segunda-feira, novembro 30, 2015

Javier Marías - Assim começa o mal

Javier Marías - Assim começa o mal - Editora Companhia das Letras - 520 páginas - tradução de Eduardo Brandão - Lançamento no Brasil: 29/09/2015.

Javier Marías está de volta com a sua prosa caudalosa e as deliciosas e longas frases que se ramificam em múltiplas digressões, estilo que me faz lembrar do saudoso José Saramago. Este romance é ambientado na Madri dos anos oitenta, após a longa era de 36 anos do "Generalíssimo" Franco no poder, período que ficou conhecido na história como ditadura franquista, iniciado em 1939, no fim da Guerra Civil, até a sua morte em 1975. Um período total de 36 anos, portanto, que deixou marcas profundas na sociedade espanhola e provocou um fenômeno típico nos governos de redemocratização (que conhecemos muito bem), a convivência tácita entre as vítimas e os carrascos do antigo regime, sendo que, em alguns casos, os lobos se transformam em cordeiros e o medo de novas arbitrariedades faz com que as testemuhas se calem.
"Naqueles dias, naqueles anos, começava-se a contar em particular coisas distantes que muitos espanhóis tinham se visto obrigados a calar em público por décadas a fio e mal haviam sussurrado de quando em quando em família, e com intervalos de silêncio cada vez maiores, como se além de mantê-las proibidas as houvessem procurado confinar na esfera dos pesadelos, e que assim se perdessem na tolerável bruma do que poderia ou não ter ocorrido. Isso acontece com o que envergonha, com as humilhações sofridas e com os acatamentos impostos. Ninguém gostava de rememorar que tinha sido vencido ou que tinha sido uma vítima, que foram cometidas injustiças ou atos de crueldade com ele e com os seus, que tivera de se render e ser reconhecido pela outra parte para sobreviver, que tinha delatado companheiros para obter as graças do novo poder sanhudo e perseguidor incansável dos derrotados, ou que tinha sido enterrado em vida tratando de chamar o mínimo possível a atenção, que havia levado uma existência acovardada e submissa e tinha se dobrado às exigências dementes do regime vencedor; que, apesar do dano causado, na sua própria pele ou na de seus pais ou irmãos, havia tentado abraçá-lo, exaltá-lo, fazer parte de suas estruturas e medrar sob seu escudo. Hoje se contam numerosas histórias fictícias de irremíveis e de resistentes passivos ou ativos, mas o certo é que a maioria dos verdadeiros — não muitos, e não duraram — foi fuzilada ou encarcerada nos primeiros anos depois da guerra, ou se exilou, ou foi expurgada e sofreu represálias e foi impedida de exercer suas profissões: houve homens de idade ou maduros que passaram o resto dos dias vendo como suas viúvas e filhas saíam para buscar o que comer — suas mulheres já como viúvas —, enquanto eles, mal barbeados, pré-cadavéricos — engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, catedráticos, cientistas, um ou outro militar leal que se salvou —, olhavam pela janela e se esforçavam para não pensar. Ao cabo de pouco tempo o grosso da população foi entusiasticamente franquista, ou o foi mansamente, por temor. Muitos dos que haviam detestado e padecido suas forças foram se convencendo de que era melhor assim e de que tinham vivido e inclusive combatido no erro. Nunca se viu tanta virada de casaca, uma virada maciça. A Guerra Civil terminou em 1939 e, diga-se o que for agora, nem nos anos 40 nem nos 50, nem por conseguinte nos 60 mais brandos, nem quase tampouco nos 70 até a morte do ditador, as pessoas ansiavam por contar sua versão, quero dizer, a que teriam sido impedidas de contar." (pág. 36)
