domingo, dezembro 04, 2016

Ferreira Gullar (1930 - 2016)


Cantiga para não morrer
(Ferreira Gullar)

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

O céu e o inferno de William Blake

The Virgin Hushing the Young John the Baptist (1799) - William Blake
William Blake (1757-1827) foi um tipo raro de artista que, através de visões místicas, tanto em suas poesias quanto ilustrações, inventou uma realidade própria com um senso de moralidade e religiosidade que ainda hoje desafia o nosso entendimento. Os livros eram sempre ilustrados pelo próprio William Blake que os imprimia através de um processo de prensagem desenvolvido por ele e denominado "Impressão Iluminada" para colecionadores privados ou para livreiros de Londres (ler postagem do Mundo de K sobre "O Livro de Urizen"). As ilustrações também eram feitas para obras clássicas como "O livro de Jó" da Bíblia e "A Divina Comédia" de Dante Alighieri. A verdade é que seus próprios livros e textos nunca foram apreciados na época, sendo considerados como estranhas criações de uma mente perturbada.

A "The William Blake Gallery", localizada em São Francisco, EUA, é a primeira galeria no mundo dedicada unicamente à sua obra (com exceção do espaço criado pelo próprio Blake em 1809 em Londres e que fechou no mesmo ano por não ter vendido um único trabalho). Assim como ocorreu com outros grandes artistas incompreendidos em seu tempo, as obras de Blake acabaram influenciando as gerações futuras, por exemplo abrindo as portas da percepção de Aldous Huxley e chegando até Jim Morrisson, um caso raro de poesia do século XVIII que se transformou em inspiração no Rock. Isto prova que o legado artístico de William Blake continua atual e, por isso, alcança hoje altos valores no mercado de arte. Clique aqui para ter acesso ao catálogo da exposição na versão pdf.

Satan Smiting Job with Sore Boils (1826) - William Blake
Em "O Matrimônio do Céu e do Inferno" (1790-3), uma "sequência de paradoxos" que mais parece um evangelho ao contrário em algumas partes, deve ter sido incompreensível para os leitores da época. Neste livro temos um dos poemas mais importantes na história da literatura, criado por um homem que podemos chamar de profeta ou louco, místico ou imoral, como se queira. "Proverbs of Hell" ("Provérbios do Inferno" em tradução de Ivo Barroso) é uma obra enigmática que José Antônio Arantes definiu muito bem no trecho abaixo, parte da apresentação da edição de 1995 da Iluminuras: 
"Blake parece nos desprezar, quando na verdade apenas nos provoca. Suas ideias, misturadas a arquétipos — valores espirituais e etapas do desenvolvimento do espírito —, se expressam em paradoxos, visando a subversão dos conceitos cristãos em nós enraigados, atraindo-nos para sua convicção de que a dicotomia (Bem = Alma = Céu; Mal = Corpo = Inferno) é causa da infelicidade humana. Apenas a integração dessas duas faces seria a fonte da felicidade plena. O recurso usado por ele foi privilegiar a imaginação e relegar a segundo plano a razão, limitadora do Gênio Poético." (pág. 11) - "O Matrimônio do Céu e do Inferno" e "O Livro de Thel" - Editora Iluminuras
Provérbios do Inferno
(William Blake, tradução de Ivo Barroso)

Na semeadura aprende, na colheita ensina, no inverno desfruta.

Conduz tua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos. 

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela incapacidade.


Quem deseja e não age, procria a pestilência.


O verme perdoa o arado que o cortou.


Enterre-se no rio aquele que ama as águas.


Um tolo não vê a mesma árvore que um sábio vê.


O homem cuja face não brilha jamais se tornará um astro.


A Eternidade está de amores com as produções do tempo.


A abelha diligente não tem tempo para lástimas.


As horas da insensatez são medidas pelo relógio, mas as da sabedoria relógio algum pode marcar.


Todo alimento sadio se consegue sem armadilha ou rede.


Pássaro algum voa alto demais se o faz com as próprias asas,


Um corpo morto não refuta injúrias.


O ato mais sublime consiste em colocar alguém antes de si.


A Loucura é o manto da velhacaria.


A Vergonha é o manto do Orgulho.


As prisões são erguidas com as pedras da Lei e os Bordéis com os tijolos da Religião.


O orgulho do pavão é a glória de Deus.


