quinta-feira, outubro 22, 2015

Simon Schama - O Poder da Arte, Parte 7 - Picasso

Guernica, 1937 (Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, Espanha)
"No inverno de 1941, Pablo Picasso morava e trabalhava no último andar de uma casa velha da Rue des Grands Augustins, em Paris, a dois passos do Sena. A luz mortiça do norte se filtrava por entre as telhas. Pombos se empoleiravam no parapeito das janelas. Porém a vida de Picasso na Rive Gauche, durante a Ocupação, era mais boêmia do que ele gostaria. Fazia muito frio, e a energia elétrica era precária. Só uma estufa antiquada, do chão ao teto, e sua amante Dora Maar o mantinham aquecido (...) Havia uma ausência notável entre as obras expostas no ateliê: Guernica, o quadro que fizera dele o artista mais famoso — ou notório — do mundo moderno. Os alemães não gostaram muito dessa tela, o grito de dor ante as barbaridades cometidas pela Luftwaffe contra civis indefesos de uma cidade basca na primavera de 1937. Mas não conseguiram agarrá-la. Em 1939, Guernica fora embarcada no Normandie e, como uma refugiada, havia partido para Nova York junto com os violinistas e psiquiatras de Viena e Berlim. Instalada no Museum of Modern Art, tornara-se mais que uma imagem do horror. Era um painel de indignação moral; um lugar onde as pessoas se reuniam para lembrar o que as separava da crueldade fascista. Era a boa incendiária." - Simon Schama - O poder da Arte (pág. 388)

Guernica é uma das obras de maior impacto político da história da arte e, no entanto, Pablo Ruiz Picasso (1881 - 1973) até então nunca havia sido um pintor engajado politicamente, muito pelo contrário. Ele dizia, em defesa do cubismo, que o objetivo da arte "é pintar e nada mais" e que "o bom ou o verdadeiro, o útil ou o inútil não são problemas da arte". Finalmente, assim como outros artistas do movimento modernista, ele achava também que a liberdade criadora nunca deveria se sujeitar à política. Tudo mudou radicalmente quando a cidade basca de Guernica, que não tinha maior importância estratégica e apenas 7 mil habitantes na época, foi o alvo escolhido de sucessivos bombardeios da aviação alemã em apoio às forças do general Franco. Este ataque surpresa despejou 3 mil bombas incendiárias, durante três horas, matando de imediato quase um quarto da população e deixando muitos outros gravemente feridos. A oportunidade para a criação e divulgação da obra surgiu logo em seguida por ocasião do convite para expor no pavilhão republicano espanhol na Exposição Internacional que se realizaria em Paris naquele verão.

O projeto de Guernica contou com uma tela imensa de quase oito metros de comprimento e três e meio de altura, Picasso trabalhou em uma série de esboços: uma mãe carregando o filho morto, com a boca escancarada num grito de dor, um cavalo que urra com os dentes arreganhados e agonizando com uma ferida em forma de losango, um guerreiro caído com a espada quebrada e uma flor infantil ao lado e mais várias citações à arte espanhola (por exemplo, outro clássico de Goya, "O três de maio de 1808 em Madri: os fuzilamentos na montanha de príncipe Pío" , clique aqui para visitar a obra no Museu do Prado). É claro que a crítica e o público da época não estavam preparados para tamanha revelação e Guernica precisou provar a sua relevância artística com o passar do tempo. Como toda obra de arte, por melhor que seja, não conseguiu derrotar o poder fascista na guerra civil espanhola ou impedir os massacres nas guerras posteriores, mas permanece até hoje como uma lembrança viva do que o homem é capaz de fazer contra a própria humanidade.

O sonho, 1932 
(Coleção Ganz, Nova York, EUA)
Seria uma injustiça resumirmos a obra de Picasso apenas ao labirinto trágico em preto e branco de Guernica. Ele amava muito as mulheres, apesar deste amor se mostrar basicamente através de uma forma sexual apenas (ler aqui um interessante resumo sobre as mulheres de Picasso), primeiramente a bailarina russa Olga Koklova com quem se casou e depois a loira alta de feições nórdicas e perfil grego, Marie-Thérese Walter (entre muitas outras), que conheceu quando ela tinha apenas dezessete anos. "Olga e Marie-Thérese se tornaram polos opostos em suas representações da experiência sexual. Dependendo do que prevalecia em sua mente — sofrimento ou êxtase —, ele as manejava de um jeito ou de outro." 

É claro que os problemas matrimoniais sempre colocavam Olga em desvantagem. A tela ao lado (cliquem na imagem para ampliá-la) é a prova de como Marie-Thérese era vista de uma forma erotizada e muito mais suave. Nesta pintura ela está recostada numa poltrona vermelha, com os olhos fechados, um dos seios à mostra, um sorriso apenas esboçado na boca de lábios pintados e, o golpe de mestre, as mãos em uma insinuante posição sugerindo uma ação masturbatória. "Ela tem sexo na cabeça, literalmente. É o tipo de quadro que faz o que diz, levando-nos a uma espécie de prazeroso torpor. Tudo muito engenhoso e sedutor."
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