terça-feira, maio 03, 2016

Objeto de Desejo


Clarice Lispector - Todos os Contos - Editora Rocco - 656 páginas - Lançamento previsto pela Editora para 06/05/2016, já em pré-venda nos sites da Livraria Cultura e Livraria da Travessa.

Um Objeto de Desejo muito especial, primeiro porque resgata uma dívida cultural com a obra de Clarice Lispector ao reunir em um inédito e único volume todos os seus 85 contos em ordem cronológica. Adicionalmente, a autora recebe, também pela primeira vez no Brasil, um projeto gráfico compatível com a sua importância, uma vez que a edição nacional em capa dura respeita a versão lançada no mercado editorial dos EUA, que foi escolhida como uma das 12 melhores capas do ano pelo New York Times. Finalmente, uma chance para as novas gerações de leitores brasileiros conhecerem a obra de uma das maiores escritoras do século XX, esquecendo as citações apócrifas que circulam na internet em seu nome.

Na verdade, o sucesso nos EUA em 2015 deveu-se, em grande parte, ao esforço do biógrafo Benjamin Moser que, em agosto de 2009, lançou o indispensável "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" (traduzido e publicado no Brasil como "Clarice" pela Editora Cosac Naify), biografia que foi incluída entre os 100 livros notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review e abriu o caminho para esta antologia. Após a boa recepção no mercado americano, "Todos os Contos" partiu para uma carreira mundial que parece estar apenas começando. Com traduções na Coreia do Sul e Turquia, agora os contos retornam ao seu país de origem e talvez ajudem a levantar a autoestima dos brasileiros, tão fragilizada no momento.

Em tempo, a participação de Benjamin Moser foi confirmada hoje pela organização da FLIP 2016 que este ano terá como autora homenageada (com toda justiça) a poeta Ana Cristina Cesar. O escritor, editor, crítico e tradutor estará presente, entre outros eventos, no painel "De Clarice a Ana C.", programado para o sábado, dia 02/07, juntamente com Heloisa Buarque de Holanda.

segunda-feira, maio 02, 2016

20 coisas que todo leitor compulsivo detesta ouvir

Foto Ann Price Photography
O site Goodreads solicitou em suas páginas do Facebook e Twitter que os leitores respondessem ao seguinte questionamento: "O que você nunca deve dizer para um apaixonado por livros?". Assim como outras pesquisas do Goodreads, esta também foi um sucesso e obteve grande retorno. Segue abaixo a seleção das 20 respostas mais criativas em tradução livre. Qual você considera a mais irritante?
(01) "Pare de comprar livros. Você já tem o suficiente." 
(02) "Eu nunca tenho tempo para ler. Deve ser bom ter tanto tempo livre!"
(03) "Eu perdi aquele livro que você me emprestou."
(04) "Pode me emprestar este livro?"
(05) "Eu odeio interrompê-lo enquanto você está lendo, mas..."
(06) "Eu nunca li o livro, mas ouvi dizer que o filme foi melhor..."
(07) "Por que ler o livro se você pode simplesmente aguardar pelo filme?"
(08) "Como você pode ler isto? Não há imagens!"
(09) "Por que você está relendo o livro?"
(10) "Você já leu todos esses livros?"
(11) "Por que você está sempre lendo?"
(12) "Por que você ainda está lendo?"
(13) "Você deveria estar usando um "e-reader."
(14) "Pare de ler, você vai estragar a sua vista."
(15) "Você não tem nada melhor para fazer?"
(16) "Pare de ler, está na hora de dormir."
(17) "Você tem que escolher: eu ou o livro!"
(18) "Ler é muito chato!"
(19) "Apague a luz!"
(20) "É só um livro."

quinta-feira, abril 28, 2016

As ilustrações misteriosas de Jennifer Yoswa

A Girl a Chair and a Pear / Winter White
Primeiramente, o que me chamou a atenção nas pinturas a óleo de Jennifer Yoswa foram os retratos de cores vivas com modelos de pescoços alongados, no estilo de Amadeo Modigliani (1884 - 1992). Depois fiquei fascinado com a expressão dos olhos tristes e perdidos e procurei conhecer um pouco mais do trabalho dela na internet e no facebook. Segundo informações do site da artista, uma das poucas fontes disponíveis, ela é uma autodidata que começou a pintar em 2001, inspirada pela poesia, música, pessoas, sentimentos e sonhos. A pintura permitiu uma viagem de auto-descoberta a lugares só alcançados na imaginação. Recomendo esta série sobre os 12 signos do zodíaco, disponível no site oficial.

Girl With Chartreuse Eyes
Ela iniciou a carreira ilustrando livros infantis, primeiramente Morpha, A Rain Forest Story  e depois Jesus from A to Z  que ganhou muitos prêmios nos EUA em 2009 e permitiu que ela exibisse o seu trabalho em várias galerias. O mistério sobre o significado das ilustrações é ampliado pela falta de informações na internet sobre a artista e seu trabalho, a ilustração acima, Girl With Chartreuse Eyes, é realmente hipnótica, difícil deixar de encarar esses grandes e belos olhos "chartreuse", entre o verde brilhante e o amarelo.

Blue Belle
É difícil acreditar que Jennifer não tenha nenhum treinamento formal em Artes como informado no site oficial. Será que toda essa inspiração vem apenas da distante região dos sonhos? É possível que sim, não me parece razoável encontrar uma dessas mulheres no metrô. A misteriosa Jennifer Yoswa vive em Aurora, Colorado.

