Terça-feira, Julho 07, 2009

Projeto Codex Sinaiticus

Conforme matéria do site da BBC Brasil cerca de 800 páginas do exemplar conhecido mais antigo da Bíblia foram restauradas e estão disponíveis para consulta na Internet. Trata-se do manuscrito Codex Sinaiticus, como é conhecido este documento, escrito em grego em folhas de pergaminho no século IV.

Por 1,5 mil anos, o manuscrito ficou preservado em um mosteiro na Península do Sinai, no Egito. O nome "Codex Sinaiticus" literalmente significa "O Livro do Sinai". Em 1844, ele foi encontrado e dividido entre a Grã-Bretanha, Alemanha, Egito e Rússia. Acredita-se que o documento resistiu ao tempo porque o ar do deserto é ideal para a conservação do pergaminho, e porque o mosteiro permaneceu intocado por todos esses anos.

"O livro oferece uma janela ao início do cristianismo e indícios de primeira mão sobre como o texto bíblico foi transmitido de geração para geração”, afirmou Scot McKendrick, chefe do Departamento de Manuscritos Ocidentais da Biblioteca Britânica. Com 1.600 anos, é o mais antigo livro contendo o Novo Testamento completo, boa parte do Antigo Testamento e dos textos apócrifos, além de dois antigos textos cristãos não encontrados nas Bíblias modernas.

Para marcar o lançamento do site http://www.codexsinaiticus.org/, a Biblioteca Britânica está realizando uma exposição em sua sede, em Londres, que incluiu vários artefatos históricos ligados ao assunto. Este site apresenta riqueza de detalhes sobre a historia do Codex e o processo de reconstrução, tradução e digitalização do manuscrito, uma dica imperdível e mais um excelente exemplo de bom uso da Internet.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Top Blog - Categoria Cultura

O Mundo de K está entre os 100 blogs mais votados na categoria cultura da premiação Top Blog. Para ver os blogs selecionados por categoria é só clicar na imagem do lado esquerdo. Segundo definição dos organizadores o prêmio é um sistema interativo de incentivo cultural destinado a reconhecer e premiar, mediante a votação popular e acadêmica (Júri acadêmico) os blogs brasileiros mais populares, que possuam a maior parte de seu conteúdo focado para o público brasileiro, com melhor apresentação técnica específica a cada grupo (pessoal, profissional e corporativo) e categorias (celebridades, cultura, comunicação, esportes, games, humor, música, política, saúde, sustentabilidade, tecnologia e variedades).

Não acho que este blog consiga ser muito popular, nem é esta a finalidade, mas ficaria muito satisfeito se conseguisse terminar entre os 50 primeiros blogs. A votação popular continua até 11/08/09 e quem quiser votar no Mundo de K é só clicar na imagem acima, sendo necessário informar o endereço de e-mail para confirmação. É claro que agradeço antecipadamente a gentileza.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Caravaggio - Luz e Sombras

Palazzo Barberini, Roma - Judith Beheading Holofernes

Não há muito espaço aqui para digressões sobre Caravaggio (1571 - 1610), o artista que soube representar o sagrado e o profano de forma praticamente brutal, destacando as figuras humanas em luz contra fundos escuros em um realismo perturbador. A dica é visitar o site caravaggio.com que funciona como um gigantesco banco de dados dos trabalhos do pintor italiano, incluindo aqueles de origem não confirmada, com notas biográficas e análises críticas.

O mais interessante neste banco de dados extraordinário, além das informações detalhadas sobre as obras e a localização das mesmas em cada país e museu do mundo, é a possibilidade de explorar as pinturas com recursos de alta precisão digital que permitem ampliar detalhes e analisar as técnicas utilizadas. Uma experiência única e um excelente exemplo de boa utilização da Internet.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Prêmio Príncipe de Astúrias 2009

O escritor albanês Ismail Kadaré foi anunciado hoje como o vencedor do Príncipe de Astúrias de Literatura de 2009 com uma premiação de 50 mil euros e direito a uma escultura criada por Joan Miró.

Ismail Kadaré é bastante conhecido no Brasil por conta de seu clássico "Abril Despedaçado" que foi adaptado para o cinema por Walter Salles. Parece que o meu profético amigo Barros já estava adivinhando esta premiação e publicou uma postagem especial sobre Kadaré no início de Abril (ver detalhes aqui).

Entre os finalistas estavam o holandês Cees Nooteboom, o italiano Antonio Tabucchi, o tcheco Milan Kundera e o britânico Ian McEwan. Mais de 30 candidaturas de 25 países concorreram ao Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura 2009.

No ano passado, a vencedora foi a canadense Margaret Atwood (ver postagem do Mundo de K). Autores como Mario Vargas Llosa, Paul Auster, Doris Lessing, Susan Sontag, Amós Oz e a brasileira Nélida Piñon já receberam esta premiação, ver relação completa com links abaixo:

2008 - Margaret Atwood - Canadá

2007 - Amos Oz - Israel

2006 - Paul Auster - EUA

2005 - Nélida Piñon - Brasil

2004 - Claudio Magris - Itália

2003 - Fatema Mernissi - Marrocos

2003 - Susan Sontag - EUA

2002 - Arthur Miller - EUA

2001 - Doris Lessing - Reino Unido

2000 - Augusto Monterroso - Guatemala

1999 - Günter Grass - Alemanha

1998 - Francisco Ayala - Espanha

1997 - Álvaro Mutis - Colômbia

1996 - Francisco Umbral - Espanha

1995 - Carlos Bousoño - Espanha

1994 - Carlos Fuentes - México

1993 - Claudio Rodríguez - Espanha

1992 - Francisco Morales Nieva - Espanha

1991 - Povo de Porto Rico

1990 - Arturo Uslar Pietri - Venezuela

1989 - Ricardo Gullón - Espanha

1988 - Carmen Martín Gaite - Espanha

1988 - José Ángel Valente - Espanha

1987 - Camilo José Cela - Espanha

1986 - Rafael Lapesa Melgar - Espanha

1986 - Mario Vargas Llosa - Peru

1985 - Ángel González - Espanha

1984 - Pablo García Baena - Espanha

1983 - Juan Rulfo - México

1982 - Miguel Delibes Setién - Espanha

1982 - Gonzalo Torrente Ballester - Espanha

1981 - José Hierro Real - Espanha

Terça-feira, Junho 23, 2009

Strange Maps - Shoe World

Estou sempre visitando o site Strange Maps e nunca me canso de descobrir as mais estranhas curiosidades sobre locais existentes e inexistentes, vale muito a pena e seria impossível resumir aqui, não é para menos que esta página já tem mais de onze milhões de visitantes e sem qualquer tipo de apelação! A ilustração acima é uma criação do chargista jordaniano Emad Hajjaj, inspirada naturalmente pelo mapa da Itália. Ver maiores explicações aqui.

Nota: Em tempo, outra excelente recomendação do blog amigo Ilusão da Semelhança sobre mapas: Visual Complexity.

Terça-feira, Junho 16, 2009

No Mundo dos Livros - José Mindlin

José Mindlin - No Mundo dos Livros - Editora Agir - 103 páginas - Publicação 2009.

Era de se esperar que o bibliófilo José Mindlin, com 94 anos e um acervo de mais de 38 mil obras, eleito em 2006 membro da Academia Brasileira de Letras, escrevesse um livro rebuscado e de difícil entendimento para o grande público, mas o que percebemos é um homem com coração de menino que conta a sua relação afetiva com os livros e a literatura com extrema simplicidade e, principalmente, sinceridade. Percebe-se que a paixão de Mindlin por seus livros não está ligada unicamente à raridade do exemplar ou seu valor de mercado, mas sim com a importância relativa para a história da literatura.

Um livro muito agradável de se ler, onde Mindlin elege suas obras e autores preferidos da literatura universal, com grande destaque para os brasileiros Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida e Mário de Andrade.

Segundo a biografia disponível no site da ABL, José Mindlin fez em Maio de 2006 a doação de cerca de 15 mil obras da sua Biblioteca Brasiliana para a USP. No conjunto doado à USP, constam obras de literatura, história, sociologia, poesia. Dentre as raridades estão documentos do século XVI com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil, jornais anteriores à Independência e manuscritos que resgatam a gênese literária de grandes obras, como Sagarana (de Guimarães Rosa) e Vidas Secas (de Graciliano Ramos).

Sexta-feira, Junho 12, 2009

A Chave de Casa - Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy - A Chave de Casa - Editora Record - 208 páginas - Publicação 2007.

O que surpreende nesta autora é a segurança e maturidade logo no primeiro romance, lidando com sua "autoficção" e estilhaços de memória em uma narrativa polifônica, bem ao estilo do mestre Lobo Antunes. A autora/personagem ganha de seu avô uma chave da casa em que ele morou na Turquia, antes de vir ao Brasil, e o pedido de que retorne à cidade turca de Esmirna para encontrar a casa e parentes judeus. A narrativa passa por épocas diferentes da vida da personagem: a chegada de seu avô ao Brasil, momentos dolorosos de seus pais durante a ditadura militar, o seu relacionamento intenso com um homem violento, a sua viagem à Turquia e a sofrida morte da mãe.

No parágrafo de abertura Tatiana deixa clara a responsabilidade que enfrenta por carregar a história de sua ascendência: "Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Por mais estranho que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova. Não falo de aparência física, mas de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio – às vezes um, dois meses – com a cabeça no mesmo lugar. Um peso que não é de todo meu, pois já nasci com ele. Como se toda vez em que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Nunca falo sozinha, falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia."

Me identifiquei muito com os momentos de despedida da mãe, que sofre de uma doença incurável, passagens tristes e verdadeiras: "Você estava sentada no sofá com ar de derrota quando me aproximei e sussurrei em seu ouvido: não faz mal. Se tiver de mudar o mundo, iremos juntas. Não importa aonde for, faremos outro pacto e, se mais tarde for preciso, outro, e depois outro e outro. Faremos quantos pactos forem necessários, mudaremos de mundo quantas vezes nos exigirem, mas uma coisa é certa: minhas mãos estarão sempre coladas às suas."

Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em Estudos de Literatura. Publicou o livro A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze (Relume Dumará) e contos na revista Ficções 11 (7 letras) e nas antologias Paralelos (Agir) e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record). O romance de estréia A chave de casa ganhou o prêmio São Paulo de Literatura, autor estreante em 2008. A Chave de Casa foi publicado originalmente no primeiro semestre de 2007, em Portugal, pela editora Cotovia.

Sábado, Junho 06, 2009

Dave Matthews - Crush

Nascido em Johanesburgo, África do Sul, Dave Matthews já vendeu mais de 20 milhões de cópias nos EUA com a sua Dave Matthews Band, conhecida como DMB. Foi trabalhando como bartender no Miller's, um dos principais pontos de encontro e apresentações do cenário musical de Charlottesville, Virginia, que Dave conheceu, em 1990, os futuros integrantes da banda.

Escrever uma letra sobre amor e relacionamento não é uma tarefa fácil, principalmente em língua inglesa, onde muito já se escreveu sobre este tema e todas as possibilidades já foram pensadas, fazendo com que o risco de parecer repetitivo seja grande. Dave Matthews conseguiu escapar do lugar comum com a música abaixo, um verdadeiro hino à paixão. A versão acústica ficou perfeita com a ajuda de Tim Reynolds, ressaltando a beleza da canção. A apresentação do vídeo é no Radio City Music Hall em 22/04/2007.

Crush

Crazy, how it feels tonight.
Crazy, how you make it all alright love.
You crush me, with the things you do,
I do, for you, anything too oh.
Sitting, smoking, feeling high.
And in this moment, ah, it feels so right.

Lovely lady, I am at your feet, oh, God I want you so badly.
And I wonder this could tomorrow be so wondrous as you there sleeping.

Lets go, drive til the morning comes.
And watch the sunrise, and fill our souls up.
Well drink some wine til we get drunk, yes...

Its crazy, Im thinking, just knowing that the world is round.
Im here Im dancing on the ground.
Am I right side up or upside down, and is this real, or am I dreaming?

Lovely lady, let me drink you, please, I wont spill a, drop no, I promise you.
Lying under this spell you cast on me.
Each moment the more I love you. crush me, come on. oh, yes.

Its crazy Im thinking, just knowing that the world is round.
Im here Im dancing on the ground.
Am I right side up or upside down?
Is this real, oh lord, or am I dreaming?

Lovely lady, I will treat you sweetly, adore you, I mean, you crush me.
Oh its times like these when my faith I feel.
I know, how I love you. come on, come on, baby.

Its crazy, Im thinking just as long as youre around.
Im here Ill be dancing on the ground.
Am I right side up or upside down?
To each other, well be facing.
My love, my love, well beat back the pain weve found.
You know, I mean to tell you all the things Ive been thinking, deep inside my Friend.
With each moment the more I love you. crush me, come on, baby.

So much you have, given love, that I would give you back again and again.
Oh, the love, many now hold you but please, please, just let me, always

Nota: O Site da Dave Matthews Band no Brasil disponibiliza farto material sobre a biografia e discografia da banda, além das letras traduzidas para quem se cadastrar.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Sylvia Plath - The Bell Jar (A Redoma de Cristal)

Sylvia Plath - A Redoma de Cristal - Editora Artenova - 264 páginas - Publicação 1971 - Tradução de Maria Luiza Nogueira, Nota Bibliográfica de Lois Ames (fora de catálogo).

Um livro difícil, quase tão difícil quanto a própria Sylvia Plath e que foi publicado pela primeira vez em Londres, Janeiro de 1963, sob o pseudônimo de Victoria Lucas devido às dúvidas que a autora tinha sobe o seu valor literário e também pelos possíveis transtornos que seu único romance poderia causar à vida das pessoas com quem ela se relacionava já que se trata de uma obra francamente autobiográfica.

Esther Greenwood é o alter ego de Sylvia Plath, uma jovem inteligente e talentosa que não consegue vencer as crises de depressão e angústia que enfrenta devido à sua inadaptação à futilidade da sociedade americana dos anos 50 e o fracasso nos seus relacionamentos com os homens, as amigas e a própria mãe. Sylvia Plath consegue descrever com clareza analítica o processo de degradação mental de sua personagem, as diversas tentativas de suicídio e o sofrimento com os tratamentos de eletrochoque a que foi submetida.

Uma narrativa dolorosa e que descreve em detalhes o raciocínio de um ser humano em crise, mas ainda assim com uma racionalidade assustadora, como no trecho a seguir: "Ultimamente eu mesma havia pensado em entrar para a Igreja Católica. Eu sabia que os católicos achavam o suicídio um pecado horrível. Mas talvez, se esse era o caso, pudessem ter um meio eficiente de me persuadir a não me matar. Claro que eu não acreditava na vida depois da morte, nem no nascimento virgem, nem na Inquisição, nem na infalibilidade daquele Papa pequenininho e de cara de macaco, nem nada disso, mas eu não precisava deixar o padre perceber isso, eu podia simplesmente concentrar-me no meu pecado e ele me ajudaria a arrepender-me."

Alguma sequências fortes se relacionam com a descrição das tentativas de suicídio de Esther, como no trecho a seguir: "Quando eles perguntavam a qualquer velho filósofo romano como ele queria morrer, dizia que rasgaria as veias, num banho quente. Achei que seria fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão florir dos meus pulsos, jorro após jorro penetrando na água limpa, até que eu me afundasse no sono sob a superfície rubra como papoulas. Mas quando cheguei às vias de fato, a pele do meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui nada. Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado."

Pouco tempo depois do lançamento deste livro, na manhã de 11 de Fevereiro de 1963, durante um dos piores invernos ingleses já registrados, Sylvia Plath serviu leite para seus dois filhos, quebrou a vidraça da janela para garantir a ventilação que salvaria a vida das crianças e trancou, vedando cuidadosamente, a porta do quarto. Depois foi até a cozinha e abriu a válvula de gás, colocando sua cabeça dentro do forno, não era a primeira vez que ela tentava o suicido, mas desta vez foi bem sucedida. Ela tinha apenas 31 anos.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Prêmio São Paulo de Literatura 2009

O Prêmio São Paulo de Literatura 2009, concedido pelo governo estadual, anunciou em cerimônia realizada no Festival da Mantiqueira no último dia 30 de Maio, os 10 finalistas do prêmio de melhor romance de 2008 e os 10 finalistas do prêmio de melhor romance de 2008 de autor estreante. Cada vencedor vai receber R$ 200 mil. Os ganhadores serão anunciados no dia 3 de agosto, em cerimônia realizada no Museu da Língua Portuguesa. A edição deste ano contou com 217 concorrentes.

Os livros finalistas foram escolhidos após avaliação de júri formado por professores (Ivan Marques e Marcos Moraes), escritores (Menalton Braff e Fernando Paixão), livreiros (Paula Fabrio e José Carlos Honório), críticos literários (Marcelo Pen e Josélia Aguiar) e leitores (Márcia de Grandi e Mario Vitor Santos). A avaliação final será feita por um segundo grupo de jurados

Em 2008, "O Filho Eterno", de Cristóvão Tezza, venceu a 1ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura. A obra foi vencedora na categoria Melhor Livro do Ano. Na categoria Melhor Livro do Ano – Autor Estreante ganhou Tatiana Salem Levy com "A Chave de Casa".

