quinta-feira, março 20, 2014

Vencedores do Sony World Photography Awards 2014

Alpay Erdem da Turquia venceu na categoria Open - Smile
Divulgados os vencedores do concurso de fotografias Sony World Photography Awards 2014 para as categorias de amadores: Open, Youth e National Award. A organização avaliou mais de 70.000 inscrições de todo o mundo. A categoria Open foi dividida em dez prêmios diferentes e a imagem acima foi a vencedora da classe Smile. Cada um dos vencedores receberá uma câmara digital A6000 da Sony. Além disso, os fotógrafos terão os seus trabalhos expostos na Somerset House, em Londres, de 1 a 18 de maio, e a imagem vencedora será publicada na edição de 2014 do livro anual da Sony World Photography Awards. Cliquem nas fotos para ampliá-las.

Paulina Metzscher da Alemanha venceu na categoria Youth - Portraits
A categoria Youth foi idealizada para fotógrafos iniciantes com menos de vinte anos e considera três divisões: cultura, meio ambiente e retratos. A foto acima foi tirada durante uma viagem em um trem noturno na China, logo ao amanhecer. Cada vencedor receberá uma câmera digital A5000 da Sony e terá o seu trabalho exposto como parte da exposição da Sony World Photography Awards em Londres, em maio, e publicado no livro anual.

Lise Sundberg da Noruega foi a terceira colocada na categoria National Award
A imagem acima é da categoria National Award que destaca fotógrafos de vários continentes (não sei o motivo da falta do Brasil na relação). A lista completa dos vencedores desta categoria pode ser consultada aqui. Os vencedores receberão vários prêmios, desde uma viagem a Londres para participar do jantar de gala do Sony World Photography Awards a realizar no dia 30 de abril, até modernos equipamentos de imagem digital da Sony.

terça-feira, março 11, 2014

George Saunders - Folio Prize 2014


O escritor norte-americano George Saunders é o primeiro vencedor do mais novo prêmio literário em língua inglesa, o Folio Prize, com premiação de 40.000 libras (66.500 dólares). A sua antologia de contos "Tenth of December" foi escolhida entre 80 livros em língua inglesa publicados no ano passado na Grã-Bretanha por autores de diversas nacionalidades, independente da forma ou gênero (romance, conto ou poesia), conforme o regulamento da organização.

A escolha me parece coerente para uma premiação que nasce em oposição ao tradicional Man Booker Prize que teria se tornado muito sensível aos apelos comerciais e representa também a valorização do gênero conto, confirmando uma tendência apontada pelo Nobel 2013 ao premiar a contista Alice Munro. Outro fato que surpreendeu foi a maioria de autores norte-americanos selecionados (cinco dos oito finalistas), sendo que, à partir de 2014, o Man Booker Prize também contará com a participação de autores dos EUA.

Segue a "shortlist" do Folio Prize 2014: os norte-americanos Sergio De la Pava, ("A Naked Singularity"), Amity Gaige ("Schroder"), Kent Haruf ("Benediction"), Rachel Kushner ("The Flame Throwers") e George Saunders ("Tenth of December"); a irlandesa Eimear McBride ("A Girl is a Half-Formed Thing"), a canadense Anne Carson ("Red Doc") e a britânica Jane Gardam ("Last Friends").

A Folio Society, patrocinadora do evento, é uma famosa editora de livros ilustrados (clique nos títulos para ver estes exemplos: Moby Dick, Mrs. Dalloway e In Cold Blood). No Brasil, a tradução de "Tenth of December" está programada para ser lançada em 2014 pela editora Companhia das Letras.

sexta-feira, março 07, 2014

Marcos Bassini - Senhorita K

Marcos Bassini - Senhorita K - 150 páginas - Editora Patuá - Ilustração Diogo Brozoski - Lançamento 2013.

Estreia de Marcos Bassini, redator, roteirista e compositor na área da literatura, Senhorita K é um livro de poesias nada convencional porque, ao utilizar poemas para contar a saga de sua protagonista, incorpora elementos do gênero romance e roteiro que, associados ao estilo leve e original do autor, tendem a conquistar novos leitores ainda não iniciados na área de poesia. 

A nossa carismática personagem, Senhorita K, descobre muito cedo o amor e a incompreensão decorrente de uma gravidez inesperada, que ela decide interromper, sofrendo por isso as pressões da sociedade e, principalmente, de sua própria consciência. A relação entre culpa e punição é um tema importante na literatura que explica a escolha do título, inspirado no personagem Josef K de Franz Kafka. É desnecessário afirmar que a letra K, por afinidade óbvia, conta com a simpatia deste blog

A originalidade de Marcos Bassini flerta com o surrealismo e fica clara logo de início com a "falsa" errata abaixo:
 ERRATA

onde se lê eu, leia-se aquilo que não se sabe, universo ausente, dúvida homérica, carnaval silencioso, reza escandalosa, lógica imprevisível

onde se lê amor, leia-se armadura, garras de adamantium, escudo da senhora fantástica, sombra árida, saliva fervente que dissolve o aço

onde se lê você, leia-se universo autônomo, galáxia intocável, mitocôndria fugitiva, pó que se esconde entre um grão de areia e outro

onde se lê a gente, leia-se chifres e chifradas, cabeçudos e cabeçadas, sangue vermelho tingindo a anemia

onde se lê vida, leia-se morte indecifrável, barca convexa atirando marinheiros aos tubarões

onde se lê errata, leia-se
O autor foi premiado no concurso Edith - Só Para Poetas, organizado pela Editora Edith e divulgado na Balada Literária 2013, criação de Marcelino Freire. Para conhecer outros exemplos da poesia de Marcos Bassini na revista de poesia e arte contemporânea Mallamargens, clique aqui.

domingo, março 02, 2014

Vencedores do World Press Photo Contest 2014

Vencedor da categoria Questões Contemporâneas - John Stanmeyer
Divulgados os vencedores da edição 2014 do concurso da fundação World Press, a organização mais conceituada do mundo na área de fotojornalismo. Foram avaliados 5.754 fotógrafos de 132 países, totalizando 98.671 fotos. A imagem acima é muito representativa da nossa época porque mostra imigrantes africanos na cidade de Djibouti tentando captar o sinal de celular mais barato da vizinha Somália. Para conhecer mais trabalhos de John Stanmeyer, fotógrafo norte-americano da revista Time e National Geographic, visite o site oficial dele clicando aqui.

