quinta-feira, maio 26, 2016

Mia Couto - Cada homem é uma raça

Mia Couto - Cada homem é uma raça - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Lançamento 11/04/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

No momento em que desembrulho minhas lembranças dos onze contos desta coletânea, publicada originalmente em 1990, penso em escrever uma resenha que permita aos leitores sobressonhar com a parecença do texto, usando um pouco da linguagem inventada pelo moçambicano Mia Couto. Pescando uma palavra aqui e outra ali da prosa mágica do autor, tento mostrar um pedacinho do seu mar de poesia no onduralar que seus sonhos imaginadavam, mas acabo ficando imovente e receio desconseguir completar a tarefa, um verdadeiro drible nos corretores ortográficos. Contudo, nesse enquanto, vem andarilhar comigo no desfolhar das tardes e conhecer uma imagem forte da sofrência do povo africano, uma terra sem dúvida devastada pelas guerras e ganância dos colonizadores, mas onde ainda sobrevive a esperança no espírito livre do homem, pelo menos na literatura de Mia Couto.

Segundo alerta o personagem Geguê para o seu sobrinho no conto "O apocalipse privado do tio Geguê": as mulheres são muito extensas, a gente viaja-lhes, a gente sempre se perde, e é exatamente o que acontece quando a bela Zabelani, com olhos de convidar desejos, vem morar com tio e sobrinho, fugida dos terrores do campo, com os pais desaparecidos em anônimo paradeiro. É claro que não demora muito para o sobrinho se apaixonar por ela, um amor em estado de infinita chegada. Sentimos que não há como os personagens escaparem da tragédia anunciada, à medida que avançamos na trama.
"História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. (...) Nasci de ninguém, fui eu que me gravidei. Meus pais negaram a herança das suas vidas. Ainda sujo dos sangues me deixaram no mundo. Não me quiseram ver transitando de bicho para menino, ranhando babas, magro até na tosse. (...) O único que tive foi Geguê, meu tio. Foi ele que olhou meu crescimento. Só a ele devo. Ninguém mais pode contar como eu fui. Geguê é o solitário guarda dessa infinita caixa onde vou buscar meus tesouros, pedaços da minha infância." ("O apocalipse privado do tio Geguê" - pág. 29)
Uma inusitada história de amor (sempre presente nos contos de Mia Couto, apesar da crueldade da terra) acontece em "A princesa russa", onde um casal imigrado da Rússia para Moçambique vem desenterrar riquezas no negócio de exploração de uma mina de ouro. Eles encontram uma realidade ainda mais difícil do que em sua terra natal e, logo, a mulher, que não consegue se adaptar à solidão da sua nova habitação, se revolta com as condições de trabalho locais e estabelece um relacionamento de confiança com Fortin, o negro encarregado dos criados, narrador deste conto. É ele que relembra os fatos da sua vida muitos anos depois em confissão a um padre.
"Venho confessar pecados de muito tempo, sangue pisado na minha alma, tenho medo só de lembrar. Faz favor, senhor padre, me escuta devagar, tenha paciência. É uma história comprida. Como eu sempre digo: carreiro de formiga nunca termina perto. (...) O senhor talvez não conhece mas esta vila já beneficiou de outra vida. Houve os tempos em que chegava gente de muito fora. O mundo está cheio de países, a maior parte deles estrangeiros. Já encheram os céus de bandeiras, nem eu sei como os anjos podem circular sem chocarem-se nos panos. Como diz? Entrar direito na história? Sim, entro. Mas não esqueça: eu já pedi um muitozito do seu tempo. É que uma vida demora, senhor padre." ("A princesa russa" - pág. 77)
Em "O pescador cego", Mia Couto nos mostra que o barco de cada um está em seu próprio peito, conforme a epígrafe que abre o conto, baseada em um provérbio africano. Acontece em certa pescaria que Mazembe, perdido em uma tempestade sem fim e pressionado pela fome brutal, decide arrancar os próprios olhos e utilizá-los como isca, uma prova de que o juízo emagrece mais rápido que o corpo.
"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas. (...) Tudo isso escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há dessas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio." ("O pescador cego" - pág. 97)

sexta-feira, maio 20, 2016

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil - Editora Companhia das Letras - 384 páginas - Tradução direta do russo de Sônia Branco - Lançamento 19/04/2016.

Quando soube da escolha da escritora e jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch para o prêmio Nobel de Literatura de 2015, logo imaginei que a Academia estaria priorizando mais uma vez algum tipo de mensagem política em detrimento da própria literatura. Essa opinião devia-se, em parte, ao desconhecimento do trabalho da autora, inédita (e desconhecida) em nosso país até aquele momento e também pelo fato de um trabalho jornalístico documental sobre fatos reais, por mais importantes que tenham sido, não ser comparável a um texto literário de ficção. Bem, eu estava redondamente enganado. O livro representa um texto jornalístico sem dúvida, mas a literatura transborda de cada página, com a força e o sofrimento do povo soviético, assim como em um romance de Dostoiévski.

