domingo, julho 26, 2015

Noemi Jaffe - Írisz: as orquídeas

Noemi Jaffe - Írisz: as orquídeas - Editora Companhia das Letras - 224 páginas - Lançamento 19/05/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Esta é uma resenha que já nasce com o senso objetivo comprometido, neste caso, por dois motivos particulares: primeiro a ligação afetiva com o difícil idioma húngaro devido à minha ascendência (meu pai foi um entre tantos imigrantes húngaros). Em segundo lugar, o fato de eu ter morado por longos períodos no exterior em diferentes épocas da minha vida, muito recentemente por dez meses no Japão. Logo, alguns dos elementos que funcionam como uma espécie de matéria-prima neste romance, como a adaptação do estrangeiro em uma terra distante, são próximos à minha experiência pessoal. É o caso de Írisz que vem morar em São Paulo fugindo de Budapeste após a frustrada revolta húngara de 1956, debelada violentamente pela União Soviética através do envio de tropas e tanques para a Hungria. A relação da protagonista com a descoberta do idioma português (outra língua-ilha como bem define a autora), o aprendizado da cultura brasileira e a sofrida ligação com seu país de origem são temas desenvolvidos com muita sensibilidade por Noemi Jaffe, como percebemos no trecho abaixo:
"Estar em um país estrangeiro e não saber falar a língua local é estar alheio e encapsulado no espaço, no tempo, no corpo e na alma. Na ignorância da língua, o estrangeiro é completamente estrangeiro. Ser estrangeiro é ser estranho — 'não pertencente a', e é do não pertencimento que vem a conotação negativa de 'estranho', palavra que não é originalmente pejorativa. (...) Não pertencer pode ser libertador e permitir aos estrangeiros viver num tempo mais lento, observador e menos comprometido com as funções e metas dos nativos, preocupados com tarefas em grande parte assumidas pela língua que dominam (e que os domina também). (...) O estrangeiro olha: não entende nada, mas entende algumas coisas melhor do que os locais: enxerga detalhes. Vê, no todo, as partes que já se incorporaram ao hábito do nativo e das quais ele não mais se dá conta." (págs 99 e 100).
Írisz é uma botânica que vem trabalhar no Brasil com orquídeas, essas peculiares flores de raízes aéreas que logo percebe, assim como ela, são frágeis e dependentes porque "brotam no ar, no alto de outros seres fincados na terra". É através dos inusitados relatórios técnicos sobre as orquídeas, preparados por Írisz, que nós e também Martim, diretor do Jardim Botânico de São Paulo e um comunista desiludido, ficamos conhecendo detalhes do seu passado na Hungria e a história dos que ficaram por lá.

Imre (típico nome húngaro, assim como Sandor que significa Alexandre), um amor que ela deixou e que ficou para lutar por uma revolução impossível, alguém que desejava a liberdade a qualquer custo, contudo Noemi Jaffe nos ensina como o desejo às vezes pode ser uma coisa enganosa nesta bela passagem: "Quando alguém acredita tanto na própria vontade, é preciso começar a duvidar, porque o desejo fica parecido com a fé." (pág. 27). 

Írisz abandona Imre e a mãe doente Eszter na Hungria. O misterioso pai, Ignác, de quem ela nada sabe desde que tinha seis anos é só uma lembrança distante. Segundo Írisz, "fugir é o lugar do homem e até ficar tantas vezes é fugir". A palavra que ela usa quando se encontra com Imre pela última vez é 'szia', uma expressão que tanto quer dizer "oi" como "tchau" no intrincado idioma húngaro. Trabalhando com os contrastes e significados da linguagem nos dois idiomas a autora acabou fazendo uma linda homenagem à literatura.
"A verdade é um punhado de palavras, só isso. E as palavras, que deveriam ter pouca importância, que deveriam ser versáteis, elas não são; elas se fixam e grudam na pessoa, mais do que qualquer outra coisa. Mais do que os gestos, os fatos, os números ou os grandes acontecimentos. No fim das contas, a própria história se transforma em palavras." (pág. 205).
Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de "A verdadeira história do alfabeto", vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e "O que os cegos estão sonhando?", entre outros.

sexta-feira, julho 24, 2015

Cadernos de Literatura

Cadernos de Hilda Hilst e Rubem Braga
O Instituto Moreira Salles (IMS) liberou em seu blog uma seleção de Cadernos de Literatura Brasileira digitalizados para acesso online. Esta série começou a ser produzida em 1996 e foram publicados em formato impresso um total de 27 exemplares, apresentando ensaios, depoimentos, entrevistas, manuscritos inéditos e registros fotográficos sobre importantes autores da nossa literatura. Para ter acesso online aos exemplares digitalizados de Hilda Hilst, Rubem Braga, Machado de Assis, Mario Quintana, Ferreria Gullar e muitos outros, clique aqui.

O IMS, além de catálogos de exposições, livros de fotografia, literatura e música, publica regularmente as revistas Zum, sobre fotografia contemporânea do Brasil e do mundo e Serrote, de ensaios e ideias.

quarta-feira, julho 22, 2015

Haruki Murakami - O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação

Haruki Murakami - O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - 328 páginas - tradução direta do japonês por Eunice Suenaga - Lançamento 01/11/2014 (Ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Poucos escritores contemporâneos desfrutam do privilégio de terem seus lançamentos aguardados com uma devoção similar à que as gerações passadas antecipavam os últimos discos dos Beatles ou Bob Dylan, é assim que Patti Smith inicia sua resenha sobre este romance de Haruki Murakami no New York Times (por sinal, qual outro autor hoje poderia se dar ao luxo de ter uma resenha escrita por Patti Smith com ilustração de Yuko Shimizu em um jornal deste nível?). Existem algumas explicações para o fenômeno Murakami em todo o mundo — principalmente no Japão, onde este romance vendeu no ano passado mais de um milhão de cópias na primeira semana — mas seria muito simplista classificá-lo como um ícone da cultura pop, resultado de marketing pessoal ou editorial. A cada novo romance ele permanece fiel ao seu estilo único que não é oriental nem ocidental, longe das características de um "best seller" tradicional, a sua popularidade parece originar-se mais da nossa identificação com as suas delicadas fábulas modernas onde, em mundos reais ou imaginários, o tema central é sempre a solidão do homem nas grandes cidades e a sua busca por algum significado.

Sobretudo neste último livro, que é menos fantasioso e mais existencial, em cada página acompanhamos gradativamente as descobertas do fragilizado protagonista Tsukuro Tazaki ao tentar vencer o trauma de ter sido abandonado por um grupo de amigos que ele mantinha desde a escola de ensino médio em Nagoia. O grupo era uma espécie de "comunidade que se harmonizava de forma adequada", composto por Tsukuro e mais quatro amigos de personalidades marcantes, cada um com uma cor na composição do ideograma do sobrenome, dois rapazes: Akamatsu ("pinheiro vermelho") e Ômi ("mar azul"), e duas moças: Shirane ("raiz branca") e Kurono ("campo preto"). Somente Tsukuro não tinha esta característica em seu nome, por isso se considerava como "incolor" e achava também, que assim como a ausência de cor no nome, também não tinha nenhuma peculiaridade marcante na sua formação de que pudesse se orgulhar ou exibir, normal, uma pessoa sem atrativos, sentia-se como um "recipiente vazio".