Vencedor da categoria Notícias - Philippe Lopez
Em 2013, o tufão Hayan destruiu grande parte das Filipinas. Esta foto capturou o momento das mulheres sobreviventes em uma procissão religiosa na ilha de Leyte completamente devastada (cliquem na imagem para ampliá-la). Ela já havia sido escolhida pela revista Time como uma das 10 imagens emblemáticas do ano. O francês Philippe Lopez é fotógrafo da AFP e trabalha atualmente em Hong Kong.

Vencedor da categoria Esportes Ação - Jia Guorong
A foto acima é da competição de barras no encontro nacional de atletismo em Shenyang, China. As imagens da World Press, nem sempre são agradáveis de serem vistas porque estão normalmente relacionadas a guerras, conflitos violentos e desastres naturais, mas isto não é culpa dos fotógrafos. Conheça aqui o imperdível site da World press com a galeria histórica da fundação, incluindo algumas das fotos que marcaram o nosso tempo, como a menina nua correndo depois de um ataque com napalm no Vietnan, o monge budista que ateou fogo em seu próprio corpo, o homem solitário que protestou contra uma coluna de tanques na China e muitas outras.

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Kurt Vonnegut - Cat´s Cradle

Kurt Vonnegut - Cat´s Cradle - 287 páginas - Random House Publishing Group - Lançamento original 1963.

Sempre achei difícil entender por que não conseguimos encontrar bons livros em livrarias de aeroportos, seja no  Brasil ou no exterior. Será que as pessoas em trânsito só se interessam por livros de autoajuda, best-sellers ou revistas de fofoca? Bem, foi com imenso prazer que descobri este livrinho salvador em uma loja do aeroporto de Houston ao aguardar um demorado voo de conexão. O próprio Kurt Vonnegut, com a sua corrosiva veia satírica, certamente acharia curiosa a pacífica convivência com as publicações vizinhas.

Cat´s Cradle ("Cama de Gato" em português) é um dos romances mais fortes já escritos em protesto contra o uso irresponsável da ciência pela indústria de armamentos e manipulação da religião pelos governos. Como sempre, Vonnegut consegue tratar de temas difíceis com humor (mesmo que seja um tipo de humor negro). A narrativa tem como base uma pesquisa de um jovem escritor (duas mulheres, 250.000 cigarros e 750 litros de cerveja atrás…) sobre um fictício cientista chamado Felix Hoenikker, pretensamente um dos criadores da bomba atômica, e os eventos ocorridos no dia do lançamento desta bomba em Hiroshima. Durante a pesquisa ficamos conhecendo os três filhos de Hoenikker, um anão pintor, uma jovem clarinetista e o terceiro que se torna general em uma pobre ilha caribenha chamada San Lorenzo. Uma última invenção de Hoenikker antes da própria morte, uma fórmula chamada ice-nine, em poder dos filhos, pode representar uma ameaça para o futuro da humanidade.

Uma das invenções mais engraçadas e cínicas de Vonnegut, neste romance, é a religião predominante na ilha de San Lorenzo, chamada de "bokononista" e orientada pela mentira que torna os seguidores corajosos, saudáveis e felizes, segundo o seu criador Bokonon. Adicionalmente, a própria ilha, desprezada por uma sequência de metrópoles colonizadoras, acaba sendo controlada por um tirano chamado Miguel "Papa" Monzano que mantém o poder fingindo banir a religião local com a pena de morte para os simpatizantes (apesar do próprio tirano ser um seguidor). Este falso confronto de forças entre governo e religião demonstra ser uma  decisão acertada para manter o controle da ilha e desviar o foco das verdadeiras necessidades do povo. Um livro importante na literatura contemporânea e, infelizmente, ainda representativo da estupidez humana.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Granta Vol. 11 - Os melhores jovens escritores britânicos

Revista Granta Vol. 11 - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2013 - publicado originalmente por Granta Publications com o título: Granta 123: Best of Young British Novelists 4.

Este tipo de edição da revista Granta já ajudou a divulgar, em suas três versões anteriores, publicadas uma vez a cada dez anos, autores do nível de Martin Amis, Julian Barnes, Kazuo Ishiguro, Salman Rushdie e Will Self. Logo, é sempre um evento muito aguardado no mercado editorial e uma espécie de garantia de bons textos. Um resumo com a biografia dos autores selecionados, todos com menos de 40 anos e em sua maioria desconhecidos do público brasileiro, pode ser conhecido nesta matéria da BBC, sendo que Zadie Smith e Adam Thirlwell foram os únicos já incluídos na seleção anterior de 2003. No Brasil a revista Granta em português estreou em 2007 com uma edição traduzida dos melhores jovens escritores norte-americanos (ver resenha do Mundo de K clicando aqui). 

Conforme explicação de John Freeman, editor da Granta de 2008 a 2013, a relação dos vinte autores selecionados pode ser dividida da seguinte forma: doze mulheres e oito homens (a primeira vez que uma lista deste tipo é de maioria feminina), três de ascendência africana; uma nascida na China e que só recentemente começou a escrever em inglês; outra de origem australiana; uma do Paquistão, outra de Bangladesh e ainda um indiano de segunda geração, de Derbyshire. Quatro autores judeus, um nascido no Canadá, de origem húngara, e outro que cresceu, entre outros lugares, no Texas. Uma lista para lá de globalizada, apesar de não ter havido esta preocupação (ainda segundo Freeman). Na verdade, a Granta não apostou no escuro ao selecionar este time de autores porque todos já receberam ou foram finalistas de importantes prêmios literários internacionais como o Man Booker Prize, Orange Prize, Commonwealth Writers Prize e outros, além de histórico de publicações anteriores.

