terça-feira, dezembro 10, 2013

Sacher-Masoch - A Vênus das Peles

Sacher-Masoch - A Vênus das Peles - Editora Hedra - 160 páginas - Tradução de Saulo Krieger - Introdução de Flávio Carvalho Ferraz.

Leopold Ritter von Sacher-Masoch (1836 - 1895), romancista e jornalista austríaco, publicou em 1870 o romance que acabou associando para sempre o seu nome ao "masoquismo", prática que consiste na fantasia de sentir prazer através do sofrimento proporcionado pela dor ou humilhação em uma relação sexual (mais de um século antes do popular 50 tons de Cinza). Sacher-Masoch desenvolveu a obra com descrições detalhadas e explícitas, inspiradas por experiências e eventos reais que vivenciou relacionados ao tema, transformando-se assim em um escritor maldito e terminou os seus dias sofrendo crises de demência em um sanatório.

A Vênus das Peles foi citado como estudo de caso em 1886 pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing (1840 - 1902) no seu tratado, Psychopathia Sexualis, que relacionava práticas sexuais pretensamente fora da "normalidade", ao menos assim se pensava na época. Várias "perversões", muitas de caráter violento, foram classificadas pelo autor, formalizando assim, na psicanálise, os termos "masoquismo" e "sadismo", este último decorrente das obras do Marquês de Sade. Diferentemente de Krafft-Ebing que impôs uma leitura moralizante e criminal aos desvios do padrão sexual da época, Sigmund Freud (1856 - 1935) iniciou os seus estudos em 1905 com o lançamento de Três ensaios sobre a teoria da sexualidade que, juntamente com outras pesquisas, vieram a comprovar que as opções sexuais do indivíduo são decorrentes do seu histórico afetivo particular e não de origem biológica. É interessante notar que Freud entendia a literatura como um instrumento importante e, até mesmo, superior à ciência para desvendar os segredos da alma humana.

O romance é narrado em primeira pessoa por Severin von Kusiemski, protagonista que se faz escravizar por Wanda von Dunajew a quem idolatra como a Vênus das peles. A paixão de Severin somente pode se concretizar à partir do sofrimento físico e moral e ele se submete inclusive a um contrato em que renuncia a todos os seus direitos de liberdade: "A senhora Von Dunajew deverá punir seu escravo a seu bel-prazer, não só pelo que lhe pareça o menor descaso ou a menor falta, como também terá o direito de o maltratar, seja por capricho, seja por passatempo, como bem lhe convier, matá-lo até mesmo, se assim o preferir; em suma terá sobre ele um direito de propriedade ilimitado."

Como parte do jogo de submissão, a idealização da superioridade do parceiro dominador irá considerar inclusive a atribuição a este de características de poder sobre-humanas. Este fato explica a prática comum da utilização de objetos ou mesmo próteses na relação masoquista. O simbolismo das peles na relação de Severin  e Wanda é mais um componente fetichista explorado por Sacher-Masoch, assim como os chicotes. Hoje, existe um entendimento generalizado na psicanálise de que o controle da relação masoquista não está no torturador, mas sim no escravo que sabe manter em seu poder o domínio da situação, ele é o verdadeiro tirano, aquele que domina o seu torturador e controla cada detalhe da  fantasia. Logo, inversamente ao que se poderia imaginar, caberá ao dominador, na verdade, obedecer às fantasias do parceiro que pretensamente se submete.

Na verdade, seria uma injustiça com Sacher-Masoch classificar o seu romance apenas como uma ferramenta para o desenvolvimento da ciência ou, por outro lado, como uma obra francamente pornográfica. A Vênus das Peles certamente contribuiu muito para a evolução da psicologia devido à coragem do autor em tratar de temas proibidos na época, mas o livro também deve ser apreciado pelo que verdadeiramente é, uma bela obra da literatura universal sobre o amor e as relações humanas.
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