segunda-feira, março 23, 2015

Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao


Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao - 339 páginas - Editora Riverhead Books - lançamento 2007 (publicado no Brasil pela Editora Record em 2009 com o título de  "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", tradução de Flávia Rössler).

Este livro do escritor dominicano Junot Díaz foi o vencedor dos prêmios: National Book Critics Award de 2007Pulitzer de Ficção de 2008 e ainda escolhido recentemente pelo site de cultura da BBC como o melhor romance do século XXI até o momento. O autor conta a saga de três gerações de uma família imigrante da República Dominicana vivendo nos EUA, cujo último representante é o nosso protagonista adolescente Oscar de León, ou Oscar Wao como é chamado de gozação pelos colegas. Na verdade, ele é um típico "nerd" que sofre todo o tipo de perseguições na escola devido à sua obesidade e gosto bizarro por livros e filmes de ficção científica, quadrinhos e games. O sonho de Oscar é perder a virgindade, tarefa praticamente impossível considerando o seu isolamento e falta de jeito com as mulheres. Ele mora com a mãe Belícia e a irmã mais velha, Lola, em um subúrbio de New Jersey.

O melhor do romance, no entanto, não está nas desventuras sociais e amorosas de Oscar, mas sim na história da família que se confunde com os anos de terror da ditadura do General Rafael Leónidas Trujillo que governou a República Dominicana entre 1930 e 1961. A origem da maldição caribenha que assola a família, chamada de "fukú" (inclusive causa dos problemas do nosso anti-herói, na opinião do próprio) tem início quando o médico Abelard Luis Cabral, avô de Oscar, é perseguido por Trujillo ao se recusar a entregar as filhas para satisfazer os desejos sexuais do ditador, prática normal na época. Ele é preso, torturado e perde todas as suas propriedades, assim como a mulher e as duas filhas. Belícia, a terceira filha sobrevivente é vendida como escrava, mas acaba sendo salva por uma tia (La Inca) e, depois de passar por vários problemas, inclusive um tórrido caso amoroso com um gangster, casado com ninguém menos que a irmã de Trujillo (mais um evento provocado pelo "fukú"), foge para os EUA onde vem a se tornar a mãe de Oscar e Lola.

Narrado em terceira pessoa por Yunior, colega de quarto de Oscar e namorado de Lola e misturando gírias e palavrões em inglês e espanhol, o livro é um desafio para ser lido na edição original em inglês (Junot Díaz escreve em inglês e não em espanhol), mas no final muito compensador porque esta linguagem confusa reflete a realidade do imigrante hispânico, dividido entre duas culturas. O romance de Díaz consegue apresentar algo de novo no cenário da literatura latino-americana, descobrindo novas variações no caminho aberto por Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa.

quinta-feira, março 19, 2015

Como escolher as suas próximas leituras


Considerando a interminável (felizmente) lista de romances a serem lidos, muitas vezes encontramos alguma dificuldade em escolher nossas próximas leituras entre tantas opções disponíveis no mercado editorial, seja no caso de novos lançamentos, novas traduções ou de clássicos já consagrados. Alguns sites podem ser úteis para os leitores compulsivos que se martirizam sem saber como definir seus futuros livros, ou simplesmente uma forma divertida de passar o tempo. O inconveniente é que os bancos de dados são constituídos, em sua maioria, por autores em língua inglesa.

What Should I Read Next? - Basta inserir o nome do autor e/ou título em inglêspara receber sugestões sobre outros livros de estilo semelhante. Clicando no botão info/buy ao lado de cada recomendação o usuário será direcionado para o site da Amazon com sinopse, resenhas e preço.

Whichbook - À partir da escolha de quatro categorias entre doze disponíveis, o visitante define as suas preferências e o site recomenda opções de leitura com base na seleção. Como alternativa podem ser escolhidas também caracteristicas dos personagens.

YourNextRead - Este site apresenta uma plataforma mais interativa porque oferece até oito livros similares ao romance escolhido e o usuário tem a opção de acrescentar um ou mais autores e/ou romances de sua preferência. Os livros também estão associados a links para a Amazon.

domingo, março 15, 2015

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem - 204 Páginas - Editora Rocco (lançamento original 1943).

Este primeiro romance de Clarice Lispector (1920 - 1977), escrito entre março e novembro de 1942, ainda hoje é considerado uma obra revolucionária na literatura brasileira, uma nova forma introspectiva de contar histórias, através da alma dos personagens e da própria autora. Sim, porque o coração selvagem de Joana, nossa protagonista inadaptada ao meio social e familiar, amoral e até mesmo cruel como uma "víbora", mas ao mesmo tempo ingênua em sua sincera busca pela felicidade, tem muito do coração da própria Clarice, ucraniana refugiada aos dois meses de idade e naturalizada brasileira, mas sempre uma eterna estrangeira no Brasil e em todos os países pelos quais passou.

Ainda menina, Joana surpreende sua professora com a seguinte pergunta: "O que é que se consegue quando se fica feliz?" e repete, devido à incompreensão da professora que não sabia como responder: "depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?", "Ser feliz é para se conseguir o quê?". A trajetória de vida de Joana desde a infância órfã, criada pela tia e depois em um internato até se casar com Otávio não parece esclarecer a questão e mesmo a opinião da própria Joana adulta sobre o casamento é bastante peculiar para a época, como neste diálogo entre ela e Lídia, amante de Otávio:
" Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que ainda tenho a certeza de que não casei... Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão.  Meu Deus!  não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conserva porque se arrasta consigo outra pessoa. Há alguém que sempre a observa, que a perscruta, que acompanha todos os seus movimentos. E mesmo o cansaço da vida tem certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada  eu pensava. Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro...Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do  leito comum, da mesa comum, preparando e ameaçando a morte comum. Eu sempre dizia: nunca."
Um livro complexo e fundamental que se deve reler por muitas vezes, como uma espécie de oração para um Deus que não é o Deus humanizado das religiões, mas o Deus Natureza de Spinoza que está além do bem e do mal, como Joana (Clarice) demonstra nesta bela passagem que simboliza o seu renascimento após a separação de Otávio:
"(...) eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro!, o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."

sexta-feira, março 06, 2015

Yasutaka Tsutsui - Hell

Yasutaka Tsutsui - Hell - 199 páginas - editora Alma Books (lançamento 2008) - tradução de Evan Emswiler.