A extensão da catástrofe de Tchernóbil ainda é pouco conhecida no ocidente. A Central Elétrica Atômica, localizada em uma região próxima à fronteira com a Bielorrúsia, sofreu no dia 26 de abril de 1986 uma série de explosões em um dos seus quatro reatores. Altos níveis de radiação foram registrados no dia seguinte na Polônia, na Alemanha, na Áustria e na Romênia e, alguns dias depois, no restante da Europa. Esses níveis de radiação se espalharam rapidamente por todo o globo, com registros no Japão, china, Índia, Estados Unidos e Canadá. No entanto, os efeitos mais devastadores ocorreram na Bielorrússia com 485 aldeias perdidas, setenta delas sepultadas sob a terra para sempre de forma a conter a propagação radiativa. Hoje, um em cada cinco habitantes do país vive em território contaminado. Em decorrência da exposição da população às doses de radiação, a cada ano cresce o número de doentes de câncer, de deficientes mentais, de pessoas com disfunções neuropsicológicas e com mutações genéticas. O que dizer então dos efeitos nos "liquidadores", homens encarregados de minimizar as consequências do acidente no reator e que foram convocados para apagar o incêndio, construir o sarcófago que isolou o reator danificado e enterrar todos os vestígios de contaminação local (casas, carros, todo tipo de objetos e a  própria terra na sua camada superficial). Um dos primeiros depoimentos do livro é da viúva de um dos bombeiros que combateu o incêndio inicial na Central Atômica.
"O meu marido começou a mudar; cada dia eu via nele uma pessoa diferente... As queimaduras saíam para fora... Na boca, na língua, nas maçãs do rosto; de início eram pequenas chagas, depois iam crescendo. As mucosas caíam em camadas, como películas brancas. A cor do rosto, a cor do corpo... Azulada... Avermelhada... Cinza-escuro... E, no entanto, tudo nele era tão meu, tão querido! É impossível contar! Impossível escrever! E mesmo sobreviver... O que salvava era que tudo acontecia de maneira instantânea, de forma que não dava tempo de pensar, não dava tempo de chorar. (...) Eu o amava! Eu ainda não sabia como o amava! Tínhamos nos casado havia tão pouco tempo... Ainda não tínhamos tido tempo de nos saciar um do outro... Andávamos na rua, ele me tomava nos braços e me girava. E me beijava, beijava. As pessoas passavam por nós e sorriam. (...) O processo clínico de uma doença aguda do tipo radiativo dura catorze dias. No 14º dia,  o doente morre. (...) Muitos vão morrendo. Morrem de repente. Caminhando. Estão andando e caem mortos. Adormecem e não acordam mais. Está levando flores para uma enfermeira, e o coração para. Está no ponto de ônibus... Estão morrendo, e ninguém lhes perguntou de verdade sobre o que aconteceu. Sobre o que sofremos, o que vimos. As pessoas não querem ouvir falar da morte. Dos horrores... (...) Mas eu falei do amor... De como eu amei." Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko.
Svetlana em seu discurso proferido na cerimônia de recebimento do prêmio Nobel, destacou que não estava sozinha e sim cercada de centenas de vozes que a acompanhavam desde a infância. Também que a verdade não se sustentaria num só coração, num só espírito. Que ela é fragmentada, múltipla, diversa e dispersa pelo mundo. Talvez, a explicação para tamanha carga emocional do texto esteja no fato de que a própria autora também é uma das testemunhas de Tchernóbil. O seu depoimento é mais uma das múltiplas vozes no livro que tentam explicar a catástrofe e seus efeitos na vida e morte da população local. Nós, brasileiros, podemos entender muito bem quando ela desabafa, neste mesmo discurso, sobre algumas afirmações que ouviu do povo russo, tais como: "não se encontra uma pessoa honrada entre nós, mas santos sim", uma afirmação que explica como os políticos são capazes de provocar guerras, gerar perseguições políticas (durante o stalinismo, por exemplo) e outras tragédias históricas, das quais Tchernóbil é apenas mais uma representação.
"Tchernóbil é um enigma que ainda tentamos decifrar. Um signo que não sabemos ler. Talvez um enigma para o século XXI. Um desafio para o nosso tempo. Tornou-se evidente que, além dos desafios religiosos, comunistas e nacionalistas em meio aos quais vivíamos e sobrevivíamos, nos aguardavam novos desafios mais selvagens e totais, embora ainda ocultos aos nossos olhos. No entanto, depois de Tchernóbil algo se deixou entrever. (...) Na noite de 26 de abril de 1986... Em apenas uma noite nos deslocamos para outro lugar da história. Demos um salto para uma nova realidade, uma realidade que está acima do nosso saber e acima da nossa imaginação. Rompeu-se o fio do tempo... (...) Teria sido mais fácil nos acostumar à situação de uma guerra atômica como a de Hiroshima, pois sempre nos preparamos para ela. Mas a catástrofe aconteceu num centro atômico não militar, e nós éramos pessoas do nosso tempo e acreditávamos, tal como nos haviam ensinado, que as centrais nucleares soviéticas eram as mais seguras do mundo, que poderiam ser construídas até mesmo na Praça Vermelha. (...) Hoje cada bielorusso é uma espécie de 'caixa-preta' viva, registra as informações para o futuro. Para todos. (...) Eu levei muitos anos escrevendo este livro. Quase vinte anos. Encontrei e conversei com ex-trabalhadores da central, cientistas, médicos, soldados, evacuados, residentes ilegais em zonas proibidas. (...) Tudo o que conhecemos sobre o horror e o medo tem mais a ver com a guerra. O Gulag stalinista e Auschwitz são recentes aquisições do mal. A história sempre foi a história das guerras e dos caudilhos, e a guerra se tornou, como costumamos dizer, a medida do horror. Por isso as pessoas confundem os conceitos de guerra e catástrofe. Em Tchernóbil, pode-se dizer que estão presentes todos os sinais da guerra: muitos soldados, evacuação, locais abandonados. A destruição do curso da vida. (...) Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem. (...) Antes de tudo, em Tchernóbil se recorda a vida 'depois de tudo': objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Você se pergunta o que é isso: passado ou futuro? Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro..." Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo.
Literatura ou jornalismo, isso não importa muito quando nos deparamos com a importância de uma catástrofe nuclear (difícil chamar apenas de acidente) sem precedentes na história. Uma obra que está fundamentada na força necessária para a superação e sobrevivência do sofrido povo soviético. Finalmente, um alerta para o mundo sobre a importância do uso controlado e pacífico da energia atômica. Um livro que emociona pelo seu humanismo e é indispensável para entender e refletir melhor sobre o nosso tempo. 

quinta-feira, maio 12, 2016

O humanismo na fotografia de Werner Bischof

Foto Werner Bischof - Japão, Tóquio, 1951 -  Clube de Striptease
Werner Adalbert Bischof (1916 - 1954) é um dos nomes mais importantes na história do fotojornalismo. Ele estudou design gráfico e fotografia de 1932 a 1936 com Hans Finsler, mestre do movimento da Nova Objetividade, na Escola de Artes e Ofícios de Zurique e, em seguida, abriu um estúdio de fotografia e publicidade. Em 1942 se tornou um freelancer da área de modas para a revista Du, que publicou seus primeiros grandes ensaios fotográficos em 1943. Bischof recebeu reconhecimento internacional após a publicação em 1945 de sua reportagem sobre a devastação causada pela Segunda Guerra Mundial. 

Foto Werner Bischof - Hungria, Planíces de Puszta, 1947 -  Fazendeiros
Nos anos seguintes, Bischof viajou na Itália e Grécia para a Swiss Relief, uma organização dedicada à reconstrução no período pós-guerra. Em 1948, ele fotografou os Jogos Olímpicos de Inverno em St Moritz para a revista Life e trabalhou para as publicações Picture Post, The Observer e Illustrated em viagens à Europa Oriental, Hungria, Finlândia, Suécia e Dinamarca. Ele foi o primeiro fotógrafo a se juntar à Agência Magnum, cooperativa de fotógrafos sediada na França, após os quatro membros fundadores originais: Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Chim (David Seymour) e George Rodger.