A luxúria do bode é a generosidade de Deus.


A fúria do leão é a sabedoria de Deus.


A nudez da mulher é a obra de Deus.


O excesso de tristeza, ri; o excesso de alegria, chora.


O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o estrondo do mar tempestuoso, e o gládio destruidor são porções de eternidade grandes demais para o olhar humano.


A raposa condena a armadilha, e não a si mesma.


Alegrias fecundam, tristezas procriam.


Que o homem use os despojos do leão e a mulher o tosão das ovelhas.


Ao pássaro o ninho, à aranha a teia, ao homem a amizade.


O tolo egoísta e sorridente; o tolo carrancudo e triste serão ambos considerados sábios se servirem de exemplo.


O que hoje está provado não passava ontem de imaginação.


O rato, o camundongo, a raposa, o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante espreitam os frutos.


A cisterna contém: a fonte transborda


Um pensamento enche a imensidade,


Fala sempre o que pensas e os vis te evitarão.


Tudo o que é crível é uma imagem da verdade.


A águia perdeu todo o seu tempo se deixando ensinar pela gralha.


A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.


De manhã, pensa; de dia, age; de tarde, come; de noite, dorme.


Quem permite que o imponhas é porque te conhece.


Assim como o arado obedece a palavras, assim Deus recompensa as preces.


Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.


Espera veneno das águas paradas.


Só se sabe o que é bastante depois de se saber o que é demais.


Escuta a censura dos tolos! É um privilégio de reis!


Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra.


O fraco em coragem é forte em astúcia.


A macieira nunca pergunta à faia como crescer, nem o leão ao cavalo como abater sua presa.


Quem recebe agradecido produz colheita abundante.


Se outros não tivessem sido tolos, nós é que o seríamos.


A alma do doce deleite jamais será maculada,


Quando vês uma Águia, vês uma porção do Gênio. Ergue tua cabeça!


Como a lagarta escolhe as folhas mais belas para lançar seus ovos, assim o padre lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.


Criar uma pequena flor exige o trabalho de séculos.


A blasfêmia, distende; a bênção, afrouxa.


O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.


As preces não aram! Os louvores não colhem.


As alegrias não riem! As tristezas não choram!


A cabeça Sublime, o coração Pathos, o sexo a Beleza, as mãos e os pés Proporção.


Assim como o ar ao pássaro e o mar ao peixe, seja o desprezo ao desprezível.


O corvo gostaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco.


Exuberância é Beleza.


Se o leão fosse aconselhado pela raposa, acabaria astuto.


O Progresso constrói estradas retas, mas as estradas tortuosas sem Progresso são os caminhos do Gênio.


Antes matar um infante no berço do que acalentar desejos reprimidos.


Onde o homem falta, a natureza é estéril.


A verdade não deve ser dita para ser apenas compreendida, e não acreditada.


Bastante! Ou demais.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Solidão que nada

Edward Hopper - Room in New York
Em "O outro pé da sereia", Mia Couto nos ensina com a sua prosa sempre original que "o problema da solidão é que não temos ninguém a quem mentir", citação que pode nos levar ao entendimento de que a solidão é um sentimento de angústia decorrente do terrível esforço de enfrentar a nós mesmos. Na verdade, o próprio exercício da literatura, tanto do ponto de vista do escritor quanto do leitor, é essencialmente uma experiência solitária e de autoconhecimento, para o bem e para o mal. Outro autor famoso por suas indagações metafísicas, Paul Auster, partilha da mesma ideia sobre o fazer literário, mas ressalvando que a literatura, em última análise, aproxima as pessoas: "escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o ato de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos."

Na filosofia existem formas distintas de pensar o mesmo conceito, Heidegger entendia a solidão como um estado natural do homem que nasce só e morre só, devendo portanto se adaptar a essa condição. Sartre, em uma de suas frases mais famosas, chegava a afirmar que "o inferno são os outros", em um contexto que priorizava a existência sobre a essência humana, ou seja, a liberdade das nossas escolhas e experiências é que deveria nortear a nossa formação, mas os limites da convivência em sociedade (os outros) impediriam este crescimento ao expor nossas fraquezas. Nietzsche detestava aqueles que "roubavam" a sua solidão sem oferecer em troca uma verdadeira companhia. Outras correntes mais tradicionais defendiam o convívio em sociedade para superar a fragilidade e dependência do homem, assim, segundo Aristóteles "Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus."

