domingo, março 29, 2015

Juan Marsé - El amante bilingüe

Juan Marsé - El amante bilingüe - 224 páginas - Editora Planeta - Seix Barral - Publicação 2006 (lançamento original Editorial Planeta em 1990).

Vencedor do Prêmio Cervantes 2008, o catalão Juan Marsé é praticamente um desconhecido no Brasil, tendo somente um livro publicado em nosso país: "Rabos de Lagartixa" pela editora Siciliano em 2004. "El amante bilingüe" é narrado em primeira pessoa pelo fracassado e desiludido Juan Marés (o autor já começa o seu jogo de farsas e duplicidades ao escolher o nome do personagem à partir de um trocadilho com seu próprio nome). O romance é dividido em três partes ou cadernos de memórias escritos pelo protagonista: "El día que Norma me abandonó", "Fu-Ching, el gran ilusionista" e "El pez de oro"

O primeiro caderno, "El día que Norma me abandonó", como implícito no próprio título, descreve a traição da esposa, Norma Valentí, pertencente à alta burguesia catalã, com quem Marés se uniu por mera casualidade, apesar da total incompatibilidade social (ele tem origem muito humilde, filho de uma ex-cantora lírica alcoólatra e de um ilusionista circense chinês). A traição é apresentada logo no primeiro parágrafo da seguinte forma: "Una tarde lluviosa del mes de noviembre de 1975, al regresar a casa de forma imprevista, encontré a mi mujer en la cama con otro hombre". O tom farsesco do romance fica claro quando Juan Marés vem a descobrir que o amante da esposa é um simples engraxate, após um insólito diálogo que ambos mantêm no quarto, sem outra alternativa, após a partida da esposa que parece não demonstrar o menor escrúpulo com a situação constrangedora.

No segundo caderno, "Fu-Ching, el gran ilusionista", Marés, dez anos depois, ainda não conseguiu se recuperar da separação (a mulher o abandonou imediatamente após tê-lo traído), tornando-se um músico pedinte de rua e decide avançar em um plano inverossímil para reconquistar a esposa à partir de um disfarce, aproveitando que o seu rosto foi parcialmente desfigurado em um acidente. Ele então se transforma em Juan Faneca, o nome de um antigo amigo de infância que partiu para a Alemanha e nunca retornou (aqui outra brincadeira do autor que utiliza, desta vez, o seu nome de família original, Juan Faneca Roca, uma vez que ele foi adotado pela família Marsé, após a morte da mãe durante o parto). O disfarce funciona tão perfeitamente que Juan Marés tem a sua identidade gradativamente anulada por Juan Faneca.

No terceiro e final caderno, El pez de oro", Faneca está muito próximo de realizar o sonho de Marés e reconquistar a esposa infiel, mas conhece Carmen, uma bela e jovem recepcionista na pensão onde passa a morar, cega depois de uma enfermidade aos treze anos, e começa a se interessar por ela. O leitor só tem a ganhar com o conflito de personalidades que se estabelece entre Marés e Faneca pois, no desenvolvimento da trama, cada vez fica mais claro que somente haverá espaço para um dos dois nesta estranha luta entre o que o protagonista gostaria de ser e o que ele realmente se tornou.

A cidade de Barcelona e sua dualidade linguística (catalão e espanhol) é uma presença constante no romance e um dos focos centrais da narrativa que lida todo o tempo com os duplos sentidos e múltiplas interpretações. Um belo exemplo de como fazer literatura, muito recomendado.

"Lo esencial carnavalesco no es ponerse careta, sino quitarse la cara." - Antonio Machado (epígrafe à primeira parte do romance).
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