sexta-feira, julho 03, 2015

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue

Yu Hua - Crônica de um Vendedor de Sangue - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Tradução do inglês de Donaldson M. Garschagen - Lançamento 14/12/2011 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

O chinês Yu Hua, nascido em 1960, iniciou a sua carreira literária somente em 1983, após um malsucedido início profissional como dentista. Ele já escreveu um total de cinco romances, dos quais três estão disponíveis no Brasil; além de Crônica de um Vendedor de Sangue (2011), a Companhia das Letras já lançou: Irmãos (2010) e Viver (2008). Ele  reside atualmente em Beijing e seus livros já foram publicados em mais de 20 países, tendo recebido os prêmios: Grinzane Cavour da Itália (1998), Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres da França (2004), Special Book Award da China (2005) e o Prix Courrier International também da França (2008). Desde 2013, Yu Hua é um dos escritores que contribuem com o New York Times (neste link pode-se acessar os artigos dele).

Crônica de um Vendedor de Sangue é aquele tipo de romance universal que mostra os extremos da fragilidade, mas também da grandeza do ser humano, em um ambiente adverso. Seja em uma pequena cidade rural chinesa ou no sertão nordestino brasileiro, o homem, em seu núcleo familiar, precisa se adaptar para sobreviver. Neste ponto é impossível não se emocionar com a trajetória da família formada pelo protagonista Xu Sanguan ao longo dos altos e baixos de trinta anos de história da República Popular da China (1950 a 1980) como pano de fundo, a maior parte deste período sob o governo de Mao Tsé-tung, antes da abertura econômica vivenciada hoje no país. 

Desde muito jovem, Xu Sanguam, operário de uma fábrica de seda, aprendeu que 400 mililitros de seu sangue (volume de duas tigelas de arroz) equivaliam a trinta e cinco iuanes, valor superior ao que ganharia trabalhando por seis meses no campo, uma verdadeira "mina de dinheiro" que provocou na China um livre-comércio de grandes proporções entre doadores e "chefes de sangue". O próprio Xu Sanguam vem a recorrer diversas vezes ao longo da vida a este comércio, normalmente nos momentos de crise familiar. Após o procedimento de doação, um bom prato de fígado de porco frito e duas doses de vinho de arroz amarelo têm o poder de recompor a energia do corpo conforme lhe foi ensinado.

No início, a venda do sangue não representa nenhuma urgência na vida de Xu Sanguam e ele utiliza os recursos desta atividade pela primeira vez para conquistar, na verdade convencer, a bela Xu Yulan a se casar com ele (pagando-lhe um jantar nada romântico com "bolinhos ao vapor, ameixas salgadas, frutas carameladas e meia melancia") e cobrir os custos do casamento. Em um período de cinco anos, Xu Yulan dá à luz três filhos: Yile (Primeira Alegria), Erle (Segunda Alegria) e Sanle (Terceira Alegria). Na verdade, o seu primogênito, Yile, ficará para sempre associado a uma grande tristeza, e não alegria, quando Xu Sanguam descobre que não é o verdadeiro pai do menino. De qualquer forma, este filho que não tem "vínculos de sangue" verdadeiros, à princípio desprezado, acaba se tornando o preferido.

Durante os anos do período histórico chamado Grande Salto Adiante (1958 - 1962), a agricultura passa a ser controlada pelo Estado e coincidentemente ocorrem vários desastres naturais (estima-se que aproximadamente 30 milhões de pessoas morreram de fome), a família de Xu Sanguan tem que passar cinquenta e sete dias consecutivos comendo apenas mingau de fubá. Claro que o nosso protagonista precisa recorrer mais de uma vez ao comércio de sangue para salvar a mulher e os filhos da fome. No entanto, uma fase ainda pior está para começar, quando Xu Yulan é denunciada injustamente como prostituta durante a violenta Revolução Cultural (1966 - 1976) e os dois filhos mais velhos são obrigados a partir para o campo pois, segundo a orientação da política maoista, "é indispensável que os estudantes sejam mandados ao campo para que os camponeses de nível médio e baixo os reeduquem".

Apesar das situações difíceis por que passam seus personagens, a ligação de confiança e amor entre os integrantes da família nunca enfraquece e a narrativa de Yu Hua é sempre bem-humorada, por vezes até mesmo tragicômica, à medida que os eventos familiares são associados aos impactos da política econômica na sociedade chinesa. Um belo livro que já deixa saudade.

segunda-feira, junho 29, 2015

Richard Dawkins - Deus, um Delírio

Richard Dawkins - Deus, um Delírio - Editora Companhia das Letras - 528 páginas - Tradução de Fernanda Ravagnani - Lançamento 16/08/2007 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Podemos discordar ou não de Richard Dawkins sobre a existência de Deus, mas não há como negar que o fanatismo religioso, de uma forma generalizada, tem provocado guerras, perseguições e conflitos armados ao longo da história. Não precisamos ir tão longe, até a época das Cruzadas por exemplo, porque ainda hoje, em pleno século XXI, as ações entre israelenses e palestinos, católicos e protestantes, ou os recentes atentados terroristas do Estado Islâmico têm sido exemplos do mau uso que a humanidade faz de suas crenças. Certamente que não podemos ser ingênuos ao ponto de acreditar que todos esses conflitos têm origem apenas na religião, certamente que existem também fortes motivos políticos e econômicos, mas o fator decisivo na formação de um homem-bomba ou guerrilheiro está sempre associado com algum movimento extremista religioso. Nunca ouvimos falar de uma guerra provocada por ateus. Segundo o físico americano e prêmio Nobel Steven Weinberg, citado por Dawkins, "a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião"Ou ainda nesta outra citação de Blaise Pascal: "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa".

Richard Dawkins parte do pressuposto de que atualmente "o número de ateus e agnósticos supera de longe o de judeus religiosos, e até o da maioria dos outros grupos religiosos específicos", mas que a maioria por inércia, medo ou para manter as tradições sociais e familiares, reluta em "sair do armário"reforçando a sua teoria com esta epígrafe a um dos capítulos do livro, do filósofo Bertrand Russell: "A imensa maioria dos homens intelectualmente eminentes não acredita na religião cristã, mas esconde esse fato do público, porque tem medo de perder sua renda". Ainda segundo Dawkins, outra questão que dificulta a discussão sobre o assunto é que "a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica".

