sexta-feira, agosto 28, 2015

Londres por Andrew Ingamells

Andrew Ingamells - London 2.000 
Andrew Ingamells, designer gráfico e ilustrador, é especialista em gravuras e temas arquitetônicos, principalmente no Reino Unido, mas também em outros países. A ilustração acima, por exemplo, foi desenvolvida para a Sociedade Topográfica de Londres em comemoração aos 2.000 anos da cidade e apresenta aproximadamente 100 construções típicas, incluindo a Torre de Londres, Catedral de St. Paul e Westminster (clique na imagem para ampliá-la). O site oficial de Andrew apresenta vários exemplos de trabalhos dele ao redor do mundo, como os Duomos de florença, Pisa e Siena ou a Catedral de San Marco em Veneza. Mas as ilustrações de Londres são mesmo as mais bonitas, como a imagem em cores vivas abaixo da Catedral St. Paul contra o céu que mais parece uma foto.

Andrew Ingamells - St Paul's

sexta-feira, agosto 21, 2015

Jack London - The Call of the Wild

Jack London - The Call of the Wild - Penguin Books - Puffin Classics - 150 páginas (publicado no Brasil como "O Chamado Selvagem" pelas Editoras Hedra, RoccoEdiouro (tradução e adaptação de Clarice Lispector) e "O Chamado da Floresta" pela LPM).

A vida de Jack London foi bastante movimentada e repleta de aventuras: operário, jornalista, garimpeiro, marinheiro nos mares do sul ou cruzando os EUA de trem como vagabundo, ele ainda encontrou tempo para publicar diversos contos e romances, a maioria com base em suas próprias experiências e as forças da natureza, entre eles "O chamado selvagem" (1903), "O lobo do mar" (1904), "O jogo" (1905), "Caninos brancos" (1906) — lançado pelo selo Penguin-Companhia das Letras em 2014 — e "O tacão de ferro" (1908). Morreu relativamente jovem aos quarenta anos, suspeita-se que por suicídio, através de uma overdose de morfina.

O protagonista de "The Call of the Wild" ("O chamado selvagem") é o cachorro Buck que, roubado de uma fazenda na California, é vendido durante a febre da corrida do ouro de 1897 (da qual participou o próprio Jack London) para atender à demanda de cães de trenó, única forma de transporte possível no Alasca. Buck é descendente de um são bernardo com pastora escocesa e a sua forte constituição física irá facilitar a adaptação às condições extremas da região. O comportamento selvagem dos homens (principalmente) e animais fará com que Buck as poucos sofra uma série de tansformações ao descobrir e utilizar os seus instintos naturais na luta pela sobrevivência.

Jack London conseguiu um resultado de extrema sensibilidade e ao mesmo tempo convincente ao utilizar com criatividade cachorros e lobos como personagens, sem cair na armadilha do sentimentalismo fácil. O livro tem sido enquadrado normalmente na categoria juvenil, mas atinge um caráter muito mais universal ao lidar como poucos outros romances na literatura com as reações do homem em condições inóspitas, através do processo de "amadurecimento" de Buck, bem mais humano do que os próprios humanos. Um clássico indispensável em qualquer biblioteca (para ter acesso à versão online do romance em inglês, no site do autor, clique aqui).
"A verdadeira função do homem é viver, não existir. Eu não gastarei meus dias tentando prolongá-los. Eu usarei meu tempo." - Jack London (1876 - 1916)

segunda-feira, agosto 17, 2015

Mia Couto - Terra Sonâmbula

Mia Couto - Terra Sonâmbula - Editora Companhia das Letras - 208 páginas - Lançamento: 11/06/2004 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões 2013 e primeiro autor em língua portuguesa a ser selecionado como finalista do Man Booker International Pize na sua última versão de 2015, já é um nome consagrado na literatura mundial e que fiquei conhecendo pela primeira vez através de uma citação dele relacionada com a África, mas igualmente verdadeira para o Brasil e outras ex-colônias: "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos". E não são justamente "ricos" o que melhor produzimos no Brasil? É claro que toda literatura africana não pode ser dissociada de sua carga política, mas o lirismo e poesia com que Mia Couto reveste os seus romances são difíceis de encontrar em outros autores contemporâneos. Na obra de Mia Couto sentimos a influência de José Saramago na preocupação com os temas sociais, Guimarães Rosa na originalidade de construção do texto e finalmente Gabriel García Márquez através da herança do realismo mágico latino-americano enriquecido pelos mitos e lendas da África. O trecho abaixo mostra o esforço poético da construção de cada frase ao longo do romance:
"Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz." (pág. 15).
Terra Sonâmbula foi lançado originalmente em 1992 e considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um juri organizado pela Feira do Livro do Zimbabwe. Após a independência de Moçambique em 1975, seguiu-se uma longa e cruel guerra civil durante o período de 1976 a 1992, quando morreram um milhão de pessoas de fome e em decorrência dos combates. É neste cenário de morte e destruição que encontramos o velho Tuahir e o menino Muidinga procurando sobreviver. Tuahir salvou o menino, abandonado e doente, de ser enterrado vivo em um campo de refugiados de guerra. Agora os dois caminham pela triste estrada morta onde "só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras".
"Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós." (pág. 201).
Tuahir e Muidinga encontram os restos de um ônibus incendiado e decidem utilizá-lo como abrigo após recolher os corpos carbonizados, ao lado dos destroços encontram também o corpo de um jovem assassinado e uma mala com cadernos manuscritos. À partir deste ponto o romance avança em capítulos alternados entre o presente dos protagonistas e os relatos dos cadernos, uma espécie de diário de Kindzu, outro jovem que teve a sua vida interrompida pela guerra civil. A leitura dos doze cadernos abre caminho para uma série de histórias e fantasias com base na tradição africana e a dura realidade da guerra, uma chance para encontrar a dignidade roubada dos personagens com a ajuda dos sonhos e da literatura.

quarta-feira, agosto 12, 2015

Brasil: Uma Biografia - Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling

Brasil: Uma Biografia - Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling - Editora Companhia das Letras - 792 páginas - Lançamento: 27/04/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Não há dúvidas sobre o fato de estarmos vivendo um momento crítico e, talvez, transformador da nossa postura política, tanto por parte da sociedade quanto dos nossos representantes no Congresso. A urgência de saber mais sobre o Brasil e a trajetória que percorremos para chegar até aqui, torna a leitura desta "biografia" não autorizada muito oportuna. A interpretação do nosso passado, sendo ele remoto ou recente, muitas vezes se confunde com a ficção e o conhecimento de certas peculiaridades que influenciaram a formação da identidade nacional e do patrimônio artístico e cultural do nosso país não se apresenta como tarefa simples, mesmo para historiadores experientes, quanto mais para o leitor leigo que carrega na sua bagagem um conhecimento superficial aprendido na escola e muitas vezes manipulado ou produzido de acordo com interesses políticos e econômicos. As autoras, para contar uma nova história entre muitas outras possíveis, reuniram vasto material de referência, incluindo imagens, sem tornar o livro excessivamente acadêmico, seguindo um estilo iniciado por Boris Fausto e mais recentemente por Laurentino Gomes, autores que facilitam o entendimento do grande público, sem comprometer o rigor do fato histórico. 

