sexta-feira, agosto 19, 2016

20 conselhos criativos de grandes autores para escrever um bom romance

Detalhe de René Magritte - "La lectrice soumise"
Como nos ensina o velho ditado popular, "se conselho fosse bom não se dava", e é certo que nenhum desses escritores de várias épocas precisou de qualquer orientação para desenvolver a sua própria técnica de escrita criativa, logo não espere ter qualquer ganho de qualidade nos seus textos à partir da lista abaixo. Alguns dos conselhos são dolorosamente óbvios e outros até mesmo conflitantes entre si, mas sempre revelando algo do espírito de cada autor e, no mínimo, fazendo refletir. Um site muito bom e com extenso material sobre o tema é o Advice to Writers, vale a visita. Bem, escrever neste nível não é tarefa fácil e, por isso mesmo, a minha citação predileta é a última que resume bem a questão. E você caro leitor, qual é a sua preferida?

(01) "Tenha algo a dizer"
        (Arthur Schopenhauer)

(02) "Elimine toda palavra supérflua." 
        (Ernest Hemingway)

(03) "Minta sempre." 
        (Juan Carlos Onetti)

(04) "Não espere pela inspiração." 
        (Stendhal)

(05) "A primeira condição de quem escreve é não aborrecer." 
        (Machado de Assis)

(06) "Uma sentença não deve ter mais do que dez ou doze palavras." 
        (V.S. Naipaul)

(07) "Tente retirar aquelas partes que as pessoas pulam." 
        (Elmore Leonard)

(08) "Não me diga que a Lua está brilhando; mostre-me o reflexo da luz num copo quebrado." 
        (Anton Tchekov)

(09) "Você nunca tem que mudar nada que se levantou no meio da noite para escrever." 
        (Saul Bellow)

(10) "Não desperdice tempo tentando agradar pessoas."
        (Stephen King)

(11) "Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo." 
        (Henry Miller)

(12) "Cada frase deve fazer uma de duas coisas, revelar o personagem ou avançar a ação." 
        (Kurt Vonnegut)

(13) "Tente não escrever frases que absolutamente qualquer um poderia escrever." 
        (Martin Amis)

(14) "Evite a vaidade, a modéstia, a pederastia, a falta de pederastia, o suicídio." 
        (Jorge Luis Borges)

(15) "Trabalhe num computador desconectado da internet." 
        (Zadie Smith)

(16) "Se você se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo." 
        (Gabriel G. Márquez)

(17) "Termine tudo o que você começar." 
        (Colm Tóibín)

(18) "Abandone a ideia de que você sequer irá terminar." 
        (John Steinbeck)

(19) "Apenas maus escritores pensam que seu trabalho é realmente bom." 
        (Anne Enright)

(20) "Existem três regras para escrever um romance. Infelizmente ninguém sabe quais elas são.” 
        (Somerset Maugham)

terça-feira, agosto 16, 2016

Elena Ferrante - História do novo sobrenome

Elena Ferrante - História do novo sobrenome: juventude - Série Napolitana, segundo romance - Editora Globo, Biblioteca Azul - 472 páginas - Tradução: Maurício Santana Dias - Lançamento no Brasil 06/04/2016.

Este segundo volume da série napolitana se enquadra perfeitamente naquele tipo de livro que relutamos em interromper a leitura e que nos faz avançar de capítulo em capítulo, madrugada a dentro, sem conseguir parar mas, ao mesmo tempo, com pena quando chegamos ao final. As amigas e personagens principais, Lila e Lenu, continuam a sua difícil jornada de amadurecimento à partir de uma sociedade regida pela pobreza, violência e códigos masculinos. O final do primeiro volume coincide com o casamento da rebelde e brilhante Lila, um casamento sem paixão, mas que oferecia a promessa de uma vida mais confortável já que a família do noivo, Stefano Carracci, tinha uma posição de destaque no comércio do bairro e uma condição financeira invejável, apesar da origem duvidosa. Lila logo irá descobrir (na noite de núpcias) que terá de pagar um preço muito alto ao abrir mão de seus sonhos da adolescência de continuar os estudos. Já Elena Greco, ou Lenu, como é chamada no bairro, consegue persistir em seus estudos o que acabará funcionando como um processo de transformação e libertação da personagem na sua aspiração de se tornar uma escritora famosa (me pergunto o quanto de autobiográfico a misteriosa Elena Ferrante terá inserido neste romance, ainda superior ao primeiro da série).