terça-feira, abril 26, 2016

20 hábitos pouco educados de leitores compulsivos

Detalhes de Alexandre Roslin (1763), Sandro Botticelli (1483) e Vladimir Borovikovsky (1798)
Antes de mais nada preciso confessar que sou um leitor compulsivo. Talvez esta falha de caráter explique a facilidade com que relacionei algumas práticas francamente arrogantes e pouco sociais que somente outros leitores compulsivos poderão entender e reconhecer no seu próprio cotidiano. É difícil definir em que ponto um hábito louvável como a leitura se transforma em vício e obsessão, mas se você se identificou na maioria dos comportamentos abaixo e até mesmo achou alguns um pouco engraçados, sinto dizer caro amigo que, assim como eu, você não tem mais salvação!
(01) Esconder-se de conhecidos em ambientes públicos como transportes coletivos ou salas de espera de aeroportos para não precisar interromper a leitura;
(02) Ficar tentando identificar que livros as outras pessoas estão lendo na rua ou, em um caso mais crítico, tentar ler sorrateiramente alguns trechos;
(03) Recusar-se sistematicamente a emprestar livros para amigos e parentes;
(04) Emitir a sua opinião pessoal e detalhada ao responder à clássica e inócua pergunta no elevador: "está gostando?" ou em outra variante ainda pior: "do que trata esse livro?";
(05) Escrever resenhas mentais de romances que leu recentemente durante eventos religiosos, reuniões de amigos ou festas familiares;
(06) Ignorar o horário comercial de fechamento das livrarias ou ler os livros sem interrupção, recusando-se em alguns casos a comprá-los posteriormente;
(07) Perder a paciência com amigos e familiares que se recusam a entender o valor de determinados autores contemporâneos, muitas vezes por simples desconhecimento;
(08) Abarrotar a casa com livros e ocupar todos os espaços que poderiam ser utilizados de outra forma pelos familiares, com vasos de plantas decorativos, por exemplo;
(09) Não contribuir para a sustentabilidade e preservação das florestas ao recusar-se a reduzir a compra de livros impressos e utilizar plataformas digitais;
(10) Cheirar e acariciar livros em público. Demência de cunho fetichista que somente outros leitores compulsivos poderão entender e aceitar. Essas práticas só devem ser feitas na segurança do seu lar;
(11) Exigir que os amigos e familiares o presenteiem no aniversário e outras ocasiões especiais sempre com livros, impedindo-os de exercer sua livre escolha ou simplesmente de não lhe dar presente nenhum;
(12) Ofender vendedores de livrarias que desconhecem completamente os clássicos da literatura nacional e internacional;
(13) Odiar ou simplesmente desprezar as seções de autoajuda, esoterismo e informática das grandes livrarias;
(14) Escrever resenhas ou críticas excessivamente detalhadas ou explicadas, desrespeitando assim a inteligência do leitor;
(15) Ignorar os eventuais chamados da esposa, filho ou ligações telefônicas tentando terminar um parágrafo ou capítulo;
(16) Não respeitar os gostos alheios que não se encaixam nas suas próprias definições de qualidade literária;
(17) Comprar um livro fantástico para presentear um grande amigo, não resistir à tentação e ler o livro, finalmente deixar o amigo sem presente;
(18) Recusar frequentemente convites para reuniões de amigos após o horário do trabalho pensando em voltar logo para casa e terminar a leitura;
(19) Achar que as pessoas que não compartilham o hábito da leitura são desinteressantes e até mesmo feias sob certo aspecto;
(20) Curtir as publicações nas páginas das redes sociais sobre livros sem ler as matérias ou resenhas nos sites de origem.

segunda-feira, abril 25, 2016

Umberto Eco - Número Zero

Umberto Eco - Número Zero - Editora Record - 208 páginas - tradução de Ivone Benedetti - Lançamento 2015 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Definitivamente este não é o melhor romance de Umberto Eco, mas considero a sua leitura fundamental para os estudiosos e demais interessados nas áreas de Comunicação Social (Jornalismo) e História. O argumento tem como base a criação de um jornal de fachada com a função de produzir notícias tendenciosas para extorsão de elementos do "clube de elite das finanças e da política" sob a pretensa alegação de dizer a "verdade" acima de todas as coisas. Como podemos notar, apesar da ação ocorrer no ano de 1992 (época da famosa operação "Mãos Limpas" na Itália), o tema de manipulação das notícias é ainda bastante atual. O nosso protagonista, um ghost-writer sem maior expressão na área do jornalismo, chamado apenas de Colonna, é contratado pelo editor chefe Simei como assistente de direção e responsável pela revisão de todos os textos, juntamente com seis outros redatores, para criar doze edições experimentais, chamadas de "número zero" para avaliação interna do novo jornal.

Um dos seis redatores, chamado Romano Braggadocio, resume bem o espírito do novo diário que deverá se chamar "Amanhã" com a seguinte definição: "Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias". Por sinal, este é um personagem importante no romance, que desenvolverá uma complexa teoria conspiratória, envolvendo toda a história recente da Itália após a segunda Grande Guerra e tendo como gancho a sobrevivência de Benito Mussolini que aguardaria a retomada do poder, no seu esconderijo na Argentina (ou guardado pelos muros do Vaticano, em uma outra versão do mesmo e obcecado personagem). O autor utiliza com muita habilidade fatos históricos como parte do enredo, alguns revisitados com um tratamento ficcional (como o caso da sobrevivência de Mussolini e o assassinato de João Paulo I) assim como outros completamente verídicos (apesar de um surrealismo digno do nosso Brasil atual), tais como: as ações da organização direitista Gladio, corrupção política e interesses da máfia, loja maçônica P2 e atentados terroristas na Itália, fazendo com que o leitor fique em dúvida sobre o que é verdadeiro ou apenas ficção. O trecho abaixo reflete a visão de Braggadocio, um tanto o quanto obsessiva como o próprio personagem, sobre a sua desconfiança relativa à manipulação das notícias:
"Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente. Você não viu nos telejornais há um ano, com a Guerra do Golfo, o pelicano coberto de óleo, agonizando no golfo Pérsico? Depois foi apurado que naquela estação era impossível haver pelicanos no Golfo, e as imagens eram de oito anos antes, no tempo da Guerra Irã-Iraque. Ou então, como disseram outros, pegaram uns pelicanos no zoológico e lambuzaram de petróleo. O mesmo devem ter feito com os crimes fascistas. Veja bem, não é que me afeiçoei às ideias do meu pai ou do meu avô , nem quero fazer de conta que não houve massacre de judeus. Por outro lado alguns dos meus melhores amigos são judeus, imagine. Mas não confio em mais nada. Os americanos foram mesmo até a Lua? Não é impossível que tenham construído tudo num estúdio, se você observar as sombras dos astronautas depois da alunissagem não são verossímeis. E a guerra do Golfo aconteceu mesmo ou nos mostraram só trechos de velhos repertórios? Vivemos na mentira e, se você sabe que lhe estão mentindo, precisa viver desconfiado. Eu desconfio, desconfio sempre." (pág. 43)
A visão amarga do jornalismo cultural (leiam o trecho abaixo, cheio de sarcasmo bem-humorado sobre o lugar da cultura nas publicações atuais) também é apresentada através das aspirações da redatora Maia Fresia, "quase formada em letras", especializada na área de fofocas, e que mantem as esperanças de desenvolver um trabalho de melhor conteúdo no novo jornal. Na verdade, os únicos integrantes da equipe que conhecem as verdadeiras intenções do periódico são Colonna e o editor chefe Simei. Ambos tratam de diversos assuntos nas reuniões com a equipe para debater a pauta a ser seguida nas próximas edições, uma espécie de manual do mau jornalismo, como destacado em algumas resenhas deste romance (nem sempre "rancorosas" ou "prepotentes", sou obrigado a defender, talvez em causa própria).
"Não podemos tratar demais de cultura, os nossos leitores não leem livros, no máximo a 'Gazzetta dello Sport'. Mas, concordo, o jornal não pode deixar de ter uma página, não digo cultural, mas digamos de cultura e espetáculo. No entanto, os fatos culturais relevantes devem se apresentados em forma de entrevista. Entrevista com o autor é tranquilizadora, porque nenhum autor fala mal do próprio livro, portanto o nosso leitor não fica exposto a espinafrações rancorosas e prepotentes. Além disso, ele depende das perguntas, não se deve falar demais do livro, mas fazer o escritor ou escritora aparecer, quem sabe até com os seus tiques e fraquezas (...) Faça do maldito livro uma coisa humana que mesmo a dona de casa consiga entender, e assim não terá remorsos se não o ler; aliás, quem é que lê os livros que os jornais resenham, em geral nem o resenhista, isso quando o próprio autor o lê, porque, olhando certos livros, a gente às vezes acha que nem ele leu." (págs. 67 e 68)
O leitor de outras obras de Umberto Eco não encontrará neste seu último romance o mesmo brilhantismo literário e pesquisa histórica presentes em, por exemplo, "O Nome da Rosa" ou "O Pêndulo de Foucault", mas certamente será recompensado com alguns bons momentos de prazer ao reconhecer a erudição de um grande escritor que nos mostra como a mídia consegue distorcer a realidade através da publicação não de mentiras, mas sim de fatos absolutamente verídicos. Este procedimento foi tremendamente ampliado em nossa atualidade devido à ação das redes sociais, onde os próprios cidadãos se encarregam de insinuar, denegrir ou francamente inventar fatos em uma velocidade que nenhuma mídia (mesmo na internet) consegue acompanhar com a devida independência e verdadeiro espírito crítico.

