisamos então prepará-las desde hoje — disse Frau Herta. — O choque será menor...
Choque? Que é que os dois tramavam em voz baixa? Retrocedendo alguns passos, ela levou a mão à boca e pôs-se a procurar avidamente a unha na qual restasse ainda algo a roer. Agitava-a um vago desejo de fuga, mas ao mesmo tempo sentia-se presa ali, o olhar cravado na porta como se ela fosse vidro transparente: via o pai inclinado sobre a mesa, as feições contrafeitas, o cachimbo fechado na mão. Falava meio entre dentes, tentando controlar o tremor da voz. Sentada defronte, a governanta, tamborilando com os dedos espalmados nos braços da poltrona.
— Sim, será preciso prepará-las — disse ele lentamente. — A senhora pode ir chamar Virgínia, falarei já com ela. E assim que as duas chegarem do colégio, que venham aqui.
— E Otávia que anda tão acabrunhada! A pobrezinha não se esquece da gata, faz alguns dias, o senhor se lembra... Precisamos pensar num jeito de dar essa notícia a ela...
O silêncio foi riscado por um fósforo, ele devia estar acendendo o cachimbo.
— Será mais fácil com Bruna e Otávia, estou pensando é em Virgínia... Ela estava certa de que a mãe tinha melhorado, que ia ficar completamente curada, ainda ontem conversou comigo.
Virgínia concordou evasivamente, é verdade, é verdade, tinha falado nisso. Foi se afastando sem ruído, aconchegada à penumbra dos cantos. Lá dentro, o diálogo prosseguia, mas as vozes foram ficando reduzidas, abafadas como se viessem de dentro de uma caixa. 'Da caixa de charutos. Se cair a tampa, a gente não ouve mais nada.' Deslizou a mão pelo espaldar de uma poltrona, lançou um olhar distraído à tapeçaria, 'aquilo era um coelho?' — e chegou até à porta. Aguçou os ouvidos. Sorriu. O pai e Frau Herta eram duas pessoinhas menores do que uma avelã, presas numa caixa, a tampa caíra e as vozes ficaram para sempre encerradas lá dentro, 'não vão sair nunca mais!' — pensou, abrindo a porta.
A luz do sol atingiu-a de chofre. Instintivamente quis recuar, mas era tarde. O enterro seria amanhã. 'Não! — sussurrou saindo em desabalada corrida pelo gramado afora. — Não sei de nada, não ouvi nada, não ouvi!...' Escondeu-se debaixo da mesa do caramanchão e fixou o olhar na casa, 'é mentira, não aconteceu nada, ela não vem me chamar, eu sonhei!'
O vulto escuro da governanta surgiu na porta. Surgiu e veio vindo rápido no sentido do caramanchão, crescendo cada vez mais, ah! a caixa ficara aberta e ela escapara de dentro, enorme, cada vez maior, já podia ver-lhe as feições, já podia até ver-lhe os lábios franzidos, a ensaiarem a frase antes de dizê-la: 'Venha que seu pai quer falar com você.'
Olhou em redor, desvairada pensou ainda em fugir. Mas estava presa no emaranhado das trepadeiras, só havia uma saída, e por esta, vinha a mulher, reta, implacável:
— Virgínia, seu pai quer falar com você.
Desabou então de joelhos, encolhida como um bicho.
— Não! Não!... — gritou tapando os ouvidos. E escondeu a face lívida nos pedregulhos do chão."
Virgínia, por vontade própria, é criada em um internato e retorna muitos anos depois na segunda parte do romance, pensando em uma vingança que irá expor muitas situações contidas no grupo familiar e amigos, envolvendo adultério e homossexualidade, temas considerados tabus na sociedade da época. Um romance já considerado clássico na literatura nacional e que vale a pena conhecer ou reler.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Jostein Gaarder - O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder - O Mundo de Sofia - Editora Companhia das Letras, Selo Seguinte - 568 páginas - Lançamento 19/11/2012 - Tradução direta do norueguês por Leonardo Pinto Silva (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O romance da história da filosofia como indica o subtítulo da edição brasileira e também como ficou conhecida a obra do norueguês Jostein Gaarder, traduzido para mais de cinquenta idiomas e sucesso de vendas  em todo o mundo, inclusive no Brasil, com mais de um milhão de exemplares vendidos. Um livro que ajudou a divulgar o estudo da filosofia para o grande público através de uma linguagem simples e comparações didáticas que reduzem a complexidade de algumas escolas filosóficas desde o período pré-socrático até o existencialismo do século XX, sempre com uma abordagem clara sobre o contexto histórico (bem que a Companhia das Letras poderia ter caprichado um pouco mais no projeto gráfico da capa desta nova edição, bem inferior à primeira versão).