Outra estatística importante desta edição é que ela conta, infelizmente, com apenas três contos completos e dezessete trechos de romances  em andamento (na época do lançamento da Granta) o que pode passar uma sensação de fragmentação e frustrar os leitores que acabam ficando sem a conclusão da maioria dos textos (mesmo procedimento adotado na seleção de jovens autores brasileiros de 2012 com trechos antecipados dos romances "Barba ensopada de sangue" de Daniel Galera e "Todos nós adorávamos caubóis" de Carol Bensimon).

Destaque para o conto "Glow" de Ned Beauman, uma movimentada história de ação na Tailândia, centrada no relacionamento amoroso entre um químico de drogas local e um americano que acabam desenvolvendo juntos uma fórmula para uma poderosa nova droga sintética, assim como "Chegadas", trecho inédito do próximo romance de Sunjeev Sahota, que mostra o difícil cotidiano de um grupo de imigrantes ilegais tentando sobreviver na cidade de Sheffield, Inglaterra. O engraçadíssimo conto "Logo e em nossos dias" de Naomi Alderman nos faz imaginar como seria a visita do profeta Elias, na primeira noite de Páscoa, em um tradicional lar de uma comunidade judaica nos subúrbios de Londres em nossos dias, imperdível.

sexta-feira, janeiro 31, 2014

Mapa literário de Moby Dick


O site Strange Maps transformou em geografia um dos maiores clássicos da literatura universal ao postar um mapa com uma reprodução de época do que teria sido a rota do navio Pequod em sua obsessiva perseguição à baleia Moby Dick (o mapa original na Biblioteca do Congresso pode ser visto aqui e os detalhes em alta definição neste site da Universidade de Chicago).

A ilustração representa a progressão do navio Pequod, liderado pelo capitão Ahab e sua infeliz tripulação, como descrito no romance de Herman Melville, iniciando na ilha de Nantucket, costa leste da América do Norte, navegando por todo o Oceano Atlântico, cruzando o Cabo da Boa Esperança, Oceano Índico e chegando ao Oceano Pacífico até o final fatídico em algum local da Nova Guiné. Uma ótima oportunidade para relembrar personagens inesquecíveis como Ismael, Queequeg, Starbuck e, principalmente, o transtornado capitão Ahab.

Esta postagem chama a atenção também para um projeto sem fins lucrativos, coordenado pela Universidade de Plymouth e outros, chamado Moby Dick - Big Read, que disponibiliza acesso gratuito a todos os capítulos do romance em áudio (ver aqui página do facebook).

terça-feira, janeiro 28, 2014

Haruki Murakami - 1Q84 - Livro 3

Haruki Murakami - 1Q84 (Livro 3) - 472 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Tradução direta do japonês de Lica Hashimoto - Lançamento: Novembro 2013 (lançamento original no Japão em 2009). Ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Resenha do Livro 1: Haruki Murakami - 1Q84 1

Resenha do Livro 2: Haruki Murakami - 1Q84 2

À medida que avançamos rumo ao final da trilogia, percebemos como Haruki Murakami provoca ao máximo a curiosidade no perplexo leitor que imagina ansioso os possíveis desfechos para as linhas narrativas principais desta estranha epopéia, seja o esperado encontro de Tengo e Aomame nos labirintos da cidade de Tóquio, ou um sentido para os fenômenos criados pelo "Povo Pequenino" e a sua relação com a seita religiosa Sakigake, além dos mistérios ligados à criação de clones, encarnações, sexo e a fé em um deus nada convencional que é representado por uma senhora de meia-idade em uma Mercedes-Benz coupé prateada (até mesmo o deus de Murakami é fashion). Entretanto, apesar das inúmeras incursões no campo da fantasia e universos paralelos, este volume é essencialmente romântico, como podemos perceber nas passagens abaixo, relacionadas às vozes de Aomame e Tengo.
"A razão de eu estar aqui é clara. Há um único motivo: encontrar Tengo e me unir a ele. Esse é o motivo principal de eu existir neste mundo. Se olharmos pelo sentido inverso, esse é o único motivo de este mundo existir dentro de mim. Como espelhos colocados frente a frente, refletindo uma imagem ao infinito, isso pode ser um paradoxo sem fim. Eu faço parte desse mundo, e esse mundo é parte de mim." - pág. 372.
"Ele sabia que precisava de tempo para assimilar esse novo mundo que surgia diante dele. Precisava adaptar e reaprender todas as coisas, uma por uma: a maneira de pensar, o modo de ver as coisas, selecionar as palavras, o jeito de respirar e de mover o corpo. Para isso, precisava juntar todo o tempo existente no mundo. Não — talvez o mundo todo fosse insuficiente." - pág. 428.
Um novo e forte personagem, o incansável investigador Ushikawa à serviço da seita Sekigake, funciona como contraponto ao clima romântico deste terceiro volume e vem dividir com Tengo e Aomame a alternância da narrativa. Os seus métodos são eficientes, mas inescrupulosos para descobrir o paradeiro de Aomame, ele pode ser considerado uma máquina insensível, eficaz e resistente.
"Sei que devo ser um homem de meia-idade desagradável e obsoleto", pensou Ushikawa. "Não. Não se trata de 'devo ser'. Sou, sem sombra de dúvida, um homem de meia-idade, desagradável e obsoleto. Mas possuo alguns dons naturais que a maioria das pessoas não tem. Uma capacidade olfativa ímpar e uma 'firme determinação' de agarrar com força uma coisa e não largá-la de jeito nenhum. Foi graças a esses dons que consegui sobreviver até hoje. Enquanto eu possuir essa capacidade, independentemente de o mundo se tornar cada vez mais estranho, seja onde for, certamente conseguirei sobreviver." - pág. 104.
"Desde criança, seu rosto era grande e sua cabeça disforme. Os lábios grossos arqueados para baixo davam a impressão de que, a qualquer momento, um fio de baba escorreria dos cantos (era apenas uma impressão, isso nunca chegou a acontecer). Os cabelos eram crespos e desajeitados. Definitivamente, não tinha uma aparência que despertasse qualquer tipo de atração." - pág. 148.
"A aparência de Ushikawa chamava muita atenção. Era inadequada para espionar ou seguir pessoas. mesmo que tentasse passar despercebido na multidão, ele se destacava como uma centopeia dentro de um pote de iogurte." - pág. 194.
Para aqueles leitores que esperavam explicações convincentes para os surpreendentes delírios da saga de Murakami, este livro pode ter um final simplista e decepcionante, mas acho que ele merece o nosso perdão já que criou personagens inesquecíveis como a misteriosa e sensual assassina que veste Junko Shimada com sapatos Charles Jourdan e momentos mágicos passados nas noites de inverno de Tóquio, onde os personagens observam em uma praça deserta, do alto de um escorregador, um céu com duas luas.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

