quinta-feira, maio 21, 2015

Exposição Joan Miró em São Paulo


O instituto Tomie Ohtake traz ao Brasil 112 obras do artista catalão Joan Miró (1893 - 1983), incluindo pinturas, gravuras, desenhos e esculturas que pertencem à Fundação Joan Miró, de Barcelona, e a coleções particulares. A exposição fica em cartaz na sede do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo de 24 de maio à 16 de agosto, compreendendo três períodos. A primeira de 1930 à 1940, cobrindo a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Grande Guerra, a segunda parte, entre os anos 1950 e 1960, com foco nas esculturas e a terceira, com base nos anos 70, expondo as experimentações do artista em outras áreas, inclusive gravuras (ler maiores detalhes sobre a exposição no site do Instituto).

Segundo Valter Hugo Mãe bem resumiu, "O criador é um distúrbio no universo da continuidade", no belo texto que preparou para "Joan Miró - a força da matéria" e fará parte do catálogo da exposição. Ler aqui um trecho, disponível no blog da editora Cosac Naify. Bem, certamente temos que admitir, Miró (assim como o próprio Valter Hugo Mãe) é um dos maiores distúrbios da história da arte.

Exposição Joan Miró - A Força da Matéria
De 24 de maio a 16 de agosto
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo, Tel.: (11) 2245-1900
De terça a domingo, 11h às 20h
Ingressos: R$ 10,00 (maiores de 10 anos). Entrada gratuita às terças

terça-feira, maio 19, 2015

Man Booker International Prize 2015


O húngaro László Krasznahorkai é o vencedor do Man Booker International Prize 2015, premiação criada em 2004 no valor de 60.000 libras e atribuída a cada dois anos pelo conjunto da obra do autor. As versões anteriores já contemplaram escritores consagrados como: Lydia Davis, Philip Roth, Alice Munro, Chinua Achebe e Ismael Kadare. Não confundir com o Man Booker Prize for Fiction, de periodicidade anual e específico para um romance, que terá a sua longlist anunciada em 29 de julho de 2015.

László Krasznahorkai é um desconhecido em nosso país e entre suas obras mais famosas estão "The Melancholy of Resistance", de 1989, e "Satantango", de 1985. Quem sabe agora alguma editora local não se interessa em traduzir (de preferência em tradução direta) e publicar o húngaro no Brasil.

Nesta edição, a organização escolheu quatro africanos entre os dez finalistas, incluindo o moçambicano Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões em 2013. Ver abaixo a relação completa dos dez finalistas com links para as respectivas biografias no portal do Man Booker Prize:

César Aira (Argentina);
Hoda Barakat (Líbano);
Maryse Condé (Guadalupe);
Mia Couto (Moçambique);
Amitav Ghosh (Índia);
Fanny Howe (Estados Unidos);
Ibrahim al-Koni (Líbia);
Lázló Krasznahorkai (Hungria);
Alain Mabanckou (República do Congo);
Marlene van Niekerk (África do Sul).

domingo, maio 17, 2015

La música clásica: 101 preguntas fundamentales

La música clásica: 101 preguntas fundamentales - Annette Kreutziger-Herr, Winfried Bönig - 264 páginas - Alianza Editorial - 2010 - Tradução do original alemão "Klassiche Musik: 101 wichtigsten Fragen" (ilustração da capa: Vênus e Marte de Andrea Botticelli).

De acordo com a resposta a uma das 101 perguntas deste delicioso livro de bolso, a música clássica é uma tentativa de atingir o equilíbrio perfeito entre o ritmo, melodia e harmonia, fato que ocorreu na história da música entre 1730 e 1830. Ainda de acordo com os autores, nos gêneros da sonata (por exemplo, a sonata fácil, KV 545, para piano de Mozart), na sinfonia (por exemplo, nas sinfonias de Londres de Haydn) e finalmente no concerto (um dos mais belos exemplos, o primeiro movimento do concerto para violino em Ré maior de Beethoven) comprova-se a realização efetiva deste propósito de equilíbrio entre ritmo, melodia e harmonia.

Uma obra essencialmente didática, o livro pode ser considerado de nível básico, para iniciantes mesmo, com perguntas simples e diretas, tais como: De que elementos é constituída a música, o que é o ouvido absoluto, como nasceu a ópera, quais são os gêneros musicais mais importantes, o que faz um maestro, como um maestro é capaz de ler uma grande partitura de orquestra. No entanto, nem todas as perguntas se revestem de tanta seriedade e algumas são até mesmo curiosas, como por exemplo: O que fazem os músicos depois de um concerto, quanto ganha um compositor, por que um violino stradivarius custa um milhão de euros, o que soa mais forte, uma orquestra ou uma banda de Rock (esta é fácil).

As perguntas são apresentadas em sete categorias: os fundamentos da música, história da música, durante o concerto, ópera, instrumentos, orquestra e coro, mais além da música. Complementam o livro um quadro cronológico, bibliografia e recomendações para audição cobrindo os diversos movimentos músicais em cada época, como a Idade Média, Renascimento, Barroco, Clássico, Romântico, Música Moderna, Nova Música I (1950 a 1988) e Nova Música II (1991 a 2007). A última pergunta do livro tem uma resposta óbvia: "A música existirá para sempre?", esta é fácil de responder também. Um "livrinho" ótimo para se deixar na cabeceira por algum tempo.

sábado, maio 16, 2015

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo - 336 páginas - Editora Intrínseca - Tradução de Fernanda Abreu - Lançamento 2010.