Outra questão preocupante (e até certo ponto surpreendente) é o fundamentalismo religioso crescente nos Estados Unidos que, segundo Dawkins, "provém, paradoxalmente, do secularismo de sua Constituição. Precisamente porque os Estados Unidos são legalmente laicos, a religião se transformou num empreendimento liberado. Igrejas rivais competem por congregações — e pelo gordo dízimo que elas trazem consigo — e a concorrência é marcada por todas as técnicas agressivas de venda do mercado. O que funciona para o sabão em pó funciona para Deus, e o resultado é algo que se aproxima de uma mania de religião nas classes menos instruídas". Para Dawkins, mesmo a crença moderada pode ser perigosa porque, tanto para o cristianismo quanto o islamismo, a fé sem questionamentos é uma virtude que supera todas as prioridades e que o martírio a serviço de Deus poderá ser recompensado no paraíso.

As melhores abordagens de Richard Dawkins — e também as mais difíceis de serem contestadas — são aquelas norteadas pela ciência em oposição à teoria do criacionismo ou "design inteligente", já que a formação acadêmica dele (Doutor pela Universidade de Oxford) não é a filosofia ou teologia, mas sim a biologia evolutiva com base na seleção natural de Darwin, o que o coloca ao lado de autores como Carl Sagan e Stephen Hawking que ajudaram a popularizar a ciência em suas respectivas áreas (astronomia e física). Para o evolucionista, as criaturas vivas não foram "projetadas" e sim evoluíram através de numerosos incrementos gradativos, à partir de um início simples, em um processo que continua ocorrendo até hoje para o aperfeiçoamento de cada ser orgânico. 

É importante notar que, como bom cientista, Dawkins não descarta a existência de Deus, mas uma de suas conclusões é que não há motivo para supor que, só porque Deus não pode ter a sua existência comprovada ou descartada, a probabilidade de sua existência seja de 50% (de fato, na opinião dele esta probabilidade é bem menor). Mesmo o argumento da beleza é refutado por ele na seguinte passagem: "É óbvio que os últimos quartetos de Beethoven são sublimes. Assim como os sonetos de Shakespeare. São sublimes se Deus existe e são sublimes se não existe. Eles não provam a existência de Deus; eles provam a existência de Beethoven e Shakespeare"A lógica de Richard Dawkins é tão fria que chega a parecer ofensiva em algumas passagens, principalmente quando critica o Deus do Velho Testamento das Escrituras, uma de suas vítimas preferidas.

Um livro corajoso, inteligente e muito oportuno devido aos conflitos e atentados terroristas recentes que se tornaram, infelizmente, uma triste rotina neste início de século. 

quarta-feira, junho 24, 2015

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola no RJ

Detalhe da obra "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939)
Após a temporada inicial em São Paulo, onde foi visitada por mais de 200 mil pessoas, a exposição gratuita Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola chega agora ao Rio de Janeiro onde será apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no período de 24 de junho a 7 de setembro. A mostra reúne 90 obras do Museu Nacional Reina Sofia, de Madri.

A exposição é dividida em oito módulos e faz referência à trajetória de Picasso e sua influência nas obras de outros artistas modernistas da época até chegar à realização de "Guernica" (1937), em estilo cubista, que representa o bombardeio nazista na cidade do mesmo nome, durante a Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939). Serão exibidos estudos e esboços desta obra que não pode sair da espanha por questões de segurança. 

Entre os trabalhos de Picasso que integram a exposição no CCBB, destaque para: "Cabeça de Mulher" (1910), "Busto e Paleta" (1932), "Retrato de Dora Maar" (1939), "Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos" (1939) e "O pintor e a Modelo" (1963) - Sigam os links para as respectivas páginas do Museu Nacional Reina Sofia com detalhes sobre cada pintura.

Para outras informações e um passeio virtual pela exposição clique aqui.

Exposição Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola 
De 24 de junho a 7 de setembro 
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)
Rua Primeiro de Março, 66 - Centro - Tel.: (21) 3808-2020 
De quarta a domingo, das 9h às 21h 
Entrada Gratuita

segunda-feira, junho 22, 2015

Leonardo Padura - A neblina do passado

Leonardo Padura - A neblina do passado - Editora Saraiva (Selo Benvirá) - 442 páginas - tradução de Júlio Pimentel Filho - Publicação 2012 (Lançamento original 2005).

Restringir este romance à categoria de literatura policial seria uma injustiça com a habilidade do escritor cubano Leonardo Padura. Nada contra os romances de detetives, mas o autor construiu uma verdadeira história afetiva de Cuba, particularmente sobre as transformações da cidade de Havana e seus habitantes, na segunda metade do século XX, compreendendo os seguintes três grandes períodos: A era inicial do ditador Fulgencio Batista, à partir de 1952, onde existia corrupção generalizada e a influência econômica dos Estados Unidos, o segundo período que se inicia em 1959 com a vitória da Revolução socialista liderada por Fidel Castro e Che Guevara, provocando a desapropriação de várias empresas norte-americanas e privatização de bens das famílias tradicionais que compactuavam com o governo anterior e, finalmente, os anos de crise econômica e decadência social, decorrentes da redução drástica de investimentos da antiga URSS após a queda do muro de Berlim em 1989.

Leonardo Padura soube passar por todas essas fases da história cubana (sem sofrer censura prévia do regime atual o que, por si só, é surpreendente) no desenvolvimento do seu romance em um argumento criativo e uma trama muito bem montada que utiliza o recurso ficcional da ascensão e queda da família Montes de Oca e do seu personagem recorrente, o carismático detetive Mario Conde que, quatorze anos após a saída dos quadros da polícia local, sobrevive em 2003 à base de expedientes, assim como boa parte da população de Havana. No seu caso, comprando e vendendo livros usados, sendo ele próprio um escritor frustrado.
"A escassez foi tão brutal que alcançou até o venerável mundo dos livros. De um ano para outro, as publicações despencaram em queda livre, e as teias de aranha cobriram as estantes das agora tétricas livrarias, de onde os próprios empregados roubavam as últimas lâmpadas de vida, praticamente inúteis em dias de intermináveis apagões. Foi então que centenas de bibliotecas particulares deixaram de ser fonte de ilustração, orgulho bibliófilo e provisão de lembranças de tempos possivelmente felizes, e trocaram seu cheiro de sabedoria pelo ácido e vulgar fedor de umas cédulas salvadoras."
Ao descobrir uma fabulosa biblioteca, milagrosamente preservada no que restou da mansão da família Montes de Oca, Mario Conde dá início a um excelente negócio devido à riqueza do acervo de livros raros, um sonho para qualquer bibliófilo. No entanto, o destino reserva uma grande surpresa para o detetive aposentado quando, no interior de um desses livros, ele encontra uma página recortada de uma antiga revista de quarenta anos atrás com a imagem da estonteante cantora de bolero Violeta del Río. Sem saber o motivo da intensa atração exercida pela mulher ele segue os seus instintos de investigador e tenta descobrir o paradeiro da esquecida bolerista através de um mergulho no submundo das ruas e crimes de Havana, resgatando uma história esquecida sobre morte e infelicidade da neblina do passado.
"Quando saíram para a rua, o sol furioso do meio-dia tinha dispersado os passantes, mas a música agora ocupava o lugar das pessoas, abarrotando o espaço, misturando melodia, competindo em volumes capazes de aturdir quem arriscava penetrar naquela atmosfera compacta de som, bolero, merengue, balada, mambo, guaracha, rock pesado e leve, danzón, bochata e rumba. As casas cujas entradas davam para a rua, com as portas e janelas abertas, tentavam absorver um pouco do ar quente, enquanto homens e mulheres de todas as idades oscilavam em cadeiras de balanço, desfrutando a brisa artificial dos ventiladores e a música ensurdecedora, vendo passar, carregados de resignação, a hora morta do meio-dia."