À partir do momento em que é sumariamente banido do grupo sem quaisquer explicações, já morando em Tóquio onde cursava uma faculdade de engenharia, a vida de Tsukuro fica profundamente marcada porque, mesmo não entendendo, ele não consegue ao menos questionar a decisão dos ex-amigos e acaba perdendo completamente o contato com os quatro que permaneceram na cidade de Nagoia. Sem outra alternativa, ele leva a sua vida adiante, trabalhando no projeto e construção de estações de trem. Dezesseis anos depois, Tsukuro conhece Sara, por quem se interessa a ponto de contar toda a sua história e confessar o vazio emocional causado pela perda. Ela o convence a tentar reencontrá-los e entender os motivos que provocaram a sua rejeição e afastamento. Esta busca pela verdade fará com que Tsukuro enfrente uma longa viagem até a Finlandia, mas a jornada mais difícil é aquela que ele precisará fazer para conhecer e superar seus próprios medos e inseguranças.

Um romance que emociona pela simplicidade e sensibilidade com que Murakami descreve os impasses existenciais de seu protagonista, além de todas aquelas maravilhosas e inusitadas referências musicais que sempre amamos nos seus romances, desta vez, "Le Mal du Pays", uma composição para piano, parte de um album triplo de vinil com o conjunto de suítes "Anos de Peregrinação" de Liszt ou "Round Midnight" de Thelonious Monk, interpretada por um misterioso pianista que tem data marcada para morrer. Um livro muito recomendado, tanto para iniciados quanto para os que ainda não leram nada de Haruki Murakami, para citar novamente a resenha de Patti Smith e ela certamente entende do assunto.

domingo, julho 19, 2015

Granta Vol. 12 - Líbano e Síria

Revista Granta Vol. 12 - Líbano e Síria - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2014 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Como não poderia deixar de ser, a maior parte dos contos desta seleção da Granta é relacionada de alguma forma aos conflitos e atrocidades ocorridos na região do Líbano e Síria, seja em nome da etnia, da religião ou de ambos, sempre permeados por uma sensação de diário ou correpondência de guerra. É o caso dos textos selecionados de Jonathan Littell, Robert Fisk e Janine di Giovanni todos francamente realistas e, infelizmente, atuais. Neste estilo, fiquei um pouco decepcionado com "Diários da Síria" de Jonathan Littellautor do magistral romance histórico "As Benevolentes" (ler aqui resenha do Mundo de K), que entrou clandestinamente na Síria em 2012 para escrever uma séria de reportagens sobre a guerra civil a serem publicadas no jornal francês Le Monde. O resultado é um diário de guerra excessivamente documental e praticamente ininteligível para os não iniciados no conflito sírio da época. Nada contra os textos documentais, mas sempre se espera mais de um autor deste nível.

Os autores brasileiros fazem boa presença nesta edição com Ronaldo Correia de Brito em bela homenagem aos imigrantes libaneses no Recife através do conto "Helicópteros", onde destaca a influência da culinária libanesa e a comparação entre a violência do Oriente Médio e Brasil. A jovem Luisa Geisler também faz bonito no criativo e divertido "Eu sou o silêncio do mundo (e tão perto de casa)", que quebra um pouco o clima pesado e sério, tendo como cenário uma lanchonete Habib's, entre kibes e esfihas, e começando logo assim: "Eu não gosto muito do Habib´s, é o que eu digo para a minha namorada-que-talvez-seria-minha-esposa-se-não-fôssemos-um-casal-lésbico enquanto ela já desce do carro.". Dá vontade de continuar lendo não é mesmo? Completando o time de brasileiros, Guga Chacra com "São Paulo, Líbano", um ensaio sobre a imigração sírio-libanesa e Sidney Rocha com "Os Nehemy", ficção com base em uma tradicional família libanesa vivendo no Brasil.

Entre os escritores estrangeiros, destaque para o libanês Rachid El-Daif com seu humor sarcástico. Conforme nos ensina a nota preliminar do professor Mamede Jarouche este humor já fica claro em seu primeiro romance "Prezado senhor Kawabata" (escrito na forma de uma carta ao escritor japonês Yasunari Kawabata, definido por ele como "o único árabe que pode me entender"). Muito bonito o conto da norte-americana Claire Messud, finalista do Man Booker Prize em 2006, com "A estrada para Damasco", onde uma filha tenta encontrar uma Beirute que só existe no passado de seu pai.

Esta edição é, principalmente, uma homenagem importante e merecida da Granta à influência cultural do Líbano e Síria no Brasil, marcante como percebemos pelos descendentes de uma imigração que é presente na história através de nomes como: Raduan, Maluf, Salim, Haddad, Amin, Dualib, Nabi Chedid, Adib Jatene, Nizan Guanaes, Sayad, Temer, Kfouri, Amyr Klink e mais tantas outras famílias que ajudaram a construir o nosso país.

quinta-feira, julho 16, 2015

O Apocalipse por Michal Karcz

Permafrost - Michal Karcz
O polonês Michal Karcz utiliza a união da pintura e fotografia digital para criar um estilo único que representa a sua viagem a mundos imaginários. Quando jovem, Michal descobriu que as técnicas da pintura seriam insuficientes para expressar as suas intenções artísticas, então adotou a fotografia convencional e, mais tarde, todo o potencial dos softwares de manipulação digital como o photoshop. Recomendo clicar nas imagens para ampliá-las.

Purified With Fire - Michal Karcz
Independente da técnica utilizada e dos truques por trás de cada imagem, é impossível não apreciar seus trabalhos unicamente como obras de arte. Nesta postagem destaquei apenas as visões com inspiração "pós-apocalipse" que me chamaram mais a atenção, mas pode-se ter acesso a outras obras do artista visitando o site oficial, sua página no portal de fotografia 500px ou fan page no facebook. Eu me pergunto se o final do mundo será tão bonito.

The Road - Michal Karcz

quarta-feira, julho 15, 2015

Lançamentos no Segundo Semestre de 2015


O site de cultura online The Millions publicou uma matéria que chama a atenção para os lançamentos de grandes autores previstos no mercado editorial em língua inglesa para o segundo semestre de 2015. A relação inclui os novos romances de Salman Rushdie, Margaret Atwood e Jonathan Franzen, a continuação das memórias (Just Kids) de Patti Smith e traduções das primeiras obras de Haruki Murakami, do húngaro vencedor do Man Booker International Prize, László Krasznahorkai, o último romance do vencedor do Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk e, principalmente, com grande satisfação para a literatura brasileira, uma antologia de Clarice Lispector (não por acaso posicionei o livro no centro da colagem que abre a postagem, cliquem na imagem para ampliá-la).