Um romance genial e motivador porque ajuda a pensar o mundo atual, mesmo que ele seja absurdo e digital. Motivador porque Jennifer Egan, em seu nível de exigência criativa, quase experimental, estabelece diferentes estruturas em cada capítulo (um deles, por exemplo, é totalmente montado em slides de Power Point), narrativas em primeira, terceira e até mesmo segunda pessoa, com pontos de vista multifacetados através da visão dos personagens ao longo do tempo, mas sempre interligando todas as pontas da sua trama de forma suave e consistente. Motivador porque nos identificamos com as situações de veracidade que refletem o impasse existencial da nossa sociedade em que as ferramentas de comunicação são instantâneas e de fácil acesso, mas ainda assim permanecemos cada vez mais isolados, com mais amigos no facebook e menos felizes. Finalmente, um romance motivador porque a autora sabe contar as suas histórias como nenhum outro autor contemporâneo, uma leitura que nos faz perder a noção do tempo e a estação certa do metrô.

Um ponto comum entre todos os personagens é o efeito da passagem do tempo e a perda das ilusões da juventude. Assim acontece com Bennie Salazar, um badalado produtor de Rock e sua ex-assistente Sasha, ambos funcionam como elo de ligação entre as narrativas cruzadas. Bennie era baixista de uma banda de punk rock, os Flaming Dildos, nos anos setenta em São Francisco até se tornar executivo e Sasha é uma cleptomaníaca sonhadora que corre o mundo até trabalhar para Bennie no seu selo Sow's Ear Records em Nova York. A trajetória deles é intercalada por outros personagens muito bem construídos como Dolly uma famosa divulgadora que caiu em desgraça na sociedade nova-iorquina e procura se reabilitar através de um novo contrato com um ditador genocida que busca conquistar a simpatia dos norte-americanos.

Praticamente cada capítulo funciona como uma unidade independente do todo e é sempre uma surpresa para o leitor que nunca sabe se vai avançar ou retroceder no tempo, em que lugar do mundo vai estar (Nova York, São Francisco, Nápoles e até mesmo um safari na África) ou com qual personagem. Uma viagem dentro da viagem do romance são as referências musicais dos anos setenta e oitenta que variam de Patti Smith, Black Flag, Iggy Pop, Dead Kennedys até Blondie. Outra sacação fantástica foi a tese sobre as grandes pausas do Rock, uma fixação do filho de Sasha no futuro, comparando as pausas de "Long Train Running" do Doobie Brothers com "Foxey Lady" de Jimi Hendrix e estabelecendo uma relação entre a duração da pausa e o poder de permanência da música na mente.

O virtuosismo estilístico de Jennifer Egan mereceu os  prêmios Pulitzer de Ficção 2011 e National Book Critics Circle Award 2011, além do livro ter sido relacionado, pelo site de cultura da BBC, entre os 20 melhores romances do século XXI até o momento. Não é à toa que a autora foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do ano de 2011 pela revista Time.

terça-feira, maio 12, 2015

50 Great Short Stories

50 Great Short Stories - Bantam Classics - Editado por Milton Crane - 571 páginas - Lançamento Setembro de 2005 (primeira publicação 1952).

É bom que se diga que esta antologia, apesar de constituída apenas por clássicos, não pretende reunir os 50 maiores contos da história da literatura universal, principalmente porque é basicamente focada em autores ingleses e americanos  do século XIX e primeira metade do século XX, deixando de fora portanto alguns mestres da narrativa breve como Vladimir Nabokov, Kurt Vonnegut, Alice Munro, Haruki Murakami, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Roberto Bolaño, apenas para citar alguns que me ocorrem no momento (sem falar na ausência de autores brasileiros como Machado de Assis, indispensável em qualquer seleção de contos top 50). 

Adicionalmente, os contos selecionados não são os melhores de cada autor (na verdade, o conjunto é bastante irregular), mas não deixa de ser uma ótima relação de custo e benefício, para qualquer leitor compulsivo, adquirir por US$ 6,99 em paperback uma seleção que inclui Edgar Allan Poe, Joseph Conrad, Aldous Huxley, Henry James, Hemingway, William Faulkner, James Joyce, Kipling, Virginia Woolf, Somerset Maugham e outros escritores deste nível.

Foi uma boa surpresa conhecer o trabalho de Ring Lardner (1885 - 1933) autor de The Golden Honeymoon (ler online aqui), cheio de um humor sutil e irônico tão difícil de achar nos autores contemporâneos ou Shirley Jackson (1920 - 1965) com o conto The Lottery (ler online aqui) que descreve uma estranha tradição em uma pequena comunidade norte-americana, uma espécie de conto de terror que foi publicado em 1948 pela New Yorker e que provocou uma forte reação nos leitores através de várias cartas de reclamação e até mesmo cancelamento de assinaturas (ler detalhes aqui).

quarta-feira, abril 29, 2015

Brasiliana Fotográfica

Marc Ferrez, Menino Índio, c. 1880 Mato Grosso
Lançado o portal Brasiliana Fotográfica, inicialmente com mais de duas mil fotos históricas raras do século XIX e das duas primeiras décadas do século XX do acervo da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Sales. No futuro, poderão participar outras instituições do Brasil e do exterior, públicas e privadas, detentoras de acervos originais de documentos fotográficos referentes ao Brasil. As fotos foram digitalizadas em alta resolução e podem ser vistas com ferramenta de zoom. Um passeio imperdível através da história.

