terça-feira, abril 14, 2015

Finalistas do International Dublin Literary Award 2015


Divulgada a "shortlist" do prêmio International Dublin Literary Award 2015, patrocinado pela cidade de Dublin, na Irlanda, e destinado a romances publicados em língua inglesa, originalmente ou em tradução. O Brasil foi representado pela primeira vez entre os finalistas desta premiação em 2012 com O filho eterno de Cristovão Tezza. No ano passado, o vencedor foi o colombiano Juan Gabriel Vásquez com El ruído de las cosas al caer e, este ano, temos um brasileiro entre os 10 livros finalistas: Bernardo Kucinski com o romance K (tradução de Sue Branford, Latin American Bureau).

Este é um dos prêmios literários mais transparentes em relação ao processo de escolha porque as indicações são feitas por bibliotecas públicas de diferentes cidades que podem nomear até três romances por ano (ver aqui a lista das bibliotecas participantes, por país, e suas nomeações em 2015). O vencedor levará 100.000 euros e será divulgado em junho.

Segue abaixo a shortlist completa e sigam os links para maiores detalhes de cada finalista:

AmericanahChimamanda Ngozi Adichie;
Horses of GodMahi Binebine;
HarvestJim Crace;
The Narrow Road to the Deep NorthRichard Flanagan;
Burial RitesHannah Kent;
KBernardo Kucinski;
Brief Loves that Live ForeverAndreï Makine;
TransAtlanticColum McCann;
SomeoneAlice McDermott;
SpartaRoxana Robinson.

segunda-feira, abril 13, 2015

Citações de Eduardo Galeano (1940 - 2015)


(01) "Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos." - Voces de nuestro tiempo‎ - Página 17 - Editorial Universitaria Centroamericana, EDUCA, 1981‎;

(02) "A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la." - Las venas abiertas de América Latina‎ - Página 341 - Siglo XXI, 2006‎;

(03) "A liberdade de mercado permite que você aceite os preços que lhe são impostos" - Las palabras andantes - Página 61, de Eduardo Galeano, José Borges - Siglo XXI, 1994‎;

(04) "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." - Fernando Birri citado por Eduardo Galeano in Las palabras andantes‎;

(05) "Eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima" - declaração de Eduardo Galeno sobre as "Veias abertas da América Latina" durante a 2ª Bienal do Livro de Brasília em 2014.

quinta-feira, abril 09, 2015

Llucia Ramis - Todo lo que una tarde murió con las bicicletas

Llucia Ramis - Todo lo que una tarde murió con las bicicletas - Editora Libros del Asteroide - 224 páginas - Lançamento 2013 - Prólogo de José Carlos Llop (ler aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Llucia Ramis Laloux nasceu em Palma de Mallorca em 1977 e escreve em catalão e espanhol, mas ainda está para ser descoberta por alguma editora no Brasil ou Portugal e traduzida para o português, o que seria ótimo para os leitores lusófonos. Neste seu terceiro romance, o tema principal é a história familiar e as relações da autora com os pais e avós. Llucia faz muito bom uso do recurso da autoficção, alternando passado remoto, recente e presente na narrativa e utilizando como cenário principal a ilha de Palma de Mallorca onde a personagem principal, já passando dos trinta anos, retorna à casa dos pais após o seu retumbante "fracasso" profissional, sentimental e existencial.

Até este ponto não há muita novidade já que a autoficção é um recurso comum na literatura contemporânea, assim como a autobiografia. Apesar de tudo, a forma como Llucia Ramis resgata as suas memórias infantis  e descreve a visão do mundo que a cerca é de rara beleza e provoca a nossa identificação imediata, mesmo sabendo que se trata de uma obra de ficção, como o próprio texto sinaliza: "Cada vez que recordamos algo, na realidade estamos recordando a última vez que recordamos. Nunca voltamos ao momento em que vivemos, mas sim a aquele outro que já era uma recriação. Recordamos aquilo que inventamos ou nos fizeram inventar." (pág. 176).

Em outra parte, a autora reflete sobre o sentimento de perda por contraste: "A nostalgia é este mal estranho que nos faz dolorosamente felizes, uma espécie de alegria triste pelas coisas que não podem nos tirar porque já as possuímos e, ainda que hajam deixado de existir, seguem assim, imutáveis." (pág. 27).

A primeira epígrafe do livro é uma referência ao poema "Sistemas" do espanhol Pere Gimferrer e dá uma boa pista sobre o conteúdo do romance que estamos prestes a ler e também da origem do título:

"y ahora gira el cristal
y oculta este aspecto: lo real y lo ficticio,
la convención, es decir, y las cosas vividas,
la experiencia de la luz en los bosques invernales,
la dificultad de otorgar coherencia — es un juego de espejos —,
los actos disolviéndose en la irrealidad,
los ácidos que invaden viejas fotografias,
(...)
todo lo que una tarde murió con las bicicletas" 

Já a segunda epígrafe é um alerta da própria autora: "Esto no es una autobiografia", o que obviamente não é uma verdade completa e tampouco uma mentira. E, no entanto, não é justamente essa a maior mágica possível da arte e da literatura em especial?

terça-feira, abril 07, 2015

Penguin Little Black Classics


Os livros impressos ganharam uma importante batalha na guerra contra as publicações digitais, constatando que o mercado editorial tradicional ainda tem muito espaço para investir com criatividade, preço competitivo e qualidade. É o que prova o lançamento comemorativo de 80 anos da editora penguin inglesaLittle Black Classics, que vendeu 70.545 cópias somente na primeira semana (ler aqui matéria do Guardian).

O projeto considerou um livro representando cada um dos 80 anos da editora com o preço de venda de apenas 0,80 Libras por volume (aproximadamente R$ 3,70). Como a penguin ficou famosa pela qualidade dos clássicos de seu acervo e a portabilidade das publicações, o que ajuda a competir com os livros digitais, foi um tiro certeiro para agradar os leitores. Clique na imagem acima para ter acesso ao site promocional e girar o pinguim, conhecendo então, aleatoriamente, cada um dos títulos da coleção.