Os destaques acima são uma pequena amostra da seleção completa do site The Millions que soma 82 títulos em língua inglesa, distribuídos ao longo do segundo semestre. Para conhecer os lançamentos da área de não-ficção clicar aqui. Parece mesmo que 2015 será um ótimo ano para a literatura.

segunda-feira, julho 13, 2015

Miriam Mambrini - A Bela Helena

Miriam Mambrini - A Bela Helena - Editora 7Letras - 212 páginas - Lançamento 2015 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Livraria da Travessa).

Talita contempla sozinha, da varanda de seu apartamento, os fogos e comemorações da chegada de 1999, no entanto, para ela, não é uma ocasião alegre porque o início de ano tem sabor de fim já que, aos cinquenta e nove anos, está encerrando um ciclo e iniciando a "infância" da terceira idade. Esses marcos fazem com que a solitária protagonista perceba que "o seu tempo passou a ser o passado" e dê início a um processo de resgate de suas memórias, escrevendo as lembranças em um caderno. A autora Miriam Mambrini utiliza a técnica da narrativa em primeira pessoa para contar a história de Talita (ou da bela Helena, como ela se transformou), alternando capítulos entre o presente e períodos de um passado romântico, infelizmente esquecido, da cidade do Rio de Janeiro.

A vida de Talita, desde pequena, nunca foi fácil. Com apenas seis anos é abandonada pela mãe, manicure sem condições financeiras para criá-la, na casa dos avós paternos em Copacabana e, rejeitada pelo próprio pai, cresce contando apenas com o carinho da avó Edith. Apesar das dificuldades da sua origem de criança pobre, Talita consegue se tornar uma mulher elegante, atraente e ascender na sociedade carioca.
"Não é fácil escrever, anoto, risco, rasgo, recomeço, mas não quero que as lembranças se percam. Essa, por exemplo: a da noite em que mamãe tirou de dentro do armário a bolsa de viagem marrom. Da cama, tentando dormir, eu a ouvi andar de lá para cá, abrindo armários e apanhando coisas. De manhã, minhas roupas e brinquedos estavam na bolsa. Minha boneca predileta foi enfiada por último e uns tufos do seu cabelo pulavam fora do fecho-éclair. Nunca esqueci daquela imagem: os cabelos amarelos da boneca presos no fecho da bolsa marrom. Lembro tão bem do rosto de louça, dos olhos azuis, das pestanas duras, das pálpebras que baixavam, dos cabelos amarelos, mas não sei em que momento a boneca desapareceu para sempre."
Na sua trajetória até obter o codinome de Helena, Talita passa na sua busca pela felicidade, por encontros e desencontros amorosos e também alguns casamentos frustrados, procedimento não muito recomendável para as mulheres durante a época dos "anos dourados", sendo que o segundo deles é bastante violento e traumático o que faz com que seja afastada do filho pequeno que é levado pelo pai sem deixar rastros, um drama que ela levará muitos anos para tentar superar. Além dos relacionamentos formais, Talita não consegue se afastar de uma paixão recorrente por um homem misterioso que a acompanha desde a adolescência. 

Talvez a resenha possa induzir a ideia de que o livro seja uma obra de contestação ou represente algum tipo de bandeira feminista mas, no meu entendimento, A Bela Helena é um romance sem pretensões maiores do que o entretenimento do leitor, através de uma boa história, objetivo que Miriam Mambrini soube atingir com eficiência.

Da página oficial da autora: "Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, 'O Baile das Feias', foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, 'Grandes Peixes Vorazes', incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances 'A Outra Metade', atualmente em segunda edição, 'As Pedras não Morrem' e 'O Crime Mais Cruel', os dois últimos adquiridos pelo PNBE do Ministério da Educação. As crônicas de 'Maria Quitéria, 32' falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, 'Vícios Ocultos', contos, e 'Ninguém é Feliz no Paraíso', romance."

quinta-feira, julho 09, 2015

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry (The Children Act) - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento 14/11/2014 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Neste seu último romance, Ian McEwan utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma conceituada juíza do Supremo Tribunal como protagonista. Fiona Maye, cinquenta e nove anos, atua na área de direito de família, e segundo definição de seus próprios colegas, é dona de uma "imparcialidade divina e inteligência diabólica". Ela é, portanto, uma profissional que lida diariamente com a razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através de suas sentenças, seja no caso de separações litigiosas ou decisões sobre a guarda dos filhos. Na verdade, McEwan faz muito bem, como sempre, o seu dever de casa e traz para a ficção algumas sentenças, inspiradas em casos reais, de difícil análise, seja pelo enfoque religioso ou moral. É o caso, por exemplo, da aprovação para a intervenção cirúrgica que irá separar irmãos siameses, provocando o sacrifício de um deles em nome da sobrevivência do mais forte. Em uma das melhores passagens do romance, através da digressão de sua protagonista no trecho abaixo sobre este processo, o autor coloca a sua visão nada religiosa do mundo e do que costumamos chamar de destino:
"Nas fotografias relembradas de Matthew e Mark via uma nulidade cega e sem propósito. Um ovo microscópico deixara de se dividir no momento certo devido a um defeito em certo ponto de uma cadeia de eventos químicos, uma minúscula perturbação na cascata de reações proteicas. Um evento molecular se inflacionara como um universo em expansão para ocupar uma larga região da miséria humana. Nenhuma crueldade, nenhuma vingança, nenhum fantasma se movendo de modo misterioso. Nada mais que um gene transcrito erroneamente, uma receita de enzimas defeituosa, um elo químico rompido. Um processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido. Que apenas punha em relevo a vida saudável e formada com perfeição, mas também aleatória, igualmente sem propósito. Pura sorte, chegar ao mundo com seu corpo devidamente formado e com tudo nos lugares certos, ter pais amorosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é muito mais fácil ser virtuoso." (pág. 34)
Apesar do desgaste emocional de seu trabalho e a proximidade da terceira idade, a juíza Fiona parece estar levando a sua vida muito bem, mas todo o seu mundo está para desmoronar quando ela é surpreendida pela declaração do próprio marido de que deseja levar adiante um caso com uma mulher mais jovem, segundo ele, devido à necessidade de viver uma grande paixão e, de forma mais pragmática, devido às suas necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo trabalho. Ela se recusa a aceitar os argumentos do marido e, repentinamente, se vê envolvida em um conflito matrimonial como tantos outros que ela acompanha diariamente na Vara de Família.
"Num impulso furioso, pegou o celular, encontrou o número do chaveiro da Gray's Inn Road, forneceu-lhe o PIN de quato dígitos e instruções para que a fechadura fosse trocada (...) Foi má, e sentiu-se bem em ser má. Ele devia pagar um preço por abandoná-la, e ali estava, ser exilado, pedir licença para ter acesso à sua vida anterior. Ela não lhe permitiria o luxo de possuir dois endereços (...) Voltando pelo corredor com seu copo, já refletia sobre sua ridícula transgressão, impedir ao marido o acesso a que ele tinha direito, uma das atitudes-chavão das crises conjugais que qualquer advogado aconselharia seu cliente — geralmente a mulher — a não adotar sem a devida autorização judicial" (pág. 51)
Uma nova e difícil disputa demanda a atenção da juíza em meio à sua crise particular, o caso de Adam Henry, um rapaz de dezessete anos que precisa receber transfusões de sangue devido ao tratamento de leucemia. Seus pais são testemunhas de Jeová e enfrentam o hospital em um processo para ter o direito de não seguir as recomendações médicas. O momento difícil pelo qual Fiona Maye está passando em sua vida doméstica faz com que ela ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do adolescente em confronto com os dogmas religiosos de sua família. 

