quarta-feira, junho 15, 2016

Mia Couto - Vozes Anoitecidas

Mia Couto - Vozes Anoitecidas - Editora Companhia das Letras - 152 páginas - Lançamento 17/10/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Publicado originalmente em 1987, "Vozes Anoitecidas" foi a primeira coletânea de contos de Mia Couto. Na época, já conhecido como jornalista e poeta, ele surpreendeu público e crítica com as doze narrativas deste livro, onde já estavam presentes todos os elementos que marcaram o estilo único do escritor moçambicano ao longo de sua carreira que culminou com o recebimento do prêmio Camões em 2013. Aqui encontramos o exercício de recriação da linguagem e a invenção de palavras que lembra muito o nosso Guimarães Rosa, utilizando uma mistura de poesia e sonoridade do português coloquial da África, sempre norteado pela preocupação com os problemas sociais que ficam evidentes quando se faz a ligação entre a rica tradição do folclore e a dura realidade atual das ex-colônias. Como bem definiu o poeta conterrâneo José Craveirinha no prefácio à edição portuguesa, "Mia Couto maneja a linguagem das suas figuras legitimando a transgressão lexical de uma fala estrangeira com o direito que lhe permite o seu papel de parente vivo de Vozes anoitecidas". No entanto, é o próprio autor que melhor resume a importância da sua arte como um marco na resistência à exploração de Moçambique, assim como de outros países do terceiro mundo, através da bela introdução abaixo:
"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.  (...) Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever. A umas e outras dedico este desejo de contar e de inventar." (Texto de Abertura - pág. 17)
Assim, constatamos que através das múltiplas vozes "que vazaram o sol" encontramos a mais pura literatura e ainda muito mais, a persistência do desejo e da necessidade ancestral do homem de sonhar, mesmo diante da adversidade e da incompreensão da sua vida em um meio hostil. No conto "A fogueira", os protagonistas se resumem a uma velha e um velho presos a uma solidão que só a morte poderá libertar. É o conto de abertura desta coletânea que decidi apresentar completo, presente para os leitores que se beneficiam da minha impossibilidade de resumir e explicar tamanha força de contar e inventar. Não há resenha que dê jeito. Só lendo para sentir e entender a prosa mágica de Mia Couto.

 A fogueira 
(Mia Couto)

    A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. 
    A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
    O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
    “Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”
    Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
    — Estou a pensar. 
    — É o quê, marido? 
    — Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
    — Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
    A mulher, comovida, sorriu: 
    — Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
    — Vou ver se encontro uma pá.
    — Onde podes levar uma pá?
    — Vou ver na cantina.
    — Vais daqui até na cantina? É uma distância.
    — Hei de vir da parte da noite.
    Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
    — Então, marido?
    — Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.
    — Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
    E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:
    — Mas, marido...
    — Diz lá.
    — Eu nem estou doente.
    — Deve ser que estás. Você és muito velha.
    — Pode ser — concordou ela. E adormeceram. 
    Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.
    — Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
    — Nada, sou pequena.
    Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.
    — A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
    — Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
    Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
    — Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
    — Queres o quê?
    — Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
    — Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
    Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
    — Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
    — Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
   — Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
    No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
    — Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.
    A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.
    — Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
    — Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
    — Qual fogueira?
    Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
    Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
    — Marido, não vai assim. Come primeiro.
    Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
    — Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
    Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:
    — Mulher, ajuda‑me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
    — Estás muito doente.
Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
    — Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.
    — Estás a pensar o quê?
    — Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.
    — É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
    — Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.
    Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.
    — Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
    O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
    Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

quinta-feira, junho 09, 2016

Por que Raduan Nassar abandonou a literatura?


Como todos sabem, Raduan Nassar após ter sido finalista do Man Booker International Prize este ano com a tradução de Um Copo de Cólera, foi honrado com a premiação literária mais importante da língua portuguesa, o Prêmio Camões de literatura 2016, uma escolha de certa forma surpreendente mesmo para o próprio premiado que declarou com alguma ironia não entender os motivos da escolha da organização já que a sua obra se limitava a "um livro e meio". Segundo os jurados, Raduan "privilegia a densidade acima da extensão" o que é a mais pura verdade, diga-se de passagem.

O autor, que já completou 80 anos, vive recluso e se recusa a dar entrevistas desde os anos 1980 quando decidiu abandonar a literatura após escrever dois romances clássicos: Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978). O afastamento por tantos anos do mercado editorial e de todo o entorno de festivais, noites de autógrafos e exposição na mídia, não reduziu em nada o interesse do público em sua obra, muito pelo contrário. Mas afinal, por que Raduan abandonou a literatura? 

Alguns trechos de uma rara e extensa entrevista do ex-escritor em 1996 para a série Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles (IMS) podem fornecer pistas dos motivos para o seu exílio voluntário. As frases são todas de Raduan, mas foram removidas um tanto quanto fora do contexto das perguntas. De qualquer forma, o resultado é um mosaico de opiniões sobre o fazer literário e a sua aversão à rotina burocrática e as formas de controle da individualidade. A entrevista pode ser lida na íntegra no blog do IMS.
(01) "Valorizo livros que transmitam a vibração da vida, só que a vida nesses livros, por melhores que esses livros sejam, será sempre a vida percebida pelo olhar do outro." 
(02) "Qualquer autor isolado é sempre muito pequeno perto da complexidade infinita da vida." 
(03) "A chamada modernidade no sistema de produção, com sua ênfase na eficiência, esmaga certas manifestações de humanismo, incluindo-se nesse humanismo o delírio de alguns." 
(04) "Certos escritores vinham há tempos chupando o sangue das palavras, queriam a qualquer custo acabar com os sentimentos na literatura."
(05) "Acho que a literatura perdeu certa ingenuidade (...) Em literatura, quando você lê um texto que não toca o coração, é que alguma coisa está indo pras cucuias." 
(06) "A dificuldade para entender certos procedimentos transplantados para a literatura, quando se recorre inclusive a cálculos de raiz quadrada." 
(07) "Como o mundo não começa e termina na literatura, arrisco dizer que estou em diálogo com meu tempo, só que no terreno da agricultura." 
(08) "Se digo o que penso, vou ser condenado como escritor ad aeternitatem; se não digo o que penso, eu mesmo vou me condenar ad aeternitatem."  
(09) "Nunca senti muito apego pelos livros. Os livros que me sobraram estão esquecidos lá nas prateleiras, me pergunto sempre que é que estão fazendo nas estantes."
(10) "Se tivesse de me pautar pela leitura de manifestos literários, eu jamais teria escrito uma linha."

