Quinta-feira, Maio 22, 2008

Arthur Rimbaud - Poesia Completa

Arthur Rimbaud - Poesia Completa - Editora Topbooks - 392 páginas - Publicação 1994 - Tradução, prefácio e organização de Ivo Barroso.

Arthur Rimbaud (1854 - 1891) representa com seus poemas revolucionários, ainda hoje, o verdadeiro espírito de modernidade na literatura. Muito de sua obra se confunde com a marca de rebelde e maldito que Rimbaud soube encarnar como poucos. A sua precocidade é um caso único na poesia, pois não se conhece outro autor que tenha escrito obra de tamanha profundidade e originalidade estilística antes de completar vinte anos. Por outro lado, Rimbaud não conseguiu dar prosseguimento à sua vocação literária pois, após um romance tumultuado com o poeta Verlaine, nunca mais se dedicou às letras, tornando-se negociante e traficante de armas no norte da África e Oriente Médio, vindo a morrer de câncer aos 37 anos.

Esta edição apresenta um trabalho extremamente cuidadoso de tradução de Ivo Barroso que Antônio Houaiss, o tradutor de Ulisses de James Joyce, chamou de "reencarnação". O próprio Ivo Barroso definiu as premissas do espinhoso sacerdócio da tradução no seguinte trecho do prefácio:

"Em nosso trabalho, não tomamos liberdades com Rimbaud; mas houve passos em que, por já nos escassear tempo de vida ou paciência de espera, tivemos de "traí-lo". Nem sempre nos foi possível vertê-lo "sinfonicamente", ou seja, observando imagem sentido, metro e rima. Em alguns de seus poemas longos, principalmente da fase inicial, entre desfigurar ou simplificar demasiadamente o conteúdo para mantê-lo rimado, a exaustão nos levou a optar por uma transposição "de orquestra de câmara", ou seja, mantivemos a métrica mas sacrificamos a rima. Contudo, em 90% dos poemas a orquestra tradutória se apresenta au grand complet (...)"

Selecionei um exemplo que demosnstra bem a dificuldade de tradução mencionada por Ivo Barroso. Adicionei também as notas originais (parciais - por uma questão de espaço) desta edição, absolutamente necessárias, como se pode constatar abaixo.

Le châtiment de Tartufe

Tisonnant, tisonnant son coeur amoureux sous
Sa chaste robe noire, heureux, la main gantée,
Un jour qu'il s'en allait, effroyablement doux,
Jaune, bavant la foi de sa bouche édentée,

Un jour qu'il s'en allait, " Oremus ", - un Méchant
Le prit rudement par son oreille benoîte
Et lui jeta des mots affreux, en arrachant
Sa chaste robe noire autour de sa peau moite!

Châtiment !... Ses habits étaient déboutonnés,
Et le long chapelet des péchés pardonnés
S'égrenant dans son coeur, Saint Tartufe était pâle!...

Donc, il se confessait, priait, avec un râle!
L'homme se contenta d'emporter ses rabats...
- Peuh ! Tartufe était nu du haut jusques en bas!

O Castigo de Tartufo (1)

Na casta veste negra, atiçando, atiçando (2)
O amor no coração, feliz, mão enluvada, (3)
Um dia em que passava, horrivelmente brando,
Céreo, babando fé da boca desdentada, (4)

Um dia em que passava, "Oremus", - um Malvado (5)
Com rudeza o agarrou pela sagrada orelha
E nomes vis lançou-lhe, após ter arrancado
A casta veste negra à sua carne velha!

Castigo!... Os trajes seus estão desabotoados,
E o rosário sem fim dos pecados perdoados (6)
Desfia-se no chão... Tartufo perde a cor!...

E o santo se confessa, e reza, em estertor!
(7)
O homem só lhe arrancara o colarinho, e, em vez (8)
- Tartufo estava nu desde a cabeça aos pés!

(1) Tartufo é a personificação do hipócrita em Molière, onde o personagem, embora não seja padre, aparece sempre vestido de negro a fim de aparentar decoro e austeridade. Rimbaud utiliza-o como símbolo da hipocrisia sacerdotal, o indivíduo de aspecto piedoso mas lúbrico, que oculta sua sensualidade sob o véu (ou melhor, a batina) da candidez e do fervor religioso.

(2) O poema começa com um iterativo Tisonnant, tisonnant, que, para Steve Murphy, 'mima' verbalmente o ato masturbatório. Levando em conta essa exegese, mantivemos, na tradução, o verbo repetitivo, embora deslocado para o fim do verso. Tartufo está nu sob a batina, e, enquanto caminha pela rua com ares contritos, secretamente se masturba. Ao ser surpreendido por um "Malvado", que lhe arranca a batina pela gola, o Tartufo de Rimbaud se assusta e ejacula em plena via pública, praguejando e rezando diante de sua nudez revelada.

(3) Coeur, literalmente, é "coração", mas Rimbaud emprega a palavra no sentido especial de sexo (...). Mão enluvada é um eufemismo para o ato de masturbar (...).

(4) O verbo baver (babar) adquire significados especiais na sutil alquimia de Rimbaud e em alguns casos, segundo Jeancolas, está associado a esperma.

(5) Oremus (do latim, oremos, rezemos) evoca o vocabulário religioso do Tartufo de Molière e suas invocações à prece (...)