Adam Henry tem uma compreensão parcial da situação precária de sua saúde e dos riscos associados e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes de sua orientação religiosa. Ele escreve poesias que encantam a equipe médica e despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela fez a opção de não ter filhos devido à carreira) e carência sentimental. Será que ela conseguirá manter a racionalidade e imparcialidade que a sentença para este caso requer?

A música erudita, como na maioria dos romances de McEwan, tem lugar de destaque na trama, sendo uma válvula de escape para Fiona Maye, uma exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler, e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível Adam Henry. Apesar do argumento se basear em alguns clichês, a prosa habilidosa de McEwan está sempre presente, como podemos comprovar nos trechos acima. De qualquer forma, ficamos com a impressão de que a história poderia ter sido mais aprofundada. Se você ainda não leu nada deste autor recomendo começar com AmsterdamReparação e Sábado. De preferência nesta sequência (siga os links para resenhas do Mundo de K).

sexta-feira, julho 03, 2015

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Tradução do inglês de Donaldson M. Garschagen - Lançamento 14/12/2011 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O chinês Yu Hua, nascido em 1960, iniciou a sua carreira literária somente em 1983, após um malsucedido início profissional como dentista. Ele já escreveu um total de cinco romances, dos quais três estão disponíveis no Brasil; além de Crônica de um Vendedor de Sangue (2011), a Companhia das Letras já lançou: Irmãos (2010) e Viver (2008). Ele  reside atualmente em Beijing e seus livros já foram publicados em mais de 20 países, tendo recebido os prêmios: Grinzane Cavour da Itália (1998), Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres da França (2004), Special Book Award da China (2005) e o Prix Courrier International também da França (2008). Desde 2013, Yu Hua é um dos escritores que contribuem com o New York Times (neste link pode-se acessar os artigos dele).

Crônica de um Vendedor de Sangue é aquele tipo de romance universal que mostra os extremos da fragilidade, mas também da grandeza do ser humano, em um ambiente adverso. Seja em uma pequena cidade rural chinesa ou no sertão nordestino brasileiro, o homem, em seu núcleo familiar, precisa se adaptar para sobreviver. Neste ponto é impossível não se emocionar com a trajetória da família formada pelo protagonista Xu Sanguan ao longo dos altos e baixos de trinta anos de história da República Popular da China (1950 a 1980) como pano de fundo, a maior parte deste período sob o governo de Mao Tsé-tung, antes da abertura econômica vivenciada hoje no país. 

Desde muito jovem, Xu Sanguam, operário de uma fábrica de seda, aprendeu que 400 mililitros de seu sangue (volume de duas tigelas de arroz) equivaliam a trinta e cinco iuanes, valor superior ao que ganharia trabalhando por seis meses no campo, uma verdadeira "mina de dinheiro" que provocou na China um livre-comércio de grandes proporções entre doadores e "chefes de sangue". O próprio Xu Sanguam vem a recorrer diversas vezes ao longo da vida a este comércio, normalmente nos momentos de crise familiar. Após o procedimento de doação, um bom prato de fígado de porco frito e duas doses de vinho de arroz amarelo têm o poder de recompor a energia do corpo conforme lhe foi ensinado.

No início, a venda do sangue não representa nenhuma urgência na vida de Xu Sanguam e ele utiliza os recursos desta atividade pela primeira vez para conquistar, na verdade convencer, a bela Xu Yulan a se casar com ele (pagando-lhe um jantar nada romântico com "bolinhos ao vapor, ameixas salgadas, frutas carameladas e meia melancia") e cobrir os custos do casamento. Em um período de cinco anos, Xu Yulan dá à luz três filhos: Yile (Primeira Alegria), Erle (Segunda Alegria) e Sanle (Terceira Alegria). Na verdade, o seu primogênito, Yile, ficará para sempre associado a uma grande tristeza, e não alegria, quando Xu Sanguam descobre que não é o verdadeiro pai do menino. De qualquer forma, este filho que não tem "vínculos de sangue" verdadeiros, à princípio desprezado, acaba se tornando o preferido.

Durante os anos do período histórico chamado Grande Salto Adiante (1958 - 1962), a agricultura passa a ser controlada pelo Estado e coincidentemente ocorrem vários desastres naturais (estima-se que aproximadamente 30 milhões de pessoas morreram de fome), a família de Xu Sanguan tem que passar cinquenta e sete dias consecutivos comendo apenas mingau de fubá. Claro que o nosso protagonista precisa recorrer mais de uma vez ao comércio de sangue para salvar a mulher e os filhos da fome. No entanto, uma fase ainda pior está para começar, quando Xu Yulan é denunciada injustamente como prostituta durante a violenta Revolução Cultural (1966 - 1976) e os dois filhos mais velhos são obrigados a partir para o campo pois, segundo a orientação da política maoista, "é indispensável que os estudantes sejam mandados ao campo para que os camponeses de nível médio e baixo os reeduquem".

Apesar das situações difíceis por que passam seus personagens, a ligação de confiança e amor entre os integrantes da família nunca enfraquece e a narrativa de Yu Hua é sempre bem-humorada, por vezes até mesmo tragicômica, à medida que os eventos familiares são associados aos impactos da política econômica na sociedade chinesa. Um belo livro que já deixa saudade.

segunda-feira, junho 29, 2015

Richard Dawkins - Deus, um Delírio

Richard Dawkins - Deus, um Delírio - Editora Companhia das Letras - 528 páginas - Tradução de Fernanda Ravagnani - Lançamento 16/08/2007 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Podemos discordar ou não de Richard Dawkins sobre a existência de Deus, mas não há como negar que o fanatismo religioso, de uma forma generalizada, tem provocado guerras, perseguições e conflitos armados ao longo da história. Não precisamos ir tão longe, até a época das Cruzadas por exemplo, porque ainda hoje, em pleno século XXI, as ações entre israelenses e palestinos, católicos e protestantes, ou os recentes atentados terroristas do Estado Islâmico têm sido exemplos do mau uso que a humanidade faz de suas crenças. Certamente que não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que todos esses conflitos têm origem apenas na religião, certamente que existem também fortes motivos políticos e econômicos, mas o fator decisivo na formação de um homem-bomba ou guerrilheiro está sempre associado com algum movimento extremista religioso. Nunca ouvimos falar de uma guerra provocada por ateus. Segundo o físico americano e prêmio Nobel Steven Weinberg, citado por Dawkins, "a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião"Ou ainda nesta outra citação de Blaise Pascal: "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa".