O argumento do romance é um suspense que tem como base alguns eventos misteriosos que a jovem Sofia Amundsen, que está para completar quinze anos, precisará descobrir à partir de estranhos bilhetes com questionamentos como "Quem é você?", "De onde vem o mundo?" e cópias de cartões postais endereçados para outra adolescente chamada Hilde Møller Knag. As mensagens remetem a questões importantes do pensamento filosófico ocidental e Sofia contará com a ajuda do professor de filosofia Alberto Knox nesta viagem ao entendimento. Em cada capítulo é abordada uma escola filosófica diferente: os filósofos de Atenas (Sócrates, Platão e Aristóteles), o desenvolvimento do Cristianismo, Idade Média, Renascença, Barroco, Descartes, Espinosa, Locke, Hume, Berkeley, Iluminismo, Kant, Romantismo, Hegel Kierkegaard, Marx, Jean-Paul Sartre e tantos outros de uma forma sempre leve e estimulante.
"Parada na trilha de pedriscos em meio ao jardim, ela se pôs a pensar, desconfiada. Tentou se concentrar no fato de existir agora, esquecendo que um dia deixaria de estar ali. Mas isso era de todo impossível. Assim que pensava na sua existência, automaticamente imaginava que sua vida teria um fim. Ao mesmo tempo, lhe ocorria o contrário: primeiro ela teve uma forte sensação de que um dia deixaria de existir, e logo percebeu quão infinitamente maravilhosa é a vida. Eram duas faces da mesma moeda, uma moeda que ela não parava de virar. Quanto maior e mais brilhante era um lado, maior e mais brilhante também era o outro. Vida e morte eram os dois lados da mesma coisa." (pág. 17)
"Mas, se o universo subitamente tivesse surgido a partir de outra coisa, essa outra coisa também teria que ter surgido de mais outra coisa, essa outra coisa também teria que ter surgido de mais outra coisa. Sofia sentia que estava apenas roçando um problema maior. No fim das contas, algo teria que ter surgido a partir do nada. Mas isso fazia sentido? Não seria também impossível imaginar que o universo sempre existira? (...) Na escola ensinavam que Deus havia criado o mundo, e agora Sofia procurava acalmar sua mente achando que aquela era a melhor explicação para o problema. Mas logo ela retomou o pensamento. Podia muito bem lidar com a ideia de que Deus havia criado o universo, mas e quanto ao próprio Deus? Ele havia criado a Si mesmo, do nada? De novo, algo dento dela rejeitava aquilo. Apesar de Deus conseguir criar um homem atrás de outro, Ele jamais conseguiria criar a Si mesmo antes de ter se tornado 'um ser' capaz de criar outro. Logo, só restava uma possibilidade: Deus sempre existiu. Mas essa possibilidade ela já afastara. Tudo que existia tinha de ter tido um começo. (pág. 19)
Não é uma resenha que deva avançar muito sobre as descobertas da jovem protagonista Sofia Amundsen, devido ao risco de estragar as surpresas do leitor, já que a trama principal também é bastante criativa e envolvente. Um livro fundamental e de leitura muito agradável, mesmo tratando de assuntos que costumam desmotivar muita gente como a filosofia, história e ciências, principalmente o público jovem (na verdade, o autor declarou que escreveu este livro principalmente pensando nos jovens, devido à falta de livros didáticos sobre filosofia). De qualquer forma, é um daqueles livros que agradam a todas as idades e pede releituras.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Exposição Múltiplo Leminski


Finalmente chegou ao Rio de Janeiro a exposição Múltiplo Leminski que já foi visitada por cerca de 350 mil pessoas em sete capitais brasileiras. Reunindo um grande acervo da família do poeta Paulo Leminski (1944 - 1989), a mostra ficará em cartaz até 06 de março  de 2016 na CAIXA Cultural. São mais de mil objetos originais entre fotos, livros, pinturas, poesias, vídeos e filmes. Um programa imperdível para os fãs de Leminski que poderão conhecer outras expressões artísticas do poeta, tais como: músico, compositor, romancista, tradutor, ensaísta, judoca e publicitário. Conheça a página oficial da exposição com este link ou clique aqui para seguir no facebook com atualizações, fotos, vídeos e muitos poemas do autor.

    Diversonagens suspersas
    (Paulo Leminski)

    Meu verso, temo, vem do berço.
    Não versejo porque quero,
    versejo quando converso
    e converso por conversar.
    Pra que sirvo senão pra isto,
    pra ser vinte e pra ser visto,
    pra ser versa e pra ser vice,
    pra ser a supersuperfície
    onde o verbo vem ser mais?

    Não sirvo pra observar.
    Verso, persevero e conservo
    um susto de quem se perde
    no exato lugar onde está.

    Onde estará meu verso?
    Em algum lugar de um lugar,
    onde o avesso do inverso
    começa a ver e ficar.
    Por mais prosas que eu perverta,
    não permita Deus que eu perca
    meu jeito de versejar.


Exposição Múltiplo Leminski
Entrada Franca
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Galeria 4
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25 - Centro (Metrô Carioca)
Visitação: 10 de janeiro a 6 de março de 2016
Horário: de terça-feira a domingo, das 10h às 21h

quinta-feira, janeiro 14, 2016

As aquarelas hiper-realistas de Liu Yungsheng


O hiper-realismo já é um movimento conhecido, utilizando normalmente técnicas como o uso de Airbrush (Aerógrafo) e até mesmo fotografias digitais como ponto de partida para conseguir maior fidelidade e aspecto mais realista. Há críticos que desprezam e não identificam este movimento como arte contemporânea devido à facilidade do apelo comercial. No entanto, o que é novo e surpreendente no trabalho do artista chinês Liu Yungsheng é o resultado obtido através de técnicas tradicionais de pintura com aquarela que conseguem reproduzir o efeito da luz e detalhes dos modelos como se observássemos uma fotografia (cliquem nas imagens para ampliá-las).