(6) Imagem arrojada de Rimbaud, que compara a ejaculação ao desfiar das contas de um rosário que rolassem pelo chão. Os pecados perdoados mostram a perseverança masturbatória do personagem, capaz de se autoperdoar indefinidamente.

(7) Para acentuar o impacto, Rimbaud chama Tartufo de Saint Tartufe, ironia que, indiretamente mantivemos com "E o Santo...".

(8) Rimbaud que se compraz na utilização de um vocabulário preciso e específico usou ses rabats, designativo do colarinho eclesiástico em francês. Numa das versões do poema, procuramos manter a especificidade terminológica e traduzimos por "volta", mas como o termo em português tem várias outras acepções e dificilmente informaria o leitor na compreensão imediata do texto, acabamos optando pelo genérico mas determinante "colarinho" (...).

Domingo, Maio 11, 2008

Bob Dylan - Canções - Volume I (1962 - 1973)

Bob Dylan - Canções - Volume I (1962 - 1973) - Editora Relógio d'Água - 665 páginas - Publicação 2006 - Tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano.

Encontrei este último exemplar da editora portuguesa Relógio d'Água na filial de Ipanema da Livraria da Travessa. Trata-se de uma edição bilingue onde, apesar da ortografia vigente em Portugal, temos uma obra de referência única considerando-se a dificuldade de tradução de muitas letras de Dylan. Foram adicionadas também várias notas que explicam as circunstâncias em que as canções foram concebidas, expressões idiomáticas, girías e ainda, em alguns casos, o contexto histórico da sociedade americana da época. Enfim, por todos estes motivos e também pela falta de uma obra semelhante no mercado brasileiro é um livro imperdível.

Relacionei abaixo a discografia considerada no período de 1962 a 1973 e apontei os links para a página oficial de Bob Dylan que disponibiliza todas as letras em inglês para consulta, com exceção das músicas folclóricas e tradicionais (o primeiro álbum, por exemplo contém apenas duas canções originais de Dylan). Segundo informação da editora Relógio d'Água, o Volume 2 (a publicar) compreenderá o período de 1974 a 2001.

Título: Bob Dylan

Data de Lançamento: 19 de março de 1962

You're No Good / Talking New York / In My Time of Dyin' / Man of Constant Sorrow / Fixin' to Die / Pretty Peggy-O / Highway 51 Blues / Gospel Plow / Baby, Let Me Follow You Down / House of the Rising Sun / Freight Train Blues / Song to Woody / See That My Grave is Kept Clean

Título: The Freewheelin' Bob Dylan

Data de Lançamento: 27 de maio de 1963

Blowin' in the Wind / Girl of the North Country / Masters of War / Down the Highway / Bob Dylan's Blues / A Hard Rain's A-Gonna Fall / Don't Think Twice, It's All Right / Bob Dylan's Dream / Oxford Town / Talkin' World War III Blues / Corrina, Corrina / Honey, Just Allow Me One More Chance / I Shall Be Free

Título: The Times They Are A-Changin'

Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 1964

The Times They Are A-Changin' / Ballad of Hollis Brown / With God on Our Side / One Too Many Mornings / North Country Blues / Only a Pawn in Their Game / Boots of Spanish Leather / When the Ship Comes In / The Lonesome Death of Hattie Carroll / Restless Farewell

Título: Another Side of Bob Dylan

Data de Lançamento: 8 de agosto de 1964

Subterranean Homesick Blues / She Belongs to Me / Maggie's Farm / Love Minus Zero/No Limit / Outlaw Blues / On the Road Again / Bob Dylan's 115th Dream / Mr. Tambourine Man / Gates of Eden / It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding) / It's All Over Now, Baby Blue

Título: Highway 61 Revisited

Data de Lançamento: 30 de agosto de 1965

Like a Rolling Stone / Tombstone Blues / It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry / From a Buick 6 / Ballad of a Thin Man / Queen Jane Approximately / Highway 61 Revisited / Just Like Tom Thumb's Blues / Desolation Row

Título: Blonde on Blonde

Data de Lançamento: 16 de maio de 1966

Rainy Day Women #12 & 35 / Pledging My Time / Visions of Johanna / One of Us Must Know (Sooner or Later) / I Want You / Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again / Leopard-Skin Pill-Box Hat / Just Like a Woman / Most Likely You Go Your Way and I'll Go Mine / Temporary Like Achilles / Absolutely Sweet Marie / 4th Time Around / Obviously Five Believers / Sad-Eyed Lady of the Lowlands

Título: John Wesley Harding

Data de Lançamento: 27 de dezembro de 1967

John Wesley Harding / As I Went Out One Morning / I Dreamed I Saw St. Augustine / All Along the Watchtower / The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest / Drifter's Escape / Dear Landlord / I Am a Lonesome Hobo / I Pity the Poor Immigrant / The Wicked Messenger / Down Along the Cove / I'll Be Your Baby Tonight

Título: Nashville Skyline

Data de Lançamento: 9 de abril de 1969

Girl of the North Country (new recording) / Nashville Skyline Rag / To Be Alone with You / I Threw It All Away / Peggy Day / Lay, Lady, Lay / One More Night / Tell Me That It Isn't True / Country Pie / Tonight I'll Be Staying Here With You