O artista que melhor representou a solidão na história da pintura foi o americano Edward Hopper. Seus temas são normalmente paisagens urbanas desertas e sempre com uma iluminação peculiar, induzindo uma sensação de silenciosa introspecção. Na imagem que abre esta postagem, uma tela de 1932, flagramos um casal na intimidade de sua solidão (existirá solidão mais triste do que a solidão a dois?). O homem absorto na leitura de seu jornal, a mulher tocando displicentemente o teclado do piano com o dedo indicador. O afastamento é caracterizado pela postura tediosa da mulher e também pelo cenário, já que uma mesa redonda parece se transformar em um obstáculo intransponível, pelo menos é o que sentimos. Talvez, hoje, esta mesma cena seria melhor representada pelo manuseio de dois smartphones.

Sabemos que existe um comportamento individualista na sociedade moderna, não só pelo aumento dos casos de divórcio ou pela maior expectativa de vida, mas também pela opção de isolamento social (apesar de tanto tempo consumido em redes sociais). Por diferentes motivações, o fato é que esta tendência atual à solidão, voluntária ou não, tem se revelado como mais um caso de saúde pública, principalmente quando associada aos sintomas de depressão e demais transtornos de ordem psíquica, não somente em idosos, mas em todas as faixas etárias, inclusive crianças. Será que estamos diante de mais uma nova patologia provocada pelo stress da vida urbana que demanda tratamento médico especializado, a exemplo de doenças como a obesidade e o vício, ou existem formas naturais de lidar com o problema?

Nem sempre a solidão precisa estar associada a um estado de melancolia ou depressão, pode ser também uma oportunidade única de desenvolver projetos pessoais, exercer a autocrítica, provocar o amadurecimento, aumentar a autoestima e, até mesmo, ganhar qualidade nos relacionamentos afetivos. Talvez, a angústia existencial que sentimos hoje seja mais motivada pelo "espírito de manada" que nos induz ao excesso de exposição no mundo virtual e a impossibilidade de ficarmos longe dos "acontecimentos", do que pelo fato de estarmos realmente sós (e não estamos cada vez mais solitários de qualquer forma?). A passagem de um ano difícil pode ser uma oportunidade rara de reflexão que nos leve a um ato de coragem e verdadeira liberdade, um encontro que já foi muito adiado com nós mesmos. 

segunda-feira, novembro 28, 2016

Uma exposição de fotos para quem ainda sonha com mudanças

Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz - Foto Albert Wiking
Uma boa dica para quem estiver de passagem por Estocolmo em dezembro é visitar a exposição "We Have a Dream" do fotógrafo sueco Albert Wiking que apresenta 114 retratos de personalidades com o poder de inspirar as pessoas a realizarem sonhos. O projeto, que já dura mais de dez anos, é uma criação de uma dupla formada por Albert Wiking e Oscar Edlund, integrante da equipe da Fundação Nobel que ficou responsável pela gravação das entrevistas que acompanham as fotos. Abaixo uma descrição dos objetivos do evento conforme o texto disponível no site oficial:
"Ter um sonho é uma poderosa força motriz. Queremos que a exposição 'We Have a Dream' inspire todos a se atreverem a sonhar e a viver seus sonhos, sejam pequenos ou grandes, próximos no tempo ou muito adiante em suas vidas. Sonhar dá força e coragem. Apresentamos uma seleção de 114 retratos de pessoas de todo o mundo cujas histórias transmitem a mensagem de que para aqueles que se atrevem a sonhar e querem agir nada é impossível. Este é um documento importante do seu tempo, mostrando muitas das pessoas mais influentes no mundo, que atuam no cenário global — ao lado dos jovens e heróis do dia a dia que realmente querem influenciar e mudar o seu ambiente. O denominador comum é que eles tomem uma posição para os seus valores, lutem contra a maré e sonhem em criar mudanças." - Organização da exposição "We Have a Dream"
Além de  Malala Yousafzai (que linda foto, não é mesmo?) e o Dalai Lama que ilustram esta postagem, os criadores contaram com a colaboração de uma ilustre galeria de personalidades e ativistas políticos das mais diversas áreas de atuação, variando, por exemplo, dos músicos Bob Geldof e Annie Lennox até a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (autora dos romances: Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah), contudo a intenção do projeto não foi fotografar apenas super personalidades, mas também pessoas comuns que possam fazer a diferença em suas atuações locais.