Na época em que ocorre a narrativa deste romance, Madri passa por uma fase libertária pós-ditadura, e o protagonista Juan de Vere, com apenas vinte e três anos, é contratado para exercer a função de secretário particular de Eduardo Muriel, um conceituado diretor de cinema, passando a conviver intimamente com a sua família. Tanta intimidade faz com que o jovem Juan de Vere presencie o infeliz cotidiano de seu patrão com a esposa Beatriz Noguera que é desprezada e humilhada sem motivos aparentes. Apesar do casal manter as aparências da união socialmente, na realidade vivem uma irremediável separação. Também como decorrência da crescente proximidade com seu empregador, Eduardo Muriel, este o encarrega de investigar um antigo amigo, o dr. Jorge Van Vechten, conhecido por ter tido uma carreira rápida e bem sucedida durante o regime franquista. Javier Marías consegue manter o segredo que envolve os personagens até o final do romance, mas o leitor logo percebe que a chave para entender o presente está relacionada com fatos ocorridos durante o período negro da história espanhola que todos procuram esquecer, em grande parte por não conseguirem perdoar. O autor comenta nesta entrevista, sobre a importância do perdão e explica que muitas vezes ele próprio fica em dúvida se o melhor seria avançar e esquecer o passado ou recordar permanentemente os agravos e crimes. No trecho abaixo, uma descrição da atmosfera dos anos oitenta e a negativa dos antigos representantes do regime em "prestar contas" para a sociedade.
"Agora as coisas haviam mudado um pouco nesse sentido, no de contar; não muito, na realidade. Governava Adolfo Suárez, o primeiro presidente saído de eleições depois de um período de quarenta anos, Franco estava morto havia quatro ou cinco anos. Por um lado, logo havia sido desprezado e visto como um ser antediluviano, aos seis meses a gente mais dada a refletir ficava pasma com que tivesse transcorrido tão pouco tempo, porque se tinha a sensação de que seu desaparecimento havia sido há séculos. Não era apenas uma parte do país que a tinha ansiado e esperado e antecipado tanto, e que em muitos aspectos — nos possíveis — a sociedade havia começado a atuar desde muito antes como se já tivesse ocorrido, mas que com incrível velocidade se fez patente, até para seus partidários, o clamoroso anacronismo que era e o quanto sobravam ele, sua ditadura e sua Igreja, à qual havia entregado poder e benefícios ilimitados. Por outro lado, no entanto, sabia-se que seu regime tinha se retirado de maneira inverossímil sem reclamar (na época se disse que havia feito haraquiri), obedecendo à vontade do rei, e que por isso a democracia nos havia sido outorgada (...) Uma das condições para aquela outorga e aquele haraquiri tão surpreendentes tinha sido, numa frase: 'Ninguém peça a ninguém para prestar contas'. Nem dos já muito distantes desmandos e crimes da guerra, cometidos por ambos os lados no front e na retaguarda, nem dos infinitamente mais próximos da ditadura, cometidos por um só em sua imensa retaguarda punitiva e rancorosa ao longo de trinta e seis anos de carta branca para seus esbirros e de mortificação e silêncio para os demais." (págs. 39 e 40)
Ficção se confunde com realidade e o cinema, como em outros livros do autor, é um dos elementos presentes na narrativa, desta vez com a inserção de atores reais (geralmente de obscuras produções do tipo "classe B") na trama do romance, tais como Jack Palance, Shirley Eaton e Herbert Lom em uma homenagem clara de Javier Marías à sétima arte (ler aqui uma matéria com a "filmografia" e a relação de todas as referências aos atores no livro). Algumas cenas do romance são antológicas e demonstram, de certa forma, o gosto cinéfilo de Marías, principalmente naquelas passagens em que De Vere "espiona" os demais personagens e, por exemplo, passa a seguir por conta própria a esposa de seu patrão em uma espiral crescente de desejo, passando de observador passivo a agente dos acontecimentos.  

"Assim começa o mal" não é o melhor romance de Marías, mas foi escolhido pelos críticos do caderno literário Babelia do jornal El País como o melhor livro lançado na Espanha (prosa e poesia) em 2014, o que não é pouca coisa, e certamente ficará marcado como um dos melhores lançamentos traduzidos no Brasil em 2015. A capa da edição brasileira, produzida por Raul Loureiro, foi um acerto em cheio da Companhia das Letras, a imagem da pintura de Tamara de Lempicka é elegante e sensual, como o estilo de Javier Marías.
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