sábado, junho 06, 2015

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis

Carol Bensimon - Todos nós adorávamos caubóis - Editora Companhia das Letras - 192 páginas - Lançamento: 07/10/2013.

Se você gosta de road movies como Thelma & Louisie vai adorar este romance, mas se não for o caso irá gostar do mesmo jeito porque, além da narrativa cinematográfica, Carol Bensimon sabe muito bem como contar uma história e parece não ter a menor preocupação em perseguir um pretenso rigor literário ou acadêmico. Lembro que fiquei conhecendo o trabalho dela através da Granta 9 - Os melhores jovens escritores brasileiros, lançamento 2012, onde o primeiro capítulo deste romance, com o título de Faíscas, foi selecionado na Antologia de contos assim como Apneia de Daniel Galera, que também viria a fazer parte de Barba Ensopada de Sangue.

Cora e Julia são duas personagens lindas e carismáticas que se apaixonaram na época da faculdade, passando por situações comuns a outras jovens que enfrentam dificuldades por conta de pressões sociais e familiares devido a suas ambiguidades sexuais. Cora, narradora do romance, é mais decidida em sua sexualidade e experiente em relacionamentos com outras garotas. É ela que está sempre tentando conquistar Julia que vem de uma educação tradicional em uma cidade do interior (Soledade), morando em um pensionato de freiras em Porto Alegre. O trecho abaixo mostra como a mãe de Cora confirmou as suas suspeitas sobre as opções sexuais da filha adolescente, depois de presenciar na casa um "desfile interminável de melhores amigas":
"Então, em uma tarde modorrenta, ela abriu a porta do meu quarto. Não saberia explicar o porquê, ela sempre batia, quer eu estivesse acompanhada ou sozinha, aquela era uma norma na qual ela gostaria de acreditar. Porém, nessa tarde, com uma desculpa qualquer na ponta da língua, minha mãe entrou no meu quarto de forma totalmente inesperada, talvez desejando mais do que tudo ter que usar o raio da desculpa, a qual poderia ser: vocês precisam de alguma coisa?, vou dar uma saída, hoje não era o dia de buscar tua jaqueta na costureira? O que viu, no entanto dentro do quarto repleto de ícones que ela não compreendia, fez com que fechasse a porta em pouquíssimos segundos e corresse para o andar de baixo em busca do telefone. Discou para o ex-marido. Mesmo atordoada, ela teve a delicadeza de passar pelas perguntas habituais enquanto procurava uma maneira de descrever a cena, a amiga da tua filha deitada na cama, uma calcinha com uma estampa quase infantil, tua filha com a mão na —, a mão por dentro da calcinha dela, eu sempre soube que a Cora ia fazer isso com a gente."
De qualquer forma, o livro está longe de ser uma obra engajada no movimento LBGT. Na verdade, me parece muito mais uma bela e simples história de amor com encontros e desencontros. Cora e Julia não conseguem manter o relacionamento na época da faculdade porque Julia foi selecionada para uma bolsa em Montreal e Cora viaja para fazer um curso de moda em Paris. Um dia, durante uma conversa no Skype, elas decidem se reencontrar e realizar o antigo sonho de uma viagem "sem planejamento" no interior do Rio Grande do Sul. A oportunidade aparece quando o pai de Cora, casado novamente com uma mulher mais jovem, a convida para o nascimento do seu filho no Brasil.
"Respirei fundo. Era o ar da serra, nós estávamos ali, com cinco ou seis anos de atraso, mas ali, finalmente ali. Tínhamos sobrevivido a uma briga que continuava pairando sobre nós, a Paris, a Montreal, à loucura de nossas famílias. Aquela viagem era mais um fracasso irresistível."
A estrutura do romance é linear, mas com várias inserções do passado que explicam a trajetória de Cora e Julia antes de se conhecerem e o motivo da postura de cada uma frente ao relacionamento. As duas seguem vivendo um dia após o outro, sem saber como será o final da viagem, mas percebendo que são bem pequenas as chances delas conseguirem continuar juntas. Ainda assim, apesar deste tom de melancolia, o romance tem uma mensagem de juventude e esperança bem forte e o leitor fica todo o tempo na torcida de um final feliz para as meninas, será que elas conseguem?

O Rio Grande do Sul é um dos destaques do romance, não apenas aqueles pontos turísticos tradicionais como as cidades de Gramado e Canela ou as regiões litorâneas, mas cidades totalmente desconhecidas em outras partes do Brasil como: Antônio Prado e Minas do Camaquã. Fico imaginando o trabalho de pesquisa que deve ter norteado a preparação dessa "viagem" na cabeça da porto-alegrense urbana Carol Bensimon. Para saber mais sobre o romance e a autora, recomendo esta ótima entrevista para seu conterrâneo Milton Ribeiro, do Sul 21.
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