sábado, julho 21, 2007

Emily Dickinson - O exílio da poesia

Emily Dickinson (1830 - 1886) formou, juntamente com Walt Whitman e Edgar Allan Poe, a base de toda a poesia americana do século XIX e adotou técnicas que seriam desenvolvidas pelos movimentos modernistas do próximo século. Harold Bloom define bem a essência do trabalho de Dickinson: "Se é possível a algum poeta partir do zero a cada novo poema, é questionável. Mas se alguém é capaz de fazê-lo, esse alguém é Emily Dickinson".

É um fato extraordinário que todo o seu legado poético tenha sido desenvolvido à partir de uma vida reclusa. O trecho a seguir, citação da introdução de "Poemas de Emily Dickinson" da editora Hucitec em tradução de Idelma Ribeiro de Faria, desenvolve esta idéia: "Em sua cidadezinha rural não a poderiam compreender. Consideravam-na uma excêntrica, um ser fora da realidade, um "mito" (como em Amherst era apelidada), especialmente depois que decidiu vestir-se apenas de branco. Seu pai sentia-se perplexo ante seu procedimento que não obedecia aos parâmetros convencionais. Sua mãe considerava-a um mistério e uma constante surpresa. Emily, deliberadamente, isolou-se em si mesma. Seu exílio foi a alternativa lógica para realizar-se como ser humano ímpar, dando corpo a sua genialidade".

O exemplo abaixo demonstra a dificuldade de tradução do poema "A word is dead" de Dickinson.

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

Conforme comentário de Aíla de Oliveira Gomes em "Emily Dickinson - uma centena de poemas" da Editora da Universidade de São Paulo, este poema é traiçoeiro para o tradutor devido à impossibilidade da manutenção monossilábica de "word" que extrapola a simplicidade do verso original quando traduzido para o esquema trissilábico de "palavra". Também a simplicidade de "some say" na versão abaixo foi um pouco adulterada pelo formalismo de "Dir-se-ia", "a rima e a medida curta dos versos o exigiram" justifica a tradutora em suas notas. Vejamos o resultado final obtido na tradução de Aíla de Oliveira:

Uma palavra morre
Quando é dita -
Dir-se-ia -
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.

A tradução abaixo, de José Lino Grunewald em "Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX", Editora Nova Fronteira, consegue alcançar um efeito mais próximo do poema original:

Palavra é morta
Quando está dita,
Dizem uns.
Digo:inicia
A só viver
Em tal dia.

No meu entendimento, a tradução a seguir, de Idelma Ribeiro de Faria, conseguiu cumprir seu objetivo, preservando a simplicidade do original:

Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia.

O poema "A word is dead" é muito citado como exemplo da técnica pré-modernista de Dickinson, muito bem explicada nas notas biográficas de José Lino Grunewald: "(...) poemas concisos, curtos, versos secos e precisos (a profundidade captada num breve flash verbal). Em matéria de quantidade de palavras ou linhas, iam quase sempre apenas um pouco além do haicai ou do epigrama".

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