Nascido em Xangai em 1958, Liu Yungsheng valoriza os temas da região do Tibet, principalmente o olhar da gente simples de seu povo, transformando o que poderia ser apenas uma curiosa técnica em pura arte. Obras que remetem a um sentimento de humanidade universal e expressam a força da vida cotidiana através dos rostos de mulheres, crianças e idosos. Bonitas imagens que dispensam maiores explicações e transmitem algum tipo de esperança na raça humana, infelizmente já tão desacreditada.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Haruki Murakami - Homens sem Mulheres

Haruki Murakami - Homens sem Mulheres - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - 240 páginas - Tradução direta do japonês por Eunice Suenaga - Lançamento no Brasil 01/10/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Sete contos inéditos no Brasil, sendo três deles já traduzidos para o inglês em 2015 e lançados em revistas literárias como a New Yorker, siga os links para conhecer: Yesterday, Sherazade e Kino. Todos os textos têm uma unidade temática que os ligam com diferentes abordagens: a solidão e o abandono do ponto de vista masculino, a dificuldade dos homens em entender e lidar com o universo feminino. Um dos personagens, por exemplo, afirma que as mulheres nascem com uma espécie de órgão independente especial para mentir, principalmente para assuntos importantes e são capazes de não alterar a expressão do rosto nem o tom de voz nesse momento. É claro que nem todas as narrativas têm este foco, de certa forma, "machista". De qualquer forma, uma característica comum e marcante de todos os contos é que, normalmente, há sempre o elemento da traição feminina, algumas vezes conhecida e consentida pelo parceiro, fazendo aumentar ainda mais a solidão e sofrimento desses tristes homens sem mulheres. Os fãs do autor encontrarão novamente as já tradicionais referências ao mundo ocidental, principalmente nas influências literárias. Um dos contos, Samsa apaixonado, é uma criativa fábula com base no clássico de Franz Kafka, Metamorfose, ao inverso, um inseto se transformando em homem. Sem falar na presença da música clássica, jazz e rock e, é claro, os misteriosos gatos, sempre uma participação garantida em seus romances e contos.

Em Drive my car, Kafuku, ator viúvo de meia idade, contrata os serviços de Misaki, uma motorista que acaba se transformando em excelente e silenciosa ouvinte de sua história. É claro que Murakami não se limitaria a imaginar um simples carro japonês ou outro modelo mais caro e sofisticado, contudo sem muita imaginação, como um Porsche ou BMW. O protagonista é dono de um SAAB 900 amarelo conversível com transmissão manual, bem a cara de Murakami não é mesmo? Um dia, em um congestionamento na Via Expressa Metropolitana de Tóquio, Kafuku conta como conheceu propositalmente o último amante da sua falecida mulher para tentar entender por que ela precisava traí-lo. Durante os vinte anos de casamento ele nunca revelou que conhecia as relações clandestinas da esposa que iniciaram após terem perdido um filho, contudo, ele fingia levar uma vida normal com medo de perdê-la. A busca de uma resposta é dolorosa e talvez inútil, mas ele não consegue evitar.
"No banco do passageiro, Kafuku pensava muito na sua falecida esposa. Por alguma razão, desde que Misaki começara a dirigir o seu carro, ele se lembrava da esposa com frequência. Ela também era atriz, dois anos mais nova que ele e tinha um rosto bonito (...) Kafuku amava a esposa. Sentiu uma forte atração por ela logo que a conheceu (ele tinha vinta e nove anos) e o sentimento não mudou até ela morrer (ele já estava com quarenta e nove). Enquanto foram casados, nunca dormiu com outra mulher. Não por falta de oportunidade, mas não sentiu vontade nenhuma vez. Entretanto, sua esposa dormia com outros homens de vez em quando. Kafuku ficou sabendo de quatro deles. Ela manteve relações sexuais regulares com ao menos quatro homens. É claro que sua esposa agia como se nada estivesse acontecendo, mas ele logo percebia que ela estava se entregando a outros homens, em outros lugares." (Drive my car - pág. 19)
Já no conto "Órgão independente", Tokai é um cirurgião plástico de cinquenta e dois anos de grande sucesso profissional e facilidade com as mulheres. Ele nunca desejou se casar e constituir uma família. Por este motivo sempre se envolvia com mulheres casadas ou em outros relacionamentos mais sérios. Ele nunca se incomodou pelo fato das namoradas dormirem com outros homens, pois entendia que o "corpo não passava de um objeto carnal". Tudo caminhava bem na sua vida até que ele se apaixona por uma dessas namoradas casuais, estabelecendo pela primeira vez um forte vínculo afetivo como confessa neste trecho: "Quando o coração dela se move, o meu é puxado junto. Como dois botes presos por uma corda. Mesmo querendo cortá-la, não encontro em lugar nenhum uma faca que possa fazer isso". No entanto, o desfecho deste caso não é exatamente o que se poderia chamar de um final feliz para o protagonista.
"Para Tokai, o próprio momento de dividir a mesa, tomar uma taça de vinho e aproveitar a conversa com as namoradas já representava um enorme prazer. O sexo não passava de uma 'diversão adicional', uma extensão desse momento, e não era o objetivo final. O que ele buscava acima de tudo era um contato íntimo e intelectual com mulheres atraentes. O resto era o resto. Por isso as mulheres se sentiam naturalmente atraídas por Tokai, divertiam-se sem reservas na sua companhia e, como consequência, passavam a noite com ele (...) Ele nunca se viu envolvido em um problema sério com mulheres. Não lhe agradavam conflitos emocionais complicados. Quando uma nuvem escura despontava próxima ao horizonte, ele se afastava de forma hábil e elegante, sem agravar a situação e sem magoar a namorada, na medida do possível." (Órgão independente - págs.  88 e 89)
Em "Homens sem mulheres", a narrativa é um pouco mais complexa e inicia com o protagonista sendo acordado por uma ligação na madrugada de um homem desconhecido, que dá a seguinte notícia sobre uma antiga ex-namorada: "Minha mulher se matou na quarta-feira da semana passada. Em todo o caso, achei que tinha de avisá-lo".
"E, no final das contas, ela morreu. Um telefonema no meio da noite me dá a notícia. Não sei o lugar, o meio o motivo nem o objetivo, mas de qualquer forma Eme resolveu dar fim à própria vida e conseguiu. Partiu (provavelmente) em silêncio deste mundo real (...) Com a morte dela, sinto que perdi para sempre a parte de mim que tinha catorze anos. Como a camisa aposentada de beisebol, a parte de mim que tinha catorze anos foi arrancada da minha vida pelas raízes. ela foi guardada em algum cofre robusto que foi fechado com uma chave complexa e afundado no mar." (Homens sem mulheres - pág. 230)
"Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição nem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os 'homens sem mulheres'. Em um plural infinitamente indiferente." (Homens sem mulheres - pág. 231)