Marc Ferrez, Centro do Rio de Janeiro. c. 1890

Leitores anônimos


Felizmente, como usuário do Metrô do Rio de Janeiro, posso constatar que o livro impresso não está com os dias contados e que, principalmente, ao contrário do que se diz, existe sim o hábito de leitura em nosso país. O projeto do site Tem Mais Gente Lendo (TMGL) pretende mostrar esses leitores anônimos em fotos e vídeos no Metrô de São Paulo, além de outras seções interessantes sobre o universo da leitura. Clique aqui para conhecer a página do TMGL no facebook.

Tem Mais Gente Lendo (TMGL)
Existe um projeto similar para o Metrô de Nova York, o Underground New York Public Library (UNYPL), que se define como "uma biblioteca visual" ao postar, juntamente com a foto, o título e autor do livro (ver exemplo na imagem abaixo). Que bom, parece que realmente tem muito mais gente lendo por aí!

sábado, abril 25, 2015

Wislawa Szymborska - Gato num apartamento vazio


Gato num apartamento vazio
(Wislawa Szymborska - 1993)

Morrer 
 isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho
sobre as patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

Wislawa Szymborska - Poemas - Editora Companhia das Letras - 168 páginas
Lançamento 26/09/2011 - Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien
Ler aqui resenha do Mundo de K.

terça-feira, abril 21, 2015

Kurt Klagsbrunn - Um fotógrafo humanista no Rio (1940 > 1960)


A exposição está aberta ao público até 09 de agosto no Museu de Arte do Rio - MAR com 200 fotografias que refletem as mudanças na vida social e política do Rio de Janeiro durante as décadas de 1940 até 1960, registradas pelo fotógrafo austríaco Kurt Klagsbrunn (1918 - 2005). Adicionalmente, são apresentados detalhes da técnica fotográfica da época com explicação sobre os processos de revelação, fixação e ampliação, além de máquinas fotográficas antigas como a Rolleiflex, Hasselblad, Leica e Zeiss, entre outras.


Kurt Klagsbrunn foi uma espécie de Marc Ferrez do seu tempo, retratando o cotidiano carioca através de retratos de engraxates e vendedores ambulantes na praia de Copacabana até a aristocracia local, reunida para assistir às corridas no Jockey Club do Rio. Personalidades internacionais de passagem pela cidade como o cineasta Orson Welles também foram captados pela lente de Kangsbrunn. Uma exposição imperdível para entender melhor a história do Rio e também para todos os amantes da boa fotografia.

terça-feira, abril 14, 2015

Finalistas do International Dublin Literary Award 2015


Divulgada a "shortlist" do prêmio International Dublin Literary Award 2015, patrocinado pela cidade de Dublin, na Irlanda, e destinado a romances publicados em língua inglesa, originalmente ou em tradução. O Brasil foi representado pela primeira vez entre os finalistas desta premiação em 2012 com O filho eterno de Cristovão Tezza. No ano passado, o vencedor foi o colombiano Juan Gabriel Vásquez com El ruído de las cosas al caer e, este ano, temos um brasileiro entre os 10 livros finalistas: Bernardo Kucinski com o romance K (tradução de Sue Branford, Latin American Bureau).

Este é um dos prêmios literários mais transparentes em relação ao processo de escolha porque as indicações são feitas por bibliotecas públicas de diferentes cidades que podem nomear até três romances por ano (ver aqui a lista das bibliotecas participantes, por país, e suas nomeações em 2015). O vencedor levará 100.000 euros e será divulgado em junho.

Segue abaixo a shortlist completa e sigam os links para maiores detalhes de cada finalista:

AmericanahChimamanda Ngozi Adichie;
Horses of GodMahi Binebine;
HarvestJim Crace;
The Narrow Road to the Deep NorthRichard Flanagan;
Burial RitesHannah Kent;
KBernardo Kucinski;
Brief Loves that Live ForeverAndreï Makine;
TransAtlanticColum McCann;
SomeoneAlice McDermott;
SpartaRoxana Robinson.

segunda-feira, abril 13, 2015

Citações de Eduardo Galeano (1940 - 2015)


(01) "Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos." - Voces de nuestro tiempo‎ - Página 17 - Editorial Universitaria Centroamericana, EDUCA, 1981‎;

(02) "A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la." - Las venas abiertas de América Latina‎ - Página 341 - Siglo XXI, 2006‎;

(03) "A liberdade de mercado permite que você aceite os preços que lhe são impostos" - Las palabras andantes - Página 61, de Eduardo Galeano, José Borges - Siglo XXI, 1994‎;

(04) "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." - Fernando Birri citado por Eduardo Galeano in Las palabras andantes‎;

(05) "Eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima" - declaração de Eduardo Galeno sobre as "Veias abertas da América Latina" durante a 2ª Bienal do Livro de Brasília em 2014.

quinta-feira, abril 09, 2015

Llucia Ramis - Todo lo que una tarde murió con las bicicletas

Llucia Ramis - Todo lo que una tarde murió con las bicicletas - Editora Libros del Asteroide - 224 páginas - Lançamento 2013 - Prólogo de José Carlos Llop (ler aqui um trecho disponibilizado pela editora).

Llucia Ramis Laloux nasceu em Palma de Mallorca em 1977 e escreve em catalão e espanhol, mas ainda está para ser descoberta por alguma editora no Brasil ou Portugal e traduzida para o português, o que seria ótimo para os leitores lusófonos. Neste seu terceiro romance, o tema principal é a história familiar e as relações da autora com os pais e avós. Llucia faz muito bom uso do recurso da autoficção, alternando passado remoto, recente e presente na narrativa e utilizando como cenário principal a ilha de Palma de Mallorca onde a personagem principal, já passando dos trinta anos, retorna à casa dos pais após o seu retumbante "fracasso" profissional, sentimental e existencial.