O inferno imaginado por Yasutaka Tsutsui é um lugar muito parecido com o mundo real, tanto assim que os personagens que chegam por lá nem parecem perceber que já não pertencem ao mundo dos vivos, exceto pela ausência de emoções e sentimentos negativos que costumavam acumular em suas existências passadas.

Em nenhum momento fica claro para o leitor quais os critérios, religiosos ou morais, que definem a passagem para este lugar onde "convivem" gangsters da Yakuza, homens de negócios, atores ou simplesmente motoristas de taxi. Os personagens têm a capacidade de ler as mentes uns dos outros e presenciar momentos de suas vidas anteriores. Uma idealização do mundo das sombras sem a conotação de punição e sofrimento de outras obras da literatura. Na verdade, muito mais um purgatório no sentido ocidental do termo.

Nobutero, Yuzo e Takeshi são três amigos que dividem um passado comum, um acidente decorrente de uma brincadeira na infância, que provocou a invalidez de Takeshi. Os três, após muitos anos de afastamento, irão se reencontrar no inferno, um lugar onde o tempo e espaço tem um significado diferente.

Yasutaka Tsutsui é muito popular no Japão como autor de ficção científica tendo, no entanto, apenas dois outros livros traduzidos para o inglês: “Paprika” e “Salmonella Men on Planet Porno”. O fino humor negro de Tsutsui e a sua tendência à sátira social, fazem com que seja comparado à Kurt Vonnegut pela resenha do jornal inglês Guardian, nada mal para um autor praticamente desconhecido no ocidente.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

As 20 melhores Listas Literárias na Internet

Detalhes de Adolphe Bouguereau, François Bouchert e Gabriel Schachinger
As Listas são uma forma divertida de fazer descobertas e praticamente uma fixação para os blogs de literatura, mas a questão principal é como ser objetivo e imparcial ao escolher os livros mais importantes entre tantos estilos, épocas e autores. Bem, se você estiver procurando um maior conhecimento na área de literatura ou simplesmente uma boa recomendação de leitura, este é o lugar certo para iniciar a sua busca. Um serviço de utilidade pública.

(01) Guardian - The 100 greatest novels of all time: The list
 
A lista do jornal inglês The Guardian, publicada em 2003, já se tornou referência na internet e destaca os maiores romances da literatura universal de todos os tempos com links para matérias interessantes do próprio Guardian relacionadas a cada livro, imperdível e um bom ponto de partida para encontrar clássicos de Cervantes à Philip Roth. Em 2009 esta lista foi ampliada para 1.000 novels everyone must read - the definitive list.

(02) The Telegraph - 100 novels everyone should read

O jornal Telegraph, maior concorrente do Guardian, não poderia ficar para trás e lançou a sua própria seleção top 100 da literatura universal. Uma característica curiosa é o resumo de somente uma frase para cada romance, jamais conseguiria tamanho poder de síntese, como por exemplo a definição do romance número 21: "1984 de George Orwell" - "No qual o Big Brother é ainda mais sinistro do que a série de TV inspirada nele".

(03) Modern Library - 100 Best Novels

Outra lista famosa e muito útil, divulgada em 1998 nesta matéria do New York Times, tem o foco restrito em romances na língua inglesa, escritos no século XX. Ulysses de James Joyce foi escolhido como o mais importante romance do século pelos editores da Modern Library e mais de 200.000 leitores que votaram online.

(04) Time - 100 best English language Novels

Mais uma lista somente de obras escritas na língua inglesa e publicadas à partir de 1923, ano de fundação da revista Time. Esta data de corte deixou de fora algumas obras importantes como Ulysses, publicado em 1922.

Esta lista de 2009 pretende ter um caráter geral (Meta-List), mas acaba confundindo um pouco o propósito de promover a literatura uma vez que compara a Bíblia (41º colocada) com Guerra e Paz de Tolstoi (1º colocado). A própria Newsweek discute neste artigo os méritos e dificuldades da lista.

(06) Le Monde - Les 100 livres du siècle

A escolha do famoso jornal Le Monde, como não poderia deixar de ser, valoriza o sentimento nacionalista. Na relação dos dez primeiros colocados, temos três autores franceses: "O estrangeiro" de Alber Camus (2º), "Em busca do tempo perdido" de Marcel Proust (3º) e "O pequeno príncipe" de Antoine de Saint-Exupérry (10º).

(07) Telerama - Les 10 livres préférés de 100 écrivains francophones

A revista francesa Telerama decidiu considerar na sua pesquisa apenas autores nacionais e perguntou quais os dez livros preferidos de 100 escritores franceses. O autor mais citado foi Marcel Proust (33 vezes), surpreendentemente seguido por William Faulkner (24).

(08) El Pais - Favorite Books of 100 Spanish Authors

O jornal espanhol El Pais, por sua vez, solicitou a 100 escritores de língua espanhola que relacionassem os dez livros que "mudaram a sua vida" na literatura universal. Vale a pena conhecer as escolhas de Carlos Fuentes, Juan Gelman, Alberto Manguel e Javier Marías, entre outros.

