quinta-feira, julho 21, 2016

Alice Munro - O amor de uma boa mulher

Alice Munro - O amor de uma boa mulher - Editora Companhia das Letras - 376 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento no Brasil: 20/05/2013.

O que eu mais gosto em Alice Munro, Nobel de Literatura 2013, é o respeito à inteligência do leitor. Ela valoriza a experiência de interpretações múltiplas de seus contos, desafiando a tarefa de elaborar uma resenha objetiva e completa, pois parece nunca repetir uma estrutura narrativa, seja através de inversões na passagem do tempo, uso de diferentes vozes ou simplesmente com inesperadas mudanças na condução da trama, os seus contos surpreendem e alcançam regiões de nossa sensibilidade com efeitos que mesmo os longos romances não conseguem obter. No entanto, precisamos pagar o preço que o entendimento de sua obra exige, ou seja, uma leitura atenta e dedicada, não só na arquitetura dos seus textos, mas também na sutileza da construção psicológica de cada personagem, sob o risco de perdermos o brilhantismo da ficção, ou o pecado de escrever uma resenha com jeito de divulgação promocional.

De forma contraditória, toda a complexidade de seus contos é normalmente derivada de protagonistas provenientes da população supostamente mais simples de pequenas cidades no interior do Canadá, distantes portanto das crises existenciais típicas de habitantes neuróticos dos grandes centros urbanos, além de reproduzirem épocas que já se tornaram remotas como a fase ingênua da recessão após a Segunda Grande Guerra nos anos cinquenta. Logo, uma realidade distante e possivelmente pouco atrativa para a nossa era contemporânea da internet, nada mais falso. A ficção de Munro alcança as camadas mais escondidas da alma, essa coisa cada vez mais difícil e que só a verdadeira literatura consegue fazer. Principalmente nos oito contos desta antologia, lançada originalmente em 1998 e vencedora do National Book Critics Circle Award do ano, cada narrativa expressa a experiência de uma protagonista feminina para ultrapassar as barreiras que a sociedade da época impunha às mulheres através do preconceito (e ainda impõe em muitos casos) impedindo-as de viver a sua plena individualidade, questões como a dificuldade de realização profissional, adultério e separação nas relações envolvendo filhos, homossexualismo e até mesmo, em casos ainda mais polêmicos, o direito ao aborto.

"O amor de uma boa mulher" empresta o título a esta antologia, sendo o primeiro e longo conto de abertura, dividido em quatro partes, um excelente exemplo do estilo de Munro. Na primeira parte, um grupo de meninos descobre em uma manhã de sábado de 1951 um carro no fundo de uma represa abandonada, através de "um brilho azul-claro na água que não era um reflexo do céu", onde costumavam ir para nadar. Eles reconhecem o carro e o corpo em seu interior como sendo do optometrista da pequena cidade em que moravam. Até o final desta parte cada um dos três meninos, suas famílias e impressões sobre o ocorrido são detalhadas pela autora. Somente na segunda parte a verdadeira protagonista é apresentada, Enid que atendeu ao último pedido do pai de não concluir o curso de enfermagem, pois ele tinha a ideia preconceituosa de que esta profissão a transformaria em uma mulher vulgar devido à "familiaridade que as enfermeiras passam a ter com o corpo dos homens"

