sábado, outubro 01, 2016

Os desenhos hiper-realistas de Franco Clun

Detalhes de "Homeless" e "Daniele" por Franco Clun
Os desenhos em grafite do italiano Franco Clun elevam a categoria de arte hiper-realista a um nível surpreendente e despertam aquela velha ilusão de estarmos vendo uma fotografia. Mais do que uma simples demonstração de exibicionismo, a sua técnica está associada com uma rara sensibilidade para captar a alma de seus modelos, seja no ar cansado e desiludido de um "sem teto" na imagem do alto à esquerda ou no olhar jovem e cheio de esperança de sua sobrinha Daniele à direita (desenho de 2010).

"Monnalisa" por Franco Clun
Difícil de acreditar, mas o artista se define no site Deviant Art como um autodidata que aprendeu a desenhar com base em alguns manuais e na própria experiência. Não encontrei atualizações mais recentes na internet sobre o seu trabalho, mesmo em sua página no facebook. Ele iniciou a sua carreira desenhando celebridades (ver esses exemplos em matéria do Daily Mail de 2013) mas, na minha opinião, os seus melhores resultados foram obtidos com pessoas comuns como no caso acima.

"Miciofinale" por Franco Clun
Os desenhos, normalmente retratos de pessoas, levam até 50 horas para serem finalizados, mas Franco Clun esbanja talento também desenhando animais, como no exemplo do gato acima reproduzido com base em fotografia. Visitem a sua galeria no site Deviant Art clicando aqui ou cliquem nas imagens desta postagem para ampliá-las.

segunda-feira, setembro 26, 2016

Lauren Groff - Destinos e Fúrias

Lauren Groff - Destinos e Fúrias - Editora Intrínseca - 368 Páginas - Tradução de Adalgisa Campos da Silva - Lançamento no Brasil 2015.

Este é aquele tipo de romance tão comentado e premiado que acaba criando uma expectativa quanto à real qualidade da obra ou simplesmente como um resultado do processo de marketing da editora. Terceiro livro da carreira de Lauren Groff, foi indicado como 'best-seller' pelo New York Times, livro do ano pela Amazon, The Washington Post, NPR, Time e finalista do National Book Award de 2015, como se não bastasse toda badalação na mídia especializada, foi citado como o livro favorito do ano de 2015 pelo presidente Barack Obama pela revista "People", ganhando ainda mais visibilidade.

Na minha avaliação, o livro tem o grande mérito de encontrar uma forma original para falar do casamento em nossos dias, tema já um pouco fora de moda e, de certa forma, um tanto o quanto esgotado na literatura. É dividido em duas partes, cada uma refletindo o ponto de vista de um dos personagens, enquanto a primeira metade, "Destinos", é integralmente baseada na versão de Lotto para o relacionamento, uma visão na qual o dramaturgo exalta as virtudes da esposa "invisível" dedicada ao desenvolvimento de sua carreira, a segunda, "Fúrias" — que reflete com muito mais precisão a realidade dos fatos — é a perspectiva da esposa, Mathilde, que revela as reais motivações por trás dos eventos narrados pelo marido, uma solução narrativa muito engenhosa da autora que nos permite acompanhar a intimidade e as motivações do casal ao longo de vinte e dois anos. Afinal todo casamento é exatamente isso, uma vida compartilhada, mas não exatamente igual, cada um dos cônjuges com o seu ponto de vista, talvez alguns segredos, na melhor das hipóteses meias verdades ou verdades não declaradas. O resultado é uma imagem externa nem sempre real, como bem sabemos.

     "Terminou muito depressa. Quando ela gritou, as gaivotas escondidas pela duna dispararam em direção às nuvens baixas. Mais tarde, ela mostraria ao marido a escoriação causada pela fricção da oitava vértebra contra a concha de um mexilhão enquanto ele metia de novo e de novo. Os dois estavam com os corpos tão colados que, quando riram, a risada dele vinha da barriga dela, e a dela saía da garganta dele. Ele beijou-lhe as maçãs do rosto, a clavícula e a parte pálida do pulso com veias azuis, que pareciam raízes. Aquela terrível fome, que ele achou que seria saciada, não foi. O fim estava aparente no começo.
     — Minha esposa — disse. — Minha.
     Talvez em vez de vesti-la, ele pudesse engoli-la inteira.
     — Ah, é? — respondeu ela. — Certo. Porque sou uma posse. Porque minha família real me trocou por três mulas e um balde de manteiga.
     — Amo seu balde de manteiga — comentou ele. — Agora é 'meu' balde de manteiga. Tão salgada. Tão doce.
     — Pare — pediu ela. Perdera o sorriso, tão tímido e contrastante que deixara o marido espantado de vê-la de perto sem um. — Ninguém é de ninguém. Fizemos algo grandioso. É novidade.
     Pensativo, ele olhou para ela e mordeu com delicadeza a ponta do seu nariz. Ele a amara com todas as forças durante aquelas duas semanas e, amando tanto assim, a considerara transparente, um prato de vidro. Através dela ele conseguia rapidamente ver sua bondade. Mas vidro é algo frágil, portanto ele teria que ser cuidadoso.
     — Você tem razão — disse ele; pensando 'Não', pensando em quão profundamente pertenciam um ao outro. Sem dúvida.
     Entre a pele dele e a dela havia o menor dos espaços, mal cabia ar, mal cabia a camada de suor que começava a esfriar. Mesmo assim, uma terceira pessoa, o casamento dos dois, se insinuara ali." (Primeira parte - "Destinos" - págs. 10 e 11)

O casal, principalmente devido ao carisma de Lotto, é invejado pelos amigos, mesmo durante os primeiros anos difíceis quando dividiam um pequeno apartamento em Manhattan e enquanto ele tentava consolidar sem sucesso uma carreira de ator de peças de Shakespeare até descobrir o seu verdadeiro talento como escritor e dramaturgo, sempre apoiado pela esposa que trabalhava para pagar as contas da casa. As peças de Lotto tem inspiração em personagens da mitologia grega e cada uma delas, resumida no texto, também é baseada em momentos do relacionamento.  O casamento sempre foi contrário à vontade da mãe rica de Lotto que corta todo o apoio financeiro ao filho o que concede um charme ainda maior ao jovem casal em busca da felicidade e do seu lugar na sociedade.

"Sim, é verdade que houve, por um breve período, uma felicidade absoluta, era 'certeza', e a dominava por completo. Dia escuro, praia pedregosa. Ela se sentia alegre, mesmo quando surgiam pequenas irritações, as moscas de areia que mordiam, o frio que entranhava em seus ossos e as pedras afiadas na praia de Maine que abriram seu dedo do pé como uma uva fatiada e a fizeram voltar mancando para a casa que lhes emprestaram para o dia do casamento. Eles tinham vinte e dois anos. O mundo transbordava de potencial. Estavam tão bem como jamais estariam. Ela mantinha as mãos aquecidas nas costas do novo marido e sentia os músculos remexendo sob a pele dele. Uma concha espetou a coluna dela. Ela sentia que estava devorando ele. Primeira consumação como marido e mulher. Ela imaginou uma jiboia engolindo um veado.
     Se ele tinha defeitos, ela não conseguia identificá-los. E talvez isso fosse verdade, talvez ela tivesse encontrado a única pessoa sem defeitos no mundo. Mesmo se tivesse sonhado com ele, ela não conseguiria inventar alguém assim. Inocente, encantador, engraçado, fiel. Rico. Lancelot Satterwhite. Lotto. Eles tinham se casado naquela manhã. Ela estava agradecida à areia que entrava nas partes impróprias e a deixava assada. Não conseguia confiar na forma pura do prazer.
     Mas a primeira consumação conjugal dos dois terminou rápido demais. Ele riu no ouvido dela; ela, no pescoço dele. Não importava. Suas identidades distintas haviam desaparecido. Ela não estava mais sozinha. Tinha sido esmagada pela gratidão. Lotto a ajudou a se levantar, e eles se curvaram para pegar as roupas, e o oceano do outro lado da duna os aplaudiu. Ela passou o fim de semana todo cantando de alegria." (Segunda parte - "Fúrias" - pág. 216)

