terça-feira, setembro 22, 2015

Zadie Smith - NW

Zadie Smith - NW - Editora Companhia das Letras - 336 páginas - tradução de Sara Grünhagen - Lançamento 29/04/2014.

Este é o quarto e mais recente romance de Zadie Smith, lançado originalmente em 2012 e sucessor do premiado "Sobre a Beleza". A sigla NW (North Westhern) representa uma das áreas do código postal da cidade de Londres, subdividida de NW1 à NW11, sendo a área NW6 relativa ao distrito de Kilburn, uma região pobre e caracterizada por uma grande variedade étnica devido à presença de imigrantes, ou descendentes de imigrantes, de todo o mundo, principalmente da Irlanda, Índia, África e Caribe. Uma região onde a própria Zadie Smith, filha de um inglês com uma jamaicana, cresceu. O departamento de criação da Editora Companhia das Letras foi feliz no projeto da capa interna do livro ao remeter à ideia de um caleidoscópio, nada mais apropriado à característica multicultural e multiracial urbana do romance.


NW cobre o período da década de 1970 até os dias de hoje e tem como base quatro personagens principais — Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle, todos originários do mesmo bairro e conjunto habitacional. No entanto, apesar da origem comum e problemas sociais semelhantes, os personagens que são apresentados de forma caótica (como na vida real) têm histórias de vida completamente diferentes e seus próprios impasses existenciais. Enquanto Leah e Natalie conseguiram estudar, completar as respectivas universidades de filosofia e direito e constituir casamentos convencionais, Nathan que estudou na mesma escola que elas encontrou dificuldades e se transformou em um usuário de drogas pesadas e morador de rua. Felix é habitante do mesmo bairro, ex-viciado em processo de recuperação, que terá um desfecho trágico, funcionando como elo de ligação entre os outros três outros personagens.