Foto Werner Bischof - Índia, Estado de Bihar, 1951 - Crianças em uma área atingida pela fome
Contrário à "superficialidade e sensacionalismo” das revistas da época, ele dedicou grande parte de sua vida para fotografar a ordem e tranquilidade na cultura tradicional europeia e asiática, algo que não agradava aos editores em busca de material polêmico. Apesar disso, ele encontrou trabalho em matérias sobre a fome na Índia pela revista Life (1951) e também outras matérias no Japão, Coréia, Hong Kong e Indochina. As imagens dessas reportagens foram utilizadas em grandes revistas de todo o mundo. 

Fotos Werner Bischof - Japão, Tóquio e Hiroshima, 1951 - Crianças
Uma das especialidades de Bischof eram as fotos de crianças, como os dois exemplos acima no Japão, onde ele morou durante um ano. As imagens infantis são de uma rara sensibilidade, comparável a outros gênios da fotografia como Robert Doisneau. No outono de 1953 Bischof desenvolveu uma série de fotografias coloridas nos EUA. No ano seguinte, ele viajou pelo México e Panamá, e depois para uma região remota do Peru, onde esteve envolvido com a produção de um filme. Werner Bischof morreu tragicamente, aos 38 anos, em um acidente de carro nos Andes em 16 de maio de 1954.

sexta-feira, maio 06, 2016

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan - Editora Cosac Naify - 320 páginas - Tradução de José Rubens Siqueira - Lançamento 2012

É bom que se diga logo de início que este não é um romance de entendimento simples ou de uma única interpretação, bem como nem um pouco fácil de se resenhar. A narrativa não segue uma estrutura linear e os personagens, a maioria deles escritores, roteiristas ou críticos literários, parece confusa em suas opções e dilemas artísticos ou pessoais. Em algumas passagens, situações absurdas e teatrais são inseridas ao texto, flertando um pouco com o movimento surrealista de André Breton ou o existencialismo de Sartre. Está sempre presente o dilema de todo autor em abandonar as "máscaras modernas" e ser "o mais autêntico possível" ou transformar-se através de múltiplos heterônimos, com mudanças de personalidade e alternando ficção e realidade. Bob Dylan funciona aqui como um símbolo das transformações, muitas vezes contraditórias, mas necessárias na busca de uma identidade que nunca se define.

O ponto de partida do romance é um convite pouco comum recebido pelo protagonista e narrador, escritor catalão de meia-idade — que bem poderia ser o próprio Vila-Matas — para participar de um congresso literário sobre o fracasso e ele logo reflete, com alguma razão, que "poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a literatura". Para confirmar a reflexão do personagem, em uma das conferências do evento, o escritor argentino Sergio Chejfec define o fracasso não como uma eventualidade literária, mas como sinônimo da literatura em geral: "O fracasso é a prefiguração natural do destino do escritor". Já o cineasta Werner Herzog confessa a sua frustração por ter fracassado em perder a própria razão com força suficiente. Enfim, já neste início, Vila-Matas deixa clara a sua opção de conduzir o romance em meio a situações reais e imaginárias, mas sempre colocando a própria literatura e a ficção em um protagonismo central de toda a trama.

Neste evento literário, uma das conferências intitulada "Teatro Verdade" é apresentada pelo jovem Vilnius Lancastre que tem uma notável semelhança física com Bob Dylan, cineasta fracassado de um único curta-metragem e filho do recém falecido escritor Juan Lancastre, Vilnius prepara não exatamente uma conferência sobre o tema do fracasso, mas sim um conto de inspiração autobiográfica sobre os seis dias posteriores à morte do pai e o estranho fenômeno que consistia na infiltração de pensamentos e lembranças dele em sua mente, além de ouvir vozes que insistem em chamá-lo de Hamlet (sempre as deliciosas referências culturais de Vila-Matas, insinuando aqui o assassinato do escritor). O difícil relacionamento familiar com a mãe também é abordado no "conto", como nesta passagem na qual ela descreve o crescente medo do falecido marido escritor diante da perda do impulso criativo:
"E a seu pai não ocorria ideia melhor, ela continuou dizendo, do que comparar seu terror ao dos trapezistas quando soltam um trapézio para alcançar outro, aquele momento no vazio. Essa insegurança, essa angústia, seu pai dizia, pareciam com o que ele sentia diante do livro que estava escrevendo, porque não sabia se ia conseguir, se não se repetiria, se estaria à altura do que conseguira anteriormente, se fracassaria depois de tantos anos sem saber o que era o fracasso. Havia tanta gente, seu pai dizia, tanta gente esperando para tomar o lugar dele, tanta gente esperando que caísse no salto entre um trapézio e outro. E ele não queria dar esse prazer aos que desejavam que fizesse alguma coisa ruim. Tudo parecia cada vez mais complicado porque dizia que, quanto mais tempo levava a pessoa trabalhando na escrita, mais compreendia como sabia muito pouco. E dizia também que ter escrito e publicado tantos livros, ter conseguido 'uma voz de muitas variantes, mas inconfundível, como Kubrik no cinema' podava sua liberdade, pois a pessoa acabava tendo medo cada vez que experimentava coisas novas, um medo cada vez maior de fracassar. Cada vez tenho mais medo, repetia e repetia, convencido de que vivia no país onde mais se castigavam os que tentavam fazer uma obra fora da tradição e do folclore nacional. Estava preocupado com o fracasso quando na realidade havia anos já que era um pobre derrotado na vida." (págs. 55 e 56)
Vilnius inicia uma relação com a bela e sensual Débora, ex-amante de seu pai, formando com ela uma espécie de sociedade artística preguiçosa com inspiração em Duchamp e Oblómov. Uma sociedade "infraleve" que passa a refletir a própria personalidade de Vilnius: "ocioso, instável, geométrico, errante, aspirante a ideólogo da apatia e volátil". Tudo isso, é claro, no cenário dos hotéis, restaurantes, bares e ruas de Barcelona.
"Vilnius e Débora tinham começado a ser uma sociedade que não se dedicava a nada de concreto, talvez porque desejasse evitar qualquer possibilidade de fracasso e talvez porque, além disso, fosse uma sociedade que se sentia atraída pelo infraleve, por todas aquelas coisas — pensemos num sabão que escorrega, por exemplo — que são, por um lado, tão indeterminadas e, por outro, tão específicas; são tudo ao mesmo tempo, como a própria vida. (...) Para eles, infraleve era o roçar de calças ao caminhar, um desenho a vapor de água, um bafejo no vidro da janela (...) Vilnius achou que Débora e ele não só podiam começar a se considerar uma sociedade infraleve, mas também que, em homenagem a Duchamp, essa sociedade podia se chamar Ar de Dylan, o que permitiria a ambos imaginar a si mesmos como uma gota de cristal que conteria a essência de sua época, o ar de seu tempo, do nosso, de um tempo ligado em arte ao mundo de Bob Dylan, criador esquivo e homem de tantos personagens e personalidades." (pág. 199)
Com o desenvolvimento do romance, identificamos também o alter ego de Vila-Matas não só no escritor de meia-idade narrador, mas também no falecido pai de Vilnius o escritor Juan Lancastre que foi um um autor prolífico e de vanguarda. A situação fica ainda mais confusa quando o escritor-narrador, que já havia decidido encerrar a sua carreira literária (arrependido de ter sido também um autor tão prolífico), é convencido por Vilnius e Débora a escrever uma falsa autobiografia de Juan Lancastre. Eu bem que avisei que não se tratava de um livro simples!
"Vim a dizer a Débora que apesar de, quando jovem, eu ter programado não ser nada prolífico, a vida tinha me levado por outros trajetos e não havia parado de escrever um livro por ano. Me arrependia de todos e esperava não ter que fazê-lo também com o último, essa biografia falsa de Lancastre na qual confiava muito porque me parecia idônea, como caída do céu ou caída de Hamlet, uma vez que ia me permitir colocar um contraponto e um fecho mordaz a toda minha obra, uma visão irônica de minha desmesurada produtividade literária. Ou não teria de contar a história de um escritor arrependido de ter sido tão prolífico que tentava deixar de escrever e, de modo fatídico, a vida real e uns maravilhosos preguiçosos impediam que o fizesse? (...) Impediam? Verdade mesmo que era necessário escrever aquele livro? Sim, era. Porque se conseguisse escrever por fim esse romance que esperava conseguir e que não havia sabido fazer em quarenta anos de profissão, poderia depois me sentir mais tranquilo quando entrasse afinal em meu duro e imperturbável período de mudez radical, de mudez severa em todos os terrenos, inclusive o conjugal." (pág. 315)