Como bem define um dos professores de Lotto na faculdade: "não há diferença entre tragédia e comédia, é tudo uma questão de perspectiva. Narrar é construir uma paisagem, e tragédia é comédia é drama. Só depende de como a pessoa está vendo." É verdade também que "toda história tem dois lados", como antecede o texto promocional do livro e a autora consegue surpreender no desenvolvimento da trama, principalmente ao revelar os segredos de Mathilde, nos mostrando mais uma vez que que nada é o que realmente parece na vida e no casamento, como já imaginávamos.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Paris Doisneau

Paris Doisneau - Editora Cosac Naify - 400 páginas - Tradução Célia Euvaldo - Lançamento 15/09/2010

Robert Doisneau (1912 - 1994) ainda é uma inspiração viva para o fotojornalismo e os fotógrafos de rua de todo o mundo. Este livro reúne 500 imagens de um acervo de mais de 400 mil negativos que têm como tema principal a própria cidade de Paris com seus jardins, bistrôs, cabarés, festas, monumentos e, principalmente, o povo parisiense e seus hábitos no dia a dia, tudo isso ao longo de um século que nem sempre foi de luzes. Assim, também estão registrados momentos da ocupação nazista e da resistência francesa, sempre através de uma visão humanista e bem-humorada, uma marca na carreira do fotógrafo. A capa do livro, por exemplo, é um alerta aéreo no Boulevard de Strasbourg durante a Segunda Grande Guerra, mas quem poderia imaginar tal coisa por esta imagem? Este olhar irônico, tão próprio do artista francês, estabelece uma assinatura de Doisneau, um estilo que o caracteriza e distingue de outros grandes fotógrafos da época. A vida como ela deveria ser.

Ele soube representar todas as classes sociais, gente simples das ruas, artistas, escritores, trabalhadores e desocupados, até mesmo a aristocracia francesa no período em que trabalhou para a Vogue, Life e Paris Match. É considerado, juntamente com Henri Cartier-Bresson, um dos precursores do fotojornalismo atual. Foi difícil escolher alguns poucos exemplos de uma obra tão extensa, as citações abaixo são todas extraídas do livro que incluiu trechos de cadernos de anotações pessoais do fotógrafo e a extensa bibliografia disponível. Para conhecer mais sobre o trabalho de Robert Doisneau e visitar a galeria de fotos no site oficial clique aqui. Indispensável para quem gosta de fotografia e história.
"Lembro-me de Paris boinas e chapéus-coco e de Paris revoltada, Paris humilhada, Paris carolas-burguesas, Paris putas, mas Paris secreta e também Paris barricadas, Paris embriagada de alegria, e, agora, Paris carros, Paris tramoias, Paris 'jogging'..." 
"O povo de Paris, esfregando-se no mobiliário urbano, deu à cidade essa pátina que podemos apreciar. Assim, eu mesmo, por minhas repetidas passagens, colaborei tanto com o lustro dos bibelôs das ruas que sinto, pela primeira vez na vida, um vago sentimento de propriedade. Quero, entretanto, me colocar no lugar dessa espécie incomum dos proprietários liberais, deixando a vocês minha porta escancarada."
Escritora Marguerite Duras no Petit Saint-Bernît, 1955
"Na verdade, deixar às gerações futuras um testemunho sobre Paris durante a época em que tentei viver, posso confessá-lo hoje, foi a menor das minhas preocupações." 
"Se eu tivesse imposto a mim mesmo tal missão, sistematicamente, teria acumulado milhões de imagens, mas em troca de vários dias sem prazer. Mas não, não havia nenhuma premeditação em minha atitude. A luz da manhã me punha a caminho, não fazia sentido. Era possível estar apaixonado pelo que eu via?"
Mergulho no Sena, Pont d'léna, 1945
"Caminhei tanto sobre os paralelepípedos e depois sobre o asfalto de Paris, sulcando a cidade em todos os sentidos durante meio século. Exercício que não requer meios físicos muito excepcionais. Paris não é Los Angeles, graças a Deus, e a condição de pedestre não é aqui um sinal de indigência. Ao longo dos anos, essas imagens que hoje flutuam e vêm se agrupar como rolhas de cortiça na correnteza do rio foram feitas durante as horas roubadas a meus diferentes tipos de empregadores."
"Desobedecer parece-me uma função vital e devo dizer que não estou privado disso. Enquanto eu, delinquente envelhecido que sou, vejo essas pessoas sérias que são os curadores de museus e os bibliotecários fazer grande caso dessas imagens recolhidas em condições ilegais, sinto elevar-se em mim um delicioso contentamento."
O beijo do Hôtel de Ville, 1950
"O que me atrai só é benéfico se for algo estritamente pessoal, para o uso íntimo, em suma. Quero dizer que em determinado lugar deparei com uma silhueta tão harmoniosamente equilibrada que ela adquiriu de imediato o valor de um totem deslumbrante que desde então tento reencontrar, e que em outro lugar um amigo me fez um aceno, o último antes de desaparecer na esquina. Vejam, isso não tem nenhum interesse para vocês."
"A cidade é, para mim, cada vez mais povoada de fantasmas. 'Como é que você diz isso? Sempre existiram muitos fantasmas.' Talvez, mas os fantasmas dos outros são indiferentes para mim."
Pierrette d'Orient, 1953
"O charme das cidades, por fim cá estamos, é como o das flores; ele se deve em parte ao tempo que vamos deslizar sobre elas. O charme precisa do efêmero. Não há nada mais indigesto que uma cidade-museu consolidada por próteses de concreto."
"Paris não corre o risco de se tornar uma cidade-museu; o dinamismo e a avidez dos empreendedores são sua mais sombria garantia. Seu frenesi em tudo demolir é menos repreensível que sua inépcia em construir conjuntos mal-acabados que só funcionam com a intervenção permanente de um policial musculoso."
"Todas essas agências bancárias, todos esses edifícios de vidro, todas essas fachadas de espelho são a marca de uma arquitetura do reflexo. Não se vê mais o que se passa na casa dos outros e tem-se medo da sombra. A cidade torna-se abstrata. Ela não reflete mais senão a si mesma. As pessoas fazem quase desordem nessas perspectivas. Antes da guerra, havia recantos por toda parte."
Rue de Rivoli, Paris, 1978

quarta-feira, setembro 14, 2016

Muriel Barbery - A elegância do ouriço

Muriel Barbery - A elegância do ouriço - Editora Companhia das Letras - 352 páginas - tradução de Rosa Freire D'Aguiar - Lançamento no Brasil 18/02/2008 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O sucesso deste romance, que já ultrapassou dois milhões de cópias vendidas na França, deve muito ao improvável e até mesmo surpreendente charme de suas duas protagonistas, que alternam em primeira pessoa as vozes narrativas: Renée Michel, a solitária viúva ranzinza de cinquenta e quatro anos, zeladora de um prédio luxuoso no centro de Paris e a superdotada Paloma Josse de apenas doze anos, pertencente a uma das famílias ricas que habitam o mesmo prédio. As duas escondem por diferentes motivos e, cada uma a seu modo, as verdadeiras aptidões. Enquanto Renée, a zeladora rabugenta, é na verdade uma autodidata com profunda sensibilidade para a filosofia, música e arte em geral, a jovem Paloma tem uma capacidade nata para a literatura e escreve, em segredo, dois diários sobre o cotidiano no número 7 da Rue de Grenelle. Assim, ficamos conhecendo à partir dos pontos de vista muito diferentes das duas narradoras os detalhes das relações entre os moradores.

