quarta-feira, janeiro 13, 2016

Haruki Murakami - Homens sem Mulheres

Haruki Murakami - Homens sem Mulheres - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - 240 páginas - Tradução direta do japonês por Eunice Suenaga - Lançamento no Brasil: 01/10/2015.

Sete contos inéditos no Brasil, sendo três deles já traduzidos para o inglês em 2015 e lançados em revistas literárias como a New Yorker, siga os links para conhecer: Yesterday, Sherazade e Kino. Todos os textos têm uma unidade temática que os ligam com diferentes abordagens: a solidão e o abandono do ponto de vista masculino, a dificuldade dos homens em entender e lidar com o universo feminino. Um dos personagens, por exemplo, afirma que as mulheres nascem com uma espécie de órgão independente especial para mentir, principalmente para assuntos importantes e são capazes de não alterar a expressão do rosto nem o tom de voz nesse momento. É claro que nem todas as narrativas têm este foco, de certa forma, "machista". De qualquer forma, uma característica comum e marcante de todos os contos é que, normalmente, há sempre o elemento da traição feminina, algumas vezes conhecida e consentida pelo parceiro, fazendo aumentar ainda mais a solidão e sofrimento desses tristes homens sem mulheres. Os fãs do autor encontrarão novamente as já tradicionais referências ao mundo ocidental, principalmente nas influências literárias. Um dos contos, Samsa apaixonado, é uma criativa fábula com base no clássico de Franz Kafka, Metamorfose, ao inverso, um inseto se transformando em homem. Sem falar na presença da música clássica, jazz e rock e, é claro, os misteriosos gatos, sempre uma participação garantida em seus romances e contos.

Em Drive my car, Kafuku, ator viúvo de meia idade, contrata os serviços de Misaki, uma motorista que acaba se transformando em excelente e silenciosa ouvinte de sua história. É claro que Murakami não se limitaria a imaginar um simples carro japonês ou outro modelo mais caro e sofisticado, contudo sem muita imaginação, como um Porsche ou BMW. O protagonista é dono de um SAAB 900 amarelo conversível com transmissão manual, bem a cara de Murakami não é mesmo? Um dia, em um congestionamento na Via Expressa Metropolitana de Tóquio, Kafuku conta como conheceu propositalmente o último amante da sua falecida mulher para tentar entender por que ela precisava traí-lo. Durante os vinte anos de casamento ele nunca revelou que conhecia as relações clandestinas da esposa que iniciaram após terem perdido um filho, contudo, ele fingia levar uma vida normal com medo de perdê-la. A busca de uma resposta é dolorosa e talvez inútil, mas ele não consegue evitar.
"No banco do passageiro, Kafuku pensava muito na sua falecida esposa. Por alguma razão, desde que Misaki começara a dirigir o seu carro, ele se lembrava da esposa com frequência. Ela também era atriz, dois anos mais nova que ele e tinha um rosto bonito (...) Kafuku amava a esposa. Sentiu uma forte atração por ela logo que a conheceu (ele tinha vinta e nove anos) e o sentimento não mudou até ela morrer (ele já estava com quarenta e nove). Enquanto foram casados, nunca dormiu com outra mulher. Não por falta de oportunidade, mas não sentiu vontade nenhuma vez. Entretanto, sua esposa dormia com outros homens de vez em quando. Kafuku ficou sabendo de quatro deles. Ela manteve relações sexuais regulares com ao menos quatro homens. É claro que sua esposa agia como se nada estivesse acontecendo, mas ele logo percebia que ela estava se entregando a outros homens, em outros lugares." (Drive my car - pág. 19)
Já no conto "Órgão independente", Tokai é um cirurgião plástico de cinquenta e dois anos de grande sucesso profissional e facilidade com as mulheres. Ele nunca desejou se casar e constituir uma família. Por este motivo sempre se envolvia com mulheres casadas ou em outros relacionamentos mais sérios. Ele nunca se incomodou pelo fato das namoradas dormirem com outros homens, pois entendia que o "corpo não passava de um objeto carnal". Tudo caminhava bem na sua vida até que ele se apaixona por uma dessas namoradas casuais, estabelecendo pela primeira vez um forte vínculo afetivo como confessa neste trecho: "Quando o coração dela se move, o meu é puxado junto. Como dois botes presos por uma corda. Mesmo querendo cortá-la, não encontro em lugar nenhum uma faca que possa fazer isso". No entanto, o desfecho deste caso não é exatamente o que se poderia chamar de um final feliz para o protagonista.
"Para Tokai, o próprio momento de dividir a mesa, tomar uma taça de vinho e aproveitar a conversa com as namoradas já representava um enorme prazer. O sexo não passava de uma 'diversão adicional', uma extensão desse momento, e não era o objetivo final. O que ele buscava acima de tudo era um contato íntimo e intelectual com mulheres atraentes. O resto era o resto. Por isso as mulheres se sentiam naturalmente atraídas por Tokai, divertiam-se sem reservas na sua companhia e, como consequência, passavam a noite com ele (...) Ele nunca se viu envolvido em um problema sério com mulheres. Não lhe agradavam conflitos emocionais complicados. Quando uma nuvem escura despontava próxima ao horizonte, ele se afastava de forma hábil e elegante, sem agravar a situação e sem magoar a namorada, na medida do possível." (Órgão independente - págs.  88 e 89)
Em "Homens sem mulheres", a narrativa é um pouco mais complexa e inicia com o protagonista sendo acordado por uma ligação na madrugada de um homem desconhecido, que dá a seguinte notícia sobre uma antiga ex-namorada: "Minha mulher se matou na quarta-feira da semana passada. Em todo o caso, achei que tinha de avisá-lo".
"E, no final das contas, ela morreu. Um telefonema no meio da noite me dá a notícia. Não sei o lugar, o meio o motivo nem o objetivo, mas de qualquer forma Eme resolveu dar fim à própria vida e conseguiu. Partiu (provavelmente) em silêncio deste mundo real (...) Com a morte dela, sinto que perdi para sempre a parte de mim que tinha catorze anos. Como a camisa aposentada de beisebol, a parte de mim que tinha catorze anos foi arrancada da minha vida pelas raízes. ela foi guardada em algum cofre robusto que foi fechado com uma chave complexa e afundado no mar." (Homens sem mulheres - pág. 230)
"Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição nem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os 'homens sem mulheres'. Em um plural infinitamente indiferente." (Homens sem mulheres - pág. 231)
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