quarta-feira, abril 20, 2016

Junot Díaz - é assim que você a perde


Junot Díaz - This is How you Lose Her - Editora Riverhead Books - Lançamento original em inglês em 2012 (Publicado no Brasil pela Editora Record em 2013 com o título "é assim que você a perde", 224 páginas, tradução de Flavia Anderson).

Junot Díaz ganhou os prêmios National Book Critics Award de 2007 e Pulitzer de Ficção de 2008 com o seu romance de estreia, "The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao" (ler aqui resenha do Mundo de K), além disso conseguiu a primeira colocação no ranking preparado pelo site de cultura da BBC para os melhores romances do século XXI até o momento. Logo, esse lançamento foi cercado de expectativa pelo mercado editorial na época e, mais uma vez, foi sucesso de crítica, finalista no National Book Award de 2012, incluído na lista dos mais vendidos do New York Times e em várias seleções de melhores lançamentos do ano, entre elas as listas do próprio New York Times, Washington Post, Huffington Post e Time Magazine, consolidando o autor como um dos nomes mais importantes da literatura  contemporânea latino-americana.

Novamente o tema de Junot é a sofrida vida dos imigrantes hispânicos nos EUA, divididos entre duas culturas. Uma coletânea de contos que bem poderia ter sido publicada como romance já que, apesar de formado por nove narrativas curtas independentes, mantém um fio condutor que as une, em sua quase totalidade, ao mesmo protagonista, o jovem Yunior da República Dominicana. Apesar das dificuldades por que passam os personagens na luta pela felicidade em um país estranho, o tom geral do texto é sempre bem-humorado e a prosa corrida do autor, que dispensa o uso de parágrafos ou aspas para os diálogos, faz com que a leitura seja agradável e difícil de interromper. Outra característica é a inserção de palavras em espanhol no livro original escrito em inglês (na tradução para o português este efeito é suavizado pela maior semelhança entre o português e espanhol).

Em "Invierno" ficamos conhecendo o impacto da chegada em um país estrangeiro através dos olhos de uma criança. Uma história, como muitas outras, de trabalhadores que partem para "fazer a vida" nos EUA, vivem sozinhos durante muitos anos e finalmente conseguem trazer o restante da família, nesta altura mal reconhecendo os próprios filhos que encontrarão um cotidiano pretensamente melhor do que o que tinham no país de origem. O inverno é o símbolo do isolamento de Yunior e o irmão mais velho, assim como a mãe eles não têm outra alternativa do que passar os dias assistindo TV ou observando o estranho novo mundo nevado pela janela, ainda sem escola ou amigos.
"Como não deixavam que saíssemos de casa — está frio demais, justificara Papi uma vez, mas, na verdade, não havia motivo algum, exceto ele não estar a fim de permitir —, a gente se sentava a maior parte do tempo na frente da TV ou ficava contemplando a neve, naqueles primeiros dias. Mami limpava tudo umas dez vezes e preparava uns almoços bem esmerados. Todos nós mudos, de tão entediados. (...) Desde o início, Mami tinha concluído que ver TV era proveitoso; bom para aprender o idioma. Ela via nossas mentes jovens como girassóis radiantes e pontiagudos em busca de luz, e nos colocava o mais perto possível da televisão, para aumentar ao máximo a nossa exposição. A gente assistia a noticiários, programas humorísticos, desenhos, 'Tarzã', 'Flash Gordon', 'Jonny Quest', 'Os Herculoides', 'Vila Sésamo' — oito, nove horas de TV por dia, mas as melhores lições vinham mesmo de 'Vila Sésamo'. Cada palavra que o meu irmão e eu aprendíamos, treinávamos um com o outro, repetindo diversas vezes, aí, quando Mami pedia que lhe disséssemos como pronunciá-la, balançávamos as cabeças e falávamos, Não esquenta com isso não." (pág. 136)
No único conto não relacionado com Yunior, "Otravida, otravez" a narrativa, em primeira pessoa, passa para uma "veterana", apesar de ter apenas vinte e oito anos, na arte de sobreviver no isolamento. Yasmin conhece o mundo somente através de uma lavanderia de hospital onde trabalha muito duro para se manter. Uma esperança de melhorar de vida vem da relação com Ramón, um imigrante mais velho que recebe cartas da esposa que deixou na República Dominicana. Ele está prestes a conseguir comprar uma casa, um sonho de todo imigrante nos Estados Unidos, será que existe um futuro para Ramón e Yasmin?
"Trabalho a dois quarteirões dali, no hospital St. Peter. Nunca me atraso. Nunca saio da lavanderia. Nunca saio da fornalha. Coloco a roupa nas lavadoras, nas secadoras retiro a camada de fiapos que se forma na tela, encho de sabão em pó os dosadores. Coordeno quatro funcionárias, ganho um salário de americano, mas dou um duro danado. Separo pilhas de lençóis com mãos enluvadas. As assistentes hospitalares — a maioria morena — trazem os lençóis. Nunca vejo os doentes, que só me visitam através das manchas e das marcas que deixam na roupa de cama, o alfabeto dos doentes e moribundos. Muitas vezes as manchas são tão profundas que tenho que jogá-las no cesto especial. Uma das meninas de Baitoa me contou que ouviu dizer que tudo o que se coloca ali é incinerado. Por causa da aids, sussurra. Numas ocasiões as manchas se mostram oxidadas e velhas, noutras, o sangue vem com um cheiro forte, como a chuva. Seria de pensar, com todo o sangue que a gente vê, que está rolando uma baita guerra no mundo. Só a que rola dentro dos corpos, diz a garota nova." (págs. 66 e 67)
É preciso segurança para desenvolver todo um conto em uma estrutura narrativa centrada na segunda pessoa como em "Guia Amoroso do Traidor" que fecha o livro (leiam o trecho abaixo). Assim como outros contos, este também tem como argumento os fracassos amorosos de Yunior, sempre por conta da sua compulsão pelo sexo, uma tendência familiar decorrente do sangue quente latino que o faz trair as suas companheiras como um verdadeiro canalha, pelo menos é assim que ele pensa e explica o comportamento auto-destrutivo que o leva finalmente a um estado de desespero e solidão.
"Você tenta usar todas as artimanhas possíveis para ficar com ela. Escreve cartas. Leva-a para o trabalho de carro. Cita Neruda. Escreve um mega e-mail repudiando todas as suas 'sucias'. Bloqueia os e-mails delas. Muda seu número de telefone. Para de beber. Para de fumar. Argumenta que é viciado em sexo e começa a frequentar as reuniões. Culpa o seu pai. Culpa a sua mãe. Culpa o patriarcado. Culpa Santo Domingo. Acha um analista. Cancela seu Facebook. Dá a senha de todas as suas contas de correio eletrônico para ela. Começa a ter aula de salsa, como sempre jurou que faria, para que vocês dois dancem juntos. Alega que estava doente, alega que havia sido fraco — Foi o livro! A pressão! — e, de hora em hora, como um relógio, diz que sente muito. Tenta de tudo, mas, um belo dia, a gata simplesmente se sentará na cama e dirá, 'Chega', e 'Ya', você vai ter que se mudar do apê no Harlem que compartilhava com ela. Você pensa até em fincar o pé. em ocupar ilegalmente o lugar. E chega a afirmar que não vai. Mas, no fim das contas, é o que faz." (pág. 186)