Renée Michel, que tem motivos para esconder a sua formação intelectual (motivos que ficarão evidentes ao longo da leitura), é o "ouriço" que dá o título ao romance, na descrição do diário de Paloma que passa a desconfiar da verdadeira formação da zeladora, porque ela "tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes." Mas a melhor descrição desta fascinante personagem, que tenta manter a todo custo a aparência brutalizada que todos os moradores ricos e preconceituosos esperam de uma zeladora, é da própria em um trecho inicial do romance muito bem-humorado e irônico que destaquei abaixo:
"Meu nome é Renée. Tenho cinquenta e quatro anos. Há vinte e sete sou a concierge, a zeladora do número 7 da Rue de Grenelle, um belo palacete com pátio e jardim interno, dividido em oito apartamentos de alto luxo, todos habitados, todos gigantescos. Sou viúva, baixinha, feia, gordinha, tenho calos nos pés e, em certas manhãs autoincômodas, um hálito de mamute. Não estudei, sempre fui pobre, discreta e insignificante. Vivo sozinha com meu gato, um bichano gordo e preguiçoso, cuja única particularidade digna de nota é ficar com as patas fedendo quando é contrariado. Ele e eu não fazemos nenhum esforço para nos integrar no círculo de nossos semelhantes. Como raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me toleram porque correspondo tão bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge, que sou uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande ilusão universal de que a vida tem um sentido que pode ser facilmente decifrado. E, assim como está escrito em algum lugar que as concierges são velhas, feias e rabugentas, assim também está gravado em letras de fogo, no frontão do mesmo firmamento imbecil, que as ditas concierges têm gatos gordos e hesitantes que cochilam o dia inteiro em cima de almofadas cobertas de crochê." (págs. 15 e 16)
A jovem Paloma Josse pode parecer um pouco arrogante, principalmente no trecho abaixo, devido à sua inteligência rara e nata, mas não compartilha dos mesmos preconceitos do resto da família e de outros moradores do prédio. A sua inadequação aos valores de uma sociedade de consumo que espera dela um comportamento de menina rica e mimada faz com que ela não encontre sentido para a vida e tome a decisão de cometer suicídio no dia do seu aniversário de treze anos. Esta trágica opção é narrada pela menina sempre com bom humor e brilhantismo. Todas as suas impressões sobre o cotidiano da família e dos vizinhos ela descreve em dois diários: "Pensamentos profundos" e "Diário do movimento do mundo". Paloma encontrará conforto ao descobrir que, assim como ela, a zeladora do prédio também esconde algo de sua personalidade que as outras pessoas comuns não conseguem enxergar.
"Tenho doze anos, moro no número 7 da Rue de Grenelle num apartamento de gente rica. Meus pais são ricos, minha família é rica, e minha irmã e eu, por conseguinte, somos virtualmente ricas. Meu pai é deputado, depois de ter sido ministro, e por certo acabará na presidência da Câmara, esvaziando a adega do Hôtel de Lassay, a residência oficial. Minha mãe... Bem, minha mãe não é propriamente uma águia, mas é educada. Tem doutorado em letras. Escreve sem erros seus convites para jantar e passa o tempo a nos infernizar com referências literárias (...) O fato é que sou muito inteligente. Excepcionalmente inteligente, até. Se alguém olhar para as crianças da minha idade, vai ver que há um abismo. Como não tenho a menor vontade de que reparem em mim, e como numa família em que a inteligência é um valor supremo uma criança superdotada nunca ficaria em paz, tento, no colégio, reduzir meu desempenho, mas mesmo assim sou sempre a primeira da classe. Poderia pensar-se que fingir ter uma inteligência normal, quando, como eu, aos doze anos, se tem o nível de uma aluna do pré-vestibular para filosofia, é fácil. Pois bem, nada disso! Tenho de dar duro para parecer mais idiota do que sou." (págs. 20 e 21).
Tudo está para mudar no luxuoso prédio após a chegada de um novo morador, o simpático japonês Kakuro Ozu que se alinha com o gosto refinado das duas protagonistas, principalmente com as escolhas da zeladora viúva no campo das artes e cultura já que ambos apreciam, por exemplo, a literatura russa de Tolstoi e as obras da pintura holandesa do século XVII. Renée terá que enfrentar o dilema de continuar a farsa diante dos outros moradores ou assumir a sua verdadeira forma de ver o mundo e um eventual romance com o novo amigo, também viúvo, que insiste em convidá-la para jantar. O final dessa história é totalmente inesperado e não posso detalhar mais a resenha sob o risco de estragar a surpresa dos leitores. A autora Muriel Barbery tem formação acadêmica em filosofia e este conhecimento fica evidente pelas diversas citações ao longo do texto. O romance é uma ótima opção e muito recomendado, sensível e original como as personagens.

sexta-feira, setembro 09, 2016

Paulo Leminski - Toda Poesia

Paulo Leminski - Toda Poesia - Editora Companhia das Letras - 424 páginas - Lançamento 27/02/2013.