Até este ponto não há muita novidade já que a autoficção é um recurso comum na literatura contemporânea, assim como a autobiografia. Apesar de tudo, a forma como Llucia Ramis resgata as suas memórias infantis  e descreve a visão do mundo que a cerca é de rara beleza e provoca a nossa identificação imediata, mesmo sabendo que se trata de uma obra de ficção, como o próprio texto sinaliza: "Cada vez que recordamos algo, na realidade estamos recordando a última vez que recordamos. Nunca voltamos ao momento em que vivemos, mas sim a aquele outro que já era uma recriação. Recordamos aquilo que inventamos ou nos fizeram inventar." (pág. 176).

Em outra parte, a autora reflete sobre o sentimento de perda por contraste: "A nostalgia é este mal estranho que nos faz dolorosamente felizes, uma espécie de alegria triste pelas coisas que não podem nos tirar porque já as possuímos e, ainda que hajam deixado de existir, seguem assim, imutáveis." (pág. 27).

A primeira epígrafe do livro é uma referência ao poema "Sistemas" do espanhol Pere Gimferrer e dá uma boa pista sobre o conteúdo do romance que estamos prestes a ler e também da origem do título:

"y ahora gira el cristal
y oculta este aspecto: lo real y lo ficticio,
la convención, es decir, y las cosas vividas,
la experiencia de la luz en los bosques invernales,
la dificultad de otorgar coherencia — es un juego de espejos —,
los actos disolviéndose en la irrealidad,
los ácidos que invaden viejas fotografias,
(...)
todo lo que una tarde murió con las bicicletas" 

Já a segunda epígrafe é um alerta da própria autora: "Esto no es una autobiografia", o que obviamente não é uma verdade completa e tampouco uma mentira. E, no entanto, não é justamente essa a maior mágica possível da arte e da literatura em especial?

terça-feira, abril 07, 2015

Penguin Little Black Classics


Os livros impressos ganharam uma importante batalha na guerra contra as publicações digitais, constatando que o mercado editorial tradicional ainda tem muito espaço para investir com criatividade, preço competitivo e qualidade. É o que prova o lançamento comemorativo de 80 anos da editora penguin inglesaLittle Black Classics, que vendeu 70.545 cópias somente na primeira semana (ler aqui matéria do Guardian).

O projeto considerou um livro representando cada um dos 80 anos da editora com o preço de venda de apenas 0,80 Libras por volume (aproximadamente R$ 3,70). Como a penguin ficou famosa pela qualidade dos clássicos de seu acervo e a portabilidade das publicações, o que ajuda a competir com os livros digitais, foi um tiro certeiro para agradar os leitores. Clique na imagem acima para ter acesso ao site promocional e girar o pinguim, conhecendo então, aleatoriamente, cada um dos títulos da coleção.

Em setembro de 2015 a caixa completa com os 80 volumes estará disponível para venda na amazon inglesa ao custo de 64 Libras (aproximadamente R$ 296,00), nada mal para um benefício de 5.120 páginas de clássicos, variando de Homero até Balzac. Ver todos os volumes da coleção clicando na imagem abaixo ou a lista com cada título nesta outra matéria do Guardian.

domingo, abril 05, 2015

Veronica Stigger - Opisanie świata

Veronica Stigger - Opisanie świata - Editora Cosac Naify - 160 páginas - lançamento agosto 2013.

Em 2014 Veronica Stigger ganhou o prêmio São Paulo de Literatura e foi finalista do Portugal Telecom e Jabuti com este seu romance de estreia e título difícil ("descrição do mundo" em polonês). A autora utiliza diferentes estilos narrativos em primeira e terceira pessoa, linguagem fragmentada por anúncios de época e imagens de cartões postais, tudo isso em uma bem cuidada edição gráfica, como já é tradição nos livros da editora Cosac Naify. É bom ressaltar que o trabalho de Veronica não é somente criativo na técnica, mas também na pesquisa do argumento e na criação ou apropriação dos personagens, todos "estrangeiros", mesmo o brasileiro Bopp, inspirado no poeta Raul Bopp, emprestado do nosso movimento modernista, personagens sempre envolvidos em algum tipo de deslocamento ou deslocados do meio em que vivem. 

O romance tem como base a história de uma longa viagem, de trem e navio no final da década de trinta, da Polônia até a Amazônia. Opalka, é um polonês surpreendido por uma carta de Natanael, seu filho "internado em estado grave" que ele não sabia existir no Brasil e que pede para conhecê-lo. Ele decide atender ao pedido do filho e voltar à terra que havia abandonado na virada do século. Opalka conhece Bopp no início de sua epopéia e o mesmo irá acompanhá-lo em toda a trajetória. Na verdade, o argumento principal do romance é a própria viagem e todos os estranhos personagens em situações surrealistas que vamos conhecendo pelo caminho (uma espécie de "road movie") e não a relação entre Opalka e Natanael.

A Europa está prestes a ser destruída pela segunda Grande Guerra e a viagem de Opalka parece ser um caminho sem volta, mesmo que a Amazônia, já na década de trinta, também em vias de destruição, não represente mais a esperança de uma nova terra para os expatriados da Europa. Assim mesmo, Opalka é incentivado por Bopp, já no final do livro, a escrever suas experiências durante a viagem e o que encontrou no Brasil em um caderno de anotações que lhe dá de presente, um trecho bonito que resume tão bem o papel transformador da literatura em nossas vidas:
“— Tome — disse Bopp, estendendo-lhe um caderninho preto. — É um presente. Serve para fazer anotações. Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. Bopp se calou e, depois de um tempo, acrescentou: — Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”

terça-feira, março 31, 2015

Rafael Sperling - Um homem burro morreu

Rafael Sperling - Um homem burro morreu - Editora Oito e Meio - 130 páginas - Lançamento 2014.