terça-feira, janeiro 05, 2016

Graciliano Ramos - Conversas

Graciliano Ramos - Conversas - Editora Record - 420 páginas - Organização Ieda Lebensztayn e Thiago Mia Salla - Lançamento 2014.

Graciliano Ramos (1892 - 1953) sempre foi conhecido como homem ensimesmado e avesso a conversas, costumava declarar inclusive que não gostava de vizinhos. Essa postura intimista do autor reveste a iniciativa desta edição de uma importância ainda maior porque, devido à característica arredia do velho Graça, como era chamado nos encontros na livraria José Olympio no Rio de Janeiro pelos amigos intelectuais da época como: Aurélio Buarque de Holanda, José Lins do Rego e Otto Maria Carpeaux, entre outros (provando que ele não era assim tão introspectivo), existe hoje uma carência de informações sobre o seu modo de pensar e fazer literatura o que justifica este livro como um resgate do nosso patrimônio cultural e uma chance de conhecermos um pouco mais dos pensamentos do autor de "Vidas Secas", uma das obras mais importantes já escritas em nosso país. 

O livro reúne material publicado sobre Graciliano Ramos em jornais e revistas desde 1910 até 1953 e é organizado de forma cronológica em três partes: 1) entrevistas, 2) enquetes e depoimentos e 3) causos (pequenos eventos folclóricos de caráter anedótico), acrescentando ainda os seguintes anexos: índice onomástico, cronologia, bibliografia completa e referências de antologias, entrevistas e obras em colaboração. Selecionei abaixo algumas passagens do pensamento de Graciliano sobre literatura, política e outras questões importantes da época.

Publicado em 1947 na Tribuna Popular, diário fundado por intelectuais e militantes ligados ao Partido Comunista do Brasil, sobre o período em que esteve preso no presídio de Ilha Grande (que seria descrito em detalhes por Graciliano no livro "Memórias do Cárcere", lançado postumamente em 1953):
Recordando Olga Benário Prestes 
— Olga Benário Prestes foi minha vizinha de cubículo. Ela estava na sala 4 e eu no cubículo 50, no Pavilhão dos Primários. Lembro-me bastante da sua figura, da sua energia. Da noite em que a retiraram, a fim de enviá-la para a Alemanha, não me esqueço nunca. Eu estava, então, na Sala da Capela. De lá ouvíamos os protestos das outras mulheres e os gritos dos policiais. Inventaram que ela seria levada, em virtude da sua gravidez, para o hospital Gaffrée e Guinle. Mas assim que se viram na rua os policiais desfizeram-se da amiga e do médico, que acompanhavam Olga Benário. Uma única vez falei com ela; foi numa das minhas transferências, quando me despedi de todos os companheiros de prisão.
O capítulo Ilha Grande 
— Na Colônia Correcional, na Ilha Grande, recebi como todos os outros presos a minha "zebra", a roupa de listas azuis, logo depois da chegada. Como os demais, tive a minha cabeça raspada. As cabeças eram raspadas para que os tijolos, que se carregavam, doessem mais. Mas essa satisfação eu não dei aos policiais de Ilha Grande, pois logo depois caí doente, com uma febre violenta. Fiquei numa esteira, imprestável.
As heranças do presídio 
— Depois da febre — continua Graciliano Ramos — tive uma polinevrite, que me reduziu à expressão mais simples. Depois da polinevrite, em consequência dos maus tratos e da fome, veio a tuberculose. Por causa do meu estado de saúde, bastante grave, não passei mais tempo na Ilha Grande, com aquela vestimenta de "zebra", com a cabeça raspada, tomando uma canequinha de café todas as manhãs com um pãozinho que chamamos de "marrocos" (...) As camas eram feitas com areia da praia. Havia um excesso de mosquitos e a comida vinha sempre cheia de moscas; pulgas, carrapatos, toda sorte de parasitas infestavam as camas.
Publicado em 1949 na Folha da Manhã, jornal que daria origem à Folha de São Paulo: "Afirma Graciliano Ramos: 'Não me considero um escritor'":
Sobre livros 
— Não gosto de nenhum dos meus livros, e, na literatura do mundo inteiro, para mim o maior livro não é um livro de literatura e sim a Bíblia. No entanto, gosto de Cervantes, Rabelais, Balzac, Tolstoi e Dostoievski. No Brasil, entre os romancistas aprecio Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Ainda, entre os contistas prefiro Machado de Assis, João Alphonsus e Marques Rebelo (...) Gosto da Bíblia, não porque ela me traga algum conforto moral. Talvez a prefira por uma tendência atávica. Gosto também da Divina Comédia de Dante. Estudei até o italiano somente para conhecer esta obra no original.
O homem 
— Não tenho saudades de nada. Não tenho predileções por nenhum prato. Odeio esportes. Não gosto de praias. Detesto viagens. Sou um animal sedentário; nasci para ostra: caramujo. Não tenho preferências por nenhuma cidade, por nenhum bairro. Vivo bem onde estou. O que não quero é mudar-me. Ainda hoje estaria lá nos sertões das Alagoas se não viesse preso para cá. Sim, vim preso num porão de navio, sem pagar passagem...
Finalmente, uma bonita citação do velho Graça já conhecida sobre o ofício de escrever para Joel Silveira em 1938, mas que vale a pena recordar no seu contexto original:
— Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Sabe como elas fazem? Elas começam com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lago ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.