O múltiplo Paulo Leminski (1944 - 1989) que foi poeta, romancista, tradutor e compositor (além de faixa preta de judô) deixou um grande vazio na poesia contemporânea brasileira. Como bem definiu outro grande poeta e tradutor, Haroldo de Campos (1929 - 2003), em texto publicado na primeira edição de "Caprichos e relaxos", resgatado agora como um dos apêndices desta antologia, Leminski que é o "polilingue paroquiano cósmico ou caboclo polaco-paranaense soube, muito precocemente, deglutir o pau-brasil oswaldiano e educar-se na pedra filosofal da poesia concreta". Isso significa que ele herdou a tradição da poesia erudita e participou ativamente na formação de uma geração influenciada pelo movimento concretista, que tinha no próprio Haroldo de Campos um dos seus fundadores, chegando até o movimento da poesia marginal ou de mimeógrafo, tão representativa da cultura pop dos anos setenta. O texto abaixo de José Miguel Wisnik resume muito bem esse encontro entre o clássico e o revolucionário na poesia de Paulo Leminski e a sua importância em nossa cultura:
"Não é fácil definir esse lugar, entre a erudição e o chamado 'desbunde', entre a disposição da informalidade existencial, no marco da contracultura dos anos de 1970, e as exigências da construção formal, que parecem polares e insolúveis. Leyla Perrone-Moisés definiu, no entanto, de modo preciso, a sua dicção poética como sendo capaz de cortar esse nó com a lâmina afiada de 'samurai-malandro', o sacador-fazedor que estiliza a instantaneidade tendo como background um largo repertório acumulado. O curitibano Leminski escancara a condição provinciana, que toma estrategicamente como congênita, sem perder de vista a poesia universal da qual é íntimo, e, ao fazê-lo, comenta a crise da poesia ao mesmo tempo que cria para si um centro decidido e esquivo, todo feito de meias-palavras inteiras. De fato, a ambição artística do 'paroquiano cósmico' assume astuciosa e sabiamente, como sua, a oscilação irônica entre a grandeza e a desimportância, entre o menor e o enorme, a pretensão e o desconfiômetro, e adere a ela no interior da própria obra. (...) Não por acaso Paulo Leminski colocou-se, em boa parte por provocação, no alvo das pendengas sobre o discutido valor literário da poesia contemporânea brasileira, de difícil canonização, como se ele fosse, dela, ao mesmo tempo o arqueiro zen e o calcanhar de Aquiles." - nota sobre leminski cancionista - José Miguel Wisnik (págs. 385 e 386)
Como nos ensina Leyla Perrone-Moisés, citada acima por Wisnik, em seu texto "leminski, o samurai malandro", publicado originalmente no suplemento cultural do Estado de S. Paulo em 1983: "A forma breve não é um valor em si; o breve pode ser apenas pouco. Ter ouvido a lição da poesia concreta também não é garantia de concretizar poesia. Quando o jogo de palavras é só graçola, não cola." Enfim, tanta teoria não faz justiça à poesia de Leminski que fala por si mesma e está mais viva do que nunca, principalmente na forma de seus grandes "pequenos" poemas muito famosos em compartilhamentos nas redes sociais devido à sua aparente simplicidade. Digo aparente porque, em nossos tempos de primazia da irrelevância e tirania da superficialidade da informação, ficamos de repente surpreendidos quando na enxurrada de bobagens da nossa linha do tempo diária aparecem certos diamantes que nos pegam de surpresa, assim como um golpe preciso de espada de samurai.

De "caprichos e relaxos" - polonaises (pág. 70)
(Editora Brasiliense - 1983)

Um passarinho
volta pra árvore
que não mais existe

meu pensamento
voa até você 
só pra ficar triste

De "distraídos venceremos" (pág. 228)
(Editora Brasiliense - 1987)

Incenso fosse música

      Isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além

De O ex-estranho (pág. 329)
(Livro póstumo - Editora Iluminuras - 1996)

Invernáculo

      Esta língua não é minha,

qualquer um percebe.
      Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
      Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
      Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
      Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
      uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
      O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
      eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Esta antologia passa por toda a produção de Paulo Leminski (inclusive as edições póstumas), iniciando no hoje raro "quarenta clics em curitiba" (1976) e seguindo cronologicamente com: "caprichos e relaxos" (1983), "distraídos venceremos" (1987), "la vie en close" (1991), "o ex-estranho" (1996), "winterverno" (2001) e alguns poemas ainda inéditos incluídos na última parte como "poemas esparsos". A apresentação é da poeta Alice Ruiz S que foi sua companheira por duas décadas, posfácio do crítico e compositor José Miguel Wisnik e apêndice com textos de Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés.

sábado, setembro 03, 2016

Michel Ciment - Conversas com Kubrick

Michel Ciment - Conversas com Kubrick - Editora Cosac Naify - 384 páginas - tradução de Eloisa Araújo Ribeiro -  prefácio de Martin Scorsese - lançamento no Brasil em 2013.

Uma biografia à altura de um dos cineastas mais polêmicos do século XX. Stanley Kubrick (1928 - 1999) foi o diretor que melhor soube transpor a difícil barreira que separa a literatura e o cinema, mesmo tendo descrito seus filmes como "uma experiência não verbal". Considerado pelos profissionais da área como um grande perfeccionista, Kubrick, assim como outros nomes do nível de Charlie Chaplin, Orson Welles, Robert Altman e Alfred Hitchcock, nunca foi agraciado com o Oscar de melhor diretor. Talvez a razão para isso esteja neste trecho do belo prefácio de Martin Scorsese: "Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encará-la." Talvez, este "choque com a verdade" citado por Scorsese justifique o fato de cada um dos seus treze filmes ter sido recebido com reservas por boa parte da crítica especializada, principalmente Lolita, Laranja mecânica, 2001 e O iluminado. Hoje, todos os seus longas-metragens são considerados clássicos, mas ainda surpreendem as novas gerações de espectadores e inspiram roteiristas, diretores e produtores.
"Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente: o itinerário do menino percorrendo os intermináveis corredores do hotel em seu velocípede em O iluminado; o silêncio monumental do vazio sideral em 2001: Uma odisseia no espaço; o ritmo inumano da primeira metade de Nascido para matar [Full Metal Jacket], que vai crescendo até sua resolução lógica e sangrenta; a espetacular sala de guerra de Dr. Fantástico [Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb], a um só tempo aterrorizante e cômica; o futuro brutalmente pop de Laranja mecânica [A Clockwork Orange]; a intimidade crua dos diálogos entre Tom Cruise e Nicole Kidman em De olhos bem fechados." - Trecho do prefácio de Martin Scorsese (pág. 20)
Stanley Kubrick não costumava conceder muitas entrevistas o que aumentava o mistério em torno de seus filmes. Cada lançamento era precedido de muita expectativa porque, devido à tradição de originalidade do diretor, esperava-se sempre uma realização completamente diferente da anterior. No entanto, Michel Ciment tenta com este livro provar que existe uma "assinatura" que marca uma individualidade e coerência "difícil de ser elucidada devido à abundância e à diversidade das pesquisas formais e ao recurso à adaptação de obras literárias". De qualquer forma, cada produção dele é única, não existe outro filme mais violento do que "Laranja mecânica" ou terror psicológico mais intenso, imortalizado pela atuação de Jack Nicholson, como em "O Iluminado", nem tampouco algo parecido na história do cinema com "2001: Uma odisseia no espaço", que certamente não pode ser classificado simplesmente como ficção científica.
"Para mim, o mais difícil é encontrar uma história. É bem mais difícil do que arranjar dinheiro, escrever o roteiro, rodar o filme, montá-lo etc. O fato de cada um de meus três últimos filmes ter me tomado uns cinco anos vem do tempo considerável que levei para encontrar uma história que valesse a pena. Como nunca escrevi roteiro original, todos os filmes que fiz têm por origem a leitura de um livro. Sempre tenho dúvidas quando um livro me parece evidente para ser levado à tela. Em geral isso quer dizer que ele lembra demais outro filme, que sua mente reage muito facilmente e que é muito fácil saber como fazer um filme dele. Nunca tive a chance de encontrar uma história no momento em que terminava de fazer um filme. Acho que o prazo mais curto antes de encontrar um tema foi de um ano. Não há método sistemático que funcione. É como procurar alguém por quem se apaixonar. Não há muito o que fazer a não ser ficar com os olhos bem abertos." - Stanley Kubrick sobre "Nascido para Matar" (pág. 213)
As pesquisas que antecediam os filmes de Kubrick podiam levar muitos meses, desde a preparação do roteiro até a busca por locações, assim como os prazos dilatados de produção devido à sua obsessão com a análise, planejamento e execução de todos os detalhes (sempre foi, desde a adolescência, um grande jogador de xadrez). Em "O iluminado", por exemplo, foram fabricadas maquetes para cada quarto de hotel, porque Kubrick queria que ele ficasse parecido com um hotel de verdade para fugir do clichê de hotel mal-assombrado, tudo isso aumentava muito o tempo entre os lançamentos (doze anos entre "Nascido para matar" e "De olhos bem fechados", sua última obra, cuja estreia ocorreu pouco depois da morte do cineasta), fazendo com que a sua filmografia acabasse se tornando relativamente reduzida, apenas treze longas-metragens para cinquenta anos de carreira. 