Em setembro de 2015 a caixa completa com os 80 volumes estará disponível para venda na amazon inglesa ao custo de 64 Libras (aproximadamente R$ 296,00), nada mal para um benefício de 5.120 páginas de clássicos, variando de Homero até Balzac. Ver todos os volumes da coleção clicando na imagem abaixo ou a lista com cada título nesta outra matéria do Guardian.

domingo, abril 05, 2015

Veronica Stigger - Opisanie świata

Veronica Stigger - Opisanie świata - Editora Cosac Naify - 160 páginas - lançamento agosto 2013.

Em 2014 Veronica Stigger ganhou o prêmio São Paulo de Literatura e foi finalista do Portugal Telecom e Jabuti com este seu romance de estreia e título difícil ("descrição do mundo" em polonês). A autora utiliza diferentes estilos narrativos em primeira e terceira pessoa, linguagem fragmentada por anúncios de época e imagens de cartões postais, tudo isso em uma bem cuidada edição gráfica, como já é tradição nos livros da editora Cosac Naify. É bom ressaltar que o trabalho de Veronica não é somente criativo na técnica, mas também na pesquisa do argumento e na criação ou apropriação dos personagens, todos "estrangeiros", mesmo o brasileiro Bopp, inspirado no poeta Raul Bopp, emprestado do nosso movimento modernista, personagens sempre envolvidos em algum tipo de deslocamento ou deslocados do meio em que vivem. 

O romance tem como base a história de uma longa viagem, de trem e navio no final da década de trinta, da Polônia até a Amazônia. Opalka, é um polonês surpreendido por uma carta de Natanael, seu filho "internado em estado grave" que ele não sabia existir no Brasil e que pede para conhecê-lo. Ele decide atender ao pedido do filho e voltar à terra que havia abandonado na virada do século. Opalka conhece Bopp no início de sua epopéia e o mesmo irá acompanhá-lo em toda a trajetória. Na verdade, o argumento principal do romance é a própria viagem e todos os estranhos personagens em situações surrealistas que vamos conhecendo pelo caminho (uma espécie de "road movie") e não a relação entre Opalka e Natanael.

A Europa está prestes a ser destruída pela segunda Grande Guerra e a viagem de Opalka parece ser um caminho sem volta, mesmo que a Amazônia, já na década de trinta, também em vias de destruição, não represente mais a esperança de uma nova terra para os expatriados da Europa. Assim mesmo, Opalka é incentivado por Bopp, já no final do livro, a escrever suas experiências durante a viagem e o que encontrou no Brasil em um caderno de anotações que lhe dá de presente, um trecho bonito que resume tão bem o papel transformador da literatura em nossas vidas:
“— Tome — disse Bopp, estendendo-lhe um caderninho preto. — É um presente. Serve para fazer anotações. Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. Bopp se calou e, depois de um tempo, acrescentou: — Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”

terça-feira, março 31, 2015

Rafael Sperling - Um homem burro morreu

Rafael Sperling - Um homem burro morreu - Editora Oito e Meio - 130 páginas - Lançamento 2014.

O que me chama a atenção no jovem escritor carioca Rafael Sperling é a independência de estilo e coragem de fugir do "politicamente correto", tanto em termos de técnica narrativa quanto na escolha dos temas de seus contos. Depois do lançamento do primeiro livro, Festa na Usina Nuclear, Sperling apresenta uma nova seleção de narrativas breves que poderíamos classificar como textos experimentais, literatura do absurdo ou simplesmente surrealismo. Todas as classificações são corretas, mas arrisco dizer que o autor consegue um estilo próprio ao adicionar doses maciças de sarcasmo, violência e até mesmo escatologia em seus contos. É bom citar que toda essa violência não é invenção do Rafael, ela está presente em nosso cotidiano e refletida também diariamente nas mídias de comunicação e redes sociais.

O conto de abertura, "Caetano Veloso se prepara para atravessar uma rua do Leblon", é uma crítica ao jornalismo vazio que transforma em notícia as atividades mais simples das "celebridades". Todas as ações do cantor são intercaladas por perguntas idiotas, como na maior parte dos programas de TV: "Você está com fome, Caetano Veloso?", "Por que você vai a este restaurante, Caetano Veloso?", "Você gosta dessa comida que você pediu, Caetano Veloso?", "O que você vai fazer no banheiro, Caetano Veloso?". E assim sucessivamente, até que um grave acidente ocorre com o nosso famoso cantor, como será a reação da mídia neste caso?

Em "Eu gosto das histórias que a minha babá conta", narrado em primeira pessoa por uma criança de apenas três anos, o pequeno protagonista diz adorar as histórias de sexo contadas pela babá, apesar de confessar nunca ter feito sexo e conhecer apenas pela Internet: "Não tem como eu fazer aquelas posições sexuais. São muito difíceis. Necessitam de uma musculatura desenvolvida. Eu mal consigo andar. Qualquer coisa me estabaco no chão e fico lá, chorando feito um bebê. Mas eu sou um bebê. Vejam só. É uma ironia. Eu fiz uma piada. Não sei fazer sexo, mas sei fazer piadas.".

Nem mesmo a religião fica de fora do rolo compressor de Rafael Sperling em "Jesus Cristo espancando Hitler", quando o ditador sofre um tremendo castigo físico e moral por todos os seus crimes, sendo brutalmente torturado e crucificado por ninguém menos que Jesus Cristo, tudo para que, no final, possamos ficar um pouco mais felizes e reconfortados.

O mais chocante neste livro de Rafael Sperling não é a violência dos textos que não dá mesmo para levar muito a sério, mas sim quando descobrimos o quanto deste "homem burro" está presente em nossas vidas e, por isso, o quanto gostamos de "textos bem bonitos, para agradar as pessoas", como o autor reflete, com razão, no divertido posfácio.

domingo, março 29, 2015

Juan Marsé - El amante bilingüe

Juan Marsé - El amante bilingüe - 224 páginas - Editora Planeta - Seix Barral - Publicação 2006 (lançamento original Editorial Planeta em 1990).