20 citações de escritores sobre a arte de escrever


Será que podemos melhorar a técnica e criatividade de nosso texto conhecendo os conselhos e aforismos dos grandes mestres da literatura ou devemos encarar as citações apenas como exercício de genialidade desses autores, sem qualquer finalidade prática. Bem, garanto que não será perda de tempo conhecermos algumas dessas frases, escritas por quem melhor entende do assunto (apesar do pensamento inicial de Thomas Mann).

(01) "O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever." - Thomas Mann (1875 - 1955);

(02) "Cada escritor cria os seus precursores." - Jorge Luis Borges (1899 - 1986);

(03) "Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido." - Jules Renard (1864 - 1910);

(04) "Tantas pessoas que escrevem e tão poucas que lêem!" - André Gide (1869 - 1951);

(05) "Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do ato de escrever." - José Saramago (1922 - 2010);

(06) "Não se escreve por se querer dizer alguma coisa, escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer." - Scott Fitzgerald (1896 - 1940);

(07) "Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." - Fernando Pessoa (1888 - 1935);

(08) "Não se 'faz' uma frase. A frase nasce." - Clarice Lispector (1920 - 1977);

(09) "Acabar um livro é como dar à luz uma criança e dar-lhe um tiro." - Truman Capote (1924 - 1984);

(10) "Há duas maneiras de se elevar a si mesmo; ou por sua própria indústria ou pela imbecilidade dos outros." - Jean de La Bruyére (1645 - 1696);

(11) "Antigamente, livros eram escritos por homens de letras e lidos pelo público. Hoje em dia, livros são escritos pelo público e lidos por ninguém.” - Oscar Wilde (1854 - 1900);

(12) "Para ser grande é preciso ter 99 por cento de talento, 99 por cento de disciplina e 99 por cento de trabalho." - William Faulkner (1897 - 1962); 

(13) "Há certo tipo de ficção mediante a qual o autor tenta se libertar de uma obsessão que não é clara nem para ele mesmo. Mal ou bem, são as únicas que consigo escrever.” - Ernesto Sabato (1911 - 2011);

(14) "Depois de se escrever um conto, deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais mentimos" - Anton Tchekhov (1860 - 1904);

(15) "Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento exato." - Isaac Bábel (1894 - 1940);

(16) "Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros." - Eugène Ionesco (1912 - 1994); 

(17) "Toda frase deve fazer uma de duas coisas – revelar o personagem ou avançar a ação." - Kurt Vonnegut (1922 - 2007);

(18) "A escrita não é senão ritmo." - Virginia Woolf (1882 - 1941);

(19)  "Escrever é uma questão de colocar acentos." - Machado de Assis (1839 - 1908);

(20) "Minha regra mais importante é uma que resume todas: se soa como escrita, eu reescrevo." - Elmore Leonard (1925 - 2013).

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Yuko Shimizu


Podemos encontrar as premiadas ilustrações da japonesa Yuko Shimizu em publicações da New Yorker, Time ou Rolling Stone, assim como em anúncios para grandes corporações como a Microsoft e Target. Ela reside em Nova York desde 1999, cidade que sempre foi uma das grandes inspirações para o seu trabalho. Difícil é selecionar somente alguns exemplos da sua arte, mas em sua página oficial existe muito mais material disponível ou também na sua fan page do facebook ou blog. Uma influência evidente é da artista pop japonesa Yayoi Kusama (Polka Dot), como podemos notar pelas bolinhas da ilustração abaixo. Yuko Shimizu utiliza uma mistura de técnicas tradicionais (desenhando os contornos à mão com tinta nanquim) e, após digitalizar o desenho, finaliza as cores com ferramentas de editoração eletrônica.
 
  

Na verdade, as influências nos seus projetos não vêm apenas de pintores, ilustradores e artistas plásticos, mas também de outras formas de expressão como a literatura (Haruki Murakami e Yukio Mishima), cinema (Wong Kar-wai e John Woo) e até mesmo de ícones da moda como Jean Paul Gaultier (ver aqui postagem no blog de Yuko Shimizu onde ela escreve sobre suas influências). Ah sim, é importante não confundi-la com outra ilustradora japonesa famosa de mesmo nome, criadora da Hello Kitty (ela deve ficar muito brava com isso).


A ilustração acima foi feita para o metrô de Nova York, tendo como tema a Grande Estação Central e divulgada em posters nas estações entre 2011 e 2012 (parte do projeto Arts for Transit do MTA). Vale muito a pena conhecer aqui o processo criativo e a história por trás desta ilustração pela própria Yuko. Ela conta, por exemplo, que a garotinha asiática no topo da ilustração é uma representação dela própria quando criança. Vocês não acham que as ilustrações de Yuko Shimizu têm tudo a ver com literatura?

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Javier Marías - Cuando fui mortal

Javier Marías - Cuando fui mortal - Editora Alfaguara España - 248 páginas - publicação original 1996 - traduzido no Brasil pela Editora Companhia das Letras em 2006.

Antologia que reúne doze contos escritos entre 1991 e 1995, lançados originalmente em diversas revistas e suplementos literários de jornais da Espanha. Segundo esclarece o próprio Javier Marías na introdução, o fato dos contos terem sido "encomendados" em sua maioria, inclusive com limitações de extensão em função do tipo de publicação, não lhe roubou o prazer e o divertimento de escrevê-los.

