terça-feira, fevereiro 21, 2017

Elena Ferrante - História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante - História de quem foge e de quem fica: Tempo intermédio - Série Napolitana, terceiro romance - Editora Globo, Biblioteca Azul - 416 páginas - Tradução: Maurício Santana Dias - Lançamento no Brasil: 19/10/2016.

O curioso nesta tetralogia napolitana de Elena Ferrante é que cada volume consegue  superar o anterior, tanto em termos de cuidado na construção dos personagens quanto pela fluência da narrativa, provocando um delicioso estado de ansiedade no leitor pelo próximo lançamento da série. Após os dois ótimos primeiros volumes: "A amiga genial" e "História do novo sobrenome", respectivamente sobre a infância e juventude de Lila Cerullo e Elena Greco (sigam os links para as duas resenhas), este terceiro romance é focado na fase adulta das amigas e nos muitos obstáculos que a vida traz para ambas, principalmente durante os anos setenta, um período conturbado da história da Itália, conhecido como "Anos de chumbo", que foi marcado por conflitos políticos, atos terroristas e reivindicações sociais em todo o país.

O título, apesar de um pouco estranho, resume muito bem o que ocorre no romance, Elena ou Lenu, como é conhecida em seu bairro de origem, consegue escapar de um destino de preconceito e violência em Nápoles ao realizar um sonho de infância, escrevendo um livro que se torna sucesso de vendas e obtendo reconhecimento acadêmico pela sua formação intelectual, conquistada com muito esforço. Ela conhece Pietro, jovem professor universitário conservador de uma família conceituada e rica, e decidem morar juntos em Florença enfrentando os protestos da família de Lenu por dispensarem a cerimônia religiosa do casamento, um escândalo na época. Logo, tudo parecia se encaixar no seu desejo de abandonar ou fugir do bairro violento, longe de sua família e amigos, "O essencial era ir embora de Nápoles".
"Quando me formei, quando escrevi de jato uma história que, de modo totalmente inesperado, em poucos meses se transformou em um livro, os elementos do mundo de onde eu vinha me pareceram ainda mais deteriorados. Enquanto em Pisa ou Milão eu me sentia bem, às vezes até feliz, em minha cidade natal temia a cada retorno que algum imprevisto me impedisse de fugir dali, que as coisas que eu tinha conquistado fossem tiradas de mim. Não poderia mais encontrar Pietro, com quem deveria me casar em breve; o espaço impecável da editora me seria vetado; não poderia mais usufruir as gentilezas de Adele, minha futura sogra, uma mãe como nunca tive. Já no passado a cidade me parecera lotada, uma única multidão que se estendia da piazza Garibaldi até Forcella, Duchesca, Lavinaio, Rettifilo. No final dos anos 1960, tive a impressão de que a multidão aumentara, de que a intolerância e a agressividade estavam se espalhando de modo incontrolável. (...) Enfim, cada ano me parecia pior. Naquele período de chuvas, a cidade estava mais colapsada, um prédio inteiro pendera de lado como uma pessoa que se apoia no braço carcomido de uma velha poltrona e o braço cede. Mortos, feridos. E gritos, massacres, bombas caseiras. Parecia que a cidade gerava nas vísceras uma fúria que não conseguia extravasar e por isso mesmo a corroía, ou irrompia em pústulas epidérmicas, inchadas de veneno contra todos, crianças, adultos, velhos, gente de outras cidades, americanos da Otan, turistas de qualquer nacionalidade, os próprios napolitanos. Como era possível resistir naquele lugar de desordem e perigo, na periferia, no centro, nas colinas, sob o Vesúvio?" (Págs. 16 e 17)
Já Lila, precisou ficar. Ela não teve tanta sorte quanto a amiga de infância e pagou um preço alto por suas escolhas impulsivas, principalmente depois do fracassado casamento prematuro, quando decidiu abandonar o marido com um filho pequeno, devido a uma paixão cega por Nino, colega de infância do bairro. Lila ficou em Nápoles, morando em um bairro pobre da periferia chamado San Giovanni a Teduccio, trabalhando como operária em uma fábrica local de embutidos. Ao se envolver com os problemas e reivindicações da classe operária ela chega no limite de suas forças e acaba pedindo ajuda para a velha amiga Elena que consegue, com a influência da família de seu marido, ajudá-la a se equilibrar novamente e encontrar um novo caminho na vida. O trecho abaixo descreve um dos conflitos entre estudantes que distribuíam panfletos políticos sobre as péssimas condições de trabalho na fábrica onde Lila trabalhava e um grupo de fascistas, espécie de milícia, que representava os interesses dos patrões
"Lila se esqueceu da febre, do cansaço e correu para o portão, mas sem um propósito definido. Não sabia se queria ter uma visão mais clara, se queria ajudar os estudantes, se simplesmente era movida por um instinto que sempre tivera e em virtude do qual as pancadas não a atemorizavam, ao contrário, acendiam sua fúria. Mas não fez a tempo de voltar para a rua, precisou esquivar-se para não ser arrastada por um grupinho de operários que estava passando às carreiras pelo portão. Alguns tinham tentado conter os espancadores, certamente Edo e mais uns outros, mas não conseguiram e agora estavam fugindo. Fugiam homens e mulheres, todos perseguidos por dois jovens com barras de ferro. Uma que se chamava Isa, uma funcionária, gritou correndo para Filippo: intervenha, faça alguma coisa, chame os guardas; e Edo, que estava com uma mão sangrando, disse em voz alta para si: vou buscar o machado e depois veremos. Assim, quando Lila chegou à estrada de terra, o carro azul já havia partido e Gino estava entrando no cinza; mas ele a reconheceu, parou estupefato e disse: Lina, você veio parar aqui? Então, puxado para dentro pelos camaradas, deu a partida e arrancou, gritando pela janela, você bancava a madame, cretina, e olha em que merda se transformou." (Pág. 125)
Voltando a Elena, todas as suas conquistas parecem se evaporar quando ela acaba frustrada pela rotina da relação com o marido e as dificuldades da maternidade, situações que a afastam cada vez mais da sua aspiração de se tornar uma escritora. Neste contexto de insatisfação com sua vida pessoal e profissional, Nino reaparece em sua vida, colega do marido que o conhece do meio acadêmico, passando alguns dias na casa deles vindo de Nápoles. A lembrança do verão nas praias de Ischia em que o perdeu para Lila assim como o seu estado de carência atual, acabam provocando a aproximação de Lenu e Nino. O resultado é a conversa obsessiva abaixo (nesta passagem, a autora amplifica o estado de excitação e confusão dos personagens removendo todas as marcações de travessão ou aspas do diálogo) em que os dois amantes se falam por telefone, um dia após terem dormido juntos.
"Mas o telefone tocou, e corri para atender. Era ele, ao fundo se ouvia um autofalante, vozerio, barulho, a voz chegava com dificuldade. Acabara de chegar em Nápoles, estava ligando da estação. Apenas um oi, me disse, queria saber como você está. Estou bem, respondi. O que está fazendo? Me preparando para almoçar com as meninas. Pietro está? Não. Você gostou de fazer amor comigo? Sim. Muito? Muitíssimo. Minhas fichas acabaram. Vá, tchau, obrigada pelo telefonema. Nos ouvimos. Quando você quiser. Fiquei contente comigo, com meu autocontrole. Mantive-o a uma distância correta, disse a mim mesma, a um telefonema de cortesia respondi com cortesia. Mas três horas depois ele tornou a ligar, de novo de um telefone público. Estava nervoso. Por que você está tão fria? Não estou fria. Hoje de manhã você quis que eu dissesse que te amava, e eu disse, embora por princípio eu não diga isso a ninguém, nem a minha mulher. Fico contente. E você me ama? Amo. Vai dormir com ele esta noite? E com quem você quer que eu durma? Não suporto isso. Você não dorme com sua mulher? Não é a mesma coisa. Por que? Não estou nem aí para Eleonora. Então volte para cá. Como faço isso? Se separe. E depois?" (Pág. 387)
Depois de ler este terceiro volume da série napolitana (o melhor dos três primeiros, na minha opinião) e acompanhar de perto a trajetória de Lila e Lenu para conquistar o seu lugar na sociedade, tenho duas certezas sobre a misteriosa Elena Ferrante que até o momento continua tentando manter a sua identidade em segredo — tarefa cada vez mais difícil neste mundinho globalizado em que vivemos — a primeira é que ela domina a arte de contar uma história como poucos autores contemporâneos e a segunda é a constatação óbvia de que Ferrante não pode definitivamente ser um homem, como foi aventado por parte da imprensa italiana, já que somente uma mulher seria capaz de descrever com tanta veracidade e propriedade sobre o universo feminino. Por favor, me corrijam as leitoras caso eu esteja enganado.