(09) Revista Bravo - Os 100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

A saudosa revista cultural Bravo é a única representante brasileira e a sua escolha foi baseada nos livros do crítico Harold Bloom, além das listas da Time e da Modern Library, sendo que a decisão final ficou a cargo da redação da Bravo e outros colaboradores. Machado de Assis ficou na posição 59 com "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
 
(10) Project Gutenberg - Top 100 List

O Projeto Gutenberg disponibiliza ebooks gratuitos para download em diversos formatos e em diferentes idiomas somente de obras em domínio público. A lista Top 100 de livros com mais solicitações de download é um indicativo interessante, mas obviamente não muito útil quando se procuram autores contemporâneos.

(11) Harvard Book Store - Top 100 Books

A seleçao da Livraria Harvard valoriza a literatura universal, mas é claro com uma queda pela língua inglesa. É uma lista bem atualizada porque considera autores modernos como Haruki Murakami (triplamente citado: 5º, 43º e 51º), Junot Diaz (62º e 87°) e David Foster Wallace (89º) que acabaram melhor colocados do que Homero (92º), Valter Hugo (97º) e Walt Whitman (100º).

(12) English Pen - The Bigger Read list

A organização English Pen preparou uma lista de clássicos da literatura universal com livros em prosa e poesia, não escritos na língua inglesa. Não foi definida ordem de colocação, a apresentação considera apenas o critério alfabético.
 
(13) Boston Public Library - 100 Most Influential Books of the Century

A biblioteca pública de Boston imaginou uma lista mais ambiciosa ao extrapolar a área de literatura, tentando reunir os 100 livros mais influentes do século. Você encontrará títulos sobre política, ciência e até mesmo culinária.

(14) Amazon - 100 Books to read in a Lifetime
 
Apesar de desconfiarmos do caráter comercial de uma lista preparada pela Amazon, fica a citação como curiosidade. Talvez mais útil e eficiente seja o mecanismo de recomendações de títulos da Amazon com base nas suas escolhas de compras anteriores.

(15) Goodreads - Top 100 Literary Novels of all time

O site para leitores Goodreads conseguiu uma lista bastante equilibrada entre autores clássicos e contemporâneos nesta selação dos maiores romances de todos os tempos. Você encontrará indicações variando de Thomas Pynchon (73º) a Jane Austen (1º) ou de Margaret Atwood (69º) a Alexandre Dumas (10º).

(16) Norwegian Book clubs - Top 100 Works in World Literature

Um site bem organizado onde foram selecionados 100 autores com livros de 54 países, considerados como "os melhores e mais centrais trabalhos da literatura mundial". A relação é apresentada em ordem alfabética de autores, mas os organizadores revelaram que Don Quixote recebeu 50% mais votos do que qualquer outro livro.

(17) National Geographic - The 100 Greatest Adventure Books of All Time

Uma outra curiosidade literária de destaque é a lista preparada pelos editores da conceituada revista National Geographic. O foco da seleção é na área de aventuras. Posso recomendar "South" do explorador inglês Ernest Shackleton (15º colocado), lançado em 1919, é um diário que impressiona como exemplo de sobrevivência e força de vontade.

(18) The American Scholar - 100 Best American Novels, 1770 to 1985

A revista americana American Scholar escolheu os melhores romances escritos nos EUA de 1770 a 1985. A lista é apresentada em ordem cronológica e funciona como uma boa  aula de literatura de Edgar Allan Poe até Don DeLillo.

(19) Book Riot - The 100 Greatest American Novels, 1893 - 1993

O site Book Riot é sempre uma excelente fonte de informações e curiosidades para leitores. Recomendo seguir as postagens periodicamente. Esta lista também é focada somente em autores nos EUA, mas considerando o período de 1893 a 1993 e apresentada em ordem cronológica.
 
(20) Book Riot - The 10 Best Top 100 Book Lists

E para terminar esta outra publicação da Book Riot que relaciona as dez melhores Top 100 listas de literatura. Espero que se divirtam consultando as listas e, principalmente, lendo os livros que é definitivamente a melhor parte.

sábado, fevereiro 14, 2015

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go - 288 páginas - Editora Vintage (2005) - Publicado no Brasil como: "Não me Abandone Jamais" pela Companhia das Letras (leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora brasileira).
 
Este sexto romance de Kazuo Ishiguro, incluído na short list do Man Booker Prize de 2005 e adaptado para o cinema em 2010, é narrado em primeira pessoa por Kathy H. que relembra passagens de sua vida desde a infância no internato de Hailsham, em algum lugar do interior da Inglaterra, que está longe de ser uma escola normal, como descobrimos lentamente à medida que avançamos na descrição ingênua de Kathy do seu cotidiano com os amigos Ruth e Tommy.

Os alunos em Hailsham não são verdadeiramente alunos, mas sim futuros doadores de órgãos, clones gerados e mantidos pela sociedade unicamente para esta finalidade, enquanto aguardam atingir a idade madura para iniciar o triste destino de doações e "completarem" o seu ciclo. A sequência de cirurgias e recuperações terá quantidade e extensão dependentes unicamente da resistência de cada doador. Na verdade, Ishiguro não está preocupado em detalhar a base científica dos procedimentos genéticos envolvidos nos processos de clonagem e doação, mas sim nos conflitos emocionais dos personagens ao se deparar com a fatalidade da sua situação no mundo.

Kathy exerce por muitos anos a função de "cuidadora", ou seja, ela ajuda na recuperação física e psicológica dos "doadores" após as cirurgias até que seja convocada a iniciar o seu próprio ciclo de doações, o que parece um destino ainda mais cruel porque ela presenciará as etapas finais dos pacientes de que está cuidando, sendo alguns antigos companheiros de Hailsham, fazendo com que o seu futuro seja solitário e sem esperanças.

A forma como são criados, isolados e instruídos nos princípios limitados de suas curtas existências, faz com que os personagens tenham uma postura conformista quanto ao fato de não poderem leva suas vidas como seres humanos normais, tanto em termos de longevidade quanto de realizações (por exemplo, eles não podem ter aspirações profissionais ou pretensões de formar uma família com filhos).

