terça-feira, maio 14, 2013

Guille Thomazi - Gado Novo

Guille Thomazi - Gado Novo - 66 páginas - Editora 7Letras - Lançamento: Maio 2013.

É surpreendente a personalidade do jovem autor catarinense Guille Thomazi neste seu romance de estreia em que conduz a polifonia narrativa com segurança de escritor maduro, alternando diferentes pontos de vista dos personagens sem nome, sempre com frases cortantes em primeira pessoa e representando assim a solidão e desamparo do homem frente à natureza exuberante e hostil das fazendas do interior do Mato Grosso. 

Cada capítulo apresenta uma chave para a solução do assassinato, com requintes de crueldade, da menina Isabel e o entendimento completo do ocorrido o leitor só consegue ao final do romance que poderia ser classificado também como uma novela, devido à curta extensão e que justamente acaba amplificando o efeito devastador, como bem destacado pelo texto de divulgação da editora: "curto e potente como um tiro de revólver, como um coice". Bom exemplo da tensão narrativa encontramos também nas reflexões do assassino, descritas logo no primeiro capítulo:
"Preciso voltar. Preciso convencê-la da minha mentira. Preciso mentir, inventar, tornar verdade. Preciso de água. Não existe água. Tudo é seco. Falta um mês pra chuva. O vento levanta do chão a poeira, fina como talco, e traz pra mim. A menina sumiu. Foi imaginação. Não foi imaginação. Há sangue seco no pasto. Não existe onça nessa história."
Vale ressaltar que a relação entre homem e natureza na literatura nacional não é um tema de fácil desenvolvimento devido ao desafio de encontrar caminhos originais, diferentes da tradição verdadeiramente intransponível de nomes como Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Talvez este desafio tenha direcionado a nossa literatura contemporânea para um ambiente essencialmente urbano, mas Guille Thomazi não se deixou intimidar por essa dificuldade e acabou escrevendo um belo livro.

quinta-feira, abril 25, 2013

Seleção da Penguin - Os top ten clássicos eróticos

Penguin Classics - top ten erotic
Um site bem interessante para se visitar é o da editora inglesa Penguin Classics onde recomendo o top ten temático para quem gosta de listas literárias. Selecionei a relação dos dez clássicos eróticos de todos os tempos eleitos pela Penguin, demonstrando mais uma vez que o sexo já era bastante utilizado na literatura bem antes da descoberta dos 50 tons de cinza (ver também do Mundo de K: 20 romances eróticos que se tornaram clássicos).
  1. Kama Sutra (estima-se que tenha sido escrito no período entre 400 a.C e 200 d.C) - Um dos guias sexuais mais antigos da humanidade, clássico indiano com aconselhamentos sobre todos os assuntos, desde a arte do beijo até poderosos afrodisíacos.
  2. Delta de Venus (lançamento póstumo em 1978) - Anaïs Nin (1903 - 1977) - Anaïs Nin passou vários dias na biblioteca estudando o Kama Sutra antes de escrever esta coletânea de clássicos eroticos que lhe renderam um dolar por página.
  3. A Filosofia na Alcova  (publicado clandestinamente em 1795) - Marquês de Sade (1740 - 1814) - Segundo resumo da Penguin, Christian Grey (protagonista de 50 tons de cinza) se sentiria como um namorado bem comportado depois de ler as façanhas infames do Marquês de Sade.
  4. A Vênus das Peles (lançamento 1870) - Leopold von Sacher-Masoch (1836 - 1895) - Mais sadomasoquismo, desta vez no século XIX, na Áustria.
  5. O amante de Lady Chatterley (lançamento 1928) - D.H. Lawrence (1885 - 1930) - Quando este livro foi julgado por obscenidade em 1960, o promotor perguntou se desejaríamos que fosse lido pela nossa mulher ou criado. Mas o júri não concordou e, desde então, estre clássico tem sido lido por mulheres, criados e todas as pessoas também.
  6. Fanny Hill - Memórias de uma mulher de prazer (publicado clandestinamente em 1748) - John Cleland (1709 - 1789) - Este romance foi banido da Inglaterra no século XVIII e permaneceu proibido até os anos setenta.
  7. As Relações Perigosas (lançamento 1782) - Choderlos de Laclos (1741 - 1803) - Um clássico do romance epistolar de sedução e traição. 
  8. História do Olho (lançamento 1928) - Georges Bataille (1897 - 1962) - Lembranças de perversões de um casal de amantes adolescentes. 
  9. Em louvor das mulheres maduras (lançamento 1965) - Stephen Vizinczey (1933 - ) - Narra as aventuras amorosas e sexuais do jovem Andràs Vajda nos anos sessenta.
  10. Poemas eróticos - Ovídio (43 a.C - 17 ou 18 d.C) - As mulheres romanas da época não poderiam resistir (provavelmente) aos versos sedutores de Ovídio, ainda espirituosos nos dias de hoje.

sexta-feira, abril 19, 2013

Women’s Prize for Fiction 2013


Divulgada a lista das autoras finalistas (shortlist) do Women’s Prize for Fiction 2013 (ex-Orange Prize). Hilary Mantel está presente mais uma vez com seu último romance "Bring Up the Bodies", segunda parte da trilogia histórica iniciada por "Wolf Hall" - prêmio Booker de 2009 (publicado no Brasil pela editora Record) e já ganhador do Man Booker Prize 2012 e do Costa Book Award deste ano.

