sábado, setembro 03, 2016

Michel Ciment - Conversas com Kubrick

Michel Ciment - Conversas com Kubrick - Editora Cosac Naify - 384 páginas - tradução de Eloisa Araújo Ribeiro -  prefácio de Martin Scorsese - lançamento no Brasil em 2013.

Uma biografia à altura de um dos cineastas mais polêmicos do século XX. Stanley Kubrick (1928 - 1999) foi o diretor que melhor soube transpor a difícil barreira que separa a literatura e o cinema, mesmo tendo descrito seus filmes como "uma experiência não verbal". Considerado pelos profissionais da área como um grande perfeccionista, Kubrick, assim como outros nomes do nível de Charlie Chaplin, Orson Welles, Robert Altman e Alfred Hitchcock, nunca foi agraciado com o Oscar de melhor diretor. Talvez a razão para isso esteja neste trecho do belo prefácio de Martin Scorsese: "Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encará-la." Talvez, este "choque com a verdade" citado por Scorsese justifique o fato de cada um dos seus treze filmes ter sido recebido com reservas por boa parte da crítica especializada, principalmente Lolita, Laranja mecânica, 2001 e O iluminado. Hoje, todos os seus longas-metragens são considerados clássicos, mas ainda surpreendem as novas gerações de espectadores e inspiram roteiristas, diretores e produtores.
"Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente: o itinerário do menino percorrendo os intermináveis corredores do hotel em seu velocípede em O iluminado; o silêncio monumental do vazio sideral em 2001: Uma odisseia no espaço; o ritmo inumano da primeira metade de Nascido para matar [Full Metal Jacket], que vai crescendo até sua resolução lógica e sangrenta; a espetacular sala de guerra de Dr. Fantástico [Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb], a um só tempo aterrorizante e cômica; o futuro brutalmente pop de Laranja mecânica [A Clockwork Orange]; a intimidade crua dos diálogos entre Tom Cruise e Nicole Kidman em De olhos bem fechados." - Trecho do prefácio de Martin Scorsese (pág. 20)
Stanley Kubrick não costumava conceder muitas entrevistas o que aumentava o mistério em torno de seus filmes. Cada lançamento era precedido de muita expectativa porque, devido à tradição de originalidade do diretor, esperava-se sempre uma realização completamente diferente da anterior. No entanto, Michel Ciment tenta com este livro provar que existe uma "assinatura" que marca uma individualidade e coerência "difícil de ser elucidada devido à abundância e à diversidade das pesquisas formais e ao recurso à adaptação de obras literárias". De qualquer forma, cada produção dele é única, não existe outro filme mais violento do que "Laranja mecânica" ou terror psicológico mais intenso, imortalizado pela atuação de Jack Nicholson, como em "O Iluminado", nem tampouco algo parecido na história do cinema com "2001: Uma odisseia no espaço", que certamente não pode ser classificado simplesmente como ficção científica.
"Para mim, o mais difícil é encontrar uma história. É bem mais difícil do que arranjar dinheiro, escrever o roteiro, rodar o filme, montá-lo etc. O fato de cada um de meus três últimos filmes ter me tomado uns cinco anos vem do tempo considerável que levei para encontrar uma história que valesse a pena. Como nunca escrevi roteiro original, todos os filmes que fiz têm por origem a leitura de um livro. Sempre tenho dúvidas quando um livro me parece evidente para ser levado à tela. Em geral isso quer dizer que ele lembra demais outro filme, que sua mente reage muito facilmente e que é muito fácil saber como fazer um filme dele. Nunca tive a chance de encontrar uma história no momento em que terminava de fazer um filme. Acho que o prazo mais curto antes de encontrar um tema foi de um ano. Não há método sistemático que funcione. É como procurar alguém por quem se apaixonar. Não há muito o que fazer a não ser ficar com os olhos bem abertos." - Stanley Kubrick sobre "Nascido para Matar" (pág. 213)
As pesquisas que antecediam os filmes de Kubrick podiam levar muitos meses, desde a preparação do roteiro até a busca por locações, assim como os prazos dilatados de produção devido à sua obsessão com a análise, planejamento e execução de todos os detalhes (sempre foi, desde a adolescência, um grande jogador de xadrez). Em "O iluminado", por exemplo, foram fabricadas maquetes para cada quarto de hotel, porque Kubrick queria que ele ficasse parecido com um hotel de verdade para fugir do clichê de hotel mal-assombrado, tudo isso aumentava muito o tempo entre os lançamentos (doze anos entre "Nascido para matar" e "De olhos bem fechados", sua última obra, cuja estreia ocorreu pouco depois da morte do cineasta), fazendo com que a sua filmografia acabasse se tornando relativamente reduzida, apenas treze longas-metragens para cinquenta anos de carreira. 

    Fear and Desire [1953]
    Killer´s Kiss (A morte passou por perto) [1955]
    The Killing (O grande golpe) [1956]
    Paths of Glory (Glória feita de sangue) [1958]
    Spartacus [1960]
    Lolita [1962]
    Dr. Strangelove (Dr. Fantástico) [1963]
    2001: A Space Odyssey (2001: Uma odisseia no espaço) [1968]
    A Clockwork Orange (Laranja mecânica) [1971]
    Barry Lindon [1975]
    Shining (O iluminado) [1980]
    Full Metal Jacket (Nascido para matar) [1987]
    Eyes Wide Shut (De olhos bem fechados) [1999]

O título do livro, "Conversas com Kubrick", sugere que o mesmo seja formado apenas por entrevistas, mas na verdade é constituído também por ficha técnica da filmografia completa, bibliografia, índice remissivo e depoimentos de diretores de arte, roteiristas, figurinistas e atores que trabalharam em seus filmes, tais como: Malcolm McDowell (Laranja Mecânica), Marisa Berenson (Barry Lindon), Jack Nicholson e Shelley Duvall (O iluminado). Mais do que uma simples biografia, indispensável para entender melhor a história do cinema e do nosso tempo.
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