Vencedor do Prêmio Cervantes 2008, o catalão Juan Marsé é praticamente um desconhecido no Brasil, tendo somente um livro publicado em nosso país: "Rabos de Lagartixa" pela editora Siciliano em 2004. "El amante bilingüe" é narrado em primeira pessoa pelo fracassado e desiludido Juan Marés (o autor já começa o seu jogo de farsas e duplicidades ao escolher o nome do personagem à partir de um trocadilho com seu próprio nome). O romance é dividido em três partes ou cadernos de memórias escritos pelo protagonista: "El día que Norma me abandonó", "Fu-Ching, el gran ilusionista" e "El pez de oro"

O primeiro caderno, "El día que Norma me abandonó", como implícito no próprio título, descreve a traição da esposa, Norma Valentí, pertencente à alta burguesia catalã, com quem Marés se uniu por mera casualidade, apesar da total incompatibilidade social (ele tem origem muito humilde, filho de uma ex-cantora lírica alcoólatra e de um ilusionista circense chinês). A traição é apresentada logo no primeiro parágrafo da seguinte forma: "Una tarde lluviosa del mes de noviembre de 1975, al regresar a casa de forma imprevista, encontré a mi mujer en la cama con otro hombre". O tom farsesco do romance fica claro quando Juan Marés vem a descobrir que o amante da esposa é um simples engraxate, após um insólito diálogo que ambos mantêm no quarto, sem outra alternativa, após a partida da esposa que parece não demonstrar o menor escrúpulo com a situação constrangedora.

No segundo caderno, "Fu-Ching, el gran ilusionista", Marés, dez anos depois, ainda não conseguiu se recuperar da separação (a mulher o abandonou imediatamente após tê-lo traído), tornando-se um músico pedinte de rua e decide avançar em um plano inverossímil para reconquistar a esposa à partir de um disfarce, aproveitando que o seu rosto foi parcialmente desfigurado em um acidente. Ele então se transforma em Juan Faneca, o nome de um antigo amigo de infância que partiu para a Alemanha e nunca retornou (aqui outra brincadeira do autor que utiliza, desta vez, o seu nome de família original, Juan Faneca Roca, uma vez que ele foi adotado pela família Marsé, após a morte da mãe durante o parto). O disfarce funciona tão perfeitamente que Juan Marés tem a sua identidade gradativamente anulada por Juan Faneca.

No terceiro e final caderno, El pez de oro", Faneca está muito próximo de realizar o sonho de Marés e reconquistar a esposa infiel, mas conhece Carmen, uma bela e jovem recepcionista na pensão onde passa a morar, cega depois de uma enfermidade aos treze anos, e começa a se interessar por ela. O leitor só tem a ganhar com o conflito de personalidades que se estabelece entre Marés e Faneca pois, no desenvolvimento da trama, cada vez fica mais claro que somente haverá espaço para um dos dois nesta estranha luta entre o que o protagonista gostaria de ser e o que ele realmente se tornou.

A cidade de Barcelona e sua dualidade linguística (catalão e espanhol) é uma presença constante no romance e um dos focos centrais da narrativa que lida todo o tempo com os duplos sentidos e múltiplas interpretações. Um belo exemplo de como fazer literatura, muito recomendado.

"Lo esencial carnavalesco no es ponerse careta, sino quitarse la cara." - Antonio Machado (epígrafe à primeira parte do romance).

segunda-feira, março 23, 2015

Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao


Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao - 339 páginas - Editora Riverhead Books - lançamento 2007 (publicado no Brasil pela Editora Record em 2009 com o título de  "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", tradução de Flávia Rössler).

Este livro do escritor dominicano Junot Díaz foi o vencedor dos prêmios: National Book Critics Award de 2007Pulitzer de Ficção de 2008 e ainda escolhido recentemente pelo site de cultura da BBC como o melhor romance do século XXI até o momento. O autor conta a saga de três gerações de uma família imigrante da República Dominicana vivendo nos EUA, cujo último representante é o nosso protagonista adolescente Oscar de León, ou Oscar Wao como é chamado de gozação pelos colegas. Na verdade, ele é um típico "nerd" que sofre todo o tipo de perseguições na escola devido à sua obesidade e gosto bizarro por livros e filmes de ficção científica, quadrinhos e games. O sonho de Oscar é perder a virgindade, tarefa praticamente impossível considerando o seu isolamento e falta de jeito com as mulheres. Ele mora com a mãe Belícia e a irmã mais velha, Lola, em um subúrbio de New Jersey.

O melhor do romance, no entanto, não está nas desventuras sociais e amorosas de Oscar, mas sim na história da família que se confunde com os anos de terror da ditadura do General Rafael Leónidas Trujillo que governou a República Dominicana entre 1930 e 1961. A origem da maldição caribenha que assola a família, chamada de "fukú" (inclusive causa dos problemas do nosso anti-herói, na opinião do próprio) tem início quando o médico Abelard Luis Cabral, avô de Oscar, é perseguido por Trujillo ao se recusar a entregar as filhas para satisfazer os desejos sexuais do ditador, prática normal na época. Ele é preso, torturado e perde todas as suas propriedades, assim como a mulher e as duas filhas. Belícia, a terceira filha sobrevivente é vendida como escrava, mas acaba sendo salva por uma tia (La Inca) e, depois de passar por vários problemas, inclusive um tórrido caso amoroso com um gangster, casado com ninguém menos que a irmã de Trujillo (mais um evento provocado pelo "fukú"), foge para os EUA onde vem a se tornar a mãe de Oscar e Lola.

Narrado em terceira pessoa por Yunior, colega de quarto de Oscar e namorado de Lola e misturando gírias e palavrões em inglês e espanhol, o livro é um desafio para ser lido na edição original em inglês (Junot Díaz escreve em inglês e não em espanhol), mas no final muito compensador porque esta linguagem confusa reflete a realidade do imigrante hispânico, dividido entre duas culturas. O romance de Díaz consegue apresentar algo de novo no cenário da literatura latino-americana, descobrindo novas variações no caminho aberto por Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa.

quinta-feira, março 19, 2015

Como escolher as suas próximas leituras


Considerando a interminável (felizmente) lista de romances a serem lidos, muitas vezes encontramos alguma dificuldade em escolher nossas próximas leituras entre tantas opções disponíveis no mercado editorial, seja no caso de novos lançamentos, novas traduções ou de clássicos já consagrados. Alguns sites podem ser úteis para os leitores compulsivos que se martirizam sem saber como definir seus futuros livros, ou simplesmente uma forma divertida de passar o tempo. O inconveniente é que os bancos de dados são constituídos, em sua maioria, por autores em língua inglesa.