Melhor romance de 2008

(01) Carola Saavedra – Flores Azuis – Cia. das Letras

(02) João Gilberto Noll – Acenos e afagos – Record

(03) José Saramago – A viagem do elefante – Cia. das Letras

(04) Livia Garcia-Roza – Milamor – Record

(05) Maria Esther Maciel – O livro dos nomes – Cia. das Letras

(06) Milton Hatoum – Órfãos do Eldorado – Cia. das Letras

(07) Moacyr Scliar – Manual da Paixão solitária – Cia. das Letras

(08) Ronaldo Correia de Brito – Galiléia – Objetiva

(09) Silviano Santiago – Heranças – Rocco

(10) Walther Moreira Santos – O ciclista – Autêntica Editora

Melhor romance de 2008 - autor estreante

(01) Altair Martins – A parede no escuro – Record

(02) Contado Calligaris – O conto do amor – Cia. das Letras

(03) Estevão Azevedo – Nunca o nome do menino – Terceiro Nome

(04) Francisco Azevedo – O arroz de Palma – Record

(05) Javier Arancibia Contreras – Imóbile – 7Letras

(06) Marcos Vinicius de Freitas – Peixe morto – Autêntica Editora

(07) Maria Cecília G. dos Reis – O mundo segundo Laura Ni – Ed. 34

(08) Rinaldo Fernandes – Rita no pomar – 7Letras

(09) Sérgio Guimarães – Zé, Mizé, camarada André – Record

(10) Vanessa Bárbara e Emílio Fraia – O verão do Chibo – Objetiva

Fontes: Publishnews & Livro Errante

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Man Booker International Prize 2009

A escritora canadense Alice Munro foi anunciada ontem como a vencedora do Man Booker International Prize 2009. Esta premiação é concedida a cada dois anos para autores vivos pelo conjunto de suas obras e foi recebida em 2005 por Ismail Kadaré (autor de Abril despedaçado) e em 2007 por Chinua Achebe (autor de O mundo se despedaça).

Ao anunciar a escolha do vencedor, que receberá 60 mil libras (cerca de R$ 190 mil), o júri afirmou que “Alice Munro é conhecida por seus contos e ainda assim ela traz tanta profundidade, inteligência e precisão a cada história quanto romancistas conseguem em uma vida escrevendo. Ler Alice Munro é aprender sempre algo em que você nunca tinha pensado”.

Alice Munro se prepara para lançar um novo livro em outubro deste ano ainda e, no Brasil, já teve dois títulos publicados: Ódio, amizade, namoro, amor e casamento (2004, Globo, 360 pp.) e Fugitiva (2006, Companhia. das Letras, 392 pp.).

Fonte: Publishnews e Barros Bar.

Mais sobre o Man Booker Prize no Mundo de K: Aravind Adiga Booker Prize 2008; Resultado do "Melhor do Booker"; Anne Enright Booker Prize 2007.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Logoff Warning - talvez seja melhor começar a viver a sua vida

No mesmo contexto provocativo da postagem Read Books Not Blogs ou se preferir: "já não está no momento de começar a viver a sua vida?". Dica do excelente blog húngaro Oximoron.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Prêmio Portugal Telecom 2009

A sétima edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009, contemplando as categorias de romance, conto, poesia, crônica, dramaturgia e autobiografia, divulgou na última quarta-feira os 50 livros selecionados para a próxima fase. A premiação contemplará os três vencedores com R$ 100 mil ao primeiro colocado, R$ 35 mil ao segundo e R$ 15 mil ao terceiro.

Segundo informações divulgadas no site, o romance predominou tanto nas inscrições quanto na lista dos selecionados. Do total de 501 livros inscritos, 197 foram romances e dos 50 finalistas, 28 são desse gênero literário. Já os contos, que compareceram novamente este ano em peso, com 88 inscrições, tiveram apenas quatro obras escolhidas pelo júri. Quanto à poesia, diferentemente de outras edições, tiveram 172 inscrições e apenas 12 livros foram selecionados.

A lista completa conta com nomes expressivos como os portugueses José Saramago (“A viagem do elefante”) e António Lobo Antunes (“Ontem não te vi em Babilônia”), além dos brasileiros Dalton Trevisan, Lourenço Mutarelli, Daniel Galera, Moacyr Scliar, Luiz Ruffato, João Gilberto Noll e Milton Hatoum. Em 16 de Setembro será divulgada a lista final com as 10 obras candidatas e no final de Outubro os vencedores do Prêmio Portugal Telecom 2009.

Segue a lista completa em ordem alfabética por títulos:

(01) Lourenço Mutarelli - A arte de produzir efeito sem causa

(02) Luis Nassif - A casa da minha infância

(03) Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo

(04) Paula Glenadel - A fábrica do feminino

(05) Gustavo Bernardo - A filha do escritor

(06) Miguel Sanches Neto - A primeira mulher

(07) José Saramago - A viagem do elefante

(08) João Gilberto Noll - Acenos e afagos

(09) Marcelo Mirisola - Animais em extinção

(10) Gonçalo Tavares - Aprender a rezar na era da técnica

(11) Fabrício Carpinejar - Canalha!

(12) José Luís Peixoto - Cemitério de pianos

(13) Renata Pallottini - Chocolate amargo

(14) Pádua Fernandes - Cinco lugares da fúria

(15) Eucanaã Ferraz - Cinemateca

(16) Alkmar Santos - Circenses

(17) Annita Costa Malufe - Como se caísse devagar

(18) Luiz Vilela - Contos eróticos

(19) Daniel Galera - Cordilheira

(20) Ruy Espinheira Filho - De paixões e de vampiros

(21) Carola Saavedra - Flores azuis

(22) Ronaldo Correia de Brito – Galiléia

(23) Silviano Santiago - Heranças

(24) Salim Miguel - Jornada com Rupert

(25) José Luiz Tavares - Lisbon blues

(26) Moacyr Scliar - Manual da paixão solitária

(27) Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino

(28) Leandro Konder - Memórias de um intelectual comunista

(29) Manoel de Barros - Memórias inventadas - A terceira infância

(30) Carlos Felipe Moisés - Noite nula

(31) Nuno Ramos - Ó

(32) Contardo Calligaris - O conto do amor

(33) Vanessa Barbara - O livro amarelo do Terminal

(34) João Almino - O livro das emoções

(35) Luiz Ruffato - O livro das impossibilidades

(36) Maria Esther Maciel - O livro dos nomes

(37) Dalton Trevisan - O maníaco do olho verde

(38) Luís Carlos Patraquim - O osso côncavo e outros poemas

(39) António Lobo Antunes - Ontem não te vi em Babilônia

(40) Milton Hatoum - Órfãos do Eldorado

(41) Alcione Araújo - Pássaros de vôo curto

(42) Conceição Evaristo - Poemas da recordação e outros movimentos

(43) Predadores - Pepetela

(44) Marcelino Freire - Rasif

(45) Horácio Costa - Ravenalas

(46) Evando Nascimento - Retrato desnatural

(47) Miguel Sousa Tavares - Rio das Flores

(48) Vitor Ramil - Satolep

(49) Rodrigo de Souza Leão - Todos os cachorros são azuis

(50) Mia Couto - Venenos de Deus, remédios do Diabo

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Quando o corpo pede um pouco mais de alma

Algumas poucas vezes descobrimos músicas que foram compostas de maneira a acomodar letra e melodia de forma inseparável. Em ocasiões ainda mais raras nos identificamos por algum motivo e a música passa a ser nossa amiga, companheira das horas difíceis. É o caso de "Paciência" de Lenine que dispensa arranjo, banda e cenário. Só voz e violão são suficientes para lembrarmos como a vida é tão rara.

Paciência
(Lenine & Dudu Falcão)

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida não pára não...

A vida não pára...
A vida é tão rara...

Sexta-feira, Maio 15, 2009

20 traições famosas da literatura

A traição, em seu sentido mais amplo, não se limita obviamente à infidelidade entre casais, seja ela anunciada ou repentina, virtual ou real, consentida ou desconhecida. A traição pode ser também de ordem ideológica, difamatória, familiar, profissional ou até mesmo em relação aos nossos próprios ideais, seja qual for o tipo de traição a deslealdade é sempre amarga e imperdoável.

Na literatura, a abordagem mais constante e, aparentemente, mais difícil de superar é a infidelidade conjugal. A lista abaixo é uma amostra do que já se escreveu sobre este tema em ordem cronológica. O meu clássico preferido nesta área é mesmo Madame Bovary, exemplo de traição explícita e imagem que escolhi como abertura.

01. Otelo - William Shakespeare (1603)

02. As Relações Perigosas - Choderlos De Laclos (1782)

03. Madame Bovary - Gustave Flaubert (1857)

04. Ana Karenina - Leon Tolstói (1875)

05. O Primo Basílio - Eça de Queirós (1878)

06. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis (1881)

07. Dom Casmurro - Machado de Assis (1899)

08. O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence (1928)

09. Voragem - Junichiro Tanizaki (1931)

10. Diários Íntimos - Anaïs Nin (1932)

11. Trópico de Câncer - Henry Miller (1934)

12. São Bernardo - Graciliano Ramos (1934)

13. Lolita - Vladimir Nabokov (1955)

14. Perdoa-me por me traíres - Nelson Rodrigues (1957)

15. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado (1958)

16. Bonitinha, mas Ordinária - Nelson Rodrigues (1962)

17. Pantaleão e as Visitadoras - Mario Vargas Llosa (1973)

18. Hollywood - Charles Bukowski (1989)

19. Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez (1998)

20. Equador - Miguel de Sousa Tavares (2003)

Outras listas top 20 do Mundo de K: 20 personagens mentalmente desequilibrados; 20 mortes inesquecíveis da literatura mundial; 20 personagens femininas da literatura mundial; 20 classificações de livros segundo Italo Calvino; 20 pensamentos desconcertantes (mas verdadeiros) de Woody Allen.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Offshore Technology Conference 2009

Durante esta semana estarei participando da 40º edição da "Offshore Technology Conference" em Houston, Texas. Este é o maior evento mundial da área offshore, reunindo profissionais, empresas prestadoras de serviço e indústrias do ramo. Apesar da gripe suína a feira não sofrerá nenhuma alteração em sua programação com a participação de representantes de 110 países. Nesta semana peço desculpas, portanto, por algum atraso na atualização e respostas aos comentários do Mundo de K.


Quarta-feira, Abril 29, 2009

Capas de Livros

Você se considera incluído naquela categoria de leitores que simplesmente não consegue resistir a uma bela capa? Já comprou um livro influenciado pelo design, ilustração ou acabamento? Então certamente vai adorar o site: Book Cover Archive que apresenta praticamente tudo relacionado à profissão de designer de livros, incluindo links para ilustradores e empresas especializadas, além de blogs específicos deste tema. Eu mesmo não me considero um fetichista nesta área, mas não encontro o menor prazer em ler um livro através de um monitor ou em um desses novos aparelhos do tipo "e-reader". Livro tem que ter cheiro e textura, por mais absurdo que isto possa parecer.

Segue uma relação de links de ilustradores especializados em design de livros: Mark Abrams, Kelly Blair, Milan Bozic, Roberto de Vicq de Cumptich, David Drummond, David Gee, Jonathan Gray, Jamie Keenan, Chip Kidd, Gregg Kulick, Mark Melnick, Peter Mendelsund, David Pearson, Isaac Tobin, Megan Wilson, Henry Sene Yee, Helen Yentus.

E aqui uma relação de sites e blogs ligados ao assunto: The Casual Optimist, The Book Design Review, Book Covers Anonymous, Covers, Faceout Books, Judge a Book..., Tal Designz, The Penguin Blog, Peter Mendelsund's Jacket Mechanical, Readerville Most Coveted Covers, Old-Timey Paperbacks, War of the Worlds cover archive, The Pelican Project, Joe Kral's Penguin Collection.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Biblioteca Digital Mundial - UNESCO

A UNESCO lançou hoje a Biblioteca Digital Mundial (BDM), uma página na Internet que fornecerá acesso gratuito a manuscritos, mapas, livros, filmes e gravações raras, além de impressões e fotografias de bibliotecas e arquivos de todo o mundo. Desenvolvida por uma equipe da Biblioteca do Congresso dos EUA, a BDM contou com a assistência técnica da Biblioteca Alexandrina de Alexandria, no Egito, além de várias outras instituições mundiais, incluindo o Brasil.

Segundo o site da UNESCO, a Biblioteca exibirá imagens de ossos de oráculos e epitáfios cedidas pela Biblioteca Nacional da China; manuscritos científicos árabes da Biblioteca e Arquivo Nacionais do Egito; fotos históricas da América Latina fornecidas pela Biblioteca Nacional do Brasil; o Hyakumanto Darani, publicação do ano 764 cedida pela Biblioteca Nacional do Japão; a famosa “Bíblia do Demônio” do século XIII, da Biblioteca Nacional da Suécia; e trabalhos de caligrafia árabe, persa e turca de coleções da Biblioteca do Congresso dos EUA.

Os principais objetivos da Biblioteca Digital Mundial são:
Promover a compreensão internacional e intercultural;
Expandir o volume e a variedade de conteúdo cultural na Internet;
Fornecer recursos para educadores, acadêmicos e o público em geral;
Desenvolver capacidades em instituições parceiras, a fim de reduzir a lacuna digital dentro dos e entre os países.

Dica: Vísceras Literárias

Segunda-feira, Abril 20, 2009

A síndrome do segundo romance - The Times 10 great 2nd novels

É muito comum que os autores se sintam pressionados, após uma estréia literária de destaque, a manter o mesmo nível de qualidade elevado em seu segundo romance. Este fato acaba invariavelmente afetando o desempenho do escritor de forma positiva ou negativa. O jornal inglês The Times selecionou dez casos de cada tipo, primeiramente autores que foram extremamente felizes no lançamento de um segundo romance (ver lista original) e, em contrapartida, dez casos de fracassos que ficaram muito aquém das expectativas de público e crítica (ver lista original). Resumi abaixo apenas os dez casos de sucesso:

(1) Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito) - Jane Austen (1813)

Este romance, considerado a obra prima de Jane Austen, foi lançado dois anos depois de "Razão e Sensibilidade" e antes dela completar vinte e um anos, deveria ter se chamado "First Impressions".

(2) Ulysses (Ulisses) - James Joyce (1922)

Incomparavelmente superior ao brilhante e autobiográfico romance de estréia "Retrato de Um Artista Quando Jovem", Ulisses marcou toda a história da literatura moderna e, ainda hoje, podemos afirmar que nenhum romance o superou em criatividade e experimentação.

(3) Midnight's Children (Os filhos da meia-noite) - Salman Rushdie (1980)

"Os filhos da meia noite", publicado originalmente em 1980, sucedeu o desconhecido romance de estréia "Grimus" de 1975 e ganhou no ano seguinte o conceituado prêmio de literatura em línga inglesa "Booker Prize". Em 1993, este mesmo romance foi premiado com o título "Booker of Bookers Prize", conferido ao melhor livro publicado nos primeiros vinte e cinco anos deste prêmio (ver aqui a resenha do Mundo de K e aqui a resenha original do The Times de 23/04/1981).

(4) Vile Bodies - Evelyn Waugh (1930)

Pouco conhecido em línga portuguesa, segundo avaliação do Times, "menos estudado e autobiográfico - e muito mais engraçado - que Declínio e Queda", seu romance de estréia.

(5) Oliver Twist - Charles Dickens (1838)

Dispensa apresentações e podemos considerar realmente melhor do que "As aventuras do Sr. Pickwick", romance de estréia de Dickens. De qualquer forma, qualquer parágrafo escrito por Dickens está imortalizado, seja no primeiro, segundo ou último romance (ler aqui um extrato publicado pelo Times em 1837).

(6) Girl With a Pearl Earring (Garota com Brinco de Pérola) - Tracy Chevalier (2000)

Romance que foi bastante popularizado após o lançamento do filme com Scarlett Johansson. A própria autora afirmou que seu primeiro romance "The Virgin Blue", 12000 cópias impressas, é hoje uma peça de colcionador.

(7) The Golden Notebook - Doris Lessing (1962)

Doris Lessing, prêmio Nobel de Literarura de 2007, ler aqui a resenha original deste romance publicada pelo Times em 1962.

(8) Life of Pi (Vida de Pi) - Yann Martel (2001)

Vencedor do Man Booker Prize de 2002, é mais conhecido no Brasil pelo suposto caso de plágio do romance "Max e os Felinos" do escritor brasileiro Moacyr Scliar (ler aqui um extrato publicado pelo Times em 2003).

(9) The Beautiful and Damned (Os Belos e Malditos) - F.Scott Fitzgerald (1922)

Neste caso, acho que o terceiro romance "O Grande Gatsby" de 1925 é que consagrou realmente Fitzgerald.

(10) The Mill on the Floss - George Eliot (1860)

Eliot (nome real Mary Ann Evans) publicou "Adam Bede" in 1859, mas ficou imortalizada pelo segundo romance, um clássico representativo da sociedade inglesa vitoriana.

Sábado, Abril 11, 2009

Jacques Prévert - Retrato de Um Pássaro

Outro expoente do movimento surrealista parisiense, Jacques Prévert (1900 - 1977) talvez seja o poeta mais popular da França. Como destaca Silviano Santiago, Prévert é o autor de "poemas de execução simples e calculada, onde ressaltam as cores cinza do cotidiano, os meios-tons do humor e o colorido berrante do sarcasmo e até mesmo da piada". Ele ficou conhecido também como letrista de canções , sendo Yves Montand e Juliette Gréco alguns dos seus intérpretes mais famosos. Adicionalmente escreveu roteiros para o cinema francês dos anos 40 e 50.

