quinta-feira, janeiro 09, 2014

Alejandro Zambra - Bonsai

Alejandro Zambra - Bonsai - Editora Cosac Naify - 96 páginas - Tradução de Josely Vianna Baptista - Lançamento no Brasil em Maio de 2012.

O romance de estreia do premiado e jovem autor chileno Alejandro Zambra, publicado originalmente em 2006, parte da irresistível ideia de comparar literatura com a arte de cultivar um bonsai, já que como o próprio Zambra definiu em seu site (neste texto): "escrever é podar os ramos até tornar visível uma forma que já estava ali". A comparação é perfeita e qualquer pessoa que já tenha passado pela experiência de desenvolver um texto e lidar com a eliminação de palavras, sejam elas substantivos, advérbios ou adjetivos, irá se identificar imediatamente com o paciente trabalho de criar uma réplica artística de uma árvore em miniatura.

A estrutura deste romance "miniatura" é construída sobre o intenso e breve caso amoroso de Julio e Emilia, que se relacionam tendo basicamente o sexo e a leitura como elos de ligação. O comprometimento de Zambra com a brevidade ou concisão da narrativa é tão firme que ele arrisca tudo já no primeiro e desconcertante parágrafo, oferecendo corajosamente ao leitor a própria conclusão do livro:
"No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:"
Na verdade o argumento do romance é muito mais rico do que uma breve história de amor. Alejandro Zambra é um daqueles autores como Borges, Vila-Matas e outro chileno famoso, Roberto Bolaño, que sabem utilizar a literatura como personagem. Assim é que a aproximação de Julio e Emilia se dá através de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, romance que ambos fingem já ter lido; na cama os dois se esmeram para parecer Emma Bovary de Flaubert e a origem da separação do casal é o conto TanTalia de Macedonio Fernández — a história de um casal que decide comprar uma pequena planta para simbolizar o amor que os une, mas que percebe tarde demais que a morte da planta será também a morte desse amor.
"As extravagâncias de Julio e Emilia não eram apenas sexuais (que existiam), nem emocionais (que eram muitas), mas também, digamos literárias. Numa noite especialmente feliz, Julio leu, meio de brincadeira, um poema de Rubén Darío que Emilia dramatizou e banalizou até transformá-lo num verdadeiro poema sexual, um poema de sexo explícito, com gritos, com orgasmos. Então virou um hábito o lance de ler em voz alta — em voz baixa — toda noite, antes de trepar. Leram 'O livro de Monelle', de Marcel Schwob, e 'O pavilhão dourado', de Yukio Mishima, que foram razoáveis fontes de inspiração erótica para eles. Mas logo as leituras se diversificaram a olhos vistos: leram 'Um homem que dorme' e 'As coisas', de Perec, vários contos de Onetti e de Raymond Carver, poemas de Ted Hughes, de Tomas Tranströmer, de Armando Uribe e de Kurt Folch. Até fragmentos de Nietzsche e de Émile Cioran eles leram."
Alejandro Zambra, nascido em 1975, já é um nome de destaque na literatura chilena tendo sido selecionado pela revista Granta para a edição especial dos melhores jovens romancistas em língua espanhola em 2010 e visitado o Brasil em 2012 quando participou da FLIP em uma mesa especial com Enrique Vila-Matas, segundo informações da editora Cosac Naify, Zambra também é crítico, professor de literatura e, como não poderia deixar de ser, um diligente leitor de manuais, revistas especializadas e livros técnicos sobre o cultivo de bonsai, nada mal para um jovem autor.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
>