segunda-feira, agosto 17, 2015

Mia Couto - Terra Sonâmbula

Mia Couto - Terra Sonâmbula - Editora Companhia das Letras - 208 páginas - Lançamento no Brasil: 11/06/2004.

O moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões 2013 e primeiro autor em língua portuguesa a ser selecionado como finalista do Man Booker International Prize na sua última versão de 2015, já é um nome consagrado na literatura mundial e que fiquei conhecendo pela primeira vez através de uma citação dele relacionada com a África, mas igualmente verdadeira para o Brasil e outras ex-colônias: "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos". E não são justamente "ricos" o que melhor produzimos no Brasil? É claro que toda literatura africana não pode ser dissociada de sua carga política, mas o lirismo e poesia com que Mia Couto reveste os seus romances são difíceis de encontrar em outros autores contemporâneos. Na obra de Mia Couto sentimos a influência de José Saramago na preocupação com os temas sociais, Guimarães Rosa na originalidade de construção do texto e finalmente Gabriel García Márquez através da herança do realismo mágico latino-americano enriquecido pelos mitos e lendas da África. O trecho abaixo mostra o esforço poético da construção de cada frase ao longo do romance:
"Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz." (pág. 15).
Terra Sonâmbula foi lançado originalmente em 1992 e considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um juri organizado pela Feira do Livro do Zimbabwe. Após a independência de Moçambique em 1975, seguiu-se uma longa e cruel guerra civil durante o período de 1976 a 1992, quando morreram um milhão de pessoas de fome e em decorrência dos combates. É neste cenário de morte e destruição que encontramos o velho Tuahir e o menino Muidinga procurando sobreviver. Tuahir salvou o menino, abandonado e doente, de ser enterrado vivo em um campo de refugiados de guerra. Agora os dois caminham pela triste estrada morta onde "só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras".
"Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós." (pág. 201).
Tuahir e Muidinga encontram os restos de um ônibus incendiado e decidem utilizá-lo como abrigo após recolher os corpos carbonizados, ao lado dos destroços encontram também o corpo de um jovem assassinado e uma mala com cadernos manuscritos. À partir deste ponto o romance avança em capítulos alternados entre o presente dos protagonistas e os relatos dos cadernos, uma espécie de diário de Kindzu, outro jovem que teve a sua vida interrompida pela guerra civil. A leitura dos doze cadernos abre caminho para uma série de histórias e fantasias com base na tradição africana e a dura realidade da guerra, uma chance para encontrar a dignidade roubada dos personagens com a ajuda dos sonhos e da literatura.
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