What Should I Read Next? - Basta inserir o nome do autor e/ou título em inglêspara receber sugestões sobre outros livros de estilo semelhante. Clicando no botão info/buy ao lado de cada recomendação o usuário será direcionado para o site da Amazon com sinopse, resenhas e preço.

Whichbook - À partir da escolha de quatro categorias entre doze disponíveis, o visitante define as suas preferências e o site recomenda opções de leitura com base na seleção. Como alternativa podem ser escolhidas também caracteristicas dos personagens.

YourNextRead - Este site apresenta uma plataforma mais interativa porque oferece até oito livros similares ao romance escolhido e o usuário tem a opção de acrescentar um ou mais autores e/ou romances de sua preferência. Os livros também estão associados a links para a Amazon.

domingo, março 15, 2015

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem - 204 Páginas - Editora Rocco (lançamento original 1943).

Este primeiro romance de Clarice Lispector (1920 - 1977), escrito entre março e novembro de 1942, ainda hoje é considerado uma obra revolucionária na literatura brasileira, uma nova forma introspectiva de contar histórias, através da alma dos personagens e da própria autora. Sim, porque o coração selvagem de Joana, nossa protagonista inadaptada ao meio social e familiar, amoral e até mesmo cruel como uma "víbora", mas ao mesmo tempo ingênua em sua sincera busca pela felicidade, tem muito do coração da própria Clarice, ucraniana refugiada aos dois meses de idade e naturalizada brasileira, mas sempre uma eterna estrangeira no Brasil e em todos os países pelos quais passou.

Ainda menina, Joana surpreende sua professora com a seguinte pergunta: "O que é que se consegue quando se fica feliz?" e repete, devido à incompreensão da professora que não sabia como responder: "depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?", "Ser feliz é para se conseguir o quê?". A trajetória de vida de Joana desde a infância órfã, criada pela tia e depois em um internato até se casar com Otávio não parece esclarecer a questão e mesmo a opinião da própria Joana adulta sobre o casamento é bastante peculiar para a época, como neste diálogo entre ela e Lídia, amante de Otávio:
" Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que ainda tenho a certeza de que não casei... Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão.  Meu Deus!  não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conserva porque se arrasta consigo outra pessoa. Há alguém que sempre a observa, que a perscruta, que acompanha todos os seus movimentos. E mesmo o cansaço da vida tem certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada  eu pensava. Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro...Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do  leito comum, da mesa comum, preparando e ameaçando a morte comum. Eu sempre dizia: nunca."
Um livro complexo e fundamental que se deve reler por muitas vezes, como uma espécie de oração para um Deus que não é o Deus humanizado das religiões, mas o Deus Natureza de Spinoza que está além do bem e do mal, como Joana (Clarice) demonstra nesta bela passagem que simboliza o seu renascimento após a separação de Otávio:
"(...) eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro!, o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."

sexta-feira, março 06, 2015

Yasutaka Tsutsui - Hell

Yasutaka Tsutsui - Hell - 199 páginas - editora Alma Books (lançamento 2008) - tradução de Evan Emswiler.

O inferno imaginado por Yasutaka Tsutsui é um lugar muito parecido com o mundo real, tanto assim que os personagens que chegam por lá nem parecem perceber que já não pertencem ao mundo dos vivos, exceto pela ausência de emoções e sentimentos negativos que costumavam acumular em suas existências passadas.

Em nenhum momento fica claro para o leitor quais os critérios, religiosos ou morais, que definem a passagem para este lugar onde "convivem" gangsters da Yakuza, homens de negócios, atores ou simplesmente motoristas de taxi. Os personagens têm a capacidade de ler as mentes uns dos outros e presenciar momentos de suas vidas anteriores. Uma idealização do mundo das sombras sem a conotação de punição e sofrimento de outras obras da literatura. Na verdade, muito mais um purgatório no sentido ocidental do termo.

Nobutero, Yuzo e Takeshi são três amigos que dividem um passado comum, um acidente decorrente de uma brincadeira na infância, que provocou a invalidez de Takeshi. Os três, após muitos anos de afastamento, irão se reencontrar no inferno, um lugar onde o tempo e espaço tem um significado diferente.

Yasutaka Tsutsui é muito popular no Japão como autor de ficção científica tendo, no entanto, apenas dois outros livros traduzidos para o inglês: “Paprika” e “Salmonella Men on Planet Porno”. O fino humor negro de Tsutsui e a sua tendência à sátira social, fazem com que seja comparado à Kurt Vonnegut pela resenha do jornal inglês Guardian, nada mal para um autor praticamente desconhecido no ocidente.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

As 20 melhores Listas Literárias na Internet

Detalhes de Adolphe Bouguereau, François Bouchert e Gabriel Schachinger
As Listas são uma forma divertida de fazer descobertas e praticamente uma fixação para os blogs de literatura, mas a questão principal é como ser objetivo e imparcial ao escolher os livros mais importantes entre tantos estilos, épocas e autores. Bem, se você estiver procurando um maior conhecimento na área de literatura ou simplesmente uma boa recomendação de leitura, este é o lugar certo para iniciar a sua busca. Um serviço de utilidade pública.

(01) Guardian - The 100 greatest novels of all time: The list
 
A lista do jornal inglês The Guardian, publicada em 2003, já se tornou referência na internet e destaca os maiores romances da literatura universal de todos os tempos com links para matérias interessantes do próprio Guardian relacionadas a cada livro, imperdível e um bom ponto de partida para encontrar clássicos de Cervantes à Philip Roth. Em 2009 esta lista foi ampliada para 1.000 novels everyone must read - the definitive list.