Apesar das diversas origens e motivações dos textos, percebemos uma tendência temática apontando para as novelas de mistério ou policiais de clima "noir' mas, deve-se ressaltar, com a narrativa sempre desenvolvida no estilo elegante e único de Marías que soube se adaptar muito bem aos requisitos de ritmo e tempo dos contos, tão diferentes da estrutura dos romances.

O conto que empresta o título ao livro, Quando fui mortal, é narrado em primeira pessoa por um fantasma que revisita e analisa do além, onde o tempo não passa, a sua vida completa em detalhes, assim como os fatos que levaram ao seu assassinato. Como afirma o nosso triste protagonista e narrador, quase tudo se esquece na vida e de tudo lembramos na morte, inclusive daquilo que não tínhamos consciência na época. Com este gancho a trama ganha um imprevisível desfecho que surpreende o leitor, como deve ocorrer sempre em toda boa narrativa curta.

Em No tempo indeciso, um daqueles poucos exemplos de sucesso na associação entre literatura e futebol, conhecemos um jogador húngaro de rara habilidade com a bola e com as mulheres que é contratado por um grande time espanhol. O título é uma referência a um momento mágico descrito por Javier Marías quando o craque, em um jogo importante, deixa todo o estádio em suspenso ao passar pelos zagueiros e goleiro e interromper o avanço com a bola já na linha divisória do gol, um segundo magistralmente descrito por Javier Marías. Este jogador abandonou uma noiva em seu passado que voltará para acompanhá-lo no declínio de sua carreira.

No conto que poderia entrar para qualquer antologia da categoria policial, Sangue de lança, acompanhamos a investigação de um assassinato duplo com requintes de violência e crueldade que aparentemente não consegue ser solucionado pelas investigações da polícia. Porém, um amigo da vítima não se conforma com alguns detalhes incoerentes relacionados à cena do crime, como por exemplo, o fato do amigo homossexual ter sido encontrado morto na cama com uma mulher. A narrativa, apesar do tema violento, é conduzida com leveza bem-humorada pelo autor e o final é mais uma vez surpreendente.

sábado, janeiro 11, 2014

Principais prêmios e eventos literários em 2014


Nem sempre os prêmios e eventos literários conseguem divulgar de maneira justa e imparcial as obras mais relevantes de um determinado período. A tarefa, que já é difícil por natureza, sofre diversas influências, começando pelo marketing das editoras e autores e, algumas vezes, até mesmo decorrentes de pressões políticas. De qualquer forma, entendo que vale sempre a pena acompanhar e divulgar pelo que esses eventos tem de melhor, a chance de conhecer e falar mais sobre literatura. Sendo assim, segue abaixo alguns dos principais prêmios e eventos literários, nacionais e estrangeiros, previstos para o ano de 2014 com algumas informações gerais, inclusive das edições anteriores, e as respectivas datas previstas, quando disponíveis.

Prêmio da Fundação Príncipe de Astúrias - Concedido anualmente desde 1981 à pessoa, instituição, grupo de pessoas ou de instituições cujo trabalho de criação ou de pesquisa represente uma contribuição relevante para a cultura universal nas áreas de Literatura ou de Linguística.

Para o ano de 2014 serão aceitas candidaturas até o dia 13 de março e a cerimônia solene de entrega dos prêmios será realizada em Oviedo (Principado de Astúrias, Espanha) na segunda quinzena do mês de outubro. Cada prêmio Príncipe de Astúrias é dotado com uma escultura de Joan Miró – símbolo da premiação – uma quantia de 50.000 euros, um diploma e uma insígnia.

Ver aqui a relação completa de premiados dos anos anteriores. A brasileira Nélida Piñon foi agraciada em 2005 com este prêmio. E em 2013 o vencedor foi o espanhol Antonio Muñoz Molina.

Prêmio Camões - O prêmio Camões foi instituído em 1988 pelo Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre os governos de Brasil e de Portugal, para ser atribuído anualmente aos escritores que tenham contribuído de forma relevante para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. O valor do prêmio é de 100.000 euros.

O moçambicano Mia Couto foi o último escritor agraciado com o prêmio Camões em 2013.

Dalton Trevisan passou a integrar em 2012 o seleto time de brasileiros já contemplados pelo Prêmio Camões: Ferreira Gullar (2010), João Ubaldo Ribeiro (2008), Lygia Fagundes Telles (2005), Rubem Fonseca (2003), Autran Dourado (2000), António Cândido de Mello e Sousa (1998), Jorge Amado (1995), Rachel de Queiroz (1993) e João Cabral de Melo Neto (1990).

Feira do livro de Frankfurt - Considerado o maior evento editorial do mundo, a Feira de Frankfurt remete a 500 anos de tradição se confundindo com a própria história do livro. Desde 1988 um país é convidado para apresentar a cultura nacional. O Brasil já foi o país escolhido por duas vezes, em 1994 e 2013.

A participação do Brasil em 2013 ficou marcada pelo polêmico discurso de abertura do escritor Luiz Ruffato. Ler aqui o discurso de Ruffato na íntegra.

Em 2014, a Feira está prevista para o período de 8 a 12 de outubro e o país homenageado será a Finlândia. Clique aqui para conhecer o blog oficial dos organizadores.

FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty - Evento anual que teve início em 2003 e sempre conta com uma seleção impecável de autores. Pela FLIP já passaram nomes como: Julian Barnes, Don DeLillo, Eric Hobsbawm, Hanif Kureishi, John Banville, Enrique Vila-Matas, Ian McEwan, Salman Rushdie, para citar somente alguns.

Ao longo de sua história a FLIP soube conquistar a posição de um dos principais festivais literários do mundo, principalmente pela participação do público e a localização privilegiada de Paraty.

A 12º edição da FLIP está prevista para o período de 30 de julho a 3 de agosto de 2014. Realizada sempre no início de julho, terá esta data em função da Copa do Mundo, que será em julho. Millôr Fernandes será o autor homenageado desta edição.