Título: Self Portrait

Data de Lançamento: 8 de junho de 1970

All the Tired Horses / Alberta #1 / I Forgot More Than You'll Ever Know / Days of 49 / Early Mornin' Rain / In Search of Little Sadie / Let It Be Me / Little Sadie / Woogie Boogie / Belle Isle / Living the Blues / Like a Rolling Stone / Copper Kettle / Gotta Travel On / Blue Moon / The Boxer / Quinn the Eskimo (The Mighty Quinn) / Take Me as I Am / Take a Message to Mary / It Hurts Me Too / Minstrel Boy / She Belongs to Me / Wigwam / Alberta #2

Título: New Morning

Data de Lançamento: 21 de outubro de 1970

If Not for You (new recording) / Day of the Locusts / Time Passes Slowly / Went to See the Gypsy / Winterlude / If Dogs Run Free / New Morning / Sign on the Window / One More Weekend / The Man in Me / Three Angels / Father of Night

Título: Pat Garrett and Billy the Kid

Bob Dylan Soundtrack

Data de Lançamento: 13 de julho de 1973

Billy (Main Title Theme) / Cantina Theme (Workin' for the Law) / Billy 1 / Bunkhouse Theme / River Theme / Turkey Chase / Knockin' on Heaven's Door / Final Theme / Billy 4 / Billy 7

Título: Planet Waves

Data de Lançamento: 17 de janeiro de 1974

On a Night Like This / Going, Going, Gone / Tough Mama / Hazel / Something There is About You / Forever Young / Dirge / You Angel You / Never Say Goodbye / Wedding Song

Quarta-feira, Abril 30, 2008

William Faulkner - O Som e a Fúria

William Faulkner - O Som e a Fúria - Editora Cosac Naify - 331 páginas - Publicação 2003 - Tradução de Paulo Henrique Britto.

O Som e a Fúria, quarto romance de William Faulkner (1897 - 1962), foi publicado originalmente em 1929 e é considerado pela crítica sua obra mais importante. O tema central é o processo de desagregação e decadência da tradicional família Compson e seus últimos descendentes no ambiente racista do sul dos Estados Unidos. Faulkner utilizou técnicas modernas como o fluxo de consciência dos personagens, estruturas de tempo e espaço não lineares e, principalmente, diferentes vozes narrativas para compor esta história surpreendente, que não poderia mesmo ter sido integralmente compreendida na época, como explicou o próprio autor, vencedor do prêmio Nobel em 1949:

"Quando comecei o livro, não tinha nenhum plano. Eu nem sequer estava escrevendo um livro. De repente, parecia que uma porta se havia fechado, em silêncio e para sempre, entre mim e os endereços dos editores, e eu disse a mim mesmo: 'Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever'".

A estrutura original do romance é dividida em quatro partes, cada uma constituída por pontos de vista diferenciados. Os principais personagens são os irmãos Benjy, Jason, Caddy e Quentin, que alternam as vozes narrativas com noções independentes de tempo e espaço. Nesta edição foi incluído um apêndice sobre a história da família Compson de 1699 a 1945, publicado pela primeira vez em 1946 numa antologia de Faulkner, e incluído, por recomendação do autor, em duas reedições subsequentes.

A primeira parte do romance é narrada por Benjamin Compson, ou simplesmente Benjy, um retardado mental de trinta e três anos, sem o domínio da fala. Esta sequência do romance é decididamente a mais difícil, um verdadeiro desafio para o leitor que se sente perdido no mosaico de impressões e sentimentos do personagem deficiente. Os eventos são introduzidos aleatoriamente e fora de uma ordem cronológica natural, neste ponto parece só haver uma forma de conseguir avançar na leitura que é deixando-se levar pelas sensações de Benjy e não buscar um entendimento racional do foco narrativo, desde que, a princípio, parece não existir lógica entre as causas e consequências. A irmã Caddy e a criada negra Dilsey são as únicas oportunidades de afeto para Benjy que é sempre considerado um estorvo e origem de vergonha para a família Compson. O título do livro é uma citação a Macbeth, onde William Shakespeare definiu a vida como "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada".

O irmão mais velho Quentin, considerado como a esperança de redenção para a família quando foi enviado para estudar em Oxford, patrocinado pela venda do terreno da família para um campo de golfe, é o narrador da segunda parte do romance, onde o nível de dificuldade para o entendimento do leitor é semelhante ao do início, devido à mistura de fantasia e realidade deste personagem. Quentin alimenta um amor obsessivo e incestuoso por Caddy que o levará a um trágico fim, após o casamento da irmã. A filha bastarda de Caddy se chamará também Quentin em homenagem ao irmão.

A terceira parte é narrada de forma linear por Jason, último descendente da família e responsável por cuidar da mãe hipocondríaca, Benjy e Quentin (filha de Caddy). Somente nesta parte conseguimos entender de forma clara as relações entre os irmãos e o caráter promíscuo da irmã e sobrinha. O sádico Jason, no entanto, é o maior símbolo da decadência dos Compson.

