domingo, março 10, 2013

Junichiro Tanizaki - As irmãs Makioka

Junichiro Tanizaki - As irmãs Makioka - Editora Estação Liberdade - 742 páginas - Tradução direta do japonês de Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro - Lançamento 2005.

Os leitores já familiarizados com os temas fortes abordados por Junichiro Tanizaki (1886 - 1965) em outras obras como, por exemplo, "Diário de um Velho Louco" e "Voragem" (ver aqui resenha do Mundo de K); temas como infidelidade, fetichismo e sadismo, certamente ficarão surpreendidos pelo ritmo lento e a delicadeza do autor neste romance que é uma homenagem à família e aos valores tradicionais da cultura japonesa. No entanto, deve-se destacar que nem sempre as quatro irmãs Makioka: Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko, conseguem se adequar às regras rígidas familiares e ao conflito entre tradição e modernidade, no Japão da época anterior à Segunda Grande Guerra.

O romance gira em torno do objetivo comum da família Makioka de conseguir um pretendente para o casamento da terceira irmã Yukiko que, das quatro irmãs, é a que melhor representa a educação tradicional e os costumes, mas que, independente desta postura, já passa dos trinta anos sem ter conseguido este objetivo, devido a uma sucessão de negativas da família, orgulhosa de seu passado, para todas as oportunidades.
"Alguns especulavam que devia ter ocorrido algo bastante grave para que Yukiko, a irmã logo abaixo de Sachiko, continuasse solteira mesmo depois de completar trinta anos de idade, mas de fato nada acontecera. Contudo, na conjunção de fatores que levaram a esse resultado, talvez o que mais pesara fosse a incapacidade das irmãs Makioka — de Tsuruko, a irmã mais velha e herdeira da casa Makioka, como também de Sachiko e da própria Yukiko — de esquecer tanto o estilo de vida luxuoso que haviam levado ao lado do velho pai em seus últimos anos de vida, como a antiga força do nome Makioka. E buscaram tanto um pretendente à altura desse nome que acabaram recusando uma a uma, por serem insatisfatórias, todas as propostas de casamento — de início numerosas como as estrelas no céu — que lhe haviam sido apresentadas. Aos poucos, amigos e conhecidos se impacientaram, as propostas rarearam e, nesse meio tempo, a casa entrou em decadência."
Taeko, a irmã mais nova, é a que tem uma visão mais ocidentalizada e independente da vida e sonha se sustentar por seus próprios meios. Ela passa por muitas dificuldades ao longo do romance devido aos preconceitos da sociedade, mas sempre ajudada pelas irmãs que, mesmo censurando a sua liberdade, nunca a abandonam, mesmo quando o seu destino caminha para um desfecho trágico.
"Taeko estava deitada de perfil, com o lado do coração voltado para cima, e a febre havia baixado um pouco. Quando Sachiko apareceu, ela já parecia esperá-la, pois seus olhos estavam fixos na entrada do quarto... O rosto redondo de Taeko afinou-se, a pele estava mais escura do que já era, e os olhos pareciam maiores. Algo mais chamou a atenção de Sachiko: a aparência de impureza estranhamente percebida no corpo da irmã, e que não era a sujeira comum, encardida, causada pela simples falta de banho. Geralmente, os efeitos de sua conduta desregrada se ocultavam sob a maquiagem, mas ali, devido à fragilidade física, uma sombra de obscenidade dominava-lhe o rosto, o pescoço e os pulsos. Nada, porém, era tão evidente quanto sua magreza, proveniente não apenas do sofrimento gerado pela doença, mas da exaustão de uma vida descomedida ao longo de anos."
As duas irmãs mais velhas, Tsuruko e Sachiko, casadas, representam os contrastes entre a região de Kansai, que engloba as cidades de Kobe, Kioto e Osaka e a cidade de Tóquio, moderna mas, no entanto, sem tantos atrativos culturais. Tsuruko, representante do ramo principal da família, precisou se mudar para Tóquio, após a decadência financeira dos Makioka, originando uma rivalidade entre os dois ramos da família.
"Afinal, por que precisava enfrentar situações desagradáveis todas as vezes que ia a Tóquio? Seri a por não combinar com aquela cidade?... Tóquio era o kimon, o ponto cardeal do azar para elas, e aquele descuido de Taeko poderia acarretar um novo tropeço para o casamento de Yukiko. Ela não tinha mesmo sorte, pois apesar de ter encontrado um bom partido, o local para se conhecerem tinha sido Tóquio. Ao considerar tudo isso, Sachiko não conteve o sentimento de tristeza por Yukiko e sentiu ainda mais raiva de Taeko, vertendo lágrimas de compaixão e ressentimento."
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