Festival Literário de Hay - Este é um dos eventos literários anuais mais concorridos e que serviu de inspiração e modelo para a FLIP, criado em 1988, na simpática vila de Hay-on-Wye no País de Gales.

O Festival cresceu tanto ao longo dos anos que atualmente tem eventos nos seguintes países: México, Hungria, Irlanda, Espanha, Kenya, Ilhas Maldivas, Índia, Bangladesh, Colômbia (Cartagena) e Líbano. Adicionalmente, em 2006, foi criado o programa Hay on Earth com uma política sustentável para minimizar os impactos ambientais do Festival uma vez que, nos últimos 26 anos de criação, o público cresceu de 1.000 para 250.000 visitantes em cinco continentes. Uma ótima ideia para a organização da FLIP aplicar em Paraty.

Em 2014, o Festival principal em Hay-on-Wye está previsto para o período de 22 de maio a 1 de junho com a participação da escritora americana Toni Morrison, Prêmio Nobel de Literatura.

Prêmio Jabuti - Este é certamente o mais tradicional e antigo prêmio literário brasileiro, criado em 1959 e organizado anualmente pela Câmara Brasileira do Livro. 

Desde a sua criação o prêmio tem incorporado novas categorias para as áreas de ficção e não ficção e, em 2013, contou com um total de 27 categorias. Para 2014 ainda não foram divulgadas as condições de participação, valor da premiação e o regulamento.

Em 2013, a obra vencedora de cada uma das 27 categorias recebeu, além do troféu Jabuti, um prêmio de R$ 3,5 mil. O livro do ano de ficção e não ficção receberam, cada um, R$ 35 mil.

Conheça aqui os vencedores de todas as categorias de 2013 e, para conhecer os vencedores de todas as edições anteriores do prêmio Jabuti, desde 1959, clique  aqui.

Prêmio Portugal Telecom - Foi criado em 2003 pela empresa portuguesa de telecomunicações como uma premiação somente para a literatura brasileira, à partir de 2007 passou a contemplar também todos os países de língua portuguesa.

Em 2013, os prêmios foram de R$ 100 mil para a categoria romance, R$ 50 mil para a categoria poesia e R$ 50 mil para a categoria de contos / crônica.

Conheça aqui os vencedores de 2013 das categorias romance, poesia e contos / crônica. Para conhecer os vencedores de todas as edições anteriores do prêmio Portugal Telecom, clique aqui

Prêmio São Paulo de Literatura - Criado em 2008 pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para difundir e valorizar a leitura. Consiste na seleção dos melhores livros de ficção, no gênero romance, escritos em língua portuguesa, originalmente editados e publicados no Brasil no ano anterior. 

Em 2013, o prêmios para as três categorias foram de R$ 200 mil para melhor livro do ano,  R$ 100 mil para melhor livro do ano de autor estreante com mais de quarenta anos e R$ 100 mil  para autor estreante até quarenta anos.

Conheça aqui os romances vencedores de 2013 e aqui os vencedores de todas as edições anteriores do prêmio São Paulo de Literatura.

Prêmio Fundação José Saramago - Esta premiação ocorre somente a cada dois anos, distinguindo jovens escritores com idade até 35 anos por uma obra de ficção publicada em qualquer país de língua portuguesa.

O vencedor da oitava edição do prêmio em 2013 foi o angolano Ondjaki com um prêmio de 25.000 euros e os vencedores das edições anteriores:  Paulo José Miranda (1999),  José Luís Peixoto (2001)Adriana Lisboa (2003)Gonçalo M. Tavares (2005)valter hugo mãe (2007), João Tordo (2009) e  Andrea del Fuego (2011).

Man Booker Prize - Talvez o mais importante prêmio literário em língua inglesa, criado em 1968 para romances de autores vivos do Reino Unido, Irlanda e da comunidade britânica, passará a permitir também a participação de autores americanos à partir de 2014.

As datas previstas para 2014 são as seguintes: divulgação da "longlist" (12 ou 13 livros) em 23 de julho, "shortlist" (seis livros) em 09 de setembro e o vencedor anunciado em 14 de outubro.

O prêmio previsto para 2014 é de 50.000 libras para o romance vencedor e 2,5 mil libras para cada autor incluído na "shortlist".

A neozelandesa Eleanor Catton  foi a vencedora da versão 2013 com o romance "The Luminaries". Conheça aqui os resultados de todas as edições anteriores do Man Booker Prize.

Prêmio Nobel de Literatura - A premiação é concedida anualmente pela Academia Sueca desde 1901 e considera normalmente o conjunto da obra de um autor vivo, sempre com um caráter fortemente político o que tem gerado polêmica pela falta de transparência no processo de escolha.

A divulgação do autor premiado é feita geralmente no início de outubro de cada ano. Até hoje apenas José Saramago foi laureado em 1998 como autor de língua portuguesa.

A contista canadense Alice Munro, 82 anos, foi a vencedora do Nobel de Literatura de 2013 com um prêmio de 1,25 milhões de dólares. Para conhecer os vencedores de todas as edições anteriores do Prêmio Nobel de Literatura, desde 1901, clique aqui.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Alejandro Zambra - Bonsai

Alejandro Zambra - Bonsai - Editora Cosac Naify - 96 páginas - Tradução de Josely Vianna Baptista - Lançamento no Brasil em Maio de 2012.

O romance de estreia do premiado e jovem autor chileno Alejandro Zambra, publicado originalmente em 2006, parte da irresistível ideia de comparar literatura com a arte de cultivar um bonsai, já que como o próprio Zambra definiu em seu site (neste texto): "escrever é podar os ramos até tornar visível uma forma que já estava ali". A comparação é perfeita e qualquer pessoa que já tenha passado pela experiência de desenvolver um texto e lidar com a eliminação de palavras, sejam elas substantivos, advérbios ou adjetivos, irá se identificar imediatamente com o paciente trabalho de criar uma réplica artística de uma árvore em miniatura.