A quarta e última parte é constituída por um narrador indireto, o próprio Faulkner, que ressalta a rotina de trabalho da velha criada negra Dilsey e seu filho Luster, inteiramente responsável por cuidar de Benjy. Fica caracterizado o contraste entre a fraqueza de caráter dos patrões e a firmeza moral de Dilsey que, apesar de ser tratada ainda como escrava, consegue manter a cega lealdade à família Compson, ou o que restou dela.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Leon Tolstoi - Guerra e Paz

Leon Tolstoi - Guerra e Paz - Prestígio Editorial - 03 volumes - 1349 páginas - Publicação 2002 - Tradução de Gustavo Nonnenberg, com base na versão francesa.

Leon Tolstoi (1828 - 1910) escreveu um dos romances mais completos e marcantes da literatura universal, talvez só comparável à Ilíada ou Odisséia, na sua grandeza épica. Embora Guerra e Paz não consiga alcançar o nível de aprofundamento psicológico obtido pelo autor em Ana Karenina, por outro lado, poucas vezes um povo recebeu um legado artístico tão apaixonado. O romance compreende o período de 1805 a 1813, descrevendo, em retrospectiva histórica, a campanha de Napoleão na Áustria, a invasão da Rússia, a tomada de Moscou e, finalmente, a trágica retirada das tropas francesas durante o inverno russo. A narrativa tem início durante um período de paz, onde Tolstoi destaca com ironia a futilidade da sociedade russa da época, nos salões de baile de São Petersburgo onde, apesar da ameaça de guerra imposta pelo avanço de Napoleão na Europa, a aristocracia local, sob forte influência cultural do inimigo, insistia em falar francês.

Pedro Bezukhov, um dos personagens principais do romance, é uma expressão do alter ego de Tolstoi. Filho ilegítimo de um nobre russo, foi educado no exterior e retorna para a Rússia ao mesmo tempo em que passa a ser o único herdeiro de uma grande fortuna. Entretanto, Pedro não consegue se adaptar ao meio nobre em que é forçado a conviver e busca incessantemente um sentido espiritual e filosófico para a sua vida. Pedro não é guiado pela razão e, na maior parte das vezes, acaba tomando atitudes intempestivas com base em seu estado emocional, como, por exemplo, quando acaba sendo convencido a se casar com a bela e vazia Helena Kuriaguine ou mesmo quando decide assassinar Napoleão durante a invasão de Moscou.

O príncipe André Bolkonski, embora sendo o melhor amigo de Pedro Bezukhov, tem uma personalidade contrastante, pois enquanto Pedro é simples e até mesmo ingênuo no trato das questões práticas da vida, André tem uma mente pragmática e é extremamente devotado ao país. Ele participa das batalhas principais da campanha da Rússia como ajudante de ordens do velho general Kutuzov, personagem histórico e que, segundo Tolstoi foi o maior responsável pela libertação da Rússia devido à sua estratégia militar de humildade e paciência que conseguiu finalmente derrotar Napoleão.

Tolstoi descreve as batalhas de Austerlitz e Borodino com rigor de detalhes para concluir que a conquista ou derrota não está no desenvolvimento de planos lógicos e detalhados pelos generais, mas sim na sucessão de eventos incontroláveis que forçam os estrategistas, muitas vezes interessados apenas em suas próprias carreiras, a mudar as táticas de acordo com a lei do acaso. Neste contexto, Tolstoi apresenta uma visão desmistificada de Napoleão e do imperador russo Alexandre I. Napoleão, principalmente, é sempre caracterizado como um líder arrogante e ambicioso.

Os personagens femininos são muito bem construídos em Guerra e Paz, a exemplo da jovem e encantadora Natacha Rostov, cuja autenticidade na busca da própria felicidade fará com que seja corrompida pela sociedade, traindo o amor sincero de André Bolkonski. Natacha se arrependerá de seu erro no decorrer do romance.

A tradução indireta do francês é sempre um limitador para a originalidade da prosa russa o que, no caso desta edição, foi ainda mais comprometido por uma revisão final decepcionante. Mesmo assim, a obra de Tolstoi consegue elevar-se como um dos maiores clássicos já escritos pelo homem em homenagem aos povos, coisas do século XIX.

Quarta-feira, Abril 02, 2008

20 Citações do Mundo de K

Desde que iniciei este blog, em janeiro de 2007, tenho selecionado e exibido algumas citações que mantenho por algum tempo na página. Eventualmente volto a postar algumas preferidas, mas decidi relacionar aquelas mais representativas dos temas discutidos por aqui. A ordem de apresentação é apenas cronológica de publicação no blog:

(1) "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.Gabriel García Márquez - "Viver para Contar" (2002)

(2) "Amar é mudar a alma de casa.Mario Quintana - "Sapato Florido" (1948)

(3) "Olho muito tempo o corpo de um poema / até perder de vista o que não seja corpo / e sentir separado dentre os dentes / um filete de sangue / nas gengivas." Ana Cristina Cesar - "A teus Pés" (1982)

(4) "O meu amor e eu / nascemos um para o outro / agora só falta quem nos apresente." Cacaso - "Happy End" - Beijo na Boca (1975)

(5) "My love she speaks like silence / Without ideals or violence / She doesn't have to say she's faithful / Yet she's true, like ice, like fire." Bob Dylan - Love Minus Zero/No Limit - Bringing It All Back Home (1965)

(6) "Pardon my sanity in a world insane." Emily Dickinson (1830 - 1886)

(7) "Há duas maneiras de se elevar a si mesmo; ou por sua própria indústria ou pela imbecilidade dos outros." Jean de La Bruyére (1645 - 1696)

(8) "Antigamente, livros eram escritos por homens de letras e lidos pelo público. Hoje em dia, livros são escritos pelo público e lidos por ninguém.” Oscar Wilde (1854 - 1900) há aproximadamente um século antes da criação dos BLOGS

(9) "A vida é atravessada pela morte. Morrem-nos pessoas queridas, e em cada uma dessas mortes morremos um pouco. Quanto mais conseguimos prolongar a vida, mais mortes experimentamos Inês Pedrosa - Entrevista à revista Entrelivros - edição de abril 2007.