"História do novo sobrenome" cobre o período de juventude das duas protagonistas dos dezessete até os vinte e dois anos. A narrativa é mais uma vez feita em primeira pessoa por Lenu de forma retrospectiva à partir de suas lembranças e, no caso das partes de Lila, com base em cadernos escritos por ela neste período (ver trecho abaixo), como se fossem diários, uma fórmula que permite uma certa onisciência e onipresença à narradora, mantendo a fórmula da primeira pessoa o que sempre garante um teor confessional e de maior credibilidade ao texto, principalmente para o público feminino que certamente se identificará com alguns trechos. Desta forma, mesmo quando as duas estão afastadas ficamos conhecendo em detalhes os conflitos de Lila no casamento e as suas ações de contestação. Mais do que em outros romances, é preciso muito cuidado para não introduzir spoilers em uma resenha sobre esta autora e assim estragar o prazer de descoberta do leitor na fluência do texto e reviravoltas da trama.
"Na primavera de 1966, em um estado de grande agitação, Lila me confiou uma caixa de metal que continha oito cadernos. Disse que não podia mais guardá-los em casa, temia que o marido pudesse lê-los. Levei a caixa comigo sem fazer comentários, afora uma menção irônica ao excesso de barbante com que o atara. Naquela fase, nossas relações estavam péssimas, mas parecia que essa impressão era apenas minha. (...) Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei. Mas assim que me vi no trem, desatei o barbante, tirei os cadernos da caixa e comecei a ler. Não era um diário, embora ali figurassem relatos minuciosos de fatos de sua vida a partir do final da escola fundamental. Mais parecia o rastro de uma teimosa autodisciplina de escrita. As descrições abundavam: um galho de árvore, os pântanos, uma pedra, uma folha de nervuras brancas, as panelas de casa, as várias peças da maquininha de café, o braseiro, o carvão e o atiçador, um mapa detalhadíssimo do pátio, o estradão, o esqueleto de metal enferrujado além dos pântanos, os jardinzinhos e a igreja, o corte da vegetação à beira da ferrovia, os edifícios novos, a casa dos pais, os instrumentos que o pai e o irmão usavam para consertar sapatos, seus gestos quando trabalhavam, sobretudo as cores, as cores de cada coisa em diversas fases do dia. Mas não havia apenas frases descritivas. Aqui e ali surgiam palavras isoladas em napolitano e italiano, às vezes contornadas por um círculo, sem comentário. E exercícios de tradução do latim e do grego. E trechos inteiros em inglês sobre as lojas do bairro, as mercadorias, o carreto lotado de frutas e verduras que Enzo Scanno levava de rua em rua todos os dias, puxando o burro pelo cabresto." (págs. 11 e 12)
Temas da época do pós-guerra com relação à política interna italiana e internacional são abordados pela autora como parte do processo de formação intelectual de Lenu. Principalmente a influência do fascismo e comunismo nas desigualdades e transformações da sociedade napolitana. Mas o melhor do texto está mesmo na caracterização das personagens e a sua adaptação (ou fuga) ao meio social em que vivem, um bom exemplo é a tentativa de Lenu de esconder o seu dialeto napolitano e a forma de falar nos ambientes acadêmicos em que passa a circular em Pisa, longe de Nápoles. A lenta transformação das mulheres "consumidas pelo corpo dos maridos" por conta de uma cultura machista e do conformismo das próprias mulheres também é, mais uma vez, um ponto de destaque no texto de Elena Ferrante.
"Naquela ocasião, ao contrário, vi nitidamente as mães de família do bairro velho. Eram nervosas, eram aquiescentes. Silenciavam de lábios cerrados e ombros curvos ou gritavam insultos terríveis aos filhos que as atormentavam. Arrastavam-se magérrimas, com as faces e os olhos encavados, ou com traseiros largos, tornozelos inchados, as sacolas de compra, os meninos pequenos que se agarravam às suas saias ou que queriam ser levados no colo. E, meu Deus, tinham dez, no máximo vinte anos a mais do que eu. No entanto pareciam ter perdido os atributos femininos aos quais nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com as roupas, com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com o trabalho doméstico? Com as gestações? Com os espancamentos?" (pág. 99)
As amigas dividem a mesma paixão pelo jovem Nino Sarratore em uma continuação das rivalidades entre as duas que vem desde a infância, pois ele é filho de Donato Sarratore, ferroviário, poeta, jornalista e mulherengo, que morava no mesmo bairro de Nápoles antes da divulgação de um escândalo envolvendo a relação que mantinha com a amante vizinha, fato que o forçou a se mudar com toda a família. Nino, que tem um papel fundamental em boa parte do romance, volta a se encontrar com Lila e Lenu durante um verão nas praias de Ischia, uma época intensa que marcará o final da ingenuidade da juventude, afetando as suas vidas para sempre. 

segunda-feira, agosto 15, 2016

Poesia Traduzida no Brasil


Foi lançado esta semana o site Poesia Traduzida no Brasil que tem como objetivo a divulgação online de um grande catálogo de publicações sobre poesia traduzida em nosso país. Trata-se de uma excelente iniciativa para apoio às pesquisas sobre literatura e também para informação do público em geral. Adicionalmente o site também disponibiliza cerca de 120 perfis biográficos de tradutores de poesia além de outros projetos relacionados à história da tradução, da cultura e do livro no Brasil.

A qualidade do material cadastrado é inegável, cobrindo as décadas de 1960 a 2000 e resultado de um projeto de pós-doutorado desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Literatura (Póslit) da Universidade de Brasília (UnB) sob a supervisão da Profª. Drª. Germana Henriques Pereira e com o apoio do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD) da Capes. Convido todos os amigos a visitarem o site organizado por Marlova Aseff, Doutora em Estudos da Tradução e em Literatura, para maiores informações e, principalmente, ajudarem na divulgação deste importante trabalho.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Elena Ferrante - A amiga genial

Elena Ferrante - A amiga genial: infância, adolescência - Série Napolitana, primeiro romance - Editora Globo, Biblioteca Azul - 336 páginas - Tradução: Maurício Santana Dias - Lançamento no Brasil 26/05/2015.

O preconceito é mesmo uma coisa terrível e preciso admitir que mantive uma certa má vontade com relação a este livro durante um bom tempo. Em parte devido ao estrondoso sucesso de vendas na Itália e em todo o mundo, me fazendo compará-lo com outros best sellers do passado que sempre me mostraram o quanto as grandes vendas nem sempre representam uma garantia de qualidade literária. Um pouco também pela duvidosa estratégia de marketing da autora em manter a sua identidade em segredo através do pseudônimo de Elena Ferrante — existia inclusive na Itália a suspeita de que fosse um homem — concedendo raras entrevistas apenas por e-mail e mediadas por suas editoras (leia aqui a mais recente para a prestigiada revista New Yorker). Finalmente, vejam vocês o que é o preconceito, até mesmo o projeto gráfico apelativo das capas de seus romances (no Brasil e em outros países) identificando-o a um público mais juvenil, uma espécie de livro para moças moderno. Tudo isso me fazia postergar a leitura de Elena Ferrante. No entanto, após conhecer algumas resenhas elogiosas independentes, não apenas de divulgação publicitária e, principalmente, o fato da autora ter sido finalista da versão internacional do Man Booker Prize de 2016, ao lado de nomes consagrados como José Eduardo Agualusa, Orhan Pamuk e até mesmo Raduan Nassar, decidi dar uma olhada mais de perto no seu trabalho e não consegui parar de ler "A amiga genial", muito bom mesmo.