Richard Dawkins parte do pressuposto de que atualmente "o número de ateus e agnósticos supera de longe o de judeus religiosos, e até o da maioria dos outros grupos religiosos específicos", mas que a maioria por inércia, medo ou para manter as tradições sociais e familiares, reluta em "sair do armário"reforçando a sua teoria com esta epígrafe a um dos capítulos do livro, do filósofo Bertrand Russell: "A imensa maioria dos homens intelectualmente eminentes não acredita na religião cristã, mas esconde esse fato do público, porque tem medo de perder sua renda". Ainda segundo Dawkins, outra questão que dificulta a discussão sobre o assunto é que "a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica".

Outra questão preocupante (e até certo ponto surpreendente) é o fundamentalismo religioso crescente nos Estados Unidos que, segundo Dawkins, "provém, paradoxalmente, do secularismo de sua Constituição. Precisamente porque os Estados Unidos são legalmente laicos, a religião se transformou num empreendimento liberado. Igrejas rivais competem por congregações — e pelo gordo dízimo que elas trazem consigo — e a concorrência é marcada por todas as técnicas agressivas de venda do mercado. O que funciona para o sabão em pó funciona para Deus, e o resultado é algo que se aproxima de uma mania de religião nas classes menos instruídas". Para Dawkins, mesmo a crença moderada pode ser perigosa porque, tanto para o cristianismo quanto o islamismo, a fé sem questionamentos é uma virtude que supera todas as prioridades e que o martírio a serviço de Deus poderá ser recompensado no paraíso.

As melhores abordagens de Richard Dawkins — e também as mais difíceis de serem contestadas — são aquelas norteadas pela ciência em oposição à teoria do criacionismo ou "design inteligente", já que a formação acadêmica dele (Doutor pela Universidade de Oxford) não é a filosofia ou teologia, mas sim a biologia evolutiva com base na seleção natural de Darwin, o que o coloca ao lado de autores como Carl Sagan e Stephen Hawking que ajudaram a popularizar a ciência em suas respectivas áreas (astronomia e física). Para o evolucionista, as criaturas vivas não foram "projetadas" e sim evoluíram através de numerosos incrementos gradativos, à partir de um início simples, em um processo que continua ocorrendo até hoje para o aperfeiçoamento de cada ser orgânico. 

É importante notar que, como bom cientista, Dawkins não descarta a existência de Deus, mas uma de suas conclusões é que não há motivo para supor que, só porque Deus não pode ter a sua existência comprovada ou descartada, a probabilidade de sua existência seja de 50% (de fato, na opinião dele esta probabilidade é bem menor). Mesmo o argumento da beleza é refutado por ele na seguinte passagem: "É óbvio que os últimos quartetos de Beethoven são sublimes. Assim como os sonetos de Shakespeare. São sublimes se Deus existe e são sublimes se não existe. Eles não provam a existência de Deus; eles provam a existência de Beethoven e Shakespeare"A lógica de Richard Dawkins é tão fria que chega a parecer ofensiva em algumas passagens, principalmente quando critica o Deus do Velho Testamento das Escrituras, uma de suas vítimas preferidas.

Um livro corajoso, inteligente e muito oportuno devido aos conflitos e atentados terroristas recentes que se tornaram, infelizmente, uma triste rotina neste início de século. 

quarta-feira, junho 24, 2015

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola no RJ

Detalhe da obra "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939)
Após a temporada inicial em São Paulo, onde foi visitada por mais de 200 mil pessoas, a exposição gratuita Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola chega agora ao Rio de Janeiro onde será apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no período de 24 de junho a 7 de setembro. A mostra reúne 90 obras do Museu Nacional Reina Sofia, de Madri.

A exposição é dividida em oito módulos e faz referência à trajetória de Picasso e sua influência nas obras de outros artistas modernistas da época até chegar à realização de "Guernica" (1937), em estilo cubista, que representa o bombardeio nazista na cidade do mesmo nome, durante a Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939). Serão exibidos estudos e esboços desta obra que não pode sair da espanha por questões de segurança. 

Entre os trabalhos de Picasso que integram a exposição no CCBB, destaque para: "Cabeça de Mulher" (1910), "Busto e Paleta" (1932), "Retrato de Dora Maar" (1939), "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939) e "O pintor e a Modelo" (1963) - Sigam os links para as respectivas páginas do Museu Nacional Reina Sofia com detalhes sobre cada pintura.

Para outras informações e um passeio virtual pela exposição clique aqui.

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola 
De 24 de junho a 7 de setembro 
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)
Rua Primeiro de Março, 66 - Centro - Tel.: (21) 3808-2020 
De quarta a domingo, das 9h às 21h 
Entrada Gratuita

segunda-feira, junho 22, 2015

Leonardo Padura - A neblina do passado

Leonardo Padura - A neblina do passado - Editora Saraiva (Selo Benvirá) - 442 páginas - tradução de Júlio Pimentel Filho - Publicação 2012 (Lançamento original 2005).

Restringir este romance à categoria de literatura policial seria uma injustiça com a habilidade do escritor cubano Leonardo Padura. Nada contra os romances de detetives, mas o autor construiu uma verdadeira história afetiva de Cuba, particularmente sobre as transformações da cidade de Havana e seus habitantes, na segunda metade do século XX, compreendendo os seguintes três grandes períodos: A era inicial do ditador Fulgencio Batista, à partir de 1952, onde existia corrupção generalizada e a influência econômica dos Estados Unidos, o segundo período que se inicia em 1959 com a vitória da Revolução socialista liderada por Fidel Castro e Che Guevara, provocando a desapropriação de várias empresas norte-americanas e privatização de bens das famílias tradicionais que compactuavam com o governo anterior e, finalmente, os anos de crise econômica e decadência social, decorrentes da redução drástica de investimentos da antiga URSS após a queda do muro de Berlim em 1989.