(10) "Assim como as preces dos homens são uma doença da vontade, suas crenças são uma doença do intelecto.” Ralph Waldo Emerson (1803 - 1882)

(11) "O maior chato é o chato perguntativo. Prefiro o chato discursivo ou narrativo, que se pode ouvir enquanto se pensa noutra coisa.Mario Quintana (1906 - 1994)

(12) "Todos nascem loucos; alguns permanecem." Samuel Beckett (1906 - 1989)

(13) "Para ser grande é preciso ter 99 por cento de talento, 99 por cento de disciplina e 99 por cento de trabalho." William Faulkner (1897 - 1962)

(14) "É uma situação extraordinária, a de me pagarem para fazer aquilo que eu fazia, tendo que pagar para o fazer" António Lobo Antunes em discurso de agradecimento ao ser investido como doutor "honoris causa" da universidade portuguesa de Vila Real (Agência RTP - Portugal 06-07-2007).

(15) "Faith is a fine invention / For gentlemen who see / But microscopes are prudent / In an emergency!" Emily Dickinson (1830 - 1886)

(16) "Pais, maridos, filhos, amantes e amigos certamente tem seus méritos, até mesmo bem grandes, mas, afinal de contas, não são cães." Elisabeth von Arnim (1866 - 1941) - prima de Katherine Mansfield, escreveu sua biografia por meio da história de seus cães.

(17) "As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam." Almada Negreiros (1893 - 1970) - pintor e escritor português.

(18) "Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca." Jorge Luis Borges (1899 - 1986)

(19) "Excuse me, while I kiss the sky." Jimi Hendrix (1942 - 1970) - Purple Haze

(20) "Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos." Anaïs Nin (1903 - 1977)

Imagem: Ilustração de Lowel Herrero: "Vacas del Delta".

Sexta-feira, Março 28, 2008

Anna Akhmátova - alma feminina, alma russa.

A poesia de Anna Akhmátova (1889 - 1966) é baseada em imagens aparentemente simples, sem ornamentos e representando um ponto de vista essencialmente feminino, coisa rara no início do século XX. Assume um caráter fortemente patriótico, apesar de ter sido na maior parte do tempo perseguida e censurada pelo governo comunista. Em 1925, uma resolução do comitê central do partido proibiu-a de publicar suas obras e só foi admitida pelo regime, como fonte de propaganda nacionalista, durante a segunda guerra mundial. Segundo Óssip Mandelshtám, um dos grandes poetas do século XX, a poesia de Anna parece descender não da linhagem poética russa, mas sim da tradição do romance psicológico de Turgueniev e Tolstoi.

Toda a obra de Anna Akhmátova é essencialmente autobiográfica e histórica, um depoimento sobre a revolução comunista e do período de perseguição política stalinista. As autoridades russas fuzilaram seu primeiro marido e prenderam o segundo em um campo de concentração, onde ele morreu, mas talvez o maior sofrimento de Anna Akhmátova tenha sido durante o longo período em que seu filho esteve preso.

Imagem: Retrato de Anna Akhmátova,1914 por Nathan Altman. Óleo em Tela - 123,5 x 103,2 cm. The Russian Museum, St. Petersburg, Russia.

Noite - Viétcher
(publicado em 1912)

Ele gostava de três coisas neste mundo:
o coro das vésperas, pavões brancos
e mapas da América já bem gastos.
Não gostava de crianças chorando,
nem de chá com geléia de framboesa
e nem de mulheres histéricas
...e eu era a mulher dele.

Notas: Uma referência aos problemas de seu primeiro casamento com o poeta Nikolái Gumilióv, sumariamente executado em 1921 por ter sido acusado de conspiração contra a revolução comunista.

Anno Domini MCMXXI
(publicado em 1922)

Não estás mais entre os vivos.
Da neve não podes erguer-te.
Vinte e oito baionetadas.
Cinco buracos de bala.

Amarga camisa nova
cosi para o meu amado.
Esta terra russa gosta,
gosta do gosto do sangue.

Notas: Neste livro a marca do nacionalismo é muito forte, apesar do amor, a perda e a separação continuarem a ser os temas predominantes.

Junco - Tróstnik
(reunião de poemas de 1924 a 1940)

À Musa
(1924)

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?

Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".

Notas: A inspiração, neste caso, não é o sofrimento. A musa agora é uma hóspede querida, ansiosamente esperada, e nenhum dos bens terrenos parece tão atraente quanto o dom da criatividade.

Réquiem: Um Ciclo de Poemas
(1935 - 1940)

Dedicatória
(1940)

Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as "tocas dos condenados"
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece -
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Neva mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe...
O veredito... e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda... cambaleando... sozinha...
Onde estão, agora, as companheiras do infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.