Dalai Lama - Foto Albert Wiking
A imagem dos retratados equilibra seriedade e um pouco de brincadeira. É claro que não deve ter sido fácil convencer e encontrar tempo na agenda de todas essas celebridades para participar do projeto e realizar as entrevistas. De acordo com Oscar Edlund, que também ficou responsável pelos contatos e agendamento, eles levaram de quatro a cinco anos somente buscando Malala Yousafzai. Ainda segundo Edlund, conseguir falar com muitas dessas pessoas é como ter acesso ao Pentágono e deve ser mesmo!

A exposição estará aberta ao público no museu Fotografiska de 9 de dezembro a 19 de fevereiro de 2017 e as fotos serão publicadas em um livro com o mesmo nome. A intenção da organização é que a mostra percorra outros países após esta apresentação inicial na Suécia. O evento seria muito bem-vindo aqui no Brasil, afinal, assim como o resto do mundo, também estamos precisando muito de mudanças.

domingo, novembro 27, 2016

Raduan Nassar - Obra completa

Raduan Nassar - Obra completa - Editora Companhia das Letras - 464 Páginas - Lançamento 25/10/2016.

Este foi um ano importante para a divulgação do trabalho de Raduan Nassar no exterior e o seu redescobrimento no Brasil. Após ter sido finalista do Man Booker International Prize com a tradução para o inglês de "Um Copo de Cólera", foi honrado com a premiação mais conceituada da língua portuguesa, o Prêmio Camões de literatura 2016. Toda essa agitação no meio literário não alterou em nada a rotina do autor, que completa hoje 81 anos, vive recluso e se recusa a dar entrevistas desde os anos 1980, após escrever os dois únicos "pequenos" romances que se tornaram clássicos cultuados da literatura brasileira: "Lavoura Arcaica" (1975) e "Um Copo de Cólera" (1978). Raduan Nassar é um escritor que, segundo o júri do Prêmio Camões, "privilegia a densidade acima da extensão", melhor definição com certeza não há.

A Companhia das Letras lançou esta edição definitiva e revisada pelo próprio Raduan em comemoração aos 30 anos da Editora, que traz, além de "Lavoura Arcaica", "Um Copo de Cólera" e "Menina a Caminho", três livros que já faziam parte do próprio catálogo, mais dois contos e um ensaio inéditos no Brasil, acrescidos de fortuna crítica, relação das traduções e adaptações cinematográficas (surpreende o sucesso alcançado nas telas, tratando-se de textos nada fáceis de transpor para a linguagem do cinema). É claro que não há como criticar um lançamento como este, mas o tratamento editorial poderia ter sido semelhante ao da edição comemorativa de "Raízes do Brasil" de Sérgio Buarque de Holanda com uma compilação maior de textos críticos, compatível com a importância da obra.

"Lavoura Arcaica", por exemplo, é um romance que forçosamente merece estar presente em qualquer antologia de literatura brasileira contemporânea, uma narrativa atemporal de múltiplas interpretações e referências bíblicas que não se esgota em uma única leitura (no meu caso, já reli algumas vezes desde os tempos de escola, mas sempre encontro um novo texto em cada experiência). Em um resumo bastante simplório, podemos dizer que é uma espécie de anti-parábola do "filho pródigo" na qual o protagonista, André, se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge do núcleo familiar para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda. Ele não consegue alívio para as lembranças da relação incestuosa com Ana e, quando é encontrado em uma pensão por seu irmão Pedro, passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga. À medida que avançamos no texto, fica evidente o final trágico que aguarda toda a família após o retorno de André.

Obviamente é impossível escrever aqui uma resenha tradicional sobre as obras de Raduan Nassar, não somente por uma questão de espaço ou competência, mas também porque até hoje elas exercem um impacto tão grande na minha própria apreciação crítica que tenho dificuldade em enquadrá-las (tanto "Lavoura Arcaica" quanto "Um Copo de Cólera") em uma abordagem objetiva. São livros que criaram uma legião de adoradores, um caso único de unanimidade no cenário da literatura nacional, talvez amplificado pelo silêncio posterior do autor. Prefiro deixar aqui um conto. Um presente para os leitores no aniversário de Raduan, que exemplifica muito bem a habilidade única dele em lidar com a tensão narrativa até o final, uma ação desenvolvida através de um diálogo sem palavras, utilizando para isso um bloco de anotações (um símbolo do poder de comunicação da escrita), assim como a tentativa de expressão corporal dos personagens para contar uma história de solidão e o fracasso de uma relação afetiva.