segunda-feira, abril 18, 2016

20 livros proibidos que moldaram a América


É difícil acreditar, mas alguns clássicos da literatura norte-americana, tais como: As Aventuras de Huckleberry Finn, Moby Dick e O Grande Gatsby foram censurados e proibidos no próprio território dos EUA. O levantamento sobre as obras censuradas está disponível no site "banned books week" que é organizado por uma aliança de instituições editoriais e bibliotecas. Não estamos falando aqui de listas de proibições religiosas como o Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica (abolido em 1966 pelo Papa Paulo VI) ou de livros polêmicos como Mein Kempf de Hitler mas, simplesmente, de romances (alguns de caráter juvenil) e poesia. Segue a relação em ordem cronológica com os comentários em tradução livre.

(01) The Scarlet Letter, Nathaniel Hawthorne, 1850
No Brasil: A Letra Escarlate - Editora Companhia das Letras

Não é de surpreender a indignação moralista que o livro causou na época do lançamento. No entanto, é de se espantar quando  cento e quarenta anos depois ainda é proibido por ser pecaminoso e entrar em conflito com os valores da comunidade. Os pais em um distrito escolar chamaram o livro de "pornográfico" e "obsceno" em 1977. É evidente que isso ocorreu antes da era da Internet.

(02) Moby Dick, Herman Melville, 1851
No Brasil: Moby Dick - Editora Cosac Naify

Um distrito escolar no Texas baniu o livro das listas de aulas de inglês avançado devido aos "conflitos com seus valores comunitários" em 1996. Valores comunitários são frequentemente citados em discussões sobre livros censurados pelas partes reclamantes.

(03) Uncle Tom´s Cabin, Harriet Beecher Stowe, 1852
No Brasil: A Cabana do Pai Tomás - Editora Ediouro

Assim como outros clássicos proibidos da época, a descrição precisa do contexto histórico e cultural no qual os escravos eram tratados nos Estados Unidos, transformou o livro em um potencial candidato à censura (como se isso eliminasse ou transformasse a história).

(04) Leaves of Grass, Walt Whitman, 1855
No Brasil: Folhas de Relva - Editora Iluminuras

Se eles não entendem poderão proibi-lo. Este foi o caso quando o grande poema americano "Leaves of Grass" foi publicado pela primeira vez e a Sociedade de Nova York para a Supressão do Vício (?) entendeu a sensualidade do texto como perturbadora. Livreiros de Nova York, Massachusetts e Pensilvânia chegaram a aconselhar os seus clientes a não comprar o livro "sujo"

(05) The Adventures of Huckleberry Finn, Mark Twain, 1884

A primeira proibição deste clássico americano de Mark Twain, na pequena cidade de Concord, Massachusets, em 1885, declarou o livro como "lixo adequado apenas para as favelas". O romance de Twain é um dos mais criticados de todos os tempos e é frequentemente contestado até hoje por causa do uso constante da palavra "negro". Por outro lado, alega-se que é "racialmente insensível", "opressor" e "perpetua o racismo".

(06) The Red Badge of Courage, Stephen Crane, 1895
No Brasil: O Emblema Vermelho da Coragem - Editora Companhia das Letras

Restringir o acesso e recusar a permissão para que professores ensinem sobre os livros ainda é uma forma de censura em muitos casos. Esta obra foi incluída, entre muitas outras, em uma lista compilada em 1986 nos Estados Unidos depois que os pais começaram a apresentar denúncias informais sobre livros em uma biblioteca escolar.

(07) The Call of the Wild, Jack London, 1903

Geralmente saudado como o melhor trabalho de Jack London, The Call of the Wild é criticado por seu tom sombrio e violência sangrenta. O livro foi proibido na Itália, Iugoslávia e queimado em fogueiras na Alemanha nazista no final de 1920 e início dos anos 30 por ter sido considerado "muito radical". Ler aqui resenha do Mundo de K.

(08) The Jungle, Upton Sinclair, 1906
No Brasil: Não publicado no Brasil (ler aqui resenha em português)

As visões, supostamente socialistas, expressas neste livro fizeram com que fosse proibido na Iugoslávia, Alemanha Oriental, Coreia do Sul e Boston (lugares bem diferentes não é mesmo?).

