sexta-feira, maio 06, 2016

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan

Enrique Vila-Matas - Ar de Dylan - Editora Cosac Naify - 320 páginas - Tradução de José Rubens Siqueira - Lançamento 2012

É bom que se diga logo de início que este não é um romance de entendimento simples ou de uma única interpretação, bem como nem um pouco fácil de se resenhar. A narrativa não segue uma estrutura linear e os personagens, a maioria deles escritores, roteiristas ou críticos literários, parece confusa em suas opções e dilemas artísticos ou pessoais. Em algumas passagens, situações absurdas e teatrais são inseridas ao texto, flertando um pouco com o movimento surrealista de André Breton ou o existencialismo de Sartre. Está sempre presente o dilema de todo autor em abandonar as "máscaras modernas" e ser "o mais autêntico possível" ou transformar-se através de múltiplos heterônimos, com mudanças de personalidade e alternando ficção e realidade. Bob Dylan funciona aqui como um símbolo das transformações, muitas vezes contraditórias, mas necessárias na busca de uma identidade que nunca se define.

O ponto de partida do romance é um convite pouco comum recebido pelo protagonista e narrador, escritor catalão de meia-idade — que bem poderia ser o próprio Vila-Matas — para participar de um congresso literário sobre o fracasso e ele logo reflete, com alguma razão, que "poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a literatura". Para confirmar a reflexão do personagem, em uma das conferências do evento, o escritor argentino Sergio Chejfec define o fracasso não como uma eventualidade literária, mas como sinônimo da literatura em geral: "O fracasso é a prefiguração natural do destino do escritor". Já o cineasta Werner Herzog confessa a sua frustração por ter fracassado em perder a própria razão com força suficiente. Enfim, já neste início, Vila-Matas deixa clara a sua opção de conduzir o romance em meio a situações reais e imaginárias, mas sempre colocando a própria literatura e a ficção em um protagonismo central de toda a trama.

Neste evento literário, uma das conferências intitulada "Teatro Verdade" é apresentada pelo jovem Vilnius Lancastre que tem uma notável semelhança física com Bob Dylan, cineasta fracassado de um único curta-metragem e filho do recém falecido escritor Juan Lancastre, Vilnius prepara não exatamente uma conferência sobre o tema do fracasso, mas sim um conto de inspiração autobiográfica sobre os seis dias posteriores à morte do pai e o estranho fenômeno que consistia na infiltração de pensamentos e lembranças dele em sua mente, além de ouvir vozes que insistem em chamá-lo de Hamlet (sempre as deliciosas referências culturais de Vila-Matas, insinuando aqui o assassinato do escritor). O difícil relacionamento familiar com a mãe também é abordado no "conto", como nesta passagem na qual ela descreve o crescente medo do falecido marido escritor diante da perda do impulso criativo:
"E a seu pai não ocorria ideia melhor, ela continuou dizendo, do que comparar seu terror ao dos trapezistas quando soltam um trapézio para alcançar outro, aquele momento no vazio. Essa insegurança, essa angústia, seu pai dizia, pareciam com o que ele sentia diante do livro que estava escrevendo, porque não sabia se ia conseguir, se não se repetiria, se estaria à altura do que conseguira anteriormente, se fracassaria depois de tantos anos sem saber o que era o fracasso. Havia tanta gente, seu pai dizia, tanta gente esperando para tomar o lugar dele, tanta gente esperando que caísse no salto entre um trapézio e outro. E ele não queria dar esse prazer aos que desejavam que fizesse alguma coisa ruim. Tudo parecia cada vez mais complicado porque dizia que, quanto mais tempo levava a pessoa trabalhando na escrita, mais compreendia como sabia muito pouco. E dizia também que ter escrito e publicado tantos livros, ter conseguido 'uma voz de muitas variantes, mas inconfundível, como Kubrik no cinema' podava sua liberdade, pois a pessoa acabava tendo medo cada vez que experimentava coisas novas, um medo cada vez maior de fracassar. Cada vez tenho mais medo, repetia e repetia, convencido de que vivia no país onde mais se castigavam os que tentavam fazer uma obra fora da tradição e do folclore nacional. Estava preocupado com o fracasso quando na realidade havia anos já que era um pobre derrotado na vida." (págs. 55 e 56)
Vilnius inicia uma relação com a bela e sensual Débora, ex-amante de seu pai, formando com ela uma espécie de sociedade artística preguiçosa com inspiração em Duchamp e Oblómov. Uma sociedade "infraleve" que passa a refletir a própria personalidade de Vilnius: "ocioso, instável, geométrico, errante, aspirante a ideólogo da apatia e volátil". Tudo isso, é claro, no cenário dos hotéis, restaurantes, bares e ruas de Barcelona.
"Vilnius e Débora tinham começado a ser uma sociedade que não se dedicava a nada de concreto, talvez porque desejasse evitar qualquer possibilidade de fracasso e talvez porque, além disso, fosse uma sociedade que se sentia atraída pelo infraleve, por todas aquelas coisas — pensemos num sabão que escorrega, por exemplo — que são, por um lado, tão indeterminadas e, por outro, tão específicas; são tudo ao mesmo tempo, como a própria vida. (...) Para eles, infraleve era o roçar de calças ao caminhar, um desenho a vapor de água, um bafejo no vidro da janela (...) Vilnius achou que Débora e ele não só podiam começar a se considerar uma sociedade infraleve, mas também que, em homenagem a Duchamp, essa sociedade podia se chamar Ar de Dylan, o que permitiria a ambos imaginar a si mesmos como uma gota de cristal que conteria a essência de sua época, o ar de seu tempo, do nosso, de um tempo ligado em arte ao mundo de Bob Dylan, criador esquivo e homem de tantos personagens e personalidades." (pág. 199)
Com o desenvolvimento do romance, identificamos também o alter ego de Vila-Matas não só no escritor de meia-idade narrador, mas também no falecido pai de Vilnius o escritor Juan Lancastre que foi um um autor prolífico e de vanguarda. A situação fica ainda mais confusa quando o escritor-narrador, que já havia decidido encerrar a sua carreira literária (arrependido de ter sido também um autor tão prolífico), é convencido por Vilnius e Débora a escrever uma falsa autobiografia de Juan Lancastre. Eu bem que avisei que não se tratava de um livro simples!
"Vim a dizer a Débora que apesar de, quando jovem, eu ter programado não ser nada prolífico, a vida tinha me levado por outros trajetos e não havia parado de escrever um livro por ano. Me arrependia de todos e esperava não ter que fazê-lo também com o último, essa biografia falsa de Lancastre na qual confiava muito porque me parecia idônea, como caída do céu ou caída de Hamlet, uma vez que ia me permitir colocar um contraponto e um fecho mordaz a toda minha obra, uma visão irônica de minha desmesurada produtividade literária. Ou não teria de contar a história de um escritor arrependido de ter sido tão prolífico que tentava deixar de escrever e, de modo fatídico, a vida real e uns maravilhosos preguiçosos impediam que o fizesse? (...) Impediam? Verdade mesmo que era necessário escrever aquele livro? Sim, era. Porque se conseguisse escrever por fim esse romance que esperava conseguir e que não havia sabido fazer em quarenta anos de profissão, poderia depois me sentir mais tranquilo quando entrasse afinal em meu duro e imperturbável período de mudez radical, de mudez severa em todos os terrenos, inclusive o conjugal." (pág. 315)
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