sábado, maio 16, 2015

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo

Jennifer Egan - A visita cruel do tempo - 336 páginas - Editora Intrínseca - Tradução de Fernanda Abreu - Lançamento 2010.

Um romance genial e motivador porque ajuda a pensar o mundo atual, mesmo que ele seja absurdo e digital. Motivador porque Jennifer Egan, em seu nível de exigência criativa, quase experimental, estabelece diferentes estruturas em cada capítulo (um deles, por exemplo, é totalmente montado em slides de Power Point), narrativas em primeira, terceira e até mesmo segunda pessoa, com pontos de vista multifacetados através da visão dos personagens ao longo do tempo, mas sempre interligando todas as pontas da sua trama de forma suave e consistente. Motivador porque nos identificamos com as situações de veracidade que refletem o impasse existencial da nossa sociedade em que as ferramentas de comunicação são instantâneas e de fácil acesso, mas ainda assim permanecemos cada vez mais isolados, com mais amigos no facebook e menos felizes. Finalmente, um romance motivador porque a autora sabe contar as suas histórias como nenhum outro autor contemporâneo, uma leitura que nos faz perder a noção do tempo e a estação certa do metrô.

Um ponto comum entre todos os personagens é o efeito da passagem do tempo e a perda das ilusões da juventude. Assim acontece com Bennie Salazar, um badalado produtor de Rock e sua ex-assistente Sasha, ambos funcionam como elo de ligação entre as narrativas cruzadas. Bennie era baixista de uma banda de punk rock, os Flaming Dildos, nos anos setenta em São Francisco até se tornar executivo e Sasha é uma cleptomaníaca sonhadora que corre o mundo até trabalhar para Bennie no seu selo Sow's Ear Records em Nova York. A trajetória deles é intercalada por outros personagens muito bem construídos como Dolly uma famosa divulgadora que caiu em desgraça na sociedade nova-iorquina e procura se reabilitar através de um novo contrato com um ditador genocida que busca conquistar a simpatia dos norte-americanos.

Praticamente cada capítulo funciona como uma unidade independente do todo e é sempre uma surpresa para o leitor que nunca sabe se vai avançar ou retroceder no tempo, em que lugar do mundo vai estar (Nova York, São Francisco, Nápoles e até mesmo um safari na África) ou com qual personagem. Uma viagem dentro da viagem do romance são as referências musicais dos anos setenta e oitenta que variam de Patti Smith, Black Flag, Iggy Pop, Dead Kennedys até Blondie. Outra sacação fantástica foi a tese sobre as grandes pausas do Rock, uma fixação do filho de Sasha no futuro, comparando as pausas de "Long Train Running" do Doobie Brothers com "Foxey Lady" de Jimi Hendrix e estabelecendo uma relação entre a duração da pausa e o poder de permanência da música na mente.

O virtuosismo estilístico de Jennifer Egan mereceu os  prêmios Pulitzer de Ficção 2011 e National Book Critics Circle Award 2011, além do livro ter sido relacionado, pelo site de cultura da BBC, entre os 20 melhores romances do século XXI até o momento. Não é à toa que a autora foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do ano de 2011 pela revista Time.
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