O que me chama a atenção no jovem escritor carioca Rafael Sperling é a independência de estilo e coragem de fugir do "politicamente correto", tanto em termos de técnica narrativa quanto na escolha dos temas de seus contos. Depois do lançamento do primeiro livro, Festa na Usina Nuclear, Sperling apresenta uma nova seleção de narrativas breves que poderíamos classificar como textos experimentais, literatura do absurdo ou simplesmente surrealismo. Todas as classificações são corretas, mas arrisco dizer que o autor consegue um estilo próprio ao adicionar doses maciças de sarcasmo, violência e até mesmo escatologia em seus contos. É bom citar que toda essa violência não é invenção do Rafael, ela está presente em nosso cotidiano e refletida também diariamente nas mídias de comunicação e redes sociais.

O conto de abertura, "Caetano Veloso se prepara para atravessar uma rua do Leblon", é uma crítica ao jornalismo vazio que transforma em notícia as atividades mais simples das "celebridades". Todas as ações do cantor são intercaladas por perguntas idiotas, como na maior parte dos programas de TV: "Você está com fome, Caetano Veloso?", "Por que você vai a este restaurante, Caetano Veloso?", "Você gosta dessa comida que você pediu, Caetano Veloso?", "O que você vai fazer no banheiro, Caetano Veloso?". E assim sucessivamente, até que um grave acidente ocorre com o nosso famoso cantor, como será a reação da mídia neste caso?

Em "Eu gosto das histórias que a minha babá conta", narrado em primeira pessoa por uma criança de apenas três anos, o pequeno protagonista diz adorar as histórias de sexo contadas pela babá, apesar de confessar nunca ter feito sexo e conhecer apenas pela Internet: "Não tem como eu fazer aquelas posições sexuais. São muito difíceis. Necessitam de uma musculatura desenvolvida. Eu mal consigo andar. Qualquer coisa me estabaco no chão e fico lá, chorando feito um bebê. Mas eu sou um bebê. Vejam só. É uma ironia. Eu fiz uma piada. Não sei fazer sexo, mas sei fazer piadas.".

Nem mesmo a religião fica de fora do rolo compressor de Rafael Sperling em "Jesus Cristo espancando Hitler", quando o ditador sofre um tremendo castigo físico e moral por todos os seus crimes, sendo brutalmente torturado e crucificado por ninguém menos que Jesus Cristo, tudo para que, no final, possamos ficar um pouco mais felizes e reconfortados.

O mais chocante neste livro de Rafael Sperling não é a violência dos textos que não dá mesmo para levar muito a sério, mas sim quando descobrimos o quanto deste "homem burro" está presente em nossas vidas e, por isso, o quanto gostamos de "textos bem bonitos, para agradar as pessoas", como o autor reflete, com razão, no divertido posfácio.

domingo, março 29, 2015

Juan Marsé - El amante bilingüe

Juan Marsé - El amante bilingüe - 224 páginas - Editora Planeta - Seix Barral - Publicação 2006 (lançamento original Editorial Planeta em 1990).

Vencedor do Prêmio Cervantes 2008, o catalão Juan Marsé é praticamente um desconhecido no Brasil, tendo somente um livro publicado em nosso país: "Rabos de Lagartixa" pela editora Siciliano em 2004. "El amante bilingüe" é narrado em primeira pessoa pelo fracassado e desiludido Juan Marés (o autor já começa o seu jogo de farsas e duplicidades ao escolher o nome do personagem à partir de um trocadilho com seu próprio nome). O romance é dividido em três partes ou cadernos de memórias escritos pelo protagonista: "El día que Norma me abandonó", "Fu-Ching, el gran ilusionista" e "El pez de oro"

O primeiro caderno, "El día que Norma me abandonó", como implícito no próprio título, descreve a traição da esposa, Norma Valentí, pertencente à alta burguesia catalã, com quem Marés se uniu por mera casualidade, apesar da total incompatibilidade social (ele tem origem muito humilde, filho de uma ex-cantora lírica alcoólatra e de um ilusionista circense chinês). A traição é apresentada logo no primeiro parágrafo da seguinte forma: "Una tarde lluviosa del mes de noviembre de 1975, al regresar a casa de forma imprevista, encontré a mi mujer en la cama con otro hombre". O tom farsesco do romance fica claro quando Juan Marés vem a descobrir que o amante da esposa é um simples engraxate, após um insólito diálogo que ambos mantêm no quarto, sem outra alternativa, após a partida da esposa que parece não demonstrar o menor escrúpulo com a situação constrangedora.

No segundo caderno, "Fu-Ching, el gran ilusionista", Marés, dez anos depois, ainda não conseguiu se recuperar da separação (a mulher o abandonou imediatamente após tê-lo traído), tornando-se um músico pedinte de rua e decide avançar em um plano inverossímil para reconquistar a esposa à partir de um disfarce, aproveitando que o seu rosto foi parcialmente desfigurado em um acidente. Ele então se transforma em Juan Faneca, o nome de um antigo amigo de infância que partiu para a Alemanha e nunca retornou (aqui outra brincadeira do autor que utiliza, desta vez, o seu nome de família original, Juan Faneca Roca, uma vez que ele foi adotado pela família Marsé, após a morte da mãe durante o parto). O disfarce funciona tão perfeitamente que Juan Marés tem a sua identidade gradativamente anulada por Juan Faneca.