Segue abaixo a lista das seis concorrentes finalistas ao prêmio no valor de 30 mil libras (cerca de 35 mil euros) com os respectivos links. A favorita é Hilary Mantel, mas Barbara Kingsolver e Zadie Smith são duas fortes oponentes também (vencedoras das versões de 2010 e 2006, respectivamente). O romance ganhador será anunciado no dia 5 de junho em uma cerimônia em Londres.
Bring Up the Bodies - Hilary Mantel

Flight Behaviour - Barbara Kingsolver


Life After Life - Kate Atkinson

May We Be Forgiven - A. M. Homes

NW - Zadie Smith

sexta-feira, abril 12, 2013

Mulheres do movimento Shin Hanga

Torii Kotondo (1900-1976) e Kitano Tsunetomi (1880-1947)
Os ilustradores do movimento de xilogravura Shin Hanga (ou nova estampa), que foi caracterizado pela influência ocidental na cultura japonesa do início do século XX, optaram, em sua maioria, por utilizar modelos com trajes tradicionais orientais e forte apelo sensual para a época. O Hood Museum of Art está com uma exposição programada para o período de 06 de abril até 28 de julho, cujo foco principal são os 66 trabalhos do período Shin Hanga (cliquem nas imagens para ampliá-las).

Hashiguchi Goyō (1880-1921) e Ito Shinsui (1898-1972)
Os artistas desta época ficaram conhecidos como pintores da mulher e de sua beleza, o nu e o seminu se tornaram os temas preferidos. As estampas das “beldades” tiveram rapidamente um grande sucesso de vendas, inclusive no ocidente. Depois da Segunda Guerra mundial o movimento entrou um declínio devido à nostalgia pela cultura tradicional japonesa.

Kobayakawa Kiyoshi (1896-1948)

segunda-feira, abril 08, 2013

Granta Global

Capas das primeiras edições da revista Granta na Noruega, China e Portugal
A revista Granta está cada vez mais globalizada, prova disso são as duas últimas edições lançadas na Noruega e China e a que será lançada em Portugal em maio/2013. A Granta é reconhecida no mercado como um selo de qualidade para novos autores, tendo lançado nomes importantes da literatura contemporânea muito antes de eles se tornarem conhecidos do grande público. Uma lista de escritores britânicos, por exemplo, publicada pela revista em 1983, incluía nomes como: Martin Amis, Julian Barnes, Kasuo Ishiguro, William Boyd, Ian McEwan, Salman Rushdie e Graham Swift. No Brasil a revista Granta em português estreou em 2007 com uma edição traduzida dos melhores jovens escritores norte-americanos (ver resenha do Mundo de K clicando aqui).

A edição norueguesa foi lançada em janeiro/2013 contando com autores já consagrados como: Alice Munro, Roberto Bolaño e Jennifer Egan e também escritores locais. Já a edição chinesa, publicada em março/2013, foi constituída somente de traduções de material já publicado pela matriz inglesa, incluindo autores como: David Mitchell, A.S. Byatt, Hari Kunzru, Kazuo Ishiguro, Geoff Dyer e Hanif Kureishi.

Mas a grande novidade para o mundo lusófono é a edição portuguesa, que será lançada em 21 de maio pela editora Tinta da China, com nada menos do que cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa, além de obras do acervo original da revista. Uma interessante curiosidade que foi antecipada pelos editores é o compromisso em não atender obrigatoriamente o acordo ortográfico vigente, preservando-se a riqueza cultural do idioma e a decisão de cada autor. Para conhecer a página da Granta portuguesa no facebook cliquem aqui.

sexta-feira, abril 05, 2013

Simone de Beauvoir - A Mulher Desiludida


Ao ler este clássico do movimento feminista, me ocorreu questionar por que ainda devemos ler "A Mulher Desiludida" de Simone de Beauvoir (1908 - 1986) mais de quarenta anos após o seu lançamento original. A resposta talvez passe pela constatação de que o feminismo ainda não atingiu o seu objetivo básico de libertação da mulher em muitas sociedades ou ainda simplesmente para conhecer o texto de uma das maiores pensadoras da filosofia existencialista e da política do século XX, mas acho que o livro deve ser lido mesmo pelo que ele tem de melhor — e isto pode ser confirmado com o distanciamento crítico que só o tempo promove — o fato de ser uma bela obra de literatura sobre a solidão.

A obra reúne três novelas curtas ou contos sobre mulheres maduras que enfrentam crises familiares, profissionais e de relacionamento, paralelamente ao processo de frustração pelo envelhecimento. A primeira narrativa, "A idade da discrição", é claramente autobiográfica e trata do cotidiano de um casal de intelectuais maduros, politicamente de esquerda (semelhantes à Simone de Beauvoir e Sartre) que se sentem traídos pela opção conservadora do filho, Filipe, que decide aceitar o convite do sogro para uma vantajosa posição no Ministério da Cultura em detrimento de sua tese e de uma carreira acadêmica. A sequência abaixo, destaca as reflexões da protagonista sobre a vida em casal e o envelhecimento.
"Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a viver o dia-a-dia? Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma do cipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado por um instante. Iria continuar a escorrer. E então? Sim ou não, poderia ainda trabalhar? Minha raiva contra Filipe se esfumaria? A angústia de envelhecer me retomaria? Não olhar muito longe. Longe seriam os horrores da morte e dos adeuses. Seria a dentadura, a ciática, as enfermidades, a esterilidade mental, a solidão em um mundo estranho que não compreenderíamos mais e que prosseguiria seu curso sem nós. Conseguiria não levantar os olhos para esses horizontes? Quando aprenderia a percebê-los sem pavor? Nós estamos juntos, é a nossa sorte. Nós nos auxiliaremos a viver essa derradeira aventura da qual não retornaremos. Isso no-la tornará tolerável? Não sei. Esperemos. Não temos escolha."
O segundo conto, "Monólogo", tem como matéria-prima o fluxo de consciência da protagonista, Murielle, e o seu sofrimento após duas separações e o suicídio da filha Sylvie. Trata-se de uma composição experimental, em estilo livre e sem pontuação que tenta representar o pensamento confuso e doloroso da personagem diante da solidão em que ela se encontra na noite de Ano Novo.
"Durante toda a minha vida serão sempre duas horas da tarde de uma terça-feira de junho. 'A senhorita dorme um sono profundo demais não consigo acordá-la.' Meu coração deu um pulo eu me precipitei gritando: 'Sylvie você está sentindo alguma coisa?' Ela parecia dormir ainda estava morna. Tinha morrido há algumas horas me disse o médico. Eu urrei rodei no quarto como uma louca. Sylvie Sylvie por que você fez isso comigo? Eu a a revejo serena tranquila e eu desnorteada e aquele bilhete para o pai não significava nada eu o rasguei ele fazia parte da encenação aquilo não passava de uma encenação eu estava certa eu estou certa — uma mãe conhece sua filha — de que ela não tinha querido morrer mas ela havia exagerado a dose ela estava morta que horror! É fácil demais com essas drogas que são conseguidas de todo jeito; essas garotas por um sim por um não elas brincam de suicídio; Sylvie seguiu a moda: não acordou mais."
No último conto, Monique, típica dona de casa, vive uma situação humilhante ao descobrir que o marido Maurice tem uma amante; abandonada e desprezada ela conta em seu diário a degradação progressiva do relacionamento que ela procura manter de todas as formas, mesmo sabendo que é traída. O apego ao casamento, mesmo com o consentimento da vida dupla do marido com Noelli, a "outra", passa a ser uma obsessão e o único sentido da vida de Monique. Certamente, todos já ouvimos falar de algum caso assim.
"E esta noite, imagino que Maurice pode estar contando nossa conversa a Noellie. Como não tinha ainda pensado? Eles falam deles, portanto também de mim. Entre eles existem conivências como entre Maurice e eu. Noelli não é somente um estorvo em nossa vida: no idílio deles, eu sou um problema, um obstáculo. Para ela não se trata de um passatempo. Pretende manter com Maurice uma ligação séria e é esperta. Meu primeiro impulso fora o certo. Deveria ter dado logo um basta na história, dizer a Maurice: ou ela ou eu. Ele ficaria de mal comigo um certo tempo mas depois sem dúvida me teria agradecido. Não fui capaz."
Sobre o feminismo, agora me ocorre uma ótima citação de Mary Shelley (1797 - 1851), autora de Frankenstein que, já no século XIX, afirmava o seguinte: "Não desejo que as mulheres tenham mais poder que os homens, mas sim que tenham mais poder sobre si mesmas."