O período coberto pelo livro tem início antes do descobrimento — ou "invasão" em uma interpretação mais moderna — e procura interpretar os principais ciclos econômicos ao longo de mais de quinhentos anos de história, o ciclo da cana, por exemplo, que estabeleceu o sistema escravocrata, também conhecido como
"infame comércio de almas", como base do sistema produtivo que possibilitou o desenvolvimento da colônia no período seiscentista, mas deixou marcas profundas e uma herança de violência em nossa sociedade que já nascia em um ambiente formado por contrastes brutais, uma mistura de paraíso e inferno na terra, representado pela "civilização do açúcar" e suas etapas produtivas nos engenhos: processamento da cana, transporte, manutenção e administração. Esta dependência da mão de obra escrava fez com que o Brasil fosse o último país a abolir a escravidão no Ocidente em 1888, uma das muitas razões para o racismo dissimulado que ainda persiste em nossa sociedade até o presente momento. 
"A essas alturas, o tráfico negreiro constituía um negócio dos mais lucrativos, e alguns senhores tinham mais interesse em 'repor' um escravo morto que em ajudar na longa e dispendiosa criação de sua 'propriedade'. Por sinal, a imagem difundida de que a escravidão brasileira teria sido mais amena que a norte-americana, uma vez que por lá teriam existido engenhos especializados na 'criação de escravos', é mais teórica do que real. Os motivos que explicam tal conduta nada têm de humanitários, e são o mais das vezes de ordem pragmática e comercial. Era custoso manter um escravo criança até que atingisse a idade produtiva. Portanto, melhor comprar um 'novo' nos mercados abertos das cidades, os quais expunham os africanos como peças, coisas e bens. Os preços também variavam conforme o 'uso': mulheres e crianças eram menos bem avaliadas que homens e adultos. Antes dos oito anos eram crianças, depois dos 35, velhos, pouco aproveitáveis no trabalho pesado da cana. O 'envelhecimento' ocorria cedo, assim como o fim da adolescência: a partir de oito anos e até os doze um escravo já era classificado como adulto (...) a civilização do açucar originou um local de extremos: o doce da cana se fez às custas do travo da escravidão. Um mundo verdadeiramente novo, no sentido de diferente, ia sendo criado. Amargo açúcar, ardida doçura." (págs. 77 e 78).
A transferência da família real, ameaçada por Napoleão na Europa e, consequentemente, a mudança da própria administração da metrópole para o Brasil, promovido à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves, é um dos fatos políticos mais marcantes da formação de nossa identidade nacional. Em 1808, a colônia transformava-se em sede do império português, uma inversão de valores nunca antes vista na história, e que provocou uma série de ações progressistas como a criação do Banco do Brasil no mesmo ano, além do banho de civilização recebido pela cidade do Rio de Janeiro. No entanto a logística para a mudança da corte e todo o aparato da monarquia não foi nada simples, envolvendo o transporte de aproximadamente 15 mil pessoas, assim como os transtornos decorrentes desta verdadeira população que enfrentou todo o tipo de problemas durante a travessia do Atlântico, desde a falta de acomodações e condições precárias de higiene a bordo das naus da esquadra portuguesa até a insuficiência de provisões.
"E o plano era complexo. Afinal seguiriam viagem, junto com os Bragança, alguns poucos funcionários selecionados, mas também várias famílias — as dos conselheiros e ministros de Estado, da nobreza, da corte e dos servidores da casa real. Não eram indivíduos isolados que fugiam às pressas, e sim a sede do Estado português que mudava de endereço, com seu aparelho administrativo e burocrático, seu tesouro, suas repartições, secretarias, tribunais, arquivos e funcionários. Acompanhava a rainha e o príncipe regente tudo aquilo que representasse a monarquia: os personagens, os paramentos, os costumeiros rituais de corte e cerimoniais religiosos, as instituições, o erário, os emblemas... Enfim todo o arsenal necessário para sustentar a dinastia e os negócios do governo de Portugal e a eles dar continuidade" (pág. 163).
A independência do Brasil, declarada por d. Pedro I em 1822, e o fim da monarquia foram eventos conduzidos surpreendentemente pela própria monarquia, como resultado de uma estratégia política de manutenção do poder, procedimento inusitado e inédito na história das colônias. A solução de continuidade "parecia uma contradição em seus próprios termos, dado que na conjuntura era difícil imaginar um processo de emancipação nas Américas sem prever, como decorrência, a instalação de um regime republicano". De qualquer forma, através de uma transição gradual e da implementação de uma "monarquia constitucional representativa", que ainda durou 67 anos, acabamos chegando à proclamação da república somente em 1889, encerrando a soberania de d. Pedro II e instituindo o marechal Deodoro da Fonseca como o primeiro presidente da república.

Outros marcos importantes foram os sucessivos governos da era Getúlio Vargas, o primeiro período de 1930 a 1945 que culminou na ditadura do Estado Novo e o período em que foi eleito democraticamente, de 1951 até o seu suicídio em 1954, fato que o eternizou na memória do povo como um herói da pátria. Não há como não admitir a importância dos avanços sociais (principalmente na área trabalhista) e entre os maiores feitos de Getúlio podemos destacar a criação da carteira de trabalho em 1932, os direitos trabalhistas da Constituição de 1934, a Companhia Siderúrgica Nacional em 1941, a Companhia Vale do Rio Doce em 1942, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) em 1943, o BNDES em 1952 e finalmente o monopólio estatal do petróleo com a fundação da Petrobras em 1953.