segunda-feira, junho 15, 2015

Zadie Smith - Sobre a Beleza

Zadie Smith - Sobre a Beleza - Editora Companhia das Letras - 448 páginas - Tradução de Daniel Galera - Lançamento 26/10/2007 (Ler aqui trecho disponibilizado pela Editora).

Terceiro romance de Zadie Smith, após sua estreia com os premiados: "Dentes Brancos" (2000) e "O Caçador de Autógrafos" (2002), traduzidos e publicados no Brasil pela Editora Companhia das Letras; "Sobre a Beleza", lançado originalmente em 2005, também foi muito elogiado pela crítica especializada e recebeu prêmios importantes como o extinto Orange Prize de 2006 (atual Baileys Women's Prize for Fiction), além de ter sido selecionado na shortlist do Man Booker Prize em 2005. Este romance consolidou a posição da autora na literatura britânica contemporânea ao lado de nomes já consagrados como: Ian McEwan, Martin Amis, Julian Barnes, Kazuo Isghiguro e Hilary Mantel, para citar alguns.

O romance tem como base os contrastes entre duas famílias (estrutura similar a "Howards End" de E. M. Forster, citado por Zadie Smith nos agradecimentos como uma paixão que inspirou o seu trabalho) e a rivalidade intelectual entre os acadêmicos Howard Belsey e Montague Kipps. Enquanto a família formada pelo inglês Howard, morando na pequena cidade universitária ficcional de Wellington, subúrbio de Bostonsegue uma orientação liberal e pouco (ou nada) religiosa, após trinta anos de um casamento aparentemente feliz com a afro-americana Kiki e os filhos Jerome, Zora e Levi, o seu oponente no campo das ideias acadêmicas, artigos e palestras, Sir Montague Kipps, de Trinidad e Tobago, residente em Londres, é conservador e aristocrático, um católico obsessivo, casou-se com a haitiana Carlene, tendo dois filhos: Michael e Victoria. Um noivado frustrado entre Jerome, o filho de Howard convertido ao catolicismo, com ninguém menos do que Victoria, a sensual filha de seu rival acadêmico, irá deflagrar uma situação de guerra ainda mais declarada entre os dois intelectuais e uma série de situações desagradáveis e hilárias para o leitor, principalmente quando a família Kipps vem de mudança para Wellington.

A narrativa é sempre muito bem-humorada, por vezes tragicômica, e as reviravoltas da trama tendem normalmente a colocar o prepotente Howard Belsey e suas convicções ideológicas em cheque, seja por conta do seu oponente, patriarca dos Kipps, ou pelo "fogo amigo" dos integrantes de sua própria família, cada um lutando por seus ideais e convicções próprias (sejam elas religiosas, sociais, profissionais ou amorosas). Kiki Belsey é uma das personagens mais fortes e bem construídas do livro, de origem humilde e sem os mesmos interesses intelectuais do marido, percebe que a passagem do tempo deixou suas marcas, principalmente na aparência atual de seu corpo de 115 Kg o que levou Howard em direção a uma armadilha típica para os homens de meia idade que buscam em uma relação extraconjugal a solução egoísta para os seus problemas existenciais.

O núcleo de personagens principais se expande consideravelmente no romance de mais de quatrocentas páginas, abrindo espaço para o dia a dia da Universidade, reitor, professores, alunos e também o problema social dos imigrantes haitianos e da população negra de baixa renda que tem em Levi, o filho mais novo de Howard e Kiki, um defensor em tempo integral, fonte de novos problemas para a família Belsey. Howard é um homem que, devido ao próprio exercício da profissão, passou a duvidar de tudo e a convivência com ele é muito desgastante para os filhos e também para a esposa que vê o casamento desmoronar. A intimidade dos conflitos familiares na casa dos Belsey é revelada nos mínimos detalhes por Zadie Smith e nos sentimos assistindo a uma peça de teatro, tão próximos da ação como parte do próprio cenário. Será que essa história consegue ter um final feliz?

quarta-feira, junho 10, 2015

Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura 2015


O escritor cubano Leonardo Padura ganhou o Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura 2015 (antigo prêmio Príncipe das Astúrias, renomeado após a abdicação de Dom Juan Carlos da monarquia). Leonardo Padura é conhecido por seus romances policiais e a criação do personagem Mario Conde. No Brasil, o trabalho dele foi bastante divulgado por conta de seu romance histórico O homem que amava os cachorros (lançado pela Boitempo Editorial em Dezembro de 2013).

A organização considerou a obra do autor como "uma soberba aventura do diálogo e da liberdade", além de "mostrar os desafios e os limites na busca da verdade. Uma exploração impecável da história e de seus modos de contá-la"Sobre a questão da influência política na escolha, em função da recente onda de reaproximação de Cuba com os EUA, Leonardo Padura já havia declarado nesta entrevista à New Yorker, em 2003, que "não tem qualquer militância, nem com o Partido, nem com a dissidência", declarou ainda que "nunca deixou Cuba porque é um escritor cubano e não poderia ser outra coisa".

Os três últimos vencedores desta premiação, criada em 1981, foram o irlandês John Banville (2014), o espanhol Antonio Molina (2013) e o norte-americano Philip Roth (2012). A brasileira Nélida Piñon foi agraciada em 2005 (Conheça aqui todos os autores laureados desde 1981).

terça-feira, junho 09, 2015

Novo Prêmio Literário Oceanos substitui o Portugal Telecom


O Prêmio Portugal Telecom de Literatura, cancelado este ano pelos antigos patrocinadores, passará a ser chamado de Oceanos - Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa e patrocinado pelo Itaú Cultural. A premiação, focada nas obras de poesia, prosa e crônicas em língua portuguesa, terá inscrições abertas à partir do dia 10 de junho neste site.

Poderão concorrer ao Prêmio Oceanos as obras de criação literária com primeira edição no Brasil publicada em 2014 e os livros de outros países lusófonos publicados no país de origem de 2011 a 2014, mas devendo ter sido publicados no Brasil em 2014. Livros infantis e infanto-juvenis não poderão concorrer.