(02) The Telegraph - 100 novels everyone should read

O jornal Telegraph, maior concorrente do Guardian, não poderia ficar para trás e lançou a sua própria seleção top 100 da literatura universal. Uma característica curiosa é o resumo de somente uma frase para cada romance, jamais conseguiria tamanho poder de síntese, como por exemplo a definição do romance número 21: "1984 de George Orwell" - "No qual o Big Brother é ainda mais sinistro do que a série de TV inspirada nele".

(03) Modern Library - 100 Best Novels

Outra lista famosa e muito útil, divulgada em 1998 nesta matéria do New York Times, tem o foco restrito em romances na língua inglesa, escritos no século XX. Ulysses de James Joyce foi escolhido como o mais importante romance do século pelos editores da Modern Library e mais de 200.000 leitores que votaram online.

(04) Time - 100 best English language Novels

Mais uma lista somente de obras escritas na língua inglesa e publicadas à partir de 1923, ano de fundação da revista Time. Esta data de corte deixou de fora algumas obras importantes como Ulysses, publicado em 1922.

Esta lista de 2009 pretende ter um caráter geral (Meta-List), mas acaba confundindo um pouco o propósito de promover a literatura uma vez que compara a Bíblia (41º colocada) com Guerra e Paz de Tolstoi (1º colocado). A própria Newsweek discute neste artigo os méritos e dificuldades da lista.

(06) Le Monde - Les 100 livres du siècle

A escolha do famoso jornal Le Monde, como não poderia deixar de ser, valoriza o sentimento nacionalista. Na relação dos dez primeiros colocados, temos três autores franceses: "O estrangeiro" de Alber Camus (2º), "Em busca do tempo perdido" de Marcel Proust (3º) e "O pequeno príncipe" de Antoine de Saint-Exupérry (10º).

(07) Telerama - Les 10 livres préférés de 100 écrivains francophones

A revista francesa Telerama decidiu considerar na sua pesquisa apenas autores nacionais e perguntou quais os dez livros preferidos de 100 escritores franceses. O autor mais citado foi Marcel Proust (33 vezes), surpreendentemente seguido por William Faulkner (24).

(08) El Pais - Favorite Books of 100 Spanish Authors

O jornal espanhol El Pais, por sua vez, solicitou a 100 escritores de língua espanhola que relacionassem os dez livros que "mudaram a sua vida" na literatura universal. Vale a pena conhecer as escolhas de Carlos Fuentes, Juan Gelman, Alberto Manguel e Javier Marías, entre outros.

(09) Revista Bravo - Os 100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

A saudosa revista cultural Bravo é a única representante brasileira e a sua escolha foi baseada nos livros do crítico Harold Bloom, além das listas da Time e da Modern Library, sendo que a decisão final ficou a cargo da redação da Bravo e outros colaboradores. Machado de Assis ficou na posição 59 com "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
 
(10) Project Gutenberg - Top 100 List

O Projeto Gutenberg disponibiliza ebooks gratuitos para download em diversos formatos e em diferentes idiomas somente de obras em domínio público. A lista Top 100 de livros com mais solicitações de download é um indicativo interessante, mas obviamente não muito útil quando se procuram autores contemporâneos.

(11) Harvard Book Store - Top 100 Books

A seleçao da Livraria Harvard valoriza a literatura universal, mas é claro com uma queda pela língua inglesa. É uma lista bem atualizada porque considera autores modernos como Haruki Murakami (triplamente citado: 5º, 43º e 51º), Junot Diaz (62º e 87°) e David Foster Wallace (89º) que acabaram melhor colocados do que Homero (92º), Valter Hugo (97º) e Walt Whitman (100º).

(12) English Pen - The Bigger Read list

A organização English Pen preparou uma lista de clássicos da literatura universal com livros em prosa e poesia, não escritos na língua inglesa. Não foi definida ordem de colocação, a apresentação considera apenas o critério alfabético.
 
(13) Boston Public Library - 100 Most Influential Books of the Century

A biblioteca pública de Boston imaginou uma lista mais ambiciosa ao extrapolar a área de literatura, tentando reunir os 100 livros mais influentes do século. Você encontrará títulos sobre política, ciência e até mesmo culinária.

(14) Amazon - 100 Books to read in a Lifetime
 
Apesar de desconfiarmos do caráter comercial de uma lista preparada pela Amazon, fica a citação como curiosidade. Talvez mais útil e eficiente seja o mecanismo de recomendações de títulos da Amazon com base nas suas escolhas de compras anteriores.

(15) Goodreads - Top 100 Literary Novels of all time

O site para leitores Goodreads conseguiu uma lista bastante equilibrada entre autores clássicos e contemporâneos nesta selação dos maiores romances de todos os tempos. Você encontrará indicações variando de Thomas Pynchon (73º) a Jane Austen (1º) ou de Margaret Atwood (69º) a Alexandre Dumas (10º).

(16) Norwegian Book clubs - Top 100 Works in World Literature

Um site bem organizado onde foram selecionados 100 autores com livros de 54 países, considerados como "os melhores e mais centrais trabalhos da literatura mundial". A relação é apresentada em ordem alfabética de autores, mas os organizadores revelaram que Don Quixote recebeu 50% mais votos do que qualquer outro livro.

(17) National Geographic - The 100 Greatest Adventure Books of All Time

Uma outra curiosidade literária de destaque é a lista preparada pelos editores da conceituada revista National Geographic. O foco da seleção é na área de aventuras. Posso recomendar "South" do explorador inglês Ernest Shackleton (15º colocado), lançado em 1919, é um diário que impressiona como exemplo de sobrevivência e força de vontade.

(18) The American Scholar - 100 Best American Novels, 1770 to 1985

A revista americana American Scholar escolheu os melhores romances escritos nos EUA de 1770 a 1985. A lista é apresentada em ordem cronológica e funciona como uma boa  aula de literatura de Edgar Allan Poe até Don DeLillo.

