sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Kurt Vonnegut - Cat´s Cradle

Kurt Vonnegut - Cat´s Cradle - 287 páginas - Random House Publishing Group - Lançamento original 1963.

Sempre achei difícil entender por que não conseguimos encontrar bons livros em livrarias de aeroportos, seja no  Brasil ou no exterior. Será que as pessoas em trânsito só se interessam por livros de autoajuda, best-sellers ou revistas de fofoca? Bem, foi com imenso prazer que descobri este livrinho salvador em uma loja do aeroporto de Houston ao aguardar um demorado voo de conexão. O próprio Kurt Vonnegut, com a sua corrosiva veia satírica, certamente acharia curiosa a pacífica convivência com as publicações vizinhas.

Cat´s Cradle ("Cama de Gato" em português) é um dos romances mais fortes já escritos em protesto contra o uso irresponsável da ciência pela indústria de armamentos e manipulação da religião pelos governos. Como sempre, Vonnegut consegue tratar de temas difíceis com humor (mesmo que seja um tipo de humor negro). A narrativa tem como base uma pesquisa de um jovem escritor (duas mulheres, 250.000 cigarros e 750 litros de cerveja atrás…) sobre um fictício cientista chamado Felix Hoenikker, pretensamente um dos criadores da bomba atômica, e os eventos ocorridos no dia do lançamento desta bomba em Hiroshima. Durante a pesquisa ficamos conhecendo os três filhos de Hoenikker, um anão pintor, uma jovem clarinetista e o terceiro que se torna general em uma pobre ilha caribenha chamada San Lorenzo. Uma última invenção de Hoenikker antes da própria morte, uma fórmula chamada ice-nine, em poder dos filhos, pode representar uma ameaça para o futuro da humanidade.

Uma das invenções mais engraçadas e cínicas de Vonnegut, neste romance, é a religião predominante na ilha de San Lorenzo, chamada de "bokononista" e orientada pela mentira que torna os seguidores corajosos, saudáveis e felizes, segundo o seu criador Bokonon. Adicionalmente, a própria ilha, desprezada por uma sequência de metrópoles colonizadoras, acaba sendo controlada por um tirano chamado Miguel "Papa" Monzano que mantém o poder fingindo banir a religião local com a pena de morte para os simpatizantes (apesar do próprio tirano ser um seguidor). Este falso confronto de forças entre governo e religião demonstra ser uma  decisão acertada para manter o controle da ilha e desviar o foco das verdadeiras necessidades do povo. Um livro importante na literatura contemporânea e, infelizmente, ainda representativo da estupidez humana.
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