segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Karl Ove Knausgård - A Morte do Pai

Karl Ove Knausgård - A Morte do Pai - Editora Companhia das Letras - 512 páginas - Lançamento no Brasil: 07/05/2013.

O autor norueguês Karl Ove Knausgård (pronuncia-se "quenausgorde") levou ao extremo o recurso da autoficção ao escrever um romance com base na sua própria biografia com um total de 3.500 páginas, publicado em seis volumes em sua terra natal. O fato é que a série completa ainda está em processo de tradução (no Brasil, a Editora Companhia das Letras já lançou os três primeiros volumes), mas encontrou forte identificação em leitores de todo o mundo e elogios da crítica que considerou o autor como uma espécie de Marcel Proust da era moderna. Este  "A Morte do Pai" é portanto o primeiro volume da série completa chamada de "Minha Luta" (uma provocação utilizando o mesmo título do livro de Adolf Hitler, "Mein Kampf") e, como explicitado, trata principalmente das relações e do acerto de contas com o passado, tendo como pano de fundo a morte do seu pai.

Ao misturar memorialismo com ensaio e ficção, o autor criou um estilo difícil de definir, descrições banais sobre atos do cotidiano como: comprar cigarros, preparar o café ou limpar os azulejos do banheiro, contrastam com complexas observações existenciais sobre a passagem do tempo. A abertura do romance (vamos chamá-lo de romance na falta de definição melhor) é direta e surpreendente, assim como as primeiras reflexões de Knausgård comentando justamente sobre a morte e o modo como é tratada em nossa sociedade, um exemplo claro do realismo brutal que o leitor está prestes a enfrentar nas próximas páginas e também sobre a dificuldade que terá para interromper a leitura:
"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de 'gentlemen's agreement' que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território. Por outro lado, é um processo inexorável. Bactérias, um exército delas, começam a se alastrar pelo interior do corpo sem que nada possa detê-las. Houvessem tentado apenas algumas horas antes, e teriam enfrentado uma resistência cerrada, mas agora tudo em volta está calmo, e elas avançam pelas profundezas escuras e úmidas (...) E chegam ao coração. Ele continua intacto, mas se recusa a pulsar, atividade para a qual toda a sua estrutura foi construída. É um cenário desolador e estranho, como uma fábrica que trabalhadores tivessem sido obrigados a evacuar às pressas, os veículos parados a projetar as luzes amarelas dos faróis na escuridão da floresta, os galpões abandonados, os vagões carregados sobre os trilhos, um atrás do outro, estacionados na encosta da montanha." (págs. 7 e 8)
A narrativa em primeira pessoa não é linear, o tempo presente é 2008, ano no qual Karl Ove com trinta e nove anos, casado pela segunda vez e com três filhos desta relação, relembra em uma sequência aleatória e não cronológica os eventos principais de sua vida desde os oito anos. No trecho abaixo ele discorre sobre o pacato cotidiano familiar e as dificuldades que se impõem para realizar o seu trabalho de escritor. O conflito normal sobre o que ocultar e o que revelar, principalmente em uma obra que utiliza a própria vida como matéria-prima, exige coragem e pode levar a conclusões sinceras, mas desconcertantes, como na passagem abaixo:
"A sensação de felicidade que experimento não me ocorre exatamente como um turbilhão, está mais próxima do prazer e da tranquilidade, não importa, tudo é felicidade. Em certos momentos, talvez, seja até êxtase. E isso não é o bastante? Não é o bastante? Sim, se o objetivo fosse a felicidade, seria o bastante. Mas a felicidade não é meu objetivo, jamais foi, para que vou querê-la? Tampouco a família é meu objetivo. Se fosse, poderia devotar a ela toda a minha energia, seria fantástico, não tenho dúvida (...) Faço tudo que posso pela família, é meu dever. Resistir é a única coisa que a vida me ensinou, sem jamais fazer perguntas, incendiando toda essa angústia através da escrita. Não faço a menor ideia de onde vem esse ideal e, quando o vejo diante de mim, preto no branco, acho tudo um pouco perverso: por que o dever antes da felicidade? A pergunta sobre a felicidade é banal, mas não a que se segue, a pergunta sobre o sentido. Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha." (págs. 35 e 36).
Nem todos os momentos são pesados, o período da adolescência do autor quando ele tem as primeiras experiências com garotas e forma uma banda de rock com os colegas é bastante divertido, principalmente para quem viveu aquela época ou passou por uma experiência semelhante de guitarrista frustrado (meu caso, por exemplo). Especialmente os preparativos para um show no shopping da pequena cidade, o ensaio do repertório com versões instrumentais de Smoke on the Water do Deep Purple, Paranoid do Black Sabbath, Black Magic Woman de Santana e o clássico do Police, So Lonely, que termina em um fracasso retumbante. Por sinal, a "playlist" do romance é excepcional com The Clash, Joy Division, New Order, Talking Heads, David Bowie e Velvet Underground, para citar apenas alguns exemplos.

No entanto, a morte é mesmo o assunto principal neste primeiro volume. Todos os preparativos para o funeral do pai que faleceu em decorrência do alcoolismo e o estado de destruição em que se encontra a casa em que ele morava juntamente com a avó paterna já senil. Na Noruega, os enterros ocorrem depois de uma semana do falecimento e este é o tempo que Knausgård e o irmão precisam para limpar toda a casa em uma tentativa de exorcizar o passado, lembrando de eventos da intimidade familiar, sem esconder os detalhes mais sórdidos e da influência negativa que o pai exerceu na formação dos dois. Não é um livro fácil, mas certamente está entre as melhores produções da literatura neste início do século XXI, onde o homem continua arrebatado por assuntos existenciais e ainda perplexo diante da morte.
"Agora eu via somente a ausência de vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele. Pois os seres humanos são apenas formas em meio a outras formas, as quais o mundo não cessa de reproduzir, não só naquilo que tem vida, mas também naquilo que não tem, desenhado na areia, na pedra e na água. E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão." (pág. 402)
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