terça-feira, maio 26, 2015

Michel Houellebecq - Submissão

Michel Houellebecq - Submissão - Editora Objetiva / Alfaguara - 256 páginas - tradução de Rosa Freire d'Aguiar - Lançamento no Brasil: 20/04/2015.

Polêmico, controverso e provocador são alguns adjetivos aplicáveis e já utilizados há algum tempo para definir o trabalho do autor francês Michel Houellebecq, vencedor do prêmio Goncourt 2010 com O mapa e o território onde utiliza como um dos personagens ninguém menos do que o próprio Houellebecq que, por sinal, acaba assassinado na trama do romance, além de se apropriar, sem a devida autorização ou citação, da descrição de produtos, lugares e pessoas famosas em sites da internet (Wikipedia francesa, por exemplo) o que gerou um grande debate na mídia sobre os limites entre criação, citação e plágio. Em outro de seus primeiros livros, Partículas elementares, de 1998, foi acusado de pornografia devido às descrições explícitas de sexo. Ele é criticado também por suas posições políticas direitistas e acusado de declarações islamofóbicas mas, como bem destacado nesta matéria do jornal português Público, "não há boa literatura com bons sentimentos" e também não há boa literatura somente com escritores "politicamente corretos", eu acrescentaria. Infelizmente, seu último romance, Submissão, recebeu publicidade negativa adicional da mídia francesa porque o lançamento e a caricatura de Michel Houellebecq na capa do semanário "Charlie Hebdo" coincidiram com o ataque terrorista à redação da revista e o assassinato de 12 pessoas a sangue frio.

Submissão parte do cenário político real da França na atualidade em direção a uma situação fictícia projetada por Houellebecq para um futuro próximo, em 2022, quando, após dois mandatos consecutivos do atual presidente François Hollande do Partido Socialista, as eleições presidenciais são vencidas, em segundo turno, por Mohammed Ben Abbes, o candidato do imaginário partido da Fraternidade Muçulmana em disputa com a Frente Nacional de ultradireita, liderada por Marine Le Pen. Alguns efeitos imediatos do novo governo islâmico, principalmente na área da educação, são uma espécie de caricatura da cultura muçulmuna na visão cínica de Hoellebecq, tais como: exigência de que todos os professores, sem exceção, sejam muçulmanos, proibição do regime misto, somente certas carreiras abertas às mulheres (área de educação doméstica ou estudos literários e artísticos, para uma pequena minoria), véu islâmico, casamento poligâmico sem consequências em termos de estado civil, mas reconhecido como válido na garantia de direitos junto aos centros de seguridade social e serviços fiscais e alterações de comportamento da sociedade, conforme passagem abaixo:
"E as roupas femininas tinham se transformado, senti de imediato, sem conseguir analisar a transformação; o número de véus islâmicos tinha aumentado um pouco, mas não era isso, e levei quase uma hora perambulando até captar, de um só golpe, o que mudara: todas as mulheres estavam de calças compridas (...) Uma nova roupa também tinha se disseminado, uma espécie de blusa comprida de algodão, parando no meio da coxa, que tirava todo o interesse objetivo das calças justas que certas mulheres poderiam eventualmente usar; quanto aos shorts, é claro que estavam fora de discussão. A contemplação da bunda das mulheres, mínimo consolo sonhador, também se tornara impossível." (pág. 148)
O protagonista é o professor universitário François, uma espécie de "porta-voz" das ideias de Houellebecq, um intelectual em constante crise emocional que passa as noites em sites de vídeos pornográficos, sem prazer de viver e sem esperança no próprio futuro, portador de uma tremenda preguiça existencial e especialista na obra de Joris-Karl Huysmans (1848 - 1907), escritor representante do Movimento Decadente francês no século XIX. François é demitido da Universidade Sorbonne e passa a receber, assim como outros professores não muçulmanos ou não convertidos, rendimentos mensais compatíveis com a aposentadoria integral, tudo financiado por maciços investimentos do mundo árabe. Na verdade, a vida acadêmica não é considerada em sua devida importância pelo protagonista que "nunca tivera a menor vocação para o ensino" e é resumida de forma irônica no trecho abaixo:
"Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras — em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução (...) Esses estudos no entanto não são nocivos e podem até apresentar uma utilidade marginal. Uma moça que procure um emprego de vendedora na Céline ou Hermès deverá naturalmente, e em primeiríssimo lugar, cuidar de sua aparência; mas uma graduação ou um mestrado em letras modernas poderá constituir um trunfo secundário que garanta ao patrão, na falta de competências mais aproveitáveis, uma certa agilidade intelectual que pressagie a possibilidade de uma evolução na carreira — a literatura, além do mais, vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva no ramo da indústria do luxo." (pág. 14)
François recebe uma proposta para voltar à conceituada Sorbonne desde que se converta ao Islã. A carga de ironia e cinismo de Houellebecq nos deixa em dúvida sobre até que ponto pode ser flexível o caráter de seu personagem que resolve aceitar a conversão e os ensinamentos do Alcorão por interesses imediatos, principalmente na parte relativa à poligamia. Enfim, de um momento para outro, todo o declínio da cultura européia na França, a crise do Ocidente e o multiculturalismo, tudo isso é substituído por um estado único de submissão religioso e cultural que muitos temem no mundo de hoje. 

Sobre a possível influência de sua obra, Houellebecq declarou que "não conhece ninguém que tenha mudado suas intenções de voto depois de ter lido um romance" e somente o tempo dirá se o autor conseguiu antever uma situação viável na sua distopia que talvez não alcance o nível de clássicos como 1984 de George Orwel ou Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, como sugere o material de divulgação da editora, mas certamente nos faz pensar muito nas consequências e no mal que o fanatismo religioso, infelizmente, ainda provoca nos homens.
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