terça-feira, maio 03, 2016

Objeto de Desejo


Clarice Lispector - Todos os Contos - Editora Rocco - 656 páginas - Lançamento previsto pela Editora para 06/05/2016, já em pré-venda nos sites da Livraria Cultura e Livraria da Travessa.

Um Objeto de Desejo muito especial, primeiro porque resgata uma dívida cultural com a obra de Clarice Lispector ao reunir em um inédito e único volume todos os seus 85 contos em ordem cronológica. Adicionalmente, a autora recebe, também pela primeira vez no Brasil, um projeto gráfico compatível com a sua importância, uma vez que a edição nacional em capa dura respeita a versão lançada no mercado editorial dos EUA, que foi escolhida como uma das 12 melhores capas do ano pelo New York Times. Finalmente, uma chance para as novas gerações de leitores brasileiros conhecerem a obra de uma das maiores escritoras do século XX, esquecendo as citações apócrifas que circulam na internet em seu nome.

Na verdade, o sucesso nos EUA em 2015 deveu-se, em grande parte, ao esforço do biógrafo Benjamin Moser que, em agosto de 2009, lançou o indispensável "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" (traduzido e publicado no Brasil como "Clarice" pela Editora Cosac Naify), biografia que foi incluída entre os 100 livros notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review e abriu o caminho para esta antologia. Após a boa recepção no mercado americano, "Todos os Contos" partiu para uma carreira mundial que parece estar apenas começando. Com traduções na Coreia do Sul e Turquia, agora os contos retornam ao seu país de origem e talvez ajudem a levantar a autoestima dos brasileiros, tão fragilizada no momento.

Em tempo, a participação de Benjamin Moser foi confirmada hoje pela organização da FLIP 2016 que este ano terá como autora homenageada (com toda justiça) a poeta Ana Cristina Cesar. O escritor, editor, crítico e tradutor estará presente, entre outros eventos, no painel "De Clarice a Ana C.", programado para o sábado, dia 02/07, juntamente com Heloisa Buarque de Holanda.

segunda-feira, maio 02, 2016

20 coisas que todo leitor compulsivo detesta ouvir

Foto Ann Price Photography
O site Goodreads solicitou em suas páginas do Facebook e Twitter que os leitores respondessem ao seguinte questionamento: "O que você nunca deve dizer para um apaixonado por livros?". Assim como outras pesquisas do Goodreads, esta também foi um sucesso e obteve grande retorno. Segue abaixo a seleção das 20 respostas mais criativas em tradução livre. Qual você considera a mais irritante?
(01) "Pare de comprar livros. Você já tem o suficiente." 
(02) "Eu nunca tenho tempo para ler. Deve ser bom ter tanto tempo livre!"
(03) "Eu perdi aquele livro que você me emprestou."
(04) "Pode me emprestar este livro?"
(05) "Eu odeio interrompê-lo enquanto você está lendo, mas..."
(06) "Eu nunca li o livro, mas ouvi dizer que o filme foi melhor..."
(07) "Por que ler o livro se você pode simplesmente aguardar pelo filme?"
(08) "Como você pode ler isto? Não há imagens!"
(09) "Por que você está relendo o livro?"
(10) "Você já leu todos esses livros?"
(11) "Por que você está sempre lendo?"
(12) "Por que você ainda está lendo?"
(13) "Você deveria estar usando um "e-reader."
(14) "Pare de ler, você vai estragar a sua vista."
(15) "Você não tem nada melhor para fazer?"
(16) "Pare de ler, está na hora de dormir."
(17) "Você tem que escolher: eu ou o livro!"
(18) "Ler é muito chato!"
(19) "Apague a luz!"
(20) "É só um livro."

quinta-feira, abril 28, 2016

As ilustrações misteriosas de Jennifer Yoswa

A Girl a Chair and a Pear / Winter White
Primeiramente, o que me chamou a atenção nas pinturas a óleo de Jennifer Yoswa foram os retratos de cores vivas com modelos de pescoços alongados, no estilo de Amadeo Modigliani (1884 - 1992). Depois fiquei fascinado com a expressão dos olhos tristes e perdidos e procurei conhecer um pouco mais do trabalho dela na internet e no facebook. Segundo informações do site da artista, uma das poucas fontes disponíveis, ela é uma autodidata que começou a pintar em 2001, inspirada pela poesia, música, pessoas, sentimentos e sonhos. A pintura permitiu uma viagem de auto-descoberta a lugares só alcançados na imaginação. Recomendo esta série sobre os 12 signos do zodíaco, disponível no site oficial.

Girl With Chartreuse Eyes
Ela iniciou a carreira ilustrando livros infantis, primeiramente Morpha, A Rain Forest Story  e depois Jesus from A to Z  que ganhou muitos prêmios nos EUA em 2009 e permitiu que ela exibisse o seu trabalho em várias galerias. O mistério sobre o significado das ilustrações é ampliado pela falta de informações na internet sobre a artista e seu trabalho, a ilustração acima, Girl With Chartreuse Eyes, é realmente hipnótica, difícil deixar de encarar esses grandes e belos olhos "chartreuse", entre o verde brilhante e o amarelo.

