sábado, fevereiro 14, 2015

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go

Kazuo Ishiguro - Never Let me Go - 288 páginas - Editora Vintage (2005) - Publicado no Brasil como: "Não me Abandone Jamais" pela Companhia das Letras (leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora brasileira).

Este sexto romance de Kazuo Ishiguro, incluído na short list do Man Booker Prize de 2005 e adaptado para o cinema em 2010, é narrado em primeira pessoa por Kathy H. que relembra passagens de sua vida desde a infância no internato de Hailsham, em algum lugar do interior da Inglaterra, que está longe de ser uma escola normal, como descobrimos lentamente à medida que avançamos na descrição ingênua de Kathy do seu cotidiano com os amigos Ruth e Tommy.

Os alunos em Hailsham não são verdadeiramente alunos, mas sim futuros doadores de órgãos, clones gerados e mantidos pela sociedade unicamente para esta finalidade, enquanto aguardam atingir a idade madura para iniciar o triste destino de doações e "completarem" o seu ciclo. A sequência de cirurgias e recuperações terá quantidade e extensão dependentes unicamente da resistência de cada doador. Na verdade, Ishiguro não está preocupado em detalhar a base científica dos procedimentos genéticos envolvidos nos processos de clonagem e doação, mas sim nos conflitos emocionais dos personagens ao se deparar com a fatalidade da sua situação no mundo.

Kathy exerce por muitos anos a função de "cuidadora", ou seja, ela ajuda na recuperação física e psicológica dos "doadores" após as cirurgias até que seja convocada a iniciar o seu próprio ciclo de doações, o que parece um destino ainda mais cruel porque ela presenciará as etapas finais dos pacientes de que está cuidando, sendo alguns antigos companheiros de Hailsham, fazendo com que o seu futuro seja solitário e sem esperanças.

A forma como são criados, isolados e instruídos nos princípios limitados de suas curtas existências, faz com que os personagens tenham uma postura conformista quanto ao fato de não poderem leva suas vidas como seres humanos normais, tanto em termos de longevidade quanto de realizações (por exemplo, eles não podem ter aspirações profissionais ou pretensões de formar uma família com filhos).

Kazuo Ishiguro imaginou uma distopia e um argumento que bem poderiam enquadrar o seu romance no gênero de ficção científica, mas seria uma classificação muito simplista para o livro, sem querer desmerecer o gênero. "Não me Abandone Jamais" é perturbador demais na reflexão que provoca sobre a existência e na descrição detalhada de uma prática que, assustadoramente, não está tão distante assim das "conquistas" científicas da nossa época. Um romance que incomoda.
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