A estrutura deste romance "miniatura" é construída sobre o intenso e breve caso amoroso de Julio e Emilia, que se relacionam tendo basicamente o sexo e a leitura como elos de ligação. O comprometimento de Zambra com a brevidade ou concisão da narrativa é tão firme que ele arrisca tudo já no primeiro e desconcertante parágrafo, oferecendo corajosamente ao leitor a própria conclusão do livro:
"No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:"
Na verdade o argumento do romance é muito mais rico do que uma breve história de amor. Alejandro Zambra é um daqueles autores como Borges, Vila-Matas e outro chileno famoso, Roberto Bolaño, que sabem utilizar a literatura como personagem. Assim é que a aproximação de Julio e Emilia se dá através de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, romance que ambos fingem já ter lido; na cama os dois se esmeram para parecer Emma Bovary de Flaubert e a origem da separação do casal é o conto TanTalia de Macedonio Fernández — a história de um casal que decide comprar uma pequena planta para simbolizar o amor que os une, mas que percebe tarde demais que a morte da planta será também a morte desse amor.
"As extravagâncias de Julio e Emilia não eram apenas sexuais (que existiam), nem emocionais (que eram muitas), mas também, digamos literárias. Numa noite especialmente feliz, Julio leu, meio de brincadeira, um poema de Rubén Darío que Emilia dramatizou e banalizou até transformá-lo num verdadeiro poema sexual, um poema de sexo explícito, com gritos, com orgasmos. Então virou um hábito o lance de ler em voz alta — em voz baixa — toda noite, antes de trepar. Leram 'O livro de Monelle', de Marcel Schwob, e 'O pavilhão dourado', de Yukio Mishima, que foram razoáveis fontes de inspiração erótica para eles. Mas logo as leituras se diversificaram a olhos vistos: leram 'Um homem que dorme' e 'As coisas', de Perec, vários contos de Onetti e de Raymond Carver, poemas de Ted Hughes, de Tomas Tranströmer, de Armando Uribe e de Kurt Folch. Até fragmentos de Nietzsche e de Émile Cioran eles leram."
Alejandro Zambra, nascido em 1975, já é um nome de destaque na literatura chilena tendo sido selecionado pela revista Granta para a edição especial dos melhores jovens romancistas em língua espanhola em 2010 e visitado o Brasil em 2012 quando participou da FLIP em uma mesa especial com Enrique Vila-Matas, segundo informações da editora Cosac Naify, Zambra também é crítico, professor de literatura e, como não poderia deixar de ser, um diligente leitor de manuais, revistas especializadas e livros técnicos sobre o cultivo de bonsai, nada mal para um jovem autor.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Yasunari Kawabata - A casa das Belas Adormecidas

Yasunari Kawabata - A Casa das Belas Adormecidas - Editora Estação Liberdade - 128 páginas - Tradução direta do japonês de Meiko Shimon (lançamento original 1961).

Este pequeno romance é um dos grandes clássicos da literatura mundial no qual Yasunari Kawabata (1899 - 1972), prêmio Nobel de 1968, soube lidar com realismo e ao mesmo tempo extrema delicadeza, temas difíceis como a busca pela felicidade após a perda da juventude e polêmicos como a morte, perversão e sensualidade. Kawabata imaginou um estranho bordel onde homens de idade avançada podem passar as noites com jovens virgens, adormecidas sob o efeito controlado de narcóticos. Este livro inspirou outros autores a escrever sobre os sentimentos e a sexualidade na terceira idade como o colombiano Gabriel Garcia Marques em "Memória de minhas putas tristes" que aborda a impossível história de amor entre um ancião e uma jovem prostituta. Existe uma tendência nas sociedades do ocidente e oriente a ignorar e evitar o assunto do erotismo na idade da impotência, quando o desejo e a atividade sexual certamente ainda existem.

O protagonista Eguchi, de 67 anos, encontra-se em uma situação diferente dos visitantes tradicionais uma vez que sexualmente ainda mantém o domínio de seu corpo mas, no seu caso, a situação é talvez mais triste porque ele tem a noção de proximidade da decadência física e de que, portanto, não está muito longe da melancólica humilhação dos outros clientes daquela casa. De acordo com os procedimentos da Casa das Belas Adormecidas, os clientes podem tocar as jovens nuas, mas nunca concretizar a relação sexual, fato limitado até mesmo pela falta de vigor físico dos idosos. Outra norma fundamental é que o conhecimento sobre os nomes das jovens com que passaram a noite e seus históricos sejam totalmente inacessíveis aos clientes; obviamente as meninas não têm a mínima noção do que foi feito aos seus corpos enquanto permaneceram entorpecidas durante o tempo da visita. Isto fica claro logo no capítulo inicial do romance:
— Não faça nenhuma brincadeira de mau gosto, por favor. Não vá, por exemplo, enfiar o dedo na boca da menina adormecida — recomendara insistentemente a mulher da hospedaria ao velho Eguchi.

No andar superior só havia dois cômodos, uma sala de oito tatames onde Eguchi e a mulher conversavam e, ao lado, provavelmente um quarto de dormir. Até onde se podia perceber, no andar térreo, pouco espaçoso, também não havia quarto para hóspedes; assim, a casa não poderia ser chamada de hotel. Não havia nenhuma placa com letreiro anunciando uma hospedaria. Além do mais, os segredos daquela casa não permitiriam colocar tal anúncio. Não se ouvia ali nenhum ruído. Além da mulher que recebera o velho Eguchi no portão com cadeado e que continuava à sua frente a conversar, ele não vira nenhuma outra pessoa. Se ela era a proprietária ou uma empregada, Eguchi, que estava ali pela primeira vez, não podia precisar. De qualquer forma, seria mais sensato não fazer perguntas desnecessárias.
Eguchi se torna um frequentador assíduo da casa e, ao longo do tempo e das cinco noites compartilhadas com as diferentes jovens adormecidas, relembra passagens de sua vida amorosa de acordo com os estímulos e sensações despertadas que variam da inocência e cheiro de leite materno e bebê da primeira noite até os fortes apelos sedutores de outras belas adormecidas que induzem Eguchi ao desejo de quebrar as regras da casa, tanto no sentido de completar a relação sexual quanto de conhecer melhor as jovens e outros clientes da casa. Ao longo de suas experiências o nosso protagonista testemunhará de perto a ocorrência da morte, uma possibilidade sempre presente na Casa das Belas Adormecidas. 
Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que frequentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem.
A literatura de Kawabata é importante porque incomoda e faz pensar quando desnuda através do erotismo não convencional, ou até mesmo pervertido, os medos universais do homem diante do final da vida e incerteza do futuro, não somos todos assim?

