domingo, março 17, 2013

Cristovão Tezza - O Filho Eterno

Cristovão Tezza - O Filho Eterno - Editora Record - 224 páginas - lançamento 2007.

A metaficção ou mais diretamente neste caso, autoficção, de Cristovão Tezza, consciente ou não, é um recurso que, sendo bastante utilizado na literatura contemporânea, quase sempre gera bons resultados nas mãos de um autor que saiba dominar a tensão existente entre realidade e ficção. No entanto, Tezza extrapolou todos os limites com esta arriscada e premiada experiência literária chamada "O Filho Eterno" que ganhou as mais importantes disputas nacionais de 2008, como por exemplo: Portugal Telecom, Jabuti e São Paulo de Literatura, além de ter sido traduzido em vários idiomas.

O romance, narrado em terceira pessoa, utiliza como matéria-prima dados biográficos do próprio Tezza: as dificuldades na escrita de seus primeiros livros, as realizações e frustrações da carreira literária, a vida como imigrante ilegal na Europa e, principalmente,  sua experiência com o filho, portador de sídrome de Dawn, o que pode parecer chocante em diversas passagens devido ao grau de exposição, praticamente confessional do autor. A expectativa feliz pelo nascimento do primeiro filho em contraste com a sensação de dor e desamparo ao receber o duro choque da constatação de que algo estava errado. 
"Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz — parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta — passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam  uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam."
Cristovão Tezza chega a ser cruel em diversos momentos da narrativa, como quando faz com que seu protagonista confesse ter desejado a morte do próprio filho ou na descrição fria do comportamento sem esperanças de melhora da criança que vive em um presente eterno, roubando as expectativas de "normalidade" sonhadas pelo pai.
"Pai e mãe conversam como se não houvesse nada diferente acontecendo, até que um pequeno surto de depressão aflore, e então um breve gesto do outro repõe a normalidade possível, numa balança compensatória. A ideia ou a esperança de que a criança vai morrer logo tranquilizou-o secretamente. Jamais partilhou com a mulher a revelação libertadora. Numa das fantasias recorrentes, abraça-a e consola-a da morte trágica do filho, depois de uma febre fulminante."
No longo caminho de aprendizado dos pais com o filho, a personalidade do menino, que afinal é uma criança extremamente amorosa, acaba conquistando o respeito e carinho a que tem direito, mas obviamente não é uma relação simples e que possa ter um tratamento de "final feliz" como seria tentador esperar. Um livro inesquecível e comovente que nos faz pensar sobre o limite entre ficção e realidade e a responsabilidade da literatura com a verdade.
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