(09) The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald, 1925
No Brasil: O Grande Gatsby - Editora LPM

Talvez o primeiro grande romance americano que vem à mente do grande público, este livro narra o consumo de bebida e vidas decadentes de personagens da sociedade de East Hampton. Ele foi censurado no Colégio Batista na Carolina do Sul por causa da linguagem e meras referências ao sexo.

(10) Gone With the Wind, Margaret Mitchell, 1936
No Brasil: E O Vento Levou - Editora Record

O romance, vencedor do prêmio Pulitzer (que três anos após a sua publicação tornou-se um filme vencedor do Oscar), narra a vida da filha mimada de um fazendeiro sulista antes e depois da queda da Confederação e declínio da região Sul após a Guerra Civil. Elogiado pela crítica por sua instigante representação da vida sulista na época, também foi censurado pelas mesmas razões, além do uso das expressões "nigger" e "darkies".

(11) The Grapes of Wrath, John Steinbeck, 1939
No Brasil: As Vinhas da Ira - Editora Record / Bestbolso

O Condado de Kern, California, tem a grande honra de ter sido o cenário do romance de Steinbeck e também de ser o primeiro local onde ele foi proibido em 1939. Objeções aos palavrões, especialmente "maldição" e as referências sexuais, continuaram até os anos noventa. É um livro com histórico de proibição internacional: foi proibido na Irlanda na década de 50 e um grupo de livreiros na Turquia foi levado ao tribunal por "divulgar propaganda" em 1973.

(12) For Whom the Bell Tolls, Ernest Hemingway, 1940
No Brasil: Por Quem Os Sinos dobram - Editora Record

Pouco tempo após a sua publicação, o correio dos EUA, cujo objetivo era, em parte, monitorar e censurar a distribuição de mídia e textos, declarou o livro como "nonmaiable". Na década de 1970, oito livreiros turcos foram julgados por "divulgar propaganda desfavorável para o Estado" porque tinham publicado e distribuído o texto. 

(13) A Streetcar Named Desire, Tennessee Williams, 1947
No Brasil: Um Bonde Chamado Desejo - Editora LPM

O conteúdo sexual desta peça de teatro, que mais tarde se tornou um filme popular e aclamado pela crítica, sofreu uma espécie de auto-censura quando o filme estava sendo feito. O diretor cortou varias cenas para obter uma classificação adequada e se proteger contra queixas de imoralidade da peça.

(14) The Catcher in the Rye, J.D. Salinger, 1951
No Brasil: O Apanhador no Campo de Centeio - Editora do Autor

O jovem Holden Caulfield, protagonista deste romance, é um filho favorito dos censores. O livro frequentemente é removido de salas de aula e bibliotecas escolares porque é: "inaceitável", "obsceno", "blasfemo", "negativo""sujo" e "prejudica a moralidade". E pensar que Holden Caulfield sempre imaginou que "as pessoas nunca percebiam nada".

(15) Invisible Man, Ralph Ellison, 1952
No Brasil: O Homem Invisível - Editora Record / José Olympio

O livro de Ellison ganhou o National Book Award de 1953 por abordar habilmente questões de nacionalismo negro, marxismo e identidade no século XX. Considerado demasiadamente "expert" nesses assuntos para algumas escolas de ensino médio, o livro foi proibido nas listas de leitura em escolas na Pensilvânia, Wisconsin e Washington.

(16) Fahrenheit 451, Ray Bradbury, 1953
No Brasil: Fahrenheit 451 - Editora Globo

No lugar de proibir o livro que é sobre censura, uma escola em Irvine, California fez uma coisa talvez ainda pior, utilizou uma versão expurgada do texto em que todos os "infernos" e "maldições" foram apagados. Outras reclamações acusaram o livro ser contra crenças religiosas. Ler aqui resenha do Mundo de K.

(17) Howl, Allen Ginsberg, 1956
No Brasil: Uivo - Allen Ginsberg - Editora LPM

Seguindo os passos de outros clássicos da poesia censurados como "Leaves of Grass" (o que pode ser considerado uma honra), as poesias de Allen Ginsberg foram censuradas pelas descrições de atos homossexuais.

(18) To Kill a Mockingbird, Harper Lee, 1960
No Brasil: O Sol é Para Todos - Editora Record / José Olympio

O grande romance de Harper Lee permanece como uma prova positiva de que o impulso da censura está vivo e bem nos EUA, ainda hoje. Para alguns educadores, o vencedor do prêmio Pulitzer é um dos maiores textos que os adolescentes podem estudar em uma aula de literatura norte-americana. Para outros, é considerado uma obra degradante, profana e racista que "promove a supremacia branca".

(19) In Cold Blood, Truman Capote, 1966
No Brasil: A Sangue Frio - Editora Companhia das Letras

Foi objeto de controvérsia em uma aula de inglês na cidade de Savannah, Geórgia, depois que um pai reclamou sobre sexo, violência e profanação. Proibido e posteriormente liberado.

(20) Beloved, Toni Morrison, 1987

Várias vezes este romance, vencedor do prêmio Pulitzer e da autora Afro-americana mais influente de todos os tempos, foi passado a estudantes de inglês do ensino médio. E novamente, por várias vezes, foram apresentadas queixas pelos pais devido à sua violência, conteúdo sexual e bestialidade.

quinta-feira, abril 14, 2016

Matilde Campilho - Jóquei

Matilde Campilho - Jóquei - Editora 34 - Coleção Poesia - 152 páginas - Lançamento 2015.

Matilde Campilho nasceu em Lisboa em 1982 e viveu no Rio de Janeiro entre 2010 e 2013 onde escreveu este seu primeiro livro de poemas que comprova a importância da preservação e utilização das culturas locais na literatura (prosa e poesia). O terrível Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e, em caráter mais geral, o uso indiscriminado da Internet, ajudaram a transformar o nosso mundo em uma Aldeia Global, como chamado pelo filósofo canadense Marshall McLuhan, um mundo tristemente padronizado, igual em todos os lugares e muito sem graça, principalmente para os poetas. 

Não tenho conhecimento de outros escritores que souberam integrar de forma tão criativa, em uma mesma obra, as diferenças linguísticas entre o português falado no Brasil e em Portugal, sem mencionar os países africanos e as particularidades regionais desses países lusófonos. Por outro lado, a poesia de Matilde também está repleta de referências globalizadas (inclusive em inglês) e nunca sabemos em que lugar do mundo o próximo poema irá nos levar, seja ele real ou imaginário: New Jersey, Maracanã, arrozal de Vang Vieng, Tavizkam, Itaparica ou Sevilha, sempre existe uma nova poesia para ser descoberta.