No terceiro e final caderno, El pez de oro", Faneca está muito próximo de realizar o sonho de Marés e reconquistar a esposa infiel, mas conhece Carmen, uma bela e jovem recepcionista na pensão onde passa a morar, cega depois de uma enfermidade aos treze anos, e começa a se interessar por ela. O leitor só tem a ganhar com o conflito de personalidades que se estabelece entre Marés e Faneca pois, no desenvolvimento da trama, cada vez fica mais claro que somente haverá espaço para um dos dois nesta estranha luta entre o que o protagonista gostaria de ser e o que ele realmente se tornou.

A cidade de Barcelona e sua dualidade linguística (catalão e espanhol) é uma presença constante no romance e um dos focos centrais da narrativa que lida todo o tempo com os duplos sentidos e múltiplas interpretações. Um belo exemplo de como fazer literatura, muito recomendado.

"Lo esencial carnavalesco no es ponerse careta, sino quitarse la cara." - Antonio Machado (epígrafe à primeira parte do romance).

segunda-feira, março 23, 2015

Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao


Junot Díaz - The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao - 339 páginas - Editora Riverhead Books - lançamento 2007 (publicado no Brasil pela Editora Record em 2009 com o título de  "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", tradução de Flávia Rössler).

Este livro do escritor dominicano Junot Díaz foi o vencedor dos prêmios: National Book Critics Award de 2007Pulitzer de Ficção de 2008 e ainda escolhido recentemente pelo site de cultura da BBC como o melhor romance do século XXI até o momento. O autor conta a saga de três gerações de uma família imigrante da República Dominicana vivendo nos EUA, cujo último representante é o nosso protagonista adolescente Oscar de León, ou Oscar Wao como é chamado de gozação pelos colegas. Na verdade, ele é um típico "nerd" que sofre todo o tipo de perseguições na escola devido à sua obesidade e gosto bizarro por livros e filmes de ficção científica, quadrinhos e games. O sonho de Oscar é perder a virgindade, tarefa praticamente impossível considerando o seu isolamento e falta de jeito com as mulheres. Ele mora com a mãe Belícia e a irmã mais velha, Lola, em um subúrbio de New Jersey.

O melhor do romance, no entanto, não está nas desventuras sociais e amorosas de Oscar, mas sim na história da família que se confunde com os anos de terror da ditadura do General Rafael Leónidas Trujillo que governou a República Dominicana entre 1930 e 1961. A origem da maldição caribenha que assola a família, chamada de "fukú" (inclusive causa dos problemas do nosso anti-herói, na opinião do próprio) tem início quando o médico Abelard Luis Cabral, avô de Oscar, é perseguido por Trujillo ao se recusar a entregar as filhas para satisfazer os desejos sexuais do ditador, prática normal na época. Ele é preso, torturado e perde todas as suas propriedades, assim como a mulher e as duas filhas. Belícia, a terceira filha sobrevivente é vendida como escrava, mas acaba sendo salva por uma tia (La Inca) e, depois de passar por vários problemas, inclusive um tórrido caso amoroso com um gangster, casado com ninguém menos que a irmã de Trujillo (mais um evento provocado pelo "fukú"), foge para os EUA onde vem a se tornar a mãe de Oscar e Lola.

Narrado em terceira pessoa por Yunior, colega de quarto de Oscar e namorado de Lola e misturando gírias e palavrões em inglês e espanhol, o livro é um desafio para ser lido na edição original em inglês (Junot Díaz escreve em inglês e não em espanhol), mas no final muito compensador porque esta linguagem confusa reflete a realidade do imigrante hispânico, dividido entre duas culturas. O romance de Díaz consegue apresentar algo de novo no cenário da literatura latino-americana, descobrindo novas variações no caminho aberto por Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa.

quinta-feira, março 19, 2015

Como escolher as suas próximas leituras


Considerando a interminável (felizmente) lista de romances a serem lidos, muitas vezes encontramos alguma dificuldade em escolher nossas próximas leituras entre tantas opções disponíveis no mercado editorial, seja no caso de novos lançamentos, novas traduções ou de clássicos já consagrados. Alguns sites podem ser úteis para os leitores compulsivos que se martirizam sem saber como definir seus futuros livros, ou simplesmente uma forma divertida de passar o tempo. O inconveniente é que os bancos de dados são constituídos, em sua maioria, por autores em língua inglesa.

What Should I Read Next? - Basta inserir o nome do autor e/ou título em inglêspara receber sugestões sobre outros livros de estilo semelhante. Clicando no botão info/buy ao lado de cada recomendação o usuário será direcionado para o site da Amazon com sinopse, resenhas e preço.

Whichbook - À partir da escolha de quatro categorias entre doze disponíveis, o visitante define as suas preferências e o site recomenda opções de leitura com base na seleção. Como alternativa podem ser escolhidas também caracteristicas dos personagens.

YourNextRead - Este site apresenta uma plataforma mais interativa porque oferece até oito livros similares ao romance escolhido e o usuário tem a opção de acrescentar um ou mais autores e/ou romances de sua preferência. Os livros também estão associados a links para a Amazon.

domingo, março 15, 2015

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem - 204 Páginas - Editora Rocco (lançamento original 1943).

