sábado, dezembro 26, 2015

Philip K. Dick - Androides sonham com ovelhas elétricas?

Philip K. Dick - Androides sonham com ovelhas elétricas? - 272 páginas - Editora Aleph - Tradução do original "Do androids dream of electric sheep?" por Ronaldo Bressane - lançamento no Brasil 2014.

Lançado originalmente em 1968, este romance inspirou o filme "Blade Runner, o Caçador de Androides" de Ridley Scott que é considerado (com razão) uma das melhores produções já realizadas no tema de ficção científica. O argumento tem como base uma visão distópica do futuro onde, após uma Guerra Mundial com utilização de armas atômicas, grande parte da população da Terra é aniquilada (assim como a maioria das espécies animais e vegetais) ou emigra para outros planetas. Os habitantes remanescentes no planeta sofrem efeitos em seu organismo devido à poeira radioativa e são divididos entre Normais, os que ainda não foram afetados definitivamente pela radioatividade, tendo permissão para emigrar para outros planetas-colônia e os Especiais, indivíduos considerados biologicamente inaceitáveis. Neste cenário catastrófico,  a ciência criou androides, réplicas cada vez mais perfeitas, para auxiliar na sobrevivência da raça humana em ambientes hostis, mas estes passam a se rebelar à medida que a sua inteligência artificial progride.

Rick Deckard que permaneceu na Terra, personagem interpretado por Harrison Ford no filme, é um caçador de recompensas contratado pela polícia de San Francisco para "aposentar" androides fugitivos que se tornaram uma ameaça para os humanos. Ele sofre com problemas existenciais ao questionar a validade da eliminação dos androides e seu sonho é substituir a sua ovelha elétrica de estimação por um raro animal verdadeiro, símbolo de prestígio social devido à raridade de qualquer espécie animal. Assim como no filme, um dos temas principais é a fronteira entre o comportamento do homem e as máquinas inteligentes, levando a uma reflexão sobre a condição humana (nem sempre tão humana como deveria ser, infelizmente). O trecho abaixo é um exemplo dos questionamentos morais do protagonista que passam a ficar cada vez mais agudos quando ele é contratado para perseguir e destruir seis androides de última geração que fugiram da colônia de Marte.
"Por um longo tempo ele permaneceu fitando a coruja, que dormitava no poleiro. Mil pensamentos vieram à sua mente, pensamentos sobre a guerra, sobre os dias em que as corujas caíram do céu; lembrou-se de como, em sua infância, descobria-se que uma espécie após a outra era declarada extinta, e como isso era publicado todo dia nos jornais — raposas uma manhã, texugos na outra, até que as pessoas parassem de ler sobre os incessantes necrológios de animais (...) Ele também pensou sobre a sua necessidade em ter um animal de verdade; dentro dele uma efetiva repugnância se manifestou outra vez em relação à sua ovelha elétrica, a qual precisava manter, precisava cuidar, como se estivesse viva. A tirania de um objeto, pensou, que nem sabe que eu existo. Tal como os androides, não tem a menor capacidade de apreciar a existência do outro. Nunca tinha pensado nisso antes, a semelhança entre um animal elétrico e um andy. O animal elétrico, ponderou, poderia ser considerado uma subforma do outro, um tipo de robô enormemente inferior. Ou, ao contrário, o androide poderia ser qualificado como uma versão altamente desenvolvida e evoluída do animal de imitação. Ambos os pontos de vista o enojavam." (págs. 52 e 53)
O livro aborda alguns temas existenciais com um pouco mais de profundidade do que o roteiro cinematográfico, por exemplo a religião dos sobreviventes no planeta Terra chamada de mercerismo, culto a Wilbur Mercer que permite, através de uma espécie de realidade virtual, a experiência única de compartilhamento do sofrimento para atingir a libertação espiritual. Uma questão que também fica sempre insinuada no livro (mas nunca admitida) é a própria humanidade do protagonista que poderia, ele próprio, ser um androide de última geração. Apesar de ele assumir posturas mais humanas do que muitos de seus semelhantes (principalmente quando se envolve afetivamente com uma bela androide). Finalmente, algumas passagens são francamente influenciadas pelas viagens psicodélicas de LSD nos anos sessenta, experiências que o autor, Philip K. Dick, explorou em detalhes na sua vida pessoal.

Esta edição tem como anexos os seguintes "extras": uma cata do autor aos produtores de Blade Runner, na qual elogia o filme e profetiza o seu sucesso (ele morreu três meses antes da estreia do filme em junho de 1982), a última entrevista concedida por Dick, publicada pela revista "The Twilight Zone" na época anterior ao lançamento de Blade Runner e um posfácio muito bem escrito pelo jornalista e escritor Ronaldo Bressane que traduziu esta edição e consegue colocar as nossas ideias aproximadamente em ordem depois deste louco romance que nos coloca frente a um mundo que já não parece tão distante (para nosso terror) quanto era nos anos sessenta ou oitenta, principalmente no que se refere à destruição do meio ambiente e a idiotização da raça humana. Segue abaixo um trecho do posfácio escrito por Ronaldo Bressane:
"Afinal, o que distingue um androide de um ser humano? A empatia, ou seja, a capacidade de se importar com o próximo. Para não perder essa capacidade é que surgiu — K. Dick não explicita como — o culto a Wilbur Mercer. Praticado através de uma "caixa de empatia", é uma espécie de realidade virtual imersiva experienciada apenas apertando dois manetes enquanto se olha para uma tela (e olha que ainda nem havia videogames em 1968...). O praticante do mercerismo mergulha em uma visão em que presencia um personagem velho e fraco subindo penosamente uma colina em uma paisagem desolada. À medida que sobe, o personagem começa a receber pedras vindas de todos os lados; no momento em que cai, sente-se fundido a toda a humanidade. Para aumentar a ilusão de fusão, se machuca de verdade com as pedradas, e chega a sangrar." (pág. 264)
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