sábado, janeiro 02, 2016

Banana Yoshimoto - Tsugumi

Banana Yoshimoto - Tsugumi - Editora Estação Liberdade - 184 páginas - tradução direta do japonês de Lica Hashimoto - Lançamento 2015 

Publicado originalmente em 1989, este livro é um exemplo do estilo delicado, intimista e simples de Banana Yoshimoto (para conhecer mais sobre a autora, leiam as resenhas de Kitchen e The Lake no Mundo de K), estilo que ajudou muito a popularizar outros escritores japoneses contemporâneos no ocidente e rendeu vários prêmios à autora em todo o mundo.

O romance é narrado em primeira pessoa por Maria Shirakawa que vive desde pequena com a mãe nos fundos de uma pousada localizada em uma das cidades do complexo balneário da península de Izu, a pousada é propriedade dos tios e ela cresce em companhia das duas primas, Yoko e Tsugumi. Maria precisará se mudar para Tóquio, onde cursará a faculdade, depois que o pai decidiu assumir a relação clandestina com a mãe e terminar o seu casamento oficial sem filhos (uma situação pouco comum, mesmo no Japão atual). De qualquer forma, o argumento principal do livro tem como base a personagem Tsugumi que, apesar da saúde frágil, é dona de uma personalidade forte e dominadora devido ao fato de ter sido sempre mimada pelos pais, em contraste com o caráter gentil e a simpatia da irmã,Yoko.
"Tsugumi nasceu com a saúde bastante debilitada e com vários de seus órgãos seriamente comprometidos. Os médicos declararam que sua expectativa de vida era baixa e a família, de certo modo, estava conformada com a situação. Por isso, todos que gravitavam em torno dela mimavam-na em excesso, e sua mãe jamais mediu esforços para aumentar a expectativa de vida da filha, levando-a a vários hospitais espalhados pelo Japão. Quando Tsugumi começou a dar os primeiros passos, todos esses mimos e cuidados transformaram-na em uma pessoa extremamente hostil. E, quando passou a ter uma vida quase normal, o fato de se sentir bem estimulou e potencializou a plena manifestação de uma tirânica prepotência que se tornou um atributo de sua personalidade. Tsugumi era cruel, ríspida, boca suja, egoísta, mimada e ardilosa. O ar de triunfo que ela exibia, quando descaradamente — no momento oportuno e de modo desagradável — resolvia jogar na cara, sem papas na língua, a pior coisa que a pessoa gostaria de ouvir, fazia dela o próprio demônio." (págs. 12 e 13)
É claro que o leitor logo descobrirá que Tsugumi não é absolutamente um demônio, mas sim a representação das próprias memórias de Banana Yoshimoto que busca reconstituir os sentimentos da sua adolescência, lembrando os momentos que viveu durante os verões que passou com os pais na península de Izu, como conta a própria autora no posfácio desta edição ("E devo admitir que Tsugumi sou eu. Do jeito que sou malvada, não há como negar isso"). A forma como a natureza é vivenciada pelas jovens personagens é encantadora e dificilmente conseguimos deixar de nos identificar em algumas partes. No meu caso em particular, tenho esta mesma relação com o mar por ter passado toda a minha infância e juventude em uma cidade litorânea — o sentimento parece ser o mesmo, no interior do Japão ou no Rio de Janeiro, como constatamos no trecho abaixo:
"O mar é fascinante. Quando duas pessoas estão a contemplá-lo, pouco importa se conversam ou se permanecem em silêncio. Ninguém cansa de vê-lo. E ainda que o mar esteja agitado, suas ondas nunca são ruidosas. (...) Eu estava inconformada de ter de me mudar para uma cidade sem mar. Sentia-me estranhamente insegura. Tanto nos bons momentos quanto nos ruins, no calor da alta temporada, no estrelado céu do inverno ou quando íamos para o santuário comemorar o Ano Novo, bastava girar a cabeça para encontrá-lo ali, no mesmo lugar, sempre presente, sendo criança ou adulta, e não importando se a vizinha tivesse morrido, ou se um médico tivesse acabado de ajudar a parir um bebê, ou se fosse o local do primeiro encontro ou de uma desilusão amorosa; a vastidão do mar sempre envolveu silenciosamente a cidade, repetindo com perfeição o ciclo das marés alta e baixa. Nos dias em que a visibilidade era boa, dava para ver com nitidez a praia do outro lado da baía. O mar pode não provocar um sentimento especial para quem o observa, mas ele sempre tem algo a ensinar. Por isso, apesar de nunca ter prestado a devida atenção nele ou no barulho da rebentação, passei a indagar o que as pessoas da capital costumam olhar para se sentir "equilibradas". Será que elas contemplam a lua? Mas a lua é por demais distante e pequenina em comparação ao mar e, não sei por que, ela me instigava uma sensação de solidão." (págs. 29 e 30).
A personagem-narradora Maria Shirakawa, sempre um elo de ligação entre as três amigas, é convidada por Tsugumi para passar um último e movimentado verão na pousada da família que será vendida em breve, durante essas últimas férias Tsugumi descobre o amor à sua própria maneira e as primas vivenciam juntas uma série de experiências que representarão uma despedida dos anos de juventude, uma espécie de morte inevitável pela qual todos nós passamos mais cedo ou mais tarde.
"Eu me senti ligeiramente solitária quando caminhei sozinha até a Pousada Yamamoto, em meio ao crepúsculo. Queria guardar no meu coração aquele sentimento melancólico de caminhar pela estrada de minha terra natal que eu perderia no final do verão. Assim como o céu do entardecer mudava rapidamente de cor, havia no mundo inúmeros e variados tipos de despedida, e eu não queria me esquecer de nenhum deles." (pág. 108)
Mais um ótimo lançamento da Editora Estação Liberdade que reúne um importante acervo de traduções de autores japoneses, este romance exige um momento de desaceleração do leitor e um esforço para se encontrar com suas próprias memórias de juventude, um tempo e uma disponibilidade difíceis de se conseguir em nosso movimentado cotidiano, principalmente devido às prioridades que definimos em nossas vidas, nem sempre bem escolhidas.
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