Este primeiro romance de Clarice Lispector (1920 - 1977), escrito entre março e novembro de 1942, ainda hoje é considerado uma obra revolucionária na literatura brasileira, uma nova forma introspectiva de contar histórias, através da alma dos personagens e da própria autora. Sim, porque o coração selvagem de Joana, nossa protagonista inadaptada ao meio social e familiar, amoral e até mesmo cruel como uma "víbora", mas ao mesmo tempo ingênua em sua sincera busca pela felicidade, tem muito do coração da própria Clarice, ucraniana refugiada aos dois meses de idade e naturalizada brasileira, mas sempre uma eterna estrangeira no Brasil e em todos os países pelos quais passou.

Ainda menina, Joana surpreende sua professora com a seguinte pergunta: "O que é que se consegue quando se fica feliz?" e repete, devido à incompreensão da professora que não sabia como responder: "depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?", "Ser feliz é para se conseguir o quê?". A trajetória de vida de Joana desde a infância órfã, criada pela tia e depois em um internato até se casar com Otávio não parece esclarecer a questão e mesmo a opinião da própria Joana adulta sobre o casamento é bastante peculiar para a época, como neste diálogo entre ela e Lídia, amante de Otávio:
" Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que ainda tenho a certeza de que não casei... Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão.  Meu Deus!  não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conserva porque se arrasta consigo outra pessoa. Há alguém que sempre a observa, que a perscruta, que acompanha todos os seus movimentos. E mesmo o cansaço da vida tem certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada  eu pensava. Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro...Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do  leito comum, da mesa comum, preparando e ameaçando a morte comum. Eu sempre dizia: nunca."
Um livro complexo e fundamental que se deve reler por muitas vezes, como uma espécie de oração para um Deus que não é o Deus humanizado das religiões, mas o Deus Natureza de Spinoza que está além do bem e do mal, como Joana (Clarice) demonstra nesta bela passagem que simboliza o seu renascimento após a separação de Otávio:
"(...) eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro!, o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."

sexta-feira, março 06, 2015

Yasutaka Tsutsui - Hell

Yasutaka Tsutsui - Hell - 199 páginas - editora Alma Books (lançamento 2008) - tradução de Evan Emswiler.

O inferno imaginado por Yasutaka Tsutsui é um lugar muito parecido com o mundo real, tanto assim que os personagens que chegam por lá nem parecem perceber que já não pertencem ao mundo dos vivos, exceto pela ausência de emoções e sentimentos negativos que costumavam acumular em suas existências passadas.

Em nenhum momento fica claro para o leitor quais os critérios, religiosos ou morais, que definem a passagem para este lugar onde "convivem" gangsters da Yakuza, homens de negócios, atores ou simplesmente motoristas de taxi. Os personagens têm a capacidade de ler as mentes uns dos outros e presenciar momentos de suas vidas anteriores. Uma idealização do mundo das sombras sem a conotação de punição e sofrimento de outras obras da literatura. Na verdade, muito mais um purgatório no sentido ocidental do termo.

Nobutero, Yuzo e Takeshi são três amigos que dividem um passado comum, um acidente decorrente de uma brincadeira na infância, que provocou a invalidez de Takeshi. Os três, após muitos anos de afastamento, irão se reencontrar no inferno, um lugar onde o tempo e espaço tem um significado diferente.

Yasutaka Tsutsui é muito popular no Japão como autor de ficção científica tendo, no entanto, apenas dois outros livros traduzidos para o inglês: “Paprika” e “Salmonella Men on Planet Porno”. O fino humor negro de Tsutsui e a sua tendência à sátira social, fazem com que seja comparado à Kurt Vonnegut pela resenha do jornal inglês Guardian, nada mal para um autor praticamente desconhecido no ocidente.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

As 20 melhores Listas Literárias na Internet

Detalhes de Adolphe Bouguereau, François Bouchert e Gabriel Schachinger
As Listas são uma forma divertida de fazer descobertas e praticamente uma fixação para os blogs de literatura, mas a questão principal é como ser objetivo e imparcial ao escolher os livros mais importantes entre tantos estilos, épocas e autores. Bem, se você estiver procurando um maior conhecimento na área de literatura ou simplesmente uma boa recomendação de leitura, este é o lugar certo para iniciar a sua busca. Um serviço de utilidade pública.

(01) Guardian - The 100 greatest novels of all time: The list
 
A lista do jornal inglês The Guardian, publicada em 2003, já se tornou referência na internet e destaca os maiores romances da literatura universal de todos os tempos com links para matérias interessantes do próprio Guardian relacionadas a cada livro, imperdível e um bom ponto de partida para encontrar clássicos de Cervantes à Philip Roth. Em 2009 esta lista foi ampliada para 1.000 novels everyone must read - the definitive list.

(02) The Telegraph - 100 novels everyone should read

O jornal Telegraph, maior concorrente do Guardian, não poderia ficar para trás e lançou a sua própria seleção top 100 da literatura universal. Uma característica curiosa é o resumo de somente uma frase para cada romance, jamais conseguiria tamanho poder de síntese, como por exemplo a definição do romance número 21: "1984 de George Orwell" - "No qual o Big Brother é ainda mais sinistro do que a série de TV inspirada nele".

(03) Modern Library - 100 Best Novels

Outra lista famosa e muito útil, divulgada em 1998 nesta matéria do New York Times, tem o foco restrito em romances na língua inglesa, escritos no século XX. Ulysses de James Joyce foi escolhido como o mais importante romance do século pelos editores da Modern Library e mais de 200.000 leitores que votaram online.

(04) Time - 100 best English language Novels

Mais uma lista somente de obras escritas na língua inglesa e publicadas à partir de 1923, ano de fundação da revista Time. Esta data de corte deixou de fora algumas obras importantes como Ulysses, publicado em 1922.