sábado, janeiro 02, 2016

Banana Yoshimoto - Tsugumi

Banana Yoshimoto - Tsugumi - Editora Estação Liberdade - 184 páginas - tradução direta do japonês de Lica Hashimoto - Lançamento 2015 

Publicado originalmente em 1989, este livro é um exemplo do estilo delicado, intimista e simples de Banana Yoshimoto (para conhecer mais sobre a autora, leiam as resenhas de Kitchen e The Lake no Mundo de K), estilo que ajudou muito a popularizar outros escritores japoneses contemporâneos no ocidente e rendeu vários prêmios à autora em todo o mundo.

O romance é narrado em primeira pessoa por Maria Shirakawa que vive desde pequena com a mãe nos fundos de uma pousada localizada em uma das cidades do complexo balneário da península de Izu, a pousada é propriedade dos tios e ela cresce em companhia das duas primas, Yoko e Tsugumi. Maria precisará se mudar para Tóquio, onde cursará a faculdade, depois que o pai decidiu assumir a relação clandestina com a mãe e terminar o seu casamento oficial sem filhos (uma situação pouco comum, mesmo no Japão atual). De qualquer forma, o argumento principal do livro tem como base a personagem Tsugumi que, apesar da saúde frágil, é dona de uma personalidade forte e dominadora devido ao fato de ter sido sempre mimada pelos pais, em contraste com o caráter gentil e a simpatia da irmã,Yoko.
"Tsugumi nasceu com a saúde bastante debilitada e com vários de seus órgãos seriamente comprometidos. Os médicos declararam que sua expectativa de vida era baixa e a família, de certo modo, estava conformada com a situação. Por isso, todos que gravitavam em torno dela mimavam-na em excesso, e sua mãe jamais mediu esforços para aumentar a expectativa de vida da filha, levando-a a vários hospitais espalhados pelo Japão. Quando Tsugumi começou a dar os primeiros passos, todos esses mimos e cuidados transformaram-na em uma pessoa extremamente hostil. E, quando passou a ter uma vida quase normal, o fato de se sentir bem estimulou e potencializou a plena manifestação de uma tirânica prepotência que se tornou um atributo de sua personalidade. Tsugumi era cruel, ríspida, boca suja, egoísta, mimada e ardilosa. O ar de triunfo que ela exibia, quando descaradamente — no momento oportuno e de modo desagradável — resolvia jogar na cara, sem papas na língua, a pior coisa que a pessoa gostaria de ouvir, fazia dela o próprio demônio." (págs. 12 e 13)
É claro que o leitor logo descobrirá que Tsugumi não é absolutamente um demônio, mas sim a representação das próprias memórias de Banana Yoshimoto que busca reconstituir os sentimentos da sua adolescência, lembrando os momentos que viveu durante os verões que passou com os pais na península de Izu, como conta a própria autora no posfácio desta edição ("E devo admitir que Tsugumi sou eu. Do jeito que sou malvada, não há como negar isso"). A forma como a natureza é vivenciada pelas jovens personagens é encantadora e dificilmente conseguimos deixar de nos identificar em algumas partes. No meu caso em particular, tenho esta mesma relação com o mar por ter passado toda a minha infância e juventude em uma cidade litorânea — o sentimento parece ser o mesmo, no interior do Japão ou no Rio de Janeiro, como constatamos no trecho abaixo:
"O mar é fascinante. Quando duas pessoas estão a contemplá-lo, pouco importa se conversam ou se permanecem em silêncio. Ninguém cansa de vê-lo. E ainda que o mar esteja agitado, suas ondas nunca são ruidosas. (...) Eu estava inconformada de ter de me mudar para uma cidade sem mar. Sentia-me estranhamente insegura. Tanto nos bons momentos quanto nos ruins, no calor da alta temporada, no estrelado céu do inverno ou quando íamos para o santuário comemorar o Ano Novo, bastava girar a cabeça para encontrá-lo ali, no mesmo lugar, sempre presente, sendo criança ou adulta, e não importando se a vizinha tivesse morrido, ou se um médico tivesse acabado de ajudar a parir um bebê, ou se fosse o local do primeiro encontro ou de uma desilusão amorosa; a vastidão do mar sempre envolveu silenciosamente a cidade, repetindo com perfeição o ciclo das marés alta e baixa. Nos dias em que a visibilidade era boa, dava para ver com nitidez a praia do outro lado da baía. O mar pode não provocar um sentimento especial para quem o observa, mas ele sempre tem algo a ensinar. Por isso, apesar de nunca ter prestado a devida atenção nele ou no barulho da rebentação, passei a indagar o que as pessoas da capital costumam olhar para se sentir "equilibradas". Será que elas contemplam a lua? Mas a lua é por demais distante e pequenina em comparação ao mar e, não sei por que, ela me instigava uma sensação de solidão." (págs. 29 e 30).
A personagem-narradora Maria Shirakawa, sempre um elo de ligação entre as três amigas, é convidada por Tsugumi para passar um último e movimentado verão na pousada da família que será vendida em breve, durante essas últimas férias Tsugumi descobre o amor à sua própria maneira e as primas vivenciam juntas uma série de experiências que representarão uma despedida dos anos de juventude, uma espécie de morte inevitável pela qual todos nós passamos mais cedo ou mais tarde.
"Eu me senti ligeiramente solitária quando caminhei sozinha até a Pousada Yamamoto, em meio ao crepúsculo. Queria guardar no meu coração aquele sentimento melancólico de caminhar pela estrada de minha terra natal que eu perderia no final do verão. Assim como o céu do entardecer mudava rapidamente de cor, havia no mundo inúmeros e variados tipos de despedida, e eu não queria me esquecer de nenhum deles." (pág. 108)
Mais um ótimo lançamento da Editora Estação Liberdade que reúne um importante acervo de traduções de autores japoneses, este romance exige um momento de desaceleração do leitor e um esforço para se encontrar com suas próprias memórias de juventude, um tempo e uma disponibilidade difíceis de se conseguir em nosso movimentado cotidiano, principalmente devido às prioridades que definimos em nossas vidas, nem sempre bem escolhidas.