Trata-se do primeiro volume de uma ambiciosa tetralogia sobre a amizade de duas personagens, Elena Greco e Lila Cerullo, que nasceram em 1944 e cresceram juntas em um subúrbio de Nápoles. As duas têm personalidades bem contrastantes, enquanto Elena na infância era uma "bonita menina de caracóis louros" que gostava de se exibir e conquistar as pessoas por sua delicadeza, Lila estava "sempre desgrenhada, suja com cascas de ferida nos joelhos e cotovelos que nunca saravam", mas Lila tinha uma inteligência muito superior à das outras colegas de escola, inclusive Elena que se esforçava sempre para superá-la. No entanto, uma característica as aproximava, o amor pelos livros e a aspiração de se tornarem escritoras, um sonho incompatível com a realidade das meninas, cercadas de ignorância e preconceito em um ambiente de pobreza no pós-guerra da Itália dos anos cinquenta. Os outros muitos personagens são os moradores da vizinhança: a família do marceneiro, da viúva louca, do verdureiro, a família Solara proprietária do bar e confeitaria, todos representando uma amostra da sociedade da época que oscilava entre o fascismo, o comunismo e a temida máfia italiana, a Camorra.
"Não tenho saudade de nossa infância cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, dentro e fora de casa, todos os dias, mas não me lembro de jamais ter pensado que a vida que nos coubera fosse particularmente ruim. A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós. Claro, eu teria gostado dos modos gentis que a professora e o pároco defendiam, mas sentia que aqueles modos não eram adequados a nosso bairro, mesmo para quem era do sexo feminino. As mulheres brigavam entre si mais do que os homens, se pegavam pelos cabelos, se machucavam. Fazer mal era uma doença. Desde menina imaginei animaizinhos minúsculos, quase invisíveis, que vinham de noite ao bairro, saíam dos poços, dos vagões de trem abandonados para lá da plataforma, do mato malcheiroso chamado fedentina, das rãs, das salamandras, das moscas, das pedras, da terra e entravam na água, na comida e no ar, deixando nossas mães e avós raivosas como cadelas sedentas. Estavam mais contaminadas que os homens, porque estes ficavam furiosos continuamente, mas no fim se acalmavam, ao passo que as mulheres, que eram aparentemente silenciosas, conciliadoras, quando se enfureciam iam até o fundo de sua raiva, sem jamais parar." (págs. 29 - 30)
Neste primeiro romance da série, a narrativa é totalmente desenvolvida em primeira pessoa por Elena Greco que conta em retrospecto e de forma linear toda a trajetória de vida das amigas e do bairro onde moravam em Nápoles, durante a infância e parte da adolescência, à partir de um gancho que ocorre no presente, o misterioso desaparecimento de Lila. Com a passagem do tempo, ocorrem períodos de afastamento e novas aproximações. As meninas se separam logo após o ensino básico fundamental porque a família de Lila não tem recursos para mantê-la no ginásio. Elena, apesar de também ser muito pobre, consegue continuar estudando, uma forma de possível ascensão social na época. Neste período, enquanto Elena sofre com as inseguranças da idade, como espinhas e aversão ao próprio corpo, Lila passa por uma transformação inversa, ganhando formas de mulher e se tornando uma jovem atraente e desejada por todos os rapazes da vizinhança. Esta inversão de papéis acontece todo o tempo durante o romance, alternando momentos de felicidade e sofrimento das duas amigas, sempre com uma visão feminina e mostrando as barreiras impostas às mulheres em uma sociedade com códigos masculinos.
"Nos primeiros meses vivi minha nova vida escolar em silêncio, os dedos sempre na testa e nas faces devastadas de acnes. Sentada numa das filas do fundo, de onde mal enxergava os professores e o que eles escreviam na lousa, eu era uma desconhecida para minha colega de banco, assim como ela era desconhecida para mim. Graças à professora Oliviero tive logo os livros de que precisava, sujos, usadíssimos. Impus-me uma disciplina aprendida na escola média: estudava a tarde toda até a hora do jantar e, depois, das cinco da manhã às sete, quando era a hora de ir. Na saída de casa, carregada de livros, frequentemente me acontecia de encontrar Lila, que corria à sapataria para abrir a loja, onde varria, lavava e arrumava tudo antes de o pai e o irmão chegarem. Ela me perguntava sobre as matérias que eu veria naquele dia, sobre o que eu tinha estudado, e queria respostas precisas. Se eu deixasse de responder direito, ela me cumulava de questões que me angustiavam por talvez não ter estudado o suficiente, por não ser capaz de responder aos professores assim como não era capaz de responder a ela. Em certas manhãs frias, quando me levantava ao alvorecer e repassava as lições na cozinha, tinha a impressão de que, como sempre, eu estava sacrificando o sono quente e profundo da manhã para fazer bonito diante da filha do sapateiro, e não com os professores da escola dos ricos. Até o café da manhã era apressado por culpa dela. Engolia o café com leite e corria para a rua só para não perder nem um metro do trajeto que fazíamos juntas." (págs. 150 - 151)
Não é fácil resumir e escolher apenas algumas partes para destacar, tantas são as reviravoltas da trama e a quantidade de personagens. Neste caso ajuda muito a pequena lista com o resumo das famílias no início do volume. Outra dificuldade da resenha é indicar um autor contemporâneo de estilo similar, sinceramente não consegui encontrar nenhum na atualidade. Uma coisa é certa, o bom e velho romance clássico de formação está de volta com Elena Ferrante, seja ela quem for. Um livro muito bem escrito e difícil de largar até o final. No meu caso não tive outra alternativa que não fosse mergulhar na segunda parte desta "Série Napolitana", já traduzido e publicado no Brasil como "História do novo sobrenome".

quinta-feira, julho 28, 2016

Svetlana Aleksiévitch - A guerra não tem rosto de mulher

Svetlana Aleksiévitch - A guerra não tem rosto de mulher - Editora Companhia das Letras - 392 páginas - Tradução direta do russo de Cecília Rosas - Lançamento no Brasil 17/06/2016 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Uma frase famosa, atribuída a George Orwell, nos ensina que: “A história é escrita pelos vencedores”, é verdade, mas também sempre por homens e sobre os homens. Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura 2015, tentou resgatar o testemunho das vozes femininas, através de depoimentos de soldadas soviéticas que lutaram na Segunda Grande Guerra, e não somente como enfermeiras, uma versão mais tradicional da participação feminina em guerras, mas sim atuando na resistência e na frente de batalha,  como franco-atiradoras, pilotando tanques e até mesmo aviões de combate. Estima-se que no Exército Vermelho lutaram aproximadamente 1 milhão de mulheres. Para elas, havia não somente o medo de morrer, mas a angústia de precisar matar e destruir, nada mais contrário à essência de criação da mulher, a própria geradora da vida.