Blue Belle
É difícil acreditar que Jennifer não tenha nenhum treinamento formal em Artes como informado no site oficial. Será que toda essa inspiração vem apenas da distante região dos sonhos? É possível que sim, não me parece razoável encontrar uma dessas mulheres no metrô. A misteriosa Jennifer Yoswa vive em Aurora, Colorado.

terça-feira, abril 26, 2016

20 hábitos pouco educados de leitores compulsivos

Detalhes de Alexandre Roslin (1763), Sandro Botticelli (1483) e Vladimir Borovikovsky (1798)
Antes de mais nada preciso confessar que sou um leitor compulsivo. Talvez esta falha de caráter explique a facilidade com que relacionei algumas práticas francamente arrogantes e pouco sociais que somente outros leitores compulsivos poderão entender e reconhecer no seu próprio cotidiano. É difícil definir em que ponto um hábito louvável como a leitura se transforma em vício e obsessão, mas se você se identificou na maioria dos comportamentos abaixo e até mesmo achou alguns um pouco engraçados, sinto dizer caro amigo que, assim como eu, você não tem mais salvação!
(01) Esconder-se de conhecidos em ambientes públicos como transportes coletivos ou salas de espera de aeroportos para não precisar interromper a leitura;
(02) Ficar tentando identificar que livros as outras pessoas estão lendo na rua ou, em um caso mais crítico, tentar ler sorrateiramente alguns trechos;
(03) Recusar-se sistematicamente a emprestar livros para amigos e parentes;
(04) Emitir a sua opinião pessoal e detalhada ao responder à clássica e inócua pergunta no elevador: "está gostando?" ou em outra variante ainda pior: "do que trata esse livro?";
(05) Escrever resenhas mentais de romances que leu recentemente durante eventos religiosos, reuniões de amigos ou festas familiares;
(06) Ignorar o horário comercial de fechamento das livrarias ou ler os livros sem interrupção, recusando-se em alguns casos a comprá-los posteriormente;
(07) Perder a paciência com amigos e familiares que se recusam a entender o valor de determinados autores contemporâneos, muitas vezes por simples desconhecimento;
(08) Abarrotar a casa com livros e ocupar todos os espaços que poderiam ser utilizados de outra forma pelos familiares, com vasos de plantas decorativos, por exemplo;
(09) Não contribuir para a sustentabilidade e preservação das florestas ao recusar-se a reduzir a compra de livros impressos e utilizar plataformas digitais;
(10) Cheirar e acariciar livros em público. Demência de cunho fetichista que somente outros leitores compulsivos poderão entender e aceitar. Essas práticas só devem ser feitas na segurança do seu lar;
(11) Exigir que os amigos e familiares o presenteiem no aniversário e outras ocasiões especiais sempre com livros, impedindo-os de exercer sua livre escolha ou simplesmente de não lhe dar presente nenhum;
(12) Ofender vendedores de livrarias que desconhecem completamente os clássicos da literatura nacional e internacional;
(13) Odiar ou simplesmente desprezar as seções de autoajuda, esoterismo e informática das grandes livrarias;
(14) Escrever resenhas ou críticas excessivamente detalhadas ou explicadas, desrespeitando assim a inteligência do leitor;
(15) Ignorar os eventuais chamados da esposa, filho ou ligações telefônicas tentando terminar um parágrafo ou capítulo;
(16) Não respeitar os gostos alheios que não se encaixam nas suas próprias definições de qualidade literária;
(17) Comprar um livro fantástico para presentear um grande amigo, não resistir à tentação e ler o livro, finalmente deixar o amigo sem presente;
(18) Recusar frequentemente convites para reuniões de amigos após o horário do trabalho pensando em voltar logo para casa e terminar a leitura;
(19) Achar que as pessoas que não compartilham o hábito da leitura são desinteressantes e até mesmo feias sob certo aspecto;
(20) Curtir as publicações nas páginas das redes sociais sobre livros sem ler as matérias ou resenhas nos sites de origem.

segunda-feira, abril 25, 2016

Umberto Eco - Número Zero

Umberto Eco - Número Zero - Editora Record - 208 páginas - tradução de Ivone Benedetti - Lançamento 2015 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Definitivamente este não é o melhor romance de Umberto Eco, mas considero a sua leitura fundamental para os estudiosos e demais interessados nas áreas de Comunicação Social (Jornalismo) e História. O argumento tem como base a criação de um jornal de fachada com a função de produzir notícias tendenciosas para extorsão de elementos do "clube de elite das finanças e da política" sob a pretensa alegação de dizer a "verdade" acima de todas as coisas. Como podemos notar, apesar da ação ocorrer no ano de 1992 (época da famosa operação "Mãos Limpas" na Itália), o tema de manipulação das notícias é ainda bastante atual. O nosso protagonista, um ghost-writer sem maior expressão na área do jornalismo, chamado apenas de Colonna, é contratado pelo editor chefe Simei como assistente de direção e responsável pela revisão de todos os textos, juntamente com seis outros redatores, para criar doze edições experimentais, chamadas de "número zero" para avaliação interna do novo jornal.