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Principais concursos de fotografia em 2014


O desenvolvimento da fotografia digital e o uso compulsivo de smartphones nem sempre tem significado fotos mais originais ou de melhor qualidade artística (recomendo esta matéria do Guardian sobre o assunto), na verdade a relação entre fotografia e arte tem sido cada vez mais rara. Uma boa novidade neste campo é o aumento dos concursos globais de fotografia com livre acesso de participantes. Selecionei alguns sites que oferecem sempre uma boa oportunidade de encontrar belas imagens em vários campos de atuação da fotografia, basta seguir os links e acompanhar os resultados durante o ano.

Leica Oskar Barnack Award 2014 - Concurso internacional patrocinado pela famosa câmera alemã Leica desde 1979, somente para fotógrafos profissionais e incluindo, à partir de 2009, uma categoria para fotógrafos de até 25 anos - "Newcomer Award". As inscrições estão abertas até 31 de janeiro de 2014 no próprio site e os termos e condições podem ser obtidos aqui. Um juri internacional será responsável pela escolha dos vencedores.

Esta premiação é uma homenagem a Oskar Barnack (1879 - 1936), inventor do primeiro protótipo da Leica em 1914. Além do reconhecimento e divulgação internacionais obtidos com a participação, os vencedores da categoria principal receberão uma câmera Leica M com lentes no valor aproximado de 10.000 euros e um prêmio em dinheiro de 10.000 euros. 

O vencedor da edição de 2013 do concurso Leica pode ser conhecido clicando aqui.

O site de fotografias da tradicional revista National Geographic é um verdadeiro paraíso de imagens, não só na tradicional área de natureza e vida selvagem, mas também em categorias como pessoas e cultura, muitas das fotos estão disponíveis para download em alta resolução para wallpaper. 

Para o ano de 2014 ainda não foram divulgadas as condições de participação no concurso principal.

Na edição do concurso de 2013, a National Geographic, ofereceu um prêmio de US$ 10.000 para o vencedor, tendo sido feitas mais de 7.000 inscrições de 150 países, incluindo fotógrafos profissionais e amadores. 

Ver aqui a galeria de fotos vencedoras da edição de 2013 da National Geographic.

PDN Photo Annual 2014 - Concurso organizado pela revista de fotografia Photo District News (PDN) aberto a fotógrafos profissionais e amadores com inscrições online até 29 de janeiro de 2014 somente e taxa de inscrição de até US$ 45 por registro. 

As fotografias devem ter sido feitas, publicadas ou produzidas no período entre fevereiro de 2013 e Fevereiro de 2014 e os vencedores serão publicados na edição anual de junho da revista PDN com prêmio principal de US$ 15.000.

 Para ver a galeria de vencedores da versão de 2013 da revista PDN clicar aqui.

The Royal Photographic Society Awards 2014 - Fundada em 1853, esta é a mais antiga sociedade de fotografias do mundo com a finalidade de promover a arte e a ciência da fotografia. 

Existem diversas categorias neste concurso para fotógrafos profissionais e a inscrição pode ser feita no site até 21 de fevereiro de 2014. A organização talvez seja um tanto o quanto pretensiosa, mas tem todo o charme do velho mundo e do antigo império britânico.

Para conhecer os vencedores da edição 2013 da Royal Photographic Society clicar aqui.

Sony World Photography Award 2014 - Este concurso foi criado em 2008 e é dividido em vários níveis, de acordo com a experiência dos participantes, de fotógrafos amadores até profissionais. As categorias existentes são: Open Competition, Youth Award e 3D, com duas novas categorias acrescentadas em 2013: Student Focus e Moving Image.

As inscrições do concurso da Sony infelizmente já se encerraram, sendo que a lista de finalistas será anunciada em fevereiro e os vencedores em abril de 2014.

Todos os detalhes sobre o calendário de atividades e regulamento podem ser encontrados no site da World Photography Organisation, inclusive a galeria de vencedores de 2013, clicando aqui.

The 2014 World Press Photo Multimedia Contest - Na área de fotojornalismo não existe concurso mais conceituado do que o da fundação World Press que foi fundada em 1955 para operar de forma independente e sem fins lucrativos. Esta será a edição número 57 da premiação e as inscrições encerram em 15 de janeiro de 2014. Os vencedores serão divulgados em 14 de fevereiro de 2014 por um juri internacional no escritório da organização em Amsterdam.

Algumas imagens da World Press ajudaram a marcar importantes eventos da história recente como a menina nua correndo depois de um ataque com napalm no Vietnan, o monge budista que ateou fogo em seu próprio corpo, o homem solitário que protestou contra uma coluna de tanques na China e muitas outras fotos icônicas do nosso tempo. 

Visitar aqui o imperdível site da World press com a galeria histórica de fotos da fundação.



Communication Arts Photography Competition 2014 - A revista Communication Arts, fundada em 1959, é referência na área de comunicação visual para designers gráficos, diretores de arte, ilustradores e fotógrafos. Anualmente ela promove concursos nos ramos da propaganda, design, ilustração, fotografia e tipografia.

As fotos produzidas no período de março/2012 a março/2013 de qualquer país podem ser admitidas no concurso que tem data limite para registro até 14 de março de 2014 e taxa de inscrição com valor dependente da categoria. Informações detalhadas e formulário online no site do concurso.

Ver aqui as galerias das edições anteriores do concurso da Communication Arts.

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