Kazuo Ishiguro imaginou uma distopia e um argumento que bem poderiam enquadrar o seu romance no gênero de ficção científica, mas seria uma classificação muito simplista para o livro, sem querer desmerecer o gênero. "Não me Abandone Jamais" é perturbador demais na reflexão que provoca sobre a existência e na descrição detalhada de uma prática que, assustadoramente, não está tão distante assim das "conquistas" científicas da nossa época. Um romance que incomoda.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Finalistas do Folio Prize 2015


Divulgada a shortlist de oito romances do Folio Prize 2015, escolhidos entre 80 livros em língua inglesa publicados no ano passado na Grã-Bretanha por autores de diversas nacionalidades, independente da forma ou gênero (romance, conto ou poesia), conforme o regulamento da organização. O vencedor receberá um prêmio de 40.000 libras (65.000 dólares) na cerimônia em Londres, em 23 de março.

10:04 - Ben Lerner (Editora Granta)

All My Puny Sorrows - Miriam Toews (Editora Faber)

Dept. of Speculation - Jenny Offill (Editora Granta)

Dust - Yvonne Adhiambo Owuor (Editora Granta)

Family Life - Akhil Sharma (Editora Faber)

How to Be Both
- Ali Smith (Editora Hamish Hamilton)

Nora Webster - Colm Tóibín (Editora Viking)

Outline - Rachel Cusk (Editora Faber)

A Folio Society, patrocinadora do evento, é uma famosa editora de livros ilustrados. Ano passado o livro premiado foi a antologia de contos "Tenth of December" de George Saunders (ver aqui postagem do Mundo de K), publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras como Dez de Dezembro.

sábado, fevereiro 07, 2015

A Livraria Lello da cidade do Porto resiste ao tempo

 
A livraria Lello e Irmão da cidade do Porto continua resistindo à era dos livros digitais e compras online, provando que ainda existe lugar para o livro impresso e a livraria independente tradicional. Em janeiro deste ano foi escolhida pela revista Time como uma das livrarias mais interessantes do mundo (ver a seleção em World´s coolest bookstores). Em 2010 foi eleita pelo guia de viagens Lonely Planet como a terceira mais bonita do mundo (ver seleção completa aqui) em 2008 entrou na lista do jornal inglês Guardian.

A matéria completa da revista Time descreve assim a livraria Lello (tradução do jornal português Observador):
“A fachada neogótica desta livraria antiga não transparece a opulência interior: madeira talhada, colunas douradas, tetos ornamentados, e uma escada vermelha deslumbrante iluminada por um vitral. A livraria centenária apresenta mais de 100 mil títulos diferentes em várias línguas, incluindo traduções para inglês de talentos portugueses como Fernando Pessoa e José Saramago. Também vai encontrar revistas, CD’s, livros antigos, e uma grande variedade de publicações sobre o próprio Porto”.

sábado, janeiro 31, 2015

Os 20 melhores romances do século XXI até o momento


O site de Cultura da BBC solicitou a críticos literários do New York Times, Time Magazine, Newsday, The Millions e outras publicações especializadas que escolhessem os melhores romances publicados em inglês desde 01 de Janeiro de 2000. Os críticos indicaram 156 romances e o site da BBC divulgou a lista dos 12 primeiros colocados, sendo posteriormente ampliada para os top 20 em função de pedidos dos leitores.
 
O romance "The Brief Wondrous Life of Oscar Wao", prêmio Pulitzer 2008, do escritor dominicano radicado nos Estados Unidos, Junot Diaz, foi o melhor colocado na avaliação da BBC, ver relação completa abaixo e os respectivos links para as editoras reponsáveis pelos lançamentos no Brasil com as sinopses, boas sugestões para suas próximas leituras.

(01) Junot Díaz, The Brief Wondrous Life of Oscar Wao (2007)
No Brasil: “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao” – Editora Record

(02) Edward P Jones, The Known World (2003)
No Brasil: “O Mundo Conhecido” – Editora Record / José Olympio

(03) Hilary Mantel, Wolf Hall (2009)
No Brasil: “Wolf Hall” – Editora Record

(04) Marilynne Robinson, Gilead (2004)
No Brasil: “Gilead” – Editora Ediouro / Nova Fronteira

(05) Jonathan Franzen, The Corrections (2001)
No Brasil: “As Correções” – Editora Companhia das Letras

(06) Michael Chabon, The Amazing Adventures of Kavalier and Clay (2000)
No Brasil: “As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay” – Editora Companhia das Letras

(07) Jennifer Egan, A Visit from the Goon Squad (2010)
No Brasil: “A Visita Cruel do Tempo” – Editora Intrínseca

(08) Ben Fountain, Billy Lynn’s Long Halftime Walk (2012)
No Brasil: Sem Editora até o momento

(09) Ian McEwan, Atonement (2001)
No Brasil: “Reparação” – Editora Companhia das Letras
(Ler aqui resenha do Mundo de K).

(10) Chimamanda Ngozi Adichie, Half of a Yellow Sun (2006)
No Brasil: “Meio Sol Amarelo” – Editora Companhia das Letras

(11) Zadie Smith, White Teeth (2000)
No Brasil: “Dentes Brancos” – Editora Companhia das Letras

(12) Jeffrey Eugenides, Middlesex (2002)
No Brasil: “Middlesex” – Editora Companhia das Letras

(13) Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah (2014)
No Brasil: “Americanah” – Editora Companhia das Letras

(14) WG Sebald, Austerlitz (2001)
No Brasil: “Austerlitz” – Editora Companhia das Letras

(15) Elena Ferrante, My Brilliant Friend (2012)
No Brasil: "L’Amica Geniale" – Editora Biblioteca Azul (no prelo)

(16) Alan Hollinghurst, The Line of Beauty (2005)
No Brasil: “A Linha da Beleza” – Editora Ediouro / Nova Fronteira

(17) Cormac McCarthy, The Road (2007)
No Brasil: “A Estrada” – Editora Alfaguara

(18) Zadie Smith, NW (2013)
No Brasil: “NW” – Editora Companhia das Letras

(19) Roberto Bolaño, 2666 (2008)
No Brasil: “2666” – Editora Companhia das Letras
(Ler aqui resenha do Mundo de K).