O Plano de Metas, "cinquenta anos em cinco", de Juscelino Kubitscheck, foi certamente fundamental para o desenvolvimento do país e a inauguração de Brasília em 1960 o fruto de "uma conjunção rara de quatro loucuras: a de JK, de Israel Pinheiro, Niemeyer e Lúcio Costa" como bem resumiu Otto Lara Resende, mas o que definitivamente não poderia faltar em uma obra como esta foi o sofrido processo de redemocratização iniciado em 1985 com a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio eleitoral, a posse forçada de José Sarney devido à inesperada morte de Tancredo e a eleição direta de Fernando Collor em 1989  a primeira realizada pelo voto popular desde 1961 — encerrando o longo período de governo dos militares que se alternaram no comando do poder Executivo, através dos generais: Castello Branco (1964-67), Costa e Silva (1967-69), Garrastazu Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79) e João Figueiredo (1979-85).
"Em 1975, as versões de suicídio divulgadas pelos militares tinham virado rotina: quase cinco meses antes da morte de Herzog, o tenente José Ferreira de Almeida também teria se suicidado na mesma cela, com outra tira de pano que não existia e na mesma posição. Pouco mas de dois meses após o assassinato de Herzog, a morte do operário Manoel Fiel Filho, nas dependências do Codi-DOI paulista, produziu versão idêntica. Fiel Filho foi o 39° caso de suicídio de prisioneiro político da ditadura e o 19º a se enforcar — em dois desses casos, os presos teriam se enforcados sentados." (pág. 472)
A história é contada até a eleição de 1994, conquistada por Fernando Henrique Cardoso devido ao plano Real (o livro oferece uma tabela cronológica muito prática em seu final que compara importantes marcos históricos do Brasil e do mundo) e chegamos finalmente aos eventos mais recentes com os governos sucessivos do PT, à partir da primeira eleição de Lula em 2003, sua reeleição em 2006 e os dois mandatos de Dilma Rousseff, desde 2011 até a crise de popularidade atual devido às investigações sobre o mensalão e da operação lava jato, escândalos que atingiram as lideranças do PT, Diretores da Petrobras e as principais empresas construtoras brasileiras. Um livro assim ficará sempre incompleto mas, por outro lado, nos leva a refletir sobre a importância do momento histórico que estamos vivendo e a responsabilidade de preservar os valores democráticos.

segunda-feira, agosto 03, 2015

National Geographic - Traveler Photo Contest 2015

Whale Whisperers
Divulgados os vencedores da versão 2015 do concurso Traveler Photo Contest da National Geographic. A primeira colocada na categoria de cenas externas é a foto acima, "Whale Whisperers", de Anuar Patjane do México (siga o link para outras imagens incríveis deste fotógrafo no site oficial da revista) que foi escolhida entre 18 mil concorrentes e capta um momento mágico entre mergulhadores e uma baleia jubarte com seu filhote próximo à ilha de Roca Partida na costa ocidental do México (clique na foto para ampliá-la).

Gravel Workmen
A segunda colocada na categoria de retratos de viagem (a minha preferida) é a foto acima, "Gravel Workmen" do indiano Faisal Azim, assim como outros trabalhos dele (siga o link para conhecer) é uma explosão de cores e motivos exóticos representando a vida em Bangladesh. A foto conseguiu um efeito surpreendente ao registrar os olhares fixos dos trabalhadores através da janela empoeirada, quase o efeito de uma pintura surrealista. Para conhecer todo os concorrentes desta versão do Traveler Photo Contest clique aqui.

quarta-feira, julho 29, 2015

Finalistas do Man Booker Prize 2015

Longlist do Man Booker Prize 2015
Divulgada hoje a lista dos 13 finalistas (longlist) do Man Booker Prize, versão 2015. Segundo o procedimento da organização, a lista de 06 finalistas (shortlist) será anunciada em 15 de Setembro e o vencedor em 13 de Outubro. O valor da premiação será de 50 mil libras, aproximadamente 70 mil euros, além da certeza de um incremento substancial nas vendas do romance devido ao prestígio internacional e poder de divulgação.

Pela segunda vez na história do Man Booker Prize, poderão concorrer ao prêmio escritores de qualquer nacionalidade, desde que escrevam em inglês e tenham publicado a sua obra no Reino Unido. Este ano, por exemplo, temos um jamaicano, Marlon James, selecionado pela primeira vez com um interessante romance baseado na tentativa de assassinato de Bob Marley na violenta Jamaica dos anos setenta. Segue abaixo a relação completa com links para mais informações sobre os autores e romances selecionados.

    Bill Clegg (EUA) - Did You Ever Have a Family

    Anne Enright (Irlanda) - The Green Road

    Marlon James (Jamaica) - A Brief History of seven Killings

    Laila Lalami (EUA) - The Moor´s Account

    Tom McCarthy (Reino Unido) - Satin Island

    Chigozie Obioma (Nigéria) - The Fishermen

    Andrew O'Hagan (Reino Unido) - The Illuminations

    Marilynne Robinson (EUA) - Lila

    Anuradha Roy (Índia) - Sleeping on Jupiter

    Sunjeev Sahota (Reino Unido) - The Year of the Runaways

    Anna Smaill (Nova Zelândia) - The Chimes

    Anne Tyler (EUA) - A Spool of Blue Thread

    Hanya Yanagihara (EUA) - A Little Life

domingo, julho 26, 2015

Noemi Jaffe - Írisz: as orquídeas

Noemi Jaffe - Írisz: as orquídeas - Editora Companhia das Letras - 224 páginas - Lançamento 19/05/2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Esta é uma resenha que já nasce com o senso objetivo comprometido, neste caso, por dois motivos particulares: primeiro a ligação afetiva com o difícil idioma húngaro devido à minha ascendência (meu pai foi um entre tantos imigrantes húngaros). Em segundo lugar, o fato de eu ter morado por longos períodos no exterior em diferentes épocas da minha vida, muito recentemente por dez meses no Japão. Logo, alguns dos elementos que funcionam como uma espécie de matéria-prima neste romance, como a adaptação do estrangeiro em uma terra distante, são próximos à minha experiência pessoal. É o caso de Írisz que vem morar em São Paulo fugindo de Budapeste após a frustrada revolta húngara de 1956, debelada violentamente pela União Soviética através do envio de tropas e tanques para a Hungria. A relação da protagonista com a descoberta do idioma português (outra língua-ilha como bem define a autora), o aprendizado da cultura brasileira e a sofrida ligação com seu país de origem são temas desenvolvidos com muita sensibilidade por Noemi Jaffe, como percebemos no trecho abaixo:
"Estar em um país estrangeiro e não saber falar a língua local é estar alheio e encapsulado no espaço, no tempo, no corpo e na alma. Na ignorância da língua, o estrangeiro é completamente estrangeiro. Ser estrangeiro é ser estranho — 'não pertencente a', e é do não pertencimento que vem a conotação negativa de 'estranho', palavra que não é originalmente pejorativa. (...) Não pertencer pode ser libertador e permitir aos estrangeiros viver num tempo mais lento, observador e menos comprometido com as funções e metas dos nativos, preocupados com tarefas em grande parte assumidas pela língua que dominam (e que os domina também). (...) O estrangeiro olha: não entende nada, mas entende algumas coisas melhor do que os locais: enxerga detalhes. Vê, no todo, as partes que já se incorporaram ao hábito do nativo e das quais ele não mais se dá conta." (págs 99 e 100).
Írisz é uma botânica que vem trabalhar no Brasil com orquídeas, essas peculiares flores de raízes aéreas que logo percebe, assim como ela, são frágeis e dependentes porque "brotam no ar, no alto de outros seres fincados na terra". É através dos inusitados relatórios técnicos sobre as orquídeas, preparados por Írisz, que nós e também Martim, diretor do Jardim Botânico de São Paulo e um comunista desiludido, ficamos conhecendo detalhes do seu passado na Hungria e a história dos que ficaram por lá.

