sábado, outubro 17, 2015

Simon Schama - O Poder da Arte, Parte 4 - David

Napoleão atravessando os Alpes, 1800
(Musée National du Château de Malmaison)
"Se a arte consegue nos deixar felizes, será que também consegue nos tornar bons? Se é capaz de nos levar ao êxtase ou às lágrimas, será que também deveria nos transformar em cidadãos corretos? A moderna pintura secular tem o poder conversivo das obras-primas cristãs? Tem o poder de salvar almas, não do pecado, mas do egoísmo? O poder da arte deveria se prestar à arte do poder? A todas essas perguntas Jacques-Louis David respondeu com um firme sim, ao menos na época mais importante de sua vida, a época em que a França se refazia através da Revolução. Nessa época, ele acreditava que o tipo certo de arte podia transformar um mero punhado de espectadores numa comunidade moral. Assim, seus quadros — um desfile de heróis, vítimas e mártires — vibravam com um convite. Entre em nosso mundo, diziam; é um lugar vasto e grandioso, e você escapará da solitária aleatoriedade da existência individual; você estará na tenda da cidadania virtuosa. David sabia que, para exercer essa atração magnética, a arte precisava ser mais que um veículo de prazer. Precisava contar histórias envolventes; precisava chocar, fascinar, incitar e, às vezes, aterrorizar. Precisava mudar vidas e, com elas, a própria história. Imbuído dessa certeza, porém executando-a em imagens de uma paixão estritamente controlada, Jacques-Louis David inventou a moderna propaganda visual."  - Simon Schama - O poder da Arte (pág. 192)

A afirmação de Schama de que Jacques-Louis David (1748 - 1825) "inventou a moderna propaganda visual" é coerente porque ele sobreviveu (e esta não é apenas uma figura de linguagem) às mudanças de regime político na França, antes, durante e depois da Revolução de 1789, trabalhando no início de sua carreira para a corte e aristocracia francesas e a seguir participando ativamente do movimento revolucionário em todas as suas fases, ajudando a cortar as cabeças de muitos aristocratas que ele próprio já havia retratado na época do reinado de Luis XVI (Lavoisier, por exemplo). Posteriormente tornou-se amigo e pintor oficial da corte de Napoleão Bonaparte que eternizou em muitas obras, particularmente no quadro abaixo em que mostra a coroação da Imperatriz Josefina.

A Consagração do Imperador Napoleão I e  Coroação da Imperatriz Josefina, 1804 (Museu do Louvre, Paris)
Voltando ao tempo da Revolução, a obra destacada por Simon Schama como a paixão suprema de David é o quadro "Marat Assassinado" de 1793 que transformou em mártir o revolucionário Jean-Paul Marat, um dos líderes do grupo político radical jacobino que publicava na época o jornal L'Ami du peuple (O Amigo do Povo). Neste jornal ele considerava um dever patriótico denunciar todos os "inimigos" do povo, fossem eles aristocratas, sacerdotes, políticos ou até mesmo cidadãos comuns ligados à velha ordem. É claro que nem todas as suspeitas de traição eram fundadas e o ritmo incessante da guilhotina fazia com que o clima de terror alimentasse, ao mesmo tempo, uma corrente de insatisfação política com os rumos da Revolução que acabou levando ao assassinato de Jean-Paul Marat.

Aquele verão de 1793 foi insuportavelmente quente em Paris e Marat sofria muito com uma doença crônica de pele, psoríase aguda, que acarretava erupções cutâneas e coceira, nessas ocasiões ele costumava ficar em imersão na banheira com um pano amarrado na testa embebido em vinagre e trabalhava utilizando um caixote como escrivaninha. Foi neste cenário que ele recebeu a jovem Charlotte Corday d'Aumont, descendente de uma família aristocrática, que havia solicitado a audiência com a finalidade de apresentar uma lista de pretensos traidores. Quando Marat disse que todos seriam guilhotinados, ela sacou uma faca que levava escondida e desferiu um golpe certeiro, atingindo a sua carótida. David foi chamado então pela Convenção para homenagear o mártir republicano com uma obra que tivesse um caráter documental de denúncia do assassinato, mas também inspiradora para o futuro da Revolução.

Marat Assassinado, 1793
(Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas)
"Foi o maior desafio que o pintor enfrentou, até porque a imagem tinha de funcionar em dois sentidos potencialmente contraditórios. Tinha de consolar e confortar, mas também excitar e inspirar. Sua primeira obrigação consistia em transformar Marat — logo ele — num herói neoclássico quase bíblico; alguém cujo rosto e cujo corpo se transfigurassem no mais elevado ideal de humanidade graças à força da virtude interior. Assim, David o limpou ainda mais completamente do que o limpara para o funeral. Em lugar de uma massa lívida e escamada, uma carne que parece feita de mármore imperecível: uma Pietá republicana, sua redentora palidez em violento contraste com o vermelho intenso do sangue na banheira (uma das poucas representações de sangue na pintura que têm a cor assustadoramente correta). Evidentemente, David calculou muito bem o ângulo em que colocaria a cabeça, para favorecer ao máximo as feições de Marat. O cru e o real são discretamente atenuados. A terrível psoríase é indicada por uma pálida erupção no braço, e o corte profundo aberto por Charlotte se torna uma incisão delicada, semelhante à chaga no lado de Jesus, seu alter ego. Como o outro Redentor, Marat-Mártir também era famoso por sua opção pela pobreza ("Ele morreu dando seu último naco de pão para os pobres", David diria na Convenção), sua crítica feroz contra os ricos e os poderosos e sua inabalável determinação de falar abertamente." - Simon Schama - O poder da Arte (pág. 231 e 233)
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