Rafael Sperling - Festa na Usina Nuclear

Rafael Sperling - Festa na Usina Nuclear - 102 páginas - Editora Oito e Meio, lançamento 2011.

Segundo uma citação atribuída a Jorge Luís Borges, "Só se devem ler livros escritos há mais de cem anos", um exemplo de paradoxo que devemos apreciar com o devido cuidado já que, seguindo este pensamento à risca, não teríamos conhecido ainda o próprio Borges, uma perda e tanto para a literatura e também outros autores não teriam sido influenciados pelo grande mestre argentino, entre estes autores certamente estaria incluído o estreante Rafael Sperling com o seu livro de contos "Festa na Usina Nuclear", lançado em 2011 com o reconhecimento de outros escritores contemporâneos brasileiros como André Sant'Anna que escreveu a orelha do livro e elogios de Paulo Scott, João Gilberto Noll, Ana paula Maia e Marcelino Freire.

As influências de Sperling parecem estar menos focadas nos textos fantásticos de Borges e Cortázar e mais no surrealismo de André Breton e Boris Vian, porém com fortes doses de ironia e bom humor. O texto nonsense, diria quase corajoso, de Rafael Sperling agrada logo de início e parece que veio para ficar. Leiam o exemplo abaixo e tirem suas conclusões.

Um homem chamado Homem 2
(um conto de Rafael Sperling)

Havia um Homem
Um homem chamado Homem

*

Homem estava na Casa. Ele realizava o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. Era Segunda-Feira, 14h30.

O Aparelho de Telefone toca:

— Alô, Homem?
— Sim, aqui é Homem.
— Gostaria de falar com você.
— Desculpe, aqui não há ninguém chamado Você.
— Não, Homem! Não se faça de O Bobo. Gostaria de realizar a Conversa. É um Assunto Sério.
— Sim, Patrão. Realize a Fala.
— Homem, o que realizas a esta hora?
— Realizo o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja.
— Mas o Relógio marca 14h30. Seu corpo deveria estar dentro do Trabalho.
— Sim, eu tenho O Conhecimento Disso.
— Então por que se encontra na Casa?
— Eu realizo a Preguiça.
— Bom, Homem, a Humanidade toda realiza a Preguiça, de quando em vez. Mesmo assim, todos realizam diariamente o Trabalho.
— Eu tenho O Conhecimento Disso.
— Se não parar de realizar a Preguiça e começar a realizar o Trabalho, irei aplicar-lhe a Demissão.
— Mas, Patrão! E quanto a Menino? E a Mulher? E até Cachorro. Todos eles aplicam a Relação de Dependência a mim. O Trabalho nos provê o Sustento. Peço que não me aplique a Demissão.
— Para isso, deves tomar a Atitude. Realizas o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja há dias.
— Patrão... Devo realizar a Confissão.
— Pois, realize-a.
— Sinto o Vazio. Aquele. Sim, o Grande Vazio. A Inibição.
— Mas como? Por que não realizaste a Confissão antes?
— Sinto a Vergonha. Não queria que a Sociedade tomasse o Conhecimento disso.
— Devo encaminhá-lo ao Especialista. E rápido. O Grande Vazio realiza a Contaminação de outros.

A Ambulância realizou o Transporte de Homem até o Hospital. O funcionário Especialista Médico o atendeu.

— O que tens realizado, Homem? Patrão me disse que, há dias, apenas realizas o Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja. Estenda o Braço. Irei aplicar-lhe a Injeção, para preencher o Grande Vazio que sentes em teu corpo. Talvez sintas o Mal-Estar. A Injeção é muito forte.
— Médico, espere. Devo contar-lhe a Verdade. Na verdade... tenho realizado o Nada. O Sentar Em Frente À Televisão, Com A Lata De Cerveja é apenas uma Camuflagem da minha Não Atividade. Não queria que a Família soubesse disso. Sinto-me inundado pela Vergonha.
— Mas, Homem, não tens o Conhecimento de que a realização do Nada é um crime previsto no Código Penal?
— Sim, eu tenho O Conhecimento Disso.
— Então comece imediatamente a realizar algo! Agora! Sou uma Pessoa de Princípios. Se não começares imediatamente a realizar algo irei realizar a tua Denúncia.
— Não. Por que deveria? Por que a Sociedade me impõe? Isso não é ser livre. Isso é estar na Prisão. Tenho o Direito de Nascença de realizar o Nada. Não importa o que vão pensar de mim.
— E quanto à Família?
— Sim, eles são minha única preocupação. Mesmo assim, gostaria de ensiná-los que a Não Atividade é um Direito. A Sociedade nos ensina que a realização do Nada é algo errado, criminoso. Mas esse crime se encontra apenas na cabeça dos homens. Ele não é Real. O Governo não pode controlar minha mente. Creio não precisar provar minha falta de Não Atividade.
— Meu Deus. Homem, tens certeza do que dizes? Sabes qual é a Pena por Não Atividade?
— Sim, a Morte.
— Ainda assim, continuas a realizar o Nada?
— Sim, realizo o Nada quando sinto a Vontade.
— Esta sala possui as Câmeras.
— Não me importo. Nada me importa. Procuro obstinadamente o Nada. VIVA A ESTATICIDADE.

Neste momento a sala é invadida pela Força AntiNão Atividade. Homem é amarrado e levado dali. Em seu julgamento, o Juiz Do Tribunal Das Atividades Humanas concede a Homem o direito de provar perante a Sociedade que é um Cidadão Ativo.

— Não. Pretendo continuar a realizar a minha Não Atividade. É um direto meu. De todos.
— Tens o conhecimento de que o Cidadão que realiza a Não Atividade é aplicado com a Morte?
— Tenho.
— Infelizmente, devo condená-lo à Aplicação De Morte Induzida.

Homem é levado para a Câmara da Libertação, nome dado à sala da Aplicação De Morte Induzida. Homem é amarrado a uma cama, seus membros imobilizados.

— Quais são suas últimas palavras? — pergunta o Aplicador.
            — Como podem me condenar à Morte Por Não Atividade, se a Morte é a Não Atividade elevada às suas últimas consequências?
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