Imre (típico nome húngaro, assim como Sandor que significa Alexandre), um amor que ela deixou e que ficou para lutar por uma revolução impossível, alguém que desejava a liberdade a qualquer custo, contudo Noemi Jaffe nos ensina como o desejo às vezes pode ser uma coisa enganosa nesta bela passagem: "Quando alguém acredita tanto na própria vontade, é preciso começar a duvidar, porque o desejo fica parecido com a fé." (pág. 27). 

Írisz abandona Imre e a mãe doente Eszter na Hungria. O misterioso pai, Ignác, de quem ela nada sabe desde que tinha seis anos é só uma lembrança distante. Segundo Írisz, "fugir é o lugar do homem e até ficar tantas vezes é fugir". A palavra que ela usa quando se encontra com Imre pela última vez é 'szia', uma expressão que tanto quer dizer "oi" como "tchau" no intrincado idioma húngaro. Trabalhando com os contrastes e significados da linguagem nos dois idiomas a autora acabou fazendo uma linda homenagem à literatura.
"A verdade é um punhado de palavras, só isso. E as palavras, que deveriam ter pouca importância, que deveriam ser versáteis, elas não são; elas se fixam e grudam na pessoa, mais do que qualquer outra coisa. Mais do que os gestos, os fatos, os números ou os grandes acontecimentos. No fim das contas, a própria história se transforma em palavras." (pág. 205).
Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de "A verdadeira história do alfabeto", vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e "O que os cegos estão sonhando?", entre outros.

sexta-feira, julho 24, 2015

Cadernos de Literatura

Cadernos de Hilda Hilst e Rubem Braga
O Instituto Moreira Salles (IMS) liberou em seu blog uma seleção de Cadernos de Literatura Brasileira digitalizados para acesso online. Esta série começou a ser produzida em 1996 e foram publicados em formato impresso um total de 27 exemplares, apresentando ensaios, depoimentos, entrevistas, manuscritos inéditos e registros fotográficos sobre importantes autores da nossa literatura. Para ter acesso online aos exemplares digitalizados de Hilda Hilst, Rubem Braga, Machado de Assis, Mario Quintana, Ferreria Gullar e muitos outros, clique aqui.

O IMS, além de catálogos de exposições, livros de fotografia, literatura e música, publica regularmente as revistas Zum, sobre fotografia contemporânea do Brasil e do mundo e Serrote, de ensaios e ideias.

quarta-feira, julho 22, 2015

Haruki Murakami - O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação

Haruki Murakami - O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - 328 páginas - tradução direta do japonês por Eunice Suenaga - Lançamento 01/11/2014 (Ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Poucos escritores contemporâneos desfrutam do privilégio de terem seus lançamentos aguardados com uma devoção similar à que as gerações passadas antecipavam os últimos discos dos Beatles ou Bob Dylan, é assim que Patti Smith inicia sua resenha sobre este romance de Haruki Murakami no New York Times (por sinal, qual outro autor hoje poderia se dar ao luxo de ter uma resenha escrita por Patti Smith com ilustração de Yuko Shimizu em um jornal deste nível?). Existem algumas explicações para o fenômeno Murakami em todo o mundo — principalmente no Japão, onde este romance vendeu no ano passado mais de um milhão de cópias na primeira semana — mas seria muito simplista classificá-lo como um ícone da cultura pop, resultado de marketing pessoal ou editorial. A cada novo romance ele permanece fiel ao seu estilo único que não é oriental nem ocidental, longe das características de um "best seller" tradicional, a sua popularidade parece originar-se mais da nossa identificação com as suas delicadas fábulas modernas onde, em mundos reais ou imaginários, o tema central é sempre a solidão do homem nas grandes cidades e a sua busca por algum significado.

Sobretudo neste último livro, que é menos fantasioso e mais existencial, em cada página acompanhamos gradativamente as descobertas do fragilizado protagonista Tsukuro Tazaki ao tentar vencer o trauma de ter sido abandonado por um grupo de amigos que ele mantinha desde a escola de ensino médio em Nagoia. O grupo era uma espécie de "comunidade que se harmonizava de forma adequada", composto por Tsukuro e mais quatro amigos de personalidades marcantes, cada um com uma cor na composição do ideograma do sobrenome, dois rapazes: Akamatsu ("pinheiro vermelho") e Ômi ("mar azul"), e duas moças: Shirane ("raiz branca") e Kurono ("campo preto"). Somente Tsukuro não tinha esta característica em seu nome, por isso se considerava como "incolor" e achava também, que assim como a ausência de cor no nome, também não tinha nenhuma peculiaridade marcante na sua formação de que pudesse se orgulhar ou exibir, normal, uma pessoa sem atrativos, sentia-se como um "recipiente vazio".

À partir do momento em que é sumariamente banido do grupo sem quaisquer explicações, já morando em Tóquio onde cursava uma faculdade de engenharia, a vida de Tsukuro fica profundamente marcada porque, mesmo não entendendo, ele não consegue ao menos questionar a decisão dos ex-amigos e acaba perdendo completamente o contato com os quatro que permaneceram na cidade de Nagoia. Sem outra alternativa, ele leva a sua vida adiante, trabalhando no projeto e construção de estações de trem. Dezesseis anos depois, Tsukuro conhece Sara, por quem se interessa a ponto de contar toda a sua história e confessar o vazio emocional causado pela perda. Ela o convence a tentar reencontrá-los e entender os motivos que provocaram a sua rejeição e afastamento. Esta busca pela verdade fará com que Tsukuro enfrente uma longa viagem até a Finlandia, mas a jornada mais difícil é aquela que ele precisará fazer para conhecer e superar seus próprios medos e inseguranças.

Um romance que emociona pela simplicidade e sensibilidade com que Murakami descreve os impasses existenciais de seu protagonista, além de todas aquelas maravilhosas e inusitadas referências musicais que sempre amamos nos seus romances, desta vez, "Le Mal du Pays", uma composição para piano, parte de um album triplo de vinil com o conjunto de suítes "Anos de Peregrinação" de Liszt ou "Round Midnight" de Thelonious Monk, interpretada por um misterioso pianista que tem data marcada para morrer. Um livro muito recomendado, tanto para iniciados quanto para os que ainda não leram nada de Haruki Murakami, para citar novamente a resenha de Patti Smith e ela certamente entende do assunto.

domingo, julho 19, 2015

Granta Vol. 12 - Líbano e Síria

Revista Granta Vol. 12 - Líbano e Síria - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2014 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Como não poderia deixar de ser, a maior parte dos contos desta seleção da Granta é relacionada de alguma forma aos conflitos e atrocidades ocorridos na região do Líbano e Síria, seja em nome da etnia, da religião ou de ambos, sempre permeados por uma sensação de diário ou correpondência de guerra. É o caso dos textos selecionados de Jonathan Littell, Robert Fisk e Janine di Giovanni todos francamente realistas e, infelizmente, atuais. Neste estilo, fiquei um pouco decepcionado com "Diários da Síria" de Jonathan Littellautor do magistral romance histórico "As Benevolentes" (ler aqui resenha do Mundo de K), que entrou clandestinamente na Síria em 2012 para escrever uma séria de reportagens sobre a guerra civil a serem publicadas no jornal francês Le Monde. O resultado é um diário de guerra excessivamente documental e praticamente ininteligível para os não iniciados no conflito sírio da época. Nada contra os textos documentais, mas sempre se espera mais de um autor deste nível.