sábado, março 30, 2013

Haruki Murakami - 1Q84 - Livro 2

Haruki Murakami - 1Q84 (Livro 2) - 376 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Tradução direta do japonês de Lica Hashimoto - Lançamento: Março 2013 (lançamento original no Japão em 2009). Ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Resenha do Livro 1: Haruki Murakami - 1Q84

Neste segundo volume da trilogia, Haruki Murakami consegue avançar no intrincado mundo de 1Q84 mantendo o ritmo cinematográfico e ainda sem descuidar do nível de tensão e suspense criados no primeiro livro. A narrativa continua intercalando os capítulos com as trajetórias dos protagonistas Tengo e Aomame que se aproximam, ou se reaproximam, cada vez mais na sua busca pelo amor (como resumiu o próprio Murakami). Ao mesmo tempo, maiores detalhes são revelados sobre a seita Sakigake, cujo líder Aomame deverá eliminar, e  o temível Povo Pequenino, através de "Crisálida de Ar", o romance que Tengo reescreveu à partir do roteiro original da jovem e bela Fukaeri, além da difícil explicação sobre a clonagem de alguns personagens com os conceitos de dohta e maza.

Murakami desenvolve a sua saga sem se importar em tangenciar a perigosa fronteira entre o best seller de leitura fácil e a literatura de conteúdo. De fato, a narrativa é tão ambiciosa que, em muitos momentos, exige uma certa dose de complacência do leitor para aceitar as incríveis reviravoltas e emaranhado ficcional do mundo de duas luas imaginado pelo autor, um mundo novo e não paralelo, como explica neste volume. De qualquer forma, não há como não se deixar levar pelo prazer da refinada prosa de Murakami que parece ter sido inteiramente preservada na dedicada tradução direta de Lica Hashimoto. Agora só nos resta esperar pelo lançamento do livro 3 no Brasil, ainda sem data marcada para publicação.
"As batidas de seu coração continuavam a emitir um som seco e duro, mas a tontura estava passando. Escutando as batidas, ele continuou olhando as duas luas que pairavam no céu de Kôenji, com a cabeça encostada no corrimão do escorregador. Era uma imagem inusitada. Um mundo novo em que existe uma nova lua. Tudo parecia incerto e ambíguo. 'Há uma única coisa que eu posso afirmar', pensou. 'Independentemente do que aconteça comigo, jamais conseguirei contemplar o céu com duas luas como algo natural e cotidiano.'" - pág. 318.

domingo, março 24, 2013

Finalistas da Smithsonian Magazine 2012

Categoria Viagem - foto de Hoang Giang Hai (Hanoi, Vietnam)
As 50 fotos finalistas da décima edição do concurso da Smithsonian magazine, versão 2012, estão simplesmente fantásticas. A competição reuniu mais de 37.600 fotógrafos de 112 países, concorrendo em cinco categorias: Natureza, Viagem, Pessoas, Americana e Imagens Alteradas. A votação está aberta on-line para o público no site da Smithsonian até 29 de março. Para concorrer à versão 2013 deste concurso e fazer upload da sua foto, basta se inscrever neste link.

Categoria Natureza: foto de Bjorn Olesen (Singapore)

domingo, março 17, 2013

Cristovão Tezza - O Filho Eterno

Cristovão Tezza - O Filho Eterno - Editora Record - 224 páginas - lançamento 2007.

A metaficção ou mais diretamente neste caso, autoficção, de Cristovão Tezza, consciente ou não, é um recurso que, sendo bastante utilizado na literatura contemporânea, quase sempre gera bons resultados nas mãos de um autor que saiba dominar a tensão existente entre realidade e ficção. No entanto, Tezza extrapolou todos os limites com esta arriscada e premiada experiência literária chamada "O Filho Eterno" que ganhou as mais importantes disputas nacionais de 2008, como por exemplo: Portugal Telecom, Jabuti e São Paulo de Literatura, além de ter sido traduzido em vários idiomas.