Leonardo Padura soube passar por todas essas fases da história cubana (sem sofrer censura prévia do regime atual o que, por si só, é surpreendente) no desenvolvimento do seu romance em um argumento criativo e uma trama muito bem montada que utiliza o recurso ficcional da ascensão e queda da família Montes de Oca e do seu personagem recorrente, o carismático detetive Mario Conde que, quatorze anos após a saída dos quadros da polícia local, sobrevive em 2003 à base de expedientes, assim como boa parte da população de Havana. No seu caso, comprando e vendendo livros usados, sendo ele próprio um escritor frustrado.
"A escassez foi tão brutal que alcançou até o venerável mundo dos livros. De um ano para outro, as publicações despencaram em queda livre, e as teias de aranha cobriram as estantes das agora tétricas livrarias, de onde os próprios empregados roubavam as últimas lâmpadas de vida, praticamente inúteis em dias de intermináveis apagões. Foi então que centenas de bibliotecas particulares deixaram de ser fonte de ilustração, orgulho bibliófilo e provisão de lembranças de tempos possivelmente felizes, e trocaram seu cheiro de sabedoria pelo ácido e vulgar fedor de umas cédulas salvadoras."
Ao descobrir uma fabulosa biblioteca, milagrosamente preservada no que restou da mansão da família Montes de Oca, Mario Conde dá início a um excelente negócio devido à riqueza do acervo de livros raros, um sonho para qualquer bibliófilo. No entanto, o destino reserva uma grande surpresa para o detetive aposentado quando, no interior de um desses livros, ele encontra uma página recortada de uma antiga revista de quarenta anos atrás com a imagem da estonteante cantora de bolero Violeta del Río. Sem saber o motivo da intensa atração exercida pela mulher ele segue os seus instintos de investigador e tenta descobrir o paradeiro da esquecida bolerista através de um mergulho no submundo das ruas e crimes de Havana, resgatando uma história esquecida sobre morte e infelicidade da neblina do passado.
"Quando saíram para a rua, o sol furioso do meio-dia tinha dispersado os passantes, mas a música agora ocupava o lugar das pessoas, abarrotando o espaço, misturando melodia, competindo em volumes capazes de aturdir quem arriscava penetrar naquela atmosfera compacta de som, bolero, merengue, balada, mambo, guaracha, rock pesado e leve, danzón, bochata e rumba. As casas cujas entradas davam para a rua, com as portas e janelas abertas, tentavam absorver um pouco do ar quente, enquanto homens e mulheres de todas as idades oscilavam em cadeiras de balanço, desfrutando a brisa artificial dos ventiladores e a música ensurdecedora, vendo passar, carregados de resignação, a hora morta do meio-dia."

segunda-feira, junho 15, 2015

Zadie Smith - Sobre a Beleza

Zadie Smith - Sobre a Beleza - Editora Companhia das Letras - 448 páginas - Tradução de Daniel Galera - Lançamento 26/10/2007 (Ler aqui trecho disponibilizado pela Editora).

Terceiro romance de Zadie Smith, após sua estreia com os premiados: "Dentes Brancos" (2000) e "O Caçador de Autógrafos" (2002), traduzidos e publicados no Brasil pela Editora Companhia das Letras; "Sobre a Beleza", lançado originalmente em 2005, também foi muito elogiado pela crítica especializada e recebeu prêmios importantes como o extinto Orange Prize de 2006 (atual Baileys Women's Prize for Fiction), além de ter sido selecionado na shortlist do Man Booker Prize em 2005. Este romance consolidou a posição da autora na literatura britânica contemporânea ao lado de nomes já consagrados como: Ian McEwan, Martin Amis, Julian Barnes, Kazuo Isghiguro e Hilary Mantel, para citar alguns.

O romance tem como base os contrastes entre duas famílias (estrutura similar a "Howards End" de E. M. Forster, citado por Zadie Smith nos agradecimentos como uma paixão que inspirou o seu trabalho) e a rivalidade intelectual entre os acadêmicos Howard Belsey e Montague Kipps. Enquanto a família formada pelo inglês Howard, morando na pequena cidade universitária ficcional de Wellington, subúrbio de Bostonsegue uma orientação liberal e pouco (ou nada) religiosa, após trinta anos de um casamento aparentemente feliz com a afro-americana Kiki e os filhos Jerome, Zora e Levi, o seu oponente no campo das ideias acadêmicas, artigos e palestras, Sir Montague Kipps, de Trinidad e Tobago, residente em Londres, é conservador e aristocrático, um católico obsessivo, casou-se com a haitiana Carlene, tendo dois filhos: Michael e Victoria. Um noivado frustrado entre Jerome, o filho de Howard convertido ao catolicismo, com ninguém menos do que Victoria, a sensual filha de seu rival acadêmico, irá deflagrar uma situação de guerra ainda mais declarada entre os dois intelectuais e uma série de situações desagradáveis e hilárias para o leitor, principalmente quando a família Kipps vem de mudança para Wellington.

A narrativa é sempre muito bem-humorada, por vezes tragicômica, e as reviravoltas da trama tendem normalmente a colocar o prepotente Howard Belsey e suas convicções ideológicas em cheque, seja por conta do seu oponente, patriarca dos Kipps, ou pelo "fogo amigo" dos integrantes de sua própria família, cada um lutando por seus ideais e convicções próprias (sejam elas religiosas, sociais, profissionais ou amorosas). Kiki Belsey é uma das personagens mais fortes e bem construídas do livro, de origem humilde e sem os mesmos interesses intelectuais do marido, percebe que a passagem do tempo deixou suas marcas, principalmente na aparência atual de seu corpo de 115 Kg o que levou Howard em direção a uma armadilha típica para os homens de meia idade que buscam em uma relação extraconjugal a solução egoísta para os seus problemas existenciais.

O núcleo de personagens principais se expande consideravelmente no romance de mais de quatrocentas páginas, abrindo espaço para o dia a dia da Universidade, reitor, professores, alunos e também o problema social dos imigrantes haitianos e da população negra de baixa renda que tem em Levi, o filho mais novo de Howard e Kiki, um defensor em tempo integral, fonte de novos problemas para a família Belsey. Howard é um homem que, devido ao próprio exercício da profissão, passou a duvidar de tudo e a convivência com ele é muito desgastante para os filhos e também para a esposa que vê o casamento desmoronar. A intimidade dos conflitos familiares na casa dos Belsey é revelada nos mínimos detalhes por Zadie Smith e nos sentimos assistindo a uma peça de teatro, tão próximos da ação como parte do próprio cenário. Será que essa história consegue ter um final feliz?

quarta-feira, junho 10, 2015

Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura 2015


O escritor cubano Leonardo Padura ganhou o Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura 2015 (antigo prêmio Príncipe das Astúrias, renomeado após a abdicação de Dom Juan Carlos da monarquia). Leonardo Padura é conhecido por seus romances policiais e a criação do personagem Mario Conde. No Brasil, o trabalho dele foi bastante divulgado por conta de seu romance histórico O homem que amava os cachorros (lançado pela Boitempo Editorial em Dezembro de 2013).

A organização considerou a obra do autor como "uma soberba aventura do diálogo e da liberdade", além de "mostrar os desafios e os limites na busca da verdade. Uma exploração impecável da história e de seus modos de contá-la"Sobre a questão da influência política na escolha, em função da recente onda de reaproximação de Cuba com os EUA, Leonardo Padura já havia declarado nesta entrevista à New Yorker, em 2003, que "não tem qualquer militância, nem com o Partido, nem com a dissidência", declarou ainda que "nunca deixou Cuba porque é um escritor cubano e não poderia ser outra coisa".

