terça-feira, maio 28, 2013

Euclides da Cunha - Os Sertões

Euclides da Cunha - Os Sertões - 928 páginas - Ateliê Editorial - Edição comentada e anotada - prefácio de Leopoldo Bernucci - Edição comemorativa de 2009 (primeira edição 2001).

A linguagem euclidiana, ao mesmo tempo caudalosa e jornalística, barroca e científica, não tem similar na literatura nacional e também não pode ser enquadrada em qualquer estilo literário da época ou posterior. Uma definição mais aproximada de Os Sertões é a do crítico e ensaísta Afrânio Coutinho que definiu o livro como “obra de ficção, narrativa heróica epopéia em prosa, da família de Guerra e Paz, de Canção de Rolando, cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada”. O fato é que Euclides da Cunha (1866 - 1909) desperta sentimentos contraditórios nos leitores, oscilando entre a paixão e o ódio, mas é um autor fundamental para compreensão da formação do sentimento de nacionalidade brasileira, juntamente com Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. 

Esta edição da Ateliê Editorial é fundamental para melhor apreciação do clássico Os Sertões, apresentando cronologia, mapas, fotos de época, índice onomástico e cerca de três mil notas que ajudam a transpor as dificuldades textuais, históricas e geográficas da obra, economizando o tempo do leitor em consultas a dicionários e busca por termos científicos, principalmente nas duas partes iniciais: A Terra e O Homem, nas quais Euclides da Cunha apresenta uma detalhada descrição da geografia e geologia nordestinas e a influência na formação do homem como produto do meio.

No entanto, é na terceira parte, A Luta, que encontramos a recompensa por ultrapassar as barreiras estilísticas e linguísticas das duas partes iniciais e que marca definitivamente Os Sertões como uma obra de criação literária, apesar de não ficcional. O conflito de Canudos, liderado pelo fanático religioso Antônio Conselheiro, é relatado em cada uma das quatro expedições militares que foram necessárias para vencer a resistência da comunidade sertaneja, finalmente massacrada. Euclides conseguiu desmascarar, nas grandes capitais brasileiras, a ideia de que os rebeldes de Canudos eram partidários de um movimento monarquista contra a república.

O trecho abaixo, para sempre eternizado na definição da antropologia do sertanejo, fica como exemplo da prosa euclidiana, da riqueza de antíteses em expressões lapidares como "Hércules-Quasímodo", uma obra-prima que permanece vibrante e atual, cem anos após a sua criação, mesmo com a exuberância e complexidade linguística tão rara em nossos dias. 
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas (...)”
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