Um dos seis redatores, chamado Romano Braggadocio, resume bem o espírito do novo diário que deverá se chamar "Amanhã" com a seguinte definição: "Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias". Por sinal, este é um personagem importante no romance, que desenvolverá uma complexa teoria conspiratória, envolvendo toda a história recente da Itália após a segunda Grande Guerra e tendo como gancho a sobrevivência de Benito Mussolini que aguardaria a retomada do poder, no seu esconderijo na Argentina (ou guardado pelos muros do Vaticano, em uma outra versão do mesmo e obcecado personagem). O autor utiliza com muita habilidade fatos históricos como parte do enredo, alguns revisitados com um tratamento ficcional (como o caso da sobrevivência de Mussolini e o assassinato de João Paulo I) assim como outros completamente verídicos (apesar de um surrealismo digno do nosso Brasil atual), tais como: as ações da organização direitista Gladio, corrupção política e interesses da máfia, loja maçônica P2 e atentados terroristas na Itália, fazendo com que o leitor fique em dúvida sobre o que é verdadeiro ou apenas ficção. O trecho abaixo reflete a visão de Braggadocio, um tanto o quanto obsessiva como o próprio personagem, sobre a sua desconfiança relativa à manipulação das notícias:
"Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente. Você não viu nos telejornais há um ano, com a Guerra do Golfo, o pelicano coberto de óleo, agonizando no golfo Pérsico? Depois foi apurado que naquela estação era impossível haver pelicanos no Golfo, e as imagens eram de oito anos antes, no tempo da Guerra Irã-Iraque. Ou então, como disseram outros, pegaram uns pelicanos no zoológico e lambuzaram de petróleo. O mesmo devem ter feito com os crimes fascistas. Veja bem, não é que me afeiçoei às ideias do meu pai ou do meu avô , nem quero fazer de conta que não houve massacre de judeus. Por outro lado alguns dos meus melhores amigos são judeus, imagine. Mas não confio em mais nada. Os americanos foram mesmo até a Lua? Não é impossível que tenham construído tudo num estúdio, se você observar as sombras dos astronautas depois da alunissagem não são verossímeis. E a guerra do Golfo aconteceu mesmo ou nos mostraram só trechos de velhos repertórios? Vivemos na mentira e, se você sabe que lhe estão mentindo, precisa viver desconfiado. Eu desconfio, desconfio sempre." (pág. 43)
A visão amarga do jornalismo cultural (leiam o trecho abaixo, cheio de sarcasmo bem-humorado sobre o lugar da cultura nas publicações atuais) também é apresentada através das aspirações da redatora Maia Fresia, "quase formada em letras", especializada na área de fofocas, e que mantem as esperanças de desenvolver um trabalho de melhor conteúdo no novo jornal. Na verdade, os únicos integrantes da equipe que conhecem as verdadeiras intenções do periódico são Colonna e o editor chefe Simei. Ambos tratam de diversos assuntos nas reuniões com a equipe para debater a pauta a ser seguida nas próximas edições, uma espécie de manual do mau jornalismo, como destacado em algumas resenhas deste romance (nem sempre "rancorosas" ou "prepotentes", sou obrigado a defender, talvez em causa própria).
"Não podemos tratar demais de cultura, os nossos leitores não leem livros, no máximo a 'Gazzetta dello Sport'. Mas, concordo, o jornal não pode deixar de ter uma página, não digo cultural, mas digamos de cultura e espetáculo. No entanto, os fatos culturais relevantes devem se apresentados em forma de entrevista. Entrevista com o autor é tranquilizadora, porque nenhum autor fala mal do próprio livro, portanto o nosso leitor não fica exposto a espinafrações rancorosas e prepotentes. Além disso, ele depende das perguntas, não se deve falar demais do livro, mas fazer o escritor ou escritora aparecer, quem sabe até com os seus tiques e fraquezas (...) Faça do maldito livro uma coisa humana que mesmo a dona de casa consiga entender, e assim não terá remorsos se não o ler; aliás, quem é que lê os livros que os jornais resenham, em geral nem o resenhista, isso quando o próprio autor o lê, porque, olhando certos livros, a gente às vezes acha que nem ele leu." (págs. 67 e 68)
O leitor de outras obras de Umberto Eco não encontrará neste seu último romance o mesmo brilhantismo literário e pesquisa histórica presentes em, por exemplo, "O Nome da Rosa" ou "O Pêndulo de Foucault", mas certamente será recompensado com alguns bons momentos de prazer ao reconhecer a erudição de um grande escritor que nos mostra como a mídia consegue distorcer a realidade através da publicação não de mentiras, mas sim de fatos absolutamente verídicos. Este procedimento foi tremendamente ampliado em nossa atualidade devido à ação das redes sociais, onde os próprios cidadãos se encarregam de insinuar, denegrir ou francamente inventar fatos em uma velocidade que nenhuma mídia (mesmo na internet) consegue acompanhar com a devida independência e verdadeiro espírito crítico.

quarta-feira, abril 20, 2016

Junot Díaz - é assim que você a perde


Junot Díaz - This is How you Lose Her - Editora Riverhead Books - Lançamento original em inglês em 2012 (Publicado no Brasil pela Editora Record em 2013 com o título "é assim que você a perde", 224 páginas, tradução de Flavia Anderson).

Junot Díaz ganhou os prêmios National Book Critics Award de 2007 e Pulitzer de Ficção de 2008 com o seu romance de estreia, "The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao" (ler aqui resenha do Mundo de K), além disso conseguiu a primeira colocação no ranking preparado pelo site de cultura da BBC para os melhores romances do século XXI até o momento. Logo, esse lançamento foi cercado de expectativa pelo mercado editorial na época e, mais uma vez, foi sucesso de crítica, finalista no National Book Award de 2012, incluído na lista dos mais vendidos do New York Times e em várias seleções de melhores lançamentos do ano, entre elas as listas do próprio New York Times, Washington Post, Huffington Post e Time Magazine, consolidando o autor como um dos nomes mais importantes da literatura  contemporânea latino-americana.

Novamente o tema de Junot é a sofrida vida dos imigrantes hispânicos nos EUA, divididos entre duas culturas. Uma coletânea de contos que bem poderia ter sido publicada como romance já que, apesar de formado por nove narrativas curtas independentes, mantém um fio condutor que as une, em sua quase totalidade, ao mesmo protagonista, o jovem Yunior da República Dominicana. Apesar das dificuldades por que passam os personagens na luta pela felicidade em um país estranho, o tom geral do texto é sempre bem-humorado e a prosa corrida do autor, que dispensa o uso de parágrafos ou aspas para os diálogos, faz com que a leitura seja agradável e difícil de interromper. Outra característica é a inserção de palavras em espanhol no livro original escrito em inglês (na tradução para o português este efeito é suavizado pela maior semelhança entre o português e espanhol).