(20) Shirley Hazzard, The Great Fire (2004)
No Brasil: “O Grande Incêndio” – Editora Companhia das Letras

terça-feira, janeiro 27, 2015

Miguel Delibes - El Camino

Miguel Delibes - El Camino - Editora Planeta de Libros, Selo Austral - 172 páginas - Publicação 2010 (clique aqui para ler um trecho disponibilizado pelo jornal El Pais).

Miguel Delibes (1920 - 2010) é um dos autores mais importantes da literatura contemporânea da Espanha, vencedor dos prêmios Príncipe de Astúrias em 1982 e Miguel de Cervantes em 1993, para citar somente alguns, mas ainda assim ignorado pelas editoras brasileiras, fato que só pode ser explicado pelo nosso isolamento cultural em relação à língua espanhola.

Este seu terceiro romance, lançado originalmente em 1950, é ambientado em uma pequena vila e narrado do ponto de vista do menino Daniel el Mochuelo (o coruja) de apenas 11 anos que, por decisão do pai, deverá partir para a cidade grande para estudar e progredir. Daniel passa a noite em claro lembrando as aventuras que viveu com os amigos Roque el Moñigo (o bosta) e Germán el Tiñoso (o sarnento), assim como os curiosos eventos do povoado que são encadeados de forma aleatória na sua memória e onde o autor desfila uma galeria de personagens inesquecíveis como as irmãs Guindillas, guardiãs da moral e bons costumes, Don José, o santo padre, Quino el manco e muitos outros.

O pequeno Daniel Mochuelo não consegue se conformar com o caminho imposto pelo pai em nome do progresso. Ele entende que a verdadeira felicidade está em permanecer ao lado da família, da natureza exuberante do seu vale e, principalmente, nunca abandonar os amigos com os quais mantem uma relação de confiança mútua que somente é possível nesta idade. Talvez a explicação para a veracidade dos personagens deste romance esteja nas palavras do próprio autor, quando declarou que seus personagens são, em boa parte, sua própria biografia.

Miguel Delibes soube dosar o seu texto com passagens que alternam humor e sensibilidade, criando um clássico emocionante porque nos faz lembrar da inocência perdida da infância, dos valores simples da vida e até mesmo da certeza da morte. Simplesmente um livro que podemos comparar com outras obras universais tais como, olha só que responsabilidade, Os Meninos da Rua Paulo de Ferenc Molnár e Huckleberry Finn de Mark Twain.

sábado, janeiro 24, 2015

blog de escritor - 2 mil toques


Mais um site interessante para a série "blog de escritor" (ler os anteriores de Marcelino Freire, Michel Laub e Joca Reiners Terron). O 2 mil toques foi criado pelo publicitário e escritor André Timm com a finalidade de apresentar em cada postagem as rotinas e processos de trabalho de escritores, normalmente jovens e iniciantes, embora alguns nem tão iniciantes assim, como: Antônio Xerxenesky, Carol Bensimon ou Flavio Cafiero.

Infelizmente, as razões para não escrever são maiores e mais concretas do que as razões para escrever, como André Timm bem descreve neste texto. Logo, conhecer as técnicas de criação de outros escritores pode resultar em sugestões para vencer as barreiras de falta de tempo, inspiração e outras dificuldades comuns do ofício.
 
Outra característica do site é a forma como cada convidado, em seu próprio estilo, transforma as postagens em criação literária, fazendo com que a leitura seja sempre um prazer para o visitante curioso ou os profissionais da área. Uma boa ideia que vale a pena conhecer e divulgar.
 
Dados biográficos: André Timm é natural de Porto Alegre. Em 2010, recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura por seu primeiro livro de contos, Insônia, publicado pela Design Editora em 2011. Em 2014, teve parte de seu trabalho selecionado para integrar a revista Machado de Assis, uma publicação da Biblioteca Nacional que tem como objetivo divulgar autores brasileiros para o mercado editorial internacional. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Prêmio Sesc de Literatura 2015


As inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2015, categorias contos e romance, estão abertas até o dia 01 de março. Os trabalhos deverão ser inéditos, inclusive na internet, e as inscrições poderão ser feitas através de formulário online. Será permitida a participação de escritores brasileiros e estrangeiros, residentes no Brail, com mais de 18 anos.

Uma excelente oportunidade para os escritores iniciantes conseguirem divulgação para os seus trabalhos. Os textos serão avaliados por uma comissão composta de escritores, jornalistas, críticos literários e especialistas em literatura e o resultado será divulgado em julho. O escolhido de cada categoria terá sua obra publicada e distribuída comercialmente pela editora Record, com uma tiragem inicial mínima de 2.000 exemplares.

Cada vencedor assinará contrato de publicação com a editora, que ficará responsável pelos termos de edição. O Sesc irá adquirir um mínimo de 1.000 exemplares da primeira edição de cada obra, para utilização em ações culturais e inserção no acervo das bibliotecas da instituição. Para consultar o Edital completo clicar aqui. Sigam os links para conhecer o site do Prêmio Sesc de Literatura 2015 e o blog da organização.

sábado, janeiro 17, 2015

Haruki Murakami - The Elephant Vanishes

Haruki Murakami - The Elephant Vanishes - 336 páginas - Editora Vintage - Tadução de Alfred Birnbaum e Jay Rubin - Lançamento 2003.