O resumo acima pode passar a ideia de uma narrativa simples e linear, mas a verdade é que Zadie Smith para contar a sua história apostou em uma construção de texto quase experimental, alternando diferentes vozes narrativas, no presente e passado, exigindo bastante atenção do leitor que precisa voltar várias vezes às partes anteriores (pelo menos eu tive que retornar) para não se perder, sem falar na estranheza geográfica das ruas do distrito de Kilburn em Londres. Como exemplo, o trecho parcial abaixo, relativo à descrição do percurso feito por Leah ao retornar do trabalho para casa, utiliza recursos de fluxo de consciência, tendo sido comparado ao estilo de James Joyce e Virginia Woolf.
"O doce fedor de narguilé, cuscuz, kebab, gás do escape de um ônibus parado. Noventa e oito, dezesseis, trinta e dois, lotados — é mais rápido andar! Fugitivos do St. Mary, Paddington: homem fumante prestes a ser pai, velhinha girando a cadeira de rodas e fumando, sujeito duro na queda segurando um saco de urina, um saco de sangue, fumando. Todo mundo adora cigarro. Todo mundo. Jornal polonês, jornal turco, árabe, irlandês, francês, russo, espanhol, News of the World. Desbloqueie seu celular (roubado), compre um kit de baterias, um kit de isqueiros, um kit de perfumes, óculos de sol, três por cinco, um tigre de porcelana tamanho real, torneiras douradas. Cassino! Todo mundo acredita em destino. Todo mundo. Era pra ser. Simplesmente não era pra ser. Topa ou não topa? Telas de tv na loja de tv. Cabo de tv, cabo de computador, cabos de áudio e vídeo, faço um bom preço pra você, um bom preço. Folhetos, ligue pro exterior por menos de 4, aprenda inglês, sobrancelha com cera, Falun Gong, você já aceitou Jesus como seu plano de ligação pessoal? Todo mundo adora frango frito. Todo mundo. Banco do Iraque, Banco do Egito, Banco da Líbia (...)" (pág. 47)
Leah é branca, descendente de irlandeses, seu ambicioso marido é negro e francês de origem africana. Apesar de formada em filosofia, ela trabalha em uma organização de ajuda humanitária (onde é a única branca), a primeira parte do romance é toda dedicada à Leah e transmite um sentimento de melancolia e abandono da personagem que precisa lidar com sua ambiguidade sexual ao esconder a gravidez do próprio marido. A passagem abaixo destaca a sua inadaptação, na saída do trabalho e dá uma pista inicial da gravidez indesejada (por ela). 
"A mesma piada todo dia. Uma piada que você pode fazer se você não for Leah, se você não for a única garota branca na Equipe de Distribuição de Fundos. No corredor, as mulheres irrompem de cada sala, calor adentro, manteiga de cacau passada, prontas para uma noite quente lá fora na Edgware Road. Da Ilha de São Cristóvão, Trinidad, Barbados, Granada, Jamaica, Índia, Paquistão, com seus quarenta, cinquenta, sessenta anos e, no entanto, bustos, bundas e pernas brilhantes continuam abertos para a sensualidade de um início de verão de um jeito que as mulheres da família de Leah jamais poderão ficar. Para elas o sol é fatal. Tão vermelhas, tão pálidas. Leah veste só uma roupa de linho branca e comprida. Parece uma santa menor. Ela vai atrás. Passa pela cena do crime, um cesto de lixo cheio de vômito enfiado atrás de um vaso de planta na sala de descanso porque o banheiro ficava longe demais." (pág. 44)
Leah entende que a vida da amiga Natalie já com dois filhos e uma confortável situação financeira é bem melhor resolvida, mas este não é absolutamente o caso. Natalie (que era a melhor amiga de Leah na escola e se chamava Keisha na época) é negra, filha de jamaicanos e seu marido, de família rica, é de origem jamaicana e italiana. Zadie Smith utiliza o recurso (na parte mais longa do livro) de 185 pequenos trechos para contar a trajetória de Natalie desde criança até a sua atormentada fase atual em que não consegue ser feliz no papel de uma bem-sucedida dona de casa e profissional de sucesso e começa a se conectar a um estranho site de relacionamentos na internet. Ao longo desses trechos o leitor consegue encaixar e entender melhor passagens e escolhas das duas personagens no passado que explicam a sua situação atual.
"Agora que havia tanto trabalho a fazer  agora que toda a vida dela tinha se tornado essencialmente trabalho , Natalie Blake sentia uma calma e uma satisfação que só tinha experimentado antes durante a bateria de exames para a universidade ou um prejulgamento. Se ao menos pudesse desacelerar a coisa toda! Ela tivera oito por uns cem anos. Teve trinta e quatro por sete minutos. Com muita frequência se lembrava de um diagrama em giz desenhado num quadro-negro, muito tempo atrás, quando as coisas se moviam num ritmo razoável. Um mostrador de relógio, simbolizando a história do universo num intervalo de 12 horas. O big bang aconteceu ao meio-dia. Os dinossauros chegaram em algum momento no meio da tarde. Tudo o que estava relacionado ao homem entrava nos cinco minutos antes da meia-noite." (trecho 166 - 'O tempo acelera' - pág. 270).
"Fantasia de filha. Fantasia de irmã. Fantasia de mãe. Fantasia de esposa. Fantasia de advogada. Fantasia de rica. Fantasia de pobre. Fantasia de britânica. Fantasia de jamaicana. Cada uma exigia um guarda-roupa diferente. Mas, quando considerava essas atitudes diversas, ela se esforçava para pensar em qual seria a mais autêntica, ou talvez a menos falsa." ( trecho 170 - 'Fantasiada' - pág. 273).
A parte dedicada a Felix Cooper narra em detalhes um dia completo na vida do personagem, o processo de negociação para a compra de um carro clássico que ele pretende reformar, a conversa com o pai jamaicano e a visita à casa de Annie, uma ex-namorada que ainda está presa ao mundo das drogas, com direito a uma tórrida cena de sexo. Felix está decidido a buscar um futuro melhor devido ao seu relacionamento atual, mas ele precisa primeiro escapar da brutalidade de NW em um jogo no qual as suas chances são mínimas.

Talvez pela ambiciosa estrutura narrativa, o livro não é simples de analisar e também não obteve unanimidade de crítica (ranking de 3,37 no goodreads e 3,1 no Skoob), mas foi incluído entre os melhores romances de 2012 pelas conceituadas resenhas do New York Times e Wall Street Journal.
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