No entanto, durante sete anos, dezenas de viagens e centenas de fitas gravadas, Svetlana Aleksiévitch não escreveu um livro somente sobre a guerra, mas principalmente sobre o comportamento do ser humano na guerra, ela se define como uma "historiadora da alma", perseguindo não "os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano". Ela tentou entender "qual a diferença entre morte e assassinato e onde está a fronteira entre o humano e o desumano. Como uma pessoa fica a sós com essa ideia de que pode matar outra?" Um livro que poderia ser classificado como jornalismo, já que é baseado em entrevistas com as ex-combatentes, mas assim como "Vozes de Tchernóbil" eleva-se à categoria da mais pura e fascinante literatura.
"Certa vez, uma mulher que havia sido piloto recusou-se a se encontrar comigo. Por telefone, explicou: 'Não posso... Não quero lembrar. Passei três anos na guerra... E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita... Quando meu futuro marido me pediu em casamento... Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag... Ele disse: 'A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo'. Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele! Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso — casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos... Olhe para mim... Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher: me dê flores, flerte comigo, diga palavras bonitas. Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele... Queria bater... Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes... E eu mesma não acreditei que estava dizendo: 'Sim, eu me caso com você'". O ser humano é maior que a guerra - Diário do Livro 1979 - 1985 (pág. 16)
Em cada entrevista, a autora notava estar diante de duas pessoas bem diferentes, uma jovem e idealista que existia durante a guerra e outra velha e desiludida que muitas vezes tentava esquecer o passado. A necessidade de esquecer não representava somente uma defesa psicológica contra o sofrimento, mas também uma tentativa de adaptação à vida "normal" uma forma de escapar ao preconceito cruel da sociedade da época que não aceitava que aquelas jovens que passaram por tantos horrores pudessem casar e ter filhos, simplesmente como as outras mulheres. Portanto, no retorno à casa (quando conseguiam retornar) tinham que conviver para sempre com duas realidades. "Dois mundos diferentes, duas vidas diferentes. Depois de aprender a odiar, era preciso aprender a amar de novo. Lembrar dos sentimentos esquecidos. De palavras esquecidas."
"Os combates eram duros. Estive em confrontos corpo a corpo... É um horror... Não é para um ser humano... Batem, enfiam a baioneta, enforcam-se uns aos outros. Os ossos se quebram. Urros, gritos. Gemidos. E aquele estalo! Não dá para esquecer. O estalo dos ossos... A gente escuta o crânio estalando. Rachando... Até para a guerra isso é um pesadelo, não tem nada de humano aí. (...) Logo depois de um ataque, era melhor não olhar para o rosto de ninguém: parecia outro, não era o rosto habitual das pessoas. Não conseguíamos erguer os olhos uns para os outros. Nem para as árvores olhávamos. (...) Voltei da guerra e fiquei bastante doente. Passei muito tempo indo de um hospital a outro, até que fui parar nas mãos de um velho professor. Ele passou a cuidar do meu tratamento... Tratou de mim mais com palavras do que com remédios, me explicou qual era minha doença. Disse que, se eu tivesse ido para o front com dezoito, dezenove anos, meu organismo já estaria fortalecido, mas como fui parar lá com dezesseis — é muito cedo —, fiquei fortemente traumatizada. 'Claro, uma coisa é tomar remédios', ele explicou, 'isso pode curar você, mas se quiser recuperar a saúde, se quiser viver, meu único conselho é: case e tenha muitos filhos. Só isso pode te salvar. A cada filho o organismo vai se restabelecendo.'" Entrevista com Olga Iákovlevna Oméltchenko, enfermeira-instrutora de uma companhia de fuzileiros (págs. 180 - 189)
Como sabemos e constatamos mais uma vez com este grande livro, a realidade pode exceder a ficção mais delirante. É o que sentimos ao ler os depoimentos dessas mulheres e suas histórias de vida e superação, muita dor e sofrimento, mas também esperança de que o ser humano possa um dia aprender que "não pode existir um coração para odiar e outro para amar", o coração deve ser um só.

quarta-feira, julho 27, 2016

Longlist do Man Booker Prize 2016


Divulgada a Longlist com os 13 finalistas da edição 2016 do Man Booker Prize. Este ano vai ser difícil algum autor levar o prêmio de J.M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura 2003 e único escritor que já ganhou por duas vezes o Man Booker (1983 e 1999). De qualquer forma, os juízes da organização sempre gostam de preparar algumas surpresas. Segundo matéria do Guardian, nesta versão não foram escolhidos alguns nomes fortes como: Ian McEwan, Julian Barnes, Rose Tremain, Edna O´Brien, Thomas Keneally, Don DeLillo e Jonathan Safran Foer. A próxima etapa da premiação será o anúncio da seleção de seis livros para a Shortlist a ser divulgada em 13 de setembro, concorrendo ao prêmio de 50.000 libras que será divulgado em 25 de outubro. Segue a Longlist de 2016:
Paul Beatty (EUA) - The Sellout 
J.M. Coetzee (África do Sul-Australia) - The Schooldays of Jesus 
A.L. Kennedy (UK) - Serious Sweet 
Deborah Levy (UK) - Hot Milk 
Graeme Macrae Burnet (UK) - His Bloody Project 
Ian McGuire (UK) - The North Water 
David Means (EUA) - Hystopia 
Wyl Menmuir (UK) - The Many 
Ottessa Moshfegh (EUA) - Eileen 
Virginia Reeves (EUA) - Work Like Any Other 
Elizabeth Strout (EUA) - My Name is Lucy Barton 
David Szalay (Canadá-UK) - All That Man Is 
Madeleine Thien (Canadá) - Do Not Say We Have Nothing

quinta-feira, julho 21, 2016

Alice Munro - O amor de uma boa mulher

Alice Munro - O amor de uma boa mulher - Editora Companhia das Letras - 376 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento no Brasil em 20/05/2013 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

O que eu mais gosto em Alice Munro, Nobel de Literatura 2013, é o respeito à inteligência do leitor. Ela valoriza a experiência de interpretações múltiplas de seus contos, desafiando a tarefa de elaborar uma resenha objetiva e completa, pois parece nunca repetir uma estrutura narrativa, seja através de inversões na passagem do tempo, uso de diferentes vozes ou simplesmente com inesperadas mudanças na condução da trama, os seus contos surpreendem e alcançam regiões de nossa sensibilidade com efeitos que mesmo os longos romances não conseguem obter. No entanto, precisamos pagar o preço que o entendimento de sua obra exige, ou seja, uma leitura atenta e dedicada, não só na arquitetura dos seus textos, mas também na sutileza da construção psicológica de cada personagem, sob o risco de perdermos o brilhantismo da ficção, ou o pecado de escrever uma resenha com jeito de divulgação promocional.

De forma contraditória, toda a complexidade de seus contos é normalmente derivada de protagonistas provenientes da população supostamente mais simples de pequenas cidades no interior do Canadá, distantes portanto das crises existenciais típicas de habitantes neuróticos dos grandes centros urbanos, além de reproduzirem épocas que já se tornaram remotas como a fase ingênua da recessão após a Segunda Grande Guerra nos anos cinquenta. Logo, uma realidade distante e possivelmente pouco atrativa para a nossa era contemporânea da internet, nada mais falso. A ficção de Munro alcança as camadas mais escondidas da alma, essa coisa cada vez mais difícil e que só a verdadeira literatura consegue fazer. Principalmente nos oito contos desta antologia, lançada originalmente em 1998 e vencedora do National Book Critics Circle Award do ano, cada narrativa expressa a experiência de uma protagonista feminina para ultrapassar as barreiras que a sociedade da época impunha às mulheres através do preconceito (e ainda impõe em muitos casos) impedindo-as de viver a sua plena individualidade, questões como a dificuldade de realização profissional, adultério e separação nas relações envolvendo filhos, homossexualismo e até mesmo, em casos ainda mais polêmicos, o direito ao aborto.