A principal modificação do regulamento será que a a divisão original do Portugal Telecom em três categorias - conto e crônica, poesia e romance - será substituída por uma classificação única. Os quatro primeiros classificados receberão, respectivamente, prêmios de 100 mil reais, 60 mil reais, 40 mil reais e 30 mil reais, sendo divulgados em dezembro.

O Prêmio Portugal Telecom existia desde 2003, tendo premiado e ajudado a divulgar autores brasileiros, portugueses e de outros países lusófonos. Segue relação abaixo dos vencedores das edições passadas:

2003 - Nove Noites - Bernardo Carvalho
2004 - Macau - Paulo Henriques Britto
2005 - Os Lados do Círculo - Amilcar Bettega Barbosa
2006 - Cinzas do Norte - Milton Hatoum
2007 - Jerusalém - Gonçalo Tavares
2008 - O Filho Eterno - Cristovão Tezza
2009 - Ó - Nuno Ramos
2010 - Leite Derramado - Chico Buarque
2011 - Passageiro do Fim do Dia - Rubens Figueiredo
2012 - A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe
2013 - O Sonâmbulo Amador - José Luiz Passos
2014 - Sérgio Rodrigues - O Drible

sábado, junho 06, 2015

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis - Editora Companhia das Letras - 192 páginas - Lançamento 07/10/2013 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Se você gosta de road movies como Thelma & Louisie vai adorar este romance, mas se não for o caso irá gostar do mesmo jeito porque, além da narrativa cinematográfica, Carol Bensimon sabe muito bem como contar uma história e parece não ter a menor preocupação em perseguir um pretenso rigor literário ou acadêmico. Lembro que fiquei conhecendo o trabalho dela através da Granta 9 - Os melhores jovens escritores brasileiros, lançamento 2012, onde o primeiro capítulo deste romance, com o título de Faíscas, foi selecionado na Antologia de contos assim como Apneia de Daniel Galera, que também viria a fazer parte de Barba Ensopada de Sangue.

Cora e Julia são duas personagens lindas e carismáticas que se apaixonaram na época da faculdade, passando por situações comuns a outras jovens que enfrentam dificuldades por conta de pressões sociais e familiares devido a suas ambiguidades sexuais. Cora, narradora do romance, é mais decidida em sua sexualidade e experiente em relacionamentos com outras garotas. É ela que está sempre tentando conquistar Julia que vem de uma educação tradicional em uma cidade do interior (Soledade), morando em um pensionato de freiras em Porto Alegre. O trecho abaixo mostra como a mãe de Cora confirmou as suas suspeitas sobre as opções sexuais da filha adolescente, depois de presenciar na casa um "desfile interminável de melhores amigas":
"Então, em uma tarde modorrenta, ela abriu a porta do meu quarto. Não saberia explicar o porquê, ela sempre batia, quer eu estivesse acompanhada ou sozinha, aquela era uma norma na qual ela gostaria de acreditar. Porém, nessa tarde, com uma desculpa qualquer na ponta da língua, minha mãe entrou no meu quarto de forma totalmente inesperada, talvez desejando mais do que tudo ter que usar o raio da desculpa, a qual poderia ser: vocês precisam de alguma coisa?, vou dar uma saída, hoje não era o dia de buscar tua jaqueta na costureira? O que viu, no entanto dentro do quarto repleto de ícones que ela não compreendia, fez com que fechasse a porta em pouquíssimos segundos e corresse para o andar de baixo em busca do telefone. Discou para o ex-marido. Mesmo atordoada, ela teve a delicadeza de passar pelas perguntas habituais enquanto procurava uma maneira de descrever a cena, a amiga da tua filha deitada na cama, uma calcinha com uma estampa quase infantil, tua filha com a mão na —, a mão por dentro da calcinha dela, eu sempre soube que a Cora ia fazer isso com a gente."
De qualquer forma, o livro está longe de ser uma obra engajada no movimento LBGT. Na verdade, me parece muito mais uma bela e simples história de amor com encontros e desencontros. Cora e Julia não conseguem manter o relacionamento na época da faculdade porque Julia foi selecionada para uma bolsa em Montreal e Cora viaja para fazer um curso de moda em Paris. Um dia, durante uma conversa no Skype, elas decidem se reencontrar e realizar o antigo sonho de uma viagem "sem planejamento" no interior do Rio Grande do Sul. A oportunidade aparece quando o pai de Cora, casado novamente com uma mulher mais jovem, a convida para o nascimento do seu filho no Brasil.
"Respirei fundo. Era o ar da serra, nós estávamos ali, com cinco ou seis anos de atraso, mas ali, finalmente ali. Tínhamos sobrevivido a uma briga que continuava pairando sobre nós, a Paris, a Montreal, à loucura de nossas famílias. Aquela viagem era mais um fracasso irresistível."
A estrutura do romance é linear, mas com várias inserções do passado que explicam a trajetória de Cora e Julia antes de se conhecerem e o motivo da postura de cada uma frente ao relacionamento. As duas seguem vivendo um dia após o outro, sem saber como será o final da viagem, mas percebendo que são bem pequenas as chances delas conseguirem continuar juntas. Ainda assim, apesar deste tom de melancolia, o romance tem uma mensagem de juventude e esperança bem forte e o leitor fica todo o tempo na torcida de um final feliz para as meninas, será que elas conseguem?

O Rio Grande do Sul é um dos destaques do romance, não apenas aqueles pontos turísticos tradicionais como as cidades de Gramado e Canela ou as regiões litorâneas, mas cidades totalmente desconhecidas em outras partes do Brasil como: Antônio Prado e Minas do Camaquã. Fico imaginando o trabalho de pesquisa que deve ter norteado a preparação dessa "viagem" na cabeça da porto-alegrense urbana Carol Bensimon. Para saber mais sobre o romance e a autora, recomendo esta ótima entrevista para seu conterrâneo Milton Ribeiro, do Sul 21.

quarta-feira, junho 03, 2015

Krishna Monteiro - O que não existe mais

Krishna Monteiro - Editora Tordesilhas - 112 páginas - Prefácio de Noemi Jaffe - Lançamento: Fevereiro 2015 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Já disse uma vez o poeta Manoel de Barros que "as coisas que não existem são mais bonitas" (poema Mundo Pequeno), pois o jovem autor estreante Krishna Monteiro nos ensina agora uma coisa que já deveríamos saber também, que a lembrança deixada pelas coisas e pessoas que já não existem permanece existindo e se renovando em nossa memória. O tema e a capa desta edição podem induzir uma ideia de simplicidade, no entanto a criatividade na construção dos sete contos que compõem este livro chama a atenção pela ousadia, exigindo atenção redobrada para perceber as sutilezas entre o que é revelado e, principalmente, não revelado pelo autor em um jogo de descobertas que provoca todo o tempo a imaginação do leitor.

