quinta-feira, novembro 15, 2012

Michel Laub - Diário da Queda

Michel Laub - Diário da Queda - Editora Companhia das Letras - 152 páginas - Lançamento 14/03/2011 (ler aqui trecho do romance disponibilizado pela Editora).

Michel Laub, neste seu quinto romance, lida pela primeira vez com a herança cultural legada por sua ascendência judáica em um livro sobre a memória, não apenas a memória individual, mas também a memória coletiva de três gerações de uma família que tem a história marcada pelo holocausto. Um tema bastante complexo e que ainda apresenta a dificuldade de encontrar um ponto de vista original, que não tenha se esgotado, longe do tom de vitimização tão comum e já abordado na literatura por autores como Primo Levi. O próprio Michel Laub deixa clara a impossibilidade, mas, ao mesmo tempo, a necessidade de discutir essa herança e os efeitos dela na formação do seu personagem no trecho abaixo:
"Eu também não gostaria de falar desse tema. Se há uma coisa que o mundo não precisa é ouvir minhas considerações a respeito. O cinema já se encarregou disso. Os livros já se encarregaram disso. As testemunhas já narraram isso detalhe por detalhe, e há sessenta anos de reportagens e ensaios e análises, gerações de historiadores e filósofos e artistas que dedicaram suas vidas a acrescentar notas de pé de página a esse material, um esforço para renovar mais uma vez a opinião que o mundo tem sobre o assunto, a reação de qualquer pessoa à menção da palavra Auschwitz, então nem por um segundo me ocorreria repetir essas ideias se elas não fossem, em algum ponto, essenciais para que eu possa também falar do meu avô, e por consequência do meu pai, e por consequência de mim."

A narrativa é construída em primeira pessoa e parte de um evento marcante na infância do protagonista sem nome que aos treze anos, durante uma brincadeira cruel com outros colegas, em uma festa de aniversário, deixa cair o aniversariante, único que não é judeu e, justamente por isso, é perseguido e humilhado pela turma em um antissemitismo ao contrário. A história do avô, sobrevivente de Auschwitz, que após o suicídio deixa um estranho diário em forma de verbetes e sem qualquer referência à tragédia do genocídio é constantemente relembrada pelo pai como uma forma de preservação da cultura judaica, mas essa realidade parece estar muito distante do cotidiano da família na Porto Alegre dos anos oitenta.

O narrador aos quarenta anos, busca, já no terceiro casamento em crise, a chave para a sua identidade e ao ser chamado para dar a triste notícia ao pai de um prognóstico precoce de Alzheimer, em outra referência genial à memória no romance, irá refletir sobre a trajetória de sua vida. Michel Laub utilizou o recurso de montar o romance em parágrafos curtos e numerados, o que, apesar da fragmentação, funcionou muito bem para alinhavar as mudanças de tempo entre as diferentes épocas da vida do personagem, sem quebra de continuidade. Um livro corajoso e que certamente ajudará a consolidar a carreira de Michel Laub como um autor de destaque na literatura contemporânea brasileira.
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