segunda-feira, dezembro 16, 2013

Flavio Cafiero - O frio aqui fora

Flavio Cafiero - O frio aqui fora - Editora Cosac Naify - 254 páginas - Lançamento Outubro 2013.

Flavio Cafiero soube utilizar com segurança e coragem a matéria autobiográfica em seu ótimo romance de estreia. Por sinal, coragem é uma palavra, apropriada ou não, que ele tem escutado bastante nos últimos tempos e que define bem a sua opção de vida ao abandonar o cargo executivo e uma carreira de 15 anos em uma grande empresa, tudo em busca do antigo sonho de escrever. Depois de seis anos afastado dos processos corporativos, reuniões, planilhas e crachás, Cafiero descobriu que rotinas e cronogramas não funcionam no imprevisível mundo da criação literária mas, ainda assim, ele parece estar indo muito bem em sua nova carreira de escritor.

A estrutura narrativa de O frio aqui fora é fragmentada e não linear, passado e presente se alternam enquanto ficamos conhecendo as opções do protagonista Gustavo Luna, muito parecidas com as do próprio autor, apesar de não termos certeza da extensão das vivências de Flavio Cafiero colocadas no romance e, de qualquer forma, sabermos que isto não é mesmo muito importante na literatura contemporânea. A decepção por uma esperada promoção que não foi concedida, um novo chefe não muito sensível e uma esquecida avaliação psicológica que revelava sua inadaptação ao mundo corporativo, todas são possíveis causas para a decisão do personagem de abandonar a empresa e arriscar a sobrevivência na "savana" do mundo real, longe das certezas dos organogramas.
"(Você deve sofrer, Luna), foi o diagnóstico da psicóloga dos recursos humanos. A psicóloga dos recursos humanos foi uma das pessoas mais abertas que conheceu na trajetória de vida na empresa, e a simpatia foi mútua: a inconfidente falou mais do que deveria. (Dos perfis possíveis de serem traçados com esse teste, você tem o mais incompatível com um ambiente corporativo), quase uma sentença: incompatível com ambientes corporativos. (Seu modelo mental flui para outras áreas, como religião, psicologia, educação, artes), um desvelamento, uma irresponsabilidade dizer aquilo, e sentiu-se uma farsa, viu a máscara caída e despedaçada. Religião? Artes: um perfil pouco encontrado entre gerentes. E o que isso queria dizer? (Não quer dizer que seja impossível estar aqui, mas aconselho que fique atento e administre seu sofrimento), e Luna descobriu que sofrimento se administra."
Outras mudanças na sua vida pessoal coincidem com este momento no qual as palavras como crachá, cancela, segurança, título, paixão, apreço, sofrimento e muitas outras começam a ganhar sentidos diferentes; o final de um longo relacionamento e a necessidade de retomar o seu cotidiano na empresa, absurdas reuniões de "coaching" para processar a frustração pela perda da promoção, todos os acontecimentos parecem fragilizar ainda mais Gustavo Luna e aumentar o seu estado de solidão que acaba precipitando uma escolha que tinha ficado esquecida há muito tempo na sua adolescência.
"Tem a impressão de que está num livro, não é a primeira vez, mas não sabe decidir se a sensação agora é boa ou ruim: apenas está ali, e uma picada de aranha adicionou lentes de aumento a suas capacidades perceptivas, e agora poderia ler gestos, reações, intenções, quem sabe até descubra que, em breve, haverá um fim. É, talvez use essas coisas no livro, pode ser. O livro de Luna já tem título, é inevitável que tenha um depois de tantos anos. Vem reformulando o 'título' desde os dezoito anos, quando se permitia sonhar com uma carreira artística. Com artigo definido ou sem? E se usar o pretérito em vez do presente? E se pusesse o 'título' no fim, e não no começo? O livro de Luna pode ter uma capa, e até um fim, inspirado em um desses filmes franceses que adora assistir. Tudo bem, meio óbvio. Começo e fim, muito bem. Mas, Luna, veja bem: você precisa escrever o meio."
Flavio Cafiero criou um personagem sensível e convincente pelo qual é muito difícil não simpatizar e se identificar, Luna sabe que precisa mudar, mesmo que, em sua inadaptação e isolamento, não tenha todos os porquês à disposição, ainda assim busca explicações que justifiquem poder ter o direito de exclamar: Hoje acordei!
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