O primeiro conto que empresta o título ao livro explora a vertente mais óbvia da ausência — a dor e o desajuste de um filho diante da morte do pai. O sentimento de perda e a lembrança estão ainda tão presentes que o filho questiona a realidade e chega a pensar que ele sim é o morto, enquanto o pai permanece vivo. Quem já passou por uma experiência de perda familiar vai se identificar de alguma forma.

Mas é em "Quando dormires, cantarei" que Krishna Monteiro encanta pela coragem ao fazer do seu narrador um galo de briga lutando pela vida em plena rinha, enquanto relembra toda a sua vida até aquele momento. A narrativa vai intercalando os momentos de dramaticidade da luta mortal com as lembranças do galo, no seu entendimento parcial do mundo e da humanidade covarde que é capaz de promover uma atividade como aquela. É preciso muita técnica para um escritor arriscar um conto como este.

"Monte Castelo" é uma bela história de amizade entre neto e avô que se afastam por desentendimentos familiares, mas permanecem ligados pelas memórias que o avô transmitiu ao neto do famoso combate com a participação dos pracinhas brasileiros na Segunda Grande Guerra. A epígrafe, citação de Clarice Lispector, adverte para os riscos da lembrança: "Escrever é tantas vezes lembrar do que nunca existiu."

Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Entre os anos de 2010 e 2012 trabalhou com vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Atualmente é cônsul adjunto do Brasil em Londres.

segunda-feira, junho 01, 2015

Ricardo Piglia - Respiração Artificial

Ricardo Piglia - Respiração Artificial - 200 páginas - Editora Companhia das Letras (Companhia de Bolso) - Tradução de Heloisa Jahn - Lançamento 28/01/2010 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela editora).

O argentino Ricardo Piglia, crítico literário e romancista, é reconhecido como um dos autores contemporâneos mais conceituados da América Latina. Respiração Artificial, lançado originalmente em 1980, é um romance difícil, não só porque utiliza técnicas de narrativa polifônica em épocas diferentes, mas também e, principalmente, porque faz referência a obras de filosofia e literatura clássicas, assim como da história e escritores da literatura argentina, background que nem sempre é compatível com a formação dos leitores brasileiros. De qualquer forma é uma ótima chance de reduzirmos a distância cultural que nos afasta dos nossos hermanos, nada que rápidas consultas na internet não possam resolver.

Na primeira parte do romance é utilizada a troca de correspondência e alternância de narração entre o jovem escritor Emilio Renzi e seu tio, professor de história, Marcelo Maggi que havia desaparecido há alguns anos e que reside em uma cidade do interior. O assunto principal é o resgate histórico de um personagem de pouca relevância política chamado Enrique Ossorio e considerado um traidor ao governo do ditador Rosas em 1837. O diário de Ossorio, exilado nos EUA, assim como outras cartas e fragmentos de noticias de época são inseridos de forma fragmentada e, aparentemente, aleatória na correspondência entre Emilio e Marcelo, gerando insegurança no leitor que, por várias ocasiões, se encontra desorientado sobre o protagonismo da narrativa e precisa voltar diversas vezes no texto para se encontrar na teia ficcional em que é envolvido.

Na segunda parte, a literatura passa a ser um dos personagens principais e o tom da estrutura praticamente se transforma de romance para ensaio. Ricardo Piglia (ou seu alter ego, Emilio Renzi) define uma posição clara sobre a importância de Roberto Arlt: "Em 1942, com a morte de Roberto Arlt a literatura moderna da Argentina chegou ao fim.". Ou ainda neste diálogo entre Emilio Renzi e Marconi, jornalista e poeta local: "Roberto Arlt é o único escritor verdadeiramente moderno que a literatura argentina do século XX produziu." e quanto a Borges?, questiona Marconi, "Borges é um escritor do século XIX. O melhor escritor argentino do século XIX." (realmente uma teoria para se pensar). 

Ainda na segunda parte, ganha espaço o personagem polonês expatriado, Tardewski, que explica a sua apologia aos fracassados (o fracasso está sempre presente no texto) e a surpreendente revelação de supostos encontros entre Kafka e ninguém menos do que Adolf Hitler, entre os anos de 1909 e 1910, quando o futuro ditador ainda era um artista frustrado e se ausenta temporariamente da Alemanha para fugir ao alistamento militar. O que resulta na tese de Tardewski de que os textos de Kafka teriam sido influenciados por teorias de Hitler, a serem detalhadas na sua futura biografia "Mein Kampf", iniciada em 1924 (ano da morte de Kafka). Sobre este improvável encontro, ler o trecho abaixo:
Sobre aquilo que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado."
Talvez este indizível, que não pode ser descrito ou mencionado, seja uma referência ao próprio período de ditadura, estabelecida em 1976 na Argentina, ano em que inicia a ação de Respiração Artificial, sendo mais um nível de intertextualidade do romance que abre múltiplas direções para o leitor perplexo. Bem, caso você esteja interessado em uma leitura leve, rápida e agradável, este livro decididamente não é a escolha correta.

quinta-feira, maio 28, 2015

Biblioteca do Futuro - Livros para ler no próximo século


A artista escocesa Katie Peterson está desenvolvendo um projeto chamado Future Library (Biblioteca do Futuro) com base na ideia original de que, a cada ano, uma obra inédita de ficção escrita por diferentes autores será incluída em uma coleção com os manuscritos guardados em Oslo, na Noruega, até o ano 2114, quando finalmente os cem livros serão publicados. Mil árvores foram plantadas em uma região próxima à capital norueguesa para fornecer o papel no qual as obras serão impressas.

A escritora canadense Margaret Atwood é o primeiro nome de peso a confirmar a participação no projeto e encaminhar o seu trabalho (com o título de "Scribbler Moon") que somente será revelado daqui há um século. Atwood declarou que está "muito honrada" em participar e também que "esse projeto pelo menos acredita que a raça humana ainda vai estar por aqui dentro de cem anos." O inglês David Mitchell, que já confirmou sua participação, é o próximo autor que fará parte da Biblioteca do Futuro.

Os livros ficarão sob a guarda de uma comissão que inclui importantes editoras e editores. A cada ano, a comissão convidará um escritor para contribuir com uma obra para a coleção de manuscritos inéditos. Os textos serão mantidos dentro de uma sala projetada especialmente para alojá-los na Biblioteca Deichman, em Oslo.