    Fear and Desire [1953]
    Killer´s Kiss (A morte passou por perto) [1955]
    The Killing (O grande golpe) [1956]
    Paths of Glory (Glória feita de sangue) [1958]
    Spartacus [1960]
    Lolita [1962]
    Dr. Strangelove (Dr. Fantástico) [1963]
    2001: A Space Odyssey (2001: Uma odisseia no espaço) [1968]
    A Clockwork Orange (Laranja mecânica) [1971]
    Barry Lindon [1975]
    Shining (O iluminado) [1980]
    Full Metal Jacket (Nascido para matar) [1987]
    Eyes Wide Shut (De olhos bem fechados) [1999]

O título do livro, "Conversas com Kubrick", sugere que o mesmo seja formado apenas por entrevistas, mas na verdade é constituído também por ficha técnica da filmografia completa, bibliografia, índice remissivo e depoimentos de diretores de arte, roteiristas, figurinistas e atores que trabalharam em seus filmes, tais como: Malcolm McDowell (Laranja Mecânica), Marisa Berenson (Barry Lindon), Jack Nicholson e Shelley Duvall (O iluminado). Mais do que uma simples biografia, indispensável para entender melhor a história do cinema e do nosso tempo.

terça-feira, agosto 30, 2016

Os 20 melhores sites literários na internet


Se você se interessa por literatura, livros, arte e cultura em geral ou está pensando em escrever um blog literário, encontrará aqui recomendações para alguns sites especializados que publicam material de qualidade sobre os últimos lançamentos do mercado editorial, resenhas, críticas literárias e todo tipo de informação sobre a área cultural no Brasil e no mundo. Ainda sobre os pretensos benefícios e malefícios da internet, vale lembrar a declaração de Alberto Manguel, autor de "Uma história da leitura," em entrevista recente sobre o seu último lançamento,"Uma história natural da curiosidade": "Temos uma tendência horrível de culpar o instrumento por nossas faltas. É como dizer que o culpado da morte é a faca. A faca é útil. Podemos usar para cortar carne ou matar uma pessoa. A internet é tão útil quanto foram a imprensa ou os rolos de papiro. Mas se não a utilizamos como meio de aprendizagem, vira uma arma letal". 