terça-feira, junho 07, 2016

Clarice Lispector - Todos os Contos

Clarice Lispector - Todos os Contos - Editora Rocco - 656 páginas - Prefácio e Organização de Benjamin Moser (lançamento Maio de 2016).

Uma bela e merecida homenagem à obra de Clarice Lispector que recebe pela primeira vez no Brasil um tratamento editorial compatível com a importância da sua obra. A antologia, lançada nos Estados Unidos no ano passado, foi relacionada na lista dos melhores livros de 2015 além de ter sido escolhida como uma das 12 melhores capas do ano, ambas as premiações pelo prestigiado New York Times. Em 2016 já levou o Pen Translation Prize de melhor tradução, provando que a sua trajetória internacional está apenas começando. Esta versão conta com um apaixonado prefácio ("Glamour e gramática") do seu melhor e mais fiel biógrafo, o escritor, editor, crítico e tradutor Benjamin Moser, que foi o grande responsável pela divulgação da autora no mercado internacional, lançando em 2009 "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" (traduzido no Brasil como "Clarice" pela Cosac Naify), biografia incluída entre os 100 livros notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review. Os contos de Clarice retornam afinal ao seu país de origem, apesar de serem universais, como fica cada vez mais evidente. Sejam todos bem-vindos ao culto da encantadora feiticeira Clarice Lispector.

A leitura (ou releitura) dos oitenta e cinco contos, permite comparar as diferentes fases de Clarice como escritora, desde os primeiros textos da adolescência até a maturidade. Os contos reunidos no capítulo inicial,"Primeiras histórias", resgatam a obra da juventude e foram publicados durante os anos em que estudava Direito no Rio de Janeiro antes do casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e de sua saída do Brasil, assim como também anteriores à sua estreia com o romance "Perto do Coração Selvagem". Ela nunca se adaptou ao exílio e, durante os dezesseis anos que viveu no exterior, a sua tendência à depressão se acentuou. Na verdade, sempre foi uma estrangeira no Brasil e em todos os países em que viveu, isto acabou beneficiando o seu processo criativo, libertando-a da normalidade, uma espécie de "alienação cultural produtiva", como destacou Benjamin Moser.
"Como é que Clarice Lispector — logo ela — conseguiu triunfar? Ela vinha de uma tradição de fracasso, de uma tradição de falta de tradição, como escritora brasileira, como escritora, como mulher, mas talvez principalmente em consequência de suas origens. Seus primeiros anos de vida foram tão catastróficos que é um milagre que haja conseguido sobreviver. Nasceu em 10 de dezembro de 1920, numa família judia do oeste da Ucrânia. Era uma época de caos, fome e guerra racial. Seu avô foi assassinado; sua mãe foi violentada; seu pai foi exilado, sem um tostão, para o outro lado do mundo. Os restos dilacerados da família chegaram a Alagoas em 1922. Lá, seu brilhante pai, reduzido à condição de vendedor ambulante de roupas usadas, mal conseguia alimentar a família. Lá, quando Clarice ainda não tinha nove anos de idade, perdeu a mãe, levada pelos ferimentos sofridos durante a guerra. (...) Em 25 de maio de 1940, publicou o primeiro conto: "O triunfo". Três meses depois, seu pai faleceu aos cinquenta e cinco anos de idade. Antes de seu vigésimo aniversário, Clarice estava órfã. No início de 1943, ela se casou com um gentio, algo quase sem precedentes para uma moça judia no Brasil. No final daquele ano, pouco depois de ter publicado o primeiro romance, ela e o marido deixaram o Rio de Janeiro. Em um curto espaço de tempo, portanto, deixou sua família, sua comunidade étnica e seu país. Deixou também a profissão, o jornalismo, em que vinha se destacando." (Prefácio de Benjamin Moser - "Glamour e Gramática" - págs. 17 a 19)
Outro fato bem destacado por Benjamin Moser para explicar a mitologia de Clarice Lispector é que ela representa um caso raro de mulher burguesa que não começou a escrever tarde e não parou por causa do casamento ou dos filhos nem tampouco encerrou prematuramente a carreira devido ao consumo de drogas ou ao suicídio. Clarice declarou uma vez que não gostava de ser comparada a Virginia Woolf porque ela havia desistido: "O terrível dever é ir até o fim". Importante notar também que foi aberto espaço na literatura brasileira da época, saturada do realismo de Graciliano Ramos e Jorge Amado, para a vida urbana e a classe média, principalmente na visão das mulheres. Temas como o casamento, filhos, o tédio no cotidiano das donas de casa, a separação, os efeitos dolorosos do envelhecimento e a inevitável solidão no fim da vida são elementos que formam a matéria-prima de seu processo criativo.

