terça-feira, março 24, 2009

Ernesto Che Guevara

Reminiscences of the Cuban Revolutionary War - Ernesto Che Guevara - Editora Ocean Press - 314 páginas - Publicação 2006 - Prefácio de Aleida Guevara.

Neste ano em que a revolução cubana completa 50 anos de aniversário é impossível não lembrar do médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara. Para alguns apenas um assassino frio e, para outros, um herói visionário e símbolo da luta do povo latino-americano contra a opressão. Na opinião de Jean Paul Sartre "o ser humano mais completo de nossa época". Este livro é uma reprodução dos diários escritos por Che Guevara durante o período de guerrilha na Sierra Maestra de 1956 a 1959 e comprova a sua habilidade de escritor já anteriormente demonstrada no clássico "Diários de Motocicleta" que foi adaptado para o cinema por Walter Salles em 2004. Praticamente todos os relatos de ações de guerrilha dos rebeldes e sobrevivência na selva foram reproduzidos na monumental biografia escrita muitos anos depois pelo repórter americano Jon Lee Anderson.

Chama a atenção a ingênua declaração dos guerrilheiros no manifesto de 1957, onde é lançado o "slogan de uma grande frente cívica revolucionária compreendendo todos os partidos de oposição política, todas as instituições civis e todas as forças revolucionárias". O programa de governo contaria ainda com a proclamação da liberdade de todos os prisioneiros políticos, civis e militares e absoluta garantia de liberdade da imprensa e rádio, com todos os direitos individuais e políticos garantidos pela constituição. Cinquenta anos depois, podemos constatar como todos os itens acima foram esquecidos no governo de Fidel Castro e seus sucessores.

De qualquer forma, como este blog sempre aborda os temas do ponto de vista da arte, é importante notar como a verdadeira poesia pode extrapolar os limites convencionais da literatura e se confundir com a vida e o destino de seus autores. Nestes casos, podemos distinguir traços premonitórios assustadores, como no poema abaixo, impregnado de emoção e morte, do então jovem Che Guevara. Vamos ao poema:

Eu sei! Eu sei! Se sair daqui, o rio me engolirá... É o meu destino: hoje devo morrer! Mas não, a força de vontade pode superar tudo. Há obstáculos, eu reconheço. Não quero sair. Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo se meu destino é morrer afogado? Mas vou vencer o destino. O destino pode ser conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não... Uma recordação mais duradoura do que meu nome É lutar, morrer lutando.

(Che Guevara, uma Biografia - Jon Lee Anderson)

O primeiro ponto a destacar é que este poema foi escrito por Che aos 18 anos. Desta época não há qualquer registro de suas futuras inclinações políticas ou guerrilheiras. Era apenas um jovem rebelde comum, de família aristocrática decadente. Nos primeiros versos, podemos sentir claramente o contraste entre a segurança e o risco. Um dilema que iria perseguir o nosso autor por toda a vida, seguir a carreira de médico na Argentina ou se aventurar pelo mundo? A resignação por uma morte violenta (crivado de balas, destroçado pelas baionetas), no lugar da morte lenta pela asma (afogado, não).

A sombra da doença sempre acompanhou Che em todos os momentos, na forma de uma asma violenta que, durante as crises mais fortes, o impossibilitava até mesmo de andar. A força de vontade, o "morrer lutando", foram características marcantes da personalidade de Che. Segundo Lee Anderson "a fé inquebrantável de Che em suas convicções tornou-se ainda mais poderosa por sua invulgar combinação de paixão romântica com pensamento friamente analítico. Essa mistura paradoxal foi provavelmente o segredo da estatura quase mística que atingiu...". Em 1967, aos 36 anos, Che foi assassinado pelo exército boliviano e morreu realmente crivado de balas. Seu corpo ficaria "desaparecido" por 30 anos.

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