(19) Book Riot - The 100 Greatest American Novels, 1893 - 1993

O site Book Riot é sempre uma excelente fonte de informações e curiosidades para leitores. Recomendo seguir as postagens periodicamente. Esta lista também é focada somente em autores nos EUA, mas considerando o período de 1893 a 1993 e apresentada em ordem cronológica.
 
(20) Book Riot - The 10 Best Top 100 Book Lists

E para terminar esta outra publicação da Book Riot que relaciona as dez melhores Top 100 listas de literatura. Espero que se divirtam consultando as listas e, principalmente, lendo os livros que é definitivamente a melhor parte.

sábado, fevereiro 14, 2015

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go - 288 páginas - Editora Vintage (2005) - Publicado no Brasil como: "Não me Abandone Jamais" pela Companhia das Letras (leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora brasileira).
 
Este sexto romance de Kazuo Ishiguro, incluído na short list do Man Booker Prize de 2005 e adaptado para o cinema em 2010, é narrado em primeira pessoa por Kathy H. que relembra passagens de sua vida desde a infância no internato de Hailsham, em algum lugar do interior da Inglaterra, que está longe de ser uma escola normal, como descobrimos lentamente à medida que avançamos na descrição ingênua de Kathy do seu cotidiano com os amigos Ruth e Tommy.

Os alunos em Hailsham não são verdadeiramente alunos, mas sim futuros doadores de órgãos, clones gerados e mantidos pela sociedade unicamente para esta finalidade, enquanto aguardam atingir a idade madura para iniciar o triste destino de doações e "completarem" o seu ciclo. A sequência de cirurgias e recuperações terá quantidade e extensão dependentes unicamente da resistência de cada doador. Na verdade, Ishiguro não está preocupado em detalhar a base científica dos procedimentos genéticos envolvidos nos processos de clonagem e doação, mas sim nos conflitos emocionais dos personagens ao se deparar com a fatalidade da sua situação no mundo.

Kathy exerce por muitos anos a função de "cuidadora", ou seja, ela ajuda na recuperação física e psicológica dos "doadores" após as cirurgias até que seja convocada a iniciar o seu próprio ciclo de doações, o que parece um destino ainda mais cruel porque ela presenciará as etapas finais dos pacientes de que está cuidando, sendo alguns antigos companheiros de Hailsham, fazendo com que o seu futuro seja solitário e sem esperanças.

A forma como são criados, isolados e instruídos nos princípios limitados de suas curtas existências, faz com que os personagens tenham uma postura conformista quanto ao fato de não poderem leva suas vidas como seres humanos normais, tanto em termos de longevidade quanto de realizações (por exemplo, eles não podem ter aspirações profissionais ou pretensões de formar uma família com filhos).

Kazuo Ishiguro imaginou uma distopia e um argumento que bem poderiam enquadrar o seu romance no gênero de ficção científica, mas seria uma classificação muito simplista para o livro, sem querer desmerecer o gênero. "Não me Abandone Jamais" é perturbador demais na reflexão que provoca sobre a existência e na descrição detalhada de uma prática que, assustadoramente, não está tão distante assim das "conquistas" científicas da nossa época. Um romance que incomoda.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Finalistas do Folio Prize 2015


Divulgada a shortlist de oito romances do Folio Prize 2015, escolhidos entre 80 livros em língua inglesa publicados no ano passado na Grã-Bretanha por autores de diversas nacionalidades, independente da forma ou gênero (romance, conto ou poesia), conforme o regulamento da organização. O vencedor receberá um prêmio de 40.000 libras (65.000 dólares) na cerimônia em Londres, em 23 de março.

10:04 - Ben Lerner (Editora Granta)

All My Puny Sorrows - Miriam Toews (Editora Faber)

Dept. of Speculation - Jenny Offill (Editora Granta)

Dust - Yvonne Adhiambo Owuor (Editora Granta)

Family Life - Akhil Sharma (Editora Faber)

How to Be Both
- Ali Smith (Editora Hamish Hamilton)

Nora Webster - Colm Tóibín (Editora Viking)

Outline - Rachel Cusk (Editora Faber)

A Folio Society, patrocinadora do evento, é uma famosa editora de livros ilustrados. Ano passado o livro premiado foi a antologia de contos "Tenth of December" de George Saunders (ver aqui postagem do Mundo de K), publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras como Dez de Dezembro.

sábado, fevereiro 07, 2015

A Livraria Lello da cidade do Porto resiste ao tempo

 
A livraria Lello e Irmão da cidade do Porto continua resistindo à era dos livros digitais e compras online, provando que ainda existe lugar para o livro impresso e a livraria independente tradicional. Em janeiro deste ano foi escolhida pela revista Time como uma das livrarias mais interessantes do mundo (ver a seleção em World´s coolest bookstores). Em 2010 foi eleita pelo guia de viagens Lonely Planet como a terceira mais bonita do mundo (ver seleção completa aqui) em 2008 entrou na lista do jornal inglês Guardian.

A matéria completa da revista Time descreve assim a livraria Lello (tradução do jornal português Observador):
“A fachada neogótica desta livraria antiga não transparece a opulência interior: madeira talhada, colunas douradas, tetos ornamentados, e uma escada vermelha deslumbrante iluminada por um vitral. A livraria centenária apresenta mais de 100 mil títulos diferentes em várias línguas, incluindo traduções para inglês de talentos portugueses como Fernando Pessoa e José Saramago. Também vai encontrar revistas, CD’s, livros antigos, e uma grande variedade de publicações sobre o próprio Porto”.

sábado, janeiro 31, 2015

Os 20 melhores romances do século XXI até o momento


O site de Cultura da BBC solicitou a críticos literários do New York Times, Time Magazine, Newsday, The Millions e outras publicações especializadas que escolhessem os melhores romances publicados em inglês desde 01 de Janeiro de 2000. Os críticos indicaram 156 romances e o site da BBC divulgou a lista dos 12 primeiros colocados, sendo posteriormente ampliada para os top 20 em função de pedidos dos leitores.
 