Ainda segundo Silviano Santiago, "O lirismo para Prévert, como para alguns dos nossos poetas de 22, se escreve com a combinação certa de cotidiano e humor, fazendo ressaltar no poema uma visão em pequena escala do homem. Ressalta do poema o pequeno, mas não o comum do homem. Essa visão miniaturizada do homem, em oposição aos grandes painéis sociais e históricos pintados por Eliot em The Waste Land, ou Pound nos Cantos, condiz com a pequenez do ser humano diante de um século que o pulveriza com máquinas, motores, rotativas, engrenagens, guerras, violência e morte".

O poema abaixo (versão original e traduzida) é uma síntese perfeita do lirismo de Prévert, surrealista sim, mas ao mesmo tempo profundamente humano em sua busca por esperança.

Pour faire le portrait d'un oiseau
(Jacques Prévert)

Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger ...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.


Para pintar o retrato de um pássaro
(tradução de Silviano Santiago)

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer...
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


O vídeo abaixo, gravado em 2007 por ocasião das homenagens de 30 anos da morte do poeta, é um bom exercício para sentirmos a sonoridade e ritmo do poema em sua versão original.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Boris Vian - A Espuma dos Dias

Boris Vian - A Espuma dos Dias - Editora Nova Fronteira - 207 páginas - Publicação 1984 - Tradução de Elina Motta, pósfacio de Jacques Bens (fora de catálogo).

A vida é uma caixinha de surpresas, principalmente neste "A Espuma dos Dias" do existencialista francês Boris Vian (1920 - 1959). Radicalmente oposto ao cinematográfico e violento noir "Vou Cuspir no Seu Túmulo" (ver aqui resenha do Mundo de K), este romance publicado originalmente em 1947 envolve seis personagens jovens e ingênuos em uma história de amor trágica, utilizando recursos que extrapolam os limites comuns da linguagem em um universo surrealista. Como destaca Jacques Bens no pósfacio, Boris Vian utiliza três tipos de abordagem em sua narrativa. O primeiro considera a palavra em seu sentido literal, exato como em: "uma escada se esconde sob os passos de quem a sobe", no segundo as palavras são alteradas como em "antiquitário" ou "sacristoche" e, no último tipo, o autor inventa livremente palavras e objetos novos, como em "pianococktail", o engraçado instrumento que prepara coktails enquanto é tocado. Estes jogos de palavras são um desafio adicional ao tradutor.

A pureza dos protagonistas que são "adultos com alma de adolescentes" nos emociona, principalmente na história de amor de Colin e Chloé que inicia em um tom francamente alegre e otimista para se transformar aos poucos em uma tragédia determinada pelo mal incurável que destrói Chloé. A amizade dos personagens permeia toda a história que parece querer resumir, através de criativas metáforas, o absurdo da vida adulta. Ficamos mesmo com a bela frase de Colin: "Ocupo meu tempo escurecendo meus momentos mais iluminados, porque a claridade me incomoda".

Chick é amigo de Colin e um "viciado" no filósofo Jean-Sol Partre (Jean Paul Sartre), obcecado em adquirir todo e qualquer documento publicado pelo autor, o que o levará finalmente à destruição, mais uma metáfora que alerta para a valorização da cultura artificial. Boris Vian foi um artista múltiplo: poeta, músico de jazz, cantor, dramaturgo, ator e engenheiro (!), um verdadeiro símbolo da rebeldia juvenil. Ainda segundo o crítico Jacques Bens "O mundo de Vian está fundamentado na linguagem, quer dizer: nasce dela e nela se justifica".

Sábado, Abril 04, 2009

Eric Zener - Arte Figurativa

Eric Zener - adrift, 30 X 40, óleo em painel, 2007

Eric Zener é um artista figurativo da California que produz pinturas que são verdadeiras fotografias, geralmente com temas aquáticos. Uma dica do excelente blog do Fabrício que não costuma falar mais que o necessário, como ele mesmo se define.

Terça-feira, Março 31, 2009

10 autores de romances de um único sucesso - The Times

O jornal inglês The Times selecionou dez romances que provaram ter sido suficientes para eternizar a carreira de seus respectivos autores. A lista tem alguns títulos contestáveis (como toda lista), mas, por outro lado, certas unanimidades no ramo da literatura. A matéria conta com links interessantes para resenhas originais do Times e séries especiais históricas, como a do julgamento de Oscar Wilde.

(1) Harper Lee - To Kill a Mockingbird (1960)

Romance ganhador do Prêmio Pulitzer em 1961, lançado no Brasil com o título de "O Sol é Para Todos". Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(2) Margaret Mitchell - Gone With the Wind (1936)

Romance ganhador do Prêmio Pulitzer de 1937 e que originou o clássico do cinema "...E o vento levou" de 1939. Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(3) Emily Brontë - Wuthering Heights (1847)

Este tesouro da literatura, publicado no Brasil como "O morro dos ventos uivantes" é um clássico muito à frente do seu tempo. Uma história de amor fora dos padrões normais. Ver aqui o anúncio original da primeira edição no Times (está na terceira coluna quase no final).

(4) J.D.Salinger - Catcher in the Rye (1951)

O romance narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 16 anos, e acabou se tornando um clássico inspirador para as gerações rebeldes futuras. Publicado no Brasil como "O apanhador no campo de centeio". Nota do Times: Este romance só se enquadra na categoria de "um único sucesso" se considerarmos "Franny and Zooey" de 1961 como conto.

(5) Oscar Wilde - The Picture of Dorian Gray (1891)

O que dizer de "O retrato de Dorian Gray" que ainda não tenha sido dito? Oscar Wilde o campeão dos aforismos (ver esta postagem do Alessandro Martins) acabou só escrevendo um único romance e não precisou de mais nada para se tornar um clássico de todos os tempos. Siga o link do título para ler matérias originais do julgamento de Oscar Wilde no Times.

(6) John Kennedy Toole - A Confederacy of Dunces (1980)

Toole foi o ganhador do Prêmio Pulitzer póstumo de 1981 por este romance publicado em 1980, 11 anos depois de seu suicídio. Pouco conhecido no Brasil.

(7) Sylvia Plath - The Bell Jar (1963)

Único romance da poeta Sylvia Plath, publicado sob o pseudônimo de Victoria Lucas em 1963 é um trabalho autobiográfico que narra os problemas de depressão da autora. Publicado no Brasil como "A redoma de vidro". Ver aqui a resenha original da época do lançamento pelo jornal Times.

(8) Anna Sewell - Black Beauty (1877)

Romance narrado na primeira pessoa a partir do ponto de vista de um cavalo. Pouco conhecido no Brasil.

(9) Boris Pasternak - Dr Zhivago (1957)

Boris Leonidovitch Pasternak ganhou o prêmio Nobel de literatura de 1958 por este romance que narra a revolução russa de 1917 e a guerra civil de 1918 - 1920.

(10) Arundhati Roy - The God of Small Things (1996)

Vencedor do Booker Prize de 1997. Ver um trecho do romance aqui. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras como "O Deus das pequenas coisas".

Terça-feira, Março 24, 2009

Ernesto Che Guevara

Reminiscences of the Cuban Revolutionary War - Ernesto Che Guevara - Editora Ocean Press - 314 páginas - Publicação 2006 - Prefácio de Aleida Guevara.

Neste ano em que a revolução cubana completa 50 anos de aniversário é impossível não lembrar do médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara. Para alguns apenas um assassino frio e, para outros, um herói visionário e símbolo da luta do povo latino-americano contra a opressão. Na opinião de Jean Paul Sartre "o ser humano mais completo de nossa época". Este livro é uma reprodução dos diários escritos por Che Guevara durante o período de guerrilha na Sierra Maestra de 1956 a 1959 e comprova a sua habilidade de escritor já anteriormente demonstrada no clássico "Diários de Motocicleta" que foi adaptado para o cinema por Walter Salles em 2004. Praticamente todos os relatos de ações de guerrilha dos rebeldes e sobrevivência na selva foram reproduzidos na monumental biografia escrita muitos anos depois pelo repórter americano Jon Lee Anderson.

Chama a atenção a ingênua declaração dos guerrilheiros no manifesto de 1957, onde é lançado o "slogan de uma grande frente cívica revolucionária compreendendo todos os partidos de oposição política, todas as instituições civis e todas as forças revolucionárias". O programa de governo contaria ainda com a proclamação da liberdade de todos os prisioneiros políticos, civis e militares e absoluta garantia de liberdade da imprensa e rádio, com todos os direitos individuais e políticos garantidos pela constituição. Cinquenta anos depois, podemos constatar como todos os itens acima foram esquecidos no governo de Fidel Castro e seus sucessores.

De qualquer forma, como este blog sempre aborda os temas do ponto de vista da arte, é importante notar como a verdadeira poesia pode extrapolar os limites convencionais da literatura e se confundir com a vida e o destino de seus autores. Nestes casos, podemos distinguir traços premonitórios assustadores, como no poema abaixo, impregnado de emoção e morte, do então jovem Che Guevara. Vamos ao poema:

Eu sei! Eu sei! Se sair daqui, o rio me engolirá... É o meu destino: hoje devo morrer! Mas não, a força de vontade pode superar tudo. Há obstáculos, eu reconheço. Não quero sair. Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo se meu destino é morrer afogado? Mas vou vencer o destino. O destino pode ser conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não... Uma recordação mais duradoura do que meu nome É lutar, morrer lutando.

(Che Guevara, uma Biografia - Jon Lee Anderson)

O primeiro ponto a destacar é que este poema foi escrito por Che aos 18 anos. Desta época não há qualquer registro de suas futuras inclinações políticas ou guerrilheiras. Era apenas um jovem rebelde comum, de família aristocrática decadente. Nos primeiros versos, podemos sentir claramente o contraste entre a segurança e o risco. Um dilema que iria perseguir o nosso autor por toda a vida, seguir a carreira de médico na Argentina ou se aventurar pelo mundo? A resignação por uma morte violenta (crivado de balas, destroçado pelas baionetas), no lugar da morte lenta pela asma (afogado, não).

A sombra da doença sempre acompanhou Che em todos os momentos, na forma de uma asma violenta que, durante as crises mais fortes, o impossibilitava até mesmo de andar. A força de vontade, o "morrer lutando", foram características marcantes da personalidade de Che. Segundo Lee Anderson "a fé inquebrantável de Che em suas convicções tornou-se ainda mais poderosa por sua invulgar combinação de paixão romântica com pensamento friamente analítico. Essa mistura paradoxal foi provavelmente o segredo da estatura quase mística que atingiu...". Em 1967, aos 36 anos, Che foi assassinado pelo exército boliviano e morreu realmente crivado de balas. Seu corpo ficaria "desaparecido" por 30 anos.

Sábado, Março 21, 2009

Radiohead no Rio

O show de ontem na praça da Apoteose foi perfeito, inesquecível mesmo. Thom Yorke (vocais, guitarra, piano), Jonny Greenwood (guitarra), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo, sintetizador) e Phil Selway (bateria, percussão) mostraram que o Radiohead é a única banda de rock da atualidade que ainda consegue unir criatividade com energia, fazendo dos recursos eletrônicos apenas mais uma ferramenta de trabalho e não um fim em si mesmo. A apresentação demonstrou grande respeito com o público carioca, pois toda a banda tocou por mais de duas horas, incluindo algumas canções de albuns antigos, como "se fosse a primeira vez".

O show foi baseado no último “In rainbows” (2007), mas contou com várias músicas do premiado “Ok computer” (1997) e um final arrepiante com a maravilhosa “Creep” do primeiríssimo “Pablo honey” (1993). Os efeitos de som e luz não deixaram nada a desejar, com destaque para a mistura de imagens dos integrantes da banda com ângulos variáveis ao longo de toda a apresentação. Aconselho acompanhar a versão de São Paulo que será transmitida amanhã (22/03) à partir de 20:30 pelo canal Multishow.

Mais sobre o Radiohead no Mundo de K: Radiohead - OK Computer

Domingo, Março 15, 2009

Guias de Estudo da SparkNotes

Os Guias de Estudo SparkNotes, disponíveis para consulta online gratuita, são ferramentas preciosas para pesquisa, cobrindo as áreas de História, Cinema, Filosofia e Literatura, incluindo uma extensa análise crítica da obra de William Shakespeare. A Sparknotes, originalmente fundada em 1999, por quatro estudantes de Harvard, atualmente é uma propriedade da famosa rede de livrarias americana Barnes & Noble que comprou os direitos em 2001 por US$ 3,5 milhões. Outra ferramenta bem parecida e um pouco mais antiga é a CliffsNotes também americana.

Não podemos chamar os Guias de Estudo da SparkNotes e também da CliffsNotes de simples resenhas, já que as informações excedem em muito o nível de simples material de divulgação disponível hoje na Internet. Na categoria de literatura, por exemplo, podemos consultar sobre a lista de personagens, o contexto histórico da obra analisada, explicações sobre as citações principais e sugestões para leituras adicionais. Ver este exemplo de 1984 de George Orwell da SparkNotes.

Infelizmente esta dica é dependente do domínio da língua inglesa já que ainda não dispomos de uma ferramenta de estudo similar aqui no Brasil e que possa resumir e analisar criticamente as obras de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector etc, ressalvando-se páginas isoladas, geralmente de patrocínio governamental como o Domínio Público.

Terça-feira, Março 10, 2009

O Livro Negro - Orhan Pamuk

Orhan Pamuk - O Livro Negro - Editora Companhia das Letras - 523 páginas - Publicação 2008 - Tradução de Sergio Flaksman com base nas versões inglesa e francesa.

Um romance de estrutura complexa e ao mesmo tempo original onde Orhan Pamuk utiliza temas da cultura oriental para, através de uma narrativa experimental, conseguir ultrapassar os limites da literatura contemporânea mundial. "O Livro Negro" foi lançado na Turquia em 1990, mas só foi traduzido para o inglês em 2006, após os sucessos de "Meu Nome é Vermelho" de 1998 e do romance político "Neve" de 2002 que levaram Pamuk a ser laureado com o Nobel de literatura de 2006. O próprio Orhan Pamuk, por ocasião da última Feira do Livro de Frankfurt, destacou em entrevista à Folha a importância deste livro na sua carreira: "Talvez não seja o mais popular, mas é o mais querido para mim. Na essência, o que eu faço em literatura nasce aí.".

O tema central do livro é baseado em uma trama que pode aparentar uma novela policial, pois trata da procura frenética do jovem advogado Galip pela sua esposa e prima Rüya (cujo nome em turco significa sonho) que desaparece repentinamente após deixar um bilhete de despedida inconclusivo. Ele tem motivos para acreditar que ela tenha um relacionamento amoroso com o famoso jornalista, Celâl Salik, meio-irmão de Rüya e também primo de Galip. Celâl, que se esconde há muitos anos, escrevendo crônicas que são verdadeiros contos, sobre política, estrelas de cinema e gângsteres turcos, histórias familiares, poetas sufis, passando por digressões sobre o hurufismo, uma seita do século XIV que acreditava ser possível encontrar o sentido de nossas vidas em letras codificadas escritas por Alá em nossos rostos.

Os capítulos do "Livro Negro" são intercalados entre a narrativa principal e as crônicas de Celâl Salik, criando uma sensação de labirinto originada por histórias que se desdobram em outras histórias, sempre com uma descrição pormenorizada dos bairros, ruas, mesquitas e lojas de uma Istambul melancólica, habitada por personagens reais ou imaginários, contemporâneos ou históricos. Na verdade, logo descobrimos que este romance não tem nada de literatura policial, mas sim a representação de um grande quebra-cabeças metafísico criado por Pamuk. Galip, ao longo de sua busca pela esposa, acaba desintegrando a sua própria personalidade e transformando-se no próprio Celâl Salik. Este processo lembra muito o conto "Cidade de Vidro" de Paul Auster em "Trilogia de Nova York".

Um dos argumentos mais importantes desenvolvidos por Pamuk e, constantemente citado ao longo do livro, é a dificuldade de sermos nós mesmos: "Existe algum modo de um homem ser apenas quem é?". O próprio Pamuk responde em outro trecho do livro: "(...) o único meio de transformar-se em si mesmo é primeiro ser um outro, ou então perder-se nas histórias contadas por um outro (...)".

"O senhor conhece a história do grande Mevlana sobre a chave? Ontem à noite, por sorte, me veio um sonho sobre o mesmo tema. Tudo à minha volta estava branco, branco como essa neve. E então, de repente, acordei sentindo uma dor terrível, fria, gelada, no meu peito. Parecia que eu tinha uma bola de neve apertando o coração - uma bola de gelo, ou uma bola de cristal -, mas não; era a chave de diamante do grande poeta Rumi Mevlana, pousada no meu peito, em cima do coração. Peguei a chave e levantei da cama, tentando usá-la para abrir a porta do meu quarto, e ela abriu; e me vi num outro quarto onde, na cama, dormia um homem igual a mim, mas que não era eu. Pegando a chave pousada sobre o peito do homem adormecido e deixando a minha em seu lugar, abri a porta do seu quarto: e o quarto seguinte era idêntico, e o outro também, e naquele em que entrei depois vi ainda que havia sombras nesses quartos: outros fantasmas sonâmbulos como eu, todos com uma chave nas mãos. E em cada quarto uma cama, e em cada cama um homem que sonhava como eu! Percebi então que estava no mercado do Paraíso. Mas ali nada era comprado ou vendido, não havia dinheiro nem selos - só rostos e formas humanas. Se você quisesse, podia transformar-se em outra pessoa . Bastava passar o rosto escolhido sobre a face, como uma máscara, para começar uma vida nova. Mas eu sabia que a pessoa em que eu queria me transformar era a que estava no último dos mil e um quartos, mas, quando enfiei a última chave naquela última fechadura, a porta não abriu. Foi então que compreendi: a única chave capaz de abrir aquela porta era a primeira de todas, a chave que eu tinha encontrado em cima do meu peito quando acordara da primeira vez e era fria como o gelo, mas eu não tinha meio de saber onde aquela chave estaria agora ou com quem, qual era o quarto, qual a cama em que eu a deixara e, tomado de um arrependimento terrível, descobri que estava condenado a vagar, como todos os outros infelizes, de quarto em quarto, de porta em porta, trocando uma chave por outra, examinando cuidadosamente cada rosto que encontro mergulhado no sono, para todo o sempre".