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Melhores leituras de 2015


A seleção de resenhas do ano, não necessariamente sobre livros lançados em 2015, reflete única e exclusivamente o meu gosto pessoal. É bom destacar que, como qualquer outra lista, também é incompleta e passível de questionamentos. Como premissa, considerei apenas obras de ficção, propositalmente excluindo autores brasileiros para melhor uniformidade. Foi um ano difícil em todos os sentidos, mas felizmente este não é um blog para discutir política, economia e desastres ambientais, para esses assuntos existem espaços próprios e melhor preparados. Desejo a todos um ótimo e inspirador 2016 com muitas leituras e releituras nas áreas de ficção (prosa e poesia), história, arte, cultura, música e filosofia. Espero continuar contando com a presença de vocês aqui no Mundo de K, sempre!

(01) Javier Marías - Assim começa o mal - Editora Companhia das Letras - 520 páginas - tradução de Eduardo Brandão - Lançamento no Brasil em 29/09/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora). 

(02) Mia Couto - Mulheres de Cinzas - Editora Companhia das Letras - 344 páginas -  Lançamento no Brasil 16/11/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

(03) Haruki Murakami - O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - 328 páginas - tradução de Eunice Suenaga - Lançamento 01/11/2014 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

(04) Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Tradução do inglês de Donaldson M. Garschagen - Lançamento 14/12/2011 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

(05) Llucia Ramis - Todo lo que una tarde murió con las bicicletasEditora Libros del Asteroide - 224 páginas - Lançamento 2013 - Prólogo de José Carlos Llop (leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

(06) Michel Houellebecq - Submissão - Editora Objetiva / Alfaguara - 256 páginas - tradução de Rosa Freire d'Aguiar - lançamento 20/04/2015 (leia aqui um trecho disponibilizado pela editora).

(07) Miguel Delibes - El Camino - Editora Planeta de Libros, Selo Austral - 172 páginas - Publicação 2010 (clique aqui para ler em pdf).

(08) Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao - Editora Riverhead Books - 339 páginas - lançamento 2007 (publicado no Brasil pela Editora Record em 2009 com o título de  "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", tradução de Flávia Rössler).

(09) Jennifer Egan - A visita cruel do tempo - Editora Intrínseca - 336 páginas -  Tradução de Fernanda Abreu - Lançamento 2010.

(10) Zadie Smith - NW - Editora Companhia das Letras - 336 páginas - tradução de Sara Grünhagen - Lançamento 29/04/2014 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Haruki Murakami - Sono

Haruki Murakami - Sono - 120 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Tradução direta do japonês por Lica Hashimoto - Ilustrações de Kat Menschik - Lançamento no Brasil 01/03/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Esta é uma edição especial de capa dura com apenas um conto escrito em 1990 por Haruki Murakami, incluindo sofisticadas ilustrações no estilo de graphic novel, uma espécie de presente para os fãs do autor. Na verdade, o conto já havia sido lançado na antologia, ainda não traduzida e publicada no Brasil, "The Elephant Vanishes", com o título de "Sleep" (ler aqui resenha do Mundo de K), mas não deixa de ser uma boa oportunidade para apreciar as sutilezas da tradução direta do japonês de Lica Hashimoto e o trabalho do ilustrador alemão Kat Menschik em lindas tonalidades azuladas que valorizam e, até certo ponto, justificam uma edição tão pequena com pouco mais de 100 páginas, mas que certamente encontrará boa receptividade no mercado, considerando a crescente legião de novos fãs no ocidente de um dos autores mais populares da literatura japonesa da atualidade.