"A amiga genial", "História do novo sobrenome", "História de quem foge e de quem fica"

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Cartas de amor

William Strang, "Lady with a red hat" (um retrato de Vita Sackville-West), 1918
Vita Sackville-West (1892-1962) foi uma grande poeta, romancista e paisagista inglesa. No entanto, será sempre lembrada por ter tido um longo caso com Virgina Woolf (1882-1941) e inspirado uma das maiores obras da literatura ocidental, "Orlando". Desta relação ficaram muitas cartas de amor resgatadas no livro "The Letters of Vita Sackville-West to Virginia Woolf". Um belo exemplo de 1926, carta escrita na Itália, depois de uma primeira separação entre as duas, foi publicada no site da Paris Review; um texto que inicia com a seguinte confissão de Vita: "Estou reduzida a uma coisa que quer Virginia", simples e essencial. Ela não podia competir com o refinamento literário de Virginia, mas conseguiu atingir a beleza dos textos apaixonados. Segue abaixo em tradução minha para o português, assim como o texto original.
Estou reduzida a uma coisa que quer Virgínia. Eu escrevi uma linda carta para você nas horas de pesadelo insones da noite, e tudo se foi: eu só sinto sua falta, de uma forma muito simples e desesperadamente humana. Você, com todas as suas cartas inteligentes, nunca escreveria uma frase tão simples como esta; Talvez nem sequer a sentisse. E ainda assim eu acredito que você seria um pouco capaz. Mas transformaria este sentimento com uma sentença tão requintada que perderia um pouco da sua realidade. Considerando que comigo é tão óbvio: sinto a sua falta ainda mais do que eu poderia ter acreditado; E eu estava preparada para sentir muito a sua falta. Assim, esta carta é apenas um grito de dor. É incrível como você se tornou essencial para mim. Suponho que você esteja acostumada com as pessoas dizendo essas coisas. Maldita seja, criatura mimada; Eu não vou fazer você me amar mais, entregando-me assim — Mas, oh minha querida, eu não posso ser inteligente e distante com você: Eu te amo demais para isso. Muito verdadeiramente. Você não tem idéia de como eu posso estar distante de pessoas que eu não amo. Eu desenvolvi isto até o estado da arte. Mas você quebrou minhas defesas. E eu realmente não me lamento por isso ... 
Por favor, me perdoe por escrever uma carta tão infeliz.
V.
I am reduced to a thing that wants Virginia. I composed a beautiful letter to you in the sleepless nightmare hours of the night, and it has all gone: I just miss you, in a quite simple desperate human way. You, with all your un-dumb letters, would never write so elementary phrase as that; perhaps you wouldn’t even feel it. And yet I believe you’ll be sensible of a little gap. But you’d clothe it in so exquisite a phrase that it would lose a little of its reality. Whereas with me it is quite stark: I miss you even more than I could have believed; and I was prepared to miss you a good deal. So this letter is just really a squeal of pain. It is incredible how essential to me you have become. I suppose you are accustomed to people saying these things. Damn you, spoilt creature; I shan’t make you love me any the more by giving myself away like this — But oh my dear, I can’t be clever and stand-offish with you: I love you too much for that. Too truly. You have no idea how stand-offish I can be with people I don’t love. I have brought it to a fine art. But you have broken down my defences. And I don’t really resent it … 
 Please forgive me for writing such a miserable letter. 
 V.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Arthur Conan Doyle - O livro de Moriarty

Arthur Conan Doyle - O livro de Moriarty - Editora Companhia das Letras - Selo Penguin Companhia - 416 páginas - Tradução e Introdução de José Francisco Botelho - Lançamento: 03/02/2017.