Notas: Este poema foi escrito durante a primeira fase do encarceramento de seu filho Liev Gumilióv, cuja única acusação tinha sido a de ser filho de um poeta que, uma década antes, fora fuzilado.

Fonte de Consulta: Anna Akhmátova - Poesia 1912 - 1964 - Editora L&PM, 1991 - Seleção, Tradução e Notas de Lauro Machado Coelho.

Quinta-feira, Março 20, 2008

A literatura sou eu e você também

Claude Monet (1840 - 1926) - A Ponte em Argenteuil 1874 - Óleo em Tela - Musée d'Orsay, Paris, França.

Não tenho muito jeito para textos confessionais, mesmo sabendo que a grande validação dos blogs está justamente no caráter pessoal que provoca a identificação com o leitor. A literatura, de uma forma geral, é tanto mais representativa e verdadeira quanto for a coragem do autor em expor as suas verdades, sejam elas quais forem.

A literatura sou eu
(por Kovacs)

Onde está a literatura
Que os grandes autores procuram
Alguém fala na vida, outro na morte
Quanta bobagem
Se ninguém entende a vida
Que dirá a morte

Me falta a coragem
De encontrar a verdade
Que certamente não é bela
E nem sempre poética
E pode até ser ridícula
Já ensinou o poeta
Que era a própria arte (em Pessoa)

O medo e a vergonha escondem a obra
Que já começa falsa
E não demora logo acaba
Quando se busca nos outros
Sem encontrar
O que está escondido
Em nós

E agora, o que fazer?
Só sabemos mentir
Quem me ensina a ver
Bem longe
Dentro de mim

Terça-feira, Março 11, 2008

20 pensamentos desconcertantes (mas verdadeiros) de Woody Allen

Certamente há quem possa questionar o humor neurótico e demasiado cerebral da maioria dos filmes de Allan Stewart Königsberg ou simplesmente Woody Allen, como é mais conhecido o famoso e polêmico cineasta. Contudo, ninguém pode duvidar da sua capacidade de elaborar frases perfeitas, uma espécie de Oscar Wilde do nosso tempo, como bem destacou esta postagem do Obvious que serviu como base para a lista abaixo.

(1) As pessoas boas dormem muito melhor à noite do que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais.

(2) Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.

(3) Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, mas sim não morrendo.

(4) Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.

(5) O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

(6) A liberdade é o oxigênio da alma.

(7) Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro.

(8) Um condutor perigoso é o que nos ultrapassa apesar dos nossos esforços para o impedir.

(9) A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

(10) 94,5 % das estatísticas são falsas.

(11) Porquê estragar uma boa história com a verdade?

(12) Sexo foi a coisa mais divertida que eu fiz sem me rir.

(13) Sexo é como jogar bridge: se não se tem um bom parceiro o melhor é ter uma boa mão.

(14) A realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.

(15) Já várias vezes disse que a única coisa que se interpõe entre mim e o sucesso sou eu.

(16) O cérebro é o meu segundo órgão favorito.

(17) A vida não imita a arte; imita a má televisão.

(18) O Homem divide-se em duas partes: corpo e alma. O corpo é mais divertido.

(19) A vida é cheia de miséria, sofrimento e solidão - mas acaba muito depressa.

(20) O meu maior desgosto na vida é não ter sido outra pessoa.

Sexta-feira, Março 07, 2008

Oasis sem Liam Gallagher

No final de 2006, Noel Gallagher, principal compositor e guitarrista do Oasis, resolveu promover algumas apresentações semi-acústicas sem a presença do seu problemático irmão Liam, cantor oficial da banda. O resultado pode ser visto no vídeo abaixo gravado em Melbourne, onde Noel, acompanhado por Gem Archer & Terry Kirkbride, apresenta algumas versões alternativas para sucessos do Oasis. Vale a pena conferir "Don´t look back in anger" na sequência do vídeo.


Part1 Noel & Gem The Chapel Melbourne
postado por cool_britannia

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Ferreira Gullar - O poema tem que ser um relâmpago

O título desta postagem é uma declaração do brasileiro Ferreira Gullar, um dos maiores poetas em língua portuguesa, à revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional, publicada em 2006: "O poema tem que ser um relâmpago. Ele tem que iluminar a tua cara, bater na tua cara como uma coisa vital".

Ensaísta, autor de contos e peças teatrais, romancista, intelectual e artista plástico de vanguarda, o poeta Gullar sempre esteve um passo à frente. Em outra entrevista de 2002 para o livro Pena de Aluguel ele declara sobre a profissão de escritor: "Não é profissão, não. E talvez poesia não seja nem literatura. É uma coisa tão extemporânea, tão fora das normas que, ou a poesia é a pura literatura ou ela não é literatura. Ninguém faz literatura objetivamente, a não ser aqueles escritores americanos de best-sellers. A objetividade se refere muito mais ao artesanato, à técnica, ao domínio da linguagem. Em matéria de arte, a técnica é imprescindível mas não suficiente".