Após o primeiro capítulo com os textos da juventude, são apresentados todos os contos publicados originalmente nos livros: “Laços de família” (1960), “A legião estrangeira” (1964), “Felicidade clandestina” (1975), “Onde estivestes de noite” (1974), “A via crucis do corpo” (1974) e “Visão do esplendor” (1975). Encerram esta edição dois contos incompletos publicados em “A bela e a fera” (1979), dois anos depois da morte da autora. É claro que seria impossível para qualquer escritor, mesmo para a feiticeira Clarice, manter o nível de "Laços de Família" — em que todos os textos são obras-primas da literatura universal — na totalidade de sua obra. De fato, existem variações de estilo à medida em que ela amadurece, algumas vezes bastante arriscadas, provando que a autora soube vencer o medo do fracasso e da experimentação, como ela própria declarou: "Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão."

"Laços de Família" foi publicado pela Editora Francisco Alves em 1960 e reuniu alguns contos escritos quando Clarice vivia nos Estados Unidos, tais como: "Mistério em São Cristóvão", "Os laços de família", "Começos de uma fortuna", "Amor", "Uma galinha" e "O jantar" e outros que foram publicados na revista Senhor, quando ela retornou ao Rio de Janeiro, em 1959. Segundo Fernando Sabino comentou na época, o livro seria: "exata, sincera, indiscutível e até humildemente o melhor livro de contos já publicado no Brasil". Érico Veríssimo disse a Clarice: "Não escrevi sobre seu livro de contos por puro embaraço de lhe dizer o que eu penso dele. Aqui vai: a mais importante coletânea de contos publicada neste país desde Machado de Assis". Realmente é muito difícil encontrar um conjunto de contos com tamanha perfeição técnica, não só no Brasil. Todas as vezes que releio "Feliz Aniversário" e "A imitação da rosa" me surpreendo com o alcance universal dos contos, verdadeiros clássicos.

"A Legião Estrangeira" foi publicado pela Editora do Autor em 1964. A edição original era dividida em duas partes: "Contos" e "Fundo de gaveta". Há textos mais antigos, como "Viagem a Petrópolis", publicado num jornal em 1949, e "A pecadora queimada e os anjos luminosos", a única peça de sua carreira, que ela escreveu na Suíça. O conto "Mineirinho" é uma crítica social sobre um homicida que tinha uma namorada e era devoto de São Jorge, e que a polícia matou com "treze balas quando só uma bastava", uma violência que era prática comum já naquela época. Como bem destacado na biografia de Clarice, a "Legião Estrangeira" apresenta "uma forte ênfase nos mundos interiores de seus personagens, as obras de Clarice sempre tiveram um elemento abstrato. "Quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo" ela escreveu em G. H. "A pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço de ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso, e o grito."  E concluindo: "Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu."
"Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir. E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido." ("A Legião Estrangeira" - "O ovo e a galinha" (pág. 306).
"A via crucis do corpo", publicado em 1974, é uma das obras mais polêmicas de Clarice, tendo sido considerado como "pornográfico" por parte da crítica literária, influenciada pelo ambiente repressivo da ditadura militar que moldava a sociedade da época. Nestes contos encontramos um travesti, uma stripper, uma freira tarada, uma mulher de sessenta anos que sustenta um amante adolescente, um casal de lésbicas assassinas, uma idosa de oitenta e um anos que se masturba e uma secretária inglesa que experimenta uma relação sexual com um alienígena do planeta Saturno em noite de lua cheia. Convenhamos que é um pouco demais até para o nosso tempo. Este livro reforçou a reputação de Clarice, já bastante difundida, de personalidade estranha e imprevisível, mas parece se encaixar na trajetória de experimentação e amadurecimento de uma escritora que não tinha medo de errar.

"Visão do Esplendor" foi publicado em 1975 pela Editora Francisco Alves e inclui "Brasilia" em versão inicial de 1962, escrita depois de sua primeira visita à nova capital, publicada em "A Legião Estrangeira" como "Brasília: Cinco Dias". A versão incluída nesta edição é a aumentada, que escreveu após o seu regresso a Brasília em 1974. Esta crônica, se podemos chamar assim, é tão bem escrita e criativa que marquei em amarelo praticamente todos os parágrafos do texto (além de boa parte da minha camisa). Em nossa época, na qual o cenário político é a estrela de todos os noticiários e os crimes de nossos representantes ficam cada vez mais evidentes, não deixa de ser interessante refletir sobre Brasília, o local onde dois arquitetos "não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado."
"— Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. — É uma praia sem mar. — Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. — Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho). — Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria para onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. — Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. — Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes gélidos têm espaço. Vou embora. Aqui meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. (...) — É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. — A alma aqui não faz sombra no chão." ("Visão do Esplendor" - "Brasília" - pág. 593)
Uma autora para se ler e reler sempre e que pode ser perigosa para a nossa sanidade, mas necessária. Cuidado, assim como a sua vida, nada é o que parece em Clarice, nunca. E, principalmente, não acreditem em nada que ouviram falar sobre ela, não esperem mais, leiam vocês mesmos, logo!

quarta-feira, junho 01, 2016

Exposição World Press Photo 2016 no Rio de Janeiro

Hope for a New Life - Warren Richardson 
A exposição que reúne as fotos premiadas em nove categorias da edição de 2016 do concurso internacional World Press Photo está em cartaz no Rio de Janeiro até 19 de junho nas instalações da CAIXA Cultural. A foto acima, Hope for a New Life, do australiano Warren Richardson foi a grande vencedora e capta um momento dramático na fronteira entre Sérvia e Hungria onde, através de um buraco na cerca de arame farpado, um bebê é passado a um refugiado sírio que já havia conseguido cruzar a fronteira. Segundo Francis Kohn, presidente do júri, "a imagem tem quase todos os elementos necessários para se entender o que está acontecendo com os refugiados. É uma foto clássica e, ao mesmo tempo, atemporal". Infelizmente as fotos vencedoras deste concurso nem sempre são agradáveis de se ver, mas isto não é culpa da organização nem dos fotógrafos.