Arthur Conan Doyle (1859-1930) criou um dos personagens mais famosos da literatura ao publicar um conjunto de quatro romances e 56 contos, chamado de Cânone pelos ardorosos fãs, sobre o carismático detetive Sherlock Holmes e seu fiel amigo e escudeiro Dr. Watson. No entanto, Doyle tornou-se uma espécie de prisioneiro da sua própria criação, que consumia todo o seu tempo e o impedia de se dedicar a outros projetos literários, como confessou em uma carta de 1891 à sua mãe: "Estou cansado de ouvir o nome de Sherlock Holmes. Ele pertence a um estrato inferior de criação literária. Como prova de minha resolução, estou decidido a matá-lo". E, de fato, criou um vilão à altura do famoso investigador e capaz de eliminá-lo, um personagem que se transformaria em arqui-inimigo e espelho do mal, definido pelo próprio (e vaidoso) Sherlock Holmes como "gênio, filósofo e pensador abstrato, dotado de um cérebro de primeira grandeza", o maquiavélico professor James Moriarty.

Este livro reúne seis contos e um romance, todos com a participação direta ou indireta do professor Moriarty. O conto "O problema final", publicado em 1894, e que abre esta coletânea, finaliza com uma luta mortal entre Holmes e Moriarty que provoca a queda de ambos nas cachoeiras de Reichenbach nos Alpes Suíços, uma cena inesquecível de uma das muitas adaptações para o cinema, a produção "O jogo de sombras" de 2011, dirigido por Guy Ritchie e estrelado por Robert Downey Jr. e Jude Law. Este seria, portanto, o final apoteótico do grande detetive inglês e seu maior inimigo, o único capaz de vencê-lo.
"Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o responsável por metade das ações malignas e quase todos os delitos ocultos nesta grande cidade. É um gênio, um filósofo, um pensador abstrato, dotado de um cérebro de primeira grandeza. Permanece imóvel como uma aranha no centro de sua teia; mas nessa teia há mil irradiações, e ele percebe o menor estremecimento em cada fio. Faz pouca coisa com suas próprias mãos. Apenas planeja. Mas seus agentes são numerosos e esplendidamente organizados. Se acaso há algum crime a ser cometido, um documento a ser roubado, uma casa a ser arrombada, um homem a ser eliminado, basta encaminhar o assunto ao professor: o trabalho será planejado e executado de forma infalível. O agente do crime talvez seja preso. Nesse caso, haverá dinheiro de sobra para pagar sua fiança e um excelente advogado. Mas o poder que move o agente jamais é pego; na verdade, nem sequer suspeitam que exista. Com o tempo, Watson, acabei deduzindo a existência dessa vasta organização e passei a dedicar todas as minhas energias à tarefa de desmascará-la e destruí-la.""O problema final", Págs, 29 e 30.
No entanto, em 1903, a pressão popular e, principalmente, comercial (a revista americana Colliers Weekly ofereceu quarenta e cinco mil dólares para ressuscitar Holmes em treze novas histórias) fizeram com que Doyle escrevesse "A aventura da casa vazia" com o retorno de Sherlock Holmes a Londres depois de um desaparecimento de três anos, uma solução que pode não ter sido verossímil ou bem acabada do ponto de vista literário, mas os fãs em todo o mundo adoraram. Infelizmente, o vilão Moriarty não poderia também ter sido ressuscitado, por um mínimo de credibilidade,  e restou ao autor o truque de escrever novas histórias com a dupla de maneira cronologicamente retroativa. O trecho abaixo é a explicação de Holmes para Watson sobre a sua morte forjada e desaparecimento.
"— Eis o que aconteceu. No instante em que Moriarty desapareceu no precipício, ocorreu-me que o destino me estendia uma extraordinária oportunidade. Eu sabia que Moriarty não era o único homem a ter me jurado de morte. Pelos meus cálculos, havia pelo menos mais três criminosos em meu encalço, e seu desejo de vingança cresceria ainda mais após a morte do líder. Eram homens perigosíssimos. Algum deles, em algum momento do futuro, acabaria por me atacar. Por outro lado, se o mundo inteiro acreditasse que eu estava morto, meus inimigos descansariam sobre os louros, baixariam a guarda — e, mais cedo ou mais tarde, eu haveria de destruí-los. E então eu poderia anunciar que continuava no mundo dos vivos. O cérebro humano é realmente veloz: acho que pensei tudo isso antes que o professor Moriarty batesse no fundo das cataratas de Reichenbach." -  "A aventura da casa vazia", Pág 59.
Em "O caso do construtor de Norwood" encontramos Sherlock Holmes terrivelmente desocupado e entediado pois Londres havia se tornado "um lugar singularmente monótono" após a morte de Moriarty. Assim mesmo ele continua utilizando o seu genial poder de dedução para decifrar os crimes que obviamente continuavam ocorrendo na cidade, isso acontece nos contos "O caso do jogador de rúgbi" e "O caso do cliente ilustre". Em "Sua última mesura" o detetive passa a ajudar o governo da Inglaterra na função de contraespionagem no início da Primeira Guerra Mundial, "uma tempestade fria e implacável" se aproximava da Europa e esta foi sua última atividade profissional antes de se retirar para o campo, abandonado a investigação e dedicando-se somente à apicultura. 

"O vale do medo" é o último romance do Cânone escrito por Arthur Conan Doyle, publicado originalmente em uma série na revista mensal inglesa Strand de 1914 a 1915. É a narrativa do Dr. Watson de eventos ocorridos no passado e, portanto, ainda com a participação de Moriarty, encerrando este volume com um complicadíssimo caso de assassinato que envolve uma sociedade secreta e dividido em duas partes, no interior da Inglaterra e nos EUA. Enfim, um clássico imperdível não somente para os amantes das histórias de detetive e suspense, mas também para aqueles leitores que adoram a sensação de não conseguir interromper a leitura, diversão garantida há mais de um século.

domingo, fevereiro 12, 2017

Os 20 fotógrafos de rua mais influentes de 2017

Votação STREETHUNTERS.NET - Os 20 fotógrafos de rua mais influentes de 2017
A fotografia de rua é uma categoria muito peculiar do fotojornalismo ou fotografia documental que prioriza a espontaneidade em lugar da técnica e tem obtido grande valorização com a revolução digital e a tecnologia dos smartphones uma vez que, hoje, praticamente sempre há um fotógrafo de plantão em qualquer lugar do mundo e em qualquer momento. Entretanto, isto não quer dizer que os fotógrafos desta modalidade não utilizem o equipamento clássico de fotografia, muito pelo contrário, muitos deles ainda fazem uso das clássicas máquinas portáteis de 35mm como a Leica. A história da fotografia documental marcou o século XX com grandes nomes que retrataram a sociedade da época com sensibilidade e até mesmo humor, tais como: Robert Doisneau (1912-1994), Werner Bischof (1916-1954), Kurt Klagsbrunn (1918-2005) e Henri Cartier Bresson (1908-2004), para citar somente alguns.