"O amor de uma boa mulher" empresta o título a esta antologia, sendo o primeiro e longo conto de abertura, dividido em quatro partes, um excelente exemplo do estilo de Munro. Na primeira parte, um grupo de meninos descobre em uma manhã de sábado de 1951 um carro no fundo de uma represa abandonada, através de "um brilho azul-claro na água que não era um reflexo do céu", onde costumavam ir para nadar. Eles reconhecem o carro e o corpo em seu interior como sendo do optometrista da pequena cidade em que moravam. Até o final desta parte cada um dos três meninos, suas famílias e impressões sobre o ocorrido são detalhadas pela autora. Somente na segunda parte a verdadeira protagonista é apresentada, Enid que atendeu ao último pedido do pai de não concluir o curso de enfermagem, pois ele tinha a ideia preconceituosa de que esta profissão a transformaria em uma mulher vulgar devido à "familiaridade que as enfermeiras passam a ter com o corpo dos homens"

Afinal, exercer uma profissão, seja ela qual fosse, era considerado na época como "um infortúnio resultante da viuvez ou, pior, da inépcia de um marido vivo". De qualquer forma, após a morte do pai, Enid passa a acompanhar pacientes moribundos e desenganados em seus últimos momentos, morando em suas próprias casas, juntamente com as famílias. Enid é descrita como um modelo de virtude e abnegação até que na terceira e quarta partes, a história passa a fazer sentido como um todo, devido a um segredo que ela escuta da sra. Quinn, uma de suas pacientes terminais, que irá mudar o seu comportamento e guiar o conto para uma conclusão magistral.
"Enid dormia num sofá no quarto da sra. Quinn. A coceira devastadora da enferma desaparecera quase por completo, assim como a necessidade de urinar. Ela dormia durante a maior parte da noite, embora em alguns períodos respirasse de forma áspera e raivosa. O que despertava Enid e a mantinha acordada era um problema que só tinha a ver com ela própria. Começara a ter sonhos ruins. Eram diferentes de qualquer sonho que havia tido no passado. Ela costumava pensar que um mau sonho era se ver numa casa estranha onde os quartos mudassem todo o tempo e o trabalho a fazer estivesse acima de sua capacidade, tarefas a cumprir que imaginara já cumpridas, distrações inumeráveis. E, naturalmente, também tinha tido sonhos que caracterizava como românticos, nos quais algum homem passava o braço em volta de seu ombro ou mesmo a abraçava. Podia ser alguém conhecido ou não — às vezes um homem que só como piada poderia estar numa situação daquelas. Esses sonhos a deixavam pensativa ou um pouco triste, porém de certa forma aliviada por saber que tais sentimentos eram possíveis para ela. Podiam ser embaraçosos, mas não eram nada, absolutamente nada, quando comparados com os sonhos que tinha agora. Nestes, ela copulava ou tentava copular (às vezes impedida por intrusos ou mudanças das circunstâncias) com parceiros totalmente proibidos ou impensáveis. Com bebês gordos e hiperativos, ou pacientes envoltos em bandagens, ou com sua própria mãe. A lascívia a deixava molhada, oca, gemendo de desejo, e ela buscava se aliviar com rispidez e com uma atitude de pragmatismo malévolo. 'É vai ter que ser assim', ela dizia a si mesma. 'Vai ter que ser assim se não aparecer nada melhor.' E essa frieza do coração, essa depravação prosaica, simplesmente estimulava sua libido. Acordava sem sentir nenhum arrependimento, mas, suada e exausta, lá ficava como uma carcaça até que seu próprio eu, sua vergonha e sua descrença refluíssem para dentro dela. O suor esfriava sobre a pele. Permanecia deitada, tremendo na noite quente, sentindo repugnância e humilhação. Não ousava voltar a dormir. Acostumou-se ao escuro e aos compridos retângulos das janelas com cortinas de voal através das quais penetrava uma luz tênue. Enquanto a enervante respiração da enferma soava como uma reprimenda, e depois quase desaparecia." (págs. 62 e 63)
Em "As crianças ficam" a autora acompanha o desenvolvimento de um caso de adultério sob a ótica da protagonista, uma mãe de duas filhas que decide abandonar tudo para ficar com o amante, o diretor de uma montagem teatral amadora de Orfeu e Eurídice na qual ela decide participar, incentivada pelo próprio marido. Em um dia de chuva, ela caminha sozinha pensando nos efeitos de sua escolha, principalmente o fato de que não poderá ficar com as duas filhas pequenas, uma dor aguda que ela entende que se tornará crônica com o tempo, significando que "será permanente, mas talvez não constante", que "não a sentirá a cada minuto, mas não passará muitos dias sem senti-la". Poderá haver, à partir deste dia, algum alívio  ou um improvável perdão das filhas para essa mulher?
"O que ela estava fazendo era alguma coisa sobre a qual já ouvira falar e já lera. O que Ana Karênina tinha feito e Madame Bovary tinha desejado fazer. O que uma professora, colega de Brian, tinha feito com o secretário de escola. Fugido com ele. Era assim que se dizia: fugir com alguém. Dar no pé. Algo mencionado em tom cômico ou depreciativo, se não com inveja. Era o adultério elevado ao grau máximo. Os casais que o faziam quase certamente já eram amantes, sendo adúlteros por bastante tempo antes de se tornarem suficientemente desesperados ou corajosos para dar aquele passo. Raras vezes um casal podia alegar que o amor não tinha sido consumado e era tecnicamente puro, porém essas pessoas, se alguém acreditasse nelas, seriam vistas não apenas como muito sérias e virtuosas, mas quase devastadoramente imprudentes. Comparáveis na prática àquelas que se arriscam e abrem mão de tudo para ir trabalhar num país pobre e perigoso. (...) Os outros, os adúlteros, eram considerados irresponsáveis, imaturos, egoístas ou mesmo cruéis. Felizardos, também. Felizardos porque eram com certeza esplêndidas as relações sexuais que vinham tendo em carros estacionados, campos verdejantes, leitos conjugais maculados ou, mais provavelmente, motéis como aquele. Caso contrário, não teriam tamanho desejo pela companhia do outro a todo custo, ou tamanha fé de que o futuro que compartilhariam seria muito melhor e diferente de tudo que haviam conhecido no passado." (págs. 230 e 231)
Já no difícil e perturbador "Antes da mudança", a protagonista escreve uma longa carta para o seu ex-namorado sobre o período de convivência com o pai em sua clínica, na qual ele atende mulheres que decidem fazer um aborto, tema espinhoso e difícil de tratar, principalmente quando Munro nos coloca ao lado da protagonista que acaba fazendo o papel de assistente durante uma dessas sessões clandestinas. O seu passado será introduzido aos poucos até ficar claro em uma conversa final com o pai que encerra o conto. Impossível não ficar sensibilizado com esta narrativa, sendo homem ou mulher.
"Eu estava pensando em dizer alguma coisa que pudesse lhe trazer alívio ou distraí-la. Podia ver agora o que meu pai estava fazendo. Dispostas sobre uma toalha branca, na mesa ao seu lado, havia diversas hastes, todas com o mesmo comprimento mas com diâmetros crescentes. Eram usadas, uma após a outra, para abrir e alargar o colo do útero. De onde me encontrava, atrás da barreira feita pelo lençol sobre os joelhos da moça, não era capaz de acompanhar o progresso invasivo daqueles instrumentos. No entanto, podia senti-lo através das ondas de dor que se sucediam em seu corpo que, sufocando os espasmos de apreensão, a faziam de fato ficar mais imóvel." (pág. 302)
Como acontece com toda grande obra de ficção, os contos de Alice Munro permanecem em nosso inconsciente, transformando-se e ganhando novos sentidos à medida que a nossa experiência de vida avança, em alguns casos nos incomodam sem sabermos exatamente o motivo, talvez porque reflitam algum sentimento que está cuidadosamente escondido dentro de nós mesmos.