Como sempre, Murakami trabalha em uma região que mistura o real e o fantástico nas brechas da rígida sociedade japonesa urbana. O que acontece quando uma típica e dedicada dona de casa (sem nome) passa a não conseguir dormir por dezessete dias seguidos, sem o menor sinal de cansaço? Quais são os impactos desta inexplicável "ampliação da existência" na rotina monótona do seu cotidiano? A narrativa, em tom confessional de primeira pessoa e em alta velocidade, tem início com a aparente simplicidade que só os autores que dominam a técnica do conto conseguem atingir, como constatamos na ótima abertura abaixo:
"É o décimo sétimo dia em que não consigo dormir.
Não se trata de insônia. Pois dela eu entendo um pouco. Na época da faculdade tive uma coisa parecida. Digo 'parecida', pois não posso afirmar categoricamente que aqueles sintomas estavam relacionados ao que as pessoas costumam chamar de insônia. Se eu tivesse procurado um médico, talvez ele teria me dito se aquilo era insônia ou não. Mas não procurei. Achei que seria perda de tempo. Uma decisão puramente intuitiva — desprovida de qualquer fundamento —, pautada pelo simples fato de eu achar que não valia a pena. Portanto, não procurei ajuda médica e, tampouco, quis comentar o fato com familiares e amigos. No fundo, eu sabia que, caso comentasse isso com alguém, certamente seria aconselhada a procurar um hospital." (pág. 5)

À princípio ela descobre o prazer de viver em um mundo paralelo, no qual encontra tempo para todas as atividades deixadas de lado desde a juventude, por exemplo, reler os romances preferidos como Ana Karenina, bebendo conhaque e comendo chocolate. Descobre novos significados na releitura de Tolstoi, muitos segredos nas entrelinhas que nunca tinha imaginado. E, no entanto, passada a fase inicial de aproveitamento do tempo e descobertas, vem aos poucos uma onda de melancolia e estranhamento em relação à própria vida e ao relacionamento com o marido e o filho (que nada percebem da sua existência paralela).
"Até então, eu achava que o sono era um tipo de morte. Ou seja, a morte seria uma extensão do sono. Em outras palavras, a morte era como dormir. Comparada ao sono, a morte era um sono bem mais profundo, sem consciência. Um descanso eterno, um blecaute. Era isso o que eu pensava.
Mas pode ser que eu esteja errada, pensei. Será que a morte pode ser um tipo de situação totalmente diferente do sono? Será que a morte não seria uma escuridão profundamente consciente e infinita, como a que estou presenciando agora? A morte pode ser uma eterna vigília na escuridão.
Se a morte é isso, é muito cruel. Se a morte não significa o descanso eterno, qual seria a salvação para as nossas vidas tão imperfeitas, tão cheias de incertezas? Ninguém sabe o que é a morte. Quem de fato a presenciou? Ninguém. A não ser quem já morreu. Entre os vivos, ninguém pode dizer o que é a morte. Aos vivos só resta fazer suposições. E a melhor suposição é apenas isso, uma suposição. Dizer que a morte é o descanso não faz sentido. A verdade só é revelada quando a pessoa morre. Nesse sentido, 'a morte pode ser qualquer coisa'." (págs. 100 e 101)

O leitor pressente que os eventos parecem levar a algum desfecho trágico e fora do controle da protagonista, principalmente quando as atividades noturnas evoluem da simples releitura de clássicos da juventude para passeios de carro solitários na madrugada, enquanto o marido e o filho dormem em casa. Ela não se enquadra mais na vida que levava até então, embora continue realizando as tarefas caseiras, agora precisa de respostas que expliquem o seu destino em rápida e irremediável transformação. O leitor solidário compartilha das suas reflexões enquanto ela dirige na estrada de Tóquio à Yokohama, sozinha na noite.
"Já passa das três da manhã, mas a quantidade de veículos na estrada ainda é grande. Os caminhões pesados, que vêm de oeste para leste, fazem o asfalto trepidar. Os caminhoneiros não dormem. Para aumentar o rendimento das entregas, eles dormem de dia e trabalham à noite.
'Eu poderia trabalhar de dia e de noite', penso. 'Afinal, não preciso dormir.'
Sob o ponto de vista biológico, sei que isso não é normal. Mas quem seria capaz de dizer o que é normal? O que se considera biologicamente normal nada mais é do que o resultado de um raciocínio pautado em experiências. E estou num ponto que ultrapassa esse tipo de raciocínio. Será que eu poderia me considerar um exemplar único, uma precursora da espécie humana, que deu um salto na cadeia evolutiva? Uma mulher que não dorme. Uma consciência expandida.
Eu abro um sorriso.
Um salto na cadeia evolutiva.
Sigo até o porto ouvindo música no rádio. Eu quero escutar música clássica, mas não encontro nenhuma estação que toque clássicos na madrugada. Todas as estações tocam apena rock japonês enfadonho. Músicas românticas ensebadas que dão nojo. São músicas que me fazem sentir que estou num local muito distante. Eu estou bem longe de Mozart e Haydn." (págs. 104 e 105)

sábado, dezembro 26, 2015

Philip K. Dick - Androides sonham com ovelhas elétricas?

Philip K. Dick - Androides sonham com ovelhas elétricas? - 272 páginas - Editora Aleph - Tradução do original "Do androids dream of electric sheep?" por Ronaldo Bressane - lançamento no Brasil 2014.