A revista digital Street Hunters costuma promover anualmente uma votação com os seus leitores para eleger os 20 fotógrafos mais influentes. Este ano não foi diferente e a relação foi publicada nesta matéria. Senti falta do japonês Tatsuo Suzuki, na minha opinião o melhor fotógrafo de rua no momento, vale a pena conhecer suas fotos da área de Tóquio. Segue abaixo a relação dos fotógrafos escolhidos em todo o mundo por 14.495 leitores da revista em ordem de votação e com os links para os seus sites ou redes sociais. Alguns já atingiram o nível profissional e outros ainda se consideram amadores, isso ficará claro ao visitar os sites, destaquei uma imagem de cada fotógrafo e me diverti bastante. Uma excelente amostra do que está acontecendo hoje no mundo da fotografia de rua, sigam os links e boa viagem!

(01) Rohit Vohra (India) 
       Site: http://www.rohitvohra.com/home

Foto de Rohit Vohra
(02) Vineet Vohra (India)
       Site: http://www.thestreetcollective.com/vineet-vohra/

Foto de Vineet Vohra
(03) Soumya Shankar Ghosal (India) 
       Site: http://ssghosal.com/

Foto de Soumya Shankar Ghosal
(04) Arsenio Jr Nidoy (Filipinas)
       Site: https://www.facebook.com/ArsenicJuniorPhotography/

Foto de Arsenio Jr Nidoy
(05) Hajdu Tamas (Romênia)
       Site: http://hajdutamas.blogspot.gr/

Foto de Hajdu Tamas
(06) Alex Webb (EUA)
       Site: http://www.webbnorriswebb.co/

Foto de Alex Webb
(07) Teresa Pilcher (Austrália)
       Site: http://teresapilcherphotography.com/

Foto de Teresa Pilcher
(08) Jonas Dyhr Rask (Dinamarca)
       Site: https://jonasraskphotography.com/

Foto de Jonas Dyhr Rask
(09) Eric Kim (Vietnã)
       Site: http://erickimphotography.com/

Foto de Eric Kim
(10) Valérie Jardin (França)
       Site: http://valeriejardinphotography.com/

Foto de Valérie Jardin
(11) Martin U. Waltz (Alemanha)
       Site: https://streetberlin.net/

Foto de Martin U. Waltz 
(12) Oliver Krumes (Alemanha)
       Site: https://streetphotographyberlin.com/

Foto de Oliver Krumes
(13) Elliott Erwitt (França)
       Site: http://www.elliotterwitt.com/lang/en/index.html

Foto de Elliott Erwitt
(14) Martin Parr (Inglaterra)
       Site: http://www.martinparr.com/

Foto de Martin Parr
(15) Joel Meyerowitz (EUA)
       Site: http://www.joelmeyerowitz.com/

Foto de Joel Meyerowitz
(16) Linda Wisdom (Inglaterra)
       Site: http://www.lindawisdomphotography.co.uk/

Foto de Linda Wisdom
(17) Patrick Casutt (Suíça)
       Site: http://patrick.casutt.photography/

Foto de Patrick Casutt
(18) Maria Kappatou (Grécia)
       Site: http://mariakappatou.brushd.com/

Foto de Maria Kappatou
(19) Marie Laigneau (Inglaterra)
       Site: http://marielaigneau.com/

Foto de Marie Laigneau
(20) Becky Frances (Inglaterra)
       Site: https://www.flickr.com/photos/pollybluerocks/

Foto de Becky Frances

sábado, fevereiro 11, 2017

O desgaste das palavras


Lendo o jornal ou assistindo ao noticiário, notamos a dificuldade dos redatores em utilizar palavras que já não conseguem escapar do lento processo de desgaste devido ao uso indiscriminado e que perderam a sua eficácia, contaminadas por sentidos totalmente opostos ao que se pretendia originalmente no texto. Este é um fenômeno que normalmente escapa ao domínio da gramática e da etimologia, basta ler os exemplos abaixo retirados do noticiário e que hoje, em nosso inconsciente, estão mais associados aos seus antônimos do que às definições. Quem dera as palavras tivessem a força de mudar as pessoas.

Impoluto
Adjetivo
1. Que não é ou foi poluído; LIMPO; PURO
    [ Antônimo.: impuro, poluído. ]
2. Fig. Que possui dignidade de caráter (juiz impoluto); HONESTO; ÍNTEGRO; VIRTUOSO
    [ Antônimo.: corrupto, desonesto. ]

Probidade
Substantivo feminino
1. Qualidade de probo; retidão de caráter; INTEGRIDADE; HONESTIDADE
    [ Antônimo.: improbidade. ]

Definições do dicionário Aulete Digital.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

David Grossman - O inferno dos outros

David Grossman - O inferno dos outros - Editora Companhia das Letras - 208 páginas - Tradução direta do hebraico por Paulo Geiger - Lançamento: 16/08/2016.

David Grossman divide a posição de protagonismo na literatura israelense contemporânea com Amós Oz, sendo que ambos defendem coincidentemente uma solução pacifista, através do reconhecimento de dois Estados, para o conflito entre judeus israelenses e árabes palestinos no Oriente Médio. Os dois autores também são muito criticados pelos movimentos sionistas mais radicais em todo o mundo por suas posições "esquerdistas" e considerados como traidores da causa de Israel. É claro que mesmo assumindo posturas políticas de não violência, as obras desses escritores não poderiam ser imunes ao cenário de conflitos e ódio em que vivem — o próprio Grossman perdeu um filho na Guerra do Líbano em 2006 — e, portanto, seus livros acabam ajudando a refletir sobre este tema, assim como a amarga herança do Holocausto que nenhum judeu (ou não judeu) é capaz esquecer até hoje.