Esta antologia, infelizmente ainda não lançada no Brasil, reúne dezessete contos de Haruki Murakami escritos entre 1983 e 1990 e publicados separadamente em revistas literárias como a The New Yorker. As narrativas, no melhor estilo kafkiano, em sua maioria ligadas a temas fantásticos ou surrealistas, mas sempre com um toque de humor, ocorrem em mundos paralelos, espécie de brechas ao disciplinado cotidiano da classe média nas grandes cidades japonesas. Normalmente escritos em primeira pessoa e ritmo acelerado, os contos despertam o interesse desde o primeiro parágrafo, deixando aquela sensação de pena, bem conhecida de todos os leitores, quando chegamos ao final de um bom livro e temos que retornar ao mundo real.

No conto de abertura, The Wind-up Bird and Tuesday´s Women, o nosso protagonista está cozinhando spaghetti com música de fundo de Rossini, interpretado pela Orquestra Sinfônica de Londres (sempre as referências ocidentais típicas de Murakami), quando é perturbado pela ligação telefônica de uma mulher desconhecida que pede apenas dez minutos do seu tempo. Assim tem início um estranho pesadelo que passa pela busca de Noboru Watanabe, o gato desaparecido da sua esposa, único personagem com nome, e o encontro com uma sensual garota nos jardins escondidos dos fundos das casas da vizinhança. Este conto foi adaptado em 1994 como capítulo inicial do romance The Wind-up Bird  Chronicle (também não lançado no Brasil).

Em "The Second Bakery Attack", publicado originalmente na revista Playboy em 1985, um casal sente uma espécie de fome desesperadora e decide praticar um roubo em uma padaria, não pelo dinheiro, mas simplesmente para aplacar a fome. No entanto, depois de dirigir por vários bairros de Tóquio, como Roppongi e Shibuya, encontram todo o tipo de pessoas e lojas, menos uma padaria e, na falta de tal estabelecimento, munidos de metralhadora e máscaras, decidem assaltar uma filial do McDonald's. Um argumento que muito bem poderia ser utilizado como roteiro para um filme de Tarantino.

Murakami abre espaço para o romantismo no conto "On seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning" onde um encontro casual em uma bela manhã de abril, nos movimentados cruzamentos das ruas do bairro de Harajuko em Tóquio, define o que se poderia chamar de destino quando o protagonista cruza com uma mulher de aparência nada especial, mas que ele sabe ser o seu tipo de garota 100% perfeita.

Em "Sleep" o autor imagina o que acontece quando uma mulher não consegue dormir por dezessete dias seguidos e começa a passar as noites em um mundo isolado da vida aparentemente feliz que levava com o marido e filho, relendo os romances preferidos da juventude como Ana Karenina, comendo chocolate e bebendo conhaque. As consequências da insônia, à princípio, não parecem afetar a sua vida durante o dia, até o momento em que ela começa a sentir aversão pelo marido e percebe que talvez a morte não seja tão parecida com o sono, como pensava anteriormente.

Em "The Little Green Monster" uma mulher é surpreendida por uma estranha criatura de escamas verdes que surge das profundezas da terra em seu jardim, mas logo a situação se inverte quando ela percebe que o pequeno monstro não quer o seu mal, muito pelo contrário, e percebemos que nada é o que parece, principalmente lendo um livro de Murakami.

O conto final, The Elephant Vanishes, que empresta o título à antologia, apela mais uma vez para uma situação absurda quando um elefante e seu tratador desaparecem misteriosamente, sem deixar pistas, de um pequeno zoológico nos subúrbios de Tóquio. O nosso protagonista acompanha o caso pelos jornais e não concorda que o elefante tenha fugido como foi publicado, mas sim que tenha simplesmente evaporado. Ele desenvolve uma fixação com este evento que afetará a sua vida.

Existe uma versão deste livro disponível para português publicada em Portugal com o título de "O elefante Evapora-se" pela Editora Casa das Letras, mas sugiro se arriscar mesmo nesta tradução para o inglês. Os fãs de Murakami não se arrependerão, posso garantir.

segunda-feira, novembro 24, 2014

Banana Yoshimoto - The Lake

Banana Yoshimoto - The Lake - 192 páginas - Editora Melville House - Lançamento: 2012 - Tradução Michael Emmerich - Lançamento original no Japão: 2005.

Neste seu último romance traduzido para o inglês, Banana Yoshimoto volta a trabalhar com delicadeza temas como amor e morte ao utilizar uma história romântica pouco convencional, narrada do ponto de vista da jovem Chihiro que se muda para Tóquio de forma a superar os momentos difíceis da doença terminal que levou à morte da mãe e iniciar uma carreira como artista gráfica. A protagonista sente algum alívio pela possibilidade do anonimato em uma cidade grande e a chance de iniciar uma vida normal já que na sua infância os pais não puderam ter um casamento tradicional devido ao preconceito da sociedade local e da reação da conceituada família do pai contra a mãe que era proprietária de um bar em uma cidade do interior.

Chihiro estabelece contato casual com o estranho Nakajima que também perdeu a mãe recentemente e, além disso, esconde um passado misterioso, aparentemente marcado por um trauma psicológico. Ambos se apoiam mutuamente para superar as próprias perdas e passam a morar juntos no apartamento de Chihiro como amigos. O cotidiano dos dois é pouco comum porque Nakajima não consegue se relacionar sexualmente e vive em um mundo paralelo, inacessível a ela.

A identificação principal do casal é a própria inadaptação à sociedade japonesa que os cerca mas, no entanto, à medida que o relacionamento se fortalece com base na confiança crescente e que Chihiro e Nakajima desenvolvem seus projetos profissionais, ela sendo contratada para pintar um mural que chama a atenção da mídia para impedir a demolição de uma escola e ele estudando o seu complicado doutorado, relacionado com pesquisa genética, nasce um forte vínculo entre eles, principalmente da parte de Chihiro.