Na verdade, "poeta nômade" é uma excelente definição para a jovem autora lisboeta que estudou em Milão, trabalhou em Madri e Moçambique, veio ao Rio de Janeiro para ficar apenas quinze dias e acabou ficando três anos, trabalhando como jornalista e redatora. Em 2015, com o sucesso do livro que foi lançado primeiramente em Portugal, ela retornou ao Rio para participar da FLIP em Paraty e comentou, com sotaque carioca, sobre a desconstrução dos modelos tradicionais de fazer poesia e da cadência musical dos seus poemas, encantando o público presente que a apelidou de musa daquela edição do evento (ler aqui reportagem e entrevista). 

Assim, os poemas de Matilde, muitos deles verdadeiros textos em prosa, ganham uma dinâmica e colorido que justificam a palavra "Jóquei" como título do livro. A sua obra reflete "o ritmo de caminhada na avenida, de conversa travada na rua, de repetições, saltos bruscos e retomadas", tudo isso graças "a uma fome de mundo rara, a uma curiosidade que é marca dos vorazes" como bem definiu Carlito Azevedo (que sabe tudo) na apresentação desta edição brasileira da Editora 34. Peço licença à autora para apresentar aqui o poema que definitivamente me conquistou, a carta-poema que eu sempre quis escrever para o meu próprio filho e nunca consegui. Leiam devagar este belo exemplo de poesia.

A Primeira Hora Em que o Filho do Sol Brincou com Chumbinhos
(Matilde Campilho)

para o Francisco, aos nove anos

Não é que eu queira que você saiba manejar armas
mas quero sim que se prepare para afinar sua pontaria.

Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes cem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume. Alguns frutos nascem no chão, outros caem dos ramos. É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia alguém vai explicar para você como o afagar e onde ele fica. Nunca aponte ao terceiro olho, com aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário — só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. A morte é o contrário de justiça. Os peixes respiram debaixo de água e se você mergulhar entre as rochas e se concentrar muito também vai conseguir. Ah é: os peixes brilham mais que as chamas, e alguns deles vão morar dentro de seus pulmões. Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. Sim, daqui a muitos anos você vai conseguir acertar direitinho nessa lata de coca-cola que a gente suspendeu no sobreiro. Só acho que não vai querer. Também vai saber por que razão é melhor segurar uma arma descalço — é que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade. Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele.

terça-feira, abril 12, 2016

Patti Smith - Linha M

Patti Smith - Linha M - Editora Companhia das Letras - 216 páginas - tradução de Claudio Carina - Lançamento 21/03/2016 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Um livro inspirador e que não pode ser classificado em uma única categoria, seja ela autobiografia, ficção ou ensaio, simplesmente porque é tudo isso ao mesmo tempo, assim como a performática Patti Smith que assume múltiplas formas de expressão artística, tais como: música, artes plásticas e poesia, não necessariamente nesta ordem. Preparem-se para uma viagem sem destino e, de preferência, sem pressa também, pelo sensível "mind train" da autora, vivendo a intimidade do seu processo criativo através de lembranças dos lugares que visitou ao redor do mundo e das perdas e conquistas da sua vida pessoal.

Diferente de "Just kids", vencedor do National Book Award de 2010, que descrevia o período da sua carreira desde a chegada em Nova York, no verão de 1967, até o lançamento do álbum de estreia, Horses, em 1975, em "Linha M" o foco está no presente, com inserções de lembranças aleatórias de um passado mais recente, principalmente da sua relação com a família e o marido, o guitarrista Fred (Sonic) Smith, que faleceu vítima de um infarte em 1994, aos 45 anos, mas com a narrativa voltando sempre aos momentos passados no Café 'Ino no Greenwich Village onde ela marcava presença diariamente, sempre na mesma mesa e com o seu inseparável caderno de notas, tentando registrar a passagem do tempo e as suas impressões sobre sonho e realidade.
"Fecho meu caderno e fico sentada no café pensando sobre o tempo real. Será que o tempo é ininterrupto? Só abrange o presente? Será que nossos pensamentos são apenas trens passageiros, sem paradas, destituídos de dimensão, zunindo com grandes cartazes de imagens repetidas? Captando um fragmento de um assento na janela, com um idêntico fragmento no próximo quadro? Se eu escrever no presente, com digressões, ainda será em tempo real? O tempo real, raciocinei, não pode ser dividido em seções, como números no mostrador de um relógio. Se eu escrever sobre o passado enquanto lido simultaneamente com o presente, ainda estou em tempo real? Talvez não exista passado nem futuro, somente um perpétuo presente contendo essa trindade da memória. Olhei para a rua e notei a luz mudando. Talvez o sol tenha se escondido atrás de uma nuvem. Talvez o tempo tenha escapado." (págs. 74 e 75)
O que mais surpreende no cotidiano de Patti Smith é o ascetismo de sua vida pessoal, uma vida solitária e muito distante do estereótipo que costumamos fazer de uma estrela de rock. O combustível do seu processo criativo não tem origem no álcool ou nas drogas, mas simplesmente nas inúmeras xícaras de café e no hábito de escrever diariamente. A convivência com os seus gatos, o prazer de assistir às séries de detetives preferidas como "The Killing", "Law and Order" e "CSI: Miami", a presença dos livros (muitos livros) e a fixação por fotos polaroides de objetos inusitados, tais como a cadeira onde Roberto Bolaño escreveu seus romances (incluindo 2666 que ela considera a primeira obra-prima do século), a bengala de Virginia Woolf, as muletas de Frida Kahlo, as sapatilhas de balé de Margot Fonteyn e os túmulos de Bertold Brecht, Arthur Rimbaud, Yukio Mishima, Akira Kurosawa, Jean Genet e Sylvia Plath.

As citações às suas paixões literárias são um atrativo adicional para os leitores compulsivos. No campo da poesia há referências à obra mística de William Blake, o romantismo alemão de Friedrich Schiller e Goethe, os simbolistas franceses Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, sem esquecer dos poetas russos Vladímir Maiakóvski e Anna Akhmátova, o legado de sofrimento e redenção de Sylvia Plath chegando até a geração beat com Ginsberg e William Burroughs. Na literatura em prosa uma profusão surpreendente de autores de diversas épocas e estilos, entre eles: Albert Camus, Jean Genet, Mikhail Bulgákov, Vladimir Nabokov, Herman Hesse, Bruno Schulz, Henry Miller, Roberto Bolaño, Haruki Murakami, W. G. Sebald, Yukio Mishima, Ryūnosuke Akutagawa e Osamu Dazai.