Os autores brasileiros fazem boa presença nesta edição com Ronaldo Correia de Brito em bela homenagem aos imigrantes libaneses no Recife através do conto "Helicópteros", onde destaca a influência da culinária libanesa e a comparação entre a violência do Oriente Médio e Brasil. A jovem Luisa Geisler também faz bonito no criativo e divertido "Eu sou o silêncio do mundo (e tão perto de casa)", que quebra um pouco o clima pesado e sério, tendo como cenário uma lanchonete Habib's, entre kibes e esfihas, e começando logo assim: "Eu não gosto muito do Habib´s, é o que eu digo para a minha namorada-que-talvez-seria-minha-esposa-se-não-fôssemos-um-casal-lésbico enquanto ela já desce do carro.". Dá vontade de continuar lendo não é mesmo? Completando o time de brasileiros, Guga Chacra com "São Paulo, Líbano", um ensaio sobre a imigração sírio-libanesa e Sidney Rocha com "Os Nehemy", ficção com base em uma tradicional família libanesa vivendo no Brasil.

Entre os escritores estrangeiros, destaque para o libanês Rachid El-Daif com seu humor sarcástico. Conforme nos ensina a nota preliminar do professor Mamede Jarouche este humor já fica claro em seu primeiro romance "Prezado senhor Kawabata" (escrito na forma de uma carta ao escritor japonês Yasunari Kawabata, definido por ele como "o único árabe que pode me entender"). Muito bonito o conto da norte-americana Claire Messud, finalista do Man Booker Prize em 2006, com "A estrada para Damasco", onde uma filha tenta encontrar uma Beirute que só existe no passado de seu pai.

Esta edição é, principalmente, uma homenagem importante e merecida da Granta à influência cultural do Líbano e Síria no Brasil, marcante como percebemos pelos descendentes de uma imigração que é presente na história através de nomes como: Raduan, Maluf, Salim, Haddad, Amin, Dualib, Nabi Chedid, Adib Jatene, Nizan Guanaes, Sayad, Temer, Kfouri, Amyr Klink e mais tantas outras famílias que ajudaram a construir o nosso país.

quinta-feira, julho 16, 2015

O Apocalipse por Michal Karcz

Permafrost - Michal Karcz
O polonês Michal Karcz utiliza a união da pintura e fotografia digital para criar um estilo único que representa a sua viagem a mundos imaginários. Quando jovem, Michal descobriu que as técnicas da pintura seriam insuficientes para expressar as suas intenções artísticas, então adotou a fotografia convencional e, mais tarde, todo o potencial dos softwares de manipulação digital como o photoshop. Recomendo clicar nas imagens para ampliá-las.

Purified With Fire - Michal Karcz
Independente da técnica utilizada e dos truques por trás de cada imagem, é impossível não apreciar seus trabalhos unicamente como obras de arte. Nesta postagem destaquei apenas as visões com inspiração "pós-apocalipse" que me chamaram mais a atenção, mas pode-se ter acesso a outras obras do artista visitando o site oficial, sua página no portal de fotografia 500px ou fan page no facebook. Eu me pergunto se o final do mundo será tão bonito.

The Road - Michal Karcz

quarta-feira, julho 15, 2015

Lançamentos no Segundo Semestre de 2015


O site de cultura online The Millions publicou uma matéria que chama a atenção para os lançamentos de grandes autores previstos no mercado editorial em língua inglesa para o segundo semestre de 2015. A relação inclui os novos romances de Salman Rushdie, Margaret Atwood e Jonathan Franzen, a continuação das memórias (Just Kids) de Patti Smith e traduções das primeiras obras de Haruki Murakami, do húngaro vencedor do Man Booker International Prize, László Krasznahorkai, o último romance do vencedor do Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk e, principalmente, com grande satisfação para a literatura brasileira, uma antologia de Clarice Lispector (não por acaso posicionei o livro no centro da colagem que abre a postagem, cliquem na imagem para ampliá-la).

Os destaques acima são uma pequena amostra da seleção completa do site The Millions que soma 82 títulos em língua inglesa, distribuídos ao longo do segundo semestre. Para conhecer os lançamentos da área de não-ficção clicar aqui. Parece mesmo que 2015 será um ótimo ano para a literatura.

segunda-feira, julho 13, 2015

Miriam Mambrini - A Bela Helena

Miriam Mambrini - A Bela Helena - Editora 7Letras - 212 páginas - Lançamento 2015 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Livraria da Travessa).

Talita contempla sozinha, da varanda de seu apartamento, os fogos e comemorações da chegada de 1999, no entanto, para ela, não é uma ocasião alegre porque o início de ano tem sabor de fim já que, aos cinquenta e nove anos, está encerrando um ciclo e iniciando a "infância" da terceira idade. Esses marcos fazem com que a solitária protagonista perceba que "o seu tempo passou a ser o passado" e dê início a um processo de resgate de suas memórias, escrevendo as lembranças em um caderno. A autora Miriam Mambrini utiliza a técnica da narrativa em primeira pessoa para contar a história de Talita (ou da bela Helena, como ela se transformou), alternando capítulos entre o presente e períodos de um passado romântico, infelizmente esquecido, da cidade do Rio de Janeiro.

