sábado, novembro 01, 2014

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros

Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - 590 páginas - Boitempo Editorial - Tradução Helena Pitta - Prefácio de Gilberto Maringoni - Lançamento: Dezembro de 2013.
Um romance histórico muito bem construído, onde o cubano Leonardo Padura utilizou ficção e fatos reais para contar o planejamento do assassinato de Leon Trotski (1879 - 1940) pela NKVD, polícia política da antiga União Soviética, sob as ordens de  Joseph Stálin (1879 - 1953). Liev Davidovitch Bronstein, ou Leon Trotski como ficou conhecido, foi um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 e organizador do Exército Vermelho. Intelectual de formação marxista, foi afastado do controle do partido e exilado por Stálin. A sua trajetória no exílio, passando pela Turquia, França, Noruega e México é narrada em detalhes no livro, inclusive a fase final no México, onde ficou inicialmente hospedado com a sua esposa  na casa de Diego Rivera e Frida Kahlo.

O assassino de Trotski, Ramon Mercader (1913 - 1978), combatente na Guerra Civil Espanhola, foi recrutado pelos assessores soviéticos na Espanha e treinado pelos serviços de inteligência, mudando de identidade e nacionalidade para se transformar no belga Jacques Monard. Ele foi preso após o crime, mas nunca admitiu ter sido enviado pela União Soviética. Passou vinte anos nas prisões mexicanas e mudou-se para Moscou, vindo a falecer em Cuba nos anos 1970. O trabalho de ficção faz com que possamos entender melhor as contradições de Ramon Mercader e a forma como foi envolvido no processo, devido às suas convicções políticas e revolucionárias, um destino trágico do qual ele não conseguiu escapar.

O elemento de união de toda a trama fica por conta do personagem fictício Iván Cárdenas Maturell, escritor e veterinário amador que fica conhecendo Ramon Mercader em Cuba e detalhes de toda a história. Através deste narrador, Padura conta também as dificuldades econômicas e a influência das mudanças políticas mundiais no cotidiano da ilha. De certa forma é surpreendente que este livro não tenha sido censurado pelo governo cubano. O próprio autor em entrevista à revista Época fala da experiência de ser um escritor em Cuba e da dificuldade de acesso às informações:
"Na universidade que cursei, nos anos 1970, a figura de Trotski não existia. Nas aulas de filosofia e de história, ou quando se falava da Revolução Russa, ele não era mencionado. Exatamente como se fazia na União Sovié­tica. Isso me provocou uma enorme curiosidade. Quando pude, tratei de procurar informações sobre ele. Os livros soviéticos diziam que era um traidor da causa do socialismo e, por isso, morrera no exílio. Em 1989, visitando a Cidade do México, pedi a um amigo que me levasse à casa de Trotski, no bairro de Coyoacan. Quando cheguei ali, senti uma comoção forte ao ver a mesa de Trotski tal como ficou depois do crime. Como, num lugar tão perdido no mundo, chegou a mão de Josef Stálin para matar esse homem? Anos depois, soube que Ramón Mercader, o homem que matara Trotski, morrera em Cuba completamente anônimo. Posso ter cruzado com ele na rua sem saber. Tudo isso formou a base sentimental do romance. Depois, passei dois anos lendo e pesquisando sobre o assunto e três anos escrevendo."
O romance é o resultado de uma extensa pesquisa histórica e também uma bela obra de ficção que simboliza a frustração pela perda do grande sonho do socialismo no século XX e a luta pela igualdade entre os homens. De como a Utopia pode se transformar em Distopia através de regimes totalitários como foi o stalinismo.
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