Domingo, Março 01, 2009

Livros e Blogs

Os grandes escritores sempre foram, antes de mais nada, grandes leitores, infelizmente a recíproca nem sempre é verdadeira. De qualquer forma, é impossível exercer atividades ligadas à publicação de textos, seja na mídia impressa tradicional ou na blogosfera, sem investir algum tempo em leitura. Esta afirmação aí ao lado, "Read Books Not Blogs", é um tanto quanto provocativa, mas chama a atenção para o debate sobre a qualidade do material em circulação hoje na Internet.

Gostaria de aproveitar então e destacar alguns blogs que, apesar de utilizarem em sua maioria apenas as ferramentas e templates padronizados, tem atingido o potencial criativo desta ferramenta na Internet como forma de expressão e divulgação de idéias, conhecimento ou relacionamento social. Começo pelo blog sai de mim!!! da jovem Natasha Fernanda Tiné, onde descobri esta afirmação espirituosa, ela escreve com muita personalidade, é só ler a descrição do perfil dela e entenderão o que quero dizer.

Na área de literatura e artes, visito regularmente alguns blogs que merecem ser lidos com muito interesse, são eles (a ordem na lista é totalmente aleatória): leituras, Livros & Literatura, poetriz, artefato.k, nós todos lemos, LivroLivre, @ Dis-cursos, linhadepesca, Le Jardin Éphémère, Cadernos da Bélgica, Além do muro da estrada, Ulisses Adirt, Literatura etc., La Strega, Marconi Leal, Diego Viana, LivroErrante, Ágora com dazibao no meio, Non Liquet, Cemitério das Palavras, Ilusão da Semelhança, Libru Lumen, Barros Bar, Ensaios de um ababelado, Blog da Dai, Caderno de Paris, Homo libris, Caleidoscópio, Lady Cronopio, Uns Dias, Livros e mais livros, PorEntreLetras, Curiosa Identidade, Blog do Enríquez, O pássaro impossível, Insanidades, Efigênia Coutinho e sua Poesia, Blog Panorama, Fetiche de Cinéfilo, noVÍ TÁ, Alice Salles, Orgia Literária, Lendo.

Na área de cotidiano e temas gerais, os seguintes blogs valem a visita: Je suis en train de chercher, Ana R., Blog Linha, Inside, Kafka na Praia, Tiro no pé, Minhas impressões , Trouxeste a Chave?, Desígnios & Desejos, Blog do Beagle, No Mundo da Aline, Porto das Crônicas, Reflexos, Bicho-da-Mata, Kuinta com Q.

Sem esquecer também dos blogs (blogues) amigos portugueses: Boca de Incêndio, Metafísica do Esquecimento, Buraco na Parede, Nunca Mais, O cão que comeu o livro, Bibliotecário de Babel, Da Literatura, Os Livros Ardem Mal, Ciberescritas, Página de Rosto.

É bom deixar claro que não citei blogs que já alcançaram um nível profissional inegável como é o caso do Livros e Afins, Polzonoff, O Biscoito Fino e a Massa, Renata Miloni, Pensar Enlouquece. Enfim, tanto material de qualidade a ser visto, lido e acompanhado que definitivamente devemos ler não somente livros, mas também blogs é claro.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Tori Amos

É difícil classificar o trabalho da cantora, compositora e pianista norte-americana Tori Amos em categorias como pop, pop/rock ou rock alternativo. Assim como Björk, desde muito cedo ela insistiu em criar um estilo próprio o que acabou fazendo com que fosse expulsa do conservatório de piano clássico aos onze anos, por não gostar de seguir partituras e tocar apenas de improviso. As composições têm como base uma refinada técnica vocal que permite alcançar uma extensa gama de registros e modulações, com letras que abordam temas bastante distintos como feminismo, religião e sexualidade, sempre com uma abordagem autobiográfica.

Fiquei conhecendo Tori Amos através do CD duplo “To Venus and Back”, lançado em 1999, incluindo um disco gravado em estúdio e o outro ao vivo. Este álbum resume bem a carreira de Tori Amos que alcançou, no final dos nos anos noventa, muito sucesso no mercado americano e mundial (a foto de abertura da postagem é da edição de 1998 da revista Rolling Stone).

Hoje, Tori Amos já deixou de integrar apenas o universo Cult das intérpretes alternativas, tendo vendido mais de 12 milhões de discos em todo o mundo. O novo CD de estúdio, décimo de sua discografia, com o sugestivo título de “Abnormally Attracted to Sin” (Anormalmente Atraída Para o Pecado) está previsto para ser lançado no dia 19 de Março de 2009 com uma apresentação de Tori Amos. Ver maiores detalhes na página da cantora.

O vídeo abaixo, apesar das limitações de qualidade de gravação e um possível atraso na conexão com o Youtube, serve para divulgar a técnica instrumental e vocal de Tori Amos. A música “Cooling” é uma das preferidas de Tori em apresentações ao vivo e ficamos, ao final, um pouco hipnotizados com o refrão que repete em ondas sucessivas: This is cooling, Faster than I can, This is cooling, Faster than I can...

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Pierre Gonnord - Retratos da Exclusão

Em uma primeira observação, os retratos do fotógrafo Pierre Gonnord nos deixam na dúvida quanto a estarmos diante de uma fotografia ou de uma pintura holandesa do século XVII, mas ao visitarmos a página deste artista notamos que, apesar da técnica lembrar uma escola de pintura clássica, os seus modelos são bem contemporâneos, geralmente imigrantes de alguma minoria étnica e retirados das ruas de Madri, onde o fotógrafo francês vive desde 1988.

O próprio Pierre Gonnord explica e resume a sua opção de trabalho: "Eu escolho os meus contemporâneos no anonimato das grandes cidades porque os seus rostos narram, por baixo da pele, histórias singulares e insólitas sobre a nossa época. Algumas vezes hostis, quase sempre frágeis e muito frequentemente feridos por trás da opacidade de suas máscaras, eles representam realidades sociais específicas e, por vezes, outro conceito de beleza".

Dica: blogs noVÍ TÁ e In the Labyrinth.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Os 100 livros mais influentes - Times Literary Suplement

O suplemento literário do Jornal Times de 06 de Outubro de 1995 publicou uma lista com os 100 livros que mais influenciaram a cultura ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Nesta relação não foram consideradas obras importantes da primeira metade do século XX produzidas por autores como Sigmund Freud, Martin Heidegger, Aldous Huxley e Franz Kafka. Enfim, assim como toda lista é sujeita a contestações e emendas, mas tem como maior mérito relembrar alguns clássicos da nossa época e abranger várias áreas do conhecimento humano, além da literatura, como filosofia, antropologia, economia, história, política etc. Acrescentei a tradução dos títulos com ano de publicação e alguns links, um serviço de utilidade pública.

Livros da década de 1940

(01) Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo (1949);
(02) Marc Bloch: Apologia da História (1949);
(03) F. Braudel: O Mundo Mediterrâneo (1949);
(04) James Burnham: A Revolução Gerencial (1941);
(05) Albert Camus: O Mito de Sísifo (1942);
(06) Albert Camus: O Estrangeiro (1942);
(07) R. G. Collingwood: A Idéia de História (1946);
(08) Erich Fromm: O Medo à Liberdade (1941);
(09) T. W. Adorno: Dialética do Esclarecimento (1947);
(10) Karl Jaspers: O Escopo Perene da Filosofia (1948);
(11) Arthur Koestler: O Zero e o Infinito (1940);
(12) Andre Malraux: A Condição Humana (1933);
(13) Behemoth: Estrutura e Prática do Nacional Socialismo (1944);
(14) George Orwell: A Revolução dos Bichos (1945);
(15) George Orwell: 1984 (1949);
(16) Karl Polanyi: A Grande Transformação (1944);
(17) Karl Popper: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945);
(18) Paul Samuelson: Introdução à Análise Econômica (1948);
(19) Jean-Paul Sartre: O existencialismo é um Humanismo (1946);
(20) J. Schumpeter: Capitalismo, socialismo e democracia (1942);
(21) Martin Wright: Política do Poder (1946).

Livros da década de 1950

(22) Hannah Arendt: As Origens do Totalitarismo (1951);
(23) Raymond Aron: O ópio dos intelectuais (1955);
(24) Kenneth Arrow: Escolha Social e Valores Individuais (1951);
(25) Roland Barthes: Mitologias (1957);
(26) Winston Churchill: A Segunda Guerra Mundial (1953);
(27) Norman Cohn: A Perseguição do Milênio (1957);
(28) M. Djilas: Uma Análise do Sistema Comunista (1957);
(29) Mircea Eliade: Imagens e Símbolos (1952);
(30) Erik Erikson: Young Man Luther (1958);
(31) Lucien Febvre: Combates pela História (1953);
(32) John Kenneth Galbraith: The Affluent Society (1958);
(33) E. Goffman: A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956);
(34) Arthur Koestler: O Deus que Falhou (1959);
(35) Primo Levi: É Isto um Homem? (1958);
(36) Claude Levi-Strauss: A World on the Wane (1955);
(37) Czeslaw Milosz: A Mente Cativa (1953);
(38) Boris Pasternak: Doutor Jivago (1958);
(39) David Riesman: A Multidão Solitária (1950);
(40) Herbert Simon: Modelos do Homem (1957);
(41) C. P. Snow: As Duas Culturas (1959);
(42) Leo Strauss: Direito Natural e História (1953);
(43) J. L. Talmon: As Origens da Democracia Totalitária (1952);
(44) A. J. P. Taylor: The Struggle for Mastery in Europe (1954);
(45) Arnold Toynbee: Um Estudo da História (1934 - 61);
(46) Karl Wittfogel: Despotismo Oriental (1957);
(47) Ludwig Wittgenstein: Investigações Filosóficas (1953).

Livros da década de 1960

(48) Hannah Arendt: Eichmann em Jerusalém (1963);
(49) Daniel Bell: O Fim da Ideologia (1960);
(50) Isaiah Berlin: Four Essays on Liberty (1969);
(51) Albert Camus: Notebooks 1935 -1951 (1964);
(52) Elias Canetti: Massas e Poder (1960);
(53) Robert Dahl: Quem Governa? (1961);
(54) Mary Douglas: Pureza e Perigo (1966);
(55) Erik Erikson: A Verdade de Gandhi (1969);
(56) Michel Foucault: História da Loucura (1961);
(57) Milton Friedman: Capitalismo e Liberdade (1962);
(58) Alexander Gerschenkron: Atraso Econômico (1962);
(59) Antonio Gramsci: Cadernos do Cárcere (1960);
(60) H. L. A. Hart: O Conceito da Lei (1961);
(61) Friedrich von Hayek: A Constituição da Liberdade (1960);
(62) Jane Jacobs: Morte e Vida de Grandes Cidades (1961);
(63) Carl Gustav Jung: Memórias, Sonhos e Reflexões (1960);
(64) Thomas Kuhn: A estrutura das revoluções científicas (1962);
(65) Emmanuel Le Roy Ladurie: The Peasants of Languedoc (1966);
(66) Claude Levi-Strauss: The Savage Mind (1962);
(67) Konrad Lorenz: A Agressão (1966);
(68) Thomas Schelling: A Estratégia do Conflito (1960);
(69) Fritz Stern: The Politics of Cultural Despair (1961);
(70) E. P. Thompson: Formação Classe Operária Inglesa (1963).

Livros da década de 1970

(71) Daniel Bell: As Contradições Culturais do Capitalismo (1976);
(72) Isaiah Berlin: Pensadores Russos (1978);
(73) Ronald Dworkin: Levando os Direitos à Sério (1977);
(74) Clifford Geertz: A Interpretação das Culturas (1973);
(75) Albert Hirschman: Exit, Voice, and Loyalty (1970);
(76) Leszek Kolakowski: Correntes Principais do Marxismo (1976);
(77) Hans Kueng: Ser Cristão (1977);
(78) Robert Nozick: Anarquia, Estado e Utopia (1974);
(79) John Rawls: Uma Teoria da Justiça (1971);
(80) Gershom Scholem: A Idéia Messiânica no Judaísmo (1971);
(81) Ernst Friedrich Schumacher: Small Is Beautiful (1973);
(82) Tibor Scitovsky: The Joyless Economy (1976);
(83) Quentin Skinner: Bases do Pensamento Político Moderno (1978);
(84) Alexander Solzhenitsyn: Arquipélago Gulag (1973 - 1978);
(85) Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia (1971).

Livros da década de 1980 e além

(86) Raymond Aron: Memórias (1983);
(87) Peter Berger: A Revolução Capitalista (1986);
(88) Norberto Bobbio: O Futuro da Democracia (1984);
(89) Karl Dietrich Bracher: A Experiência Totalitária (1987);
(90) John Eatwell and others: Dicionário de Economia - 4 vol. (1987);
(91) Ernest Gellner: Nações e Nacionalismo (1984);
(92) Vaclav Havel: Living in Truth (1986);
(93) Stephen Hawking: Uma Breve História do Tempo (1988);
(94) Paul Kennedy: Ascensão e Queda das Grandes Potências (1987);
(95) Milan Kundera: O Livro do Riso e do Esquecimento (2001);
(96) Primo Levi: Os Afogados e os Sobreviventes (1990);
(97) Roger Penrose: A Mente Nova do Rei (1993);
(98) Richard Rorty: Filosofia e o Espelho da Natureza (1979);
(99) Amartya Sen: Recursos, Valores e Desenvolvimento (1984);
(100) Michael Walzer: Esferas da Justiça (1983).

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Manhã de Carnaval - Sungha Jung

Vem se aproximando o Carnaval e constatamos novamente o rápido processo de degradação da cultura popular brasileira dos últimos tempos com o interminável lançamento automático de sambas-enredo industrializados e pagodeiros românticos. No entanto, houve uma época em que o termo cultura popular podia ser aplicado com propriedade às composições, onde melodia e letra representavam um esforço de originalidade e qualidade em categorias como o chorinho, samba-canção e mesmo nas antigas marchas carnavalescas.

Um bom exemplo de composição mais elaborada é "Manhã de Carnaval" de Luiz Bonfá e Antônio Maria, incluída na trilha sonora do filme "Orfeu Negro" em 1959 e que consolidou o fenômeno da Bossa Nova, com projeção internacional no final da década de 50. É muito comum músicos de Jazz como Joe Pass, John McLaughlin e George Benson, incluírem nos seus repertórios esta música que já se transformou em um standard para improvisações, assim como "Night and Day" e "My Funny Valentine".

Sungha Jung é um violonista prodígio da Coréia do Sul com apenas doze anos e uma centena de vídeos no Youtube. Existem interpretações melhores na Internet de "Manhã de Carnaval" como a de Baden Powell ou do próprio Luiz Bonfá, mas este vídeo do pequeno Sungha Jung demonstra como a música não tem fronteiras, mesmo que seja com um pequeno sotaque asiático!

Manha de Carnaval - Sungha Jung
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vito_di_leo

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

John Updike (1932 - 2009)

Poderia iniciar este texto afirmando que John Updike, um dos maiores escritores da literatura norte-americana, morreu no dia 27 de Janeiro, aos 76 anos, mas isto seria uma grande tolice; todos nós sabemos que os grandes autores não morrem jamais, eles são imortais assim como suas obras. Também é verdade que não existe homenagem maior para um escritor do que citar e reler os seus livros, pois que assim seja.

Gostaria de citar alguns trechos de uma sequência inesquecível, incluída no romance Coelho Corre, parte da tetralogia sobre a vida de Harry Angstrom: Coelho Corre (1960), Coelho em Crise (1971), Coelho Cresce (1981) e Coelho Cai (1990). As partes abaixo foram extraídas do capítulo onde a mulher de Harry, abandonada durante a madrugada, fica só no apartamento com o bebê e o filho pequeno. Ela começa a beber e a coisa toda acaba em tragédia. Não é possível evoluir muito com um tema assim no ambiente de um blog, mas serve como exemplo do trabalho de John Updike. Omiti a parte final, pos é muito chocante.