"O inferno dos outros",  último lançamento de David Grossman, utiliza uma sofisticada e criativa estrutura narrativa, que se divide entre o presente e o passado, durante um show de stand-up em Netanya, uma pequena cidade do interior de Israel, apresentado pelo humorista decadente Dovale Grinstein. O leitor é guiado através dos fatos do passado, em parte pelas piadas autodepreciativas de Dovale e também pelos pensamentos e lembranças de um antigo amigo de infância, o juiz aposentado Avishai Lazar, que foi convidado pelo comediante para assistir à performance daquela noite com um pedido muito peculiar: o ex-juiz deve avaliar o que viu ao final do show. Lazar tem seus próprios problemas, sendo o maior deles o luto recente pela esposa mas, bastante contrariado, decide aceitar o convite do amigo que não encontrava desde a juventude. O repertório de Dovale é semelhante à maioria dos shows de stand-up, constituído de piadas politicamente incorretas e provocações grosseiras ao público, como podemos constatar no trecho abaixo que ilustra bem o seu estilo.
"Aqui entre nós, meus irmãos, agora eu deveria pôr a mão no coração e dizer a vocês como eu adoro, como sou louco por Netanya, não é verdade?" 'Verdade', respondem alguns jovens do público. "E como é bom para mim estar com vocês numa quinta-feira à noite nessa encantadora zona industrial, e ainda por cima neste porão, bem em cima dessas atraentes camadas de radônio, e tirar uma série de piadas da bunda para vocês, certo?" 'Certo!', o público grita. "Não!", o homem declara, esfregando as mãos satisfeito. "Tudo isso é besteira, com exceção da parte sobre a minha bunda, porque na verdade, deixa eu dizer uma coisa, não suporto essa cidade de vocês, essa Netanya me causa um pavor mortal! A cada dois sujeitos na rua, um parece um desses participantes do programa de proteção a testemunhas, e o outro está com o primeiro embrulhado num saco de plástico preto no porta-malas. E podem acreditar em mim, se eu não tivesse de pagar pensão alimentícia para três mulheres encantadoras, e também para um-dos-três-quatro-cinco filhos — cinco: ele enfia na cara do público uma mão com os dedos abertos —, juro, está aqui, diante de vocês, o primeiro homem na história que teve depressão pós-parto. Cinco vezes depressão pós-parto. Na verdade quatro, pois dois são gêmeos. E na verdade cinco, se contarmos também a depressão depois do 'meu' parto." (Págs. 10 e 11)
No entanto, durante a apresentação de Dovale, alguma coisa estranha ao tradicional estilo de comédia stand-up, começa a ocorrer quando a agressividade gratuita com as pessoas, a cidade e consigo mesmo, começa a mudar para uma espécie de melancólica autoanálise em público. Um trauma de infância ocorrido em um acampamento de uma base do exército no deserto de Negev, parte de um programa de treinamento militar para adolescentes israelenses chamado de Gadna, é a chave para entender o drama pessoal de Dovale que vai sendo descortinado aos poucos e ficamos conhecendo a triste história de sua infância quando criou o hábito de caminhar plantando bananeira (ler o trecho abaixo) para se defender do bullying dos colegas e das surras do pai. David Grossman explica em entrevista à Folha o perfil de seu personagem: "Dovale passou a ter uma vida paralela em relação a quem ele realmente era" e ainda: "Perdemos muito tempo tentando corrigir os defeitos que temos — no nosso corpo, na nossa alma —; tentamos escondê-los para que possamos ter uma aparência melhor", diz. "É um esforço tolo."
"Havia uma tradição bonita no meu bairro: bater no Dovale. Nada sério, um tapa aqui, um chute ali, um soquinho na barriga. Tudo sem maldade, sabe? Era só uma coisa técnica, como carimbar um ingresso. 'Você já espancou o Dovale hoje?' (...) Mas quando plantava bananeira, sabe?, ninguém bate num menino que anda de cabeça para baixo. Fato! Porque, se você quer dar um tapa num menino de cabeça para baixo, como vai achar o rosto? Quero dizer, você não vai se curvar até embaixo só para dar uma bofetada, né? Ou, por exemplo, como é que você vai dar um chute nele? Onde vai chutar? Onde estão as bolas dele agora? Meio confuso, não? Complicado, não? Talvez até até comecem a ter um pouco de medo dele, por que não? Um menino de cabeça para baixo não é brincadeira." (Pág. 81)
Devido à performance incomum, o público inicialmente não consegue compreender qual é a intenção do triste espetáculo, Dovale provoca um tremendo desconforto com a sua auto-exposição, uma espécie de vergonha alheia é criada em um ambiente cada vez mais tenso. No entanto, apesar do stand-up nada usual, os espectadores (e o perplexo leitor) continuam a assistir, não resistindo à tentação de espiar o inferno pessoal do comediante. Um livro surpreendente e de grande técnica literária que nos deixa todo o tempo em suspense e curiosos para conhecer os motivos de tanto sofrimento e de como o autor pretende chegar a um final convincente. Uma grande reflexão sobre os limites do humor e da dor provocada pela identificação com o que é humano em todos nós, este é o maior mérito de Grossman.
"Ele suspira, coça o cabelo ralo em suas têmporas. Certamente percebe que todo o espetáculo está desandando de novo. Ele está apoiado num galho que de repente ficou mais pesado do que a árvore inteira. O público também nota. As pessoas se entreolham e se agitam, inquietas. Entendem cada vez menos que coisa é essa da qual estão participando contra a vontade. Não tenho dúvida de que já teriam se levantado e ido embora há muito tempo, ou até mesmo enxotado Dovale do palco com assobios e gritos, não fosse essa tentação difícil de resistir: a tentação de espiar o inferno dos outros." (Págs. 85 e 86)

sábado, fevereiro 04, 2017

Svetlana Aleksiévitch - O fim do homem soviético

Svetlana Aleksiévitch - O fim do homem soviético - Editora Companhia das Letras - 600 Páginas - Tradução direta do russo de Lucas Simone - Lançamento no Brasil: 10/11/2016.