Babelia - Revista cultural do jornal espanhol El País, disponível online com entrevistas, reportagens e artigos. O espaço conta ainda com conteúdo de áudios ou vídeos de autores lendo fragmentos de suas publicações, download de primeiros capítulos de livros, material inédito de escritores e artistas escolhidos. Pode ser acompanhado nas redes sociais pelo facebook ou twitter. Segundo declaração da Direção do jornal El País nesta matéria de 2014, Babelia pretende ser "uma referência no campo da cultura latino-americana e o ponto de encontro da cultura espanhola, uma plataforma de discussão com uma perspectiva internacional e um gerador de conteúdo de primeiro nível".
The New Yorker's Page Turner - O blog da conceituada New Yorker específico para a área de livros e literatura não deixa nada a desejar em termos de conteúdo à revista impressa que sempre publica ensaios e artigos escritos por ou sobre autores famosos como Haruki Murakami, Jonathan Franzen e Patti Smith. Este artigo de 2012, escrito por Sasha Weiss que foi a editora de literatura da New Yorker de 2012 a 2014 explica os motivos da criação da página, basicamente a intenção de debater sobre livros que passaram despercebidos na mídia ou que, por outro lado, foram muito notados, discutir as obras em tradução e as políticas do cenário literário internacional além da língua inglesa.
Electric Literature - Organização sem fins lucrativos fundada em 2009 e que define sua missão como: "a ampliação do poder de contar histórias com a inovação digital e a garantia de que a literatura continue a ser uma presença vibrante na cultura popular através do apoio a escritores, abraçando novas tecnologias e a criação de uma comunidade online voltada para a literatura". Segundo declaração no próprio site, todos os escritores envolvidos nas publicações são pagos e o conteúdo é passado ao público gratuitamente. A organização é custeada através de doações, para contribuir visite esta página. A atualização é constante nas redes sociais, principalmente na página do facebook.
The Paris Review Daily - Este blog é uma extensão da Paris Review que foi criada em 1953 nos Estados Unidos e é considerada um das revistas literárias mais importantes do mundo, principalmente por criar uma alternativa para a crítica tradicional, deixando os próprios autores comentarem suas obras e seu estilo através da publicação de entrevistas com escritores famosos como E. M. Forster, W. H. Auden, Paul Auster, Jorge Luis Borges, Truman Capote, Louis-Ferdinand Celine, William Faulkner, Vladimir Nabokov, Seamus Heaney, Ian McEwan, Ernest Hemingway, Primo Levi e muitos outros. O site da Paris Review é muito popular nas redes sociais do facebook e twitter.
Los Angeles Review of Books - O site foi criado para compensar a redução de publicações impressas da área cultural e, segundo declaração na página, "é uma organização de artes literárias e culturais sem fins lucrativos que combina a grande tradição da resenha do livro com as tecnologias em evolução da web". Se define ainda como: "uma comunidade de escritores, críticos, jornalistas, artistas, cineastas e estudiosos dedicados a promover e divulgar o que de melhor é pensado e escrito, com um compromisso duradouro com o rigor intelectual, a contundência e o poder da palavra escrita". Doações também podem ser feitas na própria página. Aqui os links para o facebook e twitter.
BuzzFeed Books - O site BuzzFeed é um dos mais populares na internet e segundo informação da própria página tem mais de 7 bilhões de visualizações e 200 milhões de visitas únicas mensais em todo o mundo, o conteúdo está disponível em seis idiomas incluindo espanhol, português, japonês, francês e alemão. O site específico da área de livros apresenta postagens regulares sobre curiosidades e listas (sempre um assunto de muita demanda na internet, não é mesmo?) geralmente mais ligado ao público juvenil. É claro que as páginas do facebook e twitter são um sucesso de público (mais de 790.000 likes no facebook até o momento, nada mal para um site sobre livros).
blog do IMS - O Brasil está muito bem representado aqui na área de cultura com o blog do Instituto Moreira Salles (um dos preferidos da casa), uma entidade civil sem fins lucrativos para a promoção e o desenvolvimento de programas culturais que conta com artigos de Bernardo Carvalho e José Geraldo Couto, além de preciosidades como a página Brasiliana Fotográfica, os sites especiais de Clarice Lispector e Ernesto Nazareth, as revistas: Serrote de literatura e zum de fotografia. Sem falar nas edições digitalizadas dos Cadernos de literatura brasileira (clique aqui para ter acesso ao acervo completo do IMS na área de letras). O site tem muitos seguidores no facebook e twitter.
Flavorwire Books - Depois do BuzzFeed é certamente o site mais popular da internet, cobrindo eventos ligados à arte, livros, música, filmes, TV e cultura pop em todo o mundo com foco no público juvenil. Na seção específica sobre livros, as suas postagens sobre listas são constantemente atualizadas, bastante criativas e cuidadosas, uma fonte de inspiração para muitos blogs literários (o Mundo de K, por exemplo), como esta aqui publicada recentemente: "10 Weird and Wonderful Guinness World Records Titles About Books". Como não poderia deixar de ser as publicações do site são também muito comentadas e compartilhadas por milhares de usuários no facebook e twitter.
The Millions - O site foi estabelecido com este sugestivo título em 2003, como indicado em seu logotipo, com a missão de "oferecer aos leitores algo interessante a cada dia e ajudá-los a encontrar grandes livros para ler" além da divulgação de premiações literáriasThe Millions é bem conceituado na mídia especializada de resenhas literárias e utiliza um time limitado de escritores pagos e fixos, assim como aceita também a contribuição de escritores convidados que eventualmente podem vir a ser efetivados no time fixo. As orientações para publicar artigos ou as possíveis formas de apoio estão disponíveis na página com informações sobre o site. Aqui os links para o facebook e twitter.
TLS Times Literary Suplement - A força da tradição de mais de um século (desde 1902) desta revista literária semanal torna o site um ponto de encontro indispensável para os amantes das letras de todo o mundo que podem encontrar resenhas, ensaios e poemas de autores como: Italo Calvino, Patricia Highsmith, Milan Kundera, Philip Larkin, Mario Vargas Llosa, Joseph Brodsky, Susan Sontag, Gore Vidal, Christopher Hitchens, Orhan Pamuk, Martin Amis, Svetlana Alexsievitch, Geoffrey Hill, Seamus Heaney e Paul Muldoon. O TLS soube se modernizar, evoluindo da tradicional versão impressa para a digital e utilizando a força das redes sociais como o facebook e twitter.
Vulture Books - Outro nome bastante sugestivo para um site de cultura, o Vulture (Abutre) continua "devorando cultura de costa a costa" e é formado por editores da revista semanal New York Magazine, fundada em 1968, com foco na divulgação de filmes, teatro, arte, TV, música e, é claro, livros. O site tem uma seção dedicada somente a listas. Me identifiquei com a declaração do próprio site no facebook que define as resenhas como sendo "escritas com a mente de um crítico e o coração de um fã", acho que este conceito é bem apropriado para um bando de loucos que ainda teima em escrever blogs literários (me incluindo nesta tribo). Aqui os links para acompanhar as matérias no facebook e twitter.
Literary Hub - A ideia que motivou a criação do "hub" foi exercer o papel de uma fonte diária única para todas as notícias da vida literária. Segundo declaração do site, existe hoje um grande conteúdo sobre livros on-line, mas as informações são dispersas e facilmente perdidas. Para atender a esta demanda o Literary Hub tem como parceiros pequenas e grandes editoras e organizações sem fim lucrativo (consultar aqui a relação completa). Existe um espaço no site para ter acesso às informações do dia. Aqui os links para o facebook e twitter.
Fundação Biblioteca Nacional - Podemos nos orgulhar da nossa Biblioteca Nacional desde a sua fundação com a chegada de D. João VI e sua corte ao Rio de Janeiro, como consequência da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão até a criação da Biblioteca Nacional Digital em 2006 e de seu moderno site que permite acesso ao alcance de um clique aos catálogos, acervos (incluindo obras raras), coleções, prêmio Camões de literatura, prêmio Literário Biblioteca Nacional, publicaçõescuriosidades. Tudo isso e muito mais para consulta de pesquisadores, estudantes e visitantes com fácil acesso ao acervo da Biblioteca. Recomendo seguir a página no facebook.
The Guardian Books - Um dos maiores e mais importantes jornais do mundo, o The Guardian foi fundado em 1821 e tem credibilidade internacional. Na área cultural, principalmente na seção de livros, as resenhas detalhadas tem o poder de impulsionar ou terminar com carreiras de autores precocemente. A lista "The 100 greatest novels of all time: The list" já se tornou referência na internet e destaca os maiores romances da literatura universal de todos os tempos, imperdível e bom ponto de partida para encontrar clássicos de Cervantes à Philip Roth. Em 2009 esta lista foi ampliada para "1.000 novels everyone must read - the definitive list". Aqui os links para o facebook e twitter.
Publishnews - O melhor site nacional para notícias do mercado editorial no Brasil e no mundo. Recomendo assinar a newsletter gratuita para receber diariamente o clipping. A newsletter, criada por Carlo Carrenho, já existe desde 2001, mas somente em 2015 o site do Publishnews ganhou uma estrutura realmente profissional, se transformando em parada obrigatória para o pessoal da indústria do livro com balcão de empregos, lista dos mais vendidos, premiações e concursos nacionais e internacionais, entrevistas, feiras e eventos literários além do blog da redação. Para turbinar o seu feed de notícias siga no facebook e twitter.
Book Riot - Segundo declaração no próprio site, o Book Riot é dedicado à ideia de que escrever sobre o livro e a leitura deve ser uma atividade tão diversa quanto livros e leitores são. Ainda segundo os próprios: "Alguns de nossos escritores são profissionais. Muitos deles não são. Nós gostamos de uma boa lista, tanto quanto gostamos de uma boa resenha. Achamos que você pode gostar tanto de J.K. Rowling quanto J. M. Coetzee e que existem coisas inteligentes, engraçadas  e informativas  a dizer sobre ambos e que você não deveria ter de escolher". Esta me parece uma definição simples e muito boa. Mais no facebook e twitter.
Fundação José Saramago - O site já é importante o suficiente devido à sua missão principal que é a de preservar e difundir a palavra de um dos maiores escritores em língua portuguesa através de divulgação da biografia, bibliografia e artigos do nosso único prêmio Nobel. Adicionalmente permite o acesso a todas as edições da revista digital Blimunda desde a sua criação em 2012, notícias sobre a literatura portuguesa além da importante premiação José Saramago que ocorre a cada dois anos, distinguindo jovens escritores com idade até 35 anos por uma obra de ficção publicada em qualquer país de língua portuguesa. A página no facebook já passa de 100.000 seguidores.
Brain Pickings - Um dos sites mais originais na internet, foi criado em 2004 por Maria Popova que trabalhou na Wired, Atlantic e New York Times. O site foi incluído no arquivo permanente da Biblioteca do Congresso em 2012, nada mal para um projeto pessoal que não exibe anúncios e sobrevive através de doações particulares. Maria Popova pensa em seu projeto como peças de LEGO - se os tijolos forem de uma única forma, tamanho e cor, ficamos limitados em nosso processo criativo. Quanto mais rico e diversificado forem os recursos, melhores serão as ideias combinatórias em nossa biblioteca mental. A quantidade de seguidores no facebook já ultrapassa 4,5 milhões de pessoas.
Guernica - Uma premiada revista online sobre ideias, arte, poesia e ficção, publicada duas vezes por mês, sendo o blog atualizado diariamente. O site está organizado nas seções de entrevistas, poesia, ficção e arte. Adicionalmente, são lançadas edições especiais trimestrais para discutir os temas que a linha editorial julga importante nas áreas de artes e política. Por exemplo, seguem os links para as três últimas edições: "O futuro das cidades" de junho 2016, "O futuro da linguagem" de março 2016 e "As fronteiras das nações" de Dezembro 2015. Guernica é uma organização sem fins lucrativos, para contribuir visite esta página. Siga os links para acompanhar no facebook e twitter.
Publisher's Weekly - Um site com objetivo similar ao nosso Publishnews, mas com o foco na indústria do livro internacional e destinado a editores, livreiros, bibliotecários, agentes literários, autores e diversos meios de comunicação. Publica artigos de destaque e notícias cobrindo todos os aspectos do negócio editorial, tais como: listas de mais vendidos em diferentes categorias, estatísticas da indústria, feiras e eventos internacionais, além de ofertas de empregos. Talvez de menor interesse para o leitor comum, mas não deixa de ser interessante como caráter informativo, por exemplo: "The World's 52 Largest Book Publishers, 2016". Recomendo visitar e seguir no facebook e twitter.