sexta-feira, julho 15, 2016

Péter Esterházy (1950–2016)

Foto Balogh Zoltán - MTI
"As palavras são sempre insuficientes e nós podemos sempre tomá-las como esperança. Mas contra a morte elas não ajudam. Talvez possam servir contra a dor que se sente em relação à morte. Mas a literatura não é um meio de curar a dor, como uma aspirina contra a dor de cabeça. A literatura não é prática, mas perigosa." - Entrevista à Folha durante a FLIP 2011

quinta-feira, julho 14, 2016

As ilustrações digitais de Ilya Kuvshinov


O ilustrador russo Ilya Kuvshinov reside em Yokohama no Japão onde parece encontrar inspiração para as suas imagens de modelos jovens e sensuais no melhor estilo mangá de história em quadrinhos e videogames. Apesar de suas ilustrações estarem fartamente disponíveis na internet, não é fácil conseguir informações biográficas do artista. Para conhecer mais do seu trabalho sigam os links e visitem as suas páginas no facebookDeviantArt ou behance. Adicionalmente, o seu método de criação digital pode ser acompanhado no site patreon com tutoriais sobre a técnica com photoshop, imperdível.


quarta-feira, julho 13, 2016

20 livros para entender melhor o Rock


Hoje o blog da Companhia das Letras, motivado pelo dia do Rock, publicou uma postagem sobre livros relacionados ao universo dos grandes astros da música, seja na forma de antologia de letras, biografias ou até mesmo romances, obviamente todos lançados pela editora. Aproveito a oportunidade para ampliar um pouco a lista dentro do mesmo foco. A seleção inclui artistas de estilos tão diferentes quanto Dylan e Morrissey, mas todos apresentam em comum um apurado senso artístico e originalidade. Como toda lista, esta também é cheia de omissões, mas reflete unicamente o meu gosto pessoal. Procurei destacar apenas os livros já traduzidos para o português obedecendo a ordem cronológica de lançamento no país de origem (sigam os links para maiores detalhes de cada obra).

(01) Buried Alive: The Biography of Janis Joplin, Myra Friedman (1973)
No Brasil: "Enterrada Viva, a biografia de Janis Joplin" - Editora Civilização Brasileira (edição esgotada)

(02) No Direction Home: The Life and Music of Bob Dylan, Robert Shelton (1986)
No Brasil: "No Direction Home, A Vida e a Música de Bob Dylan" - Editora Larousse

(03) Pass thru fire - The collected lyrics, Lou Reed (2000)
No Brasil: "Atravessar o Fogo - 310 Letras" - Editora Companhia das Letras

(04) Down the Highway: The Life of Bob Dylan, Howard Sounes (2001)
No Brasil: "Dylan, A Biografia" - Editora Conrad

(05) Heavier Than Heaven: A Biography of Kurt Cobain, Charles R. Cross (2001)

No Brasil: "Mais Pesado que o Céu, uma Biografia de Kurt Cobain" - Editora Globo

(06) Chronicles, Bob Dylan (2004)
No Brasil: "Crônicas, Bob Dylan" - Editora Planeta

(07) The Doors, Ben Fong-Torres (2006)
No Brasil: "The Doors por The Doors" - Editora Agir

(08) The Beatles: The Biography, Bob Spitz (2006)
No Brasil: "The Beatles - A Biografia" - Editora Larousse

(09) Clapton: The Autobiography (2008)
No Brasil: "Eric Clapton - A Autobiografia" - Editora Planeta

(10) When Giants Walked the Earth: A Biography of Led Zeppelin, Mick Wall (2010) 
No Brasil: "Led Zeppelin - Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra" - Editora Larousse

(11) Just Kids, Patti Smith (2010)
No Brasil: "Só Garotos" - Editora Companhia das Letras

(12) Life, Keith Richards (2011)

No Brasil: "Vida - Keith Richards" - Editora Globo

(13) Autobiography, Morrissey (2013)
No Brasil: Não lançado até o momento desta postagem

(14) A Light That Never Goes Out: The Enduring Saga of the Smiths, Tony Fletcher (2013)
No Brasil: "The Smiths, A Biografia" - Editora Best Seller

(15) Waging Heavy Peace: A Hippie Dream, Neil Young (2013)
No Brasil: "Neil Young - A Autobiografia" - Editora Globo

(16) Who I Am: A Memoir, Pete Townshend (2013)
No Brasil: "Pete Townshend - A Autobiografia" - Editora Globo

(17) Mick Jagger, Philip Norton (2013)
No Brasil: "Mick Jagger" - Editora Companhia das Letras

(18) This Is a Call: The Life and Times of Dave Grohl (2013)
No Brasil: "Dave Grohl - Nada a Perder" - Edições Ideal

(19) Jimi Hendrix: Starting At Zero: His Own Story (2014)

No Brasil: "Jimi Hendrix por ele mesmo" - Editora Zahar

(20) M Train, Patti Smith (2015)
No Brasil: "Linha M"Editora Companhia das Letras

quinta-feira, julho 07, 2016

Jonathan Franzen - Pureza

Jonathan Franzen - Pureza - Editora Companhia das Letras - 616 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento 25/05/2016 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Em seu mais recente lançamento, o americano Jonathan Franzen corre novamente os riscos de escrever um romance de seiscentas páginas em contraste com a tendência atual, principalmente no Brasil, de narrativas curtas e em geral de autoficção, estilo que possibilita uma estratégia editorial de melhor retorno financeiro e de maior frequência de exposição do autor na mídia. Neste seu quinto romance, após os premiados "As Correções" (2001) e "Liberdade" (2010), Franzen mais uma vez trabalha na contramão dessa lógica, provando que ainda existe espaço para a boa e velha instituição do romance realista em pleno século XXI. 