China's Coal Addiction - Kevin Frayer
A foto acima, China's Coal Addiction, do canadense Kevin Frayer, primeira colocada na categoria "Vida Cotidiana", apresenta uma visão apocalíptica da China. Nuvens de fumaça saem das chaminés enquanto homens empurram seus triciclos em um bairro perto de uma central elétrica movida a carvão em Datong, norte da província de Shanxi. A região é a principal produtora de carvão da China, com uma produção anual de mais de 300 milhões de toneladas. Estima-se que a poluição do ar seja uma das causas para 17% das mortes na China. A grande dependência do carvão para produção de energia, fez com que o país se tornasse fonte de quase um terço das emissões de dióxido de carbono de todo o mundo.

Storm Front on Bondi Beach - Rohan Kelly
A foto vencedora da categoria "Natureza", Storm Front on Bondi Beach, do australiano Rohan Kelly, mostra uma enorme nuvem negra que se move em direção à praia, em Sidney, Australia. A nuvem fazia parte de uma frente fria que trouxe tempestades violentas. A imprensa local noticiou ventos destruidores, pedras de granizo do tamanho de bolas de golfe e chuvas torrenciais. O que chama a atenção na foto é a aparente tranquilidade dos banhistas, principalmente da mulher em primeiro plano, frente ao cenário assustador.

A World Press Photo é uma organização independente, sem fins lucrativos, com sede em Amsterdã na Holanda, onde foi fundada em 1955. Visite aqui o site oficial com a galeria histórica de todas as fotos da fundação. Este ano foram inscritas 82.951 fotografias por 5.775 fotógrafos de 128 países. O objetivo da exposição que circula por todo o mundo é promover um maior conhecimento sobre o que acontece globalmente, apoiando o fotojornalismo e a fotografia documental em âmbito internacional.

Exposição World Press Photo
De 17 de maio a 19 de junho de 2016
CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Galeria 4
Av.: Almirante Barroso, 25, Centro, telefone: (21) 3980-3815
Metrô: Estação Carioca
De terça-feira a domingo, 10h às 21h
Entrada Franca

terça-feira, maio 31, 2016

Tradição e modernidade nas ilustrações de Yohey Horishita

Magic Wind and Thunder Gods - Ilustração Final
Yohey Horishita é um ilustrador japonês que reside em Nova York. Ele domina uma técnica muito semelhante à de Yuko Shimizu (ler aqui postagem do Mundo de K), desenhando os contornos à mão com tinta nanquim, digitalizando em seguida o desenho e finalizando as cores com ferramentas de editoração eletrônica como o photoshop. A ilustração acima foi criada para um artigo do jornal Yomiuri e representa Sotatsu Tawaraya, um influente pintor japonês do início do século XVII que acrescentou características humanas às representações divinas. Para visualizar melhor os detalhes (e são realmente muitos detalhes), cliquem nas imagens para ampliá-las.

Goemon Ishikawa - Desenvolvimento e Ilustração Final
Já a imagem acima, criada para outro artigo do mesmo jornal, representa Goemon Ishikawa, uma espécie de Robin Hood japonês, herói folclórico fora da lei que roubava dos ricos para dar aos pobres no final do século XV. Ele foi capturado e cozinhado vivo após o fracasso da sua tentativa de assassinar o Imperador (Shogun). A lenda reza que a tigela de pássaro cantou quando Goemon tentou roubá-la e matar o Imperador durante a noite. O processo de desenvolvimento do trabalho pode ser visto em diferentes etapas, outras criações de Yohey Horishita estão disponíveis na sua página oficial, facebook e blog.

Alice's Adventures in Wonderland - Desenvolvimento e Ilustração Final
A ilustração acima foi desenvolvida para uma campanha publicitária da Wiedmayer Co., uma empresa imobiliária em Atlanta nos EUA. O trabalho bem poderia ser incluído com louvor em qualquer edição de Alice no País das Maravilhas. É interessante notar que artistas como Yohey Horishita e Yuko Shimizu conseguem lidar com a tradição através de uma abordagem moderna, provando que a tecnologia pode e deve ser utilizada como ferramenta de criação (não apenas de produtividade) em todos os campos, inclusive na arte.

quinta-feira, maio 26, 2016

Mia Couto - Cada homem é uma raça

Mia Couto - Cada homem é uma raça - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Lançamento 11/04/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

No momento em que desembrulho minhas lembranças dos onze contos desta coletânea, publicada originalmente em 1990, penso em escrever uma resenha que permita aos leitores sobressonhar com a parecença do texto, usando um pouco da linguagem inventada pelo moçambicano Mia Couto. Pescando uma palavra aqui e outra ali da prosa mágica do autor, tento mostrar um pedacinho do seu mar de poesia no onduralar que seus sonhos imaginadavam, mas acabo ficando imovente e receio desconseguir completar a tarefa, um verdadeiro drible nos corretores ortográficos. Contudo, nesse enquanto, vem andarilhar comigo no desfolhar das tardes e conhecer uma imagem forte da sofrência do povo africano, uma terra sem dúvida devastada pelas guerras e ganância dos colonizadores, mas onde ainda sobrevive a esperança no espírito livre do homem, pelo menos na literatura de Mia Couto.