O romance "The Brief Wondrous Life of Oscar Wao", prêmio Pulitzer 2008, do escritor dominicano radicado nos Estados Unidos, Junot Diaz, foi o melhor colocado na avaliação da BBC, ver relação completa abaixo e os respectivos links para as editoras reponsáveis pelos lançamentos no Brasil com as sinopses, boas sugestões para suas próximas leituras.

(01) Junot Díaz, The Brief Wondrous Life of Oscar Wao (2007)
No Brasil: “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao” – Editora Record

(02) Edward P Jones, The Known World (2003)
No Brasil: “O Mundo Conhecido” – Editora Record / José Olympio

(03) Hilary Mantel, Wolf Hall (2009)
No Brasil: “Wolf Hall” – Editora Record

(04) Marilynne Robinson, Gilead (2004)
No Brasil: “Gilead” – Editora Ediouro / Nova Fronteira

(05) Jonathan Franzen, The Corrections (2001)
No Brasil: “As Correções” – Editora Companhia das Letras

(06) Michael Chabon, The Amazing Adventures of Kavalier and Clay (2000)
No Brasil: “As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay” – Editora Companhia das Letras

(07) Jennifer Egan, A Visit from the Goon Squad (2010)
No Brasil: “A Visita Cruel do Tempo” – Editora Intrínseca

(08) Ben Fountain, Billy Lynn’s Long Halftime Walk (2012)
No Brasil: Sem Editora até o momento

(09) Ian McEwan, Atonement (2001)
No Brasil: “Reparação” – Editora Companhia das Letras
(Ler aqui resenha do Mundo de K).

(10) Chimamanda Ngozi Adichie, Half of a Yellow Sun (2006)
No Brasil: “Meio Sol Amarelo” – Editora Companhia das Letras

(11) Zadie Smith, White Teeth (2000)
No Brasil: “Dentes Brancos” – Editora Companhia das Letras

(12) Jeffrey Eugenides, Middlesex (2002)
No Brasil: “Middlesex” – Editora Companhia das Letras

(13) Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah (2014)
No Brasil: “Americanah” – Editora Companhia das Letras

(14) WG Sebald, Austerlitz (2001)
No Brasil: “Austerlitz” – Editora Companhia das Letras

(15) Elena Ferrante, My Brilliant Friend (2012)
No Brasil: "L’Amica Geniale" – Editora Biblioteca Azul (no prelo)

(16) Alan Hollinghurst, The Line of Beauty (2005)
No Brasil: “A Linha da Beleza” – Editora Ediouro / Nova Fronteira

(17) Cormac McCarthy, The Road (2007)
No Brasil: “A Estrada” – Editora Alfaguara

(18) Zadie Smith, NW (2013)
No Brasil: “NW” – Editora Companhia das Letras

(19) Roberto Bolaño, 2666 (2008)
No Brasil: “2666” – Editora Companhia das Letras
(Ler aqui resenha do Mundo de K).

(20) Shirley Hazzard, The Great Fire (2004)
No Brasil: “O Grande Incêndio” – Editora Companhia das Letras

terça-feira, janeiro 27, 2015

Miguel Delibes - El Camino

Miguel Delibes - El Camino - Editora Planeta de Libros, Selo Austral - 172 páginas - Publicação 2010 (clique aqui para ler um trecho disponibilizado pelo jornal El Pais).

Miguel Delibes (1920 - 2010) é um dos autores mais importantes da literatura contemporânea da Espanha, vencedor dos prêmios Príncipe de Astúrias em 1982 e Miguel de Cervantes em 1993, para citar somente alguns, mas ainda assim ignorado pelas editoras brasileiras, fato que só pode ser explicado pelo nosso isolamento cultural em relação à língua espanhola.

Este seu terceiro romance, lançado originalmente em 1950, é ambientado em uma pequena vila e narrado do ponto de vista do menino Daniel el Mochuelo (o coruja) de apenas 11 anos que, por decisão do pai, deverá partir para a cidade grande para estudar e progredir. Daniel passa a noite em claro lembrando as aventuras que viveu com os amigos Roque el Moñigo (o bosta) e Germán el Tiñoso (o sarnento), assim como os curiosos eventos do povoado que são encadeados de forma aleatória na sua memória e onde o autor desfila uma galeria de personagens inesquecíveis como as irmãs Guindillas, guardiãs da moral e bons costumes, Don José, o santo padre, Quino el manco e muitos outros.

O pequeno Daniel Mochuelo não consegue se conformar com o caminho imposto pelo pai em nome do progresso. Ele entende que a verdadeira felicidade está em permanecer ao lado da família, da natureza exuberante do seu vale e, principalmente, nunca abandonar os amigos com os quais mantem uma relação de confiança mútua que somente é possível nesta idade. Talvez a explicação para a veracidade dos personagens deste romance esteja nas palavras do próprio autor, quando declarou que seus personagens são, em boa parte, sua própria biografia.

Miguel Delibes soube dosar o seu texto com passagens que alternam humor e sensibilidade, criando um clássico emocionante porque nos faz lembrar da inocência perdida da infância, dos valores simples da vida e até mesmo da certeza da morte. Simplesmente um livro que podemos comparar com outras obras universais tais como, olha só que responsabilidade, Os Meninos da Rua Paulo de Ferenc Molnár e Huckleberry Finn de Mark Twain.

sábado, janeiro 24, 2015

blog de escritor - 2 mil toques


Mais um site interessante para a série "blog de escritor" (ler os anteriores de Marcelino Freire, Michel Laub e Joca Reiners Terron). O 2 mil toques foi criado pelo publicitário e escritor André Timm com a finalidade de apresentar em cada postagem as rotinas e processos de trabalho de escritores, normalmente jovens e iniciantes, embora alguns nem tão iniciantes assim, como: Antônio Xerxenesky, Carol Bensimon ou Flavio Cafiero.

Infelizmente, as razões para não escrever são maiores e mais concretas do que as razões para escrever, como André Timm bem descreve neste texto. Logo, conhecer as técnicas de criação de outros escritores pode resultar em sugestões para vencer as barreiras de falta de tempo, inspiração e outras dificuldades comuns do ofício.
 