Hoje de Madrugada
(Um conto de Raduan Nassar)

"O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali no canto, me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar no verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhos em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa, foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: 'vim em busca de amor' estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: 'responda' ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada, provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: 'não tenho afeto para dar', não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão no alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um voo largo, foi num só lance para a janela, havia até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo a minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pelos, subindo afoito, me queimando a perna com sua febre. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sobre a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloquente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados, dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras, a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta, logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão, minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula."

Publicado originalmente em "Menina a caminho e outros textos" - Editora Companhia das Letras - Lançamento 1997, Prêmio Jabuti 1998 de Melhor Livro de Contos e Crônicas.

sábado, novembro 26, 2016

100 Livros Notáveis em 2016 - New York Times


Uma das avaliações mais tradicionais sobre os melhores lançamentos do ano, a lista do New York Times apresenta 100 livros resenhados em 2016 escolhidos pelos editores, nas áreas de ficção e não ficção. Cada uma das obras tem um link apontado para a respectiva resenha crítica do jornal, uma fonte de informações importante já que a grande maioria ainda não foi publicada no Brasil.

É claro que existe um oportunismo comercial, a começar pela imagem selecionada, que remete a um clima natalino ou uma espécie de guia de compras para presentes de final de ano. Além disso existe uma limitação antipática do site que restringe a leitura a somente dez artigos por mês para não assinantes. Em 2016 temos, na área de ficção, destaque para os últimos lançamentos de Jonathan Safran Foer, Michael Chabon, Ian McEwan (lançado no Brasil como "Enclausurado"), Zadie Smith e Don DeLillo, entre outros.

Para quem desejar se aprofundar ou procurar por uma resenha de um livro específico, seguem os links para as listas de melhores publicações dos últimos anos do New York Times, mas lembrem-se da limitação de dez artigos mensais para não assinantes: 2015 / 2014 / 2013 / 2012 / 2011 / 2010 / 2009 / 2008 / 2007 / 2006 / 2005 / 2004 / 2003 / 2002 / 2001 / 2000 / 1999 / 1998.

sexta-feira, novembro 25, 2016

Objeto de Desejo

Caixa com a tetralogia completa "Estações Havana" de Leonardo Padura
Depois do sucesso de público e crítica de seu romance histórico "O homem que amava os cachorros" e também do policial "A neblina do passado" (siga os links para as respectivas resenhas do Mundo de K), Leonardo Padura se transformou possivelmente no escritor cubano mais conhecido no Brasil. A Editora Boitempo acaba de lançar uma caixa com a tetralogia "Estações Havana" composta por romances policiais protagonizados pelo seu personagem mais famoso, o detetive Mario Conde. O trabalho de Leonardo Padura está em um nível muito superior aos clichês do romance policial, sem querer desmerecer o gênero. Ele apresenta um painel realista com todas as dificuldades da sociedade cubana, antes e durante os anos de crise econômica e decadência, decorrentes da redução drástica de investimentos da antiga URSS.

Na verdade, os três primeiros romances da série, "Passado Perfeito", "Ventos de Quaresma" e "Máscaras" já haviam sido publicados no Brasil pela Editora Companhia das Letras. A Editora Boitempo está lançando o quarto romance que ainda era inédito por aqui, "Paisagem de Outono", juntamente com os três primeiros nesta edição que tem um projeto gráfico diferenciado. É importante notar que os volumes podem ser comprados de forma separada, mas é muito tentador adquirir a caixa completa com as primeiras aventuras do detetive Mario Conde. Segue abaixo a sinopse de cada volume disponibilizada pela Editora Boitempo:

Passado Perfeito - 216 páginas (Publicação original 1991) 
"No primeiro fim de semana de 1989, uma insistente ligação arranca da ressaca o tenente investigador Mario Conde, um policial cético e desiludido. O Velho, seu superior na Central de Polícia, encarrega-o de um caso misterioso e urgente: Rafael Morín, executivo do Ministério da Indústria, está desaparecido desde o dia 1º de janeiro. Quis o destino que o desaparecido fosse um ex-colega de escola do tenente, um sujeito que já então, ainda que sempre dentro das regras estabelecidas, se destacava por seu brilho e autodisciplina. Como se não fosse o bastante, o caso colocará Conde frente a frente com a recordação de seu amor por Tamara, agora casada com Morín, e o tenente descobrirá que mesmo por trás do aparente passado perfeito em que Rafael Morín construíra sua brilhante carreira já se escondiam sombras."

