terça-feira, agosto 16, 2016

Elena Ferrante - História do novo sobrenome

Elena Ferrante - História do novo sobrenome: juventude - Série Napolitana, segundo romance - Editora Globo, Biblioteca Azul - 472 páginas - Tradução: Maurício Santana Dias - Lançamento no Brasil 06/04/2016.

Este segundo volume da série napolitana se enquadra perfeitamente naquele tipo de livro que relutamos em interromper a leitura e que nos faz avançar de capítulo em capítulo, madrugada a dentro, sem conseguir parar mas, ao mesmo tempo, com pena quando chegamos ao final. As amigas e personagens principais, Lila e Lenu, continuam a sua difícil jornada de amadurecimento à partir de uma sociedade regida pela pobreza, violência e códigos masculinos. O final do primeiro volume coincide com o casamento da rebelde e brilhante Lila, um casamento sem paixão, mas que oferecia a promessa de uma vida mais confortável já que a família do noivo, Stefano Carracci, tinha uma posição de destaque no comércio do bairro e uma condição financeira invejável, apesar da origem duvidosa. Lila logo irá descobrir (na noite de núpcias) que terá de pagar um preço muito alto ao abrir mão de seus sonhos da adolescência de continuar os estudos. Já Elena Greco, ou Lenu, como é chamada no bairro, consegue persistir em seus estudos o que acabará funcionando como um processo de transformação e libertação da personagem na sua aspiração de se tornar uma escritora famosa (me pergunto o quanto de autobiográfico a misteriosa Elena Ferrante terá inserido neste romance, ainda superior ao primeiro da série).

"História do novo sobrenome" cobre o período de juventude das duas protagonistas dos dezessete até os vinte e dois anos. A narrativa é mais uma vez feita em primeira pessoa por Lenu de forma retrospectiva à partir de suas lembranças e, no caso das partes de Lila, com base em cadernos escritos por ela neste período (ver trecho abaixo), como se fossem diários, uma fórmula que permite uma certa onisciência e onipresença à narradora, mantendo a fórmula da primeira pessoa o que sempre garante um teor confessional e de maior credibilidade ao texto, principalmente para o público feminino que certamente se identificará com alguns trechos. Desta forma, mesmo quando as duas estão afastadas ficamos conhecendo em detalhes os conflitos de Lila no casamento e as suas ações de contestação. Mais do que em outros romances, é preciso muito cuidado para não introduzir spoilers em uma resenha sobre esta autora e assim estragar o prazer de descoberta do leitor na fluência do texto e reviravoltas da trama.
"Na primavera de 1966, em um estado de grande agitação, Lila me confiou uma caixa de metal que continha oito cadernos. Disse que não podia mais guardá-los em casa, temia que o marido pudesse lê-los. Levei a caixa comigo sem fazer comentários, afora uma menção irônica ao excesso de barbante com que o atara. Naquela fase, nossas relações estavam péssimas, mas parecia que essa impressão era apenas minha. (...) Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei. Mas assim que me vi no trem, desatei o barbante, tirei os cadernos da caixa e comecei a ler. Não era um diário, embora ali figurassem relatos minuciosos de fatos de sua vida a partir do final da escola fundamental. Mais parecia o rastro de uma teimosa autodisciplina de escrita. As descrições abundavam: um galho de árvore, os pântanos, uma pedra, uma folha de nervuras brancas, as panelas de casa, as várias peças da maquininha de café, o braseiro, o carvão e o atiçador, um mapa detalhadíssimo do pátio, o estradão, o esqueleto de metal enferrujado além dos pântanos, os jardinzinhos e a igreja, o corte da vegetação à beira da ferrovia, os edifícios novos, a casa dos pais, os instrumentos que o pai e o irmão usavam para consertar sapatos, seus gestos quando trabalhavam, sobretudo as cores, as cores de cada coisa em diversas fases do dia. Mas não havia apenas frases descritivas. Aqui e ali surgiam palavras isoladas em napolitano e italiano, às vezes contornadas por um círculo, sem comentário. E exercícios de tradução do latim e do grego. E trechos inteiros em inglês sobre as lojas do bairro, as mercadorias, o carreto lotado de frutas e verduras que Enzo Scanno levava de rua em rua todos os dias, puxando o burro pelo cabresto." (págs. 11 e 12)
Temas da época do pós-guerra com relação à política interna italiana e internacional são abordados pela autora como parte do processo de formação intelectual de Lenu. Principalmente a influência do fascismo e comunismo nas desigualdades e transformações da sociedade napolitana. Mas o melhor do texto está mesmo na caracterização das personagens e a sua adaptação (ou fuga) ao meio social em que vivem, um bom exemplo é a tentativa de Lenu de esconder o seu dialeto napolitano e a forma de falar nos ambientes acadêmicos em que passa a circular em Pisa, longe de Nápoles. A lenta transformação das mulheres "consumidas pelo corpo dos maridos" por conta de uma cultura machista e do conformismo das próprias mulheres também é, mais uma vez, um ponto de destaque no texto de Elena Ferrante.
"Naquela ocasião, ao contrário, vi nitidamente as mães de família do bairro velho. Eram nervosas, eram aquiescentes. Silenciavam de lábios cerrados e ombros curvos ou gritavam insultos terríveis aos filhos que as atormentavam. Arrastavam-se magérrimas, com as faces e os olhos encavados, ou com traseiros largos, tornozelos inchados, as sacolas de compra, os meninos pequenos que se agarravam às suas saias ou que queriam ser levados no colo. E, meu Deus, tinham dez, no máximo vinte anos a mais do que eu. No entanto pareciam ter perdido os atributos femininos aos quais nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com as roupas, com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com o trabalho doméstico? Com as gestações? Com os espancamentos?" (pág. 99)
As amigas dividem a mesma paixão pelo jovem Nino Sarratore em uma continuação das rivalidades entre as duas que vem desde a infância, pois ele é filho de Donato Sarratore, ferroviário, poeta, jornalista e mulherengo, que morava no mesmo bairro de Nápoles antes da divulgação de um escândalo envolvendo a relação que mantinha com a amante vizinha, fato que o forçou a se mudar com toda a família. Nino, que tem um papel fundamental em boa parte do romance, volta a se encontrar com Lila e Lenu durante um verão nas praias de Ischia, uma época intensa que marcará o final da ingenuidade da juventude, afetando as suas vidas para sempre. 
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