Não por acaso ele foi escolhido em 2010 para a capa da revista Time com a alcunha "Great American Novelist" (o que o coloca na companhia de alguns poucos grandes escritores que receberam tal distinção: Salinger, Nabokov, Toni Morrison, James Joyce e John Updike), segundo a conceituada revista, a escolha não se deveu ao fato de Franzen ser famoso, rico ou criar personagens com poderes mágicos, mas sim por ele refletir sobre o comportamento e valores da sociedade americana na atualidade, papel similar ao exercido por grandes romancistas do passado como Tolstoi e Victor Hugo. É claro que não podemos comparar autores de épocas tão diferentes; mudou a sociedade e, portanto, mudaram os escritores. O fato é que, desde o século XIX, permanece o interesse dos leitores em bons romances.

No entanto, se por um lado este seu último livro apresenta uma forma de construção clássica, por outro, o conteúdo não poderia ser mais atual, refletindo a nossa inusitada existência virtual nas redes sociais, a exposição do indivíduo na internet e ainda a relação entre as agências de notícias e os movimentos especializados no vazamento de informações de grandes corporações e governos, como a WikiLeaks de Julian Assange ou o ativismo de Edward Snowden. Um dos protagonistas, o carismático Andreas Wolf, se tornou uma personalidade mundial ao desenvolver um projeto chamado "Luz do Sol", semelhante ao WikiLeaks, mas o mesmo Andreas, de forma contraditória, esconde um segredo terrível em seu passado na antiga Alemanha Oriental, um segredo que está convenientemente escondido dos motores de busca da internet e também dos arquivos da polícia secreta da época, a temida Stazi. O trecho abaixo mostra o cuidado e a dedicação com que Andreas Wolf descobre e divulga os segredos de todo o mundo, exceto os seus próprios.
"O lema de Wolf e de seu projeto era 'A luz do sol é o melhor desinfetante'. Nascido em 1960 na Alemanha Oriental, ele se destacara na década de 1980 como um crítico ousado e espetaculoso do regime comunista. Depois da queda do Muro de Berlim, liderara uma cruzada para que os arquivos imensos da polícia secreta da Alemanha Oriental fossem preservados e abertos ao público; nesse caso, só era odiado pelos ex-informantes da polícia, cuja reputação, depois da reunificação, tinha sido manchada pela exposição de seu passado à luz do sol. Wolf fundara o Projeto Luz do Sol em 2000, focando inicialmente em diversos malfeitos alemães, mas logo depois ampliando sua área de atuação para injustiças sociais e os segredos tóxicos para o mundo todo. Centenas de milhares de imagens mostravam se tratar de um homem muito bonito e que aparentemente nunca se casara ou tivera filhos. Fugira de uma condenação na Alemanha em 2006 e da Europa em 2010, recebendo asilo primeiro em Belize e mais recentemente na Bolívia, cujo presidente populista, Evo Morales, era seu fã. A única coisa que Wolf mantinha em segredo era a identidade de seus principais financiadores (gerando um terabyte ou dois de conversações eletrônicas sobre sua 'inconsistência') e a única coisa vagamente duvidosa sobre ele era sua intensa rivalidade com Assange. Wolf, de forma irônica, havia menosprezado os métodos e a vida particular de Assange, enquanto Assange se contentara em fingir que Wolf não existia. Wolf gostava de comparar os WikiLeaks — segundo ele 'uma plataforma neutra e não filtrada' - com a clareza de propósito de seu projeto Luz do Sol, estabelecendo uma distinção moral entre seu 'motivo benigno e abertamente admitido' de proteger a privacidade de seus financiadores e os 'motivos malignos e ocultos' daqueles cujos segredos ele expunha." (págs. 71 e 72)
Apesar do título, baseado no nome de uma das protagonistas, Purity Tyler, nenhum personagem parece ser puro o suficiente no romance de Franzen, sendo os dilemas morais comuns a todos em diferentes níveis a começar pela própria Purity que recebe o apelido de Pip (homenagem ao jovem Pip do clássico "Great Expectations" de Charles Dickens). Ela é o ponto de partida da narrativa, uma jovem californiana de 22 anos que divide uma casa ocupada ilegalmente com outros jovens anarquistas e não sabe quem é seu pai, um mistério que a mãe sempre se recusou a esclarecer. Ela estará disposta a cruzar os limites da moral e ética para descobrir a identidade do pai. Mas, afinal, é possível manter um segredo em plena era digital, em um mundo no qual a exposição nas redes sociais é uma prática quase obrigatória? Em busca de respostas, Pip aceita o convite para trabalhar no projeto "Luz do Sol" de Andreas Wolf na Bolívia.

A trama é conduzida de forma a deixar pistas em cada capítulo sobre a origem de Purity Tyler, alternando passado e presente. Um tema paralelo e associado à sua origem, ao longo de todo o romance, é a conturbada história de amor entre Tom Aberant  e Anabel (aqui é preciso cuidado para não cair no erro da resenha spoiler). Tom é um jornalista investigativo que conheceu Andreas Wolf na época da queda do Muro de Berlim e a única pessoa que conhece o seu segredo. A descrição das crises no relacionamento entre o inexperiente Tom e a lunática Anabel é magistralmente conduzida, principalmente em um único capítulo narrado em primeira pessoa, indício que nos leva a pensar o quanto de autobiográfico Franzen colocou neste texto.
"Anabel se recusava a ver que simplesmente havia alguma coisa quebrada em nosso relacionamento, quebrada sem possibilidade de conserto e de atribuição de culpa. Durante nossa orgia anterior, havíamos conversado por nove horas sem parar, com pausas apenas para ir ao banheiro. Pensei que, por fim, tinha conseguido lhe mostrar que a única forma de escaparmos de nosso sofrimento consistia em renunciarmos um ao outro e nunca mais nos comunicarmos: que as conversas de nove horas eram elas próprias a doença que supostamente estariam tentando curar. Essa era a versão de nós que ela me telefonara para rejeitar naquela manhã. Mas qual a sua versão? Impossível dizer. Ela era tão moralmente segura de si, a todo momento, que eu tinha sempre a sensação de que chegávamos a algum lugar; só depois eu via que tínhamos nos movido num círculo enorme e vazio. Apesar de toda a sua inteligência e sensibilidade, ela não somente não fazia sentido, mas também se mostrava incapaz de reconhecer tal coisa; e era terrível ver isso numa pessoa a quem eu fora profundamente devotado e a quem prometera cuidar por toda a vida. Por isso tinha de continuar a trabalhar com ela para fazê-la compreender que não podia continuar a trabalhar com ela." (págs. 359 e 360)
Uma das melhores passagens do livro é o capítulo que descreve a infância e juventude de Andreas Wolf na Alemanha Oriental, uma espécie de romance dentro do romance, até a histórica queda do Muro de Berlim em 1989. Mais interessante ainda é a criativa comparação entre o regime totalitário da antiga República Democrática Alemã (RDA), que de democrática não tinha absolutamente nada, e o domínio da internet e das redes sociais no mundo atual. Uma questão importante para pensarmos sobre a aparente liberdade virtual que pensamos viver e a perda completa da nossa identidade e privacidade na imensa nuvem digital que nos cerca.
"A velha República sem dúvida se destacara em matéria de vigilância e paradas militares, porém a essência de seu totalitarismo tinha sido alguma coisa mais corriqueira e sutil. A pessoa podia cooperar com o sistema ou se opor a ele, mas o que jamais podia fazer, quer estivesse levando uma vida segura e agradável, quer se encontrasse na prisão, era não manter alguma relação com ele. A resposta a todas as perguntas, grandes ou pequenas, era o socialismo. Substituindo 'socialismo' por 'redes' tem-se a internet. Suas plataformas, embora competindo entre si, estão unidas pela ambição de definir todos os componentes da existência de alguém. (...) Os privilégios possíveis na República tinham sido insignificantes — um telefone, um apartamento com algum ar e luz, a importantíssima permissão para viajar —, mas talvez não tão insignificantes quanto ter 'n' seguidores no Twitter, um perfil muito curtido no Facebook, uma aparição ocasional  de quatro minutos na CNBC." (págs. 490 e 491)

