Equador - Miguel Sousa Tavares

Equador - Miguel Sousa Tavares - Editora Nova Fronteira - 528 páginas - Publicação 2004

Primeiro romance do jornalista português Miguel Sousa Tavares, Equador tem como tema principal as relações políticas e comerciais entre a metrópole portuguesa e as colônias no início do século XX e também as relações diplomáticas entre Portugal e Inglaterra durante os últimos anos da monarquia já decadente, no período de 1905 a 1908.

O protagonista, Luís Bernardo Valença, após escrever uma série de artigos sobre a necessidade de um "colonialismo moderno e de matriz mercantil", se vê obrigado a abandonar a sua vida livre e confortável em Lisboa para assumir a função de Governador da colônia de S. Tomé e Príncipe, duas ilhas localizadas na costa ocidental da África e cruzadas pela linha do Equador, cuja principal fonte econômica é baseada na agricultura do cacau à partir da mão de obra escrava.

A missão de Luís Bernardo, nomeado pelo próprio rei D. Carlos I, é praticamente inviável, visto que ele deve convencer ao cônsul inglês David Lloyd Jameson, designado para investigar as condições de trabalho nas ilhas, que a mão de obra escrava é uma prática já abolida por Portugal, ao contrário do que afirmam os comerciantes ingleses que ameaçam boicotar as importações do cacau português. Ao mesmo tempo, a intervenção de Luís Bernardo não pode afetar os altos níveis de produção dos colonos, decorrentes justamente da exploração do trabalho negro.

Luís Bernardo é forçado a aceitar o desafio da nomeação praticamente devido à uma questão de vaidade pessoal, para logo se arrepender ao chegar à colônia, como escreve em carta ao amigo João Forjaz: "Queria apenas dar-te conta da primeira impressão que sente um inocente português que sai diretamente do Chiado para uma aldeia metida dentro da selva e deixada à deriva no meio do Atlântico, à latitude do Equador: sente-se esmagado pela chuva, derretido pelo calor e pela humidade, comido vivo pelos mosquitos, espantado pelo medo. E sinto, João, uma imensa e desmedida solidão".

O estilo "cinematográfico" de Miguel Sousa Tavares, as surpresas e reviravoltas do romance, assim como o exotismo e sensualidade que emanam do texto fazem com que a leitura seja leve e agradável, sem desmerecimento do valor literário. Achei por bem não escrever uma resenha pormenorizada sob o risco de estragar o prazer da descoberta individual dos leitores. Vale lembrar que, assim como José Saramago, o autor também solicitou a manutenção da grafia original portuguesa nesta edição o que não interfere em nada com o prazer da leitura, associando talvez mais um elemento ao sabor do romance histórico.

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