O romance, narrado em terceira pessoa, utiliza como matéria-prima dados biográficos do próprio Tezza: as dificuldades na escrita de seus primeiros livros, as realizações e frustrações da carreira literária, a vida como imigrante ilegal na Europa e, principalmente,  sua experiência com o filho, portador de sídrome de Dawn, o que pode parecer chocante em diversas passagens devido ao grau de exposição, praticamente confessional do autor. A expectativa feliz pelo nascimento do primeiro filho em contraste com a sensação de dor e desamparo ao receber o duro choque da constatação de que algo estava errado. 
"Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz — parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta — passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam  uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam."
Cristovão Tezza chega a ser cruel em diversos momentos da narrativa, como quando faz com que seu protagonista confesse ter desejado a morte do próprio filho ou na descrição fria do comportamento sem esperanças de melhora da criança que vive em um presente eterno, roubando as expectativas de "normalidade" sonhadas pelo pai.
"Pai e mãe conversam como se não houvesse nada diferente acontecendo, até que um pequeno surto de depressão aflore, e então um breve gesto do outro repõe a normalidade possível, numa balança compensatória. A ideia ou a esperança de que a criança vai morrer logo tranquilizou-o secretamente. Jamais partilhou com a mulher a revelação libertadora. Numa das fantasias recorrentes, abraça-a e consola-a da morte trágica do filho, depois de uma febre fulminante."
No longo caminho de aprendizado dos pais com o filho, a personalidade do menino, que afinal é uma criança extremamente amorosa, acaba conquistando o respeito e carinho a que tem direito, mas obviamente não é uma relação simples e que possa ter um tratamento de "final feliz" como seria tentador esperar. Um livro inesquecível e comovente que nos faz pensar sobre o limite entre ficção e realidade e a responsabilidade da literatura com a verdade.

domingo, março 10, 2013

Junichiro Tanizaki - As irmãs Makioka

Junichiro Tanizaki - As irmãs Makioka - Editora Estação Liberdade - 742 páginas - Tradução direta do japonês de Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro - Lançamento 2005.

Os leitores já familiarizados com os temas fortes abordados por Junichiro Tanizaki (1886 - 1965) em outras obras como, por exemplo, "Diário de um Velho Louco" e "Voragem" (ver aqui resenha do Mundo de K); temas como infidelidade, fetichismo e sadismo, certamente ficarão surpreendidos pelo ritmo lento e a delicadeza do autor neste romance que é uma homenagem à família e aos valores tradicionais da cultura japonesa. No entanto, deve-se destacar que nem sempre as quatro irmãs Makioka: Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko, conseguem se adequar às regras rígidas familiares e ao conflito entre tradição e modernidade, no Japão da época anterior à Segunda Grande Guerra.

O romance gira em torno do objetivo comum da família Makioka de conseguir um pretendente para o casamento da terceira irmã Yukiko que, das quatro irmãs, é a que melhor representa a educação tradicional e os costumes, mas que, independente desta postura, já passa dos trinta anos sem ter conseguido este objetivo, devido a uma sucessão de negativas da família, orgulhosa de seu passado, para todas as oportunidades.
"Alguns especulavam que devia ter ocorrido algo bastante grave para que Yukiko, a irmã logo abaixo de Sachiko, continuasse solteira mesmo depois de completar trinta anos de idade, mas de fato nada acontecera. Contudo, na conjunção de fatores que levaram a esse resultado, talvez o que mais pesara fosse a incapacidade das irmãs Makioka — de Tsuruko, a irmã mais velha e herdeira da casa Makioka, como também de Sachiko e da própria Yukiko — de esquecer tanto o estilo de vida luxuoso que haviam levado ao lado do velho pai em seus últimos anos de vida, como a antiga força do nome Makioka. E buscaram tanto um pretendente à altura desse nome que acabaram recusando uma a uma, por serem insatisfatórias, todas as propostas de casamento — de início numerosas como as estrelas no céu — que lhe haviam sido apresentadas. Aos poucos, amigos e conhecidos se impacientaram, as propostas rarearam e, nesse meio tempo, a casa entrou em decadência."
Taeko, a irmã mais nova, é a que tem uma visão mais ocidentalizada e independente da vida e sonha se sustentar por seus próprios meios. Ela passa por muitas dificuldades ao longo do romance devido aos preconceitos da sociedade, mas sempre ajudada pelas irmãs que, mesmo censurando a sua liberdade, nunca a abandonam, mesmo quando o seu destino caminha para um desfecho trágico.
"Taeko estava deitada de perfil, com o lado do coração voltado para cima, e a febre havia baixado um pouco. Quando Sachiko apareceu, ela já parecia esperá-la, pois seus olhos estavam fixos na entrada do quarto... O rosto redondo de Taeko afinou-se, a pele estava mais escura do que já era, e os olhos pareciam maiores. Algo mais chamou a atenção de Sachiko: a aparência de impureza estranhamente percebida no corpo da irmã, e que não era a sujeira comum, encardida, causada pela simples falta de banho. Geralmente, os efeitos de sua conduta desregrada se ocultavam sob a maquiagem, mas ali, devido à fragilidade física, uma sombra de obscenidade dominava-lhe o rosto, o pescoço e os pulsos. Nada, porém, era tão evidente quanto sua magreza, proveniente não apenas do sofrimento gerado pela doença, mas da exaustão de uma vida descomedida ao longo de anos."
As duas irmãs mais velhas, Tsuruko e Sachiko, casadas, representam os contrastes entre a região de Kansai, que engloba as cidades de Kobe, Kioto e Osaka e a cidade de Tóquio, moderna mas, no entanto, sem tantos atrativos culturais. Tsuruko, representante do ramo principal da família, precisou se mudar para Tóquio, após a decadência financeira dos Makioka, originando uma rivalidade entre os dois ramos da família.
"Afinal, por que precisava enfrentar situações desagradáveis todas as vezes que ia a Tóquio? Seri a por não combinar com aquela cidade?... Tóquio era o kimon, o ponto cardeal do azar para elas, e aquele descuido de Taeko poderia acarretar um novo tropeço para o casamento de Yukiko. Ela não tinha mesmo sorte, pois apesar de ter encontrado um bom partido, o local para se conhecerem tinha sido Tóquio. Ao considerar tudo isso, Sachiko não conteve o sentimento de tristeza por Yukiko e sentiu ainda mais raiva de Taeko, vertendo lágrimas de compaixão e ressentimento."