Lançado originalmente em 1968, este romance inspirou o filme "Blade Runner, o Caçador de Androides" de Ridley Scott que é considerado (com razão) uma das melhores produções já realizadas no tema de ficção científica. O argumento tem como base uma visão distópica do futuro onde, após uma Guerra Mundial com utilização de armas atômicas, grande parte da população da Terra é aniquilada (assim como a maioria das espécies animais e vegetais) ou emigra para outros planetas. Os habitantes remanescentes no planeta sofrem efeitos em seu organismo devido à poeira radioativa e são divididos entre Normais, os que ainda não foram afetados definitivamente pela radioatividade, tendo permissão para emigrar para outros planetas-colônia e os Especiais, indivíduos considerados biologicamente inaceitáveis. Neste cenário catastrófico,  a ciência criou androides, réplicas cada vez mais perfeitas, para auxiliar na sobrevivência da raça humana em ambientes hostis, mas estes passam a se rebelar à medida que a sua inteligência artificial progride.

Rick Deckard que permaneceu na Terra, personagem interpretado por Harrison Ford no filme, é um caçador de recompensas contratado pela polícia de San Francisco para "aposentar" androides fugitivos que se tornaram uma ameaça para os humanos. Ele sofre com problemas existenciais ao questionar a validade da eliminação dos androides e seu sonho é substituir a sua ovelha elétrica de estimação por um raro animal verdadeiro, símbolo de prestígio social devido à raridade de qualquer espécie animal. Assim como no filme, um dos temas principais é a fronteira entre o comportamento do homem e as máquinas inteligentes, levando a uma reflexão sobre a condição humana (nem sempre tão humana como deveria ser, infelizmente). O trecho abaixo é um exemplo dos questionamentos morais do protagonista que passam a ficar cada vez mais agudos quando ele é contratado para perseguir e destruir seis androides de última geração que fugiram da colônia de Marte.
"Por um longo tempo ele permaneceu fitando a coruja, que dormitava no poleiro. Mil pensamentos vieram à sua mente, pensamentos sobre a guerra, sobre os dias em que as corujas caíram do céu; lembrou-se de como, em sua infância, descobria-se que uma espécie após a outra era declarada extinta, e como isso era publicado todo dia nos jornais — raposas uma manhã, texugos na outra, até que as pessoas parassem de ler sobre os incessantes necrológios de animais (...) Ele também pensou sobre a sua necessidade em ter um animal de verdade; dentro dele uma efetiva repugnância se manifestou outra vez em relação à sua ovelha elétrica, a qual precisava manter, precisava cuidar, como se estivesse viva. A tirania de um objeto, pensou, que nem sabe que eu existo. Tal como os androides, não tem a menor capacidade de apreciar a existência do outro. Nunca tinha pensado nisso antes, a semelhança entre um animal elétrico e um andy. O animal elétrico, ponderou, poderia ser considerado uma subforma do outro, um tipo de robô enormemente inferior. Ou, ao contrário, o androide poderia ser qualificado como uma versão altamente desenvolvida e evoluída do animal de imitação. Ambos os pontos de vista o enojavam." (págs. 52 e 53)
O livro aborda alguns temas existenciais com um pouco mais de profundidade do que o roteiro cinematográfico, por exemplo a religião dos sobreviventes no planeta Terra chamada de mercerismo, culto a Wilbur Mercer que permite, através de uma espécie de realidade virtual, a experiência única de compartilhamento do sofrimento para atingir a libertação espiritual. Uma questão que também fica sempre insinuada no livro (mas nunca admitida) é a própria humanidade do protagonista que poderia, ele próprio, ser um androide de última geração. Apesar de ele assumir posturas mais humanas do que muitos de seus semelhantes (principalmente quando se envolve afetivamente com uma bela androide). Finalmente, algumas passagens são francamente influenciadas pelas viagens psicodélicas de LSD nos anos sessenta, experiências que o autor, Philip K. Dick, explorou em detalhes na sua vida pessoal.

Esta edição tem como anexos os seguintes "extras": uma cata do autor aos produtores de Blade Runner, na qual elogia o filme e profetiza o seu sucesso (ele morreu três meses antes da estreia do filme em junho de 1982), a última entrevista concedida por Dick, publicada pela revista "The Twilight Zone" na época anterior ao lançamento de Blade Runner e um posfácio muito bem escrito pelo jornalista e escritor Ronaldo Bressane que traduziu esta edição e consegue colocar as nossas ideias aproximadamente em ordem depois deste louco romance que nos coloca frente a um mundo que já não parece tão distante (para nosso terror) quanto era nos anos sessenta ou oitenta, principalmente no que se refere à destruição do meio ambiente e a idiotização da raça humana. Segue abaixo um trecho do posfácio escrito por Ronaldo Bressane:
"Afinal, o que distingue um androide de um ser humano? A empatia, ou seja, a capacidade de se importar com o próximo. Para não perder essa capacidade é que surgiu — K. Dick não explicita como — o culto a Wilbur Mercer. Praticado através de uma "caixa de empatia", é uma espécie de realidade virtual imersiva experienciada apenas apertando dois manetes enquanto se olha para uma tela (e olha que ainda nem havia videogames em 1968...). O praticante do mercerismo mergulha em uma visão em que presencia um personagem velho e fraco subindo penosamente uma colina em uma paisagem desolada. À medida que sobe, o personagem começa a receber pedras vindas de todos os lados; no momento em que cai, sente-se fundido a toda a humanidade. Para aumentar a ilusão de fusão, se machuca de verdade com as pedradas, e chega a sangrar." (pág. 264)
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