domingo, agosto 28, 2016

David Mitchell - Atlas de Nuvens

David Mitchell - Atlas de Nuvens - Editora Companhia das Letras - 544 páginas - Tradução de Paulo Henriques Britto - Lançamento 26/07/2016 (leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Já faz algum tempo que não me divertia tanto com um romance, ou melhor dizendo, não apenas um, mas seis romances em um só, ambientados em várias regiões do mundo e diferentes épocas, do passado ao futuro, com múltiplas técnicas narrativas e improváveis elementos de ligação entre todas as partes, porque "Atlas de Nuvens" é exatamente isso, configurando um virtuosismo literário invejável do inglês David Mitchell ao conduzir a ambiciosa arquitetura do livro e manter a atenção e interesse do leitor ao longo de mais de quinhentas páginas nessa catedral ficcional, se é que podemos chamar assim. Mas não imaginem que se trata de uma exibição gratuita de habilidade de escritor sem proveito para o leitor comum, muito pelo contrário, o livro é contagiante e difícil de interromper porque cada parte, ou capítulo, termina em suspenso (sempre em algum tipo de situação limite) para dar início a uma nova narrativa, continuando mais adiante e assim sucessivamente.

Durante a leitura ficamos imaginando como será possível levar a cabo a tarefa hercúlea de finalizar a obra com alguma coerência, tantos são os personagens e tramas paralelas, ou mesmo se o autor terá que apelar para soluções simplistas, no entanto devo admitir que a conclusão de cada uma das partes é brilhante e tão criativa quanto o desenvolvimento da estrutura, não deixando o leitor frustrado em nenhum momento. O livro "Cloud Atlas", lançado originalmente em 2004 e finalista do Man Booker Prize daquele ano, foi adaptado para o cinema em 2012 (no Brasil com o título de "A viagem"), dirigido pelas irmãs Warchowski e com um elenco formado por Tom Hanks, Helle Berry e Hugh Grant. Não assisti ao filme até hoje para não comprometer a experiência da leitura e agora fico com receio de alterar a minha percepção do livro. Alguém que tenha assistido pode comentar sobre o filme?