Afinal, exercer uma profissão, seja ela qual fosse, era considerado na época como "um infortúnio resultante da viuvez ou, pior, da inépcia de um marido vivo". De qualquer forma, após a morte do pai, Enid passa a acompanhar pacientes moribundos e desenganados em seus últimos momentos, morando em suas próprias casas, juntamente com as famílias. Enid é descrita como um modelo de virtude e abnegação até que na terceira e quarta partes, a história passa a fazer sentido como um todo, devido a um segredo que ela escuta da sra. Quinn, uma de suas pacientes terminais, que irá mudar o seu comportamento e guiar o conto para uma conclusão magistral.
"Enid dormia num sofá no quarto da sra. Quinn. A coceira devastadora da enferma desaparecera quase por completo, assim como a necessidade de urinar. Ela dormia durante a maior parte da noite, embora em alguns períodos respirasse de forma áspera e raivosa. O que despertava Enid e a mantinha acordada era um problema que só tinha a ver com ela própria. Começara a ter sonhos ruins. Eram diferentes de qualquer sonho que havia tido no passado. Ela costumava pensar que um mau sonho era se ver numa casa estranha onde os quartos mudassem todo o tempo e o trabalho a fazer estivesse acima de sua capacidade, tarefas a cumprir que imaginara já cumpridas, distrações inumeráveis. E, naturalmente, também tinha tido sonhos que caracterizava como românticos, nos quais algum homem passava o braço em volta de seu ombro ou mesmo a abraçava. Podia ser alguém conhecido ou não — às vezes um homem que só como piada poderia estar numa situação daquelas. Esses sonhos a deixavam pensativa ou um pouco triste, porém de certa forma aliviada por saber que tais sentimentos eram possíveis para ela. Podiam ser embaraçosos, mas não eram nada, absolutamente nada, quando comparados com os sonhos que tinha agora. Nestes, ela copulava ou tentava copular (às vezes impedida por intrusos ou mudanças das circunstâncias) com parceiros totalmente proibidos ou impensáveis. Com bebês gordos e hiperativos, ou pacientes envoltos em bandagens, ou com sua própria mãe. A lascívia a deixava molhada, oca, gemendo de desejo, e ela buscava se aliviar com rispidez e com uma atitude de pragmatismo malévolo. 'É vai ter que ser assim', ela dizia a si mesma. 'Vai ter que ser assim se não aparecer nada melhor.' E essa frieza do coração, essa depravação prosaica, simplesmente estimulava sua libido. Acordava sem sentir nenhum arrependimento, mas, suada e exausta, lá ficava como uma carcaça até que seu próprio eu, sua vergonha e sua descrença refluíssem para dentro dela. O suor esfriava sobre a pele. Permanecia deitada, tremendo na noite quente, sentindo repugnância e humilhação. Não ousava voltar a dormir. Acostumou-se ao escuro e aos compridos retângulos das janelas com cortinas de voal através das quais penetrava uma luz tênue. Enquanto a enervante respiração da enferma soava como uma reprimenda, e depois quase desaparecia." (págs. 62 e 63)
Em "As crianças ficam" a autora acompanha o desenvolvimento de um caso de adultério sob a ótica da protagonista, uma mãe de duas filhas que decide abandonar tudo para ficar com o amante, o diretor de uma montagem teatral amadora de Orfeu e Eurídice na qual ela decide participar, incentivada pelo próprio marido. Em um dia de chuva, ela caminha sozinha pensando nos efeitos de sua escolha, principalmente o fato de que não poderá ficar com as duas filhas pequenas, uma dor aguda que ela entende que se tornará crônica com o tempo, significando que "será permanente, mas talvez não constante", que "não a sentirá a cada minuto, mas não passará muitos dias sem senti-la". Poderá haver, à partir deste dia, algum alívio  ou um improvável perdão das filhas para essa mulher?
"O que ela estava fazendo era alguma coisa sobre a qual já ouvira falar e já lera. O que Ana Karênina tinha feito e Madame Bovary tinha desejado fazer. O que uma professora, colega de Brian, tinha feito com o secretário de escola. Fugido com ele. Era assim que se dizia: fugir com alguém. Dar no pé. Algo mencionado em tom cômico ou depreciativo, se não com inveja. Era o adultério elevado ao grau máximo. Os casais que o faziam quase certamente já eram amantes, sendo adúlteros por bastante tempo antes de se tornarem suficientemente desesperados ou corajosos para dar aquele passo. Raras vezes um casal podia alegar que o amor não tinha sido consumado e era tecnicamente puro, porém essas pessoas, se alguém acreditasse nelas, seriam vistas não apenas como muito sérias e virtuosas, mas quase devastadoramente imprudentes. Comparáveis na prática àquelas que se arriscam e abrem mão de tudo para ir trabalhar num país pobre e perigoso. (...) Os outros, os adúlteros, eram considerados irresponsáveis, imaturos, egoístas ou mesmo cruéis. Felizardos, também. Felizardos porque eram com certeza esplêndidas as relações sexuais que vinham tendo em carros estacionados, campos verdejantes, leitos conjugais maculados ou, mais provavelmente, motéis como aquele. Caso contrário, não teriam tamanho desejo pela companhia do outro a todo custo, ou tamanha fé de que o futuro que compartilhariam seria muito melhor e diferente de tudo que haviam conhecido no passado." (págs. 230 e 231)
Já no difícil e perturbador "Antes da mudança", a protagonista escreve uma longa carta para o seu ex-namorado sobre o período de convivência com o pai em sua clínica, na qual ele atende mulheres que decidem fazer um aborto, tema espinhoso e difícil de tratar, principalmente quando Munro nos coloca ao lado da protagonista que acaba fazendo o papel de assistente durante uma dessas sessões clandestinas. O seu passado será introduzido aos poucos até ficar claro em uma conversa final com o pai que encerra o conto. Impossível não ficar sensibilizado com esta narrativa, sendo homem ou mulher.
"Eu estava pensando em dizer alguma coisa que pudesse lhe trazer alívio ou distraí-la. Podia ver agora o que meu pai estava fazendo. Dispostas sobre uma toalha branca, na mesa ao seu lado, havia diversas hastes, todas com o mesmo comprimento mas com diâmetros crescentes. Eram usadas, uma após a outra, para abrir e alargar o colo do útero. De onde me encontrava, atrás da barreira feita pelo lençol sobre os joelhos da moça, não era capaz de acompanhar o progresso invasivo daqueles instrumentos. No entanto, podia senti-lo através das ondas de dor que se sucediam em seu corpo que, sufocando os espasmos de apreensão, a faziam de fato ficar mais imóvel." (pág. 302)
Como acontece com toda grande obra de ficção, os contos de Alice Munro permanecem em nosso inconsciente, transformando-se e ganhando novos sentidos à medida que a nossa experiência de vida avança, em alguns casos nos incomodam sem sabermos exatamente o motivo, talvez porque reflitam algum sentimento que está cuidadosamente escondido dentro de nós mesmos.
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