Assim como nos dois livros anteriores da escritora e jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura 2015, já publicados no Brasil pela Editora Companhia das Letras: Vozes de Tchernóbil e A guerra não tem rosto de mulher, aqui também a história deixa de ser uma ciência fria, que apenas reconstitui cronologicamente os fatos do passado, passando a assumir uma abordagem humanista, através de centenas de depoimentos de pessoas simples que foram, ao mesmo tempo, as vítimas e os carrascos das transformações políticas que vivenciaram na Rússia durante o longo e violento século XX, um povo que se acostumou a sobreviver (e não viver) à sombra de um ideal grandioso, sempre em períodos de guerra ou de preparação para a guerra. "Mesmo durante a paz, tudo na vida era próprio da guerra. O tambor batia, a bandeira esvoaçava... o coração saltava do peito... A pessoa não percebia sua escravidão, até amava sua escravidão."

A autora se concentra nas gerações de Stálin, Khruschóv, Brêjniev e Gorbatchóv, compondo, desta forma, um painel da ascensão e queda do império soviético: o regime de mão de ferro stalinista após a Segunda Grande Guerra, o período de Guerra Fria com as ameaças de uso de armas nucleares e o fim da ideologia comunista criada pelo Partido Bolchevique de Lênin, concluindo com o súbito epílogo representado pela dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a condução dos processos de abertura política, conhecidos no ocidente como Perestroika e Glasnost, processos mal conduzidos que acabaram levando à formação de um capitalismo selvagem e ainda mais sofrimento para o povo russo. Uma trajetória que a própria Sevetlana Aleksiévitch vivenciou e resume muito bem com esta afirmação: "ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Só nos ensinaram a morrer pela liberdade."

"Eu nasci soviética... Nossa avó não acreditava em Deus, mas acreditava no comunismo. Nosso pai esperou até o fim da vida a volta do socialismo. Já tinha caído o muro de Berlim, a União Soviética tinha desmoronado, e ele mesmo assim continuou esperando. Brigava constantemente com o melhor amigo, quando ele chamava a bandeira de trapo vermelho. Nossa bandeira vermelha! Escarlate! Meu pai lutou na guerra da Finlândia; ele nunca entendeu por que estavam lutando, mas era preciso ir, e ele foi (...) Em 1940 terminou a campanha da Finlândia. Os prisioneiros de guerra soviéticos foram trocados por finlandeses, que estavam sobre a nossa custódia. Foram ao encontro uns dos outros em colunas. Os finlandeses, quando chegaram ao lado deles, começaram a se abraçar, a apertar as mãos... Os nossos não foram recebidos assim, foram recebidos como inimigos. 'Irmãos! Meus queridos!', e correndo na direção de seus companheiros. 'Alto! Um passo para fora da formação, e nós atiraremos!' A coluna foi cercada por soldados com cães policiais, e eles foram levados para barracões preparados especialmente para aquilo. Ao redor dos barracões, havia arame farpado. Começaram os interrogatórios... 'Como você foi feito prisioneiro?', perguntou o investigador ao meu pai. 'Fui tirado de um lago pelos finlandeses.' 'Você é um traidor! Salvou a sua própria pele, não a pátria.' Meu pai também se sentia culpado. Tinham sido ensinados assim... Não houve nenhum julgamento Todos foram levados para a praça de armas, onde leram diante da formação a ordem: seis anos no campo de trabalhos por traição à pátria." - Parte da entrevista com Ielena Iúrievna S., terceira secretária do comitê distrital do Partido, 49 anos (Págs. 63 - 65)
Assim, entre os defensores e opositores do ideal comunista, a visão humana da escritora sobre a história do povo soviético, tantas vezes absurda e violenta, acaba transformando o texto em uma espécie de obra de ficção. Talvez porque as perguntas de Svetlana não se concentrem unicamente na história do socialismo, mas sim "sobre a infinita quantidade de verdades humanas (...) sobre o amor, o ciúme, a infância, a velhice", fazendo com que os depoimentos transbordem de emoção e ganhem uma perspectiva universal. Na verdade, em um país de dimensões continentais e com uma natureza hostil em muitas regiões, que transforma a vida diária em um desafio, nem sempre o povo russo do interior se dá conta das reviravoltas políticas em Moscou, constantemente ocupados com a própria sobrevivência, como podemos constatar no trecho da entrevista abaixo com uma cidadã soviética não identificada.
"O que eu posso lembrar? Vivo como todo mundo. Teve a perestroika... O Gorbatchóv... A carteira abriu a cancela: 'Você ouviu, não tem mais comunistas'. 'Como não?' 'Fecharam o Partido.' Ninguém atirou, nada. Agora dizem que foi uma grande potência e que perdemos tudo. Mas o que foi que eu perdi? Do mesmo jeito que eu vivia na minha casinha sem qualquer comodidade — sem água, sem esgoto, sem gás — eu, continuo vivendo. Trabalhei honestamente a vida inteira. Dei duro, me acostumei a dar duro. E sempre recebi meu dinheiro. Eu antes comia macarrão e batata, e agora continuo comendo. Uso o meu casaco soviético surrado. E temos cada neve aqui! (...) No inverno, ficamos cobertos de neve, o vilarejo inteiro fica debaixo de neve: as casas, o carros. Às vezes os ônibus ficam semanas sem passar. E lá na capital? Daqui até Moscou são mil quilômetros. Vemos a vida moscovita pela televisão, como se fosse um filme. Conheço o Pútin e a Alla Pugatchova... de resto, ninguém... Os protestos, as manifestações... Mas aqui nós continuamos a viver como antes. Tanto no socialismo como no capitalismo. Para nós, 'brancos' e 'vermelhos' são a mesma coisa. Temos que esperar a primavera. Plantar as batatas... (Longo silêncio) Tenho sessenta anos... Não vou à igreja, mas preciso conversar um pouco com alguém. Conversar sobre outras coisas... De como não tenho vontade de envelhecer, não quero de jeito nenhum envelhecer. E que pena é ter que morrer. Você viu o meu lilás? Eu saio de madrugada, ele brilha. Eu fico parada olhando. Vou só ali pegar algumas e fazer um buquê para você..." - Observações de uma cidadã (Págs. 593 - 594)
Vozes de Tchernóbil, A guerra não tem rosto de mulher e O fim do homem soviético

