domingo, março 15, 2015

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem - 204 Páginas - Editora Rocco (lançamento original 1943).

Este primeiro romance de Clarice Lispector (1920 - 1977), escrito entre março e novembro de 1942, ainda hoje é considerado uma obra revolucionária na literatura brasileira, uma nova forma introspectiva de contar histórias, através da alma dos personagens e da própria autora. Sim, porque o coração selvagem de Joana, nossa protagonista inadaptada ao meio social e familiar, amoral e até mesmo cruel como uma "víbora", mas ao mesmo tempo ingênua em sua sincera busca pela felicidade, tem muito do coração da própria Clarice, ucraniana refugiada aos dois meses de idade e naturalizada brasileira, mas sempre uma eterna estrangeira no Brasil e em todos os países pelos quais passou.

Ainda menina, Joana surpreende sua professora com a seguinte pergunta: "O que é que se consegue quando se fica feliz?" e repete, devido à incompreensão da professora que não sabia como responder: "depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?", "Ser feliz é para se conseguir o quê?". A trajetória de vida de Joana desde a infância órfã, criada pela tia e depois em um internato até se casar com Otávio não parece esclarecer a questão e mesmo a opinião da própria Joana adulta sobre o casamento é bastante peculiar para a época, como neste diálogo entre ela e Lídia, amante de Otávio:
" Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que ainda tenho a certeza de que não casei... Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão.  Meu Deus!  não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conserva porque se arrasta consigo outra pessoa. Há alguém que sempre a observa, que a perscruta, que acompanha todos os seus movimentos. E mesmo o cansaço da vida tem certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada  eu pensava. Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro...Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do  leito comum, da mesa comum, preparando e ameaçando a morte comum. Eu sempre dizia: nunca."
Um livro complexo e fundamental que se deve reler por muitas vezes, como uma espécie de oração para um Deus que não é o Deus humanizado das religiões, mas o Deus Natureza de Spinoza que está além do bem e do mal, como Joana (Clarice) demonstra nesta bela passagem que simboliza o seu renascimento após a separação de Otávio:
"(...) eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro!, o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."
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