segunda-feira, junho 22, 2015

Leonardo Padura - A neblina do passado

Leonardo Padura - A neblina do passado - Editora Saraiva (Selo Benvirá) - 442 páginas - tradução de Júlio Pimentel Filho - Publicação 2012 (Lançamento original 2005).

Restringir este romance à categoria de literatura policial seria uma injustiça com a habilidade do escritor cubano Leonardo Padura. Nada contra os romances de detetives, mas o autor construiu uma verdadeira história afetiva de Cuba, particularmente sobre as transformações da cidade de Havana e seus habitantes, na segunda metade do século XX, compreendendo os seguintes três grandes períodos: A era inicial do ditador Fulgencio Batista, à partir de 1952, onde existia corrupção generalizada e a influência econômica dos Estados Unidos, o segundo período que se inicia em 1959 com a vitória da Revolução socialista liderada por Fidel Castro e Che Guevara, provocando a desapropriação de várias empresas norte-americanas e privatização de bens das famílias tradicionais que compactuavam com o governo anterior e, finalmente, os anos de crise econômica e decadência social, decorrentes da redução drástica de investimentos da antiga URSS após a queda do muro de Berlim em 1989.

Leonardo Padura soube passar por todas essas fases da história cubana (sem sofrer censura prévia do regime atual o que, por si só, é surpreendente) no desenvolvimento do seu romance em um argumento criativo e uma trama muito bem montada que utiliza o recurso ficcional da ascensão e queda da família Montes de Oca e do seu personagem recorrente, o carismático detetive Mario Conde que, quatorze anos após a saída dos quadros da polícia local, sobrevive em 2003 à base de expedientes, assim como boa parte da população de Havana. No seu caso, comprando e vendendo livros usados, sendo ele próprio um escritor frustrado.
"A escassez foi tão brutal que alcançou até o venerável mundo dos livros. De um ano para outro, as publicações despencaram em queda livre, e as teias de aranha cobriram as estantes das agora tétricas livrarias, de onde os próprios empregados roubavam as últimas lâmpadas de vida, praticamente inúteis em dias de intermináveis apagões. Foi então que centenas de bibliotecas particulares deixaram de ser fonte de ilustração, orgulho bibliófilo e provisão de lembranças de tempos possivelmente felizes, e trocaram seu cheiro de sabedoria pelo ácido e vulgar fedor de umas cédulas salvadoras."
Ao descobrir uma fabulosa biblioteca, milagrosamente preservada no que restou da mansão da família Montes de Oca, Mario Conde dá início a um excelente negócio devido à riqueza do acervo de livros raros, um sonho para qualquer bibliófilo. No entanto, o destino reserva uma grande surpresa para o detetive aposentado quando, no interior de um desses livros, ele encontra uma página recortada de uma antiga revista de quarenta anos atrás com a imagem da estonteante cantora de bolero Violeta del Río. Sem saber o motivo da intensa atração exercida pela mulher ele segue os seus instintos de investigador e tenta descobrir o paradeiro da esquecida bolerista através de um mergulho no submundo das ruas e crimes de Havana, resgatando uma história esquecida sobre morte e infelicidade da neblina do passado.
"Quando saíram para a rua, o sol furioso do meio-dia tinha dispersado os passantes, mas a música agora ocupava o lugar das pessoas, abarrotando o espaço, misturando melodia, competindo em volumes capazes de aturdir quem arriscava penetrar naquela atmosfera compacta de som, bolero, merengue, balada, mambo, guaracha, rock pesado e leve, danzón, bochata e rumba. As casas cujas entradas davam para a rua, com as portas e janelas abertas, tentavam absorver um pouco do ar quente, enquanto homens e mulheres de todas as idades oscilavam em cadeiras de balanço, desfrutando a brisa artificial dos ventiladores e a música ensurdecedora, vendo passar, carregados de resignação, a hora morta do meio-dia."
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