Os três últimos vencedores desta premiação, criada em 1981, foram o irlandês John Banville (2014), o espanhol Antonio Molina (2013) e o norte-americano Philip Roth (2012). A brasileira Nélida Piñon foi agraciada em 2005 (Conheça aqui todos os autores laureados desde 1981).

terça-feira, junho 09, 2015

Novo Prêmio Literário Oceanos substitui o Portugal Telecom


O Prêmio Portugal Telecom de Literatura, cancelado este ano pelos antigos patrocinadores, passará a ser chamado de Oceanos - Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa e patrocinado pelo Itaú Cultural. A premiação, focada nas obras de poesia, prosa e crônicas em língua portuguesa, terá inscrições abertas à partir do dia 10 de junho neste site.

Poderão concorrer ao Prêmio Oceanos as obras de criação literária com primeira edição no Brasil publicada em 2014 e os livros de outros países lusófonos publicados no país de origem de 2011 a 2014, mas devendo ter sido publicados no Brasil em 2014. Livros infantis e infanto-juvenis não poderão concorrer.

A principal modificação do regulamento será que a a divisão original do Portugal Telecom em três categorias - conto e crônica, poesia e romance - será substituída por uma classificação única. Os quatro primeiros classificados receberão, respectivamente, prêmios de 100 mil reais, 60 mil reais, 40 mil reais e 30 mil reais, sendo divulgados em dezembro.

O Prêmio Portugal Telecom existia desde 2003, tendo premiado e ajudado a divulgar autores brasileiros, portugueses e de outros países lusófonos. Segue relação abaixo dos vencedores das edições passadas:

2003 - Nove Noites - Bernardo Carvalho
2004 - Macau - Paulo Henriques Britto
2005 - Os Lados do Círculo - Amilcar Bettega Barbosa
2006 - Cinzas do Norte - Milton Hatoum
2007 - Jerusalém - Gonçalo Tavares
2008 - O Filho Eterno - Cristovão Tezza
2009 - Ó - Nuno Ramos
2010 - Leite Derramado - Chico Buarque
2011 - Passageiro do Fim do Dia - Rubens Figueiredo
2012 - A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe
2013 - O Sonâmbulo Amador - José Luiz Passos
2014 - Sérgio Rodrigues - O Drible

sábado, junho 06, 2015

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis - Editora Companhia das Letras - 192 páginas - Lançamento 07/10/2013 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Se você gosta de road movies como Thelma & Louisie vai adorar este romance, mas se não for o caso irá gostar do mesmo jeito porque, além da narrativa cinematográfica, Carol Bensimon sabe muito bem como contar uma história e parece não ter a menor preocupação em perseguir um pretenso rigor literário ou acadêmico. Lembro que fiquei conhecendo o trabalho dela através da Granta 9 - Os melhores jovens escritores brasileiros, lançamento 2012, onde o primeiro capítulo deste romance, com o título de Faíscas, foi selecionado na Antologia de contos assim como Apneia de Daniel Galera, que também viria a fazer parte de Barba Ensopada de Sangue.

Cora e Julia são duas personagens lindas e carismáticas que se apaixonaram na época da faculdade, passando por situações comuns a outras jovens que enfrentam dificuldades por conta de pressões sociais e familiares devido a suas ambiguidades sexuais. Cora, narradora do romance, é mais decidida em sua sexualidade e experiente em relacionamentos com outras garotas. É ela que está sempre tentando conquistar Julia que vem de uma educação tradicional em uma cidade do interior (Soledade), morando em um pensionato de freiras em Porto Alegre. O trecho abaixo mostra como a mãe de Cora confirmou as suas suspeitas sobre as opções sexuais da filha adolescente, depois de presenciar na casa um "desfile interminável de melhores amigas":
"Então, em uma tarde modorrenta, ela abriu a porta do meu quarto. Não saberia explicar o porquê, ela sempre batia, quer eu estivesse acompanhada ou sozinha, aquela era uma norma na qual ela gostaria de acreditar. Porém, nessa tarde, com uma desculpa qualquer na ponta da língua, minha mãe entrou no meu quarto de forma totalmente inesperada, talvez desejando mais do que tudo ter que usar o raio da desculpa, a qual poderia ser: vocês precisam de alguma coisa?, vou dar uma saída, hoje não era o dia de buscar tua jaqueta na costureira? O que viu, no entanto dentro do quarto repleto de ícones que ela não compreendia, fez com que fechasse a porta em pouquíssimos segundos e corresse para o andar de baixo em busca do telefone. Discou para o ex-marido. Mesmo atordoada, ela teve a delicadeza de passar pelas perguntas habituais enquanto procurava uma maneira de descrever a cena, a amiga da tua filha deitada na cama, uma calcinha com uma estampa quase infantil, tua filha com a mão na —, a mão por dentro da calcinha dela, eu sempre soube que a Cora ia fazer isso com a gente."
De qualquer forma, o livro está longe de ser uma obra engajada no movimento LBGT. Na verdade, me parece muito mais uma bela e simples história de amor com encontros e desencontros. Cora e Julia não conseguem manter o relacionamento na época da faculdade porque Julia foi selecionada para uma bolsa em Montreal e Cora viaja para fazer um curso de moda em Paris. Um dia, durante uma conversa no Skype, elas decidem se reencontrar e realizar o antigo sonho de uma viagem "sem planejamento" no interior do Rio Grande do Sul. A oportunidade aparece quando o pai de Cora, casado novamente com uma mulher mais jovem, a convida para o nascimento do seu filho no Brasil.
"Respirei fundo. Era o ar da serra, nós estávamos ali, com cinco ou seis anos de atraso, mas ali, finalmente ali. Tínhamos sobrevivido a uma briga que continuava pairando sobre nós, a Paris, a Montreal, à loucura de nossas famílias. Aquela viagem era mais um fracasso irresistível."
A estrutura do romance é linear, mas com várias inserções do passado que explicam a trajetória de Cora e Julia antes de se conhecerem e o motivo da postura de cada uma frente ao relacionamento. As duas seguem vivendo um dia após o outro, sem saber como será o final da viagem, mas percebendo que são bem pequenas as chances delas conseguirem continuar juntas. Ainda assim, apesar deste tom de melancolia, o romance tem uma mensagem de juventude e esperança bem forte e o leitor fica todo o tempo na torcida de um final feliz para as meninas, será que elas conseguem?

O Rio Grande do Sul é um dos destaques do romance, não apenas aqueles pontos turísticos tradicionais como as cidades de Gramado e Canela ou as regiões litorâneas, mas cidades totalmente desconhecidas em outras partes do Brasil como: Antônio Prado e Minas do Camaquã. Fico imaginando o trabalho de pesquisa que deve ter norteado a preparação dessa "viagem" na cabeça da porto-alegrense urbana Carol Bensimon. Para saber mais sobre o romance e a autora, recomendo esta ótima entrevista para seu conterrâneo Milton Ribeiro, do Sul 21.

quarta-feira, junho 03, 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro - Editora Tordesilhas - 112 páginas - Prefácio de Noemi Jaffe - Lançamento: Fevereiro 2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Já disse uma vez o poeta Manoel de Barros que "as coisas que não existem são mais bonitas" (poema Mundo Pequeno), pois o jovem autor estreante Krishna Monteiro nos ensina agora uma coisa que já deveríamos saber também, que a lembrança deixada pelas coisas e pessoas que já não existem permanece existindo e se renovando em nossa memória. O tema e a capa desta edição podem induzir uma ideia de simplicidade, no entanto a criatividade na construção dos sete contos que compõem este livro chama a atenção pela ousadia, exigindo atenção redobrada para perceber as sutilezas entre o que é revelado e, principalmente, não revelado pelo autor em um jogo de descobertas que provoca todo o tempo a imaginação do leitor.