quinta-feira, junho 30, 2016

Fotografias de Lee Chapman que contam histórias de Tóquio

Foto Lee Chapman - Tokyo old bar friend
Na foto acima, o proprietário de um bar em Tóquio há mais de quarenta anos e seu freguês fiel que se tornou um amigo ao longo do tempo. As fotos do inglês Lee Chapman, disponíveis no seu blog Tokyo Times ou no site oficial registram flagrantes das ruas da capital japonesa onde o moderno tropeça no tradicional a todo o instante e as imagens nos contam histórias que bem poderiam inspirar excelentes romances. Quando não está trabalhando como professor de inglês, Chapman caminha pelas ruas de Tóquio, onde vive desde 1998, em busca de histórias e pontos turísticos que mesmo os residentes de longa duração desconhecem.

Foto Lee Chapman - Little Bar Looks
Muitas fotos têm como cenário os minúsculos bares, onde a tradição japonesa é desfrutar o happy hour com colegas de trabalho e muita cerveja. Nestes ambientes descontraídos a rígida disciplina japonesa pode ser aliviada por alguns momentos (até o horário de fechamento do metrô, pelo menos). O fotógrafo sempre parece buscar mais as pessoas do que os cenários, para conhecer mais do seu trabalho recomendo ler esta entrevista com ele para o Japan Times.

Foto Lee Chapman - Red Light District Streets
O trabalho  de Lee Chapman apresenta, na maioria das vezes, uma visão clandestina da cidade e suas áreas proibidas como o bairro de Kabukicho, famoso distrito da luz vermelha de Tóquio. Essas áreas, normalmente não incluídas nos roteiros turísticos tradicionais, são permanentemente combatidas pelo governo e tendem a desaparecer com o tempo. Interessante na foto acima é que os letreiros luminosos, sempre de um colorido exagerado, acabaram ganhando dramaticidade nesta visão pouco comum em preto e branco.

quarta-feira, junho 15, 2016

Mia Couto - Vozes Anoitecidas

Mia Couto - Vozes Anoitecidas - Editora Companhia das Letras - 152 páginas - Lançamento 17/10/2013 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Publicado originalmente em 1987, "Vozes Anoitecidas" foi a primeira coletânea de contos de Mia Couto. Na época, já conhecido como jornalista e poeta, ele surpreendeu público e crítica com as doze narrativas deste livro, onde já estavam presentes todos os elementos que marcaram o estilo único do escritor moçambicano ao longo de sua carreira que culminou com o recebimento do prêmio Camões em 2013. Aqui encontramos o exercício de recriação da linguagem e a invenção de palavras que lembra muito o nosso Guimarães Rosa, utilizando uma mistura de poesia e sonoridade do português coloquial da África, sempre norteado pela preocupação com os problemas sociais que ficam evidentes quando se faz a ligação entre a rica tradição do folclore e a dura realidade atual das ex-colônias. Como bem definiu o poeta conterrâneo José Craveirinha no prefácio à edição portuguesa, "Mia Couto maneja a linguagem das suas figuras legitimando a transgressão lexical de uma fala estrangeira com o direito que lhe permite o seu papel de parente vivo de Vozes anoitecidas". No entanto, é o próprio autor que melhor resume a importância da sua arte como um marco na resistência à exploração de Moçambique, assim como de outros países do terceiro mundo, através da bela introdução abaixo:
"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.  (...) Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever. A umas e outras dedico este desejo de contar e de inventar." (Texto de Abertura - pág. 17)
Assim, constatamos que através das múltiplas vozes "que vazaram o sol" encontramos a mais pura literatura e ainda muito mais, a persistência do desejo e da necessidade ancestral do homem de sonhar, mesmo diante da adversidade e da incompreensão da sua vida em um meio hostil. No conto "A fogueira", os protagonistas se resumem a uma velha e um velho presos a uma solidão que só a morte poderá libertar. É o conto de abertura desta coletânea que decidi apresentar completo, presente para os leitores que se beneficiam da minha impossibilidade de resumir e explicar tamanha força de contar e inventar. Não há resenha que dê jeito. Só lendo para sentir e entender a prosa mágica de Mia Couto.

 A fogueira 
(Mia Couto)

    A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. 
    A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
    O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
    “Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”
    Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
    — Estou a pensar. 
    — É o quê, marido? 
    — Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
    — Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
    A mulher, comovida, sorriu: 
    — Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
    — Vou ver se encontro uma pá.
    — Onde podes levar uma pá?
    — Vou ver na cantina.
    — Vais daqui até na cantina? É uma distância.
    — Hei de vir da parte da noite.
    Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
    — Então, marido?
    — Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.
    — Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
    E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:
    — Mas, marido...
    — Diz lá.
    — Eu nem estou doente.
    — Deve ser que estás. Você és muito velha.
    — Pode ser — concordou ela. E adormeceram. 
    Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.
    — Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
    — Nada, sou pequena.
    Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.
    — A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
    — Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
    Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
    — Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
    — Queres o quê?
    — Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
    — Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
    Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
    — Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
    — Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
   — Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
    No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
    — Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.
    A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.
    — Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
    — Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
    — Qual fogueira?
    Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
    Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
    — Marido, não vai assim. Come primeiro.
    Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
    — Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
    Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:
    — Mulher, ajuda‑me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
    — Estás muito doente.
Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
    — Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.
    — Estás a pensar o quê?
    — Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.
    — É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
    — Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.
    Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.
    — Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
    O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
    Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.
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