Agora me ocorre que, infelizmente, assim como a idealizadora do projeto, também eu e até mesmo você, que está lendo esta postagem, nunca poderemos ler os livros dessa coleção secreta que só estarão disponíveis no século XXII.

quarta-feira, maio 27, 2015

Exposição World Press Photo 2015 no Rio de Janeiro

Jon and Alex - Mads Nissen
A exposição que reúne as 145 fotos vencedoras da edição de 2015 do prestigiado concurso internacional World Press Photo está em cartaz no Rio de Janeiro até 21 de junho nas instalações da CAIXA Cultural. A foto acima, Jon and Alex, do dinamarquês Mads Nissen foi a grande vencedora e capta um momento íntimo de um casal gay em São Petersburgo, na Rússia, onde as minorias sexuais enfrentam uma forte discriminação social e legal, além de ataques crescentes de grupos religiosos conservadores e nacionalistas.

Este ano o concurso recebeu inscrições de 131 países e 97.912 imagens, registradas em 2014, foram enviadas por 5.692 fotógrafos. O objetivo da exposição é promover um maior conhecimento sobre o que acontece no mundo, apoiando o fotojornalismo e a fotografia documental em âmbito internacional. Esta mostra divulga as imagens vencedoras das oito categorias (problemas contemporâneos, vida diária, notícias gerais, projetos de longo prazo, natureza, retratos, esportes e notícias locais) para 45 países, sendo vistas portanto por milhões de pessoas.

The Final Game - Bao Tailiang
Já a foto acima do chinês Bao Tailiang, primeira colocada na categoria de esportes, é particularmente interessante para o público brasileiro porque é um belo flagrante da expressão sonhadora de Lionel Messi observando a taça após a derrota da Argentina para a Alemanha na final da Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Clique na foto para ampliá-la e ver melhor os detalhes.

A World Press Photo é uma organização independente, sem fins lucrativos, com sede em Amsterdã na Holanda, onde foi fundada em 1955. Recomendo visitar aqui o imperdível site oficial com a galeria histórica de todas as fotos da fundação.

Exposição World Press Photo
De 19 de maio a 21 de junho de 2015
CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Galeria 3
Av. Almirante Barroso, 25, Centro, telefone (21) 3980-3815
Metrô: Estação Carioca
De terça-feira a domingo, 10h às 21h
Entrada Franca (não recomendado para menores de 16 anos).

terça-feira, maio 26, 2015

Michel Houellebecq - Submissão

Michel Houellebecq - Submissão - Editora Objetiva / Alfaguara - 256 páginas - tradução de Rosa Freire d'Aguiar - lançamento 20/04/2015 (ler aqui um trecho do livro disponibilizado pela editora).

Polêmico, controverso e provocador são alguns adjetivos aplicáveis e já utilizados há algum tempo para definir o trabalho do autor francês Michel Houellebecq, vencedor do prêmio Goncourt 2010 com O mapa e o território onde utiliza como um dos personagens ninguém menos do que o próprio Houellebecq que, por sinal, acaba assassinado na trama do romance, além de se apropriar, sem a devida autorização ou citação, da descrição de produtos, lugares e pessoas famosas em sites da internet (Wikipedia francesa, por exemplo) o que gerou um grande debate na mídia sobre os limites entre criação, citação e plágio. Em outro de seus primeiros livros, Partículas elementares, de 1998, foi acusado de pornografia devido às descrições explícitas de sexo. Ele é criticado também por suas posições políticas direitistas e acusado de declarações islamofóbicas mas, como bem destacado nesta matéria do jornal português Público, "não há boa literatura com bons sentimentos" e também não há boa literatura somente com escritores "politicamente corretos", eu acrescentaria. Infelizmente, seu último romance, Submissão, recebeu publicidade negativa adicional da mídia francesa porque o lançamento e a caricatura de Michel Houellebecq na capa do semanário "Charlie Hebdo" coincidiram com o ataque terrorista à redação da revista e o assassinato de 12 pessoas a sangue frio.

Submissão parte do cenário político real da França na atualidade em direção a uma situação fictícia projetada por Houellebecq para um futuro próximo, em 2022, quando, após dois mandatos consecutivos do atual presidente François Hollande do Partido Socialista, as eleições presidenciais são vencidas, em segundo turno, por Mohammed Ben Abbes, o candidato do imaginário partido da Fraternidade Muçulmana em disputa com a Frente Nacional de ultradireita, liderada por Marine Le Pen. Alguns efeitos imediatos do novo governo islâmico, principalmente na área da educação, são uma espécie de caricatura da cultura muçulmuna na visão cínica de Hoellebecq, tais como: exigência de que todos os professores, sem exceção, sejam muçulmanos, proibição do regime misto, somente certas carreiras abertas às mulheres (área de educação doméstica ou estudos literários e artísticos, para uma pequena minoria), véu islâmico, casamento poligâmico sem consequências em termos de estado civil, mas reconhecido como válido na garantia de direitos junto aos centros de seguridade social e serviços fiscais e alterações de comportamento da sociedade, conforme passagem abaixo:
"E as roupas femininas tinham se transformado, senti de imediato, sem conseguir analisar a transformação; o número de véus islâmicos tinha aumentado um pouco, mas não era isso, e levei quase uma hora perambulando até captar, de um só golpe, o que mudara: todas as mulheres estavam de calças compridas (...) Uma nova roupa também tinha se disseminado, uma espécie de blusa comprida de algodão, parando no meio da coxa, que tirava todo o interesse objetivo das calças justas que certas mulheres poderiam eventualmente usar; quanto aos shorts, é claro que estavam fora de discussão. A contemplação da bunda das mulheres, mínimo consolo sonhador, também se tornara impossível." (pág. 148)
O protagonista é o professor universitário François, uma espécie de "porta-voz" das ideias de Houellebecq, um intelectual em constante crise emocional que passa as noites em sites de vídeos pornográficos, sem prazer de viver e sem esperança no próprio futuro, portador de uma tremenda preguiça existencial e especialista na obra de Joris-Karl Huysmans (1848 - 1907), escritor representante do Movimento Decadente francês no século XIX. François é demitido da Universidade Sorbonne e passa a receber, assim como outros professores não muçulmanos ou não convertidos, rendimentos mensais compatíveis com a aposentadoria integral, tudo financiado por maciços investimentos do mundo árabe. Na verdade, a vida acadêmica não é considerada em sua devida importância pelo protagonista que "nunca tivera a menor vocação para o ensino" e é resumida de forma irônica no trecho abaixo:
"Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras — em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução (...) Esses estudos no entanto não são nocivos e podem até apresentar uma utilidade marginal. Uma moça que procure um emprego de vendedora na Céline ou Hermès deverá naturalmente, e em primeiríssimo lugar, cuidar de sua aparência; mas uma graduação ou um mestrado em letras modernas poderá constituir um trunfo secundário que garanta ao patrão, na falta de competências mais aproveitáveis, uma certa agilidade intelectual que pressagie a possibilidade de uma evolução na carreira — a literatura, além do mais, vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva no ramo da indústria do luxo." (pág. 14)
François recebe uma proposta para voltar à conceituada Sorbonne desde que se converta ao Islã. A carga de ironia e cinismo de Houellebecq nos deixa em dúvida sobre até que ponto pode ser flexível o caráter de seu personagem que resolve aceitar a conversão e os ensinamentos do Alcorão por interesses imediatos, principalmente na parte relativa à poligamia. Enfim, de um momento para outro, todo o declínio da cultura européia na França, a crise do Ocidente e o multiculturalismo, tudo isso é substituído por um estado único de submissão religioso e cultural que muitos temem no mundo de hoje. 