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Dez anos no Mundo de K

Detalhes de Adolphe Bouguereau, François Bouchert e Gabriel Schachinger
O tempo passa rápido quando estamos nos divertindo e assim se passaram dez anos no Mundo de K; escrevendo sobre livros, literatura, arte e cultura em geral. O blog foi criado em janeiro de 2007 com o objetivo de me manter próximo a estes assuntos, o que nem sempre era possível devido à minha atividade profissional ligada ao gerenciamento de projetos de engenharia. Desde então o espaço vem agregando novos amigos em torno da mesma ideia e hoje ainda continua empenhado em conhecer e divulgar a cultura. Obrigado a todos que acompanharam as postagens aqui ou nas redes sociais, fico muito feliz de saber que existem outros habitantes neste mundo. Preparei uma seleção para lembrar das listas mais visitadas e comentadas na última década, espero continuar contando com vocês nos próximos dez anos!

As 20 melhores citações sobre a mentira - Novembro 23, 2016;

As 20 melhores obras em castelhano dos últimos 25 anos - Novembro 06, 2016;

20 razões que explicam a permanência do livro impresso - Novembro 04, 2016;

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira - Novembro 02, 2016;

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa - Outubro 26, 2016;

Os 20 autores mais reclusos da literatura - Outubro 09, 2016;

20 conselhos para vencer a página em branco - Outubro 07, 2016;

Os 20 melhores sites literários na internet - Agosto 30, 2016;

20 conselhos criativos de grandes autores para escrever um bom romance - Agosto 19, 2016

20 livros para entender melhor o Rock - Julho 13, 2016;

20 coisas que todo leitor compulsivo detesta ouvir - Maio 02, 2016;

20 hábitos pouco educados de leitores compulsivos - Abril 26, 2016;

20 livros proibidos que moldaram a América - Abril 18, 2016;

20 autores de um único romance - Abril 07, 2016;

20 citações de Umberto Eco sobre o seu amor aos livros - Fevereiro 21, 2016;

20 citações para conhecer a sabedoria de Mia Couto - Fevereiro 16, 2016;

As 20 melhores distopias da literatura - Novembro 23, 2015;

As 20 melhores utopias da literatura - Novembro 21, 2015;

20 problemas que somente os apaixonados por livros podem entender - Novembro 13, 2015;

As 20 melhores Listas Literárias na Internet - Fevereiro 18, 2015;

Os 20 melhores romances do século XXI até o momento - Janeiro 31, 2015;

20 citações de escritores sobre a arte de escrever - Janeiro 20, 2014;

20 romances eróticos que se tornaram clássicos - Novembro 18, 2012;

20 Melhores Blogs de Fotografia pela Revista LIFE - Agosto 27, 2011;

20 citações sobre as dificuldades do amor na literatura - Agosto 15, 2011;

20 frases de Millôr Fernandes - Fevereiro 26, 2011;

20 citações sobre a passagem do tempo - Janeiro 12, 2011;

20 Momentos de Nelson Rodrigues - Setembro 11, 2010;

20 paradoxos de Oscar Wilde - Junho 13, 2010;

20 frases de Otto Lara Resende - Novembro 04, 2009;

20 traições famosas da literatura - Maio 15, 2009;

20 pensamentos desconcertantes (mas verdadeiros) de Woody Allen - Março 11, 2008;

20 classificações de livros segundo Italo Calvino - Fevereiro 20, 2008;

20 personagens mentalmente desequilibrados - Agosto 25, 2007;

20 personagens femininas da literatura mundial - Agosto 11, 2007.

terça-feira, janeiro 17, 2017

O poeta Roberto Bolaño


Roberto Bolaño (1953-2003) ficou mundialmente conhecido pelo seu monumental romance 2666, publicado postumamente na Espanha em 2004, o livro se transformou em um tremendo sucesso editorial após a tradução americana, lançada no mercado dos EUA em 2008, que elevou o autor chileno (e que todos achavam ser mexicano) à categoria de mito literário, comparado somente aos escritores da geração beat (ver resenhas do New York Times, Guardian e Independent). 2666 foi o vencedor do National Book Critics Circle Award nos Estados Unidos e eleito o livro do ano pela Time Magazine.

O fato é que a produção em prosa de Roberto Bolaño gerou grandes romances como o já citado 2666, Os Detetives SelvagensO Terceiro Reich, sem falar nos seus contos maravilhosos, caso da antologia Putas assassinas. Tantas boas histórias acabaram ofuscando o talento do autor como poeta. Um belo texto chamado "El Poeta Roberto Bolaño" foi escrito pela espanhola Ouvido García Valdés, outra grande poeta, e incluído no catálogo da exposição "Archivo Bolaño 1977 - 2003", por ocasião dos dez anos da morte do autor em 2013, uma produção do  Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona - CCCB. Traduzi abaixo uma parte deste texto, uma bonita reflexão sobre a vida e a poesia na obra de Bolaño.

