terça-feira, abril 05, 2016

Marguerite Duras - O Amante

Marguerite Duras - O Amante - Editora Cosac Naify - 112 páginas - Tradução de Denise Bottman - Lançamento 2007 (Lançamento original na França em 1984).

Marguerite Duras (1914 - 1996), um dos grandes nomes do existencialismo e feminismo do século XX, expoente do movimento literário francês nouveau roman, foi agraciada com o prêmio Goncourt em 1984 por este romance que escreveu no final da carreira, já com setenta anos. Um "pequeno" livro de pouco mais de 100 páginas que se tornou fenômeno de vendas, tendo sido traduzido para 40 idiomas e adaptado para o cinema pelo diretor Jean-Jacques Annaud em 1992, com críticas não muito favoráveis da autora que já tinha as sua experiências com a criação de roteiros e direção de cinema, principalmente em "Hiroshima mon amour" (roteirista) e "India song" (diretora e roteirista).

Dois fatores originaram o sucesso de público na época para "L'amant", primeiramente o tema polêmico: uma adolescente francesa inicia precocemente a sua vida sexual com um chinês rico e mais velho e o improvável casal se relaciona durante um ano e meio de forma clandestina, mas consentida pela família da jovem (a mãe e os dois irmãos) devido às dificuldades financeiras, fato que a transforma em uma prostituta particular, na visão da própria mãe. O argumento ainda é mais forte do que o seu predecessor na literatura moderna, "Lolita", de Vladimir Nabokov, com o acréscimo dos conflitos inerentes ao preconceito racial e a relação de amor e ódio familiar. Finalmente, o caráter autobiográfico da trama, nunca integralmente confirmado ou desmentido por Marguerite Duras, também alimentou a curiosidade dos leitores, alavancando as vendas do livro em todo o mundo.

No entanto, é bom que se diga que a popularidade obtida pelo romance, transformando-o em uma espécie de best seller da época, não é compatível com a complexidade do texto. O fluxo narrativo tem diferentes pontos de vista já que a protagonista inicia o romance com o seu "rosto devastado" pelo tempo para logo em seguida apresentar a cena que funciona como eixo central de toda a narrativa: uma jovem com "quinze anos e meio" atravessa o rio Mekong em direção a Saigon em uma balsa durante um dia ensolarado na Indochina francesa (atual Vietnã), no início dos anos 30. Uma sensualidade natural emana da imagem inesquecível (certamente cinematográfica) da jovem com um vestido de seda, gasto, quase transparente e sapatos de salto alto em lamê dourado e um toque de excentricidade ao usar um chapéu masculino com as abas retas e lisas de feltro cor de rosa e uma larga fita preta, prendendo o cabelo em tranças sobre o peito.
"Quinze anos e meio. O corpo é magro, quase mirrado, seios ainda infantis, maquilada de rosa pálido e vermelho. E depois essa roupa que poderia provocar risos e da qual ninguém ri. Vejo que já está tudo ali. Está tudo ali, e nada ainda começou, vejo nos olhos, tudo já está nos olhos. Quero escrever. Já disse para minha mãe: o que eu quero é isso, escrever. Nenhuma resposta na primeira vez. E depois ela pergunta: escrever o que? Digo livros, romances. Ela diz com dureza: depois do concurso para o magistério em matemática, se quiser pode escrever, não vai mais me dizer respeito. Ela é contra, não é digno, não é trabalho, é uma piada — e me dirá mais tarde: uma ideia de criança."
A prosa de Marguerite Duras nos tira da zona de conforto, tanto devido à ausência de linearidade na técnica narrativa, que exige atenção redobrada do leitor, quanto pela morte da esperança, a marca da fatalidade com que envolve os seus personagens em situações que os levam a um destino trágico e inevitável. Assim como em "Lolita", o homem chinês de vinte e sete anos não tem a menor chance no jogo de sedução, passando rapidamente de corruptor a corrompido e ficando irremediavelmente perdido em uma paixão cega e doentia nas mãos da adolescente, ela sim a autêntica corruptora, como fica claro nos trechos abaixo. Inicialmente, em primeira pessoa, a protagonista já identifica em si mesma o desejo e, em outra parte, já oscilando para a narrativa em terceira pessoa, descreve a aproximação do homem já irremediavelmente seduzido.
"Não era preciso atrair o desejo. Ele estava em quem o despertava ou não existia. Ele já estava ali desde o primeiro olhar ou jamais teria existido. Ele era o entendimento imediato da relação de sexualidade ou não era nada. Isso, também eu soube antes da 'experiência'  (...) O homem elegante desceu da limusine, ele fuma um cigarro inglês. Olha a jovem com chapéu masculino e sapatos dourados. Aproxima-se devagar. Visivelmente intimidado. De início não sorri. De início oferece um cigarro a ela. A mão treme. Há essa diferença de raça, ele não é branco, ele deve superá-la, por isso treme. Ela lhe diz que não fuma, não, obrigada. Não diz mais nada, não diz me deixe em paz. Ele sente menos medo. E diz que parece estar sonhando. Ela não responde. Não vale a pena responder, o que responderia? Ela espera. Ele pergunta: mas de onde você é? Ela diz que é filha da diretora da escola feminina de Sadec. Ele pensa um pouco e depois diz que ouviu falar dessa senhora, a mãe, de sua falta de sorte com aquela concessão que teria comprado no Camboja, não é isso? Sim, é isso."
No Brasil, este romance foi inicialmente lançado pela Editora Nova Fronteira em 1985 com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, edição atualmente esgotada que foi relançada pela Publifolha / Globo em 2003 e, finalmente, nesta mais recente tradução de Denise Bottman pela Editora Cosac Naify em 2007, editora que, infelizmente, encerrou suas atividades no país em 2015. Vale lembrar que grande parte do acervo da Cosac Naify, inclusive este romance, ainda está disponível no site da Amazon com descontos muito convidativos, boa dica de utilidade pública para os eventuais leitores do blog.
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