A poesia de Gullar é sempre visual como bem detalhou Annita Costa Malufe na matéria "Nas Vertigens de Gullar" publicada no Digestivo Cultural em 2004: "Que haja um predomínio plástico, visual em sua poesia, muitos já notaram, em geral associando ao interesse de Ferreira Gullar pelas artes plásticas e sua atuação na crítica de arte. Mas queria ressaltar algo para além disto. Nas imagens de Gullar não encontramos apenas belas e surpreendentes figuras, não apenas um forte apelo ao sensorial, mas sim, uma complexa operação poética capaz de nos fazer sentir o que antes era insensível. Nos fazer sentir na pele uma imagem, um som, um cheiro".

A poesia de Gullar explica melhor do que qualquer crítica literária a sua urgência. A grande dificuldade, neste caso, foi escolher alguns exemplos representativos entre tantos trabalhos, alguns de caráter histórico como o famoso "Poema Sujo" de 1975, escrito durante o exílio político. O meu critério particular de escolha foi baseado naqueles poemas que nunca me abandonaram desde a primeira leitura.

Uma voz

Sua voz quando ela canta
me lembra um pássaro mas
não um pássaro cantando:
lembra um pássaro voando

Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Em tempo: Nesta quinta-feira (28/02), às 17h30, o poeta Ferreira Gullar participa no Rio da segunda edição do Ciclo Leitura em Ação, no Centro Cultural Ação da Cidadania (Avenida Barão de Tefé, 75, Saúde). A entrada é franca. O escritor vai falar sobre A arte da poesia e apresentar poemas como Filhos, do livro Muitas vozes; A alegria, de Na vertigem do dia; e Cantiga para não morrer, de Dentro da noite veloz.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

20 classificações de livros segundo Italo Calvino

Italo Calvino (1923 - 1985) no seu excelente "Se um Viajante numa Noite de Inverno" faz do leitor o principal protagonista em uma narrativa fantástica que se aproxima muito do estilo de Jorge Luis Borges. O tema principal é a própria literatura e seus diversos estilos, desde os romances clássicos até o experimentalismo de vanguarda.

A história tem início no momento em que o leitor entra na livraria para comprar o novo livro de Italo Calvino e, neste momento, se depara com uma infinidade de opções de leitura. O blog Horas Serenas me chamou a atenção para as hilárias classificações de Calvino que conseguiu representar muito bem a angústia do leitor em uma livraria diante de tantas opções e uma vida tão curta.

01. Livros que você não leu;

02. Livros cuja leitura é dispensável;

03. Livros para outros usos que não a leitura;

04. Livros já lidos sem que seja necessário abri-los;

05. Livros já lidos antes mesmo de terem sidos escritos;

06. Livros que, se você tivesse mais vidas, leria de boa vontade;

07. Livros que tem a intenção de ler mas antes deve ler outros;

08. Livros caros e podem esperar serem vendidos na metade do preço;

09. Livros idem quando forem reeditados em coleções de bolso;

10. Livros que poderia pedir emprestados a alguém;

11. Livros que todo mundo leu e é como se você também tivesse lido;

12. Livros que há tempos você pretende ler;

13. Livros que procurou durante vários anos sem ter encontrado;

14. Livros que dizem respeito a algo que o ocupa neste momento;

15. Livros que deseja adquirir para ter perto em qualquer circunstância;

16. Livros que gostaria de separar para ler neste verão;

17. Livros que faltam para colocar ao lado de outros em sua estante;

18. Livros que inspiram curiosidade frenética, não justificada;

19. Livros que você leu há muito tempo e que já seria hora de reler;

20. Livros que sempre fingiu ter lido e já seria hora de lê-los de fato.

Sábado, Fevereiro 16, 2008

20 mortes inesquecíveis da literatura mundial

Pieter Bruegel, o velho (1525-69), O Triunfo da Morte -1562; Óleo em painel, 117 x 162 cm; Museo del Prado, Madrid .

Ninguém gosta de falar da morte, mas mesmo assim ela está sempre presente e também na literatura, como bem podemos comprovar na relação abaixo:

01. Romeu e Julieta - William Shakespeare - Romeu e Julieta (1596)

02. Werther- Goethe - Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774)

03. Julian Sorel - Stendhal - O Vermelho e o Negro (1830)

04. Marguerite Gautier - A. Dumas Filho - Dama das Camélias (1847)

05. Catherine - Emily Brontë - Morro Ventos Uivantes (1847)

06. Ema Bovary - Gustave Flaubert - Madame Bovary (1856)

07. A velha agiota - Fiódor Dostoiévski - Crime e Castigo (1867)

08. Ana Karenina - Leon Tolstói - Ana Karenina (1875)

09. Brás Cubas - Machado de Assis - Memórias Póstumas (1881)

10. Gregor Samsa - Franz Kafka - A Metamorfose (1916)

11. Cadela Baleia - Graciliano Ramos - Vidas Secas (1938)

12. Don Fabrizio - Giuseppe di Lampedusa - O Leopardo (1958)

13. Filho de Harry Rabbit - John Updike - Coelho Corre (1960)

14. Quincas - Jorge Amado - Morte de Quincas Berro D`Água (1961)

15. Sargento Getúlio - João Ubaldo Ribeiro - Sargento Getúlio (1971)

16. Macabéa - Clarice Lispector - A Hora da Estrela (1977)

17. Gjorg Berisha - Ismail Kadaré - Abril Despedaçado (1980)

18. Santiago Nasar - G.G. Márquez - Crônica Morte Anunciada (1981)

19. Ricardo Reis - José Saramago - Ano da Morte Ricardo Reis (1984)

20. O Tio - Orhan Pamuk - Meu Nome é Vermelho (1998)

Domingo, Fevereiro 03, 2008

Tarantino´s Mind

Achei este vídeo em uma postagem da Priscilla Santos no Obvious. "Tarantino's mind" tem direção e roteiro coletivo (anônimo) da 300 ML e produção da Republika Filmes. O curta, lançado no Festival do Rio de 2006, é ambientado em um bar de São Paulo com Selton Mello e Seu Jorge em uma conversa engraçadíssima sobre a filmografia de Quentin Tarantino.