"As últimas horas são como se ela tivesse que passar com seus pensamentos por uma curva apertada num cano e não conseguisse. A toda hora ela chega no ponto em que ele diz para ela 'Vire pro outro lado´ e não consegue passar, não consegue sentir pânico nem sufocamento (...) Coloca no copo dois dedos de uísque, com pouca água porque senão ia levar muito tempo para beber, e sem gelo porque se fôsse tirar o gelo da fôrma com o barulho as crianças podiam acordar. Vai com sua dose de uísque até a janela e fica olhando por cima dos telhados cobertos de piche da cidade adormecida (...) Ela sente a rotina do dia de trabalho se aproximando como um exército de luz, sente as casas de bordas escuras lá embaixo potencialmente despertas, abrindo-se como castelos de onde vão sair homens, e é um pena seu marido não conseguir entrar neste ritmo que mais uma vez recomeça (...) Entra na cozinha e prepara outro drinque, mais forte que o primeiro, pensando que afinal de contas já é tempo de ela se divertir um pouco. Não teve nem um momento de descanso desde que voltou do hospital (...) Ainda resta um terço da garrafa. O cansaço faz arder as pálpebras ressecadas, mas ela não tem vontade de voltar para a cama. A cama lhe inspira horror porque Harry devia estar deitado nela. Esta ausência é um buraco que se alarga, e ela põe um pouco de uísque dentro dele mas não basta, e quando ela vai até a janela pela terceira vez já está claro o bastante para ver como é desoladora a paisagem (...) Liga a televisão, e a faixa de luz que brota de repente no retângulo verde desperta felicidade em seu peito, mas ainda é cedo demais, a luz é só um brilho sem sentido e o som é só um chiado (...) Quando pega o bebê outra vez, sente as perninhas molhadas e pensa em trocar a fralda mas sensatamente se dá conta de que está bêbada e pode machucá-lo com os alfinetes. Fica muito orgulhosa de ter tido esta idéia e diz a si mesma que não vai beber mais para poder trocar a fralda do neném daqui a uma hora (...) ela vai à cozinha e prepara um drinque, quase que só gelo, só para fechar de vez o grande buraco que está ameaçando se abrir dentro dela outra vez. Bebe um golinho só e é como um raio de luz azul que faz tudo ficar claro. É só aguentar mais este intervalo que no final do dia Harry estará de volta (...) O líquido amarelado derrama-se sobre os cubos de gelo fumegantes e não pára quando ela manda parar; ela retira a garrafa irritada, e gotas grandes pingam na pia (...)".

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

José Saramago - A Viagem do Elefante

José Saramago - A Viagem do Elefante - Editora Companhia das Letras - 256 páginas - Publicação 2008 - Revisão Carmen S. da Costa.

Um novo lançamento de José Saramago e todos nós, pobres leitores compulsivos ou talvez dependentes de sua prosa caudalosa, podemos nos transformar imediatamente em seres humanos mais felizes, reconhecer a marca inconfundível do autor, tendo a certeza de ler um dos maiores pensadores do nosso tempo e, segundo Harold Bloom, o maior ficcionista da atualidade.

Apesar de deixar bem clara a minha idolatria por Saramago, único autor laureado com um prêmio Nobel em língua portuguesa, é certo que não esperava um clássico romance histórico no mesmo nível e complexidade de "Memorial do Convento" ou "História do Cerco de Lisboa", pois esta seria uma tarefa praticamente impossível para qualquer autor contemporâneo, mesmo para José Saramago que, afinal, já está com 86 anos e a saúde bastante debilitada. De fato, este "A Viagem do Elefante", classificado pelo próprio autor como conto, foi escrito durante os sete meses em que lutou pela própria vida e a dedicatória para sua eterna companheira Pilar del Rio não deixa dúvidas sobre a gravidade deste período: "A Pilar, que não deixou que eu morresse".

Mesmo na situação em que foi escrito, no ambiente de um hospital, este livro é uma deliciosa fábula que carrega a tradicional ironia e humor de Saramago sobre um de seus temas prediletos: a eterna fragilidade humana. A narrativa trata da absurda viagem de um simpático elefante chamado Salomão em pleno século XVI que, por idéia de dom João III, rei de Portugal, influenciado por sua esposa Catarina da Áustria, decide presentear o Arquiduque austríaco Maximiliano II com um elefante. Assim nasce a saga épica do pobre paquiderme que teve de percorrer mais de metade da Europa, incluindo uma parte dos Alpes, devido a este capricho real.

José Saramago, como sempre, não parece nem um pouco interessado em fazer as pazes com a igreja católica, pelo contrário, em suas habituais digressões sobre o homem e a religião reflete sobre as incoerências na relação entre o homem, sua fé e os intermediários, uma relação nem sempre razoável como pode ser atestado pelos casos do cura de aldeia que tenta exorcizar o elefante Salomão (levando uma boa lição) e do padre representante da Basílica de Santo Antônio em Pádua que exige um milagre fabricado, pois segundo ele: "Lutero, apesar de morto, anda a causar grande prejuízo à nossa santa religião (...)".

O ambíguo indiano e cornaca, ou tratador de Salomão, é o protagonista secundário da narrativa, pois está claro que Salomão é o principal. Através das peripécias desta personagem, que tenta satisfazer as exigências reais, eclesiásticas e militares antes e durante todo o trajeto de Lisboa até Viena é que Saramago consegue desnudar a falta de bom senso dos homens para alcançar seus objetivos e ambições. O pobre Salomão acaba se tornando o elemento mais racional da caravana e conquistando a simpatia dos leitores. O vídeo abaixo foi publicado no blog da Fundação Saramago sob o título de "uma metáfora da vida humana", acho que esta definição, do próprio Saramago, resume bem o sentido do livro.



Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Bicentenário de Edgar Allan Poe

Este é o selo comemorativo emitido pelo correio americano - United States Postal Service - para o bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de Outubro de 1849), o autor que melhor soube representar o mistério da morte na literatura e que também morreu solitário como a maioria de seus personagens. Segundo afirmação de Jorge Luis Borges: "A literatura atual seria inconcebível sem Whitman e sem Poe" uma verdade incontestável, pelo menos no meu entendimento, pois foi um escritor que marcou os versos de Charles Baudelaire a Fernando Pessoa.

Segundo Ricardo Araújo em Edgar Allan Poe - O Homem e Sua Sombra (Ateliê Editorial - 2002), "O álcool foi um fator importante na vida do poeta. Na verdade, foi um dos responsáveis pela sua prematura morte. Mas não foi o único. Existiam outros. Um deles era sua personalidade ambígua, que se movia entre os antagonismos alegria/melancolia, vida/morte, delicadeza/agressividade, mas que era, antes de mais nada, uma personalidade sensitiva e observadora". Por tantos motivos e, principalmente, por ter marcado definitivamente o meu amor pela literatura e livros, não poderia deixar passar em branco esta data.

A poesia abaixo é o resumo da vida da Poe: "Desde criança eu não fui / como os outros foram / e não vi / como os outros viram (...) Tudo o que amei, só eu amei (...)" - Impossível a tradução completa, sem trair a perfeição dos versos.

Alone
(Edgar Allan Poe)

From childhood's hour I have not been
As others were - I have not seen
As others saw - I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I lov'd, I loved alone.
Then - in my childhood - in the dawn
Of a most stormy life - was drawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that 'round me roll'd
In its autumn tint of gold -
From the lightning in the sky
As it pass'd me flying by -
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

Domingo, Janeiro 18, 2009

Arte ou ilusão - Akiyoshi Kitaoka

A edição online da famosa revista Scientific American publicou um artigo no final do ano passado com doze exemplos de Op Art. O trabalho acima é de Akiyoshi Kitaoka, professor de psicologia da Universidade de Ritsumeikan, Kyoto, Japão. Clique aqui para ver a ilustração "Rotating snakes" de 2003 ou siga este link para outros trabalhos mais recentes do mesmo autor, mas pessoas com maior sensibilidade ao enjôo devem ser cuidadosas, tamanha é a sensação de movimento, conforme alerta do próprio site.

O conceito de Optical Art é a expressão artística, de caráter abstrato, com base na ilusão de ótica que provoca a forte ilusão de movimento. Não sei se devemos considerar os trabalhos enquadrados na definição de Op Art como arte ou ciência, mas de qualquer maneira são excelentes imagens para ilustrar blogs, vocês não acham?

Dica: Obvious

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Biblioteca Digital Camões

O Instituto Camões acaba de disponibilizar, através da Biblioteca Digital Camões, mil e duzentos documentos representativos da cultura em língua portuguesa para consulta online sem necessidade de registros ou subscrição. Foram criadas diversas categorias como: arte, estudos literários, história, língua, literatura, música (partituras), pensamento e ciência.

Segundo informação do site, a Biblioteca Digital apresenta autores e edições no domínio público, mas também edições atuais protegidas por direitos e de autores vivos. Sendo assim, existem níveis diferenciados de acesso: (1) apenas leitura, (2) leitura e impressão e (3) leitura, impressão e cópia. A licença de utilização que antecede o download de alguns títulos serve para estabelecer o direito de propriedade de alguma editora.

Finalmente, a declaração do Instituto Camões orienta quanto à finalidade ética e cultural do projeto na Internet: "A Biblioteca Digital Camões não se pretende apresentar como alternativa ou um concorrente de editoras ou livrarias. É uma biblioteca. O trabalho dos editores é insubstituível e fundamental. O reconhecimento dos responsáveis pelas edições é também uma manifestação de respeito pelas pessoas que ganham a vida a fazer e a vender livros, e que aceitaram participar conosco nesta missão de divulgação da língua e cultura portuguesas no mundo".

Vale lembrar que, no Brasil, temos a excelente página do Domínio Público, criada pelo Governo Federal, onde podemos pesquisar, por exemplo, toda a obra de Machado de Assis que está disponível para download em formato pdf.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Virginia Woolf - Contos Completos

Virginia Woolf - Contos Completos - Editora Cosac Naify - 472 páginas - Publicação 2005 - 3º reimpressão 2008 - Fixação de Texto e Notas de Susan Dick, Projeto Gráfico de Luciana Facchini, Tradução de Leonardo Fróes.

Novamente a editora Cosac Naify surpreende ao realizar um trabalho de excelência editorial, desta vez com o lançamento da coleção “Mulheres Modernistas” que inclui tratamento gráfico diferenciado, novas traduções e alguns textos inéditos de autoras do nível de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Karen Blixen, Marguerite Duras, Gertrude Stein e Flannery O'Connor.

Este volume, traduzido do original "The Complete Shorter Fiction of Virginia Woolf", apresenta um apêndice com notas detalhadas sobre a origem de cada um dos contos, ano de publicação e particularidades do processo criativo e biográfico da autora. Na parte final foi incluída uma bibliografia com extensa relação de trabalhos de ficção, ensaios, diários e correspondência lançadas no Brasil e exterior. Virginia Woolf (1882 - 1941) utilizou nos contos, assim como em seus famosos romances "Mrs. Dalloway" (1925), "Rumo ao Farol" (1927) e "Orlando" (1928), muitas das características que marcaram o seu estilo literário e também todo o movimento modernista do século XX, técnicas como o fluxo de consciência e narrativas não lineares com polifonia narrativa e ausência de ação, pelo menos da maneira tradicional. A seleção obedece uma ordem cronológica de apresentação em cada um dos seguintes blocos:

(1) Primeiros contos, antes de 1917 - Nesta primeira parte o destaque vai para o conto "Phyllis e Rosamond" que mostra como a autora, logo em seus textos iniciais, demonstra sua simpatia para com o movimento feminista em contraste com a rigidez de costumes da Era Vitoriana. A seguinte passagem ilustra bem o destino das mulheres nesta época: "Phyllis tem 28 anos, Rosamond, 24. São pessoas graciosas, de faces rosadas, vivazes; um olhar minucioso não encontrará em seus traços uma beleza perfeita; mas seus trajes e maneiras dão-lhes o efeito da beleza, sem lhes dar a substância. Parecem nativas da sala de visitas, como se, nascidas em vestidos de seda para a noite, jamais tivessem posto o pé num solo mais irregular do que o tapete turco, ou reclinado em superfície mais áspera do que a poltrona ou o sofá. Vê-las na sala cheia de mulheres e homens bem trajados é como ver um negociante na Bolsa, ou um advogado no Fórum".

(2) Contos de 1917 a 1921 - "Kew Gardens" é como um quadro impressionista, uma paisagem de uma tarde de Julho no jardim de Kew Gardens , onde praticamente não há nenhuma ação, exceto pela descrição dos efeitos de luz e cor no canteiro de flores e a passagem de homens e mulheres como fragmentos de memórias que são tão importantes na narrativa quanto o movimento de um caracol no jardim que "já havia considerado todas as possíveis maneiras de atingir seu objetivo sem contornar a folha seca nem subir por cima dela".

Ainda nesta fase, uma outra composição que impressiona pela originalidade da narrativa é "Objetos Sólidos" na qual o protagonista, um influente político que concorre ao parlamento, vai se desligando aos poucos de sua brilhante carreira e obrigações em troca de uma surpreendente paixão por objetos sem valor como cacos de vidro e porcelana. A maneira como Virginia Woolf descreve os detalhes de forma e cores de tais objetos, associados ao gradativo processo de alucinação do personagem, tudo isso no espaço limitado de um conto, é verdadeiramente um caso de estudo.

(3) Contos de 1922 a 1925 - Em mais de um conto desta fase, Virginia Woolf utiliza a personagem Clarissa Dalloway que parece ser um elemento central no seu universo de ficção, costumando ligar outros personagens da narrativa como no caso de "Mrs. Dalloway em Bond Street", que inicia, de maneira semelhante ao famoso romance: "Mrs. Dalloway disse que ela mesma ia comprar as luvas". Passagem conhecida do grande público através do filme "As Horas" (2002), de Stephen Daldry, com Nicole Kidman. A partir desta etapa, cada vez mais a introspecção e o fluxo de consciência são utilizados na narrativa, confundindo o leitor menos atento.

(4) Contos de 1926 a 1941 - O conto "Momentos de ser: pinos de telha não têm pontas" mostra a indefinição sexual de Virginia que, apesar de um longo casamento com Leonard Woolf, teve um relacionamento amoroso com Vita Sackville-West e também um caso de paixão literária pela escritora Katherine Mansfield. Segundo consta das notas desta edição: "Em 8 de julho de 1927 ela disse à tambem escritora Vita Sackville-West: ´Acabei de escrever, ou reescrever, um saboroso continho sobre safismo, para os americanos`. Em 14 de Outubro ela se referiu a ´sessenta libras recém-recebidas da América por seu continho safista, cuja clara intenção o editor não viu (...)`".

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Filosofia na Visão de Bertrand Russell

Bertrand Arthur William Russell (1872 - 1970) foi um dos filósofos mais influentes do século XX, tendo se destacado por seus trabalhos no campo da lógica matemática e filosofia analítica. Em 1950, Russell recebeu o Prêmio Nobel de Literatura "em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento".

O texto abaixo foi encaminhado pelo meu amigo Quinta que tem colaborado bastante com este “Mundo de K” na área de Filosofia. É uma abordagem de Bertrand Russell pouco divulgada e conhecida sobre a definição e o enquadramento da Filosofia nas áreas do conhecimento humano.

"Filosofia é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais simples, outras mais restritas. A Filosofia, conforme entendo a palavra, é algo intermediário entre a Teologia e a Ciência, como Teologia consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como a Ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou da revelação. Todo conhecimento definido pertence à Ciência; e todo dogma, quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à Teologia. Mas entre a Teologia e a Ciência existe uma Terra de ninguém: é a Filosofia. Quase todas as questões do máximo interesse para os espíritos especulativos são de tal índole que a Ciência não pode as responder, e as respostas confiantes dos teólogos já não nos parecem tão convincentes como o eram nos séculos passados.

Acha-se o mundo dividido em espírito e matéria? E, supondo-se que assim seja, o que é espírito e o que é matéria? Acham-se os espíritos sujeito à matéria, ou eles são dotados de forças independentes? Possui o universo algum propósito? Está ele evoluindo de alguma maneira rumo a alguma finalidade? Existe realmente alguma Lei da Natureza ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? É o homem o que ele parece ser ao astrônomo, isto é, um minúsculo conjunto de carbono e água a rastejar, imponentemente, sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é ele o que parece ser a Hamlet? Acaso é ele, ao mesmo tempo, ambas às coisas? Existe alguma maneira de viver que seja nobre e outra que seja baixa, ou todas as maneiras de se viver são simplesmente inúteis? Se há um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira praticá-lo? Deve o Bem ser eterno, para merecer o amor que lhe atribuímos, ou vale a pena procurá-lo , mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte? Existe sabedoria, ou o que nos parece tal não passa do último refinamento da loucura? Tais questões não encontram respostas nos laboratórios, e os teólogos tem pretendido dar suas respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua própria segurança faz com que o espírito moderno as encare com suspeita. O estudo de tais questões, mesmo que não se resolvam esses problemas, constitui o empenho da Filosofia."

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Playing for Change - Feliz 2009

A música pode mudar o mundo? Na opinião do pessoal que desenvolveu a fundação Playing for Change a resposta é positiva. Eles se definem como "um movimento multimídia criado para inspirar, conectar e trazer a paz para o mundo através da música". Para viabilizar esta integração entre diferentes culturas, produziram um filme que conta com a participação de músicos de rua de continentes diferentes interpretando uma mesma canção com seu próprio estilo.

O resultado do trabalho é uma mensagem contagiante de otimismo que nos faz acreditar que o mundo ainda pode ter jeito. Aproveito o clima do vídeo abaixo para agradecer as visitas durante o ano de 2008 e desejar a todos os amigos um ótimo 2009!

Dica: Ilusão da Semelhança

Domingo, Dezembro 21, 2008

Generación Y - Melhor Blog em 2008

Parece que o título de melhor blog do ano vai mesmo para o Generación Y da cubana Yoani Sánchez que faturou fácil os prêmios BOBS (Best of Blogs) da Alemanha e Ortega y Gasset de jornalismo digital da Espanha, Yoani foi incluída também na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008 da revista Time. No excelente blog do Jorge Pontual podemos conferir a entrevista que Yoani deu ao italiano Roberto Ferranti.

É claro que o componente político foi decisivo para esta escolha e também para toda a divulgação que o Generación Y recebeu na Blogosfera. Verifiquei que a última postagem do blog recebeu nada menos do que 2232 (!) comentários. De qualquer forma é um bom exemplo da liberdade de expressão que, apesar de tudo, ainda existe na Internet. Ver abaixo a parte final do belo discurso de agradecimento que Yoani postou de Havana após receber o prêmio Ortega Y Gasset (ver texto integral aqui).