Ventos de Quaresma - 208 páginas (Publicação original 1994) 
"Nos dias infernais da primavera cubana, em que os ventos quentes do sul coincidem com a quaresma e Mario Conde conhece Karina, uma bela mulher aficionada por jazz e sexo, o tenente investigador é encarregado de um caso delicado: uma jovem professora de química do colégio em que ele mesmo estudara anos atrás é assassinada em seu apartamento, no qual são encontrados vestígios de maconha. Ao investigar a vida da professora, de trajetória profissional e política imaculada, Conde entra em um mundo em decomposição, onde o arrivismo, o tráfico de influências, o consumo de drogas e a fraude revelam o lado sombrio da sociedade cubana contemporânea."

Máscaras - 208 páginas (Publicação original 1997) 
"No dia 6 de agosto, quando a Igreja católica celebra a Festa da Transfiguração do Senhor, o corpo de um travesti é encontrado em meio ao denso arvoredo do Bosque de Havana, com o laço de seda vermelha de sua morte ainda atado ao pescoço. Para a frustração de Conde, encarregado do caso, aquela mulher 'sem os benefícios da natureza', vestida de vermelho, é Alexis Arayán, filho de um respeitado diplomata cubano. A investigação se inicia com a visita de Conde ao impressionante personagem do Marquês, homem das letras e do teatro, homossexual desterrado em sua própria terra, espécie excêntrica de santo e bruxo, culto, inteligente, astuto e dotado da mais refinada ironia. Pouco a pouco, o Marquês apresenta Conde a um mundo sombrio e povoado de seres que parecem todos conhecer a verdade sobre Alexis Arayán. Mas onde, em semelhante labirinto, Conde encontrará sua própria verdade?"

Paisagem de Outono - 248 páginas (Publicação original 1998) 
"Em uma noite de outono, alguns pescadores descobrem um cadáver na praia do Chivo, em Havana. A vítima é Miguel Forcade Mier, brutalmente assassinado e abandonado em estado indescritível. Esse crime reviverá uma antiga trama de corrupções e ambições frustradas. Nos anos 1960, Forcade havia sido oficialmente encarregado da expropriação de bens artísticos apreendidos com a burguesia após a Revolução. Acumulou poder, influência e, certamente, não poucas invejas e ressentimentos, até que, em 1978, sem motivo aparente, Forcade decide buscar exílio em Miami. Pouco antes de seu assassinato, porém, retorna misteriosamente a Cuba, como se quisesse recuperar algo muito valioso de cuja existência apenas ele tinha conhecimento. Em um caso delicado como o que se apresenta, quem melhor para enfrentar o assassino do que o tenente investigador Mario Conde, uma raposa velha em tais assuntos e, ao que parece, com nada a perder?"

quinta-feira, novembro 24, 2016

O novo impressionismo de Erin Hanson


A criação do impressionismo no século XIX pode ser atribuída aos franceses Claude Monet (1840-1926), Paul Cézanne (1839-1906) e Edgar Degas (1834-1917). Um movimento precursor do modernismo e que buscava captar as impressões sensoriais de cor, luz e movimento, através de cores claras e brilhantes bem como pinceladas mais livres, sem um contorno definido. Agora, em pleno século XXI, Erin Hanson, uma jovem pintora norte-americana, se inspira na ideia dos mestres fundadores do movimento, representando a natureza em um mosaico de cores vibrantes, mas com a diferença marcante de utilizar poucas e grossas pinceladas que criam diferentes efeitos de textura, sem muitas deposições de camadas. Uma técnica que ela chama de "impressionismo aberto".


