segunda-feira, dezembro 21, 2015

Kobo Abe - O rosto de um outro

Kobo Abe - O rosto de um outro - 288 páginas - Editora Cosac Naify - Tradução Leiko Gotoda - Lançamento no Brasil 2015 - Capa e abertura: Fotogramas do filme Tarin no Kao (The Face of Another), dirigido por Hiroshi Teshigahara, roteiro de Kobo Abe. Japão, 1966.

Lançado originalmente em 1964 por Kobo Abe (1924 - 1993), romancista e dramaturgo do movimento da vanguarda japonesa do pós-Guerra, este livro pode induzir uma (errada) impressão de simplicidade com base unicamente no resumo simples da trama principal. O protagonista e narrador é desfigurado por uma explosão em seu laboratório, o efeito devastador faz com que ele passe a viver com o rosto encoberto por bandagens, mas após sofrer a reação cruel da sociedade ao seu aspecto, recorre secretamente aos próprios conhecimentos científicos para construir uma máscara perfeita que passará a ser o seu novo rosto, no entanto a máscara acaba afetando a sua personalidade e induzindo um comportamento violento que foge ao controle. O argumento poderia até ser confundido com um típico roteiro de filmes de horror classe "B", mas serve como ponte para uma análise difícil e perturbadora do autor sobre o comportamento humano e a importância e influência da aparência na identidade das pessoas. O leitor é orientado por três cadernos de diários que o protagonista sem nome escreve para a esposa contando todos os detalhes do processo de confecção da máscara e a consequente transformação que ocorre no seu comportamento, como descrito no trecho da carta abaixo que acompanha os diários e que cita o seu desvio de personalidade como um outro personagem (não sei se 'ele' me destruiu ou se eu 'o' destruí):
"Você sentirá raiva e humilhação mas, peço-lhe, contenha com firmeza o olhar que por vezes tenta projetar-se para longe deste papel e continue lendo. Você não faz ideia de quão intensamente desejo que supere este momento com segurança e dê um passo mais em minha direção. Não sei se 'ele' me destruiu ou se eu 'o' destruí: seja como for, o fato é que aqui cai o pano sobre a mascarada. Penso em matá-lo, em me apresentar espontaneamente como sendo o assassino, em confessar tudo sem nada ocultar. Quero que você continue lendo, não importa de movida por complacência ou por sentimento oposto. Àquele a quem foi dado o direito de julgar, cabe também o dever de ouvir a confissão (...) Como você mesma pode ver, o manuscrito em questão é o registro dos fatos ocorridos durante um ano inteiro, anotado em três cadernos grandes. Escrever, apagar, corrigir e transformar as minhas anotações em algo compreensível na proporção de um caderno por dia foi um trabalho insano." (págs. 10 e 11)
A esposa é um elemento chave no romance porque, apesar de continuar devotada ao casamento e cuidando do marido, segundo as conclusões da mente atormentada do protagonista já não consegue manter a mesma relação anterior ao acidente (o que é de certa forma normal, apesar de injusto). Sendo assim, o triste cientista desfigurado desenvolve um plano minucioso para se apresentar à esposa com a nova face, iniciando um processo de sedução que lhe trará ainda mais sofrimento devido ao surgimento de um improvável triângulo amoroso (ciúme dele próprio) e também das ações audaciosas e violentas que ele passará a tomar sob influência do novo rosto. A esposa representa portanto a falta de ligação do protagonista com o mundo exterior e a sua reconquista lhe trará o desejado convívio e volta à "normalidade". Será que existe uma solução para o impasse existencial do narrador?
"E essa onda de fortes emoções era ciúme. Ciúme que brota da imaginação eu já experimentara diversas vezes em ocasiões anteriores, mas aquele era diferente. Aquilo era uma vibração carnal, algo vívido a ponto de não me ocorrer de imediato um nome para designá-lo. Talvez seja mais correto chamá-lo de movimento peristáltico. Anéis entorpecentes de angústia me subiam em espasmos uns após outros desde os pés e escapavam pelo topo da cabeça. Imagine a movimentação dos pés de uma centopeia e terá uma ideia aproximada. Realmente, o ciúme era um sentimento bestial, capaz até de induzir a assassinato, pensei. Parece-me que existem duas correntes de pensamento em torno do ciúme: a de que é um produto da civilização e a de que é um instinto primitivo inerente a animais selvagens. Pela experiência daquele momento, penso que seria quase com certeza a segunda." (pág. 169)
A descrição das deformações e lesões formadas por queloides em todo o rosto após o acidente é impiedosa e perturbadora, tais como: uma massa rastejante de sanguessugas, de um preto avermelhado, emaranhadas e intumescidas. Este estilo torna o romance um desafio para o leitor que passa a partilhar do cotidiano do protagonista aprisionado nas bandagens ou na máscara, uma sensação francamente claustrofóbica. Não é uma leitura fácil e pode deixar marcas na alma (que mais podemos esperar de uma boa obra literária?).
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