terça-feira, março 31, 2015

Rafael Sperling - Um homem burro morreu

Rafael Sperling - Um homem burro morreu - Editora Oito e Meio - 130 páginas - Lançamento 2014.

O que me chama a atenção no jovem escritor carioca Rafael Sperling é a independência de estilo e coragem de fugir do "politicamente correto", tanto em termos de técnica narrativa quanto na escolha dos temas de seus contos. Depois do lançamento do primeiro livro, Festa na Usina Nuclear, Sperling apresenta uma nova seleção de narrativas breves que poderíamos classificar como textos experimentais, literatura do absurdo ou simplesmente surrealismo. Todas as classificações são corretas, mas arrisco dizer que o autor consegue um estilo próprio ao adicionar doses maciças de sarcasmo, violência e até mesmo escatologia em seus contos. É bom citar que toda essa violência não é invenção do Rafael, ela está presente em nosso cotidiano e refletida também diariamente nas mídias de comunicação e redes sociais.

O conto de abertura, "Caetano Veloso se prepara para atravessar uma rua do Leblon", é uma crítica ao jornalismo vazio que transforma em notícia as atividades mais simples das "celebridades". Todas as ações do cantor são intercaladas por perguntas idiotas, como na maior parte dos programas de TV: "Você está com fome, Caetano Veloso?", "Por que você vai a este restaurante, Caetano Veloso?", "Você gosta dessa comida que você pediu, Caetano Veloso?", "O que você vai fazer no banheiro, Caetano Veloso?". E assim sucessivamente, até que um grave acidente ocorre com o nosso famoso cantor, como será a reação da mídia neste caso?

Em "Eu gosto das histórias que a minha babá conta", narrado em primeira pessoa por uma criança de apenas três anos, o pequeno protagonista diz adorar as histórias de sexo contadas pela babá, apesar de confessar nunca ter feito sexo e conhecer apenas pela Internet: "Não tem como eu fazer aquelas posições sexuais. São muito difíceis. Necessitam de uma musculatura desenvolvida. Eu mal consigo andar. Qualquer coisa me estabaco no chão e fico lá, chorando feito um bebê. Mas eu sou um bebê. Vejam só. É uma ironia. Eu fiz uma piada. Não sei fazer sexo, mas sei fazer piadas.".

Nem mesmo a religião fica de fora do rolo compressor de Rafael Sperling em "Jesus Cristo espancando Hitler", quando o ditador sofre um tremendo castigo físico e moral por todos os seus crimes, sendo brutalmente torturado e crucificado por ninguém menos que Jesus Cristo, tudo para que, no final, possamos ficar um pouco mais felizes e reconfortados.

O mais chocante neste livro de Rafael Sperling não é a violência dos textos que não dá mesmo para levar muito a sério, mas sim quando descobrimos o quanto deste "homem burro" está presente em nossas vidas e, por isso, o quanto gostamos de "textos bem bonitos, para agradar as pessoas", como o autor reflete, com razão, no divertido posfácio.
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