Em "Invierno" ficamos conhecendo o impacto da chegada em um país estrangeiro através dos olhos de uma criança. Uma história, como muitas outras, de trabalhadores que partem para "fazer a vida" nos EUA, vivem sozinhos durante muitos anos e finalmente conseguem trazer o restante da família, nesta altura mal reconhecendo os próprios filhos que encontrarão um cotidiano pretensamente melhor do que o que tinham no país de origem. O inverno é o símbolo do isolamento de Yunior e o irmão mais velho, assim como a mãe eles não têm outra alternativa do que passar os dias assistindo TV ou observando o estranho novo mundo nevado pela janela, ainda sem escola ou amigos.
"Como não deixavam que saíssemos de casa — está frio demais, justificara Papi uma vez, mas, na verdade, não havia motivo algum, exceto ele não estar a fim de permitir —, a gente se sentava a maior parte do tempo na frente da TV ou ficava contemplando a neve, naqueles primeiros dias. Mami limpava tudo umas dez vezes e preparava uns almoços bem esmerados. Todos nós mudos, de tão entediados. (...) Desde o início, Mami tinha concluído que ver TV era proveitoso; bom para aprender o idioma. Ela via nossas mentes jovens como girassóis radiantes e pontiagudos em busca de luz, e nos colocava o mais perto possível da televisão, para aumentar ao máximo a nossa exposição. A gente assistia a noticiários, programas humorísticos, desenhos, 'Tarzã', 'Flash Gordon', 'Jonny Quest', 'Os Herculoides', 'Vila Sésamo' — oito, nove horas de TV por dia, mas as melhores lições vinham mesmo de 'Vila Sésamo'. Cada palavra que o meu irmão e eu aprendíamos, treinávamos um com o outro, repetindo diversas vezes, aí, quando Mami pedia que lhe disséssemos como pronunciá-la, balançávamos as cabeças e falávamos, Não esquenta com isso não." (pág. 136)
No único conto não relacionado com Yunior, "Otravida, otravez" a narrativa, em primeira pessoa, passa para uma "veterana", apesar de ter apenas vinte e oito anos, na arte de sobreviver no isolamento. Yasmin conhece o mundo somente através de uma lavanderia de hospital onde trabalha muito duro para se manter. Uma esperança de melhorar de vida vem da relação com Ramón, um imigrante mais velho que recebe cartas da esposa que deixou na República Dominicana. Ele está prestes a conseguir comprar uma casa, um sonho de todo imigrante nos Estados Unidos, será que existe um futuro para Ramón e Yasmin?
"Trabalho a dois quarteirões dali, no hospital St. Peter. Nunca me atraso. Nunca saio da lavanderia. Nunca saio da fornalha. Coloco a roupa nas lavadoras, nas secadoras retiro a camada de fiapos que se forma na tela, encho de sabão em pó os dosadores. Coordeno quatro funcionárias, ganho um salário de americano, mas dou um duro danado. Separo pilhas de lençóis com mãos enluvadas. As assistentes hospitalares — a maioria morena — trazem os lençóis. Nunca vejo os doentes, que só me visitam através das manchas e das marcas que deixam na roupa de cama, o alfabeto dos doentes e moribundos. Muitas vezes as manchas são tão profundas que tenho que jogá-las no cesto especial. Uma das meninas de Baitoa me contou que ouviu dizer que tudo o que se coloca ali é incinerado. Por causa da aids, sussurra. Numas ocasiões as manchas se mostram oxidadas e velhas, noutras, o sangue vem com um cheiro forte, como a chuva. Seria de pensar, com todo o sangue que a gente vê, que está rolando uma baita guerra no mundo. Só a que rola dentro dos corpos, diz a garota nova." (págs. 66 e 67)
É preciso segurança para desenvolver todo um conto em uma estrutura narrativa centrada na segunda pessoa como em "Guia Amoroso do Traidor" que fecha o livro (leiam o trecho abaixo). Assim como outros contos, este também tem como argumento os fracassos amorosos de Yunior, sempre por conta da sua compulsão pelo sexo, uma tendência familiar decorrente do sangue quente latino que o faz trair as suas companheiras como um verdadeiro canalha, pelo menos é assim que ele pensa e explica o comportamento auto-destrutivo que o leva finalmente a um estado de desespero e solidão.
"Você tenta usar todas as artimanhas possíveis para ficar com ela. Escreve cartas. Leva-a para o trabalho de carro. Cita Neruda. Escreve um mega e-mail repudiando todas as suas 'sucias'. Bloqueia os e-mails delas. Muda seu número de telefone. Para de beber. Para de fumar. Argumenta que é viciado em sexo e começa a frequentar as reuniões. Culpa o seu pai. Culpa a sua mãe. Culpa o patriarcado. Culpa Santo Domingo. Acha um analista. Cancela seu Facebook. Dá a senha de todas as suas contas de correio eletrônico para ela. Começa a ter aula de salsa, como sempre jurou que faria, para que vocês dois dancem juntos. Alega que estava doente, alega que havia sido fraco — Foi o livro! A pressão! — e, de hora em hora, como um relógio, diz que sente muito. Tenta de tudo, mas, um belo dia, a gata simplesmente se sentará na cama e dirá, 'Chega', e 'Ya', você vai ter que se mudar do apê no Harlem que compartilhava com ela. Você pensa até em fincar o pé. em ocupar ilegalmente o lugar. E chega a afirmar que não vai. Mas, no fim das contas, é o que faz." (pág. 186)

segunda-feira, abril 18, 2016

20 livros proibidos que moldaram a América


É difícil acreditar, mas alguns clássicos da literatura norte-americana, tais como: As Aventuras de Huckleberry Finn, Moby Dick e O Grande Gatsby foram censurados e proibidos no próprio território dos EUA. O levantamento sobre as obras censuradas está disponível no site "banned books week" que é organizado por uma aliança de instituições editoriais e bibliotecas. Não estamos falando aqui de listas de proibições religiosas como o Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica (abolido em 1966 pelo Papa Paulo VI) ou de livros polêmicos como Mein Kempf de Hitler mas, simplesmente, de romances (alguns de caráter juvenil) e poesia. Segue a relação em ordem cronológica com os comentários em tradução livre.

(01) The Scarlet Letter, Nathaniel Hawthorne, 1850
No Brasil: A Letra Escarlate - Editora Companhia das Letras

Não é de surpreender a indignação moralista que o livro causou na época do lançamento. No entanto, é de se espantar quando  cento e quarenta anos depois ainda é proibido por ser pecaminoso e entrar em conflito com os valores da comunidade. Os pais em um distrito escolar chamaram o livro de "pornográfico" e "obsceno" em 1977. É evidente que isso ocorreu antes da era da Internet.

(02) Moby Dick, Herman Melville, 1851
No Brasil: Moby Dick - Editora Cosac Naify

Um distrito escolar no Texas baniu o livro das listas de aulas de inglês avançado devido aos "conflitos com seus valores comunitários" em 1996. Valores comunitários são frequentemente citados em discussões sobre livros censurados pelas partes reclamantes.

(03) Uncle Tom´s Cabin, Harriet Beecher Stowe, 1852
No Brasil: A Cabana do Pai Tomás - Editora Ediouro

Assim como outros clássicos proibidos da época, a descrição precisa do contexto histórico e cultural no qual os escravos eram tratados nos Estados Unidos, transformou o livro em um potencial candidato à censura (como se isso eliminasse ou transformasse a história).

(04) Leaves of Grass, Walt Whitman, 1855
No Brasil: Folhas de Relva - Editora Iluminuras

Se eles não entendem poderão proibi-lo. Este foi o caso quando o grande poema americano "Leaves of Grass" foi publicado pela primeira vez e a Sociedade de Nova York para a Supressão do Vício (?) entendeu a sensualidade do texto como perturbadora. Livreiros de Nova York, Massachusetts e Pensilvânia chegaram a aconselhar os seus clientes a não comprar o livro "sujo"

(05) The Adventures of Huckleberry Finn, Mark Twain, 1884

A primeira proibição deste clássico americano de Mark Twain, na pequena cidade de Concord, Massachusets, em 1885, declarou o livro como "lixo adequado apenas para as favelas". O romance de Twain é um dos mais criticados de todos os tempos e é frequentemente contestado até hoje por causa do uso constante da palavra "negro". Por outro lado, alega-se que é "racialmente insensível", "opressor" e "perpetua o racismo".