Com base nesta relaçao de confiança, Nakajima convida Chihiro a uma viagem ao campo para visitar Mino e Chii, amigos que conviveram com ele no passado em um local paradisíaco às margens de um lago. Neste ponto, Banana Yoshimoto desenvolve outro tema predileto em seus romances, a ligação entre o mundo visível e invisível, o efeito místico em seus personagens e na sua história. A viagem explicará a origem do sofrimento de Nakajima e a possibilidade de um futuro para o estranho casal.

sábado, novembro 01, 2014

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - 590 páginas - Boitempo Editorial - Tradução Helena Pitta - Prefácio de Gilberto Maringoni - Lançamento: Dezembro de 2013.
 
Um romance histórico muito bem construído, onde o cubano Leonardo Padura utilizou ficção e fatos reais para contar o planejamento do assassinato de Leon Trotski (1879 - 1940) pela NKVD, polícia política da antiga União Soviética, sob as ordens de  Joseph Stálin (1879 - 1953). Liev Davidovitch Bronstein, ou Leon Trotski como ficou conhecido, foi um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 e organizador do Exército Vermelho. Intelectual de formação marxista, foi afastado do controle do partido e exilado por Stálin. A sua trajetória no exílio, passando pela Turquia, França, Noruega e México é narrada em detalhes no livro, inclusive a fase final no México, onde ficou inicialmente hospedado com a sua esposa  na casa de Diego Rivera e Frida Kahlo.

O assassino de Trotski, Ramon Mercader (1913 - 1978), combatente na Guerra Civil Espanhola, foi recrutado pelos assessores soviéticos na Espanha e treinado pelos serviços de inteligência, mudando de identidade e nacionalidade para se transformar no belga Jacques Monard. Ele foi preso após o crime, mas nunca admitiu ter sido enviado pela União Soviética. Passou vinte anos nas prisões mexicanas e mudou-se para Moscou, vindo a falecer em Cuba nos anos 1970. O trabalho de ficção faz com que possamos entender melhor as contradições de Ramon Mercader e a forma como foi envolvido no processo, devido às suas convicções políticas e revolucionárias, um destino trágico do qual ele não conseguiu escapar.

O elemento de união de toda a trama fica por conta do personagem fictício Iván Cárdenas Maturell, escritor e veterinário amador que fica conhecendo Ramon Mercader em Cuba e detalhes de toda a história. Através deste narrador, Padura conta também as dificuldades econômicas e a influência das mudanças políticas mundiais no cotidiano da ilha. De certa forma é surpreendente que este livro não tenha sido censurado pelo governo cubano. O próprio autor em entrevista à revista Época fala da experiência de ser um escritor em Cuba e da dificuldade de acesso às informações:
"Na universidade que cursei, nos anos 1970, a figura de Trotski não existia. Nas aulas de filosofia e de história, ou quando se falava da Revolução Russa, ele não era mencionado. Exatamente como se fazia na União Sovié­tica. Isso me provocou uma enorme curiosidade. Quando pude, tratei de procurar informações sobre ele. Os livros soviéticos diziam que era um traidor da causa do socialismo e, por isso, morrera no exílio. Em 1989, visitando a Cidade do México, pedi a um amigo que me levasse à casa de Trotski, no bairro de Coyoacan. Quando cheguei ali, senti uma comoção forte ao ver a mesa de Trotski tal como ficou depois do crime. Como, num lugar tão perdido no mundo, chegou a mão de Josef Stálin para matar esse homem? Anos depois, soube que Ramón Mercader, o homem que matara Trotski, morrera em Cuba completamente anônimo. Posso ter cruzado com ele na rua sem saber. Tudo isso formou a base sentimental do romance. Depois, passei dois anos lendo e pesquisando sobre o assunto e três anos escrevendo."
O romance é o resultado de uma extensa pesquisa histórica e também uma bela obra de ficção que simboliza a frustração pela perda do grande sonho do socialismo no século XX e a luta pela igualdade entre os homens. De como a Utopia pode se transformar em Distopia através de regimes totalitários como foi o stalinismo.

quarta-feira, setembro 24, 2014

Finalistas do Prêmio Jabuti 2014

Finalistas do Premio Jabuti 2014, Categoria Romance
 
Já são conhecidos os dez finalistas de cada uma das 27 categorias da 56° edição do Prêmio Jabuti. Um total de 2.240 livros publicados em 2013 foram avaliados pela organização. A divulgação dos premiados da segunda fase está programada para 16/10, sendo que os três livros que receberem a maior pontuação dos jurados serão considerados vencedores em sua categoria. A cerimônia de entrega do prêmio Jabuti 2014 será realizada em 18 de novembro de 2014, no Auditório Ibirapuera em São Paulo.
 
Este ano a escolha dos melhores romances será bem difícil, mas a minha recomendação, de leitor para leitor, é apostar em Flavio Cafiero, um autor que ainda será indicado para muitos outros prêmios (clique aqui para ler a resenha do Mundo de K para "O frio aqui fora" de Flavio Cafiero). Ver abaixo os finalistas das categorias de romance, contos e crônicas e poesia da edição 2014 do Prêmio Jabuti:
 
Romance
 
Reprodução - Bernardo Carvalho - Companhia Das Letras
A maçã envenenada - Michel Laub - Companhia Das Letras
Opisanie Świata - Veronica Stigger - Cosac & Naify
O evangelho segundo Hitler - Marcos Peres - Record
O frio aqui fora - Flavio Cafiero - Cosac & Naify
O drible - Sérgio Rodrigues - Companhia Das Letras
Nossos ossos - Marcelino Freire - Editora Record
Fim - Fernanda Torres - Companhia Das Letras
Deserto - Luis S. Krausz - Editora Saraiva
Esquilos de Pavlov - Laura Erber - Editora Objetiva