A primeira parte, "Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing", como sugere o título, é narrada em forma de diário, contando as aventuras de um tabelião americano em 1850 nas ilhas Chatham localizadas no Pacífico Sul, próximas à Nova Zelândia. Ele fica conhecendo a história (verídica) dos nativos dessas ilhas chamados de morioris que foram dizimados e escravizados pelos maoris da Nova Zelândia, assim como pelos colonizadores europeus. Adam Ewing, que retornava da Austrália, passa somente alguns dias em terra firme nas ilhas enquanto aguarda os reparos na embarcação Prophetess e faz amizade com o dr. Henry Goose, um médico aventureiro que conhece bem a região. Ambos embarcam no navio, juntamente com um escravo moriori clandestino. A técnica utilizada pelo autor neste primeiro capítulo lembra os textos de autores clássicos de aventuras, como Herman Melville (Moby Dick) e Daniel Defoe (Robinson Crusoé).
"Partimos ao nascer do sol, embora a sexta-feira seja vista como dia azarento pelos marinheiros (Resmunga o capitão Molyneux: 'Superstições, dias de santos e outras sandices ficam muito bem em comadres papistas, mas eu estou aqui para ganhar dinheiro!') Eu e Henry não ousamos subir ao convés, pois todos os marujos estavam às voltas com o cordame e há um vento sul forte, com mar agitado; o navio esteve em apuros ontem e não o está menos hoje. Passamos metade do dia arrumando a botica de Henry. Além dos petrechos de um médico moderno, meu amigo possui vários tomos doutos, em inglês, latim e alemão. Numa caixa há um continuum de pós em frascos arrolhados, com rótulo em grego. Com componentes tais ele prepara várias pílulas e unguentos. Olhamos pela escotilha por volta do meio-dia, e as ilhas Chatham eram manchas de tinta no horizonte plúmbeo, porém o intenso balanço do navio é um perigo para aqueles que passaram uma semana em terra firme." (pág. 30)
A segunda parte, "Cartas de Zedelghem", nos apresenta um jovem e brilhante músico inglês chamado Robert Frobisher em 1931. Ele foi deserdado pelo pai e, sendo perseguido por uma série de escândalos e dívidas na sociedade londrina, decide fugir para o interior da Bélgica onde trabalha como assistente de um famoso compositor inglês recluso, Vyvyan Ayrs, no castelo de Zedelghem. A convivência entre os dois faz com que o velho músico doente volte ao seu processo criativo, mas ao longo do processo Robert Frobisher tem um caso com Jocasta, a esposa de Vyvyan, e persegue também a bela filha do casal. Este capítulo é todo narrado através de cartas de Robert para o seu amante Rufus Sixsmith que ficou em Londres. Ao roubar livros raros da biblioteca de seus hospedes para vendê-los a colecionadores, Robert encontra uma antiga publicação sobre um diário no Pacífico Sul, enquanto desenvolve a sua própria composição, o "Sexteto Atlas de Nuvens"
"Tinha duas horas para matar. Tomei uma cerveja gelada num café, e mais uma, e mais uma, e fumei um maço inteiro de uns cigarros franceses deliciosos. O dinheiro de Jansch não é nenhum tesouro enterrado, mas Deus sabe que a sensação que tenho é de como se fosse. Depois encontrei uma igreja numa ruela (evitei os lugares mais turísticos para não correr o perigo de esbarrar em livreiros rancorosos), cheia de velas, sombras, mártires sofredores, incenso. Não entrava numa desde a manhã em que meu pai me pôs no olho da rua. A porta a toda hora abria e fechava . Entravam velhas corocas, acendiam velas, iam embora. O cadeado na caixa das esmolas era da melhor qualidade. As pessoas ajoelhadas rezavam, algumas mexendo os lábios. Eu as invejo, sério. Também invejo Deus, que conhece todos os segredos delas. A fé, o clube menos exclusivo do mundo, tem o porteiro mais esperto. Toda vez que entro nas portas escancaradas da fé, logo me vejo voltando para a rua. Esforcei-me ao máximo para ter pensamentos beatíficos, mas a toda hora minha cabeça voltava a dedilhar o corpo de Jocasta. Até mesmo os santos e mártires nos vitrais eram ligeiramente excitantes. Creio que tais pensamentos não me levam para mais perto do céu. O que acabou me enxotando da igreja foi um moteto de Bach — o coro até que não era abominável, mas a única esperança de salvação do organista seria um tiro nos miolos. Disse isso a ele, também — o tato e a moderação são são desejáveis na conversa fiada, mas quando o assunto é música é preciso falar sem papas na língua." (pág. 81)
A terceira parte, "Meias-vidas - O primeiro romance policial da série Luisa Rey" é toda ambientada na fictícia cidade de Buenas Yerbas, na California em 1975, "uma cidade que tem o pior de San Francisco e o pior de Los Angeles, um autêntico não lugar" e é lá que encontramos um dos protagonistas da última parte, Rufus Sixsmith, muitos anos depois do seu caso com Robert. Ele, já com sessenta e seis anos, é um cientista nuclear que escreve um relatório alertando para os riscos da construção de uma usina nuclear pela poderosa e corrupta corporação Seaboard Power Inc., o relatório aponta para falhas no novo reator Hidra e provoca o assassinato de Sixsmith. Luisa Rey é uma repórter que investiga a situação da usina e procura encontrar o relatório perdido, enquanto lê as antigas cartas de Zedelghem. David Mitchell agora nos apresenta um estilo clássico de romance policial americano de tirar o fôlego.
"Rufus Sixsmith, debruçado na varanda, calcula a velocidade de seu corpo quando ele atingir a calçada, dando fim a seus dilemas. O telefone toca no quarto escuro. Sixsmith não ousa atender. Ouve-se música de discoteca a todo volume vindo do apartamento ao lado, onde uma festa está no auge, e Sixsmith, aos sessenta e seis anos de idade, sente-se mais velho do que é. A poluição obscurece as estrelas, mas para o norte e para o sul, ao longo da orla marítima, Buenas Yerbas resplandece com seu bilhão de luzes. Para o oeste, a eternidade do Pacífico. Para o leste, a extensão nua, heroica, perniciosa, sacralizada, sedenta, enlouquecedora do continente americano. (...) Uma moça emerge da festa no apartamento ao lado e se debruça na varanda vizinha. Seu cabelo é bem cortado, seu vestido violeta é elegante, mas ela prece tomada por uma tristeza e uma solidão incuráveis. 'Proponha um pacto de morte, por que não?' Sixsmith não está pensando a sério, e também  não vai pular, se uma brasa de humor ainda arde nele." (pág. 95)
A quarta parte, "O pavoroso calvário de Timothy Cavendish", é a única passada em nossa época atual, onde acompanhamos a hilária trajetória do editor Timothy Cavendish de sessenta e cinco anos que, por uma série de enganos, acaba internado e aprisionado em uma clínica geriátrica chamada "Aurora House" onde sofre um derrame, no interior da Inglaterra. Abandonado pelo irmão nesta clínica, ele planeja uma fuga espetacular, juntamente com seus "amigos senis mortos vivos", como ele os chama, mas isto não será uma tarefa nada fácil. Uma narrativa muito bem humorada onde nos pegamos rindo sozinhos das peripécias do protagonista. Uma das poucas leituras que Cavendish tem acesso neste período é o primeiro romance policial da série Luisa Rey encaminhado para a sua editora e que parece ser "publicável".
"O plano de Ernie era uma sequência altamente arriscada de dominós, um caindo sobre o outro. 'Qualquer estratégia de fuga', pontificou ele, 'tem que ser mais engenhosa do que os guardas.' E era mesmo engenhosa, para não dizer audaciosa, mas se um dos dominós não caísse sobre o outro o fracasso instantâneo teria consequências terríveis, principalmente se fosse verdade a macabra teoria de Ernie, de que estávamos sendo drogados. Olhando para trás, surpreendo-me comigo mesmo por ter concordado com aquilo. Sentia tanta gratidão por meus amigos estarem falando comigo outra vez, e uma vontade tão desesperada de sair da Aurora House — vivo —, que minha prudência natural se calou, é o que deve ter acontecido." (pág. 401)
A quinta parte, "Uma rogativa de Sonmi~451", nos apresenta uma distopia futurista, uma sociedade que utiliza clones humanos para desempenhar tarefas repetitivas ou perigosas. É o caso de Sonmi~451 que foi criada para servir a uma cadeia de lanchonetes na Asia, uma espécie de McDonald's do futuro chamada de Papa Song Corp. Neste capítulo toda a narrativa é feita seguindo o interrogatório de Sonmi~451, no qual ela conta em detalhes como se rebelou contra a forma impiedosa com que os clones eram escravizados e acabou participando de um movimento terrorista contra o regime totalitário. Uma fábula que tem algo de profético na forma como nossas sociedades evoluem para o futuro.
"Era uma cúpula fechada com cerca de oitenta metros de diâmetro, uma comedoria de propriedade da Papa Song Corp. As servidoras passam doze anos trabalhando sem jamais sair daquele espaço, jamais. A decoração é de estrelas e listras em tons de vermelho, amarelo e sol nascente. A celsius é ajustada ao nosso Exterior; mais quente no inverno, mais fresca no verão. Nossa comedoria ficava no menos-nono andar, debaixo da Chongmyo Plaza. Em vez de janelas, as paredes eram enfeitadas com AdVs. Na parede leste ficava o elevador da comedoria; era a única entrada e saída. A norte, o escritório do Vedor; a oeste, a sala dos seus Auxiliares; a sul, a dormidoria das servidoras. Os igienizadores dos consumidores eram ingressados a nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste. O Eixo ficava no centro. Ali os alimentandos pediam suas refeições; nós entrávamos seus pedidos, debitávamos suas Almas nas caixas, depois bandejávamos suas refeições. Sobre o Eixo eleva-se o Plinto do Papa Song's. Ali Ele performa suas cabriolas para divertir os alimentandos." (pág. 196)
A sexta parte, "O vau do Sloosha e o que deu adespois", um desafio para o tradutor Paulo Henriques Britto e uma verdadeira luta contra o corretor ortográfico para respeitar o vocabulário inventado por David Mitchell que pula para um futuro pós apocalíptico, uma curiosa civilização que sobreviveu à "Queda" em algumas ilhas do Pacífico, uma espécie de holocausto que transformou a humanidade em uma série de tribos que lutam entre si pela sobrevivência. Existe uma pequena chance para a retomada do progresso e uma civilização mais justa à partir de poucos sobreviventes, haverá esperança para a Terra?
"Não, a Nau num é coisa de mito não, é verdadosa, que nem eu e cês. Vi ela com esses meus olho aqui, ó, vinte vez ou mais. A Nau parecia na baía das Frota duas vez por ano, perto dos quinosso da primavera e do outono, quando dia e noite, os dois é igual. Repara que ela nunca que ia em nenhuma cidade de bugre, Honokaa, Hilo, Sota-vento, nunca. E sabe por que? Causa-que só nós aqui do Vale tem Civilação do nive dos Presciente, por isso. Eles num queria escambar com barbo não, desses que achava que a Nau era um poderoso deus-pássaro branco, essas coisa. A Nau era da cor do céu, por isso só dava pa ver ela quando já tava chegano bem pertim. Num tinha remo não, nem vela, nem psisava de vento nem corrente não, causa-que era movida pela ciença dos Antigo. Do tamanho duma ilhota das grande, da altura dum morro baixo, a Nau cabia duzenta-trezenta-quatrocenta gente, quem sabe um milhão?" (pág. 268)
Como resmunga uma das dezenas de personagens de David Mitchell ao longo do romance-catedral: "'Mas essa história já foi contada cem vezes antes!' como se pudesse haver alguma coisa que não tivesse sido feita cem mil vezes antes, entre Aristófanes e Andrew Debilloyd Webber! Como se a Arte fosse o Quê, e não o Como!". Concordo com ele, o que vale mesmo nessa coisa de literatura não é a história em si, mas a originalidade da forma com que ela é contada. O autor criou sem dúvida uma bela homenagem à aventura, aos romances e a Arte de uma forma geral, imperdível.
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