"Linha M" é muito fácil de ler, mas difícil de resenhar porque não segue uma estrutura narrativa linear ou uma sequência "lógica" de assuntos relacionados. Na verdade, representa uma jornada individual (que se torna universal) em uma espécie de colagem que segue unicamente o instinto poético e sensibilidade da autora. As suas lembranças partem de Saint-Laurent-du-Mer na Guiana Francesa, onde Jean Genet ficou preso aguardando a transferência para a Ilha do Diabo (que nunca ocorreu) para um improvável encontro na Islândia com Bobby Fischer, um dos maiores jogadores de xadrez do século XX, pulando para uma visita à Casa Azul no México onde Frida Kahlo e Diego Rivera viveram e viajando para uma temporada no Japão para visitar o templo dourado em Kyoto e o túmulo de Yukio Mishima. Enfim, cada capítulo é sempre uma surpresa para o leitor que nunca sabe qual será a próxima estação desse trem desgovernado no tempo e no espaço, algo muito parecido com o nosso destino, não é mesmo?
"Tenho vivido de acordo com o meu livro. Um livro que nunca planejei escrever, registrando o tempo para trás e para a frente. Já vi a neve cair no mar e segui os passos de um viajante que há muito se foi. Revivi momentos que foram perfeitos em sua certeza. Fred abotoando a camisa cáqui que usava nas aulas de voo. Pombos voltando para o ninho na nossa sacada. Nossa filha Jesse estendendo os braços de pé na minha frente. 
— Ah, mamãe, às vezes eu me sinto como uma árvore nova. 
Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons sensações. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam." (pág. 170)

quinta-feira, abril 07, 2016

20 autores de um único romance


Alguns autores, por diferentes motivos, escreveram um único romance que acabou se transformando em obra-prima. Seja devido à preferência pelo conto, morte prematura ou simples desinteresse pela literatura, nunca conseguiram repetir o mesmo feito. A escritora Harper Lee perdeu a chance de participar deste seleto time de autores ao permitir a publicação de "Go set a Watchman", 55 anos após a obra original, "To Kill a Mockingbird" (publicado no Brasil como "O sol é para todos"). Segue a seleção de autores de um único romance em ordem cronológica de lançamento.

(01) Edgar Allan Poe (1809 - 1849) - The Narrative of Arthur Gordon Pym (1838)
No Brasil: A Narrativa de Arthur Gordon Pym -  Editora Cosac Naify (Esgotado)

Edgar Allan Poe é certamente um dos maiores especialistas na arte do conto e poesia, contudo escreveu apenas um único romance em toda a sua carreira. O livro narra a odisseia do capitão de um veleiro americano, Gordon Pym, que passa por um motim e o respectivo massacre da tripulação ocorrido em seu navio durante uma viagem cruzando os mares do sul. O autor que melhor soube representar o mistério da morte na literatura e que também morreu solitário e em circunstâncias misteriosas, como a maioria de seus personagens, não gostava de escrever romances.

(02) Emily Brontë (1818 - 1848) - Wuthering Heights (1847)
No Brasil: O Morro dos Ventos Uivantes - Editora LPM

Uma história de amor muito avançada para a Inglaterra do século XIX, onde a paixão impossível de Heathcliff por Catherine, devido aos preconceitos sociais, se transforma em violenta obsessão por vingança. O romance foi muito criticado porque não era comum para a época um protagonista com tantos desvios de caráter quanto Heathcliff. Emily Brontë não conheceu o sucesso de sua obra, publicada com o pseudônimo de Ellis Bell, tampouco conseguiu escrever outros romances porque morreu aos trinta anos de tuberculose, um ano após o lançamento de O Morro dos Ventos Uivantes.

(03) Manuel Antônio de Almeida (1831 - 1861) - Memórias de um Sargento de Milícias (1852)
No Brasil: Editora Penguin Companhia das Letras

Outro livro à frente do seu tempo, de caráter urbano e realista, apresenta críticas à sociedade carioca da época, apesar de inserido cronologicamente na escola romântica. Foi publicado de forma anônima em folhetins sob o pseudônimo de "Um Brasileiro"Manuel Antônio de Almeida escreveu ainda uma peça chamada "Dois Amores" e alguma poesia, mas não conseguiu criar outros romances porque também morreu muito cedo, aos 30 anos, vítima do naufrágio do vapor Hermes no litoral de Campos, Rio de Janeiro em 1861.

(04) Anna Sewell (1820 - 1878) - Black Beauty (1877)
No Brasil: Beleza Negra - Editora Companhia das Letras

Anna Sewell sofreu um acidente em sua infância que parecia sem maiores consequências ao voltar caminhando da escola, mas acabou ficando inválida. O romance narrado em primeira pessoa a partir do ponto de vista de um cavalo, foi idealizado com a intenção de denunciar os maus tratos cometidos contra os animais. O livro acabou se transformando em um best seller com mais de 50 milhões de cópias vendidas e várias adaptações para o cinema.

(05) Oscar Wilde (1854 - 1900) - The Picture of Dorian Gray (1891)
No Brasil: O Retrato de Dorian Gray - Editora Penguin Companhia das Letras

O que dizer de O Retrato de Dorian Gray que ainda não tenha sido dito? Oscar Wilde, o campeão dos paradoxos (ler 20 paradoxos de Oscar Wilde, como no exemplo: "As pessoas deveriam estar sempre apaixonadas. É por isso que nunca deveriam se casar." - Lorde Illingworth na peça Uma mulher sem importância), acabou escrevendo um único romance que se transformou em um clássico de todos os tempos.

(06) Marcel Proust (1871 - 1922) - A la Recherche du Temps Perdu (1913 - 1927)
No Brasil: Em Busca do Tempo Perdido - Editora Globo

É um pouco injusto considerar uma obra em sete volumes (sendo os três últimos publicados postumamente) totalizando mais de 3000 páginas como um único romance, mas essa era a intenção de Marcel Proust que pensou em representar no seu romance monumental os costumes da aristocracia francesa do século XIX, tendo escrito a obra completa entre 1908 e 1922 e publicado, com muita dificuldade, entre os anos de 1912 e 1927.

(07) Zelda Fitzgerald (1900 - 1948) - Save Me the Waltz (1932)
No Brasil: Esta Valsa é Minha - Editora Companhia das Letras

Deve ter sido muito difícil para Zelda se conformar em ser apenas a esposa de F. Scott Fitzgerald. O romance foi escrito em um manicômio em apenas seis semanas e tem um caráter totalmente autobiográfico, contando a sua versão das festas e desilusões da época. Zelda é citada de forma pouco elogiosa por Hemingway em "Paris é uma Festa" como um impasse para a carreira de Fitzgerald. É uma boa chance de conhecer a versão dela.