A vida de Talita, desde pequena, nunca foi fácil. Com apenas seis anos é abandonada pela mãe, manicure sem condições financeiras para criá-la, na casa dos avós paternos em Copacabana e, rejeitada pelo próprio pai, cresce contando apenas com o carinho da avó Edith. Apesar das dificuldades da sua origem de criança pobre, Talita consegue se tornar uma mulher elegante, atraente e ascender na sociedade carioca.
"Não é fácil escrever, anoto, risco, rasgo, recomeço, mas não quero que as lembranças se percam. Essa, por exemplo: a da noite em que mamãe tirou de dentro do armário a bolsa de viagem marrom. Da cama, tentando dormir, eu a ouvi andar de lá para cá, abrindo armários e apanhando coisas. De manhã, minhas roupas e brinquedos estavam na bolsa. Minha boneca predileta foi enfiada por último e uns tufos do seu cabelo pulavam fora do fecho-éclair. Nunca esqueci daquela imagem: os cabelos amarelos da boneca presos no fecho da bolsa marrom. Lembro tão bem do rosto de louça, dos olhos azuis, das pestanas duras, das pálpebras que baixavam, dos cabelos amarelos, mas não sei em que momento a boneca desapareceu para sempre."
Na sua trajetória até obter o codinome de Helena, Talita passa na sua busca pela felicidade, por encontros e desencontros amorosos e também alguns casamentos frustrados, procedimento não muito recomendável para as mulheres durante a época dos "anos dourados", sendo que o segundo deles é bastante violento e traumático o que faz com que seja afastada do filho pequeno que é levado pelo pai sem deixar rastros, um drama que ela levará muitos anos para tentar superar. Além dos relacionamentos formais, Talita não consegue se afastar de uma paixão recorrente por um homem misterioso que a acompanha desde a adolescência. 

Talvez a resenha possa induzir a ideia de que o livro seja uma obra de contestação ou represente algum tipo de bandeira feminista mas, no meu entendimento, A Bela Helena é um romance sem pretensões maiores do que o entretenimento do leitor, através de uma boa história, objetivo que Miriam Mambrini soube atingir com eficiência.

Da página oficial da autora: "Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, 'O Baile das Feias', foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, 'Grandes Peixes Vorazes', incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances 'A Outra Metade', atualmente em segunda edição, 'As Pedras não Morrem' e 'O Crime Mais Cruel', os dois últimos adquiridos pelo PNBE do Ministério da Educação. As crônicas de 'Maria Quitéria, 32' falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, 'Vícios Ocultos', contos, e 'Ninguém é Feliz no Paraíso', romance."

quinta-feira, julho 09, 2015

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry (The Children Act) - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento 14/11/2014 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Neste seu último romance, Ian McEwan utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma conceituada juíza do Supremo Tribunal como protagonista. Fiona Maye, cinquenta e nove anos, atua na área de direito de família, e segundo definição de seus próprios colegas, é dona de uma "imparcialidade divina e inteligência diabólica". Ela é, portanto, uma profissional que lida diariamente com a razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através de suas sentenças, seja no caso de separações litigiosas ou decisões sobre a guarda dos filhos. Na verdade, McEwan faz muito bem, como sempre, o seu dever de casa e traz para a ficção algumas sentenças, inspiradas em casos reais, de difícil análise, seja pelo enfoque religioso ou moral. É o caso, por exemplo, da aprovação para a intervenção cirúrgica que irá separar irmãos siameses, provocando o sacrifício de um deles em nome da sobrevivência do mais forte. Em uma das melhores passagens do romance, através da digressão de sua protagonista no trecho abaixo sobre este processo, o autor coloca a sua visão nada religiosa do mundo e do que costumamos chamar de destino:
"Nas fotografias relembradas de Matthew e Mark via uma nulidade cega e sem propósito. Um ovo microscópico deixara de se dividir no momento certo devido a um defeito em certo ponto de uma cadeia de eventos químicos, uma minúscula perturbação na cascata de reações proteicas. Um evento molecular se inflacionara como um universo em expansão para ocupar uma larga região da miséria humana. Nenhuma crueldade, nenhuma vingança, nenhum fantasma se movendo de modo misterioso. Nada mais que um gene transcrito erroneamente, uma receita de enzimas defeituosa, um elo químico rompido. Um processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido. Que apenas punha em relevo a vida saudável e formada com perfeição, mas também aleatória, igualmente sem propósito. Pura sorte, chegar ao mundo com seu corpo devidamente formado e com tudo nos lugares certos, ter pais amorosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é muito mais fácil ser virtuoso." (pág. 34)
Apesar do desgaste emocional de seu trabalho e a proximidade da terceira idade, a juíza Fiona parece estar levando a sua vida muito bem, mas todo o seu mundo está para desmoronar quando ela é surpreendida pela declaração do próprio marido de que deseja levar adiante um caso com uma mulher mais jovem, segundo ele, devido à necessidade de viver uma grande paixão e, de forma mais pragmática, devido às suas necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo trabalho. Ela se recusa a aceitar os argumentos do marido e, repentinamente, se vê envolvida em um conflito matrimonial como tantos outros que ela acompanha diariamente na Vara de Família.
"Num impulso furioso, pegou o celular, encontrou o número do chaveiro da Gray's Inn Road, forneceu-lhe o PIN de quato dígitos e instruções para que a fechadura fosse trocada (...) Foi má, e sentiu-se bem em ser má. Ele devia pagar um preço por abandoná-la, e ali estava, ser exilado, pedir licença para ter acesso à sua vida anterior. Ela não lhe permitiria o luxo de possuir dois endereços (...) Voltando pelo corredor com seu copo, já refletia sobre sua ridícula transgressão, impedir ao marido o acesso a que ele tinha direito, uma das atitudes-chavão das crises conjugais que qualquer advogado aconselharia seu cliente — geralmente a mulher — a não adotar sem a devida autorização judicial" (pág. 51)
Uma nova e difícil disputa demanda a atenção da juíza em meio à sua crise particular, o caso de Adam Henry, um rapaz de dezessete anos que precisa receber transfusões de sangue devido ao tratamento de leucemia. Seus pais são testemunhas de Jeová e enfrentam o hospital em um processo para ter o direito de não seguir as recomendações médicas. O momento difícil pelo qual Fiona Maye está passando em sua vida doméstica faz com que ela ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do adolescente em confronto com os dogmas religiosos de sua família. 

Adam Henry tem uma compreensão parcial da situação precária de sua saúde e dos riscos associados e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes de sua orientação religiosa. Ele escreve poesias que encantam a equipe médica e despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela fez a opção de não ter filhos devido à carreira) e carência sentimental. Será que ela conseguirá manter a racionalidade e imparcialidade que a sentença para este caso requer?

A música erudita, como na maioria dos romances de McEwan, tem lugar de destaque na trama, sendo uma válvula de escape para Fiona Maye, uma exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler, e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível Adam Henry. Apesar do argumento se basear em alguns clichês, a prosa habilidosa de McEwan está sempre presente, como podemos comprovar nos trechos acima. De qualquer forma, ficamos com a impressão de que a história poderia ter sido mais aprofundada. Se você ainda não leu nada deste autor recomendo começar com AmsterdamReparação e Sábado. De preferência nesta sequência (siga os links para resenhas do Mundo de K).

sexta-feira, julho 03, 2015

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Tradução do inglês de Donaldson M. Garschagen - Lançamento 14/12/2011 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O chinês Yu Hua, nascido em 1960, iniciou a sua carreira literária somente em 1983, após um malsucedido início profissional como dentista. Ele já escreveu um total de cinco romances, dos quais três estão disponíveis no Brasil; além de Crônica de um Vendedor de Sangue (2011), a Companhia das Letras já lançou: Irmãos (2010) e Viver (2008). Ele  reside atualmente em Beijing e seus livros já foram publicados em mais de 20 países, tendo recebido os prêmios: Grinzane Cavour da Itália (1998), Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres da França (2004), Special Book Award da China (2005) e o Prix Courrier International também da França (2008). Desde 2013, Yu Hua é um dos escritores que contribuem com o New York Times (neste link pode-se acessar os artigos dele).