O Poeta é um Perdedor
"Árvores: raiz, tronco, ramos, os círculos dos seus anos. No final da poesia publicada de Roberto Bolaño se encontra o poema 'Retrato em maio, 1994', no qual o poeta utiliza uma árvore como modelo — o mais antigo modelo, afinal de contas — para a vida. Pertence a 'Um final feliz', uma antologia breve que reúne poemas escritos nos primeiros anos da década de noventa, a época também de 'Minha vida nos tubos de sobrevivência', obra já marcada pela doença e sua sombra. Se a poesia de Bolaño utiliza sempre os materiais da própria vida (e a vida inclui a literatura), nesta zona são frequentes os que denomina autorretratos, assim como fotos isoladas do rolo de um filme existencial. Bolaño escreve para si mesmo e, ainda assim, tende a inserir um 'você' em sua poesia, que toma a figura de Lautaro, seu primeiro filho. Um diálogo com uma vida que está começando, e também a transmissão de um legado, que é a própria vida, agora que suspeita que esteja chegando ao final. Muitos anos antes deste retrato em maio, o autor encerrava um poema e um livro com as palavras 'Desejo que te amem e que não conheças a morte', e a mesma pulsão atravessa estes textos, com lucidez, sem engano nem autoengano.
O poema começa assim: 'Meu filho, o representante das crianças / nesta costa abandonada pela Musa, / hoje completa entusiasta e tenaz quatro anos. / Os autorretratos de Roberto Bolaño / voam fantasmas como as gaivotas na noite / e caem a seus pés como cai o orvalho / nas folhas de uma árvore, a representante / de tudo o que poderíamos ter sido, / fortes e enraizadas no que não muda. / Mas não tivemos fé ou tivemos em tantas outras coisas / finalmente destruídas pela realidade / (A Revolução, por exemplo, esse prado / de bandeiras vermelhas, campos de pastagens férteis) / que nossas raízes foram como as nuvens / de Baudelaire. E agora são os autorretratos / de Lautaro Bolaño os que dançam em uma luz / ofuscante'.
Sonho e fracasso, quadro em que se desenvolve cada geração, ligações que formam a cadeia humana. Ah, se fôssemos como as árvores, não aquelas abençoadas por serem 'apenas sensíveis', mas sim as poderosas árvores enraizadas no que não muda. Sonho e fracasso emolduram cada um dos livros de Bolaño, para quem o sonho primordial, o fundador, foi a poesia, e para quem o fracasso e a perda, que são os do transcurso e transformação da vida, tiveram sempre a forma inevitável da consciência.
A poesia, sim. O que faz necessário perguntarmo-nos sobre o lugar de Roberto Bolaño como poeta. Poeta e narrador, devemos dizer, mas não é comum ouvir falar dele como poeta; o narrador parece tê-lo dominado, ou, mais precisamente, o narrador o havia impedido de existir, porque na realidade o poeta Bolaño para o público e a crítica não parece haver chegado a existir. É certo que publicou antologias e livros de poesia. É verdade também que em 2007 apareceu 'A Universidade Desconhecida', título no qual Bolaño deixou reunida toda a sua obra poética desde 1978, e que ele trabalhou nessas pastas, conforme se entende da nota de Carolina López, sua esposa, até 1998; ou seja, entre os seus 25 e 45 anos. E ainda teríamos que destacar que Bolaño publicou em 2002 — na coleção 'Narrativas Hispânicas' da editora Anagrama — 'Amberes', livro que, sem dúvida, também figura incluído, com o título de 'Gente que se aleja', no conjunto de sua poesia. E que 'Amberes', de fato, foi recebido pela crítica como um romance; com certa reticência, isso sim, porque não foi fácil — segundo assinalaram então alguns leitores — aceitá-lo como romance.
Quando em julho de 2003, poucos dias antes de sua morte, Mónica Maristain lhe perguntou (em entrevista com o título de 'Estrela distante') se ele também via a sua obra 'como a viam seus leitores e críticos: acima de tudo 'Os detetives selvagens' e depois todo o resto', Bolaño respondeu: 'O único romance de que não me envergonho é 'Amberes', talvez porque continua sendo ininteligível. As críticas ruins que recebeu são minhas medalhas ganhas em combate, não em escaramuças com fogo simulado. O restante de minha 'obra', pois bem, são romances de entretenimento, o tempo dirá se algo mais. No momento me dão dinheiro, são traduzidas, me servem para fazer amigos que são muito generosos e simpáticos, posso viver, e bastante bem, da literatura, de forma que queixar-me seria muito ingrato. Mas a verdade é que não concedo muita importância a meus livros. Estou muito mais interessado nos livros dos demais'.
A literatura é uma paixão, desde já; e é uma indústria, dinheiro; pode ser também fome. Roberto Bolaño triunfou como narrador na indústria da literatura porque como poeta — poeta invisível como com frequência resultam os poetas — sentiu que estava destinado à fome. Eu o conheci quando Miguel Casado — ele próprio poeta e crítico, e meu parceiro há 33 anos —, em meados dos anos noventa, depois de ler "Estrela distante', lhe escreveu perguntando-lhe por sua poesia. Não lhe havia visto fazer isso antes, nem voltou a fazer depois.
Bolaño é um poeta. Que abominava — com razão — a 'horda' dos poetas, dos dois lados do Atlântico (E vi / suas carinhas satisfeitas, graves adidos culturais e corados / Diretores de revistas, leitores de editoriais e pobres / Revisores (...) os porcos frios, abside / Ou arranhão no Grande Edifício do Poder'), e que adorava os nomes de alguns verdadeiros poetas."Ouvido García Valdés (2003)

Recomendo visitar a página do jornal literário Rascunho com alguns poemas de Roberto Bolaño selecionados e traduzidos para o português por André Caramuru Aubert, poemas absurdamente lindos como os três que destaquei abaixo: 

          SEM TÍTULO 
          
          Esperas que desapareça a angústia 
          Enquanto cai a chuva sobre a desconhecida estrada 
          Onde te encontras 

          Chuva: apenas espero 
          Que desapareça a angústia 
          Estou dando tudo de mim

          POETA CHINÊS EM BARCELONA
           
          Um poeta chinês pensa ao redor 
          de uma palavra sem chegar a tocá-la, 
          sem chegar a olhá-la, sem 
          chegar a representá-la. 
          Atrás do poeta há montanhas 
          amarelas e secas varridas 
          pelo vento, 
          chuvas ocasionais, 
          restaurantes baratos, 
          nuvens brancas que se fragmentam. 

          OS CÃES ROMÂNTICOS
          
          Naquele tempo eu tinha vinte anos 
          e estava louco. 
          Havia perdido um país 
          mas havia ganhado um sonho. 
          E se tinha esse sonho 
          o resto não importava. 
          Nem trabalhar, nem rezar, 
          nem estudar de madrugada 
          junto aos cães românticos. 
          E o sonho vivia no vazio de meu espírito. 
          Uma morada de madeira, 
          na penumbra, 
          em um dos pulmões do trópico. 
          E às vezes me revirava dentro de mim 
          e visitava o sonho: estátua eternizada 
          em pensamentos líquidos, 
          um verme branco se retorcendo 
          no amor. 
          Um amor desbocado. 
          Um sonho dentro de outro sonho. 
          E o pesadelo me dizia: crescerás. 
          Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto 
          e esquecerás. 
          Mas naquele tempo crescer teria sido um crime. 
          Estou aqui, eu disse, com os cães românticos 
          e aqui eu vou ficar.
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