terça-feira, julho 14, 2009

Hans Magnus Enzensberger

Eu falo dos que não falam - Hans Magnus Enzensberger - Editora Brasiliense, 1985 - Antologia Bilíngue - 139 páginas - Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan (fora de catálogo)

O escritor, poeta e intelectual Hans Magnus Enzensberger é citado, normalmente, como um dos maiores poetas vivos da língua alemã. Nascido em 1929 na Baviera, viveu a sua infância durante o governo nazista e a juventude no processo de reconstrução econômica da Alemanha. Seu posicionamento político, no início da carreira, era francamente de esquerda radical, tendo residido em Cuba nos anos sessenta. Foi considerado um sucessor do filósofo Theodor Adorno e, no campo da poesia, de Bertold Brecht. Seus ensaios e obras literárias ficaram famosos pela análise sobre a política, a crítica social e a tradição literária. Foi membro do Grupo 47, importante marco da renovação literária alemã, e professor convidado de poesia na Universidade de Frankfurt.

Em evento organizado no mês passado pelo Instituto Moreira Salles, Companhia das Letras e Goethe-Institut, Enzensberger esteve em São Paulo para o lançamento do livro Hammerstein ou a Obstinação (Companhia das Letras) – ver matéria da revista Veja aqui. Entre suas obras traduzidas para o português estão A outra Europa (Companhia das Letras, 2006), O diabo dos números (Companhia das Letras, 2000) e Elementos para uma teoria dos meios de comunicação (Conrad, 2003).

Selecionei para esta postagem a poesia O divórcio (Die Scheidung), incluída na Antologia do livro A fúria do sumiço (Die Furie des Verschwindens) publicado em 1980. Trata-se de um trabalho doloroso, eu diria agonizante mesmo e que sintetiza com perfeição até que ponto pode chegar a relação entre seres humanos.

O divórcio (Die Scheidung)
Enzensberger

No início era só um tremor imperceptível da pele –
“Como quiseres” –, ali onde a carne é mais escura.
“O que tens?” – Nada. Sonhos leitosos
de abraços, mas na manhã seguinte
o outro parece diferente, estranhamente ossudo.
Mal-entendidos que cortam como facas. “Aquela vez em Roma” –
Isso eu não disse nunca. – Silêncio. Loucas palpitações
do coração, um tipo de ódio, estranho. – “Não se trata disso.”
Repetições. Com clareza radiante a certeza:
A partir de agora tudo é errado. Inodora e nítida
como uma foto de passaporte, essa pessoa desconhecida,
o copo de chá na mesa, os olhos fixos.
Não tem sentido, não tem sentido:
Ladainha na cabeça, um acesso de náusea.
Fim das rixas. Devagar a sala
se enche de culpa até o teto
A voz queixosa é alheia, apenas os sapatos
que caem ao chão com um estrondo, os sapatos não.
Na próxima vez, num restaurante vazio,
câmera lenta, migalhas de pão, fala-se de dinheiro.
Risos. A sobremesa tem sabor metálico.
Dois intocáveis. Lógica estridente.
“Não é tão grave assim.” Porém, à noite,
o rancor, a luta silenciosa, anônimos
como dois advogados ossudos, dois caranguejos grandes
na água. Enfim, o cansaço. Devagar
a crosta descasca. Uma nova tabacaria,
um novo endereço. Párias, terrivelmente aliviados.
Sombras que empalidecem. Este é o processo.
Este é o molho de chaves. Esta é a cicatriz.

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