"Em vez de comprar um motor para cruzar o mar numa balsa até a Flórida, tornei-me um balseira virtual. Escapei, não do meu país, mas do medo, da paranóia e do conformismo. Finalmente cheguei, nesta balsa-blog, a uma terra ao mesmo tempo gratificante e dolorosa, de onde a responsabilidade cívica não me permite voltar. Agora tenho duas vidas, uma real, compartimentalizada e controlada, onde ouço ordens, slogans e conclamações à luta; a outra virtual, imensa e livre, onde começo a me sentir cidadã".

Dica: Izabella Olivato

Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

Arquivo Pessoa e Labirinto MultiPessoa

Boa notícia para a literatura em língua portuguesa. Depois do ótimo Portal da Casa Fernando Pessoa que apresenta além das obras dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Ricardo Reis, poesias do próprio Fernando Pessoa e um banco de dados de poetas consagrados, com excelente tratamento multimídia, podemos encontrar agora na Internet extenso material inédito de Fernando Pessoa com abordagem científica através dos novos Portais Arquivo Pessoa e Labirinto MultiPessoa.

Segundo informações dos próprios sites, o Arquivo Pessoa e o Labirinto MultiPessoa correspondem a uma atualização de um CD intitulado MultiPessoa — Labirinto Multimedia, dirigido por Leonor Areal e co-editado em 1997 pela Texto Editora e a Casa Fernando Pessoa. Os portais dirigem-se a todo o tipo de leitores, do leigo ao investigador, tendo os seguintes objetivos principais:

(1) Divulgar a obra de Fernando Pessoa, tornando-a acessível a qualquer leitor, através de uma espécie de antologia interativa, o Labirinto;

(2) Ser um instrumento didático que facilite e apoie o estudo da obra pessoana na sua multiplicidade;

(3) Servir como instrumento de investigação ao permitir pesquisas de texto complexas na obra de Fernando Pessoa.

Existe a previsão de atualização e complementação durante o ano de 2009 das informações disponíveis nos Portais, incluindo textos de crítica literária sobre Fernando Pessoa, vídeos e jogos literários.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

Writer´s Rooms - The Guardian

Virginia Woolf

A versão online do jornal inglês The Guardian atualiza regularmente uma série sobre os locais de criação de escritores de várias épocas, chamada "The Writer´s Rooms". Este primeiro exemplo é o escritório de Virginia Woolf (1882 - 1941) uma construção de madeira localizada no jardim da casa de Leonard e Virginia onde ela gostava de escrever durante o verão, mesmo não sendo o melhor lugar em termos de concentração devido aos sinos da igreja no fundo do jardim, o barulho das crianças na escola ao lado ou o cão deixando marcas de patas nas páginas de seus manuscritos. No inverno, muitas vezes extremamente frio, ela não podia segurar a caneta e precisava trabalhar dentro de casa.

Em 28 de Março de 1941, em uma manhã fria de primavera, ela escreveu a carta de despedida abaixo para Leonard antes de caminhar até o rio Ouse. Virginia Woolf vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e se deixou afogar.

"Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e incrivelmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V."

Jane Austen

Outro exemplo que impressiona, pela simplicidade, é a mesa de trabalho de Jane Austen (1775 - 1817), uma pequena peça de mármore onde ela escreveu, entre outros clássicos da língua inglesa, "Orgulho e Preconceito" (1797) e "Razão e Sensibilidade" (1811). Ela teve seis irmãos e uma irmã mais velha, Cassandra. Após a morte de Cassandra, em 1845, a mesa foi doada para um empregado e acabou retornando para o antigo lar, onde permanece até hoje como um símbolo da modéstia de um gênio, como bem destacou o artigo do jornal Guardian.

Eric Hobsbawm

Em contraste com a sobriedade das fotos acima, temos aqui o caótico local de trabalho do grande historiador Eric Hobsbawm, autor de, entre outros livros, "A Era das Revoluções" (período de 1789 a 1848), "A Era do Capital" (período de 1848 a 1875) e "A Era dos Impérios" (período de 1875 a 1914) e "A Era dos Extremos" sobre a história do século XX. Difícil de acreditar que exista algum tipo de organização neste ambiente.

Outros autores que merecem uma visita nesta série do Guardian: Charlotte Bronte, Charles Darwin, Rudyard Kipling, George Bernard Shaw, Anne Enright, Martin Amis, Siri Hustvedt, Jonathan Safran Foer, John Banville, Will Self.

Sábado, Novembro 29, 2008

100 Livros Notáveis em 2008 - New York Times

O ano vai chegando ao final e surgem as famosas listas com os destaques em cada área de atuação. Com a literatura não poderia ser diferente, ressaltando apenas a particularidade de que a lista dos livros mais vendidos é normalmente inversa à lista dos melhores em termos de qualidade. Fato extraordinário, mas que pode ser facilmente constatado nas relações de "best sellers" de pouco conteúdo que conhecemos bem. Logo, é importante identificar o foco da lista em referência.

A lista do New York Times (Sunday Book Review), apresenta uma seleção de 100 livros resenhados no período de 02 de Dezembro, 2007 até hoje, nas categorias de ficção e poesia e não ficção. Cada um dos livros selecionados tem um link apontado para a respectiva resenha crítica, sendo, desta forma, uma fonte de informações importante já que a grande maioria dos livros ainda não foi publicada no Brasil.

Destaquei alguns autores com os links para as resenhas de seus últimos romances, lançados em 2008: DIARY OF A BAD YEAR - J. M. Coet­zee, INDIGNATION - Philip Roth, A MERCY - Toni Morrison, THE WIDOWS OF EASTWICK - John Updike, YESTERDAY’S WEATHER - Anne Enright.

Para quem desejar se aprofundar ou procurar uma resenha para um livro específico, seguem os links para as listas dos últimos dez anos: 2007 / 2006 / 2005 / 2004 / 2003 / 2002 / 2001 / 2000 / 1999 / 1998.

Fonte: Alessandro Martins - Livros e Afins

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Anton Tchekhov - O Assassinato e Outras Histórias

Anton Tchekhov - O Assassinato e Outras Histórias - Editora Cosac Naify - 263 páginas - Publicação 2002 - Seleção, Tradução e Prefácio de Rubens Figueiredo.

"Depois de se escrever um conto, deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais mentimos" declarou Anton Pavlóvitch Tchekhov (1860 - 1904) ao colega escritor Ivan Bunin. Essa idéia resume bem uma parte da arquitetura narrativa utilizada por Tchekhov nos contos incluídos nesta coletânea, todos pertencentes à última fase de sua obra, onde o bom humor dá espaço a uma descrição fria e detalhada da vida miserável das aldeias russas no final do século XIX. Tchekhov foi, sem dúvida, um mestre na técnica do conto e conseguiu assegurar o seu lugar na literatura russa em um cenário dominado pela prosa dos grandes romances de Turguêniev, Tolstói e Dostoiévski, sendo que ele, em oposição aos seus contemporâneos, não se enquadrou em qualquer engajamento moral, político ou religioso.

No prefácio de Rubens Figueiredo, "A ficção da indiferença", o método crítico ou estratégia literária de Tchekhov, nestes contos, é bem explicada: "Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, as suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade."

A realidade é apresentada sem atenuantes no conto "Os Mujiques" com todos os detalhes possíveis da degradação humana decorrente da extrema pobreza. Uma narrativa que só encontra paralelo no romance "Germinal" do francês naturalista Émile Zola (1840 - 1902). O próprio Tolstói, que idealizava a classe camponesa, classificou o conto de "um pecado contra o povo russo".

Como sempre a bem cuidada produção da Cosac Naify, incluída na coleção Prosa do Mundo, acrescentou nesta edição, além do ótimo prefácio de Rubens Figueiredo, cinco cartas de Tchekhov e sugestões de leitura para análises criticas e biografias do autor. Uma prova de que existe espaço para a qualidade no mercado editorial brasileiro.

Domingo, Novembro 23, 2008

Primavera dos Livros 2008

Programa imperdível para quem estiver no Rio de Janeiro de 27 a 30 de Novembro, a Primavera dos Livros, 13º edição, versão 2008, será nos jardins do Museu da República, no bairro do Catete. O evento, que tem a entrada franca, e oferecerá descontos de até 50%, é organizado pela Liga Brasileira de Editores (LIBRE).

Diferente de outros eventos literários bem mais divulgados na mídia, como a Bienal do Livro, a Primavera dos Livros reúne somente pequenas e médias editoras (de excelente qualidade como a Cosac Naify, 7Letras, Aeroplano, Editora 34 e muitas outras) oferecendo espaço para os verdadeiros astros, ou seja, os livros.

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Nascido para o Blues - Quinn Sullivan

Parece que o espírito de Robert Johnson, lenda do blues americano, migrou de alguma encruzilhada do Delta do Mississipi e baixou no guitarrista prodígio Quinn Sullivan, de apenas nove anos, da área de Boston, Massachusetts. O menino já despertou a simpatia de muita gente do ramo, inclusive do experiente Buddy Guy que o convidou para alguns shows, como vemos na foto.

O vídeo abaixo é uma gravação feita para o programa de TV Boston's Fox News Morning Show, onde Quinn se apresenta com sua própria banda que inclui o pai baterista Terry Sullivan, interpretando "The Thrill is Gone" de B.B. King. Ele já gravou um single próprio intitulado "Sing, Dance and Clap Your Hands!", disponível na sua página do My Space. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito do menino.

Fonte: blog Obvious

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Os Sofistas

A Escola de Atenas - Raphael (1483 - 1520) - 500 × 770 cm - Vaticano

O meu amigo Quinta enviou mais um excelente texto sobre os filósofos gregos, desta vez sobre os criadores da retórica e oratória, conhecidos como Sofistas. A técnica do Sofismo é muito utilizada em nosso mundo "real" e, ainda hoje, desperta grande interesse. Segue o texto onde, na conclusão, é citado o paradóxo do advogado.

O ideal máximo da lógica é a coerência. A lógica foi sistematizada por Aristóteles, e se constituiu até o começo da idade moderna como matéria prima principal ao lado da teologia e da filosofia.

Aristóteles foi discípulo de Platão, que mantinha uma escola em Atenas denominada Academia. Ali, talvez, Platão o tenha levado a gostar das formas coerentes de pensamento, motivando-o a lógica. Contudo, Aristóteles só veio a elaborar seu sistema quando já estava afastado do mestre. Seus discípulos reuniram todos os seus trabalhos sob o título de Organon (Instrumento), como um meio de chegar à coerência do pensamento. Durante estes trabalhos, Aristóteles deparou-se com todo o acervo de pensamentos anteriores e ele e viu-se, então embaraçado com uma série de contradições, algumas aparentes e outras reais.

Estas contradições tomaram vulto a partir dos sofistas. Diante disso, o filósofo reagiu elaborando o primeiro sistema lógico. Os Sofistas foram pensadores do século V a.C, e iam de cidade em cidade ensinando a troco de dinheiro. Ensinavam como atacar os adversários em juízo e como sair vencedor nas discussões. Nesta tarefa não se preocupavam com qualquer tipo de lógica. A única regra era sair vitorioso. A propósito vejamos uma argumentação em juízo entre Protágoras e seu discípulo Euatlho. Protágoras havia combinado com Euatlho ensinar-lhe oratória mediante certa quantia, que seria paga da seguinte maneira: metade ao terminar a última lição e a outra metade quando discípulo tivesse ganho a primeira causa nos tribunais. Entretanto o pagamento restante ia-se prolongando. Protágoras começou a recear a não mais receber o que lhe era devido. Resolveu, por isto, levar o discípulo ao Tribunal.

Sua argumentação resume-se no seguinte:

“De qualquer maneira terá que pagar, pois se perder a causa, a decisão do Tribunal, é claro obrigá-lo-á a me pagar. Se, porém, ele ganhar a causa, terá que me pagar do mesmo modo por força do acordo que tem comigo. Em qualquer dos casos, portanto, Euatlho terá que saldar a dívida”.

O velho sofista grego não contava com o aproveitamento didático do ex-discípulo que, diante do mestre, assim se defendeu:

“Se ganhar este processo, nada terei que pagar, porque é essa a decisão do Juiz. Se perder, nada terei que pagar, por que assim ficou estipulado no meu acordo com Protágoras. Em qualquer caso nada ficarei devendo”.

Em sua opinião, quem está sofismando, Protágoras ou Euatlho?

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Clarice Lispector e Ana Cristina Cesar

Clarice e Ana, tão separadas no tempo e no espaço, vidas de caminhos diferentes, mas com alguma coisa semelhante no olhar. A busca pela linguagem, seja prosa ou poesia, de uma imagem indefinida, um sentimento difícil de captar. Cada uma do seu jeito, cada uma com seu olhar.

Disse Clarice:

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente (...)"

E disse Ana:

Flores do Mais

devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

Mais sobre Clarice Lispector / Mais sobre Ana Cristina Cesar

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Edward Thomas - Rain

Em Fevereiro deste ano fiquei conhecendo o poeta inglês Edward Thomas (1878 - 1917), através da seção "Poem of the week" do jornal guardian. Desde então, a tristeza e solidão evocadas pela atmosfera do poema "Rain" ficaram guardadas no meu inconsciente, até que decidi dividir hoje um pouco desta experiência. Todos os poemas de Edward Thomas foram escritos no período de Dezembro 1914 até Janeiro 1917 (menos de 150 poemas), incluindo "Rain", criado durante o período de treinamento no exército inglês, antes de partir para a França, onde viria a morrer na batalha de Arras, durante a primeira grande guerra.

Edward Thomas, formalmente conhecido como jornalista, crítico literário e autor de ensaios foi incentivado a escrever poesias pelo amigo e poeta americano Robert Frost (1874 - 1963) para quem desabafou, em uma de suas últimas cartas, o seguinte pensamento:

"I should like to be a poet just as I should like to live, but I know as much about my chances in either case, and I don't really trouble about either. Only I want to come back more or less complete ."

"Eu deveria gostar de ser um poeta, assim como deveria gostar de viver, mas eu conheço muito bem as minhas chances em qualquer dos casos, e eu realmente não me preocupo sobre ambos. Eu quero somente voltar mais ou menos completo."

Compreendemos, portanto, como fica clara neste contexto a origem da atmosfera melancólica do poema "Rain". Apesar da imagem tão desgastada da chuva na cultura clássica e também popular, é surpreendente o efeito ainda forte obtido nesta composição. Edward Thomas é normalmente classificado como um poeta da primeira grande guerra mundial (ver original manuscrito do poema aqui).

'Rain'

Rain, midnight rain, nothing but the wild rain
On this bleak hut, and solitude, and me
Remembering again that I shall die
And neither hear the rain nor give it thanks
For washing me cleaner than I have been
Since I was born into this solitude.
Blessed are the dead that the rain rains upon:
But here I pray that none whom once I loved
Is dying tonight or lying still awake
Solitary, listening to the rain,
Either in pain or thus in sympathy
Helpless among the living and the dead,
Like a cold water among broken reeds,
Myriads of broken reeds all still and stiff,
Like me who have no love which this wild rain
Has not dissolved except the love of death,
If love it be towards what is perfect and
Cannot, the tempest tells me, disappoint.

Edward Thomas

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

António Lobo Antunes

O escritor português António Lobo Antunes foi premiado em segundo lugar no Portugal Telecom 2008 com o romance "Eu hei-de amar uma pedra", no entanto ele não esteve presente à cerimônia devido, como explicou o apresentador, "a suas peculiaridades". Esta característica polêmica do autor, talvez tenha sempre chamado mais atenção da mídia do que suas obras, normalmente complexas, que exigem algum esforço do leitor devido à mudança constante da voz do narrador (polifonia) e a mistura entre passado e presente (simultaneidade). Ele é frequentemente citado pela crítica como verdadeiro merecedor do Nobel de literatura em língua portuguesa, em detrimento de José Saramago.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Médico psiquiatra, foi convocado pelo exército português para servir na guerra em Angola, tornou-se internacionalmente conhecido com o seu segundo romance "Os cus de judas" (1979), sobre o conflito e a independência angolanos. O trecho abaixo, retirado deste livro, é um exemplo maravilhoso da arte de escrever:

"Luanda começou por ser um pobre cais sem majestade cujos armazéns ondulavam na umidade e no calor. A água assemelhava-se a creme solar turvo a luzir sobre pele suja e velha que cordas podres sulcavam de veias ao acaso. Negros desfocados, no excesso de claridade tremula, acocoravam-se em pequenos grupos, observando-nos com a distração intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que se encontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltrane quando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava diante dos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível, pronto a subir verticalmente no ar denso como as cordas dos faquires.

Em "Fado Alexandrino" (1983), um grupo de cinco ex-militares se reencontra num jantar para relembrar a guerra em comemoração aos dez anos de retorno de Moçambique. Alternando tempo e espaço em uma narrativa não linear, o autor apresenta a sua história como um quebra-cabeça.

Já no romance "Exortação aos crocodilos" (1999), Lobo Antunes reduziu as diversas vozes narrativas para quatro vozes femininas. Através de monólogos interiores, lançados como estilhaços de memória e fragmentos, de cada uma das personagens, é narrada a história de uma rede de extrema direita que planeja atentados terroristas em Portugal nos anos setenta.

As citações abaixo, disponíveis no site do autor, explicam um pouco as tais "peculiaridades" mencionadas pelo apresentador do prêmio Portugal Telecom:

"Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares."

"Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar."

"Os bons escritores são pessoas que não mentem no seu trabalho."