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

200 anos de Orgulho e Preconceito


O correio britânico Royal Mail lançou uma série de seis selos comemorativos, desenhados pela ilustradora Angela Barrett, em homenagem aos romances de Jane Austen e especialmente lembrando os 200 anos de Orgulho e Preconceito. Uma justa homenagem a um romance que já "sofreu" incontáveis adaptações para cinema, televisão e até mesmo uma versão recente, paródia de terror no estilo zumbi, sem nunca perder o seu charme original que o tornou um clássico da literatura de todos os tempos. Ainda segundo declaração à BBC de Marilyn Joice, membro da Sociedade Jane Austen no Reino Unido, "o romance pode ser lido em vários níveis". "Pode-se ler como uma versão romântica de Cinderela, uma comédia ou uma crítica social aos problemas que enfrentavam as mulheres no mesmo nível social de Austen".

domingo, fevereiro 24, 2013

Crianças

Julio Cortázar, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, William Faulkner, Mario Quintana, Charles Bukowski, Virginia Woolf e José Saramago
"Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui." 
José Saramago

Os olhares ingênuos e sonhadores dos jovens Julio Cortázar e Clarice Lispector contrastam com a agressividade questionadora do menino Guimarães Rosa, enquanto que a expressão de bebê "boa praça" de William Faulkner (último da fila superior) lembra muito o Mario Quintana adulto que, na verdade, é o primeiro da fila inferior. Bukowski está bem longe da imagem destrutiva que o tornou famoso e as expressões de Virginia Woolf e José Saramago são praticamente místicas (cliquem na imagem para ampliá-la).

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Novo site de Clarice Lispector

Site IMS sobre Clarice Lispector
O Instituto Moreira Salles (IMS) lançou um site especial sobre Clarice Lispector (1920 - 1977) em dezembro de 2012, comemorativo do seu aniversário, com coordenação de Eucanaã Ferraz e Luiz Fernando Vianna. O site apresenta fotos inéditas e informações detalhadas e confiáveis sobre biografia, bibliografia, resenhas de todos os livros, traduções comparadas e ebooks para download. Segundo informação do IMS, o acervo atual de Clarice Lispector conta com 293 documentos, correspondência e biblioteca pessoal de mais de oitocentos livros, catalogados e disponíveis para consulta de pesquisadores. Outra curiosidade disponível é um mapa do Rio de Janeiro destacando os locais relacionados com a vida e obra de Clarice. Há muito tempo a autora merecia um espaço como este em compensação pelas citações apócrifas dela que circulam pela internet.

Como exemplo de material inédito disponibilizado, ver abaixo a vídeo-aula ministrada pelo professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP) e compositor José Miguel Wisnik:

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

blog de escritor - Joca Reiners Terron


Em continuidade à série de divulgação de blogs pessoais de escritores (ler os anteriores de Marcelino Freire e Michel Laub), apresento o blog Sorte e Azar S/A de Joca Reiners Terron que, na definição bem-humorada do próprio autor, "trata de sua total incapacidade de escrever posts e da busca de melhorar seu caráter por meio dessas tentativas vãs". Os assuntos podem variar de um texto de ficção inédito até resenhas literárias e também concorridas listas, assunto de primeira de qualquer blog. Recomendo a sua última postagem: Dez Clássicos Literários do Século 21. Para conhecer mais do autor, siga o link para a sua conta no twitter, mas não se assustem com a imagem que ele escolheu para o fundo de tela!

Dados Biográficos: Joca Reiners Terron, jterron@gmail.com, (Cuiabá, 1968) publicou “Eletroencefalodrama” (Ciência do Acidente, 1998), “Não Há Nada Lá” (Ciência do Acidente, 2001, reeditado em 2011 pela Companhia das Letras). “Animal Anônimo” (Ciência do Acidente, 2002), “Hotel Hell” (Livros do Mal, 2003), “Curva de Rio Sujo” (Planeta, 2003), “Sonho Interrompido por Guilhotina” (Casa da Palavra, 2006) e “Do Fundo do Poço se Vê a Lua” (Companhia das Letras, Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional de melhor romance de 2010), entre outros. Seu último livro é a novela gráfica (ilustrada por André Ducci) “Guia de Ruas Sem Saída” (Edith, 2011). 

Em 2013 a Companhia das Letras publicará o romance inédito de Joca Reiners Terron: “A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves”.

domingo, fevereiro 10, 2013

Daniel Galera - Barba Ensopada de Sangue

Daniel Galera - Barba Ensopada de Sangue - Editora Companhia das Letras - 424 páginas - Lançamento 05/11/2012 (ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Daniel Galera confirma mais uma vez a sua habilidade na criação de personagens marcantes e diálogos perfeitos neste seu quarto e aguardado romance. Um jovem nadador e professor de educação física, decide, acompanhado da cadela Beta do falecido pai, se mudar para a supostamente pacata cidade de Garopaba, localizada no litoral de Santa Catarina. O nosso protagonista (sem nome) estabelece uma série de contatos, inclusive afetivos, com a população local, enquanto investiga a violenta e misteriosa morte do avô Gaudério que se tornou uma lenda no passado da cidade. É surpreendente como o paulista Daniel Galera consegue escrever com uma autenticidade regionalista que nos faz acreditar estar lendo em todos os momentos um autor gaúcho (como já fez tão bem antes em Mãos de Cavalo).

A natureza exuberante da região do litoral sulista e a relação da cidade com o mar são elementos que Galera utiliza com perfeição na narrativa deste livro e ainda um interessante recurso para caracterizar ainda mais o isolamento social e geográfico do seu protagonista; ele sofre de um raro distúrbio neurológico que não permite memorizar o rosto das pessoas, inclusive o próprio.