Esta lista de 2009 pretende ter um caráter geral (Meta-List), mas acaba confundindo um pouco o propósito de promover a literatura uma vez que compara a Bíblia (41º colocada) com Guerra e Paz de Tolstoi (1º colocado). A própria Newsweek discute neste artigo os méritos e dificuldades da lista.

(06) Le Monde - Les 100 livres du siècle

A escolha do famoso jornal Le Monde, como não poderia deixar de ser, valoriza o sentimento nacionalista. Na relação dos dez primeiros colocados, temos três autores franceses: "O estrangeiro" de Alber Camus (2º), "Em busca do tempo perdido" de Marcel Proust (3º) e "O pequeno príncipe" de Antoine de Saint-Exupérry (10º).

(07) Telerama - Les 10 livres préférés de 100 écrivains francophones

A revista francesa Telerama decidiu considerar na sua pesquisa apenas autores nacionais e perguntou quais os dez livros preferidos de 100 escritores franceses. O autor mais citado foi Marcel Proust (33 vezes), surpreendentemente seguido por William Faulkner (24).

(08) El Pais - Favorite Books of 100 Spanish Authors

O jornal espanhol El Pais, por sua vez, solicitou a 100 escritores de língua espanhola que relacionassem os dez livros que "mudaram a sua vida" na literatura universal. Vale a pena conhecer as escolhas de Carlos Fuentes, Juan Gelman, Alberto Manguel e Javier Marías, entre outros.

(09) Revista Bravo - Os 100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

A saudosa revista cultural Bravo é a única representante brasileira e a sua escolha foi baseada nos livros do crítico Harold Bloom, além das listas da Time e da Modern Library, sendo que a decisão final ficou a cargo da redação da Bravo e outros colaboradores. Machado de Assis ficou na posição 59 com "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
 
(10) Project Gutenberg - Top 100 List

O Projeto Gutenberg disponibiliza ebooks gratuitos para download em diversos formatos e em diferentes idiomas somente de obras em domínio público. A lista Top 100 de livros com mais solicitações de download é um indicativo interessante, mas obviamente não muito útil quando se procuram autores contemporâneos.

(11) Harvard Book Store - Top 100 Books

A seleçao da Livraria Harvard valoriza a literatura universal, mas é claro com uma queda pela língua inglesa. É uma lista bem atualizada porque considera autores modernos como Haruki Murakami (triplamente citado: 5º, 43º e 51º), Junot Diaz (62º e 87°) e David Foster Wallace (89º) que acabaram melhor colocados do que Homero (92º), Valter Hugo (97º) e Walt Whitman (100º).

(12) English Pen - The Bigger Read list

A organização English Pen preparou uma lista de clássicos da literatura universal com livros em prosa e poesia, não escritos na língua inglesa. Não foi definida ordem de colocação, a apresentação considera apenas o critério alfabético.
 
(13) Boston Public Library - 100 Most Influential Books of the Century

A biblioteca pública de Boston imaginou uma lista mais ambiciosa ao extrapolar a área de literatura, tentando reunir os 100 livros mais influentes do século. Você encontrará títulos sobre política, ciência e até mesmo culinária.

(14) Amazon - 100 Books to read in a Lifetime
 
Apesar de desconfiarmos do caráter comercial de uma lista preparada pela Amazon, fica a citação como curiosidade. Talvez mais útil e eficiente seja o mecanismo de recomendações de títulos da Amazon com base nas suas escolhas de compras anteriores.

(15) Goodreads - Top 100 Literary Novels of all time

O site para leitores Goodreads conseguiu uma lista bastante equilibrada entre autores clássicos e contemporâneos nesta selação dos maiores romances de todos os tempos. Você encontrará indicações variando de Thomas Pynchon (73º) a Jane Austen (1º) ou de Margaret Atwood (69º) a Alexandre Dumas (10º).

(16) Norwegian Book clubs - Top 100 Works in World Literature

Um site bem organizado onde foram selecionados 100 autores com livros de 54 países, considerados como "os melhores e mais centrais trabalhos da literatura mundial". A relação é apresentada em ordem alfabética de autores, mas os organizadores revelaram que Don Quixote recebeu 50% mais votos do que qualquer outro livro.

(17) National Geographic - The 100 Greatest Adventure Books of All Time

Uma outra curiosidade literária de destaque é a lista preparada pelos editores da conceituada revista National Geographic. O foco da seleção é na área de aventuras. Posso recomendar "South" do explorador inglês Ernest Shackleton (15º colocado), lançado em 1919, é um diário que impressiona como exemplo de sobrevivência e força de vontade.

(18) The American Scholar - 100 Best American Novels, 1770 to 1985

A revista americana American Scholar escolheu os melhores romances escritos nos EUA de 1770 a 1985. A lista é apresentada em ordem cronológica e funciona como uma boa  aula de literatura de Edgar Allan Poe até Don DeLillo.

(19) Book Riot - The 100 Greatest American Novels, 1893 - 1993

O site Book Riot é sempre uma excelente fonte de informações e curiosidades para leitores. Recomendo seguir as postagens periodicamente. Esta lista também é focada somente em autores nos EUA, mas considerando o período de 1893 a 1993 e apresentada em ordem cronológica.
 
(20) Book Riot - The 10 Best Top 100 Book Lists

E para terminar esta outra publicação da Book Riot que relaciona as dez melhores Top 100 listas de literatura. Espero que se divirtam consultando as listas e, principalmente, lendo os livros que é definitivamente a melhor parte.

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