quinta-feira, agosto 04, 2016

Elena Ferrante - A amiga genial

Elena Ferrante - A amiga genial: infância, adolescência - Série Napolitana, primeiro romance - Editora Globo, Biblioteca Azul - 336 páginas - Tradução: Maurício Santana Dias - Lançamento no Brasil 26/05/2015.

O preconceito é mesmo uma coisa terrível e preciso admitir que mantive uma certa má vontade com relação a este livro durante um bom tempo. Em parte devido ao estrondoso sucesso de vendas na Itália e em todo o mundo, me fazendo compará-lo com outros best sellers do passado que sempre me mostraram o quanto as grandes vendas nem sempre representam uma garantia de qualidade literária. Um pouco também pela duvidosa estratégia de marketing da autora em manter a sua identidade em segredo através do pseudônimo de Elena Ferrante — existia inclusive na Itália a suspeita de que fosse um homem — concedendo raras entrevistas apenas por e-mail e mediadas por suas editoras (leia aqui a mais recente para a prestigiada revista New Yorker). Finalmente, vejam vocês o que é o preconceito, até mesmo o projeto gráfico apelativo das capas de seus romances (no Brasil e em outros países) identificando-o a um público mais juvenil, uma espécie de livro para moças moderno. Tudo isso me fazia postergar a leitura de Elena Ferrante. No entanto, após conhecer algumas resenhas elogiosas independentes, não apenas de divulgação publicitária e, principalmente, o fato da autora ter sido finalista da versão internacional do Man Booker Prize de 2016, ao lado de nomes consagrados como José Eduardo Agualusa, Orhan Pamuk e até mesmo Raduan Nassar, decidi dar uma olhada mais de perto no seu trabalho e não consegui parar de ler "A amiga genial", muito bom mesmo.

Trata-se do primeiro volume de uma ambiciosa tetralogia sobre a amizade de duas personagens, Elena Greco e Lila Cerullo, que nasceram em 1944 e cresceram juntas em um subúrbio de Nápoles. As duas têm personalidades bem contrastantes, enquanto Elena na infância era uma "bonita menina de caracóis louros" que gostava de se exibir e conquistar as pessoas por sua delicadeza, Lila estava "sempre desgrenhada, suja com cascas de ferida nos joelhos e cotovelos que nunca saravam", mas Lila tinha uma inteligência muito superior à das outras colegas de escola, inclusive Elena que se esforçava sempre para superá-la. No entanto, uma característica as aproximava, o amor pelos livros e a aspiração de se tornarem escritoras, um sonho incompatível com a realidade das meninas, cercadas de ignorância e preconceito em um ambiente de pobreza no pós-guerra da Itália dos anos cinquenta. Os outros muitos personagens são os moradores da vizinhança: a família do marceneiro, da viúva louca, do verdureiro, a família Solara proprietária do bar e confeitaria, todos representando uma amostra da sociedade da época que oscilava entre o fascismo, o comunismo e a temida máfia italiana, a Camorra.
"Não tenho saudade de nossa infância cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, dentro e fora de casa, todos os dias, mas não me lembro de jamais ter pensado que a vida que nos coubera fosse particularmente ruim. A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós. Claro, eu teria gostado dos modos gentis que a professora e o pároco defendiam, mas sentia que aqueles modos não eram adequados a nosso bairro, mesmo para quem era do sexo feminino. As mulheres brigavam entre si mais do que os homens, se pegavam pelos cabelos, se machucavam. Fazer mal era uma doença. Desde menina imaginei animaizinhos minúsculos, quase invisíveis, que vinham de noite ao bairro, saíam dos poços, dos vagões de trem abandonados para lá da plataforma, do mato malcheiroso chamado fedentina, das rãs, das salamandras, das moscas, das pedras, da terra e entravam na água, na comida e no ar, deixando nossas mães e avós raivosas como cadelas sedentas. Estavam mais contaminadas que os homens, porque estes ficavam furiosos continuamente, mas no fim se acalmavam, ao passo que as mulheres, que eram aparentemente silenciosas, conciliadoras, quando se enfureciam iam até o fundo de sua raiva, sem jamais parar." (págs. 29 - 30)
Neste primeiro romance da série, a narrativa é totalmente desenvolvida em primeira pessoa por Elena Greco que conta em retrospecto e de forma linear toda a trajetória de vida das amigas e do bairro onde moravam em Nápoles, durante a infância e parte da adolescência, à partir de um gancho que ocorre no presente, o misterioso desaparecimento de Lila. Com a passagem do tempo, ocorrem períodos de afastamento e novas aproximações. As meninas se separam logo após o ensino básico fundamental porque a família de Lila não tem recursos para mantê-la no ginásio. Elena, apesar de também ser muito pobre, consegue continuar estudando, uma forma de possível ascensão social na época. Neste período, enquanto Elena sofre com as inseguranças da idade, como espinhas e aversão ao próprio corpo, Lila passa por uma transformação inversa, ganhando formas de mulher e se tornando uma jovem atraente e desejada por todos os rapazes da vizinhança. Esta inversão de papéis acontece todo o tempo durante o romance, alternando momentos de felicidade e sofrimento das duas amigas, sempre com uma visão feminina e mostrando as barreiras impostas às mulheres em uma sociedade com códigos masculinos.
"Nos primeiros meses vivi minha nova vida escolar em silêncio, os dedos sempre na testa e nas faces devastadas de acnes. Sentada numa das filas do fundo, de onde mal enxergava os professores e o que eles escreviam na lousa, eu era uma desconhecida para minha colega de banco, assim como ela era desconhecida para mim. Graças à professora Oliviero tive logo os livros de que precisava, sujos, usadíssimos. Impus-me uma disciplina aprendida na escola média: estudava a tarde toda até a hora do jantar e, depois, das cinco da manhã às sete, quando era a hora de ir. Na saída de casa, carregada de livros, frequentemente me acontecia de encontrar Lila, que corria à sapataria para abrir a loja, onde varria, lavava e arrumava tudo antes de o pai e o irmão chegarem. Ela me perguntava sobre as matérias que eu veria naquele dia, sobre o que eu tinha estudado, e queria respostas precisas. Se eu deixasse de responder direito, ela me cumulava de questões que me angustiavam por talvez não ter estudado o suficiente, por não ser capaz de responder aos professores assim como não era capaz de responder a ela. Em certas manhãs frias, quando me levantava ao alvorecer e repassava as lições na cozinha, tinha a impressão de que, como sempre, eu estava sacrificando o sono quente e profundo da manhã para fazer bonito diante da filha do sapateiro, e não com os professores da escola dos ricos. Até o café da manhã era apressado por culpa dela. Engolia o café com leite e corria para a rua só para não perder nem um metro do trajeto que fazíamos juntas." (págs. 150 - 151)
Não é fácil resumir e escolher apenas algumas partes para destacar, tantas são as reviravoltas da trama e a quantidade de personagens. Neste caso ajuda muito a pequena lista com o resumo das famílias no início do volume. Outra dificuldade da resenha é indicar um autor contemporâneo de estilo similar, sinceramente não consegui encontrar nenhum na atualidade. Uma coisa é certa, o bom e velho romance clássico de formação está de volta com Elena Ferrante, seja ela quem for. Um livro muito bem escrito e difícil de largar até o final. No meu caso não tive outra alternativa que não fosse mergulhar na segunda parte desta "Série Napolitana", já traduzido e publicado no Brasil como "História do novo sobrenome".
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