O leitor é conquistado logo de início pela sensibilidade e abandono do personagem que relembra passagens de sua vida em Porto Alegre. É bom destacar que, apesar do título, este não é um romance de violência, mas sim de encontros e desencontros, de amizade e amor, destino e livre-arbítrio, coisas tão banalizadas e esquecidas nesta época de facebook (como parte do seu desligamento da vida urbana, o protagonista cancela a sua conta da rede social em um dos bons momentos do livro). Enfim, o segredo é simples, Daniel Galera sabe escrever, coisa cada vez mais rara em nossa época digital. 

A cadela Beta é inesquecível e certamente vai se juntar a outros cães famosos da literatura brasileira, como a Baleia de Graciliano Ramos em Vidas Secas.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Atoms For Peace - Lançamento Amok

A superbanda Atoms For Peace, formada pelos geniais Thom Yorke (Radiohead), Flea (baixista do Red Hot Chili Peppers), o produtor Nigel Godrich, baterista Joey Waronker e o percussionista brasileiro Mauro Refosco terá o seu primeiro álbum "Amok", um dos trabalhos mais aguardados de 2013, lançado em 25 de fevereiro pela gravadora XL Recordings (ver aqui a nota do lançamento no site do Radiohead e aqui o site promocional do álbum).

A banda foi criada por Thom Yorke em 2009 com a finalidade principal de fazer a turnê do álbum solo do próprio Yorke, "The Eraser", mas acabou se transformando em um projeto paralelo que oferece uma oportunidade aos integrantes de desenvolver músicas mais experimentais, sem a pressão da mídia que sempre envolve os lançamentos do Radiohead ou Red hot Chili Peppers. Citando declaração de Yorke: "não sei onde o projeto do Atoms for Peace nos levará, e é exatamente isso que é o mais legal". Abaixo: "Judge, Jury and Executioner", uma das faixas de "Amok" liberada pela banda:

domingo, janeiro 27, 2013

J.M. Coetzee - Homem Lento

J.M. Coetzee - Homem Lento - Editora Companhia das Letras - 280 páginas - Lançamento 18/06/2007 - Tradução de José Rubens Siqueira.

Paul Rayment é um típico protagonista desesperançado de Coetzee, um personagem triste e solitário, fotógrafo aposentado aos sessenta, divorciado e sem filhos, também sem parentes próximos e pais já falecidos. Bem, a sua vida está para piorar muito quando ao voltar de suas compras rotineiras, de bicicleta, recebe uma violenta colisão de um carro dirigido por um jovem. O acidente que abre o romance terá consequências trágicas para Paul Rayment que, antes que possa perceber o que está ocorrendo, sofrerá uma intervenção cirúrgica de emergência e a amputação de sua perna direita, uma continuação brutal do acidente e que mudará radicalmente a sua forma de encarar as perdas.
"O choque o colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faisca elétrica, e levanta seu corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar (...) Como um gato, diz a si mesmo: role, depois se ponha de pé, pronto para o que vier em seguida (...) Mas não é bem assim que as coisas acontecem. Seja porque suas pernas desobedecem, seja porque de momento está tonto (ouve, mais do que sente, o impacto do crânio no asfalto, distante, oco, como um golpe de marreta), ele absolutamente não se levanta; ao contrário, desliza metro após metro, sem parar, até se sentir quase embalado pelo deslizar."
A maneira como Coetzee conduz o início do romance, do acidente até os primeiros cuidados no hospital, é simplesmente magistral. O nosso pobre protagonista está entregue à própria sorte em um mundo onde tudo parece estar envolto em uma "brancura inexorável" e tenta manter a sua dignidade, coisa que ele logo descobrirá ser impossível na sua condição atual. Esta luta contra a enfermidade, a velhice e a morte próxima é o tema principal deste romance, mas é uma luta muito desigual e injusta, como Coetzee não faz questão de esconder:
"O amor que ele pudesse ter tido pelo próprio corpo há muito desapareceu. Não tem interesse em consertá-lo, fazer com que volte a alguma eficiência ideal. O homem que era é apenas uma lembrança, e uma lembrança que depressa se apaga. Ainda tem a sensação de ser uma alma com uma vida anímica não diminuída; quanto ao resto, ele é apenas um saco de sangue e ossos que é forçado a carregar."
Paul Rayment tenta se agarrar a tudo o que ainda possa resgatar a sua humanidade ameaçada, inclusive a busca pelo amor na forma que for possível, mesmo que na imagem da enfermeira Marijana, imigrante croata casada e com três filhos, que o acompanha em casa durante a reabilitação.
"Um homem e uma mulher em uma tarde quente, por trás de portas fechadas. Podiam estar realizando um ato sexual. Mas não é nada disso. É apenas enfermagem, apenas cuidados (...) Uma frase da aula de catecismo de meio século atrás flutua em sua mente: 'não haverá mais homem e mulher, mas...' Mas o quê — o que seremos quando estivermos além de homem e mulher? Impossível para a mente mortal conceber. um dos mistérios."
Uma outra personagem famosa de dois romances anteriores do autor, a escritora Elizabeth Costello, alterego de Coetzee (ler aqui resenha do Mundo de K), entra na trama de maneira original e surpreendente, ajudando Coetzee a desenvolver as questões éticas e filosóficas da situação de Paul Rayment e a questão dos limites estreitos entre realidade e ficção.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Projeto Clouds 365 - com a cabeça nas nuvens


O fotógrafo Kelly DeLay teve uma daquelas estranhas ideias que podem ser consideradas loucas à princípio, mas que trabalhadas com paciência e dedicação acabam atingindo objetivos extraordinários. É o caso do projeto Clouds 365, premiado como o melhor blog do ano, categoria pessoal, pelo Webby Awards e selecionado no showcase da plataforma Wordpress. Kelly DeLay vem tirando fotos e produzindo vídeos de nuvens diariamente, desde 2009, totalizando quatro anos e 1304 dias de imagens até o momento, disponíveis no site, blog, twitter ou facebook. Segundo o autor, esta ideia representa o seu comprometimento em fazer algo criativo todos os dias por 365 dias ao ano, isso é o que eu chamo de ter a cabeça nas nuvens!

