quinta-feira, maio 26, 2016

Mia Couto - Cada homem é uma raça

Mia Couto - Cada homem é uma raça - Editora Companhia das Letras - 200 páginas - Lançamento  no Brasil: 11/04/2013.

No momento em que desembrulho minhas lembranças dos onze contos desta coletânea, publicada originalmente em 1990, penso em escrever uma resenha que permita aos leitores sobressonhar com a parecença do texto, usando um pouco da linguagem inventada pelo moçambicano Mia Couto. Pescando uma palavra aqui e outra ali da prosa mágica do autor, tento mostrar um pedacinho do seu mar de poesia no onduralar que seus sonhos imaginadavam, mas acabo ficando imovente e receio desconseguir completar a tarefa, um verdadeiro drible nos corretores ortográficos. Contudo, nesse enquanto, vem andarilhar comigo no desfolhar das tardes e conhecer uma imagem forte da sofrência do povo africano, uma terra sem dúvida devastada pelas guerras e ganância dos colonizadores, mas onde ainda sobrevive a esperança no espírito livre do homem, pelo menos na literatura de Mia Couto.

Segundo alerta o personagem Geguê para o seu sobrinho no conto "O apocalipse privado do tio Geguê": as mulheres são muito extensas, a gente viaja-lhes, a gente sempre se perde, e é exatamente o que acontece quando a bela Zabelani, com olhos de convidar desejos, vem morar com tio e sobrinho, fugida dos terrores do campo, com os pais desaparecidos em anônimo paradeiro. É claro que não demora muito para o sobrinho se apaixonar por ela, um amor em estado de infinita chegada. Sentimos que não há como os personagens escaparem da tragédia anunciada, à medida que avançamos na trama.
"História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. (...) Nasci de ninguém, fui eu que me gravidei. Meus pais negaram a herança das suas vidas. Ainda sujo dos sangues me deixaram no mundo. Não me quiseram ver transitando de bicho para menino, ranhando babas, magro até na tosse. (...) O único que tive foi Geguê, meu tio. Foi ele que olhou meu crescimento. Só a ele devo. Ninguém mais pode contar como eu fui. Geguê é o solitário guarda dessa infinita caixa onde vou buscar meus tesouros, pedaços da minha infância." ("O apocalipse privado do tio Geguê" - pág. 29)
Uma inusitada história de amor (sempre presente nos contos de Mia Couto, apesar da crueldade da terra) acontece em "A princesa russa", onde um casal imigrado da Rússia para Moçambique vem desenterrar riquezas no negócio de exploração de uma mina de ouro. Eles encontram uma realidade ainda mais difícil do que em sua terra natal e, logo, a mulher, que não consegue se adaptar à solidão da sua nova habitação, se revolta com as condições de trabalho locais e estabelece um relacionamento de confiança com Fortin, o negro encarregado dos criados, narrador deste conto. É ele que relembra os fatos da sua vida muitos anos depois em confissão a um padre.
"Venho confessar pecados de muito tempo, sangue pisado na minha alma, tenho medo só de lembrar. Faz favor, senhor padre, me escuta devagar, tenha paciência. É uma história comprida. Como eu sempre digo: carreiro de formiga nunca termina perto. (...) O senhor talvez não conhece mas esta vila já beneficiou de outra vida. Houve os tempos em que chegava gente de muito fora. O mundo está cheio de países, a maior parte deles estrangeiros. Já encheram os céus de bandeiras, nem eu sei como os anjos podem circular sem chocarem-se nos panos. Como diz? Entrar direito na história? Sim, entro. Mas não esqueça: eu já pedi um muitozito do seu tempo. É que uma vida demora, senhor padre." ("A princesa russa" - pág. 77)
Em "O pescador cego", Mia Couto nos mostra que o barco de cada um está em seu próprio peito, conforme a epígrafe que abre o conto, baseada em um provérbio africano. Acontece em certa pescaria que Mazembe, perdido em uma tempestade sem fim e pressionado pela fome brutal, decide arrancar os próprios olhos e utilizá-los como isca, uma prova de que o juízo emagrece mais rápido que o corpo.
"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas. (...) Tudo isso escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há dessas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio." ("O pescador cego" - pág. 97)
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