Inês Pedrosa - Fazes-me falta

Inês Pedrosa - Fazes-me falta - 221 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2010 (ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Inês Pedrosa, jornalista e escritora, nascida em Coimbra, em agosto de 1962 é um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea portuguesa e ainda encontra tempo para ser a Diretora da Casa Fernando Pessoa. Fazes-me falta foi lançado originalmente em 2002 e tornou-se sucesso de público e crítica em Portugal onde vendeu mais de cem mil exemplares, apesar de não ter as características normalmente encontradas em um best seller, muito pelo contrário.

O romance é estruturado na troca de monólogos entre um homem e uma mulher que relembram, cada um a seu modo e conforme o próprio entendimento, o relacionamento passado à partir de um evento marcante: a morte inesperada da mulher. Na verdade, ela tem certa vantagem na narrativa porque consegue observar todo o tempo o comportamento do antigo parceiro mesmo depois de sua própria morte, como na excelente passagem: "De quem é esta morte encenada em caixão? De onde vem esta febre fria que me sela a boca? Luto para fugir desta caixa onde me expõem e me lamentam. Se ao menos soubessem rezar. Pai Nosso, eu não quero já o céu. Aos vivos, incomoda-os o cheiro dos mortos. Por isso o sufocam em flores, incenso, velas, tudo o que possa manter esse cheiro longe do corpo concreto, ainda carne, ainda quente. No lugar dos mortos, é o medo que enjoa e entontece. O medo que os vivos têm de mim agora, do futuro que lhes anuncio, vestida para enterrar. Esse medo cria ondas de calor, ondas enevoadas, que a luz das velas, a baba dos sussurros amplia.".

O relacionamento dos protagonistas com todos os acertos, enganos, encontros e desencontros, tem uma particularidade: não vive da paixão e do desejo, mas sim da amizade. No entanto, mesmo a amizade parece nada significar quando ela não consegue seguir a sua "morte" e ele não entende mais a sua "vida" sem ela. Inês Pedrosa descreve com perfeição este sentimento no seguinte trecho de um dos monólogos da mulher: "Tu eras tão mulher como eu, eu era tão homem como tu e cada um de nós tinha sexo, claro, tudo entre nós era sexo, sexo sublime, sem ranger de molas, desgaste de corpos, sem o melancólico ritual do frenesi e do repouso que reduz a paixão a cinzas."

O mais surpreendente nesta original alternância da narrativa entre o homem e a mulher é a forma como Inês Pedrosa dá credibilidade à fala masculina ou feminina. Assim é que  a mesma ideia da amizade sem paixão é descrita, desta vez pelo homem, na seguinte passagem: "Enroscaste-te em mim e começaste a coçar-me as costas, muito devagar. Dormimos muitas e muitas vezes assim — e nunca, nem por um segundo, pensamos em fazer aquilo a que os inocentes chamam sexo. Falávamos muito disso, sim — desse ato a que as pessoas vão chamando sexo ou amor consoante as conveniências e as circunstâncias. Esse ato que as pessoas vão repetindo até à mais exaustiva solidão.".

Inês Pedrosa conseguiu, com muita poesia, escrever um romance sobre perda e solidão que é difícil de se esquecer e que, certamente, irá te pegar desprevinido(a) quando descobrir o quanto de igual existe nesta relação de paixão e amizade entre um homem e uma mulher.
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