30/06/2010 - Ano 1 - from Kelly DeLay on Vimeo.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Principais concursos de fotografia em 2013


Com a recente popularização da fotografia digital podemos dizer que há sempre alguém com uma máquina disponível em todo lugar e a qualquer momento, mas isto nem sempre significa que existam hoje mais fotos originais ou de melhor qualidade artística do que no século passado, na verdade, na era da internet, a associação entre fotografia e arte tem sido cada vez mais rara (como provam as imagens que circulam diariamente no facebook). Uma boa novidade neste campo é o aumento dos concursos globais de fotografia com livre acesso de participantes. Selecionei alguns sites que oferecem sempre uma boa oportunidade de encontrar belas imagens em vários campos de atuação da fotografia, basta seguir os links, uma verdadeira postagem de utilidade pública.

Leica Oskar Barnack Award 2013 - Este é um concurso internacional patrocinado pela famosa câmera alemã Leica desde 1979, somente para fotógrafos profissionais e incluindo, à partir de 2009, uma categoria para fotógrafos de até 25 anos - "Newcomer Award". As inscrições estão abertas até 13 de março no próprio site e os termos e condições podem ser obtidos via download. Um juri internacional será responsável pela escolha dos vencedores.

Esta premiação é uma homenagem a Oskar Barnack (1879 - 1936), inventor do primeiro protótipo da Leica em 1914. Além do reconhecimento e divulgação internacionais obtidos com a participação, os vencedores da categoria principal receberão uma câmera Leica M com lentes no valor aproximado de 10.000 euros e um prêmio em dinheiro de 5.000 euros. 

Os vencedores da edição de 2012 do concurso Leica podem ser conhecidos clicando aqui.

O site de fotografias da tradicional revista National Geographic é um verdadeiro paraíso de imagens, não só na tradicional área de natureza e vida selvagem, mas também em categorias como pessoas e cultura, muitas das fotos estão disponíveis para download em alta resolução para wallpaper. Para o ano de 2013 ainda não foram divulgadas as condições de participação no concurso principal.

Na edição do concurso de 2012, a National Geographic, ofereceu um prêmio de US$ 10.000 para o vencedor, tendo sido feitas mais de 22.000 inscrições de 150 países, incluindo fotógrafos profissionais e amadores. 

Ver aqui a galeria de fotos vencedoras da edição de 2012 da National Geographic.

Nikon Photo Contest 2012 - 2013 - Este concurso é patrocinado pela Nikon desde 1969 para fotógrafos profissionais e amadores. As inscrições estão abertas até 28 de fevereiro no próprio site em uma das quatro seguintes categorias com tema livre: Fotos simples, Foto história (duas a cinco imagens que apresentem um tema ou ideia), Vídeo (45 segundos de duração) e Movimento (utilizando a função "Motion Snapshot" da câmera Nikon 1). Detalhes sobre os valores das premiações disponíveis no site.

Os arquivos dos vencedores de todas as versões anteriores do concurso Nikon podem ser vistos aqui.

PDN Photo Annual 2013 - Concurso organizado pela revista de fotografia Photo District News (PDN) aberto a fotógrafos profissionais e amadores com inscrições online até 29 de janeiro somente e taxa de inscrição de até US$ 45 por registro. As fotografias devem ter sido feitas, publicadas ou produzidas no período entre fevereiro/2012 e Fevereiro/2013 e os vencedores serão publicados na edição anual de junho da revista PDN com prêmio principal de US$ 15.000.

Para ver a galeria de vencedores da versão de 2012 da revista PDN clicar aqui.

Red Bull Illume Quest 2013 - Se você está interessado em fotos de esportes de ação e aventuras este é o concurso certo. Esta será a terceira edição da premiação depois de 2007 e 2010. Serão selecionadas, entre milhares de inscrições de fotógrafos amadores e profissionais, cinquenta imagens em dez categorias (ver detalhes das categorias aqui) por um juri internacional e editores de publicações especializadas de fotografia.

O formulário de inscrição deve ser preenchido online (clicar aqui) e as inscrições estão abertas até 30 de abril.

O vencedor geral da edição de 2010 e outros finalistas do Red Bull Illumel podem ser vistos aqui.

The Royal Photographic Society Awards 2013 - Fundada em 1853, esta é a mais antiga sociedade de fotografias do mundo com a finalidade de promover a arte e a ciência da fotografia. Existem atualmente quinze categorias neste concurso para fotógrafos profissionais e a inscrição pode ser feita online através deste formulário até 22 de fevereiro. A organização talvez seja um tanto o quanto pretensiosa, mas tem todo o charme do velho mundo e do antigo império britânico.

Para conhecer os vencedores da edição 2010 da Royal Photographic Society clicar aqui.

Sony World Photography Award 2013 - Este concurso foi criado em 2008 e é dividido em vários níveis, de acordo com o nível de experiência dos participantes, desde fotógrafos inexperientes até profissionais. As categorias existentes são: Open Competition, Youth Award e 3D, com duas novas categorias acrescentadas em 2013: Student Focus e Moving Image.

As inscrições do concurso da Sony infelizmente já se encerraram, sendo que a lista de finalistas será anunciada em 5 de fevereiro e os vencedores em abril. 

Todos os detalhes sobre o calendário de atividades e regulamento podem ser encontrados no site da World Photography Organisation, inclusive a galeria de vencedores de 2012, clicando aqui.

The 2013 World Press Photo Multimedia Contest - Na área de fotojornalismo não existe concurso mais conceituado do que o da fundação World Press que foi fundada em 1955 para operar de forma independente e sem fins lucrativos. Esta será a edição número 56 da premiação e as inscrições encerraram em 10 de janeiro. Os vencedores serão escolhidos de 02 a 14 de fevereiro por um juri internacional no escritório da organização em Amsterdam.