Selton apresenta a sua desconcertante teoria do "código Tarantino", segundo a qual todos os filmes do diretor americano, de "Natural Born Killers" aos dois volumes de "Kill Bill", estariam interligados em uma única saga. O carisma dos atores e o fato de terem se tornado personagens de si mesmo, transforma o curta em uma homenagem feita por fãs para fãs do cinema, imperdível.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Centenário de Machado de Assis

O centenário da morte de Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908), em 29 de setembro deste ano, desencadeou uma série de eventos culturais. Como parte da homenagem ao maior autor brasileiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa lançou um site concebido por uma equipe de bolsistas da instituição. A pesquisadora Marta de Senna teve a ideia de criar uma obra de referência que permite a localização das citações e alusões histórico-literárias identificadas nos romances e contos de Machado de Assis. Em http://www.machadodeassis.net/, encontramos, além do banco de dados citado, uma biografia resumida do escritor, uma bibliografia básica com cerca de 30 títulos de livros e, num futuro breve, uma revista eletrónica com artigos relevantes sobre o autor.

Recomendo uma visita à página http://www.machadodeassis.org.br/ lançada pela Academia Brasileira de Letras com informações completas sobre o bruxo do Cosme Velho e também o site do Domínio Público do Governo Federal, onde toda a obra de Machado de Assis está disponível para download em formato pdf. Nada mal para um país sem memória.

Daniel Piza em "Machado de Assis - Um gênio brasileiro", editora Imprensa Oficial, definiu bem certas características do escritor: "Ele enfrentou muitos preconceitos de sua época: o preconceito racial, como um mulato escuro que viveu dos 49 dos 69 anos num Brasil escravocrata; o preconceito social, como um epiléptico de origem muito pobre que tinha grandes ambições literárias; e o preconceito intelectual, como escritor que adotou linguagem concisa e cristalina, rejeitou o otimismo e a religião e jamais aderiu a modas estéticas".

Vale lembrar que Machado de Assis será o homenageado da 6ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontecerá entre os dias 2 e 6 de julho, na cidade fluminense. Homenagem mais do que merecida, diga-se de passagem.

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

As Livrarias Mais Belas do Mundo

O jornal inglês The Guardian publicou uma matéria com a relação das dez livrarias mais belas do mundo. Atualmente as livrarias independentes parecem não ter a menor chance contra as vendas na Internet, ou mesmo em "Mega Stores" locais, mas ainda existe espaço para a criatividade neste ramo, como podemos constatar através das três primeiras colocadas na relação do Guardian:

(1) Selexyz Dominicanen - Holanda. A igreja dominicana de 800 anos localizada na cidade medieval de Maastricht na Holanda, que era utilizada como um depósito de bicicletas há pouco tempo atrás, foi convertida em uma livraria pelos arquitetos de Amsterdam Merkx + Girod. O espaço, que foi inaugurado pouco antes do último natal, manteve as características e o charme de uma antiga igreja, juntamente com uma moderna decoração minimalista. O projeto conseguiu ampliar a área de piso original de 750 m2 para 1200 m2 através de uma estrutura de aço escura, comportando as prateleiras, escadas e elevadores. A iluminação foi o toque final para manter o equilíbrio neste templo de livros. É o que podemos chamar de uma livraria celestial (ver mais fotos no flickr).

(2) El Ateneo - Argentina. Em fevereiro de 2000, o edifício do antigo cine-teatro Gran Splendid de Buenos Aires foi arrendado por dez anos para ser transformado em uma livraria (ver fotomontagem no flickr). A essência do trabalho consistiu em respeitar, conservar e restaurar a construção original, de 1903, adaptando-a às necessidades da nova função. A reforma exigiu o reforço das estruturas, principalmente nas áreas para os novos elevadores e escadas rolantes. Foram realizadas grandes escavações sob a platéia e o palco, para criar a sala de livros infantis e os depósitos do subsolo. Isso resultou no acréscimo de mais de 1000 m2 de construção. O café - também utilizado para a realização de palestras - foi instalado no palco, cujo teto recebeu vidro transparente para permitir a entrada de luz natural.

(3) Livraria Lello - Portugal. A livraria Lello Fundada em 1906 e situada na Rua das Carmelitas, cidade do Porto, estende-se por dois andares. O edifício, projetado por Xavier Esteves, foi construído em estilo neogótico e as enormes estantes iluminadas guardam cerca de 120 mil títulos diferentes em várias línguas. No interior da livraria, o visitante sente-se envolvido por um ambiente acolhedor. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos de couro e estantes em toda a sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria atual, mas que guarda a memória do passado (ver fotos no flickr e também uma fantástica vista da livraria em 360º).

Domingo, Janeiro 13, 2008