Sobre a possível influência de sua obra, Houellebecq declarou que "não conhece ninguém que tenha mudado suas intenções de voto depois de ter lido um romance" e somente o tempo dirá se o autor conseguiu antever uma situação viável na sua distopia que talvez não alcance o nível de clássicos como 1984 de George Orwel ou Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, como sugere o material de divulgação da editora, mas certamente nos faz pensar muito nas consequências e no mal que o fanatismo religioso, infelizmente, ainda provoca nos homens.

quinta-feira, maio 21, 2015

Exposição Joan Miró em São Paulo


O instituto Tomie Ohtake traz ao Brasil 112 obras do artista catalão Joan Miró (1893 - 1983), incluindo pinturas, gravuras, desenhos e esculturas que pertencem à Fundação Joan Miró, de Barcelona, e a coleções particulares. A exposição fica em cartaz na sede do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo de 24 de maio à 16 de agosto, compreendendo três períodos. O primeiro, de 1930 à 1940, cobrindo a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Grande Guerra, o segundo, entre os anos 1950 e 1960, com foco nas esculturas e o terceiro, com base nos anos 70, expondo as experimentações do artista em outras áreas, inclusive gravuras (ler maiores detalhes sobre a exposição no site do Instituto).

Segundo Valter Hugo Mãe bem resumiu, "O criador é um distúrbio no universo da continuidade", no belo texto que preparou para "Joan Miró - a força da matéria" e que fará parte do catálogo da exposição. Ler aqui um trecho, disponível no blog da editora Cosac Naify. Bem, certamente temos que admitir, Miró (assim como o próprio Valter Hugo Mãe) é um dos maiores distúrbios da história da arte.

Exposição Joan Miró - A Força da Matéria
De 24 de maio a 16 de agosto
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo, Tel.: (11) 2245-1900
De terça a domingo, 11h às 20h
Ingressos: R$ 10,00 (maiores de 10 anos). Entrada gratuita às terças

terça-feira, maio 19, 2015

Man Booker International Prize 2015


O húngaro László Krasznahorkai é o vencedor do Man Booker International Prize 2015, premiação criada em 2004 no valor de 60.000 libras e atribuída a cada dois anos pelo conjunto da obra do autor. As versões anteriores já contemplaram escritores consagrados como: Lydia Davis, Philip Roth, Alice Munro, Chinua Achebe e Ismael Kadare. Não confundir com o Man Booker Prize for Fiction, de periodicidade anual e específico para um romance, que terá a sua longlist anunciada em 29 de julho de 2015.

László Krasznahorkai é um desconhecido em nosso país e entre suas obras mais famosas estão "The Melancholy of Resistance", de 1989, e "Satantango", de 1985. Quem sabe agora alguma editora local não se interessa em traduzir (de preferência em tradução direta) e publicar o húngaro no Brasil.

Nesta edição, a organização escolheu quatro africanos entre os dez finalistas, incluindo o moçambicano Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões em 2013. Ver abaixo a relação completa dos dez finalistas com links para as respectivas biografias no portal do Man Booker Prize:

César Aira (Argentina);
Hoda Barakat (Líbano);
Maryse Condé (Guadalupe);
Mia Couto (Moçambique);
Amitav Ghosh (Índia);
Fanny Howe (Estados Unidos);
Ibrahim al-Koni (Líbia);
Lázló Krasznahorkai (Hungria);
Alain Mabanckou (República do Congo);
Marlene van Niekerk (África do Sul).

domingo, maio 17, 2015

La música clásica: 101 preguntas fundamentales

La música clásica: 101 preguntas fundamentales - Annette Kreutziger-Herr, Winfried Bönig - 264 páginas - Alianza Editorial - 2010 - Tradução do original alemão "Klassiche Musik: 101 wichtigsten Fragen" (ilustração da capa: Vênus e Marte de Andrea Botticelli).

De acordo com a resposta a uma das 101 perguntas deste delicioso livro de bolso, a música clássica é uma tentativa de atingir o equilíbrio perfeito entre o ritmo, melodia e harmonia, fato que ocorreu na história da música entre 1730 e 1830. Ainda de acordo com os autores, nos gêneros da sonata (por exemplo, a sonata fácil, KV 545, para piano de Mozart), na sinfonia (por exemplo, nas sinfonias de Londres de Haydn) e finalmente no concerto (um dos mais belos exemplos, o primeiro movimento do concerto para violino em Ré maior de Beethoven) comprova-se a realização efetiva deste propósito de equilíbrio entre ritmo, melodia e harmonia.

Uma obra essencialmente didática, o livro pode ser considerado de nível básico, para iniciantes mesmo, com perguntas simples e diretas, tais como: De que elementos é constituída a música, o que é o ouvido absoluto, como nasceu a ópera, quais são os gêneros musicais mais importantes, o que faz um maestro, como um maestro é capaz de ler uma grande partitura de orquestra. No entanto, nem todas as perguntas se revestem de tanta seriedade e algumas são até mesmo curiosas, como por exemplo: O que fazem os músicos depois de um concerto, quanto ganha um compositor, por que um violino stradivarius custa um milhão de euros, o que soa mais forte, uma orquestra ou uma banda de Rock (esta é fácil).

As perguntas são apresentadas em sete categorias: os fundamentos da música, história da música, durante o concerto, ópera, instrumentos, orquestra e coro, mais além da música. Complementam o livro um quadro cronológico, bibliografia e recomendações para audição cobrindo os diversos movimentos músicais em cada época, como a Idade Média, Renascimento, Barroco, Clássico, Romântico, Música Moderna, Nova Música I (1950 a 1988) e Nova Música II (1991 a 2007). A última pergunta do livro tem uma resposta óbvia: "A música existirá para sempre?", esta é fácil de responder também. Um "livrinho" ótimo para se deixar na cabeceira por algum tempo.

sábado, maio 16, 2015

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo - 336 páginas - Editora Intrínseca - Tradução de Fernanda Abreu - Lançamento 2010.