Outra característica do site é a forma como cada convidado, em seu próprio estilo, transforma as postagens em criação literária, fazendo com que a leitura seja sempre um prazer para o visitante curioso ou os profissionais da área. Uma boa ideia que vale a pena conhecer e divulgar.
 
Dados biográficos: André Timm é natural de Porto Alegre. Em 2010, recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura por seu primeiro livro de contos, Insônia, publicado pela Design Editora em 2011. Em 2014, teve parte de seu trabalho selecionado para integrar a revista Machado de Assis, uma publicação da Biblioteca Nacional que tem como objetivo divulgar autores brasileiros para o mercado editorial internacional. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Prêmio Sesc de Literatura 2015


As inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2015, categorias contos e romance, estão abertas até o dia 01 de março. Os trabalhos deverão ser inéditos, inclusive na internet, e as inscrições poderão ser feitas através de formulário online. Será permitida a participação de escritores brasileiros e estrangeiros, residentes no Brail, com mais de 18 anos.

Uma excelente oportunidade para os escritores iniciantes conseguirem divulgação para os seus trabalhos. Os textos serão avaliados por uma comissão composta de escritores, jornalistas, críticos literários e especialistas em literatura e o resultado será divulgado em julho. O escolhido de cada categoria terá sua obra publicada e distribuída comercialmente pela editora Record, com uma tiragem inicial mínima de 2.000 exemplares.

Cada vencedor assinará contrato de publicação com a editora, que ficará responsável pelos termos de edição. O Sesc irá adquirir um mínimo de 1.000 exemplares da primeira edição de cada obra, para utilização em ações culturais e inserção no acervo das bibliotecas da instituição. Para consultar o Edital completo clicar aqui. Sigam os links para conhecer o site do Prêmio Sesc de Literatura 2015 e o blog da organização.

sábado, janeiro 17, 2015

Haruki Murakami - The Elephant Vanishes

Haruki Murakami - The Elephant Vanishes - 336 páginas - Editora Vintage - Tadução de Alfred Birnbaum e Jay Rubin - Lançamento 2003.

Esta antologia, infelizmente ainda não lançada no Brasil, reúne dezessete contos de Haruki Murakami escritos entre 1983 e 1990 e publicados separadamente em revistas literárias como a The New Yorker. As narrativas, no melhor estilo kafkiano, em sua maioria ligadas a temas fantásticos ou surrealistas, mas sempre com um toque de humor, ocorrem em mundos paralelos, espécie de brechas ao disciplinado cotidiano da classe média nas grandes cidades japonesas. Normalmente escritos em primeira pessoa e ritmo acelerado, os contos despertam o interesse desde o primeiro parágrafo, deixando aquela sensação de pena, bem conhecida de todos os leitores, quando chegamos ao final de um bom livro e temos que retornar ao mundo real.

No conto de abertura, The Wind-up Bird and Tuesday´s Women, o nosso protagonista está cozinhando spaghetti com música de fundo de Rossini, interpretado pela Orquestra Sinfônica de Londres (sempre as referências ocidentais típicas de Murakami), quando é perturbado pela ligação telefônica de uma mulher desconhecida que pede apenas dez minutos do seu tempo. Assim tem início um estranho pesadelo que passa pela busca de Noboru Watanabe, o gato desaparecido da sua esposa, único personagem com nome, e o encontro com uma sensual garota nos jardins escondidos dos fundos das casas da vizinhança. Este conto foi adaptado em 1994 como capítulo inicial do romance The Wind-up Bird  Chronicle (também não lançado no Brasil).

Em "The Second Bakery Attack", publicado originalmente na revista Playboy em 1985, um casal sente uma espécie de fome desesperadora e decide praticar um roubo em uma padaria, não pelo dinheiro, mas simplesmente para aplacar a fome. No entanto, depois de dirigir por vários bairros de Tóquio, como Roppongi e Shibuya, encontram todo o tipo de pessoas e lojas, menos uma padaria e, na falta de tal estabelecimento, munidos de metralhadora e máscaras, decidem assaltar uma filial do McDonald's. Um argumento que muito bem poderia ser utilizado como roteiro para um filme de Tarantino.

Murakami abre espaço para o romantismo no conto "On seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning" onde um encontro casual em uma bela manhã de abril, nos movimentados cruzamentos das ruas do bairro de Harajuko em Tóquio, define o que se poderia chamar de destino quando o protagonista cruza com uma mulher de aparência nada especial, mas que ele sabe ser o seu tipo de garota 100% perfeita.

Em "Sleep" o autor imagina o que acontece quando uma mulher não consegue dormir por dezessete dias seguidos e começa a passar as noites em um mundo isolado da vida aparentemente feliz que levava com o marido e filho, relendo os romances preferidos da juventude como Ana Karenina, comendo chocolate e bebendo conhaque. As consequências da insônia, à princípio, não parecem afetar a sua vida durante o dia, até o momento em que ela começa a sentir aversão pelo marido e percebe que talvez a morte não seja tão parecida com o sono, como pensava anteriormente.

Em "The Little Green Monster" uma mulher é surpreendida por uma estranha criatura de escamas verdes que surge das profundezas da terra em seu jardim, mas logo a situação se inverte quando ela percebe que o pequeno monstro não quer o seu mal, muito pelo contrário, e percebemos que nada é o que parece, principalmente lendo um livro de Murakami.

O conto final, The Elephant Vanishes, que empresta o título à antologia, apela mais uma vez para uma situação absurda quando um elefante e seu tratador desaparecem misteriosamente, sem deixar pistas, de um pequeno zoológico nos subúrbios de Tóquio. O nosso protagonista acompanha o caso pelos jornais e não concorda que o elefante tenha fugido como foi publicado, mas sim que tenha simplesmente evaporado. Ele desenvolve uma fixação com este evento que afetará a sua vida.

Existe uma versão deste livro disponível para português publicada em Portugal com o título de "O elefante Evapora-se" pela Editora Casa das Letras, mas sugiro se arriscar mesmo nesta tradução para o inglês. Os fãs de Murakami não se arrependerão, posso garantir.
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