"Qualquer entrevista é muito inferior a um livro. O livro permite corrigir-se. A entrevista necessariamente está cheia de lugares comuns."

"Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons."

"Saber ler é tão difícil como saber escrever."

Finalmente, ninguém melhor do que o próprio Antônio Lobo Antunes para se definir, como no vídeo promocional abaixo de seu último romance "O arquipélago da insônia", dica da Renata Miloni e Bibliotecário de Babel:

Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Prêmios Jabuti e Portugal Telecom 2008

O brasileiro Cristovão Tezza confirmou as expectativas da crítica, vencendo na noite de ontem o Prêmio de literatura Portugal Telecom com "O Filho Eterno", também premiado com o Jabuti 2008, categoria melhor romance. O próprio Tezza comentou sobre o tema sofrido da história autobiográfica de um pai que vive a experiência de ter um filho com síndrome de Down. Ele declarou que escrever na terceira pessoa e não na primeira, foi necessário para se distanciar das coisas. "Foi um livro que levei mais de 20 anos para escrever", acrescentou.

Infelizmente ainda não li para postar uma resenha, mas no site do escritor existem várias críticas profissionais sobre este romance, é só clicar aqui. Seguem trechos do quarto capítulo de "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza (Editora Record, 240 páginas, lançamento 2007) que é mais forte do que qualquer resenha ou crítica:

"A manhã mais brutal da vida dele começou com o sono que se interrompe — chegavam os parentes. Ele está feliz, é visível, uma alegria meio dopada pela madrugada insone, mais as doses de uísque, a intensidade do acontecimento, a sucessão de pequenas estranhezas naquele espaço oficial que não é o seu, mais uma vez ele não está em casa, e há agora um alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e não a mulher, que tivesse o filho de suas entranhas — a sensação boa, mas irremediável ao mesmo tempo, vai se transformando numa aflição invisível que parece respirar com ele. Talvez ele, como algumas mulheres no choque do parto, não queira o filho que tem, mas a idéia é apenas uma sombra (...)

Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz — parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta — passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam — uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam.

Há um início de preleção, quase religiosa, que ele, entontecido, não consegue ainda sintonizar senão em fragmentos da voz do pediatra:

— …algumas características… sinais importantes… vamos descrever. Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, e a pálpebra oblíqua… o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro… achatamento da parte posterior do crânio… a hipotonia muscular… a baixa implantação da orelha e…(...)

O pai lembra imediatamente da dissertação de mestrado de um amigo da área de genética — dois meses antes fez a revisão do texto, e ainda estavam nítidas na memória as características da trissomia do cromossomo 21, chamada de síndrome de Down, ou, mais popularmente — ainda nos anos 1980 — “mongolismo” (...)

Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer outra coisa, ele concluiu — nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir. Não era um choro de comoção que se armava, mas alguma coisa misturada a uma espécie furiosa de ódio. Não conseguiu voltar-se completamente contra a mulher, que era talvez o primeiro desejo e primeiro álibi (ele prosseguia recusando-se a olhar para ela); por algum resíduo de civilidade, alguma coisa lhe controlava o impulso da violência; e ao mesmo tempo vivia a certeza, como vingança e válvula de escape — a certeza verdadeiramente científica, ele lembrava, como quem ergue ao mundo um trunfo indiscutível, eu sei, eu li a respeito, não me venham com histórias — de que a única correlação que se faz das causas do mongolismo, a única variável comprovada, é a idade da mulher e os antecedentes hereditários, e também (no mesmo sofrimento sem saída, olhando o céu azul do outro lado da janela) relembrou como alguns anos antes procuraram aconselhamento genético sobre a possibilidade de recorrência nos filhos (se dominante ou recessiva) de uma retinose, a da mãe, uma limitação visual grave, mas suportável, estacionada na infância. Recusa. Recusar: ele não olha para a cama, não olha para o filho, não olha para a mãe, não olha para os parentes, nem para os médicos — sente uma vergonha medonha de seu filho e prevê a vertigem do inferno em cada minuto subseqüente de sua vida. Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.

No momento em que enfim se volta para a cama, não há mais ninguém no quarto — só ele, a mulher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar para o filho. Sim — a alma ainda está cabeceando atrás de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pensamento como que foi deixando-o novamente em pé, ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele quase acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: como sempre, está sozinho."

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

The Best of Blogs - Deutsche Welle

O maior concurso interrnacional de weblogs, podcasts e videoblogs do mundo, o "The BOBs - Best of Blogs", promovido pela Deutsche Welle, divulgou os 11 finalistas na categoria “Melhor weblog em Português” (selecionados entre mais de 400 candidatos), contando com oito blogs brasileiros, um português, um moçambicano e um angolano. Serão concedidos, simultaneamente, um prêmio do júri e outro de público, os ganhadores sendo escolhidos tanto por uma equipe internacional de jurados quanto pelos leitores.

Estou fazendo campanha para o ótimo blog português "Bibliotecário de Babel" que acompanho regularmente devido às matérias, sempre atualizadas, sobre literatura. Quem desejar seguir o exemplo é só votar aqui na eleição do público. Os vencedores das 16 categorias serão anunciados em 27 de Novembro próximo. Vale a oportunidade para conhecer novos blogs.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

José Saramago - Últimas Notícias

Os bons blogs portugueses Rascunho, BookTailors e Bibliotecário de Babel postaram sobre a capa do novo livro de José Saramago, "A Viagem do Elefante" que foi divulgada na última Feira do Livro de Frankfurt pela Editorial Caminho (Grupo Leya). Segundo publicado pelo Jornal O Globo, coluna de Ancelmo Gois, em 20/10/2008, Saramago deverá vir ao Brasil em Novembro, pela Companhia das Letras, fazer o lançamento mundial em grande estilo de "A Viagem do Elefante" dia 26, na Academia Brasileira de Letras - ABL.

Pilar del Rio, sua eterna companheira, resume as dificuldades de Saramago para terminar este romance na página principal da Fundação Saramago: "Escrevê-lo não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa."

Falando no site da Fundação, recomendo também a visita ao espaço O Caderno de Saramago, um blog escrito por ninguém menos do que o próprio José Saramago, o que pode reduzir bastante o preconceito sobre os bloggers. Segue abaixo a parte final de sua última postagem, uma resenha de Budapeste: "Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro".

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Aravind Adiga - Booker Prize 2008

Mais um importante prêmio literário para um autor pouco conhecido. Depois do Nobel para Le Clézio, desta vez a surpresa veio do Man Booker Prize que escolheu o romance "White Tiger" do estreante indiano Aravind Adiga, de apenas 34 anos. Pelo que andei lendo na Internet sobre o romance, trata-se da trajetória de Balram Halwai, filho de um puxador de riquixá cujo sonho de escapar da miséria de sua aldeia o leva numa viagem às luzes brilhantes de Délhi e Bangalore, onde ele se dispõe a fazer quase qualquer coisa para subir na vida.

Com uma premiação de 50 mil libras (88 mil dólares) para o vencedor, o Man Booker Prize é aberto a romances em inglês de escritores da Grã Bretanha, Irlanda, Commonwealth e demais ex-colônias britânicas. Anteriormente conhecido apenas como Booker Prize, o prêmio foi rebatizado após receber o patrocínio do conglomerado financeiro Man Group PLC, cinco anos atrás.

Aravid Adinga venceu outros cinco finalistas, o australiano Steve Toltz, por "A Fraction of the Whole"; o irlandês Sebastian Barry, por "The Secret Scripture"; o indiano Amitav Ghosh, por "Sea of Poppies"; a inglesa Linda Grant, por "The Clothes on Their Backs", e o inglês Philip Hensher, por "The Northern Clemency". Segue abaixo a "short list" completa com os seis autores indicados deste ano:

Aravind Adiga The White Tiger

Sebastian Barry The Secret Scripture

Amitav Ghosh Sea of Poppies

Linda Grant The Clothes on Their Backs

Philip Hensher The Northern Clemency

Steve Toltz A Fraction of the Whole

Outras postagens do Mundo de K sobre o Man Booker Prize:

Resultado do Melhor do Booker / The Best of The Booker Prize / Anne Enright - Boker Prize 2007 / Finalistas do Booker Prize 2007

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

História do Pranto - Alan Pauls

Alan Pauls - História do Pranto - Editora Cosac Naify - 85 páginas - Publicação 2008 - Tradução de Josely Vianna Baptista.

O argentino Alan Pauls utiliza neste seu último e curto romance o contraste entre as experiências de um menino hiper-sensível de 4 anos, filho de pais separados, e a realidade brutal da história da esquerda argentina dos anos 70. Alan Pauls mistura todo o tempo as sensações e experiências de vida do protagonista em diversas épocas e situações, mas sempre partindo do ponto de vista das lembranças de uma criança. Assim não sabemos nunca até que ponto as distorções da sua memória confundem sonho e realidade. O autor utiliza blocos narrativos, ao estilo de Saramago, unindo parágrafos em longas sequências de digressões. A sensibilidade do pequeno protagonista é destacada pelo seu interesse na fragilidade humana que tem como constatação, em sua mente infantil, a fraqueza do Super-Homem diante da kriptonita, lembrança da nossa vulnerabilidade: "Se existe algo realmente excepcional, isso é a dor" nos ensina o protagonista e também no seguinte trecho: "A dor é sua educação e sua fé. A dor o torna crente. Acredita apenas, ou sobretudo, naquilo que sofre".

Alan Pauls em entrevista à revista Cult On-line define a estratégia narrativa do protagonista: "O herói da novela não é exatamente um menino, é um mutante. Às vezes tem 4 anos quando começa a frase, 12 quando está no meio e 25 quando completa. Tudo que há no menino aparece sempre culto, interpretado e até fingido desde o presente, mas tudo que se passa agora, quando tem 30 anos ou mais, aparece de algum modo profetizado desde o passado. Esse vai e vem entre tempos distintos foi o que mais me interessou a escrever o livro. Creio que é assim,indo e vivendo, recordando e esquecendo, antecipando e deformando, como experimentamos nossa própria vida".

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Jean-Marie Gustave Le Clézio - Nobel 2008

Mais uma vez a Academia Sueca surpreendeu ao escolher o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio para ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2008. Le Clézio será premiado com 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,3 milhão) no dia 10 de dezembro, cerimônia oficial de entrega. A justificativa pela escolha do escritor, publicada no site do Nobel, o cita como um “autor de inovações, aventuras poéticas e êxtase sensual, explorador de uma humanidade que transcende a civilização dominante". Entre as obras de Le Clézio publicadas no Brasil e ainda disponíveis estão: O Peixe Dourado (Companhia das Letras, 2001), A Quarentena (Companhia das Letras, 1997) e O Africano (Cosac Naify, 2007). Sendo que os seguintes livros encontram-se, até o momento, fora de catálogo: À Procura do Ouro (Brasiliense, 1985) O Deserto (Brasiliense, 1986); Diego e Frida (Escrita, 1994).

Le Clézio, em entrevista a uma rádio sueca, agradeceu "com muita sinceridade à Academia Nobel", dizendo que também irá ao país em 25 de Outubro para receber o prêmio literário sueco Stig Dagerman, que foi atribuído a ele em Junho. Pouco antes da notícia do prêmio, falou a uma emissora de rádio francesa que a possibilidade de ganhar tal prêmio "é algo que faz você continuar publicando, que dá vontade de seguir escrevendo... Nós escrevemos para ser lidos, para encontrar respostas e essa é uma resposta". O último escritor francês a ganhar o prémio tinha sido Claude Simon, em 1985.

Este ano, a polêmica declaração de Horace Engdahl, Secretário Permanente da Academia Sueca, norteou os debates sobre os favoritos ao prêmio, visto que menosprezou a literatura norte-americana ao declarar que o país é demasiado insular e ignorante para competir com a Europa como centro literário do mundo. "Eles não traduzem o suficiente e não participam realmente do grande diálogo da literatura", disse Engdahl. "Essa ignorância é limitante", acrescentou. A declaração parece ter esvaziado as possibilidades de autores como Philip Roth, Joyce Carol Oates e Don DeLillo.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Prêmio Nobel de Literatura 2008

A Academia Sueca informou que o autor agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 2008 será anunciado oficialmente na próxima quinta-feira, 9, às 13 horas locais (8 horas de Brasília). O blog Bibliotecário de Babel postou uma lista top-10 de acordo com a casa de apostas britânica Ladbrokes.

(01) Claudio Magris
(02) Adonis
(03) Amos Oz
(04) Joyce Carol Oates
(05) Philip Roth
(06) Don DeLillo
(07) Haruki Murakami
(08) Les Murray
(09)Yves Bonnefoy
(10) Inger Christensen

A lista dá a liderança ao acadêmico e jornalista italiano Claudio Magris, seguido pelo sírio-libanês Adonis e o israelense Amos Oz. A minha aposta particular vai para Salman Rushdie que ocupa o 45º lugar na referida lista, acho que pagaria um bom prêmio. Alguém se aventura com um palpite?

Domingo, Outubro 05, 2008

Boris Vian - Vou Cuspir no Seu Túmulo

Boris Vian - Vou Cuspir no Seu Túmulo - Editora Nova Fronteira - 175 páginas - Publicação 1986 - Tradução de Onézio Paiva (fora de catálogo).

O performático existencialista francês Boris Vian (1920 - 1959), em sua curta, mas produtiva vida, foi escritor, dramaturgo, ator, crítico, músico de jazz e engenheiro, sendo mais conhecido no Brasil pelos seus romances L’écume des jours (A Espuma dos Dias) e J’irai cracher sur vos tombes (Vou Cuspir no Seu Túmulo). Sua arte, sempre de vanguarda, foi muito influenciada pela cultura americana, como é o caso deste romance que segue a linha noir de Raymond Chandler e Dashiel Hammet.

Em 1946, Boris Vian conversava com o editor Jean d´Halluin, quando ouviu deste o seguinte desabafo: "Ah! Se eu pudesse descobrir um best-seller americano!". Imediatamente Vian aceitou o desafio e, durante os quinze dias de suas férias, escreveu um romance carregado de erotismo, violência e racismo. O autor inventado deste romance foi Vernon Sullivan, sendo Boris Vian indicado apenas como "tradutor", mas nem por isso escapou à censura do livro e um processo judicial por infringir os bons costumes e a moral, sendo descartado pela crítica literária como uma cópia de autores americanos, principalmente de Henry Miller. O livro foi interditado e condenado pela justiça com uma multa de 100.000 francos para Boris Vian, mas circulou clandestinamente e trouxe uma fama ainda maior para o autor.

O tema central é a busca de vingança do absurdo personagem Lee Anderson que tem sangue negro, mas pele clara e cabelo louro, pelo assassinato de seu irmão mais novo por ter feito sexo com uma mulher branca. Para alcançar seu objetivo, Lee Anderson se emprega em uma livraria na pacata cidade de Buckton, enquanto se envolve com duas irmãs da alta sociedade preconceituosa local em uma sórdida relação de sexo e violência que acabará de forma trágica para todos. O próprio Boris Vian também, de certa forma, foi vítima desta história, pois morreu antes de completar quarenta anos, após um ataque cardíaco, quando assistia a uma adaptação cinematográfica deste livro.

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

48 Variações Sobre Bach

Franz Rueb - 48 Variações Sobre Bach - Editora Companhia das Letras - 375 páginas - Publicação 2001 - Tradução de João Azenha Jr.

Uma biografia de Johann Sebastian Bach (1685 - 1750) e também análise de algumas de suas composições no contexto histórico de forma criativa e original. Neste livro, o suíço Franz Rueb, autor de livros, peças radiofônicas e documentários sobre a história do teatro e da música, dividiu a narrativa em 48 partes ou capítulos independentes de forma a demonstrar como o entendimento e apreciação sobre as obras de Bach variaram ao longo do tempo, partindo da indiferença e desconhecimento do século XVIII (as composições de Bach permaneceram no ostracismo por 100 anos após sua morte) até a veneração incondicional nos dias de hoje.

Segundo Rueb, Bach teria consciência do valor atemporal de seu trabalho, permanecendo fiel à complexidade de suas composições, independente dos modismos e estilos. Ainda segundo o autor, Bach era um artesão da música que nunca desanimou com as adversidades: a orfandade de pai e mãe aos dez anos de idade, a morte prematura de sua primeira mulher e de dez de seus vinte filhos de dois casamentos. "Há um Bach religioso, ora luterano, ora pietista, ora místico, e há um Bach estético ora matemático ora simbólico, ora iluminista. Nos últimos anos de sua vida era criticado por ser complicado demais, numa época em que os compositores faziam questão de anunciar suas obras como "peças alternativas ao gosto mais simples de hoje, que também podem ser executadas por uma mulher sem grande esforço". No início do século XIX, sua música era um milagre divino imperscrutável. No final do mesmo século, era o deus da música."

O autor conseguiu analisar de forma acessível ao grande público como Bach esgotou o universo diatônico da música ocidental através de algumas de suas maiores obras como a "Paixão Segundo São João", "Paixão Segundo São Mateus", "Missa em Si Menor", "Cravo bem Temperado", "Variações Goldberg" e "Fugas" entre outras.

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

BibliOdissey

Um blog para para quem gosta de ilustrações raras sobre os mais variados temas como botânica, zoologia, folclore, história da arte, mapas ou simplesmente curiosidades que sempre valem a visita. No BibliOdissey encontramos também uma vasta coleção de links sobre sites de ilustrações, museus e bibliotecas. A quantidade e qualidade do material reunido neste blog é tão relevante que já rendeu um livro que fornece detalhes para cada imagem e links para a fonte na Internet: BiliOdissey - "Amazing Archival Images from the Internet".