Um romance genial e motivador porque ajuda a pensar o mundo atual, mesmo que ele seja absurdo e digital. Motivador porque Jennifer Egan, em seu nível de exigência criativa, quase experimental, estabelece diferentes estruturas em cada capítulo (um deles, por exemplo, é totalmente montado em slides de Power Point), narrativas em primeira, terceira e até mesmo segunda pessoa, com pontos de vista multifacetados através da visão dos personagens ao longo do tempo, mas sempre interligando todas as pontas da sua trama de forma suave e consistente. Motivador porque nos identificamos com as situações de veracidade que refletem o impasse existencial da nossa sociedade em que as ferramentas de comunicação são instantâneas e de fácil acesso, mas ainda assim permanecemos cada vez mais isolados, com mais amigos no facebook e menos felizes. Finalmente, um romance motivador porque a autora sabe contar as suas histórias como nenhum outro autor contemporâneo, uma leitura que nos faz perder a noção do tempo e a estação certa do metrô.

Um ponto comum entre todos os personagens é o efeito da passagem do tempo e a perda das ilusões da juventude. Assim acontece com Bennie Salazar, um badalado produtor de Rock e sua ex-assistente Sasha, ambos funcionam como elo de ligação entre as narrativas cruzadas. Bennie era baixista de uma banda de punk rock, os Flaming Dildos, nos anos setenta em São Francisco até se tornar executivo e Sasha é uma cleptomaníaca sonhadora que corre o mundo até trabalhar para Bennie no seu selo Sow's Ear Records em Nova York. A trajetória deles é intercalada por outros personagens muito bem construídos como Dolly uma famosa divulgadora que caiu em desgraça na sociedade nova-iorquina e procura se reabilitar através de um novo contrato com um ditador genocida que busca conquistar a simpatia dos norte-americanos.

Praticamente cada capítulo funciona como uma unidade independente do todo e é sempre uma surpresa para o leitor que nunca sabe se vai avançar ou retroceder no tempo, em que lugar do mundo vai estar (Nova York, São Francisco, Nápoles e até mesmo um safari na África) ou com qual personagem. Uma viagem dentro da viagem do romance são as referências musicais dos anos setenta e oitenta que variam de Patti Smith, Black Flag, Iggy Pop, Dead Kennedys até Blondie. Outra sacação fantástica foi a tese sobre as grandes pausas do Rock, uma fixação do filho de Sasha no futuro, comparando as pausas de "Long Train Running" do Doobie Brothers com "Foxey Lady" de Jimi Hendrix e estabelecendo uma relação entre a duração da pausa e o poder de permanência da música na mente.

O virtuosismo estilístico de Jennifer Egan mereceu os  prêmios Pulitzer de Ficção 2011 e National Book Critics Circle Award 2011, além do livro ter sido relacionado, pelo site de cultura da BBC, entre os 20 melhores romances do século XXI até o momento. Não é à toa que a autora foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do ano de 2011 pela revista Time.

terça-feira, maio 12, 2015

50 Great Short Stories

50 Great Short Stories - Bantam Classics - Editado por Milton Crane - 571 páginas - Lançamento Setembro de 2005 (primeira publicação 1952).

É bom que se diga que esta antologia, apesar de constituída apenas por clássicos, não pretende reunir os 50 maiores contos da história da literatura universal, principalmente porque é basicamente focada em autores ingleses e americanos  do século XIX e primeira metade do século XX, deixando de fora portanto alguns mestres da narrativa breve como Vladimir Nabokov, Kurt Vonnegut, Alice Munro, Haruki Murakami, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Roberto Bolaño, apenas para citar alguns que me ocorrem no momento (sem falar na ausência de autores brasileiros como Machado de Assis, indispensável em qualquer seleção de contos top 50). 

Adicionalmente, os contos selecionados não são os melhores de cada autor (na verdade, o conjunto é bastante irregular), mas não deixa de ser uma ótima relação de custo e benefício, para qualquer leitor compulsivo, adquirir por US$ 6,99 em paperback uma seleção que inclui Edgar Allan Poe, Joseph Conrad, Aldous Huxley, Henry James, Hemingway, William Faulkner, James Joyce, Kipling, Virginia Woolf, Somerset Maugham e outros escritores deste nível.

Foi uma boa surpresa conhecer o trabalho de Ring Lardner (1885 - 1933) autor de The Golden Honeymoon (ler online aqui), cheio de um humor sutil e irônico tão difícil de achar nos autores contemporâneos ou Shirley Jackson (1920 - 1965) com o conto The Lottery (ler online aqui) que descreve uma estranha tradição em uma pequena comunidade norte-americana, uma espécie de conto de terror que foi publicado em 1948 pela New Yorker e que provocou uma forte reação nos leitores através de várias cartas de reclamação e até mesmo cancelamento de assinaturas (ler detalhes aqui).

quarta-feira, abril 29, 2015

Brasiliana Fotográfica

Marc Ferrez, Menino Índio, c. 1880 Mato Grosso
Lançado o portal Brasiliana Fotográfica, inicialmente com mais de duas mil fotos históricas raras do século XIX e das duas primeiras décadas do século XX do acervo da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Sales. No futuro, poderão participar outras instituições do Brasil e do exterior, públicas e privadas, detentoras de acervos originais de documentos fotográficos referentes ao Brasil. As fotos foram digitalizadas em alta resolução e podem ser vistas com ferramenta de zoom. Um passeio imperdível através da história.

Marc Ferrez, Centro do Rio de Janeiro. c. 1890

Leitores anônimos


Felizmente, como usuário do Metrô do Rio de Janeiro, posso constatar que o livro impresso não está com os dias contados e que, principalmente, ao contrário do que se diz, existe sim o hábito de leitura em nosso país. O projeto do site Tem Mais Gente Lendo (TMGL) pretende mostrar esses leitores anônimos em fotos e vídeos no Metrô de São Paulo, além de outras seções interessantes sobre o universo da leitura. Clique aqui para conhecer a página do TMGL no facebook.

Tem Mais Gente Lendo (TMGL)
Existe um projeto similar para o Metrô de Nova York, o Underground New York Public Library (UNYPL), que se define como "uma biblioteca visual" ao postar, juntamente com a foto, o título e autor do livro (ver exemplo na imagem abaixo). Que bom, parece que realmente tem muito mais gente lendo por aí!

sábado, abril 25, 2015

Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio


Gato num apartamento vazio
(Wislawa Szymborska - 1993)

Morrer 
 isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho
sobre as patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

Wislawa Szymborska - Poemas - Editora Companhia das Letras - 168 páginas
Lançamento 26/09/2011 - Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien
Ler aqui resenha do Mundo de K.
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