Algumas imagens da World Press ajudaram a marcar importantes eventos da história recente como a menina nua correndo depois de um ataque com napalm no Vietnan, o monge budista que ateou fogo em seu próprio corpo, o homem solitário que protestou contra uma coluna de tanques na China e muitas outras fotos icônicas do nosso tempo. 

Visitar aqui o imperdível site da World press com a galeria histórica de fotos da fundação.

Communication Arts Photography Competition 2013 - A revista Communication Arts, fundada em 1959, é referência na área de comunicação visual para designers gráficos, diretores de arte, ilustradores e fotógrafos. Anualmente ela promove concursos nos ramos da propaganda, design, ilustração, fotografia e tipografia.

As fotos produzidas no período de março/2012 a março/2013 de qualquer país podem ser admitidas no concurso que tem data limite para registro até 15 de março e taxa de inscrição com valor dependente da categoria. Informações detalhadas e formulário online no site do concurso.

Ver aqui as galerias das edições anteriores do concurso da Communication Arts.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Haruki Murakami - 1Q84

Haruki Murakami - 1Q84 (Livro 1) - 432 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Tradução direta do japonês de Lica Hashimoto - Lançamento no Brasil 2012 (lançamento original no Japão em 2009). Ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Murakami acertou em cheio com esta trilogia 1Q84, um verdadeiro evento no mundo editorial, tendo já ultrapassado 4 milhões de exemplares vendidos no Japão, e um golpe de mestre de um dos maiores autores contemporâneos. O romance completo é extremamente ambicioso, tanto pela sua extensão de mil páginas quanto pela liberdade de estilo. Aqui no Brasil a decisão da editora foi respeitar o formato da publicação original japonesa em três volumes (o segundo volume será lançado em março de 2013 e o terceiro ainda está sendo traduzido, sem data prevista de lançamento), diferente da tradução americana da editora Knopf que lançou todos os volumes em um único calhamaço. Este "Livro 1" dispara em alta velocidade narrativa, ritmo cinematográfico mesmo, misturando literatura policial noir com muito suspense e ficção científica, como sempre repleto de referências culturais ocidentais e orientais, estratégia que Murakami sempre conduziu muito bem em todos os seus livros anteriores que o fazem um candidato permanente ao Nobel de literatura todos os anos.

Os dois protagonistas conquistam o leitor logo de início, tanto a misteriosa assassina de aluguel chamada Aomame (ervilha verde) quanto o professor de matemática e aspirante a escritor,  Tengo, conduzem a trama em uma sequência de capítulos intercalados que avançam em paralelo e revelam aos poucos a relação dos dois que tem origem em uma antiga paixão infantil. Ambos vivem em Tóquio e têm por volta de trinta anos em 1984, ano em que se passa a parte principal da narrativa em uma referência ao famoso romance de George Orwel. Aomame e Tengo são igualmente solitários e resolvem o problema do sexo com relações sem amor, ela com homens que encontra em bares e ele mantendo um caso com uma mulher mais velha e casada. Separados desde crianças, o destino dos dois vai se aproximando à medida que o romance progride (o próprio Murakami resumiu absurdamente o motivo do livro com a seguinte frase: "um garoto encontra uma garota, eles se separam e buscam um ao outro").

Aomame ganha a vida como professora de artes marciais para mulheres se defenderem de ataques mas, nas horas vagas, presta serviços para uma estranha organização que protege mulheres agredidas sexualmente em seus lares por maridos cruéis (talvez uma crítica ao machismo da sociedade japonesa), providenciando a "eliminação" dos homens agressores. Aos poucos, através de imperceptíveis desvios da história, ela descobre que está vivendo em um mundo paralelo com duas luas que decide chamar de 1Q84, com a letra Q de "Question mark"; um quê de dúvida, de interrogação. A cultura japonesa da disciplina e autocontrole está sempre permeada pelos personagens, mesmo nas situações mais absurdas. Aomame, por exemplo, domina uma técnica singular para matar, perfurando uma agulha em um ponto preciso da nuca de suas vítimas e provocando a morte instantânea, sem evidência de sangue, o que caracteriza a morte como um ataque cardíaco.

Tengo também é extremamente disciplinado, domina a técnica de escritor, mas ainda não conseguiu escrever um romance original quando recebe uma proposta do editor de uma famosa revista literária para reescrever o romance "A crisálida de ar" de uma bela e enigmática jovem escritora de dezessete anos (disléxica) que, apesar de brilhante e original nas ideias, carece justamente de um texto organizado. Tengo se apaixona pelo livro e decide assumir a empreitada, ciente dos riscos para a sua futura carreira literária. Esta escritora é, na verdade, fugitiva de uma perigosa seita religiosa chamada Sakigake e a notoriedade trazida pelo romance será uma ameaça a todos.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Na era dos dispositivos móveis

Foto de Evan Baden - Lila com Nintendo DS
A imagem acima pode lembrar uma menina lendo um livro escondida dos pais, embaixo das cobertas, após a hora de dormir, talvez um ótimo romance. Mas na verdade ela está brincando com o seu dispositivo Nintendo DS. O fotógrafo Evan Baden criou em 2007 uma série de fotos com o título "The Illuminati" onde chamava a atenção para a relação dos jovens com os seus dispositivos móveis (smartphones, computadores, jogos etc) através de aproximações de seus rostos iluminados pelas telas, como em uma pintura clássica.

Evan Baden esteve no Brasil em 2011 no Festival Internacional de Fotografia de Paraty onde apresentou também a série "Technically Intimate" que mostra jovens mais crescidinhos abrindo mão de sua intimidade em fotos de conotação sexual. O assunto está mais atual do que nunca e parece incrível que toda esta parafernália eletrônica tenha sido inventada há tão pouco tempo e se tornado indispensável em nossas vidas. Bem, não quero parecer um velho reacionário, até porque a maior parte do meu dia útil é gasta em frente a uma tela, mas as fotos nos fazem refletir se não há algo estranho com esses olhares perdidos.

Fotos de Evan Baden - Série "Illuminati"
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