quinta-feira, julho 28, 2016

Svetlana Aleksiévitch - A guerra não tem rosto de mulher

Svetlana Aleksiévitch - A guerra não tem rosto de mulher - Editora Companhia das Letras - 392 páginas - Tradução direta do russo de Cecília Rosas - Lançamento no Brasil: 17/06/2016.

Uma frase famosa, atribuída a George Orwell, nos ensina que: “A história é escrita pelos vencedores”, é verdade, mas também sempre por homens e sobre os homens. Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura 2015, tentou resgatar o testemunho das vozes femininas, através de depoimentos de soldadas soviéticas que lutaram na Segunda Grande Guerra, e não somente como enfermeiras, uma versão mais tradicional da participação feminina em guerras, mas sim atuando na resistência e na frente de batalha,  como franco-atiradoras, pilotando tanques e até mesmo aviões de combate. Estima-se que no Exército Vermelho lutaram aproximadamente 1 milhão de mulheres. Para elas, havia não somente o medo de morrer, mas a angústia de precisar matar e destruir, nada mais contrário à essência de criação da mulher, a própria geradora da vida.

No entanto, durante sete anos, dezenas de viagens e centenas de fitas gravadas, Svetlana Aleksiévitch não escreveu um livro somente sobre a guerra, mas principalmente sobre o comportamento do ser humano na guerra, ela se define como uma "historiadora da alma", perseguindo não "os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano". Ela tentou entender "qual a diferença entre morte e assassinato e onde está a fronteira entre o humano e o desumano. Como uma pessoa fica a sós com essa ideia de que pode matar outra?" Um livro que poderia ser classificado como jornalismo, já que é baseado em entrevistas com as ex-combatentes, mas assim como "Vozes de Tchernóbil" eleva-se à categoria da mais pura e fascinante literatura.
"Certa vez, uma mulher que havia sido piloto recusou-se a se encontrar comigo. Por telefone, explicou: 'Não posso... Não quero lembrar. Passei três anos na guerra... E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita... Quando meu futuro marido me pediu em casamento... Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag... Ele disse: 'A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo'. Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele! Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso — casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos... Olhe para mim... Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher: me dê flores, flerte comigo, diga palavras bonitas. Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele... Queria bater... Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes... E eu mesma não acreditei que estava dizendo: 'Sim, eu me caso com você'". O ser humano é maior que a guerra - Diário do Livro 1979 - 1985 (pág. 16)
Em cada entrevista, a autora notava estar diante de duas pessoas bem diferentes, uma jovem e idealista que existia durante a guerra e outra velha e desiludida que muitas vezes tentava esquecer o passado. A necessidade de esquecer não representava somente uma defesa psicológica contra o sofrimento, mas também uma tentativa de adaptação à vida "normal" uma forma de escapar ao preconceito cruel da sociedade da época que não aceitava que aquelas jovens que passaram por tantos horrores pudessem casar e ter filhos, simplesmente como as outras mulheres. Portanto, no retorno à casa (quando conseguiam retornar) tinham que conviver para sempre com duas realidades. "Dois mundos diferentes, duas vidas diferentes. Depois de aprender a odiar, era preciso aprender a amar de novo. Lembrar dos sentimentos esquecidos. De palavras esquecidas."
"Os combates eram duros. Estive em confrontos corpo a corpo... É um horror... Não é para um ser humano... Batem, enfiam a baioneta, enforcam-se uns aos outros. Os ossos se quebram. Urros, gritos. Gemidos. E aquele estalo! Não dá para esquecer. O estalo dos ossos... A gente escuta o crânio estalando. Rachando... Até para a guerra isso é um pesadelo, não tem nada de humano aí. (...) Logo depois de um ataque, era melhor não olhar para o rosto de ninguém: parecia outro, não era o rosto habitual das pessoas. Não conseguíamos erguer os olhos uns para os outros. Nem para as árvores olhávamos. (...) Voltei da guerra e fiquei bastante doente. Passei muito tempo indo de um hospital a outro, até que fui parar nas mãos de um velho professor. Ele passou a cuidar do meu tratamento... Tratou de mim mais com palavras do que com remédios, me explicou qual era minha doença. Disse que, se eu tivesse ido para o front com dezoito, dezenove anos, meu organismo já estaria fortalecido, mas como fui parar lá com dezesseis — é muito cedo —, fiquei fortemente traumatizada. 'Claro, uma coisa é tomar remédios', ele explicou, 'isso pode curar você, mas se quiser recuperar a saúde, se quiser viver, meu único conselho é: case e tenha muitos filhos. Só isso pode te salvar. A cada filho o organismo vai se restabelecendo.'" Entrevista com Olga Iákovlevna Oméltchenko, enfermeira-instrutora de uma companhia de fuzileiros (págs. 180 - 189)
Como sabemos e constatamos mais uma vez com este grande livro, a realidade pode exceder a ficção mais delirante. É o que sentimos ao ler os depoimentos dessas mulheres e suas histórias de vida e superação, muita dor e sofrimento, mas também esperança de que o ser humano possa um dia aprender que "não pode existir um coração para odiar e outro para amar", o coração deve ser um só.
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