Segundo alerta o personagem Geguê para o seu sobrinho no conto "O apocalipse privado do tio Geguê": as mulheres são muito extensas, a gente viaja-lhes, a gente sempre se perde, e é exatamente o que acontece quando a bela Zabelani, com olhos de convidar desejos, vem morar com tio e sobrinho, fugida dos terrores do campo, com os pais desaparecidos em anônimo paradeiro. É claro que não demora muito para o sobrinho se apaixonar por ela, um amor em estado de infinita chegada. Sentimos que não há como os personagens escaparem da tragédia anunciada, à medida que avançamos na trama.
"História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. (...) Nasci de ninguém, fui eu que me gravidei. Meus pais negaram a herança das suas vidas. Ainda sujo dos sangues me deixaram no mundo. Não me quiseram ver transitando de bicho para menino, ranhando babas, magro até na tosse. (...) O único que tive foi Geguê, meu tio. Foi ele que olhou meu crescimento. Só a ele devo. Ninguém mais pode contar como eu fui. Geguê é o solitário guarda dessa infinita caixa onde vou buscar meus tesouros, pedaços da minha infância." ("O apocalipse privado do tio Geguê" - pág. 29)
Uma inusitada história de amor (sempre presente nos contos de Mia Couto, apesar da crueldade da terra) acontece em "A princesa russa", onde um casal imigrado da Rússia para Moçambique vem desenterrar riquezas no negócio de exploração de uma mina de ouro. Eles encontram uma realidade ainda mais difícil do que em sua terra natal e, logo, a mulher, que não consegue se adaptar à solidão da sua nova habitação, se revolta com as condições de trabalho locais e estabelece um relacionamento de confiança com Fortin, o negro encarregado dos criados, narrador deste conto. É ele que relembra os fatos da sua vida muitos anos depois em confissão a um padre.
"Venho confessar pecados de muito tempo, sangue pisado na minha alma, tenho medo só de lembrar. Faz favor, senhor padre, me escuta devagar, tenha paciência. É uma história comprida. Como eu sempre digo: carreiro de formiga nunca termina perto. (...) O senhor talvez não conhece mas esta vila já beneficiou de outra vida. Houve os tempos em que chegava gente de muito fora. O mundo está cheio de países, a maior parte deles estrangeiros. Já encheram os céus de bandeiras, nem eu sei como os anjos podem circular sem chocarem-se nos panos. Como diz? Entrar direito na história? Sim, entro. Mas não esqueça: eu já pedi um muitozito do seu tempo. É que uma vida demora, senhor padre." ("A princesa russa" - pág. 77)
Em "O pescador cego", Mia Couto nos mostra que o barco de cada um está em seu próprio peito, conforme a epígrafe que abre o conto, baseada em um provérbio africano. Acontece em certa pescaria que Mazembe, perdido em uma tempestade sem fim e pressionado pela fome brutal, decide arrancar os próprios olhos e utilizá-los como isca, uma prova de que o juízo emagrece mais rápido que o corpo.
"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas. (...) Tudo isso escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há dessas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio." ("O pescador cego" - pág. 97)

sexta-feira, maio 20, 2016

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil - Editora Companhia das Letras - 384 páginas - Tradução direta do russo de Sônia Branco - Lançamento 19/04/2016.

Quando soube da escolha da escritora e jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch para o prêmio Nobel de Literatura de 2015, logo imaginei que a Academia estaria priorizando mais uma vez algum tipo de mensagem política em detrimento da própria literatura. Essa opinião devia-se, em parte, ao desconhecimento do trabalho da autora, inédita (e desconhecida) em nosso país até aquele momento e também pelo fato de um trabalho jornalístico documental sobre fatos reais, por mais importantes que tenham sido, não ser comparável a um texto literário de ficção. Bem, eu estava redondamente enganado. O livro representa um texto jornalístico sem dúvida, mas a literatura transborda de cada página, com a força e o sofrimento do povo soviético, assim como em um romance de Dostoiévski.