(06) The Red Badge of Courage, Stephen Crane, 1895
No Brasil: O Emblema Vermelho da Coragem - Editora Companhia das Letras

Restringir o acesso e recusar a permissão para que professores ensinem sobre os livros ainda é uma forma de censura em muitos casos. Esta obra foi incluída, entre muitas outras, em uma lista compilada em 1986 nos Estados Unidos depois que os pais começaram a apresentar denúncias informais sobre livros em uma biblioteca escolar.

(07) The Call of the Wild, Jack London, 1903

Geralmente saudado como o melhor trabalho de Jack London, The Call of the Wild é criticado por seu tom sombrio e violência sangrenta. O livro foi proibido na Itália, Iugoslávia e queimado em fogueiras na Alemanha nazista no final de 1920 e início dos anos 30 por ter sido considerado "muito radical". Ler aqui resenha do Mundo de K.

(08) The Jungle, Upton Sinclair, 1906
No Brasil: Não publicado no Brasil (ler aqui resenha em português)

As visões, supostamente socialistas, expressas neste livro fizeram com que fosse proibido na Iugoslávia, Alemanha Oriental, Coreia do Sul e Boston (lugares bem diferentes não é mesmo?).

(09) The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald, 1925
No Brasil: O Grande Gatsby - Editora LPM

Talvez o primeiro grande romance americano que vem à mente do grande público, este livro narra o consumo de bebida e vidas decadentes de personagens da sociedade de East Hampton. Ele foi censurado no Colégio Batista na Carolina do Sul por causa da linguagem e meras referências ao sexo.

(10) Gone With the Wind, Margaret Mitchell, 1936
No Brasil: E O Vento Levou - Editora Record

O romance, vencedor do prêmio Pulitzer (que três anos após a sua publicação tornou-se um filme vencedor do Oscar), narra a vida da filha mimada de um fazendeiro sulista antes e depois da queda da Confederação e declínio da região Sul após a Guerra Civil. Elogiado pela crítica por sua instigante representação da vida sulista na época, também foi censurado pelas mesmas razões, além do uso das expressões "nigger" e "darkies".

(11) The Grapes of Wrath, John Steinbeck, 1939
No Brasil: As Vinhas da Ira - Editora Record / Bestbolso

O Condado de Kern, California, tem a grande honra de ter sido o cenário do romance de Steinbeck e também de ser o primeiro local onde ele foi proibido em 1939. Objeções aos palavrões, especialmente "maldição" e as referências sexuais, continuaram até os anos noventa. É um livro com histórico de proibição internacional: foi proibido na Irlanda na década de 50 e um grupo de livreiros na Turquia foi levado ao tribunal por "divulgar propaganda" em 1973.

(12) For Whom the Bell Tolls, Ernest Hemingway, 1940
No Brasil: Por Quem Os Sinos dobram - Editora Record

Pouco tempo após a sua publicação, o correio dos EUA, cujo objetivo era, em parte, monitorar e censurar a distribuição de mídia e textos, declarou o livro como "nonmaiable". Na década de 1970, oito livreiros turcos foram julgados por "divulgar propaganda desfavorável para o Estado" porque tinham publicado e distribuído o texto. 

(13) A Streetcar Named Desire, Tennessee Williams, 1947
No Brasil: Um Bonde Chamado Desejo - Editora LPM

O conteúdo sexual desta peça de teatro, que mais tarde se tornou um filme popular e aclamado pela crítica, sofreu uma espécie de auto-censura quando o filme estava sendo feito. O diretor cortou varias cenas para obter uma classificação adequada e se proteger contra queixas de imoralidade da peça.

(14) The Catcher in the Rye, J.D. Salinger, 1951
No Brasil: O Apanhador no Campo de Centeio - Editora do Autor

O jovem Holden Caulfield, protagonista deste romance, é um filho favorito dos censores. O livro frequentemente é removido de salas de aula e bibliotecas escolares porque é: "inaceitável", "obsceno", "blasfemo", "negativo""sujo" e "prejudica a moralidade". E pensar que Holden Caulfield sempre imaginou que "as pessoas nunca percebiam nada".

(15) Invisible Man, Ralph Ellison, 1952
No Brasil: O Homem Invisível - Editora Record / José Olympio

O livro de Ellison ganhou o National Book Award de 1953 por abordar habilmente questões de nacionalismo negro, marxismo e identidade no século XX. Considerado demasiadamente "expert" nesses assuntos para algumas escolas de ensino médio, o livro foi proibido nas listas de leitura em escolas na Pensilvânia, Wisconsin e Washington.

(16) Fahrenheit 451, Ray Bradbury, 1953
No Brasil: Fahrenheit 451 - Editora Globo

No lugar de proibir o livro que é sobre censura, uma escola em Irvine, California fez uma coisa talvez ainda pior, utilizou uma versão expurgada do texto em que todos os "infernos" e "maldições" foram apagados. Outras reclamações acusaram o livro ser contra crenças religiosas. Ler aqui resenha do Mundo de K.

(17) Howl, Allen Ginsberg, 1956
No Brasil: Uivo - Allen Ginsberg - Editora LPM

Seguindo os passos de outros clássicos da poesia censurados como "Leaves of Grass" (o que pode ser considerado uma honra), as poesias de Allen Ginsberg foram censuradas pelas descrições de atos homossexuais.

(18) To Kill a Mockingbird, Harper Lee, 1960
No Brasil: O Sol é Para Todos - Editora Record / José Olympio

O grande romance de Harper Lee permanece como uma prova positiva de que o impulso da censura está vivo e bem nos EUA, ainda hoje. Para alguns educadores, o vencedor do prêmio Pulitzer é um dos maiores textos que os adolescentes podem estudar em uma aula de literatura norte-americana. Para outros, é considerado uma obra degradante, profana e racista que "promove a supremacia branca".

(19) In Cold Blood, Truman Capote, 1966
No Brasil: A Sangue Frio - Editora Companhia das Letras

Foi objeto de controvérsia em uma aula de inglês na cidade de Savannah, Geórgia, depois que um pai reclamou sobre sexo, violência e profanação. Proibido e posteriormente liberado.

(20) Beloved, Toni Morrison, 1987

Várias vezes este romance, vencedor do prêmio Pulitzer e da autora Afro-americana mais influente de todos os tempos, foi passado a estudantes de inglês do ensino médio. E novamente, por várias vezes, foram apresentadas queixas pelos pais devido à sua violência, conteúdo sexual e bestialidade.
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