 
Contos e Crônicas

Amálgama - Rubem Fonseca - Nova Fronteira
Você verá - Luiz Vilela - Editora Record
Nu, de botas - Antonio Prata - Companhia Das Letras
Um solitário à espreita  - Milton Hatoum - Companhia Das Letras
Noveleletas - João Vereza - Editora Record
Entre moscas - Everardo Norões - Confraria do Vento
Um operário em férias - Cristovão Tezza - Editora Record
Uns contos - Ettore Bottini - Cosac & Naify
Consternação - Jádson Barros Neves - Casarão do Verbo
Bem aqui, em lugar nenhum - Moema Franca - 7Letras

Poesia

Miserere - Adélia Prado - Editora Record
Bernini - poemas 2008-2010 - Horácio Costa - Horácio Costa
Ligue os pontos - Poemas de amor e big bang - Gregorio Duvivier - Companhia Das Letras
Dever - Armando Freitas Filho - Companhia Das Letras
Ar de arestas - Iacyr Anderson Freitas - Escrituras Editora
Estado Crítico - Régis Bonvicino - Editora Hedra
Ximerix - Zuca Saerdan- Cosac & Naify
Recife, No Hay - Delmo Montenegro - Editora Cepe
Corpos em Cena - Susanna Busato - Editora Patuá
Jardim das delícias - Marcus Vinicius Quiroga - Editora Kelps


Conheça aqui os finalistas de todas as 27 categorias do Prêmio Jabuti 2014.

quarta-feira, agosto 06, 2014

National Geographic - Traveler Photo Contest 2014

Independence Day
A foto acima, "Independence Day", de Marko Korosec da Eslovênia foi a primeira colocada no concurso de fotografia Traveler Photo Contest 2014 da revista National Geographic. Ela foi escolhida entre 18 mil concorrentes e mostra uma impressionante nuvem de tempestade com a forma de nave espacial, tirada no Colorado, EUA, em 28 de maio de 2013.

End of the World
Já a imagem acima, do fotógrafo Sean Hacker Teper, ganhou o prêmio de Honra ao Mérito, mostrando um homem em um balanço enquanto olha para o vulcão Monte Tungurahua em Banos, Equador, no momento da erupção. A foto levou o título sugestivo de "End of the World".

A well earned rest in the Sahara
Evan Cole também ganhou o prêmio de Honra ao Mérito com a foto do guia tuaregue Moussa Macher em pleno deserto do Saara. Um merecido descanso na escalada até o alto da duna de Tadrat. Clique aqui para conhecer todas as fotos concorrentes ou no site da National Geographic para o download das fotos em alta definição.

quarta-feira, julho 30, 2014

Banana Yoshimoto - Kitchen

Banana Yoshimoto - Kitchen - Editora faber and faber - 150 páginas - tradução de Megan Backus - lançamento original 1988 (publicado no Brasil em 1995 pela editora Ediouro, selo Nova Fronteira).

Mahoko Yoshimoto ou Banana Yoshimoto, como ficou mundialmente conhecida, filha do filósofo e poeta Takaaki Yoshimoto, nasceu em 1964 e, juntamente com Haruki Murakami, é uma das grandes responsáveis pela divulgação da literatura contemporânea japonesa. Assim como Murakami, ela soube utilizar com inteligência as referências culturais do ocidente em seus romances para falar dos problemas da juventude no Japão moderno. Ela ainda é muito pouco conhecida no Brasil, mas a Editora Estação Liberdade tem planos para o lançamento de "Adeus, Tsugumi", atualmente em tradução por Lica Hashimoto (apenas o primeiro livro de Yoshimoto, "Kitchen", foi lançado no Brasil pela Nova Fronteira, mas se encontra atualmente fora de catálogo).

"Kitchen", lançado em 1988, é seu primeiro livro que ela começou a escrever enquanto trabalhava como garçonete, resultando em muitos prêmios literários e fama imediata no Japão. É composto por dois contos: "Kitchen" e "Moonlight Shadow", ambos tendo como temas principais o amor e a morte na vida de jovens comuns japonesas que precisam vencer os obstáculos gerados pela perda de entes queridos, além é claro da paixão da própria autora pela culinária.


Em "Kitchen", a adolescente orfã Mikage Sakurai passa por um momento difícil de solidão e abandono após a morte da avó. Sem nenhum outro parente com quem possa contar, ela aceita o convite de um amigo, Eriko, para morar com ele e seu pai, na verdade "mãe", já que este optou por se transformar em mulher, ganhando a vida em uma boate de travestis. Percebe-se logo que o comportamento e opções dos personagens não são usuais na rígida disciplina da classe média japonesa.

Em "Moonlight Shadow", novamente uma tragédia é o motivo original do conto. A jovem Satsuki perde o seu namorado Hitoshi em um acidente de carro e passa por uma experiência mística, orientada pela estranha Urara, que a fará resistir à tristeza e encontrar motivações para superar o passado.


O estilo pop de Banana Yoshimoto pode parecer superficial à princípio, praticamente minimalista, mas sem dúvida é uma escritora que sabe descrever com originalidade o impacto do destino e as reações de seus personagens. A boa notícia é que temos outros autores interessantes no Japão de hoje além de Murakami.

quinta-feira, julho 24, 2014

Longlist do Man Booker Prize 2014


Pela primeira vez em sua história o Man Booker Prize considerou não somente autores da comunidade britânica, mas também de outros países, desde que a obra tenha sido escrita em inglês. A "Longlist" deste ano é composta de quatro escritores norte-americanos, um australiano, além de seis britânicos e dois irlandeses.
 
Segue abaixo a relação dos romances selecionados e autores, para maiores detalhes seguir os links para a Organização Man Booker Prize.
 

Os seis finalistas (shortlist) vão ser divulgados em 9 de setembro. O vencedor, que leva 50 mil libras, será conhecido em 14 de outubro.
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