segunda-feira, dezembro 23, 2013

José Eduardo Agualusa - Teoria Geral do Esquecimento

José Eduardo Agualusa - Teoria Geral do Esquecimento - Editora Foz - 176 páginas (lançamento original 2012).

Romancista, jornalista e poeta, José Eduardo Agualusa, nascido em 1960, em Huambo, Angola, é um dos nomes mais importantes no cenário da literatura contemporânea em língua portuguesa e sabe, assim como nós, habitantes dos países "em desenvolvimento", seja na África ou no Brasil, que: "a realidade é mais criativa e poderosa que a melhor ficção". Só nos resta, portanto, esperar que a ficção possa ter o poder necessário para ajudar nas transformações urgentes que essas sociedades necessitam.

O seu romance mais recente, Teoria Geral do Esquecimento, tem início em 1975, durante a guerra de revolução em Angola, quando a protagonista, Ludovica, Ludo como é chamada, após o desaparecimento da irmã e cunhado, ergue uma parede para separar o apartamento de luxo do resto do prédio e, amedrontada e anestesiada pelo isolamento, acaba sobrevivendo por trinta anos à base dos mais diversos expedientes, como a caça aos pombos sobreviventes que ainda restavam em Luanda, após o desaparecimento gradual dos cães e gatos da cidade e a queima dos livros da biblioteca do cunhado. Apesar do tema difícil, Agualusa escreve com muito lirismo e até mesmo algum humor, contando como uma pessoa e toda uma sociedade podem ser capazes de mergulhar no medo e no esquecimento. Através dos diários de Ludo ficamos conhecendo a sua rotina no apartamento:
"Os dias deslizam como se fossem líquidos. Não tenho mais cadernos onde escrever. Também não tenho mais canetas. Escrevo nas paredes, com pedaços de carvão, versos sucintos. Poupo na comida, na água, no fogo e nos adjetivos." 
O próprio Agualusa explica a sua necessidade de escrever sobre a independência de Angola (um tema já muito bem explorado por outro grande autor, António Lobo Antunes) no trecho abaixo de sua entrevista para o caderno Prosa e Verso do Globo:
"Este período é fascinante e inesgotável. Uma época de transição, os colonos portugueses fugindo, mercenários americanos, ingleses e portugueses, juntamente com militares sul-africanos, combatendo tropas cubanas e angolanas. Angola era um turbilhão. Um mundo acabava e outro começava a se construir em cima das ruínas. Tudo parecia possível, todos os sonhos, mas ao mesmo tempo fuzilavam-se pessoas em praça pública, como se fosse um espetáculo."
O isolamento da protagonista não impede o autor de contar esta difícil e violenta fase da história de Angola através de diferentes pontos de vista. Assim é que acompanhamos as etapas do "esquecimento" de Ludo de todo o violento mundo externo em transformação e os caminhos que unem os vários personagens, que também desejam esquecer ou serem esquecidos, em sua história comum na busca por um futuro melhor.
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