quarta-feira, novembro 04, 2015

Jordi Sierra i Fabra - Kafka e a boneca viajante

Jordi Sierra i Fabra - Kafka e a boneca viajante - Editora Martins Fontes 128 páginas - Tradução de Rubia Prates Goldoni - Ilustrações de Pep Montserrat - Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil de 2007, concedido pelo Ministério da Cultura da Espanha.

O caderno de literatura Babelia do jornal espanhol El País publicou em 08/05/2004 um artigo do escritor argentino César Aira com o título de La Muñeca Viajera (A Boneca Viajante) que abordava um lado pouco conhecido e surpreendente da biografia de Franz Kafka em seu último ano de vida. Segundo o artigo, Kafka teria se encontrado em 1923, durante um passeio no parque Steglitz de Berlim, com uma menina que chorava muito por ter perdido sua boneca e, sensibilizado pelo estado inconsolável da pequena, contou que a boneca havia partido em uma longa viagem. Duante as três semanas seguintes, o próprio Kafka escreveu uma série de cartas imaginárias que Brígida, a boneca viajante, enviava a cada dia de um país diferente, contando suas aventuras para Elsi, a menina triste, até que ela conseguiu superar a perda.

Durante anos, Klaus Wagenbach, um estudioso de Kafka, procurou a menina pela região próxima ao parque, investigou com os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, mas nunca conseguiu encontrar a pista da menina ou das cartas. Segundo Dora Dymant, sua última companheira, Kafka se envolveu com tanta seriedade na tarefa de consolar a pequena Elsi como se escrevesse mais um de seus romances ou contos que nunca foram publicados em vida. Toda essa inusitada situação, verdadeira ou não, acabou inspirando Jordi Sierra a escrever este livro e inventar as supostas cartas, criando desta forma um final imaginário para esta estranha e bela história. No trecho abaixo algumas partes da primeira carta da boneca viajante, uma das mais difíceis da série porque tinha a responsabilidade de conquistar a confiança da menina.
"Querida Elsi, antes de mais nada, me desculpe por ter ido embora tão de repente, sem me despedir. Sinto muito e espero que não esteja zangada. Às vezes fazemos coisas sem perceber, ou reagimos inesperadamente diante do que nosso instinto nos diz, e magoamos quem não queremos. Com você e a mamãe também acontece assim, não é mesmo? É que as despedidas são tristes, e eu não queria que você chorasse nem tentasse me convencer a ficar mais um pouco. Temia que você não me deixasse ir, e eu precisava fazer isso. Espero que você compreenda. Eu te amo tanto, Elsi, tanto, que não suportaria vê-la chorar ou que você me visse chorar (...) você deve saber que  viver é seguir sempre em frente, aproveitar cada momento, cada oportunidade e cada necessidade. Você também vai fazer a mesma coisa daqui a alguns anos. As pessoas e as bonecas são feitas de sentimentos e emoções que é preciso ir usando aos poucos. São nossa energia vital. Depois desses anos a seu lado, sou a boneca mais feliz que existe, cheia de energia. Quero que fique contente, e muito, porque tudo que sou devo a você. Você cuidou de mim, me ensinou muitas coisas, me amou e me fez ser uma boa boneca. Agora que me preparo para iniciar uma nova vida, a partida foi triste por deixá-la, mas bonita porque graças a você sou livre para fazer isso." - (págs. 48 e 49).
Franz Kafka morreu no sanatório Kierling, perto de Viena, um ano depois do seu encontro com Elsi, em 3 de junho de 1924, aos 41 anos de idade. Um livro que trabalha com a emoção e a sensibilidade, nos ensinando que amadurecer também pode ser saber deixar quem se ama partir, quando é necessário.
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