A própria Erin Hanson explica nesta entrevista ao site My Modern Met que a sua técnica é uma mistura do impressionismo clássico com o expressionismo moderno. Bem, seja lá qual for o nome do movimento artístico, o objetivo final é reproduzir a emoção da paisagem, induzindo no observador a sensação de estar em plena natureza. A artista tem o seu estúdio em Los Angeles, California, e está sempre viajando para os parques nacionais como o Zion Park em Utah na Região das Montanhas Rochosas, praticando escalada e em busca de paisagens cheias de luz e cor. Ela lançou uma série de dois livros, chamada "Open Impressionism", com belas reproduções do seu trabalho.


Acredite se quiser, mas Erin Hanson, que não tinha outros pintores na família, é formada em bioengenharia pela Universidade de Berkeley e acabou seguindo o seu dom para as artes que já se manifestava desde os 8 anos de idade. Ela acha que a melhor maneira de aprender é exercitar a pintura todos os dias, aperfeiçoando as suas habilidades pela prática e não apenas estudando os conceitos. Para conhecer mais sobre a pintora, recomendo visitar o site oficial, assim como a página do facebook ou este vídeo com uma entrevista recente para a rede de TV Fox News.

quarta-feira, novembro 23, 2016

As 20 melhores citações sobre a mentira

A Virgem e o Unicórnio (1602) - Palazzo Farnese - Domenico Zampieri
Um fato cada vez mais trivial na era das redes sociais é a disseminação de notícias falsas, geralmente de caráter sensacionalista. O fenômeno é tão recorrente que já existem até mesmo sites especializados neste tipo de "notícia" que se tornaram mais populares do que as mídias oficiais, principalmente no campo da política. É comum notarmos o constrangimento de pessoas até bem intencionadas quando descobrem que repassaram boatos sem a devida verificação prévia, normalmente inverossímeis. Esta tendência, principalmente durante as últimas eleições norte-americanas, tem levado executivos do facebook e google a buscar soluções para restringir a ação desses sites.

Contudo, lidar com mentiras não é uma prática tão recente assim na história da humanidade, basta notar a imagem que abre esta postagem, "A Virgem e o Unicórnio" de 1602, duas coisas difíceis de se encontrar. Sabemos que a mentira em alguns casos pode ser até mesmo uma necessidade, sendo assim, sugiro conhecermos a opinião de alguns profissionais do assunto, ou seja, os escritores que vivem profissionalmente da ficção. Convido os amigos a lerem as mais deliciosas verdades sobre a mentira de todos os tempos, sérias ou brincalhonas, dependendo do estilo do autor. Qual é a sua preferida?

(01) "Jamais diga uma mentira que não possa provar."
        Millôr Fernandes (1923 - 2012)

(02) "As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."
        Friedrich Nietzsche (1844 - 1900)

(03) "A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer."
        Mario Quintana (1906 - 1994)

(04) "Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas." 
        Nelson Rodrigues (1912 - 1980)

(05) "A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais." 
        Fiódor Dostoiévski (1821 - 1881)

(06) "Não há mentira pior do que uma verdade mal compreendida por aqueles que a ouvem."
        Henry James (1843 - 1916)

(07) "Em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário." 
        George Orwell (1903 - 1950)

(08) "A mentira é fácil, a verdade é muito difícil."
        George Sand (1804 - 1876)

(09) "A mentira apenas é um vício quando faz mal; é uma grande virtude quando faz bem."
        Voltaire (1694 - 1778)

(10) "As nossas mentiras revelam tanto de nós como as nossas verdades."
        J.M. Coetzee (1940 - )

(11) "Nem todas as verdades são para todos os ouvidos."
        Umberto Eco (1932 - 2016)

(12) "O homem esquece para ter passado e mente para ter futuro."
        Mia Couto (1955 - )

(13) "Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal."
        Oscar Wilde (1854 - 1900)

(14) "Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente."
        Florbela Espanca (1894 - 1930)

(15) "As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio."
        Robert Louis Stevenson (1850 - 1894)

(16) "Por vezes a mentira exprime melhor do que a verdade aquilo que se passa na alma."
        Máximo Gorky (1868 - 1936)

(17) "Não há verdade, só há percepção."
        Gustave Flaubert (1821 - 1880)

(18) "As mulheres e os médicos sabem bem como a mentira é necessária aos homens."
        Anatole France (1844 -1924)

(19) "A minha maneira de brincar é dizer a verdade. É a brincadeira mais divertida do mundo."
        Bernard Shaw (1856 - 1950)