A extensão da catástrofe de Tchernóbil ainda é pouco conhecida no ocidente. A Central Elétrica Atômica, localizada em uma região próxima à fronteira com a Bielorrúsia, sofreu no dia 26 de abril de 1986 uma série de explosões em um dos seus quatro reatores. Altos níveis de radiação foram registrados no dia seguinte na Polônia, na Alemanha, na Áustria e na Romênia e, alguns dias depois, no restante da Europa. Esses níveis de radiação se espalharam rapidamente por todo o globo, com registros no Japão, china, Índia, Estados Unidos e Canadá. No entanto, os efeitos mais devastadores ocorreram na Bielorrússia com 485 aldeias perdidas, setenta delas sepultadas sob a terra para sempre de forma a conter a propagação radiativa. Hoje, um em cada cinco habitantes do país vive em território contaminado. Em decorrência da exposição da população às doses de radiação, a cada ano cresce o número de doentes de câncer, de deficientes mentais, de pessoas com disfunções neuropsicológicas e com mutações genéticas. O que dizer então dos efeitos nos "liquidadores", homens encarregados de minimizar as consequências do acidente no reator e que foram convocados para apagar o incêndio, construir o sarcófago que isolou o reator danificado e enterrar todos os vestígios de contaminação local (casas, carros, todo tipo de objetos e a  própria terra na sua camada superficial). Um dos primeiros depoimentos do livro é da viúva de um dos bombeiros que combateu o incêndio inicial na Central Atômica.
"O meu marido começou a mudar; cada dia eu via nele uma pessoa diferente... As queimaduras saíam para fora... Na boca, na língua, nas maçãs do rosto; de início eram pequenas chagas, depois iam crescendo. As mucosas caíam em camadas, como películas brancas. A cor do rosto, a cor do corpo... Azulada... Avermelhada... Cinza-escuro... E, no entanto, tudo nele era tão meu, tão querido! É impossível contar! Impossível escrever! E mesmo sobreviver... O que salvava era que tudo acontecia de maneira instantânea, de forma que não dava tempo de pensar, não dava tempo de chorar. (...) Eu o amava! Eu ainda não sabia como o amava! Tínhamos nos casado havia tão pouco tempo... Ainda não tínhamos tido tempo de nos saciar um do outro... Andávamos na rua, ele me tomava nos braços e me girava. E me beijava, beijava. As pessoas passavam por nós e sorriam. (...) O processo clínico de uma doença aguda do tipo radiativo dura catorze dias. No 14º dia,  o doente morre. (...) Muitos vão morrendo. Morrem de repente. Caminhando. Estão andando e caem mortos. Adormecem e não acordam mais. Está levando flores para uma enfermeira, e o coração para. Está no ponto de ônibus... Estão morrendo, e ninguém lhes perguntou de verdade sobre o que aconteceu. Sobre o que sofremos, o que vimos. As pessoas não querem ouvir falar da morte. Dos horrores... (...) Mas eu falei do amor... De como eu amei." Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko.
Svetlana em seu discurso proferido na cerimônia de recebimento do prêmio Nobel, destacou que não estava sozinha e sim cercada de centenas de vozes que a acompanhavam desde a infância. Também que a verdade não se sustentaria num só coração, num só espírito. Que ela é fragmentada, múltipla, diversa e dispersa pelo mundo. Talvez, a explicação para tamanha carga emocional do texto esteja no fato de que a própria autora também é uma das testemunhas de Tchernóbil. O seu depoimento é mais uma das múltiplas vozes no livro que tentam explicar a catástrofe e seus efeitos na vida e morte da população local. Nós, brasileiros, podemos entender muito bem quando ela desabafa, neste mesmo discurso, sobre algumas afirmações que ouviu do povo russo, tais como: "não se encontra uma pessoa honrada entre nós, mas santos sim", uma afirmação que explica como os políticos são capazes de provocar guerras, gerar perseguições políticas (durante o stalinismo, por exemplo) e outras tragédias históricas, das quais Tchernóbil é apenas mais uma representação.
"Tchernóbil é um enigma que ainda tentamos decifrar. Um signo que não sabemos ler. Talvez um enigma para o século XXI. Um desafio para o nosso tempo. Tornou-se evidente que, além dos desafios religiosos, comunistas e nacionalistas em meio aos quais vivíamos e sobrevivíamos, nos aguardavam novos desafios mais selvagens e totais, embora ainda ocultos aos nossos olhos. No entanto, depois de Tchernóbil algo se deixou entrever. (...) Na noite de 26 de abril de 1986... Em apenas uma noite nos deslocamos para outro lugar da história. Demos um salto para uma nova realidade, uma realidade que está acima do nosso saber e acima da nossa imaginação. Rompeu-se o fio do tempo... (...) Teria sido mais fácil nos acostumar à situação de uma guerra atômica como a de Hiroshima, pois sempre nos preparamos para ela. Mas a catástrofe aconteceu num centro atômico não militar, e nós éramos pessoas do nosso tempo e acreditávamos, tal como nos haviam ensinado, que as centrais nucleares soviéticas eram as mais seguras do mundo, que poderiam ser construídas até mesmo na Praça Vermelha. (...) Hoje cada bielorusso é uma espécie de 'caixa-preta' viva, registra as informações para o futuro. Para todos. (...) Eu levei muitos anos escrevendo este livro. Quase vinte anos. Encontrei e conversei com ex-trabalhadores da central, cientistas, médicos, soldados, evacuados, residentes ilegais em zonas proibidas. (...) Tudo o que conhecemos sobre o horror e o medo tem mais a ver com a guerra. O Gulag stalinista e Auschwitz são recentes aquisições do mal. A história sempre foi a história das guerras e dos caudilhos, e a guerra se tornou, como costumamos dizer, a medida do horror. Por isso as pessoas confundem os conceitos de guerra e catástrofe. Em Tchernóbil, pode-se dizer que estão presentes todos os sinais da guerra: muitos soldados, evacuação, locais abandonados. A destruição do curso da vida. (...) Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem. (...) Antes de tudo, em Tchernóbil se recorda a vida 'depois de tudo': objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Você se pergunta o que é isso: passado ou futuro? Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro..." Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo.
Literatura ou jornalismo, isso não importa muito quando nos deparamos com a importância de uma catástrofe nuclear (difícil chamar apenas de acidente) sem precedentes na história. Uma obra que está fundamentada na força necessária para a superação e sobrevivência do sofrido povo soviético. Finalmente, um alerta para o mundo sobre a importância do uso controlado e pacífico da energia atômica. Um livro que emociona pelo seu humanismo e é indispensável para entender e refletir melhor sobre o nosso tempo. 

quinta-feira, maio 12, 2016

O humanismo na fotografia de Werner Bischof

Foto Werner Bischof - Japão, Tóquio, 1951 -  Clube de Striptease
Werner Adalbert Bischof (1916 - 1954) é um dos nomes mais importantes na história do fotojornalismo. Ele estudou design gráfico e fotografia de 1932 a 1936 com Hans Finsler, mestre do movimento da Nova Objetividade, na Escola de Artes e Ofícios de Zurique e, em seguida, abriu um estúdio de fotografia e publicidade. Em 1942 se tornou um freelancer da área de modas para a revista Du, que publicou seus primeiros grandes ensaios fotográficos em 1943. Bischof recebeu reconhecimento internacional após a publicação em 1945 de sua reportagem sobre a devastação causada pela Segunda Guerra Mundial. 

