quinta-feira, agosto 08, 2013

Orhan Pamuk - Istambul

Orhan Pamuk - Istambul - Editora Companhia das Letras - 400 páginas - Lançamento 24/04/2007 - Tradução da versão inglesa de Sergio Flaksman.

Istambul sempre representou um mistério para o ocidente, localizada entre Europa e Ásia, antiga Bizâncio e Constantinopla, é uma cidade que durante séculos assimilou diferentes culturas, tendo sido dominada pelos impérios Romano, Bizantino e Otomano até ser incorporada à República da Turquia em 1923 devido às reformas políticas implementadas pelo estadista Mustafa Kemal Atatürk. Este livro é uma autobiografia nada convencional, confundindo as memórias de vida de Orhan Pamuk, prêmio Nobel de Literatura de 2006, com a história e os costumes da sua cidade natal à partir de um ponto de vista sentimental, mas ao mesmo tempo questionador e crítico.

Pamuk identifica e define o sentimento de melancolia coletiva dos habitantes de Istambul pela palavra hüzün, um estado característico de tristeza e angústia, originado em parte pela perda das tradições e status da cidade após a queda do Império Otomano e a rápida modernização forçada pelas reformas de Atatürk. Segundo o autor, "a hüzün de Istambul não é apenas um estado de espírito evocado pela sua música e a sua poesia, mas um modo de encarar a vida (...), não tanto um estado de espírito quanto um estado mental que, no fim das contas, tanto afirma quanto nega a vida." Os verdadeiros istambullus, no entanto, não carregam este sentimento como uma dor indesejada da qual devem se livrar, mas sim ostentam a hüzün por escolha própria e até mesmo orgulho. 

A imagem exótica de Istambul difundida no ocidente, como explica Pamuk, se deve muito às descrições da cidade feitas por escritores franceses como Gérard de Nerval, Théophile Gautier e Gustave Flaubert no século XIX, estereótipos criados à partir de lendas sobre sultões, haréns e o mercado de escravos, instituições abolidas no século XX após a fundação da República. Talvez todos esses clichês hoje sejam tão estranhos para os moradores de Istambul quanto para os ocidentais e só permanecem mesmo como chamariz turístico.

Na verdade, este livro certamente decepcionará aqueles que buscam uma descrição turística tradicional da cidade e de seus atrativos mais famosos como a Mesquita Azul, Museu Hagia Sophia ou o Palácio Topkapi. Istambul é uma narrativa não linear que mistura livro de memórias, crônicas e ensaio, mas que também tem muito de ficcional, como não poderia deixar de ser em um livro escrito por Orhan Pamuk.
"Quando vejo as multidões em preto e branco que se apressam pelas ruas cada vez mais escuras de um começo de noite de inverno, experimento um sentimento profundo de camaradagem, quase como se a noite envolvesse as nossas vidas, as nossas ruas, cada pertence nosso num manto de escuridão, como se, depois de nos refugiarmos em nossas casas, nos nossos quartos, nas nossas camas, pudéssemos retornar aos sonhos de nossas riquezas de há muito perdidas, do nosso passado lendário. Da mesma forma, quando vejo a escuridão cair aos poucos como um poema sobre a luz fraca dos lampiões de rua para engolir esses velhos bairros, sinto-me reconfortado de saber que, pelo menos por aquela noite, estaremos a salvo; a vergonhosa pobreza da nossa cidade ficou oculta aos olhos ocidentais."
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