domingo, dezembro 01, 2013

Vladimir Nabokov - Contos Reunidos

Vladimir Nabokov - Contos Reunidos - Editora Objetiva - 832 páginas - Lançamento 01/06/2013 - Tradução de José Rubens Siqueira.

Uma verdadeira aula de literatura e um livro inestimável para conhecer a genialidade de Vladimir Nabokov  (1899 - 1977) em toda a sua extensão. Esta coletânea reúne 68 contos escritos entre 1920 e 1950, em ordem cronológica, permitindo constatar a diversidade e criatividade estilística do autor na elaboração da estrutura de cada conto. Em vida, Nabokov publicou quatro antologias nos Estados Unidos, cada uma com treze contos: A dúzia de Nabokov (1958), Uma beleza russa e outros contos (1973), Tiranos destruídos e outros contos (1975) e Detalhes de um pôr do sol e outros contos (1976). Completam esta edição, portanto, outros trabalhos traduzidos e publicados postumamente pelo filho Dmitri Nabokov. Os temas são quase todos relacionados à difícil vida dos expatriados russos na Europa e Estados Unidos, mas atingem o status único de universalidade que só encontramos nas grandes obras primas. A maioria do material é inédito em língua portuguesa, oferecendo uma oportunidade ao público lusófono de conhecer um pouco mais de Nabokov do que o seu clássico romance "Lolita" que alcançou grande sucesso comercial em todo o mundo, devido à adaptação para o cinema.

Em "Fala-se russo", um bem-humorado conto datado de 1923, o autor exercita a sátira política com a sua tradicional fina ironia quando uma família de imigrantes russos, antigos proprietários de terras antes da revolução bolchevique e donos de uma tabacaria em Berlim, recebem um cliente muito especial, um azarado representante da polícia secreta soviética que acidentalmente entra na loja, oferecendo uma rara oportunidade de compensação: "Um cliente entrou. Evidentemente, não tinha notado a placa na vitrine (Fala-se russo), porque se dirigiu a mim em alemão. Deixe eu frisar bem isto: se tivesse notado a placa, não teria entrado numa modesta loja de emigrados. Reconheci que ele era russo por sua pronúncia. Tinha uma cara de russo também. Eu, é claro, parti para falar russo, perguntei qual a faixa de preço, qual tipo de produto. Ele me ohou com desagradável surpresa: 'O que faz o senhor pensar que eu sou russo?' Dei uma resposta absolutamente gentil, pelo que me lembro e comecei a contar os cigarros (...)."

Já em "Sons", também escrito em 1923 e publicado pelo filho na edição da revista New Yorker de 1995, passamos a conhecer um Nabokov apaixonado já que o tema da narrativa é inspirado em um caso de amor juvenil com a prima Tatiana Evghenievna Segelkranz (sobrenome de seu marido militar). O cuidado na descrição da cena é praticamente inexistente na nossa literatura contemporânea: "Era preciso fechar a janela: a chuva estava batendo no peitoril e espirrando no soalho e nas poltronas. Com um som fresco, escorregadio, enormes espectros de prata corriam pelo jardim, através da folhagem, pela areia alaranjada. A calha tremia e engasgava. Você estava tocando Bach. A tampa laqueada do piano erguida, debaixo dela uma lira, e os martelinhos batiam nas cordas. A toalha de brocado, amassada em dobras ásperas, tinha escorregado um pouco da cauda, derrubando uma partitura aberta no chão. De quando em quando, em meio ao frenesi da fuga, seu anel batia na tecla enquanto, incessante, magnífica, a chuva de junho atacava as vidraças.  E você, sem parar de tocar, a cabeça ligeiramente inclinada, exclamava, no ritmo da música: 'A chuva, a chuva... Eu vou afogar a chuva...' (...)".

Em "Signos e símbolos", publicado em "A dúzia de Nabokov" de 1958, um casal de idosos retorna do sanatório, tentando visitar sem sucesso o filho internado com tendências suicidas no dia do seu aniversário. A maneira como é descrito o cotidiano miserável do casal e a esperança inútil de tentar cuidar do filho é magistral nestas reflexões da pobre senhora: "Isso e muito mais ela aceitava — porque afinal de contas viver significava aceitar a perda de uma alegria atrás da outra, nem mesmo alegrias no caso dela — meras possibilidades de melhoria. Ela pensou nas infindáveis ondas de dor que por uma razão ou outra  ela e o marido tinham de suportar; nos gigantes invisíveis que machucavam seu menino de alguma forma inimaginável; na incalculável quantia de ternura contida no mundo; no destino dessa ternura, que ou é esmagada, ou desperdiçada, ou transformada em loucura; nas crianças abandonadas cantarolando para si mesmas em cantos sujos; nas belas ervas daninhas que não conseguem se esconder do fazendeiro e têm de ver, desamparadas, a sombra de seus ataques símios deixar flores dilaceradas em seu rastro, enquanto se aproxima a monstruosa escuridão."

Enfim, uma antologia essencial que é uma espécie de Bíblia para os amantes da boa ficção em uma organização muito conveniente que possibilta uma visão ampla da progressão de Nabokov como escritor, além da inclusão de notas sobre os contos do próprio autor e de seu filho Dmitri. Imperdível.
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