Foto Werner Bischof - Hungria, Planíces de Puszta, 1947 -  Fazendeiros
Nos anos seguintes, Bischof viajou na Itália e Grécia para a Swiss Relief, uma organização dedicada à reconstrução no período pós-guerra. Em 1948, ele fotografou os Jogos Olímpicos de Inverno em St Moritz para a revista Life e trabalhou para as publicações Picture Post, The Observer e Illustrated em viagens à Europa Oriental, Hungria, Finlândia, Suécia e Dinamarca. Ele foi o primeiro fotógrafo a se juntar à Agência Magnum, cooperativa de fotógrafos sediada na França, após os quatro membros fundadores originais: Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Chim (David Seymour) e George Rodger.

Foto Werner Bischof - Índia, Estado de Bihar, 1951 - Crianças em uma área atingida pela fome
Contrário à "superficialidade e sensacionalismo” das revistas da época, ele dedicou grande parte de sua vida para fotografar a ordem e tranquilidade na cultura tradicional europeia e asiática, algo que não agradava aos editores em busca de material polêmico. Apesar disso, ele encontrou trabalho em matérias sobre a fome na Índia pela revista Life (1951) e também outras matérias no Japão, Coréia, Hong Kong e Indochina. As imagens dessas reportagens foram utilizadas em grandes revistas de todo o mundo. 

Fotos Werner Bischof - Japão, Tóquio e Hiroshima, 1951 - Crianças
Uma das especialidades de Bischof eram as fotos de crianças, como os dois exemplos acima no Japão, onde ele morou durante um ano. As imagens infantis são de uma rara sensibilidade, comparável a outros gênios da fotografia como Robert Doisneau. No outono de 1953 Bischof desenvolveu uma série de fotografias coloridas nos EUA. No ano seguinte, ele viajou pelo México e Panamá, e depois para uma região remota do Peru, onde esteve envolvido com a produção de um filme. Werner Bischof morreu tragicamente, aos 38 anos, em um acidente de carro nos Andes em 16 de maio de 1954.

sexta-feira, maio 06, 2016

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan - Editora Cosac Naify - 320 páginas - Tradução de José Rubens Siqueira - Lançamento 2012

É bom que se diga logo de início que este não é um romance de entendimento simples ou de uma única interpretação, bem como nem um pouco fácil de se resenhar. A narrativa não segue uma estrutura linear e os personagens, a maioria deles escritores, roteiristas ou críticos literários, parece confusa em suas opções e dilemas artísticos ou pessoais. Em algumas passagens, situações absurdas e teatrais são inseridas ao texto, flertando um pouco com o movimento surrealista de André Breton ou o existencialismo de Sartre. Está sempre presente o dilema de todo autor em abandonar as "máscaras modernas" e ser "o mais autêntico possível" ou transformar-se através de múltiplos heterônimos, com mudanças de personalidade e alternando ficção e realidade. Bob Dylan funciona aqui como um símbolo das transformações, muitas vezes contraditórias, mas necessárias na busca de uma identidade que nunca se define.

O ponto de partida do romance é um convite pouco comum recebido pelo protagonista e narrador, escritor catalão de meia-idade — que bem poderia ser o próprio Vila-Matas — para participar de um congresso literário sobre o fracasso e ele logo reflete, com alguma razão, que "poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a literatura". Para confirmar a reflexão do personagem, em uma das conferências do evento, o escritor argentino Sergio Chejfec define o fracasso não como uma eventualidade literária, mas como sinônimo da literatura em geral: "O fracasso é a prefiguração natural do destino do escritor". Já o cineasta Werner Herzog confessa a sua frustração por ter fracassado em perder a própria razão com força suficiente. Enfim, já neste início, Vila-Matas deixa clara a sua opção de conduzir o romance em meio a situações reais e imaginárias, mas sempre colocando a própria literatura e a ficção em um protagonismo central de toda a trama.