Crônica de um Vendedor de Sangue é aquele tipo de romance universal que mostra os extremos da fragilidade, mas também da grandeza do ser humano, em um ambiente adverso. Seja em uma pequena cidade rural chinesa ou no sertão nordestino brasileiro, o homem, em seu núcleo familiar, precisa se adaptar para sobreviver. Neste ponto é impossível não se emocionar com a trajetória da família formada pelo protagonista Xu Sanguan ao longo dos altos e baixos de trinta anos de história da República Popular da China (1950 a 1980) como pano de fundo, a maior parte deste período sob o governo de Mao Tsé-tung, antes da abertura econômica vivenciada hoje no país. 

Desde muito jovem, Xu Sanguam, operário de uma fábrica de seda, aprendeu que 400 mililitros de seu sangue (volume de duas tigelas de arroz) equivaliam a trinta e cinco iuanes, valor superior ao que ganharia trabalhando por seis meses no campo, uma verdadeira "mina de dinheiro" que provocou na China um livre-comércio de grandes proporções entre doadores e "chefes de sangue". O próprio Xu Sanguam vem a recorrer diversas vezes ao longo da vida a este comércio, normalmente nos momentos de crise familiar. Após o procedimento de doação, um bom prato de fígado de porco frito e duas doses de vinho de arroz amarelo têm o poder de recompor a energia do corpo conforme lhe foi ensinado.

No início, a venda do sangue não representa nenhuma urgência na vida de Xu Sanguam e ele utiliza os recursos desta atividade pela primeira vez para conquistar, na verdade convencer, a bela Xu Yulan a se casar com ele (pagando-lhe um jantar nada romântico com "bolinhos ao vapor, ameixas salgadas, frutas carameladas e meia melancia") e cobrir os custos do casamento. Em um período de cinco anos, Xu Yulan dá à luz três filhos: Yile (Primeira Alegria), Erle (Segunda Alegria) e Sanle (Terceira Alegria). Na verdade, o seu primogênito, Yile, ficará para sempre associado a uma grande tristeza, e não alegria, quando Xu Sanguam descobre que não é o verdadeiro pai do menino. De qualquer forma, este filho que não tem "vínculos de sangue" verdadeiros, à princípio desprezado, acaba se tornando o preferido.

Durante os anos do período histórico chamado Grande Salto Adiante (1958 - 1962), a agricultura passa a ser controlada pelo Estado e coincidentemente ocorrem vários desastres naturais (estima-se que aproximadamente 30 milhões de pessoas morreram de fome), a família de Xu Sanguan tem que passar cinquenta e sete dias consecutivos comendo apenas mingau de fubá. Claro que o nosso protagonista precisa recorrer mais de uma vez ao comércio de sangue para salvar a mulher e os filhos da fome. No entanto, uma fase ainda pior está para começar, quando Xu Yulan é denunciada injustamente como prostituta durante a violenta Revolução Cultural (1966 - 1976) e os dois filhos mais velhos são obrigados a partir para o campo pois, segundo a orientação da política maoista, "é indispensável que os estudantes sejam mandados ao campo para que os camponeses de nível médio e baixo os reeduquem".

Apesar das situações difíceis por que passam seus personagens, a ligação de confiança e amor entre os integrantes da família nunca enfraquece e a narrativa de Yu Hua é sempre bem-humorada, por vezes até mesmo tragicômica, à medida que os eventos familiares são associados aos impactos da política econômica na sociedade chinesa. Um belo livro que já deixa saudade.

segunda-feira, junho 29, 2015

Richard Dawkins - Deus, um Delírio

Richard Dawkins - Deus, um Delírio - Editora Companhia das Letras - 528 páginas - Tradução de Fernanda Ravagnani - Lançamento 16/08/2007 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Podemos discordar ou não de Richard Dawkins sobre a existência de Deus, mas não há como negar que o fanatismo religioso, de uma forma generalizada, tem provocado guerras, perseguições e conflitos armados ao longo da história. Não precisamos ir tão longe, até a época das Cruzadas por exemplo, porque ainda hoje, em pleno século XXI, as ações entre israelenses e palestinos, católicos e protestantes, ou os recentes atentados terroristas do Estado Islâmico têm sido exemplos do mau uso que a humanidade faz de suas crenças. Certamente que não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que todos esses conflitos têm origem apenas na religião, certamente que existem também fortes motivos políticos e econômicos, mas o fator decisivo na formação de um homem-bomba ou guerrilheiro está sempre associado com algum movimento extremista religioso. Nunca ouvimos falar de uma guerra provocada por ateus. Segundo o físico americano e prêmio Nobel Steven Weinberg, citado por Dawkins, "a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião"Ou ainda nesta outra citação de Blaise Pascal: "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa".

Richard Dawkins parte do pressuposto de que atualmente "o número de ateus e agnósticos supera de longe o de judeus religiosos, e até o da maioria dos outros grupos religiosos específicos", mas que a maioria por inércia, medo ou para manter as tradições sociais e familiares, reluta em "sair do armário"reforçando a sua teoria com esta epígrafe a um dos capítulos do livro, do filósofo Bertrand Russell: "A imensa maioria dos homens intelectualmente eminentes não acredita na religião cristã, mas esconde esse fato do público, porque tem medo de perder sua renda". Ainda segundo Dawkins, outra questão que dificulta a discussão sobre o assunto é que "a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica".

Outra questão preocupante (e até certo ponto surpreendente) é o fundamentalismo religioso crescente nos Estados Unidos que, segundo Dawkins, "provém, paradoxalmente, do secularismo de sua Constituição. Precisamente porque os Estados Unidos são legalmente laicos, a religião se transformou num empreendimento liberado. Igrejas rivais competem por congregações — e pelo gordo dízimo que elas trazem consigo — e a concorrência é marcada por todas as técnicas agressivas de venda do mercado. O que funciona para o sabão em pó funciona para Deus, e o resultado é algo que se aproxima de uma mania de religião nas classes menos instruídas". Para Dawkins, mesmo a crença moderada pode ser perigosa porque, tanto para o cristianismo quanto o islamismo, a fé sem questionamentos é uma virtude que supera todas as prioridades e que o martírio a serviço de Deus poderá ser recompensado no paraíso.

