Amós Oz - De repente nas profundezas do bosque

Amós Oz - De repente nas profundezas do bosque - Editora Companhia das Letras - 144 páginas - tradução direta do hebraico por Tova Sender - Lançamento no Brasil: 30/03/2007.

Certamente o escritor israelense mais famoso da atualidade e também colecionador de prêmios literários como o Goethe (2005) ou Príncipe de Astúrias (2007), Amós Oz nos traz aqui um "pequeno" livro de múltiplas interpretações, "uma fábula para todas as idades" como promete o texto de divulgação, porém com um sentido mais amplo do que a definição simplista possa dar a entender. O autor é geralmente criticado por correntes políticas radicais ao defender uma solução pacifista com base em um país com dois Estados para o conflito entre judeus israelenses e árabes palestinos (a única alternativa possível, em sua opinião), sendo portanto muito difícil deixar de associar um conteúdo político a tudo que ele escreve.

A narrativa é inspirada nos contos de fadas clássicos, tendo como cenário uma aldeia triste e isolada onde todos os animais, silvestres e domésticos (inclusive os insetos), desapareceram há muitos anos. As crianças do local têm uma noção remota do que seriam os sons e imagens dos animais através de conversas nostálgicas dos mais velhos e desenhos da professora, mas o motivo do insólito desaparecimento sempre foi uma espécie de tabu na região e o assunto evitado pelos adultos. Aparentemente, algum fato relevante que originou o desaparecimento dos animais está sendo encoberto pelos antigos habitantes do lugar e isso desperta a curiosidade de duas crianças, Mati e Maia, que decidem enfrentar o próprio medo e descobrir o mistério que envolve o passado da aldeia, buscando respostas no bosque.
"A aldeia era cinzenta e triste. À volta dela apenas montes e bosques, nuvens e vento. Não havia outras aldeias nas redondezas. quase nunca chegavam forasteiros, nem sequer visitantes ocasionais. Trinta, talvez quarenta casas pequenas se espalhavam ao longo do declive, no vale fechado e rodeado por montes íngremes. Somente a oeste havia uma abertura estreita entre as montanhas, e por essa abertura passava o único caminho que levava à aldeia, mas não ia adiante, porque não havia nenhum adiante: ali terminava o mundo." (pág. 11)
"Já fazia muitos anos que todos os animais dessa aldeia e das redondezas haviam desaparecido, vacas, cavalos e carneiros, gansos, gatos e canários, cachorros, aranhas domésticas e lebres. Nem mesmo um pintassilgo vivia lá. Nenhum peixe restara no rio. As cegonhas e os grous rodeavam os vales em suas jornadas errantes. Até mesmo os insetos e os vermes, até as abelhas, moscas, formigas, minhocas, mosquitos e traças não eram vistos havia muitos anos. Os adultos que ainda lembravam em geral preferiam calar-se. Negar. Fingir que esqueceram." (pág. 13)
Com o desenvolvimento do texto, fica cada vez mais claro para o leitor que as intenções de Amós Oz não se limitam à literatura infantil, como percebemos nas comparações com o mundo "real" e, assim como em toda a fábula, fica evidente a moral a ser aprendida que é a necessidade de lutar contra a intolerância e discriminação, entender e aceitar as diferenças do outro. Um livro estranho, que não se encaixa em nenhum estilo e tanto pode ser interpretado como um conto de fadas para ser lido por uma criança de doze anos ou por um adulto que encontrará uma clara correspondência com o fanatismo e os conflitos contemporâneos, não somente no Oriente Médio, diga-se de passagem.
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