Neste evento literário, uma das conferências intitulada "Teatro Verdade" é apresentada pelo jovem Vilnius Lancastre que tem uma notável semelhança física com Bob Dylan, cineasta fracassado de um único curta-metragem e filho do recém falecido escritor Juan Lancastre, Vilnius prepara não exatamente uma conferência sobre o tema do fracasso, mas sim um conto de inspiração autobiográfica sobre os seis dias posteriores à morte do pai e o estranho fenômeno que consistia na infiltração de pensamentos e lembranças dele em sua mente, além de ouvir vozes que insistem em chamá-lo de Hamlet (sempre as deliciosas referências culturais de Vila-Matas, insinuando aqui o assassinato do escritor). O difícil relacionamento familiar com a mãe também é abordado no "conto", como nesta passagem na qual ela descreve o crescente medo do falecido marido escritor diante da perda do impulso criativo:
"E a seu pai não ocorria ideia melhor, ela continuou dizendo, do que comparar seu terror ao dos trapezistas quando soltam um trapézio para alcançar outro, aquele momento no vazio. Essa insegurança, essa angústia, seu pai dizia, pareciam com o que ele sentia diante do livro que estava escrevendo, porque não sabia se ia conseguir, se não se repetiria, se estaria à altura do que conseguira anteriormente, se fracassaria depois de tantos anos sem saber o que era o fracasso. Havia tanta gente, seu pai dizia, tanta gente esperando para tomar o lugar dele, tanta gente esperando que caísse no salto entre um trapézio e outro. E ele não queria dar esse prazer aos que desejavam que fizesse alguma coisa ruim. Tudo parecia cada vez mais complicado porque dizia que, quanto mais tempo levava a pessoa trabalhando na escrita, mais compreendia como sabia muito pouco. E dizia também que ter escrito e publicado tantos livros, ter conseguido 'uma voz de muitas variantes, mas inconfundível, como Kubrik no cinema' podava sua liberdade, pois a pessoa acabava tendo medo cada vez que experimentava coisas novas, um medo cada vez maior de fracassar. Cada vez tenho mais medo, repetia e repetia, convencido de que vivia no país onde mais se castigavam os que tentavam fazer uma obra fora da tradição e do folclore nacional. Estava preocupado com o fracasso quando na realidade havia anos já que era um pobre derrotado na vida." (págs. 55 e 56)
Vilnius inicia uma relação com a bela e sensual Débora, ex-amante de seu pai, formando com ela uma espécie de sociedade artística preguiçosa com inspiração em Duchamp e Oblómov. Uma sociedade "infraleve" que passa a refletir a própria personalidade de Vilnius: "ocioso, instável, geométrico, errante, aspirante a ideólogo da apatia e volátil". Tudo isso, é claro, no cenário dos hotéis, restaurantes, bares e ruas de Barcelona.
"Vilnius e Débora tinham começado a ser uma sociedade que não se dedicava a nada de concreto, talvez porque desejasse evitar qualquer possibilidade de fracasso e talvez porque, além disso, fosse uma sociedade que se sentia atraída pelo infraleve, por todas aquelas coisas — pensemos num sabão que escorrega, por exemplo — que são, por um lado, tão indeterminadas e, por outro, tão específicas; são tudo ao mesmo tempo, como a própria vida. (...) Para eles, infraleve era o roçar de calças ao caminhar, um desenho a vapor de água, um bafejo no vidro da janela (...) Vilnius achou que Débora e ele não só podiam começar a se considerar uma sociedade infraleve, mas também que, em homenagem a Duchamp, essa sociedade podia se chamar Ar de Dylan, o que permitiria a ambos imaginar a si mesmos como uma gota de cristal que conteria a essência de sua época, o ar de seu tempo, do nosso, de um tempo ligado em arte ao mundo de Bob Dylan, criador esquivo e homem de tantos personagens e personalidades." (pág. 199)
Com o desenvolvimento do romance, identificamos também o alter ego de Vila-Matas não só no escritor de meia-idade narrador, mas também no falecido pai de Vilnius o escritor Juan Lancastre que foi um um autor prolífico e de vanguarda. A situação fica ainda mais confusa quando o escritor-narrador, que já havia decidido encerrar a sua carreira literária (arrependido de ter sido também um autor tão prolífico), é convencido por Vilnius e Débora a escrever uma falsa autobiografia de Juan Lancastre. Eu bem que avisei que não se tratava de um livro simples!
"Vim a dizer a Débora que apesar de, quando jovem, eu ter programado não ser nada prolífico, a vida tinha me levado por outros trajetos e não havia parado de escrever um livro por ano. Me arrependia de todos e esperava não ter que fazê-lo também com o último, essa biografia falsa de Lancastre na qual confiava muito porque me parecia idônea, como caída do céu ou caída de Hamlet, uma vez que ia me permitir colocar um contraponto e um fecho mordaz a toda minha obra, uma visão irônica de minha desmesurada produtividade literária. Ou não teria de contar a história de um escritor arrependido de ter sido tão prolífico que tentava deixar de escrever e, de modo fatídico, a vida real e uns maravilhosos preguiçosos impediam que o fizesse? (...) Impediam? Verdade mesmo que era necessário escrever aquele livro? Sim, era. Porque se conseguisse escrever por fim esse romance que esperava conseguir e que não havia sabido fazer em quarenta anos de profissão, poderia depois me sentir mais tranquilo quando entrasse afinal em meu duro e imperturbável período de mudez radical, de mudez severa em todos os terrenos, inclusive o conjugal." (pág. 315)

terça-feira, maio 03, 2016

Objeto de Desejo


Clarice Lispector - Todos os Contos - Editora Rocco - 656 páginas - Lançamento previsto pela Editora para 06/05/2016, já em pré-venda nos sites da Livraria Cultura e Livraria da Travessa.

Um Objeto de Desejo muito especial, primeiro porque resgata uma dívida cultural com a obra de Clarice Lispector ao reunir em um inédito e único volume todos os seus 85 contos em ordem cronológica. Adicionalmente, a autora recebe, também pela primeira vez no Brasil, um projeto gráfico compatível com a sua importância, uma vez que a edição nacional em capa dura respeita a versão lançada no mercado editorial dos EUA, que foi escolhida como uma das 12 melhores capas do ano pelo New York Times. Finalmente, uma chance para as novas gerações de leitores brasileiros conhecerem a obra de uma das maiores escritoras do século XX, esquecendo as citações apócrifas que circulam na internet em seu nome.

Na verdade, o sucesso nos EUA em 2015 deveu-se, em grande parte, ao esforço do biógrafo Benjamin Moser que, em agosto de 2009, lançou o indispensável "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" (traduzido e publicado no Brasil como "Clarice" pela Editora Cosac Naify), biografia que foi incluída entre os 100 livros notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review e abriu o caminho para esta antologia. Após a boa recepção no mercado americano, "Todos os Contos" partiu para uma carreira mundial que parece estar apenas começando. Com traduções na Coreia do Sul e Turquia, agora os contos retornam ao seu país de origem e talvez ajudem a levantar a autoestima dos brasileiros, tão fragilizada no momento.

Em tempo, a participação de Benjamin Moser foi confirmada hoje pela organização da FLIP 2016 que este ano terá como autora homenageada (com toda justiça) a poeta Ana Cristina Cesar. O escritor, editor, crítico e tradutor estará presente, entre outros eventos, no painel "De Clarice a Ana C.", programado para o sábado, dia 02/07, juntamente com Heloisa Buarque de Holanda.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
>