As melhores abordagens de Richard Dawkins — e também as mais difíceis de serem contestadas — são aquelas norteadas pela ciência em oposição à teoria do criacionismo ou "design inteligente", já que a formação acadêmica dele (Doutor pela Universidade de Oxford) não é a filosofia ou teologia, mas sim a biologia evolutiva com base na seleção natural de Darwin, o que o coloca ao lado de autores como Carl Sagan e Stephen Hawking que ajudaram a popularizar a ciência em suas respectivas áreas (astronomia e física). Para o evolucionista, as criaturas vivas não foram "projetadas" e sim evoluíram através de numerosos incrementos gradativos, à partir de um início simples, em um processo que continua ocorrendo até hoje para o aperfeiçoamento de cada ser orgânico. 

É importante notar que, como bom cientista, Dawkins não descarta a existência de Deus, mas uma de suas conclusões é que não há motivo para supor que, só porque Deus não pode ter a sua existência comprovada ou descartada, a probabilidade de sua existência seja de 50% (de fato, na opinião dele esta probabilidade é bem menor). Mesmo o argumento da beleza é refutado por ele na seguinte passagem: "É óbvio que os últimos quartetos de Beethoven são sublimes. Assim como os sonetos de Shakespeare. São sublimes se Deus existe e são sublimes se não existe. Eles não provam a existência de Deus; eles provam a existência de Beethoven e Shakespeare"A lógica de Richard Dawkins é tão fria que chega a parecer ofensiva em algumas passagens, principalmente quando critica o Deus do Velho Testamento das Escrituras, uma de suas vítimas preferidas.

Um livro corajoso, inteligente e muito oportuno devido aos conflitos e atentados terroristas recentes que se tornaram, infelizmente, uma triste rotina neste início de século. 

quarta-feira, junho 24, 2015

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola no RJ

Detalhe da obra "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939)
Após a temporada inicial em São Paulo, onde foi visitada por mais de 200 mil pessoas, a exposição gratuita Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola chega agora ao Rio de Janeiro onde será apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no período de 24 de junho a 7 de setembro. A mostra reúne 90 obras do Museu Nacional Reina Sofia, de Madri.

A exposição é dividida em oito módulos e faz referência à trajetória de Picasso e sua influência nas obras de outros artistas modernistas da época até chegar à realização de "Guernica" (1937), em estilo cubista, que representa o bombardeio nazista na cidade do mesmo nome, durante a Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939). Serão exibidos estudos e esboços desta obra que não pode sair da espanha por questões de segurança. 

Entre os trabalhos de Picasso que integram a exposição no CCBB, destaque para: "Cabeça de Mulher" (1910), "Busto e Paleta" (1932), "Retrato de Dora Maar" (1939), "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939) e "O pintor e a Modelo" (1963) - Sigam os links para as respectivas páginas do Museu Nacional Reina Sofia com detalhes sobre cada pintura.

Para outras informações e um passeio virtual pela exposição clique aqui.

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola 
De 24 de junho a 7 de setembro 
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)
Rua Primeiro de Março, 66 - Centro - Tel.: (21) 3808-2020 
De quarta a domingo, das 9h às 21h 
Entrada Gratuita

segunda-feira, junho 22, 2015

Leonardo Padura - A neblina do passado

Leonardo Padura - A neblina do passado - Editora Saraiva (Selo Benvirá) - 442 páginas - tradução de Júlio Pimentel Filho - Publicação 2012 (Lançamento original 2005).

Restringir este romance à categoria de literatura policial seria uma injustiça com a habilidade do escritor cubano Leonardo Padura. Nada contra os romances de detetives, mas o autor construiu uma verdadeira história afetiva de Cuba, particularmente sobre as transformações da cidade de Havana e seus habitantes, na segunda metade do século XX, compreendendo os seguintes três grandes períodos: A era inicial do ditador Fulgencio Batista, à partir de 1952, onde existia corrupção generalizada e a influência econômica dos Estados Unidos, o segundo período que se inicia em 1959 com a vitória da Revolução socialista liderada por Fidel Castro e Che Guevara, provocando a desapropriação de várias empresas norte-americanas e privatização de bens das famílias tradicionais que compactuavam com o governo anterior e, finalmente, os anos de crise econômica e decadência social, decorrentes da redução drástica de investimentos da antiga URSS após a queda do muro de Berlim em 1989.

Leonardo Padura soube passar por todas essas fases da história cubana (sem sofrer censura prévia do regime atual o que, por si só, é surpreendente) no desenvolvimento do seu romance em um argumento criativo e uma trama muito bem montada que utiliza o recurso ficcional da ascensão e queda da família Montes de Oca e do seu personagem recorrente, o carismático detetive Mario Conde que, quatorze anos após a saída dos quadros da polícia local, sobrevive em 2003 à base de expedientes, assim como boa parte da população de Havana. No seu caso, comprando e vendendo livros usados, sendo ele próprio um escritor frustrado.
"A escassez foi tão brutal que alcançou até o venerável mundo dos livros. De um ano para outro, as publicações despencaram em queda livre, e as teias de aranha cobriram as estantes das agora tétricas livrarias, de onde os próprios empregados roubavam as últimas lâmpadas de vida, praticamente inúteis em dias de intermináveis apagões. Foi então que centenas de bibliotecas particulares deixaram de ser fonte de ilustração, orgulho bibliófilo e provisão de lembranças de tempos possivelmente felizes, e trocaram seu cheiro de sabedoria pelo ácido e vulgar fedor de umas cédulas salvadoras."
Ao descobrir uma fabulosa biblioteca, milagrosamente preservada no que restou da mansão da família Montes de Oca, Mario Conde dá início a um excelente negócio devido à riqueza do acervo de livros raros, um sonho para qualquer bibliófilo. No entanto, o destino reserva uma grande surpresa para o detetive aposentado quando, no interior de um desses livros, ele encontra uma página recortada de uma antiga revista de quarenta anos atrás com a imagem da estonteante cantora de bolero Violeta del Río. Sem saber o motivo da intensa atração exercida pela mulher ele segue os seus instintos de investigador e tenta descobrir o paradeiro da esquecida bolerista através de um mergulho no submundo das ruas e crimes de Havana, resgatando uma história esquecida sobre morte e infelicidade da neblina do passado.
"Quando saíram para a rua, o sol furioso do meio-dia tinha dispersado os passantes, mas a música agora ocupava o lugar das pessoas, abarrotando o espaço, misturando melodia, competindo em volumes capazes de aturdir quem arriscava penetrar naquela atmosfera compacta de som, bolero, merengue, balada, mambo, guaracha, rock pesado e leve, danzón, bochata e rumba. As casas cujas entradas davam para a rua, com as portas e janelas abertas, tentavam absorver um pouco do ar quente, enquanto homens e mulheres de todas as idades oscilavam em cadeiras de balanço, desfrutando a brisa artificial dos ventiladores e a música ensurdecedora, vendo passar, carregados de resignação, a hora morta do meio-dia."
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