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira - O Filme

Ninguém melhor do que o próprio José Saramago para avaliar a adaptação cinematográfica, dirigida por Fernando Meirelles, para o seu já clássico romance "Ensaio Sobre a Cegueira". Em entrevista para o Jornal O Globo, publicada em 10/09, Saramago definiu o filme da seguinte forma: "O resultado da adaptação de Fernando Meirelles é mais do que satisfatório. Considero-o até brilhante. O essencial da história está ali, como seria de esperar, mas, sobretudo encontrei na narrativa fílmica o mesmo espírito e o mesmo impulso humanístico que me levaram a escrever o livro. Nem Fernando Meirelles nem eu pensamos que vamos salvar a humanidade, mas somos conscientes de que, quer como artistas, quer como cidadãos, levamos a cabo um trabalho responsável".

Fernando Meirelles que escreve muito bem, como podemos conferir no blog de blindness, definiu o livro da seguinte maneira: "A primeira imagem que me veio ao ler o “Ensaio Sobre a Cegueira” foi a da nossa civilização como uma complexa estrutura, como aquelas que se formam ao acaso no jogo de pega-varetas. De repente, uma vareta é retirada (a visão) e a estrutura toda desaba. Me interessei por esta história porque ela expõe a fragilidade desta civilização que consideramos tão sólida. Em nossa sociedade, os limites do que achamos que é civilizado são rompidos cotidianamente, mas parece que não nos damos conta, a barbárie está instalada e não vemos ou não queremos ver. Para mim, era sobre isso o livro. A metáfora da cegueira branca ilustra nossa falta de visão. “Eu não acho que ficamos cegos”, diz um personagem. “Acho que somos cegos. Cegos que podem ver, mas não vêem”. Por quanto sofrimento precisamos passar para que consigamos abrir os olhos e ver? Essa foi a primeira questão que me coloquei ao fechar a última página".

Acredito que nenhum cineasta poderia ter sido capaz de converter a prosa Saramaguiana de maneira integral para as telas, mas Fernando Meirelles definitivamente chegou bem perto. Ele conseguiu mostrar os extremos presentes no homem, desde o egoísmo que leva à barbárie e degradação, até a esperança e solidariedade que Julianne Moore interpretou de maneira impecável, citando o próprio livro: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".

As atuações de Gael García Bernal como o líder ditador da Ala 3 do Hospital de cegos e de Danny Glover como o velho da venda preta são perfeitas (vale lembrar que, assim como no livro, os personagens não são identificados por nomes para ressaltar a perda de identidade original após a epidemia de cegueira). A brasileira Alice Braga também não compromete em meio ao elenco de celebridades do nível de Juliane Moore.

A trilha sonora foi outro acerto do diretor, pois a escolha do grupo mineiro Uakti destacou o caráter de indefinição geográfica e temporal do livro. Como Fernando Meirelles já tinha comentado em seu blog: "a idéia de fazer a trilha com o Uakti foi justamente trabalhar com timbres desconhecidos, com o intuito de colocar o espectador num universo sonoro tão novo quanto o mundo da cegueira. Orquestra, quartetos de cordas, pianos ou violões, por serem muito usados no cinema, nos falam de emoções de um mundo mais conhecido, e neste filme a música deveria levar o espectador para outro lugar".

O filme iniciou hoje no circuito comercial em 95 salas de cinema espalhadas por todo o território brasileiro, mas só estréia no mercado americano no dia 26/09 e em Portugal no dia 13 de novembro.

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Eça de Queirós - Os Maias

Eça de Queirós - Os Maias - Ediouro - 694 páginas - Publicação 2000.

Eça de Queirós (1845 - 1900) é considerado o maior escritor em prosa da língua portuguesa, tendo estabelecido o elo entre tradição e modernidade através de uma visão crítica da sociedade de seu tempo, principalmente nos romances da fase Realista como "O Crime do Padre Amaro" (1875), "O Primo Basílio" (1878), "A Relíquia" (1887) e "Os Maias" (1888). Segundo o crítico Massaud Moisés, nestas obras "Eça coloca-se sob a bandeira da República e da Revolução e passa a escrever em coerência com as idéias aceitas, obras de combate às instituições vigentes (Monarquia, Igreja e Burguesia) e de ação e reforma social". A última fase de Eça é marcada por um retorno aos valores da tradição portuguesa com os romances "A Ilustre Casa de Ramires" (1900) e "A Cidade e as Serras" (1901, póstumo), onde, sem abdicar do estilo realista e da fina ironia, apresenta temas mais otimistas e de caráter patriótico.

Em "Os Maias" Eça desenvolve, mais uma vez, um tema difícil ao descrever o caso um tanto quanto "folhetinesco" de incesto entre Carlos da Maia, último descendente de quatro gerações da família Maia, e sua irmã, dada como desaparecida, Maria Eduarda. Carlos é criado pelo avô Afonso após o trágico caso do suicídio de seu pai que foi abandonado pela mulher Maria Monforte. É interessante notar como neste, e em outros romances de Eça, as personagens femininas estão sempre caracterizadas com uma forte carga de pecado e destruição.

Ao longo da narrativa são apresentados detalhes do cotidiano da alta sociedade de Lisboa e a decadência da aristocracia no final do século XIX. É justamente nesta descrição e na criação de personagens inesquecíveis que se encontra o grande mérito do romance. Seja na ironia corrosiva do melhor amigo de Carlos da Maia, o impagável João da Ega (talvez uma representação do próprio Eça), através do covarde e mentiroso Dâmaso Salcede que reúne todos os vícios da sociedade e que acaba traindo a amizade de Carlos ao se sentir rejeitado ou, em contrapartida, do correto e digno inglês Craft, um homem rico e de extremo bom gosto, representante da superioridade econômica e cultural britânica da época.

Este romance, entre outros de Eça de Queirós, está disponível para download no excelente site do Domínio Público que é sempre uma boa dica.

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar - Correspondência Incompleta - Instituto Moreira Salles e Aeroplano Editora - 314 páginas - Publicação 1999 - Organização de Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda

Este livro reúne uma seleção de cartas trocadas entre a poeta e tradutora Ana Cristina Cesar (1952 - 1983), ou simplesmente Ana C., e suas amigas e professoras Clara de Andrade Alvim, Heloisa Buarque de Hollanda, Maria Cecilia Londres Fonseca e Ana Cândida Perez entre 1976 e 1980, quando Ana Cristina fazia na Universidade de Essex, o seu mestrado em "Theory and Practice of Literary Translation". Os textos demonstram uma relação forte de amizade, tanto no plano intelectual e artístico quanto afetivo.

O trecho que selecionei abaixo é de uma carta para Ana Candida Perez, com quem Ana traduziu do inglês, poemas de autoras contemporâneas como Sylvia Plath e Katherine Mansfield e onde ela própria admite achar cartas e biografias mais arrepiantes que a própria literatura. Nesta carta encontramos um pouco de todo o universo de Ana Cristina: a paixão pela literatura e muitos planos para o futuro, o amor de menina pela vida e também, infelizmente, o gosto amargo da depressão que acabaria levando-a ao suicídio em 1983 com apenas 31 anos.

29/05/1980

Candida, darling,

Tua carta me consola, me aquece, sinto uma paz e não quero dizer nada, quero ficar quieta com esse calor e mais nada. Te sinto perto e terna. As teorias recuam, assim como uma sitaxe meio delirante que às vezes me ataca a cabeça em mania. Fico horas no meu quarto e gostando e inventando coisas para fazer. Entrei numa de literatura, é o meu brinquedo. Depois da Emily Dickinson, estou em fase de Katherine Mansfield, leio tudo, inclusive biografias ordinárias (que leio arrepiada, I must confess que para dizer a verdade estou achando cartas e biografias mais arrepiantes que a literatura) e fico sonhando com essa personagem. Também escrevo um caderno, quero fazer um livro que é prosa, que é quase um diário, que conta grandes coisas se passando nos quartinhos. Penso na Grécia incessantemente, e como por destino caiu nas minhas mãos a poesia do Cafavis, numa bonita tradução espanhola. Vou à Grécia sim, mas não antes e sim depois da invasão turística. Medito na paixão que não está doendo. Não estou com pudor de virar uma "literata" porque é assim que afago e cuido da paixão. Sendo assim não vou ficar "literata". Muitos sentimentos passaram, acho que talvez o que mais incomode, porque é muito insinuante, seja uma certa vergonha de perder o controle sobre o desespero. Escrevi uma carta rasgada para [...] e não tive resposta. Depois de três semanas passei dias elaborando um cartão que aliviasse o meu pathos. Agora não estou derramando, esse pathos é meu, e sinto que fiz uma viagem e voltei. Entrei numa do tal título, estou fazendo os trabalhos sem sofrimento, é muito bom ficar ocupada - a não ser que faça sol, mas esse recuou por uns dias. Às vezes tenho grandes ânsias de outras terras, mas não gosto de viajar para nowhere sem ninguém à vista. Estou transando leve com o Chris de quem reclamei. Aliás não era dele que eu devia estar reclamando e sim da minha depressão, meu corpo querendo outra coisa. Estamos transando leve, moramos na mesma casa. Ele é bonito como um Apolo e tem duas coisas que gosto num homem, uma certa brutalidade, uma fraqueza que me dá a segurança de eu poder dizer o que me passa na cabeça, e um gosto pela sacanagem, um olho sacana, uma coisa meio devassa. O mais engraçado é que tudo isso era absolutamente insuspeitado, me espanto. Mas de leve. Estávamos cada um pro seu lado, em andares diferentes, e naturalmente vamos cada um pro seu lado, esse é um pressuposto de leveza (...)."

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Missy Higgins


Dica da Renata Miloni, editora da revista de literatura eletrônica Malagueta, a australiana Missy Higgins é uma jovem cantora e compositora de apenas 25 anos, mas com criações maduras, como no exemplo abaixo da bela "Going North" da qual ficamos apaixonados logo na primeira audição e quem não acredita é só checar no vídeo abaixo, gravado na livraria Borders de Boston.

Going North

I wanna dance the tango with chance
I wanna ride on the wire
Cos nothing gets done with dust in your gun
And nobody respects a liar
So goodbye for a while I'm off to explore
Every boundary and every door
Yeah I'm going north

I wanna know where children would go
If they never learnt to be cool
Cos nothing's achieved when pushed up a sleeve
Till nobody thinks you're a fool
So goodbye for a while I'm out to learn more
About who I really was before
Yeah I'm going north

Up where the hunted hide with ease
Under the arms of eye-less trees
Up where the answers fall like leaves
Oh and your love is all I need
Yeah I'm going north

Missy Higgins 2007.

Domingo, Agosto 17, 2008

Johannes Vermeer (1632 - 1675)

Moça com brinco de pérola
Óleo em tela 46.5 x 40 cm - Museu Mauritshuis, The Hague

O meu amigo Barros, também colega da área de engenharia, publicou uma postagem bem completa sobre Vermeer que é o pintor holandês mais famoso do século XVII depois de Rembrandt. Através desta postagem fiquei conhecendo a página Essential Vermeer que apresenta informações técnicas e biográficas extremamente detalhadas além de recursos interativos de análise das telas, um dos melhores sites que já visitei sobre pintura.

Para ficar ainda no campo da literatura, o livro do irlandês Frank Wynne, resenhado hoje no caderno Prosa e Verso do jornal O Globo, traça a história do falsificador Hans van Meegeren (1889 - 1947), um artista frustrado, adorador da arte do século XVII num momento em que a pintura passava por uma revolução, nas primeiras décadas do século XX. Rejeitado por seu conservadorismo, ele ganhou cerca de US$ 65 milhões pintando telas com a técnica da idade de Ouro holandesa e vendendo-as como se fossem de Johannes Vermeer, cuja pequena quantidade de obras e o pouco conhecimento de sua vida facilitaram a fraude.

Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Turning the Pages - British Libray

A Biblioteca Britânica desenvolveu um sistema simulador 3D on line chamado "Turning the Pages (clique aqui)" para consulta de livros e documentos raros através do seu site. Este sistema, utilizando-se da transmissão de dados Internet em banda larga e a instalação de um plugin Shockwave disponível para download no próprio site, permite a visualização do acervo digitalizado, incluindo efeito de manipulação das páginas e ampliação dos detalhes. A consulta é valorizada pela sensação de realidade virtual e temos a impressão de folhear as obras, com destaque para os recursos que reproduzem os materiais especiais usados nas ilustrações. Conforme a página é virada com o mouse, um efeito de luz destaca a textura e acabamento.

Para citar somente algumas das obras disponíveis para consulta: caderno de anotações de William Blake com poemas e desenhos, diário musical de Mozart com originais de várias partituras, rascunhos de Leonardo da Vinci e original de Lewis Carroll para Alice no País das Maravilhas, incluindo ilustrações do próprio autor. (detalhe da foto) e muitas outras ilustrações e livros raros que valem cada minuto da visita. Imperdível.

Quinta-feira, Julho 31, 2008

João Ubaldo Ribeiro - Prêmio Camões 2008

João Ubaldo Ribeiro dispensa apresentações, resenhas ou comentários. Dispensa até mesmo prêmios literários, mas acabou ganhando mais um para a sua coleção. Desta vez, trata-se do conceituado prêmio Camões, versão 2008, anunciado no dia 26 de Julho, em Lisboa. Ao comentar a sua premiação João Ubaldo não poderia ter sido mais simples e direto: "Para ser sincero, eu não acho nada demais. Acho que ganhei porque mereço", disse, para em seguida completar: "Olha eu poderia dizer agora toda uma hemorragia verbal, dizendo o quanto estou surpreendido por ter ganho, mas não vou fazer isso. Eu ganhei porque eu mereci".

O prêmio Camões foi criado pelos governos de Portugal e Brasil para os autores que, pelo conjunto de sua obra, tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. Segue abaixo a relação completa de ganhadores desde sua criação:

1989 - Miguel Torga (Portugal, 1907-1994)

1990 - João Cabral de Melo Neto (Brasil, 1920-1999)

1991 - José Craveirinha (Moçambique, 1922-2003)

1992 - Vergílio Ferreira (Portugal, 1916-1996)

1993 - Rachel de Queiroz (Brasil, 1910-2003)

1994 - Jorge Amado (Brasil, 1912-2001)

1995 - José Saramago (Portugal, 1922)

1996 - Eduardo Lourenço (Portugal, 1923)

1997 - Pepetela (Angola, 1941)

1998 - António Cândido (Brasil, 1918)

1999 - Sophia de Mello Breyner (Portugal, 1919-2004)

2000 - Autran Dourado (Brasil, 1926)

2001 - Eugénio de Andrade (Portugal, 1923-2005)

2002 - Maria Velho da Costa (Portugal, 1938)

2003 - Rubem Fonseca (Brasil, 1925)

2004 - Agustina Bessa-Luís (Portugal, 1922)

2005 - Lygia Fagundes Telles (Brasil, 1923)

2006 - José Luandino Vieira (Angola, 1935)

2007 - António Lobo Antunes (Portugal, 1942)

2008 - João Ubaldo Ribeiro (Brasil, 1941)

Domingo, Julho 20, 2008

Sophia de Mello Breyner Andresen

Um nome já consolidado na poesia contemporânea, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004), recebeu a mais importante distinção literária da língua portuguesa, o Prêmio Camões, em 1999. Segundo Massaud Moisés em "A literatura portuguesa": "O lirismo de Sophia é fruto de uma invulgar sensibilidade feminina que parece brotar das mesmas nascentes utilizadas pelos poetas simbolistas. Sempre disposta a "olhar dentro das coisas", sua intuição se avigora na razão direta das profundezas que alcança, mas jamais se intelectualiza ou se desfeminiza. Ao contrário, "encantada" pela aura mágica das coisas que contempla, seu universo poético abrange vastidões cósmicas, a principiar do mar, seu motivo preferido".

Sophia provoca uma identificação imediata do leitor com a sua poesia, que é pura imagem, luz e mar. É muito fácil se apaixonar pela pureza da palavra que ela utiliza tão bem. A própria autora definiu bem a essência do seu trabalho no seguinte trecho, retirado da entrevista a Maria Maia no Jornal de Poesia de Lisboa em 10 de Maio de 2000 : "Eu acho que o melhor momento da escrita do poema é quando as pessoas começam a sentir as palavras moverem-se sozinhas, sabe? E a brincarem umas com as outras. Andar a procura da rima, andar a procura do tempo, a procura da consonância, não é?".

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Terça-feira, Julho 15, 2008

A Consistência dos Sonhos Online

A "Consistência dos Sonhos" é uma exposição que está ocorrendo atualmente no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, sobre a obra literária de José Saramago e que recorre ao uso de ferramentas digitais e audiovisuais para exibir um conjunto de documentos inéditos do espólio do autor.

A organização da exposição segue três grandes núcleos:

A Semente, O Fumo das Palavras, Passos na Penumbra, Ofício de Escritor, A Voz da Escrita, A Condição (in)Humana são os temas do primeiro núcleo, com extensa documentação inédita referente às origens do escritor e seguindo uma linha cronológica, de 1922 até hoje.

A segunda parte, A Consciência do Mundo, A Atribuição do Nobel, Música e Palavras, com uma seleção de peças, fotografias, manuscritos de adaptações teatrais, partituras, cartazes e gravações, entre outros documentos.No terceiro núcleo apresenta‐se um conjunto documental que inclui correspondência do autor e análises críticas.

Enquanto aguardamos que esta exposição chegue aqui no Brasil, tenho uma excelente notícia, podemos visitá-la também virtualmente, online, em uma iniciativa da Fundação César Manrique.