terça-feira, novembro 06, 2012

Charles Dickens - Grandes Esperanças

Charles Dickens - Grandes Esperanças - Editora Companhia das Letras - Selo Penguin Companhia - 704 páginas - Tradução de Paulo Henriques Britto - Introdução de David Trotter e Notas de Charlotte Mitchell, lançamento 26/06/2012 (ler aqui trecho do romance disponibilizado pela Editora).

Gosto muito de ler autores contemporâneos, sempre na expectativa de descobrir novas estruturas narrativas e ideias originais que ajudem a refletir sobre a sociedade atual e o momento histórico que estamos vivendo. No entanto, a chance de ler um romance clássico como Grandes Esperanças de Charles Dickens (1812 - 1870), em excelente tradução de Paulo Henriques Britto, é uma experiência única que nos faz entender o motivo da verdadeira literatura ser uma arte atemporal e permanente. Principalmente, neste ano em que comemoramos 200 anos do nascimento de Dickens (visitar o site oficial clicando aqui), constatamos que, apesar das novidades tecnológicas, o homem não mudou a sua essência e permanece envolvido com as mesmas e velhas questões existenciais não resolvidas, como o conflito entre a ética e o desejo. 

Grandes Esperanças, assim como a maioria dos romances de Dickens e de outros autores da época, foi lançado originalmente como folhetim e publicado na revista semanal All the Year Round entre dezembro de 1860 e agosto de 1861, já na fase final de sua carreira. O livro é dividido em três partes principais, na primeira ficamos conhecendo a origem do jovem protagonista órfão Philip Pirrip ou Pip como é chamado pela irmã megera que o criou após a morte dos pais, juntamente com o bondoso marido, o ferreiro Joe Gargery. A vida de Pip muda drasticamente quando recebe a notícia de que é o herdeiro de uma grande fortuna de um benfeitor misterioso, cujo nome não deve ser revelado em hipótese alguma. O simples conhecimento da nova situação financeira do jovem Pip e de suas “grandes esperanças” muda o comportamento das pessoas da aldeia e do próprio Pip que passa a se envergonhar de sua origem humilde. 

Na segunda parte do romance, Pip se muda para Londres onde deverá ser educado por um tutor de forma a se transformar em um cavalheiro, sonhando em conquistar a linda e inatingível Estella, filha de criação da rica solteirona Miss Havisham da sua aldeia de origem e que Pip suspeita ser a sua benfeitora secreta. Em Londres, ele passa a conhecer as tentações e corrupções de uma cidade grande e abandona lentamente todas as conexões com o seu passado. Dickens faz desfilar uma galeria inesquecível de tipos excêntricos sem dúvida, mas ao mesmo tempo convincentes, em uma narrativa ágil, sempre norteada pelo humor e ironia, onde avançamos sem sentir o peso das setecentas páginas do romance. 

Na terceira e última parte, Pip descobre a identidade do seu protetor, o que lhe causará ainda mais transtornos e o arrependimento pelas opções que escolheu no decorrer de sua vida. O resgate dessa dívida moral é o objetivo do personagem e uma das maiores lições do romance que guarda muitos segredos e reviravoltas. Não pretendo adiantar as surpresas nesta resenha e, por este motivo, recomendo também deixar a introdução de David Trotter para o final da leitura, pois revela muitos trechos do enredo (spoiler), principalmente para aqueles que estiverem lendo o romance pela primeira vez. As notas de Charlotte Mitchell, incluídas nesta cuidadosa edição do selo Penguin Companhia das Letras, são equilibradas e na medida certa para não perturbar o andamento da leitura e explicar as citações e contexto da época de Dickens. Enfim, uma ótima recomendação para comemorar o bicentenário de Dickens.
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