Wallace Stevens

Wallace Stevens - Poemas - Editora Companhia das Letras - 208 páginas - Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto - Lançamento 1987.

A biografia de Wallace Stevens (1879 - 1955) não é exatamente o melhor exemplo do que convencionamos imaginar da vida de um poeta. Após formar-se em direito, trabalhou como advogado por alguns anos e, em 1916, entrou para uma empresa de seguros chamada Hartford Accident and Indemnity Company onde trabalhou por toda a sua vida, chegando ao cargo de vice-presidente. Ao contrário de outros poetas americanos como T. S. Eliot e Ezra Pound, Wallace Stevens jamais esteve na Europa (apesar de influenciado pelos simbolistas franceses) e sempre preservou a sua vida particular evitando os holofotes da fama. Pouco antes de sua morte, talvez um pouco contrariado, ganhou o prêmio Pulitzer de Poesia em 1955.

Todo o seu trabalho foi influenciado pela oposição entre imaginação e realidade. Segundo Paulo Henriques Britto, para Stevens "a imaginação é a função básica da consciência, e a realidade é, ao menos em parte, um produto desta. Nada mais natural, portanto, do que a consciência voltar-se sobre si própria, sentir-se fascinada pela tentativa de apreender a si mesma. Nenhum outro objeto de conhecimento lhe oferece tanta resistência quanto ela própria; e para a palavra, instrumento da consciência, nada mais impenetrável do que a própria palavra. Por isso o assunto por excelência do poema é a própria poesia". O longo poema The man with the blue guitar do qual destaquei abaixo duas partes (I e V) de um total de trinta e três, trata justamente dessa questão quando canta "as coisas como elas são".

The man with the blue guitar
(Wallace Stevens)

 Part I

The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. the day was green.

They said, "You have a blue guitar,
You do not play things as they are."

The man replied, "Things as they are
Are changed upon the blue guitar."

And they said then, "But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are."

Part V

Do not speak to us of the greatness of poetry,
Of the torches wisping in the underground,

Of the structure of vaults upon a point of light.
There are no shadows in our sun,

Day is desire and night is sleep.
There are no shadows anywhere.

The earth, for us, is flat and bare.
There are no shadows. Poetry

Exceeding music must take the place
Of empty heaven and its hymns,

Ourselves in poetry must take their place,
Even in the chattering of your guitar. 

O homem do violão azul
(Tradução de Paulo Henriques Britto)

Parte I

Homem  curvado sobre o violão,
Como se fosse foice. Dia verde.

Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas como são".

E o homem disse: "As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".

E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,

No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

Parte V

Não fales na grandeza da poesia,
Em tochas murmurantes subterrâneas,

Na estrutura das tumbas num ponto de luz.
Não há sombras em nosso sol,

Dia é desejo e noite é sono.
Não há sombras em lugar nenhum.

Para nós, a terra é nua e plana.
Não há sombras. A poesia

Mais do que a música há de ocupar
O vazio de um céu sem hinos;

Em nossa poesia o ocuparemos,
Nessa zoeira de teu violão.

Em um poema chamado Adagia, publicado após sua morte e que apresenta, na verdade, uma série de aforismos sobre a sua visão filosófica da poesia, Stevens afirma que "Quando já abandonamos a crença em um Deus, a poesia é a essência que ocupa seu lugar como redenção da vida" ou na maravilhosa definição: "A poesia há de resistir à inteligência".

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