(20) "Quando um político mente destrói a base da democracia."
        José Saramago (1922 - 2010)

terça-feira, novembro 22, 2016

Finalistas do Prêmio Oceanos 2016


A partir de 2015 o Prêmio Portugal Telecom de Literatura foi cancelado pelos antigos patrocinadores, passando a ser chamado de Oceanos - Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa e patrocinado pelo Itaú Cultural. Para a versão de 2016, foram avaliadas 740 obras de criação literária em língua portuguesa de 20 editoras – inscritas nos gêneros Poesia, Romance, Conto, Crônica e Dramaturgia – publicadas em primeira edição no Brasil no ano de 2015. Também puderam concorrer os livros publicados nos demais países lusófonos desde que lançados originalmente entre 2012 e 2015 e publicados no ano passado por editora brasileira ou sediada no Brasil. 

O resultado final será conhecido no dia 6 de dezembro, durante cerimônia de entrega dos prêmios no Auditório Ibirapuera. Como na edição passada, o valor da soma dos quatro prêmios finalistas é de 230 mil reais, divididos da seguinte forma: 100 mil para o primeiro lugar, 60 mil para o segundo, 40 mil para o terceiro e 30 mil para o quarto colocado. Segue a relação das obras finalistas selecionadas pelo júri em ordem alfabética de títulos e links para as sinopses das respectivas editoras (quatro livros de poesia, quatro romances e dois livros de contos).

"A resistência" de Julián Fuks - Romance
Editora Companhia das Letras

"Ainda estou aqui" de Marcelo Rubens Paiva - Romance 
Editora Alfaguara

"Escuta" de Eucanaã Ferraz - Poesia
Editora Companhia das Letras

"Galveias" de José Luís Peixoto - Romance
Editora Companhia das Letras

"Jeito de matar lagartas" de Antonio Carlos Viana - Contos
Editora Companhia das Letras

"Manual de flutuação para amadores" de Marcos Siscar - Poesia
Editora 7Letras

"Maracanazo e outras histórias" de Arthur Dapieve - Contos
Editora Alfaguara

"O livro das semelhanças" de Ana Martins Marques - Poesia
Editora Companhia das Letras

"Sermões" de Nuno Ramos - Poesia
Editora Iluminuras

"Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" de Gonçalo M. Tavares - Romance
Editora Companhia das Letras.

O vencedor da versão 2015 foi Silviano Santiago com "Mil Rosas Roubadas" (Editora Companhia das Letras) e o segundo lugar ficou com Elvira Vigna com "Por Escrito" (Editora Companhia das Letras. Os demais ganhadores foram, respectivamente: Alberto Mussa com "A primeira História do Mundo" (Editora Record) e Glauco Mattoso com "Sacola de Feira" (Editora NVersos).

segunda-feira, novembro 21, 2016

Três poemas de Julio Cortázar


Três poemas de Julio Cortázar do livro póstumo "Papéis Inesperados" (Editora Civilização Brasileira - 487 páginas - Publicação 2010 - Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht - Compilação de Aurora Bernárdez, viúva do escritor, e Carles Álvarez Garriga) - Ler aqui resenha do Mundo de K.

No primeiro poema, "A mosca", um exemplo da metafísica bem-humorada de Cortázar. No segundo, "Meu sofrimento dobrado...", o eco de uma canção de amor onde a dor e a solidão são a matéria-prima do autor. Finalmente, em "O que eu gosto do teu corpo...", a palavra é o ponto final de um poema sobre a paixão.

A mosca

Vou ter que matar-te de novo.
Já te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa fazenda na província de Lobos,
no bordel, na cozinha, em cima de um pente,
no escritório, neste travesseiro
vou ter que matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.

Meu sofrimento dobrado...

E também não estar triste,
não crescer com as fontes, não se dobrar nos salgueiros.
Larga é a luz para dois olhos, e a dor dança
nos peitos que aceitam sem fraqueza seus frios escarpins.
E não chamar-te de distante nem perdida
para não dar razão ao mar que te retém.
E elogiar-te na mais perfeita solidão
na hora em que teu nome é o primeiro lume em minha janela.

                                                                   Benditos sejam os meus olhos 
                                                                           por terem olhado tão alto.

O que eu gosto do teu corpo...

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

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