O primeiro conto que empresta o título ao livro explora a vertente mais óbvia da ausência — a dor e o desajuste de um filho diante da morte do pai. O sentimento de perda e a lembrança estão ainda tão presentes que o filho questiona a realidade e chega a pensar que ele sim é o morto, enquanto o pai permanece vivo. Quem já passou por uma experiência de perda familiar vai se identificar de alguma forma.

Mas é em "Quando dormires, cantarei" que Krishna Monteiro encanta pela coragem ao fazer do seu narrador um galo de briga lutando pela vida em plena rinha, enquanto relembra toda a sua vida até aquele momento. A narrativa vai intercalando os momentos de dramaticidade da luta mortal com as lembranças do galo, no seu entendimento parcial do mundo e da humanidade covarde que é capaz de promover uma atividade como aquela. É preciso muita técnica para um escritor arriscar um conto como este.

"Monte Castelo" é uma bela história de amizade entre neto e avô que se afastam por desentendimentos familiares, mas permanecem ligados pelas memórias que o avô transmitiu ao neto do famoso combate com a participação dos pracinhas brasileiros na Segunda Grande Guerra. A epígrafe, citação de Clarice Lispector, adverte para os riscos da lembrança: "Escrever é tantas vezes lembrar do que nunca existiu."

Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 e 2012 trabalhou com vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Atualmente é cônsul adjunto do Brasil em Londres.

segunda-feira, junho 01, 2015

Ricardo Piglia - Respiração Artificial

Ricardo Piglia - Respiração Artificial - 200 páginas - Editora Companhia das Letras (Companhia de Bolso) - Tradução de Heloisa Jahn - Lançamento 28/01/2010 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela editora).

O argentino Ricardo Piglia, crítico literário e romancista, é reconhecido como um dos autores contemporâneos mais conceituados da América Latina. Respiração Artificial, lançado originalmente em 1980, é um romance difícil, não só porque utiliza técnicas de narrativa polifônica em épocas diferentes, mas também e, principalmente, porque faz referência a obras de filosofia e literatura clássicas, assim como da história e escritores da literatura argentina, background que nem sempre é compatível com a formação dos leitores brasileiros. De qualquer forma é uma ótima chance de reduzirmos a distância cultural que nos afasta dos nossos hermanos, nada que rápidas consultas na internet não possam resolver.

Na primeira parte do romance é utilizada a troca de correspondência e alternância de narração entre o jovem escritor Emilio Renzi e seu tio, professor de história, Marcelo Maggi que havia desaparecido há alguns anos e que reside em uma cidade do interior. O assunto principal é o resgate histórico de um personagem de pouca relevância política chamado Enrique Ossorio e considerado um traidor ao governo do ditador Rosas em 1837. O diário de Ossorio, exilado nos EUA, assim como outras cartas e fragmentos de noticias de época são inseridos de forma fragmentada e, aparentemente, aleatória na correspondência entre Emilio e Marcelo, gerando insegurança no leitor que, por várias ocasiões, se encontra desorientado sobre o protagonismo da narrativa e precisa voltar diversas vezes no texto para se encontrar na teia ficcional em que é envolvido.

Na segunda parte, a literatura passa a ser um dos personagens principais e o tom da estrutura praticamente se transforma de romance para ensaio. Ricardo Piglia (ou seu alter ego, Emilio Renzi) define uma posição clara sobre a importância de Roberto Arlt: "Em 1942, com a morte de Roberto Arlt a literatura moderna da Argentina chegou ao fim.". Ou ainda neste diálogo entre Emilio Renzi e Marconi, jornalista e poeta local: "Roberto Arlt é o único escritor verdadeiramente moderno que a literatura argentina do século XX produziu." e quanto a Borges?, questiona Marconi, "Borges é um escritor do século XIX. O melhor escritor argentino do século XIX." (realmente uma teoria para se pensar). 

Ainda na segunda parte, ganha espaço o personagem polonês expatriado, Tardewski, que explica a sua apologia aos fracassados (o fracasso está sempre presente no texto) e a surpreendente revelação de supostos encontros entre Kafka e ninguém menos do que Adolf Hitler, entre os anos de 1909 e 1910, quando o futuro ditador ainda era um artista frustrado e se ausenta temporariamente da Alemanha para fugir ao alistamento militar. O que resulta na tese de Tardewski de que os textos de Kafka teriam sido influenciados por teorias de Hitler, a serem detalhadas na sua futura biografia "Mein Kampf", iniciada em 1924 (ano da morte de Kafka). Sobre este improvável encontro, ler o trecho abaixo:
Sobre aquilo que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado."
Talvez este indizível, que não pode ser descrito ou mencionado, seja uma referência ao próprio período de ditadura, estabelecida em 1976 na Argentina, ano em que inicia a ação de Respiração Artificial, sendo mais um nível de intertextualidade do romance que abre múltiplas direções para o leitor perplexo. Bem, caso você esteja interessado em uma leitura leve, rápida e agradável, este livro decididamente não é a escolha correta.

quinta-feira, maio 28, 2015

Biblioteca do Futuro - Livros para ler no próximo século


A artista escocesa Katie Peterson está desenvolvendo um projeto chamado Future Library (Biblioteca do Futuro) com base na ideia original de que, a cada ano, uma obra inédita de ficção escrita por diferentes autores será incluída em uma coleção com os manuscritos guardados em Oslo, na Noruega, até o ano 2114, quando finalmente os cem livros serão publicados. Mil árvores foram plantadas em uma região próxima à capital norueguesa para fornecer o papel no qual as obras serão impressas.

A escritora canadense Margaret Atwood é o primeiro nome de peso a confirmar a participação no projeto e encaminhar o seu trabalho (com o título de "Scribbler Moon") que somente será revelado daqui há um século. Atwood declarou que está "muito honrada" em participar e também que "esse projeto pelo menos acredita que a raça humana ainda vai estar por aqui dentro de cem anos." O inglês David Mitchell, que já confirmou sua participação, é o próximo autor que fará parte da Biblioteca do Futuro.

Os livros ficarão sob a guarda de uma comissão que inclui importantes editoras e editores. A cada ano, a comissão convidará um escritor para contribuir com uma obra para a coleção de manuscritos inéditos. Os textos serão mantidos dentro de uma sala projetada especialmente para alojá-los na Biblioteca Deichman, em Oslo.

Agora me ocorre que, infelizmente, assim como a idealizadora do projeto, também eu e até mesmo você, que está lendo esta postagem, nunca poderemos ler os livros dessa coleção secreta que só estarão disponíveis no século XXII.
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