(08) Elias Canetti (1905 - 1994) - Die Blendung (1935)
No Brasil: Auto-de-Fé - Editora Cosac Naify

Prêmio Nobel de Literatura de 1981, Elias Canetti nasceu em Ruschuk, na Bulgária, mas escreveu sempre na língua alemã. O seu único romance, Auto-de-fé, foi banido pelo nazismo e considerada por Thomas Mann como uma obra à frente do seu tempo. O protagonista, Peter Kien, é um filólogo solitário e excêntrico, apaixonado pelos livros. Um livro complexo que exige atenção.

(09) Margaret Mitchell (1900 - 1949) - Gone with the Wind (1936)
No Brasil: E O Vento Levou - Editora Record

Romance publicado em 1936 e ganhador dos Prêmios Pulitzer e National Book Award de 1937, originando uma das adaptações mais famosas para o cinema em 1939, além de ter sido traduzido para trinta idiomas e vendido mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo. Margaret Mitchell começou a escrevê-lo em 1926, como um passatempo, enquanto se recuperava de problemas de saúde.

(10) J.D. Salinger (1919 - 2010) - The Catcher in the Rye (1951)
No Brasil: O Apanhador no Campo de Centeio - Editora do Autor

Uma narrativa sobre um fim de semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 16 anos. O romance se tornou um clássico inspirador para as gerações rebeldes futuras. Podemos considerá-lo como o único romance do misterioso e recluso Salinger com a premissa de que "Franny and Zooey", de 1961, seja enquadrado na categoria de conto.

(11) Ralph Ellison (1914 - 1994) - Invisible Man (1952)
No Brasil: O Homem Invisível - Editora Record / José Olympio

O romance, vencedor do National Book Award de 1953, denuncia o racismo nos EUA através da história de um jovem negro do Harlem, Nova York, no início do século XX. O protagonista se descobre invisível para os brancos racistas e também para os negros radicais. Ralph Ellison morreu aos 80 anos, também no Harlem, onde morava e escrevia seu segundo romance. O manuscrito do livro foi queimado num incêndio em sua casa nos anos 70.

(12) Juan Rulfo (1917 - 1986) - Pedro Páramo (1955)
No Brasil: Pedro Páramo - Editora Record (edição conjunta com Chão em Chamas - contos)

Os pais de Juan Rulfo eram proprietários de terra que perderam tudo na Revolução Mexicana que serve de inspiração para Pedro Páramo, considerado um clássico da literatura hispano-americana e influência para outros importantes escritores da América Latina como Gabriel Garcia Márquez, Carlos Fuentes e Octavio Paz.

(13) João Guimarães Rosa (1908 - 1967) - Grande Sertão: Veredas (1956)
No Brasil: Editora Ediouro / Nova Fronteira

Seria mesmo impossível para João Guimarães Rosa escrever outro romance depois da catedral linguística chamada de Grande Sertão: Veredas. Ele publicou contos e até mesmo poemas, mas romance assim nunca mais.

(14) Boris Pasternak (1890 - 1960) - Doctor Zhivago (1957)
No Brasil: Doutor Jivago - Editora Record

Boris Pasternak não pôde publicar Doutor Jivago na então União Soviética, devido ao teor anti-comunista do romance. Os originais foram contrabandeados e editados na Itália  em 1957, tornando-se um best seller e fazendo com que o autor russo fosse laureado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1958. A inesquecível adaptação para o cinema também ajudou a popularizar a obra e o autor em todo o mundo.

(15) Giuseppe di Lampedusa (1896 - 1957) - Il Gattoppardo (1958)
No Brasil: O Leopardo - Editora LPM (fora de Catálogo)

O Leopardo (fora de catálogo no Brasil) foi publicado somente dois anos após a morte do italiano Giuseppe di Lampedusa, trata da decadência da aristocracia siciliana no final do século XIX e tornou famosa a seguinte citação aplicável à nossa (eterna) crise política: "Algo deve mudar para que tudo continue como está" (não é perfeita para o nosso momento?)

(16) Katherine Anne Porter (1890 - 1980) - Ship of Fools (1962)
No Brasil: A Nau dos Insensatos - Editora Abril (fora de catálogo)

Jornalista e ativista política, Katherine Anne Porter ganhou o Prêmio Pulitzer e o National Book Award, ambos de 1966, por sua antologia de contos. O romance A Nau dos Insensatos (fora de catálogo no Brasil) narra a viagem de um grupo de personagens que velejam do México para a Alemanha a bordo de um navio misto de carga e passageiros, satirizando a ascensão do nazismo.

(17) Sylvia Plath (1932 - 1963) - The Bell Jar (1963)
No Brasil: A Redoma de Vidro - Editora Globo

Um livro difícil, quase tão difícil quanto a própria Sylvia Plath e que foi publicado pela primeira vez em Londres, Janeiro de 1963, sob o pseudônimo de Victoria Lucas devido às dúvidas que a autora tinha sobe o seu valor literário e também pelos possíveis transtornos que seu único romance poderia causar à vida das pessoas com quem ela se relacionava já que se trata de uma obra francamente autobiográfica (Ler aqui resenha completa)

(18) Alice Munro (1931 - ) - Lives of Girls and Women (1971)
No Brasil: não lançado / Em Portugal: Vidas de Raparigas e Moças - Editora Relógio D'água

Único romance de Alice Munro (não publicado no Brasil), vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2013 e mestre na técnica do conto, narra a vida de uma jovem na zona rural de Ontário, Canadá, durante os anos 40. Esta resenha do Guardian, no entanto, interpreta o livro, na verdade, como uma série de contos interligados.

(19) John Kennedy Toole (1937 - 1969) - A Confederacy of Dunces (1980)
No Brasil: Uma Confraria de Tolos - Editora Record / Bestbolso

John Kennedy Toole foi o ganhador do Prêmio Pulitzer póstumo de 1981 por este romance publicado em 1980, 11 anos depois de seu suicídio. Pouco conhecido no Brasil. O protagonista Ignatius, anti-herói solitário, procura um emprego em Nova Orleans nos anos 1960.

(20) Harold Pinter (1930 - 2008) - The Dwarfs (1994)
No Brasil: não lançado / Em Portugal: Os Anões - Editora Dom Quixote

Harold Pinter, Prêmio Nobel de Literatura de 2005, é basicamente um dramaturgo, sendo considerado um dos grandes expoentes do teatro do absurdo ao lado de Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Este é seu único romance publicado e não lançado no Brasil.
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