quinta-feira, julho 09, 2015

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry

Ian McEwan - A Balada de Adam Henry (The Children Act) - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento no Brasil: 14/11/2014.

Neste seu último romance, Ian McEwan utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma conceituada juíza do Supremo Tribunal como protagonista. Fiona Maye, cinquenta e nove anos, atua na área de direito de família, e segundo definição de seus próprios colegas, é dona de uma "imparcialidade divina e inteligência diabólica". Ela é, portanto, uma profissional que lida diariamente com a razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através de suas sentenças, seja no caso de separações litigiosas ou decisões sobre a guarda dos filhos. Na verdade, McEwan faz muito bem, como sempre, o seu dever de casa e traz para a ficção algumas sentenças, inspiradas em casos reais, de difícil análise, seja pelo enfoque religioso ou moral. É o caso, por exemplo, da aprovação para a intervenção cirúrgica que irá separar irmãos siameses, provocando o sacrifício de um deles em nome da sobrevivência do mais forte. Em uma das melhores passagens do romance, através da digressão de sua protagonista no trecho abaixo sobre este processo, o autor coloca a sua visão nada religiosa do mundo e do que costumamos chamar de destino:
"Nas fotografias relembradas de Matthew e Mark via uma nulidade cega e sem propósito. Um ovo microscópico deixara de se dividir no momento certo devido a um defeito em certo ponto de uma cadeia de eventos químicos, uma minúscula perturbação na cascata de reações proteicas. Um evento molecular se inflacionara como um universo em expansão para ocupar uma larga região da miséria humana. Nenhuma crueldade, nenhuma vingança, nenhum fantasma se movendo de modo misterioso. Nada mais que um gene transcrito erroneamente, uma receita de enzimas defeituosa, um elo químico rompido. Um processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido. Que apenas punha em relevo a vida saudável e formada com perfeição, mas também aleatória, igualmente sem propósito. Pura sorte, chegar ao mundo com seu corpo devidamente formado e com tudo nos lugares certos, ter pais amorosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é muito mais fácil ser virtuoso." (pág. 34)
Apesar do desgaste emocional de seu trabalho e a proximidade da terceira idade, a juíza Fiona parece estar levando a sua vida muito bem, mas todo o seu mundo está para desmoronar quando ela é surpreendida pela declaração do próprio marido de que deseja levar adiante um caso com uma mulher mais jovem, segundo ele, devido à necessidade de viver uma grande paixão e, de forma mais pragmática, devido às suas necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo trabalho. Ela se recusa a aceitar os argumentos do marido e, repentinamente, se vê envolvida em um conflito matrimonial como tantos outros que ela acompanha diariamente na Vara de Família.
"Num impulso furioso, pegou o celular, encontrou o número do chaveiro da Gray's Inn Road, forneceu-lhe o PIN de quato dígitos e instruções para que a fechadura fosse trocada (...) Foi má, e sentiu-se bem em ser má. Ele devia pagar um preço por abandoná-la, e ali estava, ser exilado, pedir licença para ter acesso à sua vida anterior. Ela não lhe permitiria o luxo de possuir dois endereços (...) Voltando pelo corredor com seu copo, já refletia sobre sua ridícula transgressão, impedir ao marido o acesso a que ele tinha direito, uma das atitudes-chavão das crises conjugais que qualquer advogado aconselharia seu cliente — geralmente a mulher — a não adotar sem a devida autorização judicial" (pág. 51)
Uma nova e difícil disputa demanda a atenção da juíza em meio à sua crise particular, o caso de Adam Henry, um rapaz de dezessete anos que precisa receber transfusões de sangue devido ao tratamento de leucemia. Seus pais são testemunhas de Jeová e enfrentam o hospital em um processo para ter o direito de não seguir as recomendações médicas. O momento difícil pelo qual Fiona Maye está passando em sua vida doméstica faz com que ela ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do adolescente em confronto com os dogmas religiosos de sua família. 

Adam Henry tem uma compreensão parcial da situação precária de sua saúde e dos riscos associados e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes de sua orientação religiosa. Ele escreve poesias que encantam a equipe médica e despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela fez a opção de não ter filhos devido à carreira) e carência sentimental. Será que ela conseguirá manter a racionalidade e imparcialidade que a sentença para este caso requer?

A música erudita, como na maioria dos romances de McEwan, tem lugar de destaque na trama, sendo uma válvula de escape para Fiona Maye, uma exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler, e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível Adam Henry. Apesar do argumento se basear em alguns clichês, a prosa habilidosa de McEwan está sempre presente, como podemos comprovar nos trechos acima. De qualquer forma, ficamos com a impressão de que a história poderia ter sido mais aprofundada. Se você ainda não leu nada deste autor recomendo começar com AmsterdamReparação e Sábado. De preferência nesta sequência (siga os links para resenhas do Mundo de K).
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